quarta-feira, 29 de junho de 2016

"UMA CONVERSÃO" e "AFONSO CELSO", por Prof. Domingos Horta


I. TEXTOS DO PROF. DOMINGOS HORTA ¹, diretor de O Porvir, órgão oficial do Gymnasio Santo Antonio de São João del-Rei
Domingos Horta (Itabira, 1904-São João del-Rei, 1967) - Crédito pela imagem: Colégio Nossa Senhora das Dores, quadro de formatura de normalistas em 1958

                                     UMA CONVERSÃO


Por Domingos Horta


Não é preciso muito tino para o observador verificar que o Brasil vai, aos pouco e pouco, recebendo os influxos espirituais que, neste século, a despeito do mal-estar geral, ou talvez por isso mesmo, triunfarão, certamente, na consciência dos povos civilizados.

A nossa Pátria volta a espiritualizar-se. Há um renascimento religioso, falando eloquentemente no senso das massas populares e na inteligência das élites do país.

Nota-se o despertar do gôsto pelas leituras bôas e substanciosas. O brasileiro vai perdendo o mêdo de mostrar-se tal qual é: crente, virtuoso e reverente a Deus.

A Ação Católica, num trabalho construtor e pleno de benemerência, está tomando conta da alma de nossa gente, despertando-a para o Cristo, centro único da felicidade.

E o nosso povo, com os intelectuais à vanguarda, reflete finalmente; raciocina e conclue com acêrto que a Verdade está só no Cristo.

E daí essa esplêndida volta ao Cristo.

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Ontem era Paulo Setúbal, o elegante escritor paulista.

No seu Confiteor obra de pensador e de artista conta-nos êle o seu grande drama, a sua luta interior prenunciadora do aparecimento do Cristo em sua vida.

Outra estrada de Damasco. Outro Saulo que se transforma em Paulo... êste, porém, Paulo Setúbal...

Hoje é Otávio Mangabeira ², brilhante orador, membro da Academia Brasileira de Letras e ex-político, que se aproxima do Cristo, do qual estivera afastado desde a meninice.

Espírito perscrutador, pôs-se a analisar os fenômenos da Vida e a sua inteligência foi se aclarando: "À medida que o homem ainda na expressão dos mais insignes que a história tem notícia diminuía de proporções aos meus olhos, tais as fraquezas de que se ressente, uma grande figura sem par me ia, cada vez mais, enchendo o coração: Jesus Cristo".

Estudioso e, principalmente, interessado em encontrar a Verdade, corre atrás dela. Lê muito. Devora bibliotecas. Um dia, inicia a leitura dos Evangelhos.

"Li, atentamente, os Evangelhos", escreveu êle. "Comparei com a dos homens ilustres, como os de que trata Plutarco, a vida dos santos do Cristianismo..."

Neste ponto, raciocinou: "Como havemos de viver sem vida espiritual, qualquer que seja? Seria descermos ao nível dos animais irracionais".

Estava resolvida a primeira dúvida.

Equacionado o problema da vida espiritual, necessário era procurar a divindade. "Eis que desfeitas quase de todo as cinzas, que me encobriam a visão, começo a compreender, e o que mais é, a sentir, já agora na sua integridade, as maravilhosas incógnitas. Uma divindade: Jesús. Uma cartilha: o Evangelho, esclarecido pela sua Igreja, e corroborado pelos santos, quantas vezes tocados de gênio, ou coroados de espinhos".
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Transformações políticas no Brasil levaram Otávio Mangabeira à Europa, e a Graça levou-o a Lourdes, onde está a Imaculada Conceição, tal como a viu Bernadete. 
"C'est un doux visage
Rayonnant d'amour
Qu'entoure un nuage
Plus beau que le jour..." 
Em Lourdes, no cenário mais puro da Terra, com o testemunho da Mãe de Deus, contrito, Otávio Mangabeira faz a sua primeira comunhão.

Operou-se a conversão, podendo Mangabeira escrever em "A Ordem", de onde extraí tão edificante notícia, estas afirmativas: 

"... mais me defino e afervoro no amor de Jesús Cristo, meu chefe, porque me dirige, meu benfeitor, pelos benefícios sem conta que, em consciência, lhe devo, meu amigo de tôdas as horas, porque o tenho presente sempre, e que para mim como para o soldado de Roma que o viu expirar na cruz hoje não resta mais sombra de dúvida,  foi verdadeiramente o filho de Deus".

Fonte: O PORVIR, Ano XVI, nº 272, edição de 9 de julho de 1938. 


AFONSO CELSO

Por Domingos Horta

Morreu Afonso Celso foi a notícia lacônica veiculada, há dias, através da imprensa e das estações de rádio nacionais.

No laconismo da infausta nova eu vi, com tristeza, que o Brasil não chorou, como devera, a morte do grande varão, cópia dos de Plutarco, que se chamou Afonso Celso de Assiz Figueiredo.

Na comoção da notícia eu vi, também, a queda de um gigantesco roble da exígua floresta dos nossos valores reais.

Nunca lhe pronunciei o nome, depois de entrado em anos, que me não lembrasse do seu "Porque me ufano do meu país", êste livro cheio de brasilidade, cheio de ternura que me despertou mais entusiasmo pelo meu Brasil e que me fez grande bem, cooperando na minha formação moral.

Afonso Celso foi um bom. Um bom, um puro e um grande espírito. Católico, era filho obediente da Igreja. Confessava a sua crença. Desassombradamente. Sem respeito humano, que tal sentimento é indigno de caracteres nobres. Daí o título de Conde com que o agraciou o Santo Padre.

Homem de letras, distinguindo-se quer como diserto prosador, quer como poeta de delicada inspiração, aí estão suas obras, jóias da literatura nacional.

A Academia de Letras ³ e o Instituto Histórico e Geográfico  tiveram-no como membro dos mais conspícuos.

Professor, era-o dos mais eminentes. Mestre do Direito e professor até de... dignidade, de honradez, disciplinas só ministradas pelo exemplo de uma vida sem mácula, por um passado sem sinuosidades, cristalino como era o seu.

Foi assim o conde de Afonso Celso! Homem-paradigma. Personalidade eleita. Caráter sem jaça que nesta hora já recebeu, no Céu, o prêmio a que fez jús aqui na terra.


Fonte: O PORVIR, Ano XVI, nº 273, edição de 6 de agosto de 1938.



II.  COMENTÁRIOS, por Francisco José dos Santos Braga
 

No presente trabalho, faço uma homenagem ao Prof. Domingos Horta, meu ilustrado mestre de História (do Brasil e Geral) e Português (língua e literatura portuguesa e brasileira), transcrevendo páginas de sua autoria em duas edições de "O PORVIR", jornal que ele diligentemente dirigiu por muitos anos. A ele devo o despertar do meu pendor para as letras e o descortinar do mundo maravilhoso  da fantasia para a vida que ele imprimia em todas as suas preleções.

Cabe aqui a observação de que, nos dois textos ora transcritos, ele, como líder inconteste à frente do órgão de comunicação do Ginásio Santo Antônio, está preocupado com a formação moral da juventude, sem preocupações de ordem pedagógica.

Quando escrevi um artigo intitulado "Batalha naval de Salamina, à qual o Ocidente deve a sua existência" , tive a honra de receber inúmeros comentários importantes, dentre os quais gostaria de destacar um, da autoria de Dr. Lúcio Flávio Baioneta, escritor, conferencista e empresário, além de ilustre colaborador do Blog de São João del-Rei e ex-aluno interno do Ginásio Santo Antônio na década de 1950, e de submetê-lo à apreciação do leitor, transcrevendo-o, em razão de ali fazer excelente caracterização do eminente Prof. Domingos Horta. Ei-lo.

"Meu prezado amigo FJSBraga,


"(...) Tenho comigo a mesma crença de Guimarães Rosa, que magistralmente escreveu: 'os grandes mortos não morrem nunca, eles ficam encantados'Meus mestres, eternos mestres, não morreram, ficaram encantados.

Lembro-me claramente do Prof. Domingos Horta. De seu vestir impecável, de como tirava do bolso interno do paletó uma caneta Parker 51, cinza; em seguida abria o diário de classe e iniciava a chamada. Finda aquela tarefa, pedia por favor a um aluno que limpasse o quadro negro, que era verde, assoprava o giz, abotoava o paletó e iniciava a aula como se fosse nos ensinar uma oração.

Sou capaz de repetir, em detalhes, a sua aula sobre Leônidas, rei de Esparta e seus 300 soldados que morreram nas Termópilas, para que o mundo pudesse ser livre. Uma oração aos princípios da liberdade dos povos. Falava da Tessália como se fosse o jardim de sua casa. Cantava odes a Péricles. Sou capaz de desenhar a posição da frota grega e dos persas na épica batalha de Salamina.

'Mestre não é quem ensina, mas quem de repente aprende', dizia o Rosa. Os ensinamentos que ele e outros brilhantes professores do Ginásio Santo Antônio me entregaram, acompanharam-me pela vida toda, e, agora quando os meus cabelos se tornaram alvacentos, vejo-os nas madrugadas insones. Continuam me ensinando.
Passaram-se 60 anos. Foi ontem."

E continua: 

"A sua afirmação de que foi a batalha de Salamina que decidiu o destino da civilização ocidental está corretíssima. Não é nenhum exagero. Eu concordo plenamente e gostaria, se você me permitir, de salientar dois pontos:

1 Xerxes conseguiu vencer Leônidas na passagem dos Portões de Fogo (Termópilas), porque um pastor de cabras mostrou a Xerxes uma passagem que permitiu aos Persas atacar os Espartanos pela retaguarda. Frente à frente, os Espartanos eram invencíveis. A resistência de 300 guerreiros frente a 2 milhões de soldados persas durante 7 dias, mostra isto. Não existe prova mais contundente.
O rei persa, com esta vitória, que chamarei de vitória de Pirro, passou a imaginar que todo grego era um traidor e disto se valeu o brilhante general ateniense, Temístocles, que colocou um falso informante na corte de Xerxes.
O dono do mundo, rei de todos os Persas, senhor absoluto de toda a verdade e justiça, passou a acreditar em tudo o que aquele informante, plantado pelo general grego em sua corte, dizia e, mais uma vez, dividiu a sua frota que já tinha sido dividida quando da saída de Dardanelos e que foi destruída por uma tempestade. Então, Temístocles, com a nova divisão sugerida pelo informante, enfrentou apenas 1/4 dos navios persas, e além disso, para tornar mais real a sua fraqueza militar, fingiu esconder sua frota onde não havia espaço para grandes manobras marítimas e o rei persa acreditou novamente no informante e ordenou que seu almirante atacasse pelos dois lados da ilha, pensando que iria massacrar os Gregos como nas Termópilas e que no final do dia teria a vitória.
Do alto de uma colina, o rei Persa, senhor do mundo, assistiu aterrorizado ao desaparecimento de sua frota naval afundada pelos esporões dos trirremes gregos e viu os seus soldados serem mortos pelas flechas, pelas lanças e pelo mar grego.

Tinha ainda mais um detalhe que Temístocles armou para o Rei. Sabendo que os Persas atravessaram Dardanelos em uma ponte de navios (Helesponto), colocou o mestre de seus filhos junto a Xerxes para lhe dizer que Temístocles estava seguindo para destruir o restante da frota e impedir a volta dos Persas à Mesopotâmia.
Xerxes, acreditando nesta informação, devido ao alto cargo ocupado pelo informante entre os Gregos, bateu em retirada com seu exército de terra e o que ficou daquele exército de 2,5 milhões de homens, foi derrotado no ano seguinte em mais duas memoráveis batalhas.
Vence a guerra quem possui as melhores informações e não necessariamente os maiores exércitos ou as melhores armas.

2 Quando foi travada a batalha de Salamina, em setembro de 480 a.C., existia um garoto ateniense, membro de uma importante família, de aproximadamente 11 ou 12 anos, e que, se os Persas tivessem vencido, teria sido morto na eliminação de todos os Atenienses, como queria Xerxes. Graças à vitória dos Gregos em Salamina, aquele menino pôde crescer livre, aprendendo as artes da guerra, o valor da democracia, da honra, da virtude e da cultura grega. Viveu até o ano de 429 a.C., quando morreu vitimado pela tristeza e pela peste, talvez tifóide...
Durante o período em que aquele jovem, depois homem e depois velho, governou os Gregos, foi o mais esplêndido da civilização grega, tão importante que o século que ele viveu passou a ter o seu nome: PÉRICLES.
A Acrópole, obra de Péricles, continua até hoje a mostrar aos homens que existem homens perante cujos feitos até os deuses emudecem.
Um grande abraço do amigo,
Lúcio Flavio.

FONTES CONSULTADAS:
aula do eminente Prof. Domingos Horta, proferida aos alunos do 4º ano do Ginásio Santo Antônio, de SJDR, em 1957 e por mim assistida e guardada dentro das minhas mais fortes lembranças."


Outra referência sobre a personalidade e o caráter do meu homenageado nos é dada por Abgar Antônio Campos Tirado, membro efetivo da Academia de Letras de São João del-Rei, atual ocupante da cadeira nº 16, patroneada exatamente pelo Prof. Domingos Horta. Em discurso de defesa de seu patrono, publicado em 2005 na Revista do sodalício, assim se expressa verbis

"(...) O mesmo ano de 1929 abre ao jovem professor (Domingos Horta) as portas do então Ginásio Santo Antônio, que só lhe seriam fechadas pelas mãos geladas da Morte.  Ali lecionou Português, História e Geografia, notabilizando-se nas duas primeiras disciplinas e de cujas aulas posso dar meu testemunho pessoal, quando fui seu aluno, na década de cinquenta.

Não só o Colégio Santo Antônio teve a ventura de vê-lo honrar seu quadro de professores. Foi ele igualmente, até sua morte, devotadíssimo professor do tradicional Colégio Nossa Senhora das Dores, sendo ali altamente distinguido e respeitado, inclusive dirigindo, por muitos anos, as cerimônias das sessões solenes de formatura. Também foi um dos professores pioneiros da Escola Técnica de Comércio Tiradentes, que o teve, por alguns anos, como respeitabilíssimo docente, nas cadeiras de Português e de História. 

(...) A grande autoridade do prof. Domingos Horata em Língua Portuguesa era reconhecida por toda parte, inclusive na Capital do Estado, de onde, inúmeras vezes, foi chamado para constituir a banca examinadora de Português, nos vestibulares da Escola de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. Era o reconhecimento da competência e do valor do Mestre.

(...) reside em minha memória a primeira aula que tive com o professor querido. Era uma aula de História Geral. Eu, menino de onze anos, aguardava um tanto ansioso a entrada do professor que eu não conhecia. E eis que ele entra muito sério, muito severo. Nós, meninos, mal respirávamos. Mas enchia-nos de confiança a simpatia de sua figura e o belo timbre de sua voz. Feitas diversas recomendações iniciais, temperadas com aparentemente mui severas advertências, dá início o Mestre à sua exposição sobre História Antiga. E desfilam os Ciros, os Darios e os Alexandres; os Sólons e os Péricles; os Xerxes e os Temístocles. À medida que os assuntos eram desenvolvidos, íamos como que ficando magnetizados por suas palavras. Um filme talvez não nos desse um quadro tão vívido e real da matéria exposta. Tanto na primeira quanto em todas as outras aulas, desejávamos que jamais fosse dado o sinal para seu término. Eram elas ocasiões de enriquecimento e encantamento. Como escrevi eu mesmo em um artigo sobre o Mestre, publicado no jornal "Ponte da Cadeia", logo após sua morte, "em suas aulas, o sino, que marcava o final das mesmas, era nosso grande inimigo."

Embora austero, o Mestre possuía enorme magnetismo e simpatia pessoal, de que ficávamos decididamente cativos. (...)"





III.  NOTAS EXPLICATIVAS, por Francisco José dos Santos Braga



¹   Domingos Horta nasceu em Itabira, no dia 4 de dezembro de 1904 e faleceu em São João del-Rei em 2 de dezembro de 1967. Era filho primogênito do casal Henok Pires Horta e Maria Rosa Horta de Oliveira, sendo primo do poeta Carlos Drummond de Andrade. Ainda criança, mudou-se para Ferros, onde cursou o Primário e o Normal. Em 1922 foi nomeado para um cargo na Secretaria de Estado das Finanças. Em 1923, sentindo-se atraído pelo magistério, a partir de então, será seu ideal de vida – ingressou no Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte como professor das disciplinas Português, História, Geografia e Francês. Em 1929, casou-se com Maristela Machado. Outros fatos marcantes na vida de Domingos Horta, além dos já mencionados, é que ele escreveu artigos para o jornal "O Correio" de São João del-Rei, tendo sido vereador por mais de uma vez da Câmara Municipal dessa cidade. Nos últimos anos de sua vida, simultaneamente à sua intensa atividade docente, foi titular, por concurso, do Cartório de Registro de Títulos e Documentos, em São João del-Rei.

²  Otávio Mangabeira (Salvador, 1886 - Rio de Janeiro, 1960) foi o quarto ocupante da cadeira nº 23 da ABL, que tem por patrono José de Alencar e atualmente é ocupada por Antônio Torres. Otávio Mangabeira foi eleito em 25 de setembro de 1930, mas somente veio a tomar posse em 1º de setembro de 1934, recebido por Afonso Celso.

³   Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior (Ouro Preto, 1860 - Rio de Janeiro, 1938), ou simplesmente Afonso Celso, como é mais conhecido, foi um dos trinta homens de letras que inicialmente constituíram a Academia Brasileira de Letras. Outros dez foram eleitos, posteriormente, completando a relação de 40 fundadores da ABL. Sendo sócio-fundador da ABL, Afonso Celso foi o 1º ocupante da cadeira nº 36, patroneada por Teófilo Dias e ocupada atualmente por Fernando Henrique Cardoso.

Confira o papel pioneiro de Afonso Celso ao idealizar uma Academia brasileira nos moldes da francesa:
http://www.efecade.com.br/1897-academia-brasileira-de-letras/

Confira igualmente a relação dos Acadêmicos, tanto os já falecidos desde 1897 quanto os ainda vivos:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_membros_da_Academia_Brasileira_de_Letras
Acesso em 27/06/2016.

Uma curiosidade: a última visita de Afonso Celso à ABL ocorreu na sessão de 7 de julho de 1938, portanto quatro dias antes de seu falecimento.

Em 1892, Afonso Celso ingressou no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro na qualidade de sócio efetivo. Após a morte do Barão do Rio Branco, em 1912, foi eleito presidente perpétuo desse sodalício, ou seja, até 1938.

Cf. in http://bragamusician.blogspot.com.br/2015/07/batalha-naval-de-salamina-qual-o.html

  "Tempos felizes no Ginásio Santo Antônio de São João del-Rei" in http://saojoaodel-rei.blogspot.com.br/2015/05/tempos-felizes-no-ginasio-santo-antonio.html
acompanhado de seu breve currículo in
http://saojoaodel-rei.blogspot.com.br/2015/05/colaborador-lucio-flavio-baioneta.html

  Cf. in Revista da Academia de Letras de São João del-Rei, Ano I, 2005, p. 127-136.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

S. JOÃO D'EL-REI, por Afonso Celso





Afonso Celso


Pittoresca localidade S. João d'El-Rei! Tiradentes, há um século, reservava-a para capital do estado livre que sonhara fundar. 

Como nas grandes metropolis européas, corta-a um rio pelo meio. Risonho e attrahente o aspecto geral. Outr'ora opulento empório de mineração. 

Cidade de verão das mais procuradas, hoje em dia,  delicioso clima, casando o conforto de um centro civilisado à salutar simpleza campesina. População genuinamente mineira: lhana, affavel, independente.

Magnificas igrejas dominam-lhe as eminências.

S. João goza da justa celebridade de ser talvez o ponto do Brasil onde mais solemne pompa revestem as cerimonias da liturgia christã. Musica religiosa, não a ouvi ainda tão impressionadora como alli.

N'um dos templos, mostra-se imagem devida, no dizer da chronica, ao celebre Aleijadinho, vulto lendário de Minas, artista inculto e genial, cuja tradição bisarra vive na imaginação popular, em curiosos traços sobrenaturaes. Contam que, depois de levar annos estudando o mecanismo das azas dos passaros, fabricou um apparelho com o qual conseguia voar. Apezar da deformidade physica de que lhe resultou o appellido, artista insigne era-o, sem duvida: esculptor e architecto. Producções realmente notáveis attestam o seu valor. Contractava a confecção de figuras de santos, sua especialidade; encerrava-se semanas inteiras n'um aposento, sem instrumentos visiveis de trabalho e recusando tomar alimentação. Sumia-se um bello dia mysteriosamente, deixando a obra acabada, quasi sempre um primor.

Em virtude de prescripção medica, sahiamos quotidianamente, minha esposa e eu, perambulando sem rumo. Recordávamos essas tocantes legendas e admirávamos a incomparável natureza, respirando o ar diaphano e puro. Subíamos a ladeira de um morro que sobrancêa a povoação, coroado de pequena capella. Sentados nos degraus da entrada, esquecíamos as horas, observando as casas,    manchas brancas orladas de verde , os campos ondulados e, serpejando ao longe o rio das Mortes, assim sinistramente denominado, por causa de obscuras guerras nos tempos coloniaes.

Seguíamos outras occasiões pela rua larga à margem do rio. Eleva-se ahi a cadêa. Em monótona inacção penduram-se os condemnados às grades, mettendo a cabeça por entre os varões. Distrahem-se a ver os transeuntes. Caras sinistras e lividas    grenhas immundas. Causavam-nos pena e vago terror. Em certas horas suscitavam-nos admiração.

Custava-nos a crer houvesse no mundo crimes e criminosos!


(Extraído de) Minha filha

FonteAnthologia Brasileira: Collectânea em prosa e verso de escriptores nacionaes, 1900, p. 71-73. ¹




II.  APONTAMENTOS SOBRE O AUTOR, por Francisco José dos Santos Braga


Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior, titulado Conde de Afonso Celso pela Santa Sé, mais conhecido como Afonso Celso (⭐︎ Ouro Preto, 1860 ✞ Rio de Janeiro, 1938), foi professor, escritor, poeta, historiador e político brasileiro. Filho do Visconde de Ouro Preto, último presidente do Conselho de Ministros do Império, foi eleito deputado geral por Minas Gerais por quatro mandatos consecutivos. Com a proclamação da República, abandonou a política para acompanhar o pai no exílio na Europa. 

Em 1897, Afonso Celso foi sócio-fundador da Academia Brasileira de Letras, da qual foi presidente em duas oportunidades: em 1925 e em 1935.

Em 1892, ingressou no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro na qualidade de sócio efetivo. Após a morte do Barão do Rio Branco, em 1912, foi eleito presidente perpétuo desse sodalício, ou seja, até 1938.

Afonso Celso casou-se com Eugênia Batista de Castro, uma das filhas do Barão de Itaípe, em 1884. Dessa união nasceram Maria Eugênia Celso de Assis Figueiredo, Maria Elisa, Afonso Celso e Carlos de Ouro Preto. Dos quatro destacou-se sobremodo a filha Maria Eugênia Celso (⭐︎ São João del-Rei, 19/04/1886 ²  ✞ Rio de Janeiro, em 06/09/1963), mudando-se ainda criança para Petrópolis e, mais tarde, fixando residência no Rio de Janeiro. 


III.  NOTAS EXPLICATIVAS, por Francisco José dos Santos Braga



¹  Como se observa, foi mantida a grafia da época em que o texto "S. João d'El-Rei" foi escrito.

Na referida Anthologia Brasileira, o texto de Afonso Celso é precedido por sua breve biografia até aquela data (ano de 1900),  portanto não incluindo seus dados biográficos e obras posteriores àquela data,  – verbis  
"é um dos vultos mais sympathicos da nossa literatura hodierna, pela naturalidade e expontaneidade com que escreve. Tem composições poéticas delicadíssimas e em prosa tem paginas de incontestável merecimento. Politico militante no antigo regimen, é depois da Republica que mais se tem accentuado a sua individualidade literária, a julgar, pelo menos, pela qualidade e pela quantidade das suas producções após o advento do regimen democrático.  
Affonso Celso tem publicado: Prelúdios, Devaneios, Telas sonantes, Poemetos, Camões, Vultos e factos, Minha filha, O Imperador no Exílio, Lupe, Rimas de outr'ora, Notas e ficções, Um invejado, Guerrilhas, Giovanina, romance dialogado à feição de Ibsen, Contradictas monarchicas, etc., e traduziu em verso a Imitação de Christo. Escreve assiduamente na Revista Brasileira. Pertence à Academia Brasileira de Letras e ao Instituto Histórico (e Geográfico Brasileiro).  
É oficial da Legião de Honra, de França." 


FonteAnthologia Brasileira: Collectânea em prosa e verso de escriptores nacionaes, 1900, p. 71-73.

²  A data de nascimento de Maria Eugênia Celso tem sido motivo de disputa por parte dos pesquisadores. Fernando Góes indica 1886 como o ano de seu nascimento, enquanto Domingos Carvalho da Silva considera  o ano de 1887 e Afrânio Coutinho, 1890. 

O historiador e genealogista [CINTRA, 1994, p. 220-1] informa que Maria Eugênia Celso nasceu a 19 de abril de 1886. Idem,  registra o nome de sua mãe, a são-joanense D. Eugênia de Castro Celso, filha do médico Dr. Carlos Batista de Castro e de D. Maria José Batista de Castro, Barões de Itaípe e sogros do Embaixador Gastão da Cunha.


IV.  BIBLIOGRAFIA CONSULTADA



1.  Biografia do Conde Afonso Celso na Coleção Brasileiros Ilustres em Petrópolis, por Jeronymo Ferreira Alves Netto in http://ihp.org.br/26072015/lib_ihp/docs/jfan20030106.htm

2.  Biografia do Conde Afonso Celso na Academia Brasileira de Letras in
http://www.academia.org.br/academicos/afonso-celso/biografia

3.  Biografia do Conde Afonso Celso na Wikipedia in

https://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_Celso_de_Assis_Figueiredo_J%C3%BAnior

4.  Anthologia Brasileira: Collectânea em prosa e verso de escriptores nacionaes, Petrópolis: Typ. da Pap. Jeronymo Silva - Avenida 15 de Novembro, nº 85, 1900, 475 p., in http://www.archive.org/stream/anthologiabrasi00unkngoog/anthologiabrasi00unkngoog_djvu.txt (Edição comemorativa do IVº Centenário do Descobrimento do Brasil)
Acesso em 14/06/2016.

5.  Biografia de Maria Eugênia Celso pode ser apreciada in "Amores de Abat-jour: a cena teatral brasileira e a escrita de mulheres nos anos vinte", por Kátia da Costa Bezerra, in http://r.search.yahoo.com/_ylt=A0LEVr5wCmJXB3IAXNUf7At.;_ylu=X3oDMTBya3R2ZmV1BHNlYwNzcgRwb3MDNARjb2xvA2JmMQR2dGlkAw--/RV=2/RE=1466071793/RO=10/RU=https%3a%2f%2fjournals.ku.edu%2findex.php%2flatr%2farticle%2fdownload%2f1360%2f1335/RK=0/RS=V6i_2zNfyxMDhu9SSI1Xw.jJ_QA-
Acesso em 14/06/2016.

6.  CINTRA, Sebastião de Oliveira: Galeria das Personalidades Notáveis de S. João del-Rei, São João del-Rei: 1994, 270 p., publicado com o apoio da FAPEC-Fundação de Apoio à Pesquisa, Educação e Cultura.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

UMA OBRA MARAVILHOSA DA NATUREZA: A CASA DA PEDRA DE S. JOÃO DEL REY


Por Lincoln de Souza


I.  INTRODUÇÃO, por Francisco José dos Santos Braga

Sob o título geral de "Coisas e aspectos do Brasil", o poeta, jornalista, escritor e folclorista são-joanense Lincoln de Souza publicou inúmeros tópicos curiosos e históricos sobre suas apreciações dos locais que visitou em suas viagens pelo Brasil.

Sobre São João del-Rei  ele assinalou, através de vários textos de sua autoria, normalmente no periódico "Carioca", seus atrativos turísticos, num momento (início da década de 1940) em que nossa cidade não tinha assumido ainda, na sua inteireza, sua vocação turística. Portanto, nós, são-joanenses, devemos muito a Lincoln de Souza ter divulgado o nosso patrimônio histórico e contribuído conclusivamente para o peso atual do turismo nas receitas de nosso município, conforme ocorreu com sua matéria sobre a Casa da Pedra, quando narrou a lenda do índio Irabussu, no jornal "Carioca", edição de 23/08/1941.

Somente em 1963, portanto mais de 20 anos depois das publicações de Lincoln de Souza, é que foi criada uma Diretoria de Turismo e Recreação sob a Administração de Nélson José Lombardi (que se inspirou nas reuniões, discussões e atas da "Sociedade dos Amigos de São João del-Rei", presidida por Fábio Nelson Guimarães, em 1960, quando aquele era um de seus membros mais ilustres). Essa Diretoria de Turismo foi confiada a Djalma Tarcísio de Assis, que por todos é tido, sem nenhum favor, como o "1º Secretário de Turismo e Cultura" de São João del-Rei, e o mais ilustre.


II.  "UMA OBRA MARAVILHOSA DA NATUREZA: A CASA DA PEDRA DE S. JOAO DEL REY", por Lincoln de Souza



Salões imensos com tetos em forma de docel - Púlpitos e cadelabros de granito rendilhado - Formações calcáreas à maneira de nuvens e "icebergs" - Suterrâneos escuríssimos e passagens impressionantes - O que sobre a Casa da Pedra escreveram Bernardo Guimarães e Olavo Bilac
Casa da Pedra em 1824, segundo desenho de Rugendas
Crédito: historiador são-joanense Silvério Parada

Quem movido pelo desejo de contemplar as curiosidades de nossa terra, percorre o grande Estado montanhez, não pode deixar de conhecer em São João del Rey a famosa Casa da Pedra, situada a nove quilômetros, por via férrea, da legendária e histórica cidade mineira.

Trata-se de uma enorme gruta rochosa, de mais de uma dezena de metros de altura, em cujo interior há salas imensas, corredores apertadíssimos como que cavados entre paredes grossas como fortalezas, passagens subterrâneas que conduzem o visitante a lugares onde jamais chega a luz do sol, verdadeiros labirintos úmidos e apavorantes.

Para que o leitor faça uma idéia, embora ligeira, do que é a Casa da Pedra de S. João del Rey, nome por que é ali conhecida, essa maravilhosa obra da Natureza, basta que multiplique por mais quatro ou cinco vezes a altura e por umas dez a largura daquela grutazinha artificial que existe no jardim da praça da República. Ainda assim, o desenho mental não será muito fiel, em consequência da diversidade do aspecto tanto externo como interno entre uma e outra gruta.

É na Casa da Pedra que as famílias sanjoanenses realizam, de ordinário, seus piqueniques, deixando nas paredes da gruta, como lembrança, tal como fazem os turistas, seus nomes gravados a carvão ou arranhados com qualquer estilete. Podem-se ler ali os nomes de brasileiros e estrangeiros ilustres, sendo que o de D. Pedro II e o do Conde d'Eu eram ainda visíveis alguns anos atrás.

Com referência à famosa gruta, vale a pena transcrever o que escreveu Bernardo Guimarães no seu romance "Maurício ou os paulistas em S. João del Rey". O escritor mineiro está narrando a aventura de alguns "emboabas" e um índio (Irabussú) levado à força por aqueles à Casa da Pedra, para desvendar-lhes os imensos tesouros que o silvícola sabia ali existir: 
"O pavimento é plano, liso, coberto de areia e de folhiço, como um solo de aluvião; os emboabas penetram com facilidade pela gruta a dentro. Logo à entrada, entre os broncos pilares da arcada imensa, que serve de pórtico aos outros, observa-se um curioso e estupendo fenômeno. Um enorme rochedo está como pendurado da abóbada, à semelhança de lustre colossal, colocado à entrada daquele templo subterrâneo. Mas o monstruoso lustre está envolto em crepe pardacento, suas luzes estão extintas e é mistér brandir o archote em volta dele para admirar-lhe as dimensões titânicas, e ver como se acha preso à cúpula por um ligamento proporcionalmente tão delgado, que faz estremecer. Está ali como a espada de Dâmocles, suspensa por um fio, aquela massa enorme de milhares de quintais, como ameaçando esmagar, pulverizar com sua queda os imprudentes mortais que ousarem passar-lhe por baixo para devassarem os mistérios daqueles áditos tenebrosos.
Mas Irabussú e seus companheiros não estão ali para admirar semelhantes maravilhas; passam por debaixo do imenso candelabro sem prestar-lhe atenção, internam-se mais alguns passos, e acham-se no recinto de um vasto salão, amplo e circular à maneira da nave de magnífica rotunda. Curvava-se sobre suas cabeças uma abóbada de pasmosa elevação, e, de profunda que era, mal seria apercebida ao fraco clarão do archote, se não fôra o cintilar das pedras úmidas, polidas e ponteagudas, de que estavam crivados o teto e as paredes da gruta.  
À luz daquele archote demasiado escassa para alumiar tão vasto recinto, o interior da lapa, já de si mesmo curioso e surpreendente, tomava um aspecto solene e fantástico, que inspirava, a um tempo, pavor e assombro. Os muros e a abóbada pareciam cobertos de ornatos e esculturas caprichosas, de frisos, relevos, cornijas, colunas, nichos e volutas em desordenada profusão. Aqui via-se um altar mutilado; ali cavava-se no muro um trono em ruínas; além ressaltava da parede um magnífico púlpito; mais além um renque de colunas decepadas se estendia a perder-se na escuridão. E tudo isto se revestia de brilhantes e variadas cores, reverberando à luz do facho com reflexos de ouro e rubis, de esmeralda e safira, de topázio e ametista.  
Era uma gruta de estalactites, curioso brinco, em que a natureza parece comprazer-se dando as mais singulares e caprichosas figuras a essas rochas formadas no côncavo das cavernas pela congelação de gotas de água infiltradas durante séculos através das fendas dos rochedos." ¹
A narração continua. Impossível seguir Irabussú e seus ganaciosos companheiros até o fim - e que fim trágico! Vejamos, por isso, o que Bilac - o grande poeta - fixou em letra de forma a propósito da Casa da Pedra, quando, fugindo à punição de suas atitudes antiflorianistas, errou pelo tradicional Estado montanhez: 
"Às nove horas, munido de archotes, entramos na formosa gruta de pedra, uma maravilha natural. Dentro da gruta, um frio fino e cortante. Grandes salões, de cujo teto escuro pendem colossais candelabros de pedra, sucedem-se unidos por galerias mudas, de chão úmido e escorregadio.  
De quando em quando, o caminho sobe. E o visitante, surpreso, chega a uma nova sala, a um segundo andar da espantosa gruta. À luz do archote, que vacila e desmaia, resvalando pelas paredes rugosas, de anfracto em anfracto, de furna em furna, aparecem e desaparecem, como por encanto, abismos negros, vultos formidandos de penedos acastelados uns sobre os outros.  
Às vezes, de uma eminência, o olhar mergulha pelos corredores vagamente alumiados, e percebe ao longe, caída de uma fenda de rocha sobre um chão que brilha dubiamente, a luz do dia, incerta, azulada, fantástica. E, prestando atenção, num silêncio absoluto, ouve-se o tique-taque das gotas de água pingando sobre as lajes, filtradas pelas estalactites, continuando o trabalho secular da formação daquelas assombrosas colunas de pedra." ²

Fonte: jornal CARIOCA, Rio de Janeiro, edição de 23 de agosto de 1941. 
(no livro encadernado pelo próprio Lincoln de Souza, intitulado "VIAGENS pelo Brasil e ao Estrangeiro", nº 2)


III.  NOTAS EXPLICATIVAS, por Francisco José dos Santos Braga
 

¹  Lincoln de Souza extraiu este texto descritivo do capítulo XXII de "Maurício ou os paulistas em S. João del Rey", denominado "A gruta de Irabussu". Há um curioso trecho anterior ao transcrito por Lincoln de Souza, também do capítulo XXII, que reflete a realidade daquela paragem: "No tempo das chuvas com o transbordamento do rio, a água entra pela caverna e torna muito mais difícil o seu acesso." O rio, no caso, é o Rio das Mortes que corre não muito distante da famosa gruta.

²  Esta é outra descrição da "Casa da Pedra", extraída por Lincoln de Souza do texto (em prosa) de Olavo Bilac intitulado "A gruta de pedra", aqui transcrita. Neste segundo caso, há igualmente um curioso trecho imediatamente seguinte ao selecionado por Lincoln de Souza, que descreve um fenômeno bastante comum dentro daquela caverna, que eu próprio presenciei, a saber: 
"Nos pontos raros em que a abóbada se rasga, deixando aparecer um palmo de céu azul, a claridade põe no solo úmido uma nódoa de cor indefinível. Há um sítio, de que irrompe, em plena treva, em pleno subterrâneo, um tronco de árvore secular. Há quantas centenas de anos terá ali caído abandonada e triste, a semente que foi o berço daquele colosso? Sem ar, sem luz, o pequenino rebento cresceu talvez uma polegada de dez em dez anos.
Subiu a custo, como uma cobra, pelas paredes da imensa caverna.
Engrossou, desenvolveu-se, cresceu.
E, já tronco, prosseguiu a sua viagem desesperada e heróica para a luz, para aquele céu, que adivinhava lá em cima...
Hoje é curioso seguir esse percurso: o tronco vai de pedra em pedra, confundindo-se com a rocha, subindo sempre, acompanhando aqui uma anfractuosidade, galgando ali uma cavidade, até que emerge da treva por um buraco aberto no teto da gruta, e abre-se, e expande-se e pompeia, e triunfa, e irradia, e canta em plena luz, alastrando pelo ar a sua gloriosa copa verde, onde garganteiam pássaros, onde vivem ninhos, e de onde pendem os grandes reposteiros fulvos das barbas de velho, como mantos régios... " 

Cf. Antologia Brasileira: Coletânea em prosa e verso de escritores nacionaes, Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1942, 22ª edição, p. 55-56, in http://www.archive.org/stream/antologiabrasil00werngoog/antologiabrasil00werngoog_djvu.txt

segunda-feira, 6 de junho de 2016

DESCRIÇÃO E PRIMEIRO MAPEAMENTO DA CASA DA PEDRA


Por Álvaro Astolpho da Silveira (1867-1945) ¹ 


Fica acerca de 4 kilometros ² de Tiradentes e a 8 de São João d'El Rey, a gruta calcarea, que, pelo seu aspecto, foi denominada Casa da Pedra.

É realmente interessante e curiosa a disposição das galerias dessa gruta, da qual dou aqui algumas informações graphicas  planta e um perfil longitudinal.

Ha seis galerias dirigidas segundo a linha norte-sul, separadas umas das outras, que formaram, assim, galerias gemeas. Com excepção de uma apenas, todas as demais galerias têm uma ou duas aberturas que as põem em communicação com o exterior.

Segundo a direcção approximadamente leste-oeste, existem cinco galerias, cada uma das quaes tem tambem aberturas que servem de sahidas para o exterior.

Tem o nome de Salão das Paineiras a sua maior erosão. 

Separados por massiços de espessuras differentes, ha tres arcos calcareos que dão para uma especie de pateo fechado, onde existem, amontoados uns sobre os outros, diversos blocos de calcareo cobertos de vegetaes pertencentes a familias varias.

O solo das partes subterraneas apresenta poucas irregularidades de relevo, e em alguns pontos ainda ha infiltrações que estão produzindo concreções.

No tempo das chuvas, varias galerias se enchem d'agua; por occasião do inverno, porém, tornam-se bastante seccas.

As suas paredes são ricas em concreções que, às vezes, tomam formas curiosas e, por isso, têm recebido, dos visitantes, nomes de pulpito, nicho, altar, etc., conforme se approximam da forma de um pulpito, de um nicho, de um altar, etc.

Do tecto de algumas galerias, pendem stalactites que, algumas vezes, têm os seus stalagmites correspondentes, dando em resultado o que os visitantes denominam "columna".

O tecto do Salão das Paineiras é todo ondulado, apresentando o aspecto da rocha carcomida pelas aguas. Ha ahi stalactites chamadas candelabros.

As galerias têm um comprimento total de 403 metros.

O calcareo que forma a pedreira da Casa de Pedra é crystallino, pardo-azulado e dá, pelo choque do martello, pronunciado cheiro, que lembra o do hydrogenio phosphorado. 

A sua analyse, feita por mim, deu o seguinte resultado:
Residuo insoluvel no acido azotico...     0,400
Alumina.............................................     0,350
Oxidos de ferro e de manganez..........    0,150
Carbonato de calcio............................  95,800
Magnesia.............................................   0,055
Materia não dosada.............................   3,245
                                                                   100,000


Fonte: Revista do Archivo Publico Mineiro, Bello Horizonte: Imprensa Official de Minas Geraes, Anno XXIII-1929, p. 138-139.










II.  INFORMAÇÕES SOBRE A PUBLICAÇÃO DO TEXTO ACIMA REPRODUZIDO , por Francisco José dos Santos Braga


O pesquisador Francisco de Oliveira, sediado em Barbacena,  fez chegar a meu conhecimento uma monografia denominada "Speleologia", da autoria do engenheiro Dr. Antonio Olyntho dos Santos Pires (publicada originalmente no volume I da "Geographia do Brasil", commemorativa do Primeiro Centenario da Independencia), que foi republicada em 1930 na Revista do Archivo Publico Mineiro, Anno XXIII-1929.

À p. 107 da revista ou introduzindo a exposição do douto cientista, encontra-se a definição do que é Speleologia: 
"A Speleologia é uma das subdivisões da Geographia Physica que se occupa, particularmente, do conhecimento das Cavernas e das Grutas.  
Esta denominação é um neologismo derivado do grego spelaion, caverna e logos, discurso, de onde proveiu o vocabulo spelunca dos latinos, equivalente a Hoehlenkunde, usado primeiramente na Austria, quando se queria alludir ao estudo das excavações subterraneas naturaes. Nas linguas latinas foi, ha tempos, preconizada, como mais simples, para designar a mesma cousa, a palavra speologia; porém, ella não é tão correcta e expressiva, pois speós significa mais precisamente  excavações artificiaes para túmulos e sanctuarios, abertas na rocha viva.  
Grutas ou cavernas são anfractuosidades ou excavações naturaes das camadas superficiaes da terra. Temos em nossa lingua diversos termos para designar taes aberturas ou excavações subterraneas, segundo suas dimensões, maiores ou menores: caverna, gruta, ou antro, ou conforme sua localização no terreno, como lapas, que são cavernas na encosta das montanhas e furnas, que são lapas profundas. Estas duas ultimas denominações  lapas e furnas, são muito frequentemente usadas em alguns Estados, como no de Minas Geraes, onde existem numerosissimas; mas recebem denominações differentes, peculiares aos Estados, como em Matto Grosso, onde são chamadas buraco soturno." 
Depois, dentro da monografia propriamente dita, às pp. 138 e 139, introduzindo as grutas localizadas no vale do Rio Grande, "nas proximidades da cidade de Formiga", é inserido o texto do engenheiro e naturalista mineiro Álvaro Astolpho da Silveira (nascido em Passos, em 1867), sem título nem quaisquer ilustrações, descrevendo a gruta Casa da Pedra, no vale do Rio das Mortes, entre as cidades de São João del-Rei e Tiradentes: 
"No valle do Rio Grande, nas proximidades da cidade de Formiga, encontra-se um grupo de grutas, denominadas Grutas dos Arcos. E, nesse mesmo valle, ou mais propriamente no Rio das Mortes, entre as cidades de S. João d'El Rey e de Tiradentes, encontra-se a Casa da Pedra, que o Dr. Alvaro da Silveira, actual chefe da Commissão Geographica e Geologica do Estado de Minas Geraes, descreveu no nº 3 do Boletim dessa Commissão, em 1895, nos seguintes termos: 
"Fica acerca de 4 kilometros de Tiradentes e a 8 de São João d'El Rey, a gruta calcarea, que, pelo seu aspecto, foi denominada Casa da Pedra. (...)" (Vide texto acima) 




III.  APONTAMENTOS SOBRE A GRUTA CASA DA PEDRA, por Francisco José dos Santos Braga


A gruta Casa da Pedra fica situada entre as cidades turísticas de São João del-Rei e Tiradentes, sendo a única gruta cadastrada na região, o que potencializa seu valor geoturístico. Por se localizar em importante pólo turístico nacional (Circuito da Estrada Real), apresenta grande potencial de visitação.

O seu valor geoturístico, aliado à sua localização geográfica, são fatores determinantes da classificação da gruta em 7º lugar no "ranking" de potencial turístico no estado de Minas Gerais, segundo levantamento do ICMBio-CECAV de 2008, superada apenas pelas grutas da Lapinha, Maquiné e outras quatro. 

Outro fator relevante,  a carga histórica envolvendo a gruta, – coopera também para a sua valorização. A Casa da Pedra constitui um local de grande riqueza cultural, com registros de visitas já durante o século XIX, desde a expedição Langsdorff em 1824 (com participação do ilustrador Rugendas, o qual teria feito uns croquis da gruta), de Dom Pedro II, até de importantes cientistas e literatos brasileiros e estrangeiros.
Casa da Pedra em 1824, segundo desenho de Rugendas
Crédito: historiador são-joanense Silvério Parada


Precisa ser testada ainda a hipótese de ser verídica a lenda de um salão, existente dentro da caverna, que possuiria um "buraco sem fundo", dentro do qual alguém teria lançado um cachorro amarrado a uma corda, donde teria retornado apenas a corda ensanguentada; independente de sua comprovação, sem dúvida nenhuma, essa lenda  é utilizada como potencializador turístico da caverna.

Quando adolescente, em minhas idas à Casa da Pedra, na companhia agradável do saudoso Gil Amaral Campos, costumávamos caminhar pelos trilhos da estrada de ferro até as proximidades da caverna. Lá chegando, primeiro buscávamos uma lagoa rica em lambaris, acarás e traíras, nas proximidades do sítio. Quando a pescaria não estava favorável,  entrávamos na lagoa de uma forma pouco usual: através de um mergulho de costas, temerosos de que pudéssemos ficar atolados ao fundo da lagoa, e, para tais mergulhos, usávamos uma canoa de madeira que sempre estava ancorada às suas margens. 

Quando o Rio das Mortes transbordava, dizia-se que suas águas enchiam a lagoa e as águas desta transbordavam atingindo os salões da Casa da Pedra, que então ficavam inundados. Por isso, normalmente as paredes e o chão da caverna ficavam permanentemente úmidos durante a época das chuvas.

Em 1894 o engenheiro e naturalista mineiro Álvaro Astolpho da Silveira foi quem fez o primeiro levantamento topográfico da gruta Casa da Pedra, focado em mineração. Consta que, a pedido de uma mineradora, ele teria feito o perfil e a planta baixa da gruta, realizando também um estudo da qualidade do calcário dessa região. Consta que Silveira teria mapeado a gruta utilizando bússola de mão, trena e clinômetro, produzindo a planta e perfil da cavidade, segundo [CASSIMIRO & RENGER, 2005]. 

[SENA, ANDRADE, ROCHA & FIGUEIREDO, 2011] conseguiram, ao tratar da Casa da Pedra, unir o seu contexto geológico a seus aspectos históricos. Os autores informam, sob o subtítulo "Aspectos Gerais da Gruta Casa da Pedra", que 
"a gruta Casa da Pedra mostra uma considerável quantidade e variedade de espeleotemas em seu interior. Os espeleotemas são classificados segundo sua forma e o regime de fluxo da água de infiltração (TEIXEIRA et al., 2008), o que resulta em formações de diferentes aspectos, podendo ser classificados como estalactites, estalagmites, escorrimentos de calcita, coralóides, cortinas, represas de travertino, etc. Todos estes tipos de espeleotemas citados acima podem ser encontrados na gruta, no entanto estalactites e escorrimentos de calcita estão presentes em maior número."

Os autores geógrafos, no subtítulo "Contexto Histórico", ressaltam que 
"(...) os primeiros estudos sistematizados sobre a Casa da Pedra se deram no final do século XIX, pelo cientista Álvaro Astolpho da Silveira. Nesse estudo, publicado no Boletim nº 3 da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de Minas Gerais, de 1895, o cientista faz uma análise do calcário da gruta que já era explorado com o objetivo de obter a cal. Ele faz também o primeiro mapeamento da gruta (...)."




No seu artigo, os geógrafos compararam uma foto de 1938 com uma mais recente, verificando que o piso subiu cerca de 1,5 metro e que um bloco conhecido como Mesa de Jantar  onde são-joanenses costumavam fazer piquenique  se descolara do teto.




[TRAVASSOS, GUIMARÃES & VARELA, 2008, 115] informa a respeito de São João del-Rei (MG): 
"A literatura registra que os primeiros sinais da ocupação humana recente remontam ao ano de 1704 com a descoberta de ouro no Ribeirão São Francisco de Xavier, ao norte da Serra do Lenheiro. A região conta com a presença de poucas cavernas conhecidas. A Gruta da Casa de Pedra, com cerca de 400 m de extensão, é a mais famosa delas. Para Cassimiro e Renger (2005) a Gruta Casa da Pedra ou Gruta do Irabussu (IBGE, 1939: 240) é a única caverna carbonática da região e atualmente integra uma Área de Proteção Permanente (APP) sob responsabilidade da Mineração Jundu Ltda. Para os autores, o engenheiro e naturalista Álvaro Astolpho da Silveira (1867-1945) realizou, em 1894, um pioneiro levantamento topográfico da Casa da Pedra, chegando à soma de 403 metros de desenvolvimento horizontal. Os autores do presente trabalho, em suas pesquisas, não encontraram publicações referentes à Gruta Casa da Pedra posteriores à do IBGE, em 1939. " (Grifo nosso)



IV.  NOTAS EXPLICATIVAS


¹  A biografia de Álvaro Astolpho da Silveira pode ser encontrada na pesquisa realizada por um genealogista, Márcio de Ávila Rodrigues, que, ao final de seu trabalho, nos remete a um texto da historiadora Graciela de Souza Oliver, que enfoca a vida do engenheiro e naturalista mineiro sob o título "A trajetória de um engenheiro de minas: ciências da terra, natureza e agricultura", o qual, apesar de meus esforços, não consegui localizar na Internet. 
Cf. in http://www.recantodasletras.com.br/biografias/2423773

²  Neste trabalho é respeitada a grafia de época.


V.  BIBLIOGRAFIA



CASSIMIRO, R. & RENGER, F. E.: Visita da Expedição Langsdorff à Gruta Casa da Pedra, município de São João del-Rei - Minas Gerais. Belo Horizonte: Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas. O Carste, v. 17, nº 1, p. 12-21, janeiro de 2005.


SENA, I.S.; ANDRADE, J.M.; ROCHA, L.C. & FIGUEIREDO, M.A.: Considerações sobre a Geologia e História da Gruta Casa da Pedra, São João del-Rei - MG. Belo Horizonte: Caderno de Geografia, v. 21, nº 36, Ano 2011, 12 pp.
http://periodicos.pucminas.br/index.php/geografia/article/view/2511


            — Singularidades geológicas e históricas como atrativo geoturístico da Gruta Casa da Pedra, município de São João del-Rei, MG, in http://turmalina.igc.usp.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-97592012000100018&lng=es


TRAVASSOS, L.E.P., GUIMARÃES, R.L. & VARELA, I.D.: Áreas Cársticas, Cavernas e a Estrada Real, Sociedade Brasileira de Espeleologia: Revista Científica da Seção de Espeleoturismo, vol. 1, nº 2, dezembro de 2008, p. 107-120.
https://www.scribd.com/doc/285969578/Artigos-Da-Revista-Turismo-e-Paisagens-Carsticas