quinta-feira, 30 de julho de 2026

TEMPO E MEMÓRIA EM PEDRO NAVA

 Por Rogério Medeiros Garcia de Lima

Trancrevemos, com a devida vênia da revista Magiscultura, ensaio publicado no seu nº 6, set. 2011, pp. 5-13. 
"Pedro Nava surpreende, assusta, diverte, comove, embala, inebria, fascina o leitor, com suas memórias da infância" (Carlos Drummond de Andrade: Baú de Surpresas; in NAVA, Pedro: Baú de Ossos, 1983, p. 7). 
"Uma das gratificações de uma longa vida é poder revisitá-la. É ser capaz de revê-la nos seus esplendores, medos, dúvidas e angústias." (Roberto DaMatta, A fonte da juventude, 08/06/2011).
 
Faleceu uma “tia afetiva” muito querida em São João del-Rei, minha terra natal. Na ocasião, relembrei a infância e os fins de tarde de domingo, quando, acompanhado por meus pais, lanchávamos na casa da saudosa “tia”. Acorreram-me à lembrança o café puro e as deliciosas torradinhas de polvilho, fabricadas em conhecida padaria da cidade. 
Nessa viagem da memória, evoquei o romancista francês Marcel Proust, que publicou, no início do século passado, sua obra-prima Em busca do tempo perdido (À la recherche du temps perdu): o tempo, aparentemente perdido, pode ser resgatado pela memória. 
Em passagem de No Caminho de Swann (1982:31-33), Proust molhou a madeleine  (“madalena”, espécie de bolinho francês) numa xícara de chá. O sabor da guloseima, num passe de mágica, acionou o caleidoscópio da memória do romancista, desde a meninice:
É assim com o nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços da nossa inteligência permanecem inúteis. Está ele oculto, fora do seu domínio e do seu alcance, nalgum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material) que nós nem suspeitamos. Esse objeto, só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca. (...) 
E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (pois nos domingos eu não saía antes da hora da missa) minha tia Leôncia me oferecia, depois de o ter mergulhado no seu chá da Índia ou de tília, quando ia cumprimentá-la em seu quarto. (...) 
Quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e destruição das coisas  sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis  o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação. (...) 
Como nesse divertimento japonês de mergulhar numa bacia de porcelana cheia de água pedacinhos de papel, até então indistintos e que, depois de molhados, se estiram, se delineiam, se colorem, se diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis, assim agora todas as flores do nosso jardim e as do parque do sr. Swann, e as ninfeias do Vivonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas moradias e a igreja e toda Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez saiu, cidade e jardins, da minha taça de chá.
Minhas lembranças pulsaram mais forte na mente. Recordei Pedro Nava, cujos livros são indelével referência na minha formação humanística. O escritor mineiro me introduziu a Proust. 
 
De Juiz de Fora ao Rio 
Pedro da Silva Nava nasceu em Juiz de Fora (MG), no dia 5 de junho de 1903, primogênito do médico José Pedro da Silva Nava e sua esposa Diva Mariana Jaguaribe. O pai faleceu prematuramente em 1911, quando moravam no Rio de Janeiro. Voltaram para Juiz de Fora. Em 1913, com a morte da avó materna Maria Luísa, a família mudou-se para Belo Horizonte. No ano seguinte, Pedro viajou para o Rio de Janeiro e se hospedou com os tios Alice e Antônio Sales. Foi matriculado no internato do Colégio Pedro II. Retornando a Belo Horizonte, em 1921 foi aprovado no exame de admissão ao curso de Medicina. Formou-se médico em 1927, na mesma turma de Juscelino Kubitschek de Oliveira. Trabalhou em Juiz de Fora e em Monte Aprazível (SP), até se estabelecer no Rio de Janeiro. Em 1943, com um grupo de intelectuais e políticos de Minas Gerais, assinou o Manifesto dos Mineiros. O documento continha críticas à ditadura de Getúlio Vargas. A atitude acarretou sua aposentadoria forçada do cargo que ocupava na Secretaria de Saúde da Prefeitura do Rio. No mesmo ano, casou com Antonieta Penido (Nieta). Em 1948, especializou-se em Reumatologia nos hospitais de Paris. De volta ao Rio de Janeiro, criou o Serviço da Reumatologia da Policlínica Geral e fundou a Sociedade Brasileira de Reumatologia. Em 1957, ingressou na Academia Nacional de Medicina. Poeta bissexto, em 1968, aos 65 anos de idade, começou a escrever suas memórias. Alcançou enorme sucesso com a publicação dos seis volumes de sua obra memorialística: Baú de Ossos, Balão Cativo, Chão de Ferro, Beira-Mar, Galo-das-Trevas e O Círio Perfeito. Suicidou no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1984, aos 80 anos (fonte: Arquivo Pedro Nava, acervo de Pedro Nava na Casa de Rui Barbosa). 
Zuenir Ventura escreveu impressionante relato da morte do memorialista (2005:163-164):
O escritor mineiro Pedro Nava tinha pelo menos duas tarefas a cumprir quando um telefonema levou-o a se suicidar no domingo, 13 de maio de 1984: receber daí a dias o título de Cidadão Fluminense na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e finalizar o sétimo volume de sua monumental série de memórias que começara com ‘Baú de ossos’, em 1972, e se encerraria com ‘Cera das almas’. 
Ele acabara de ler para sua mulher o discurso com que agradeceria a homenagem quando, às 21h, o telefone tocou. Nieta atendeu e uma voz masculina disse que queria falar com Pedro Nava. Ele pegou o aparelho, ouviu em silêncio o que lhe disseram do outro lado da linha, desligou e, transtornado, comentou que ‘nunca tinha ouvido nada tão obsceno ao telefone’. Sua mulher notou que ‘parecia que ele tinha recebido alguma chantagem’. 
Aproveitando a ida dela ao banheiro, ele pegou na gaveta um revólver calibre 32 que comprara havia quatro anos e saiu sem avisar pela porta dos fundos do apartamento. Perambulou pelo bairro da Glória, no centro do Rio de Janeiro, onde morava, e depois foi visto sentado na calçada, cabisbaixo, em meio aos travestis e prostitutas que costumavam circular na área. Às 23h30, junto a uma árvore, disparou um tiro na cabeça. Ia fazer 81 anos e era o nosso maior memorialista.
O memorialista conta o que quer 
Os livros de memórias de Pedro Nava foram bastante elogiados nos círculos literários. Para o crítico Wilson Martins, Nava elaborou “um livro que desejaríamos infinito”. (Baú de Ossos, 1983, capa)
Antonio Cândido registrou (Baú de Ossos, 1983, contracapa):
Antes de abordar o estudo de sua obra, conviria lembrar que, se estamos habituados a tratar Drummond e Murilo (Mendes) na categoria dos maiores escritores, a presença entre eles de Pedro Nava pode espantar alguns, porque a sua revelação é recente e as pessoas ainda não se habituaram a aceitar a sua eminência ou admitir que um livro de memórias possa ter a altura das grandes obras literárias. Ora, justamente porque estou convencido desde o primeiro momento de que assim é, ou seja, de que Pedro Nava é um dos grandes escritores brasileiros contemporâneos, não hesitei em situá-lo na devida companhia.
Baú de Ossos  o primeiro livro da série  recebeu o prêmio Pen Clube de 1973 e da Associação Paulista de Críticos de Arte de 1974. 
Monique Le Moing, biógrafa de Pedro Nava, descreve a obra do biografado e seu processo de criação literária (A Solidão Povoada – Uma Biografia de Pedro Nava, 1996, pp. 27 e 32):
Escreve por necessidade. Para sair dele mesmo e reclamar contra as convenções e a educação hipócrita, para encontrar a sua própria imagem, para recriar o passado  ‘sou um recriador do passado’ , testemunhar em favor da classe média brasileira e das dificuldades que ela encontra no dia-a-dia, contar os acontecimentos importantes dos quais participou ou de que foi testemunha, reter os relatos dos acontecimentos feitos pelos outros: ‘Existe uma necessidade que todos nós temos de fazer confidências (...) confissão. De tentar deixar consignado o espírito de um período (...) uma tendência à sobrevivência (...) É ato de vaidade e de defesa querer se segurar mais um pouquinho, através da memória dos outros.‘Nasceu a necessidade de maior comunicação comigo mesmo (...) voltar para trás, ir ao passado (...) me interessou o livro como aplicação de minha vida, de meu tempo, e exploração de mim mesmo’. 
Pedro Nava se completa, se recompõe, se escolhe, se reencontra, ou melhor, reencontra a sua unidade na negação. Recusa da sua educação, dos interditos  recusa dos compromissos políticos e sociais, oposição radical aos valores do dinheiro. Tudo isto o conduz à atitude de desconfiança em relação às ideias recebidas, e de ódio em relação a qualquer dogmatismo. Torna-se anarquista meticuloso e discreto. Existe portanto uma distância surpreendente entre o Pedro Nava social e sociável, (...) conversando à vontade com os amigos, e o Pedro Nava das Memórias, violento, às vezes amargo como fel.
Sobre José Egon Barros da Cunha, alter ego de Nava, Le Moing acrescenta (1996:98-99):
A originalidade de Pedro Nava no contexto dessa obra monumental é a criação do duplo: Egon. (...) Graças a essa dupla organização da ficção, ficção-fictiva que lhe oferece um certo ponto de vista, um certo retrocesso em relação a si mesmo, pode realizar uma decalagem de perspectiva muito interessante. Mais ainda: uma transposição de ponto de vista, de voz e de tempo que leva o leitor, e talvez o autor, a uma espécie de jogo entre autor-narrador e a ‘personagem’ que criou. Criação que não engana ninguém, e ele bem o sabe  jogo entre o testemunho fictivo e o leitor já avisado. “A chegada do Egon no palco não passa de um álibi para oferecer uma outra apresentação de si mesmo, para dar e receber uma imagem compatível com a que havia revelado até então. Podemos indagar sobre a intenção dele (...) Uma de suas respostas foi dada numa entrevista e poderá fornecer uma chave:‘comecei a não ter mais liberdade de tratar certos assuntos em que me sentia colhido. (...) Eu não tinha muita coragem para dizer ‘eu faço, eu fiz’ ao passo que, com a simples criação do personagem  que eu sei que sou eu e que todo leitor inteligentemente reconhece que sou eu, o problema deixou de existir.’
A biógrafa vasculhou os arquivos de Nava e encontrou anotações sobre sua técnica de escrever (1996:128-129):
Penso bem a estrutura de um capítulo. Escrevo seu sumário, ou boneco, ou esqueleto. Procuro entre minhas notas cada uma que se adeque a cada item desse boneco. Numero entre estas notas a escolhida. Escrevo esse número ao lado de cada item do sumário. Escrevo e componho consultando um por um. Destruindo as fichas à medida que escrevia, conto isto a Drummond. Ele manda que eu guarde todas. Do fato de guardá-las nasceu mais respeito pelo meu escrito, pelo trabalho que ele me custa.
O próprio Nava, durante entrevista à televisão em 1983, afirmou que o memorialista conta o que quer, o historiador deve contar o que sabe. 
 
Pérolas literárias 
Outras assertivas literárias recolhi em seus livros:
A memória dos que envelhecem (e que transmite aos filhos, aos sobrinhos, aos netos), a lembrança dos pequenos fatos que tecem a vida de cada indivíduo e do grupo com que ele estabelece contato, correlações, aproximações, antagonismos, afeições, repulsas e ódios) é o elemento básico na construção da tradição familiar.” (Baú de Ossos, 1983, p. 23) 
Quem escreve é para ser lido. Certo, Monsieur de La Palisse. Mas sejamos sinceros acrescentando que muito do que escrevemos é para ser lido por nós mesmos. Não há ninguém, por mais pintado que seja, que não goste de lamber a própria cria.” (Balão Cativo, 1973, p. 268) 
“Não é bem isto porque o passado e o presente não são coisas estáveis tornadas interpenetráveis pela memória que arruma e desarruma as cartas que vai embaralhando. O passado não é ordenado nem imóvel  pode vir em imagens sucessivas, mas sua verdadeira força reside na ‘simultaneidade’ e na ‘multiplicidade’ das visagens que se dispõem, se desarranjam, combinam-se umas às outras e logo se repelem, construindo não um passado, mas, vários passados. Fatias da grossura do ponto geométrico incessantemente cortadas do presente por uma espécie de máquina automática de fazer presunto. Seus roletes não caem em ordem obrigatória sobre o papel impermeável do embrulho. Vão e vêm segundo as solicitações da ‘realidade atual’  também fictícia porque sempre em desgaste e capaz de instituir contemporaneidade com o passado, igual à que pode estabelecer com o futuro  tornando de vidro as barreiras do tempo. (...) Importa a verdade? Ah! Pilatos, Pilatos... Para quem escreve memórias, onde acaba a lembrança? onde começa a ficção? Talvez sejam inseparáveis. Os fatos da realidade são como pedra, tijolo  argamassados, virados parede, casa, pelo saibro, pela cal, pelo reboco da verossimilhança  manipulados pela imaginação criadora. Foi bem assim? devia ter sido assim? ou é como se tivesse sido assim?” (Balão Cativo, 1973, pp. 287-288). 
“Uma saudade, saudade de mim, de meus eus sucessivos, (...) uma saudade vácuo como a que tenho de meus mortos e que me surpreendi, dando ao ‘mim mesmo’ também irrecuperável, como se eu fosse sendo uma enfiada de mortos  eu. Tudo tão recente mas já tão longe e logo deformado.” (Chão de Ferro, 1976, p. 287). 
“Os endereços que aponto são os de casas que vão morrer e que breve não existirão mais. Assim como acompanhamos avidamente a agonia dos que amamos para guardar para sempre a tirania de sua derradeira lembrança  acho que todos que passam diante de uma velha casa, de uma velha igreja, devem olhá-las como quem segura, se encosta, cheira, beija, lambe, degusta o corpo apetecido. É amar agora porque a mocidade foge.” (Galo-das-Trevas, 1981, p. 25)
Pedro Nava confessou certa vez que o memorialista é a forma anfíbia de historiador e ficcionista, e que ora tem de palmilhar as securas desérticas da verdade, ora nadar nas possibilidades oceânicas de sua interpretação. Para ele transfigurar, explicar, interpretar o acontecimento é que é a arte do memorialista. Sobre o seu oficio anotou:
Minhas memórias nasceram da minha disponibilidade. Meu único critério é ser fiel a mim mesmo, dizer sempre a verdade. Mesmo a morte não altera, para mim, os sentimentos afetivos. Não transformaria canalhas em santos só porque já morreram. Só escrevo o que penso. O ato de escrever me desoprime, é mesmo uma libertação.” (O Círio Perfeito, 1983, contracapa) 
“As providências, o mudar o papel na máquina, a viagem pelos dicionários, a busca nos livros, assistir à flor emergente que fazemos desabrochar  subindo e rompendo , tudo faz o criador sair de si mesmo, fugir, romper sua solidão e conviver no imaginário sem os atritos da convivência real... a criação! Seu momento transcende a pessoa e faz que supere o que pensa de si próprio o criador. Há uma espécie de transe, de visita  é a boa loucura. (...)                 “... é ocioso discutir os limites da literatura. Literatura é tudo aquilo feito com bom estilo, tudo que é bem escrito e que é tocado, ainda que de leve, pela mão da poesia.” (O Círio Perfeito, 1983, pp. 410, 411 e 413)
De anarquista a socialista 
Sobre leituras intensas e desorganizadas, na biblioteca do tio Antônio Salles:
Leu tudo, sem ordem, sem processo e sem medida.” (Viana Moog: Eça de Queirós e o Século XIX) 
“Foi assim que eu li. Seguindo o exemplo de tio Salles, que tinha imitado, sem saber, o que fizera Eça de Queirós. Diante da livraria que se me oferecia tal qual um mar oceano  mergulhei! E me senti logo como peixe n’água.” (Balão Cativo, 1973, p. 190)
Em relação à política, Pedro Nava  como já assinalado  foi um dos signatários do Manifesto dos Mineiros:
Durante o Estado Novo, a eficiente censura de Vargas à opinião pública tinha silenciado as vozes dissidentes. Antes de 1945, houve apenas uma declaração importante da oposição. Em outubro de 1943, um grupo de intelectuais e políticos de Minas Gerais emitiu um cauteloso manifesto, pedindo a redemocratização do Brasil e citando a história política de Minas Gerais como prova de que a liberdade de opinião e o governo constitucional eram aspirações naturais dos brasileiros.” (Skidmore, 1979:72-73)
Poderíamos imaginar que Nava, a exemplo de muitos políticos e intelectuais subscritores daquele manifesto contra o presidente Vargas, simpatizasse com o liberalismo burguês e o moralismo da União Democrática Nacional (UDN). No entanto, tinha sua peculiar posição política:
Política, aqui no Brasil (...) é sempre a ideia de uma melhora que vem (...) aos nossos políticos falta essa qualidade, essencial aos médicos: o prognóstico (...) sempre me sinto inseguro dentro do Brasil. (...) 
Politicamente sou um socialista (...) depois de ter sido anarquista durante quase toda a minha vida (...) eu optei pelo socialismo para fugir do idealismo, do impossível, da quimera que é a anarquia. (...) 
A minha simpatia vai para os regimes nos quais o homem vive na sua grandeza, na sua plena liberdade e dignidade e com todos os seus direitos à educação, à liberdade, ao voto. 
Acho absurda toda censura qualquer que seja. 
Acho que a pessoa tem mais direito ao médico do que ao delegado de polícia.” (Le Moing, 1996:166-167)

Fazia leitura crítica do país: 

“País de analfabetos formados e analfabetos mesmo.” (Galo-das-Trevas, 1981, p. 112)

A descrença no homem 

Nava era seco, irônico e, não raro, pessimista na sua visão de mundo e do ser humano:  

“Ele tem uma admiração imensa pela mocidade, que acha fabulosa. De fato é a sociedade que corrompe o homem, os jovens merecem respeito. O que lamenta é que os seres amados não o criaram nessa ótica de vida numa sociedade onde falta o senso moral que a ele foi inculcado? 
Três pessoas me fizeram o mal de me convencer que a vida era ótima, que todos os homens eram honestos, que todas as mulheres eram santas. Encontrei no meu dia-a-dia exatamente o contrário. (...) 
Os ensinamentos de minha Mãe, de meus tios, me davam a ilusão de um mundo justo e bom criado à sua imagem e semelhança. Vim descobrir, à minha custa, como estava muito enganado, isto é, que a vida é má, o semelhante pior, o vizinho quando não indiferente é inimigo, que a inveja é o pão nosso de cinza de cada dia, que o homem domesticado é frequente no imanar e voltar à sua bruteza habitual.” (Le Moing, 1996:184-185)

Coligi das suas memórias: 

“Vinde a nós, ‘portugas’, ‘galegos’, ‘mondrongos’  mesmo se fordes da mesma massa dos ‘degredados’ que chegaram com os primeiros povoadores. O que esses tão falados degredados eram, não tinha nada demais. Ladrões? Assassinos? Nada disto. Criminosos sexuais, simpáticos bandalhos. Basta ler as ‘Ordenações’ e verificar a maioria dos motivos de degredo para o Brasil: comer mulher alheia, deflorar, estuprar, ser corno complacente e mais, e mais, e mais ainda  entretanto, nada de se temer. Fazem lembrar as delinquências brejeiras de que um juiz mineiro que conheci, dizia, com inveja e depois de julgar serem, exatamente, as que ele, juiz, tinha vontade de perpetrar...” (Baú de Ossos, 1983, p. 207) 
“Fica-se envergonhado de pertencer à mesma humanidade  não digo dos pobres bajuladores primários, mas dos bajuladores aperfeiçoados que, não contentes de lamberem as solas dos que sobem, metem as suas na cara dos que caem.” (Baú de Ossos, 1983, p. 230) “ 
‘Com dez anos vim para o Rio. Conhecia a vida em suas verdades essenciais. Estava maduro para o sofrimento. E para a poesia’. (Manuel Bandeira, ‘Infância’, in Estrela da Vida Inteira) 
“Eu também. Com dez anos subi o nosso Caminho Novo, mudado para Belo Horizonte. Já tinha provado tudo que nasce do contato com o semelhante. Amizade, carinho, ódio, rancor, ciúme, rudimentos de amor. Experimentara proteção, ajuda, perseguição, desamparo e a gelatina da indiferença. Fora preterido e escorraçado. Vedete e passado para trás. Sentira o arrocho dos círculos concêntricos do mundo e vira a Morte se intrometendo. Aprendera a carne, começando pela pornografia. Sabia chorar e dissimular. Conhecia, pois, a vida em suas verdades essenciais e estava pronto para a transida solidão da poesia. Vai, Pedro! toma tua carga nas costas e segue.” (Balão Cativo, 1973, p. 85) 

Compôs trovinha para o Príncipe, seu cachorro de infância: 

“Pela estrada da vida subi morros, /Desci ladeiras, e afinal te digo: /Se entre os amigos, encontrei cachorros, /Entre os cachorros, encontrei-te, Amigo!” (Balão Cativo, 1973, p. 67)

Recorda o presidente da República Nilo Peçanha, que gostava de passear na praiade Icaraí, em Niterói, onde morava. Era casado na aristocracia fluminense e o casal presidencial não tinha filhos:

“Todo seu carinho e da esposa pertenciam ao cachorrinho peludo que criavam e que era chamado ‘Jiqui’. Esse nome era repetido com unção pelos engrossadores que viviam presenteando o totó com coleiras luxuosas onde ele vinha gravado em plaquinhas de prata ou de ouro. Todos adoravam o Jiqui...” (Chão de Ferro, 1976, p. 112) 

 Da importância de ser honesto 

“Como traduzir? mais corretamente ‘honest’. Por honesto, evidentemente, e por extensão, analogia, também por verdadeiro, autêntico, genuíno, natural, intrínseco, básico, fiel, direito, verossímil. Quem tem dessas qualidades é correto e puro. E se é assim, tem vergonha. Então é lícito verter o texto shakespeariano:  
 Que horas são?   
 São horas de ter vergonha.” (Galo-das-Trevas, 1981, p. 5) 
“‘A vida é um romance sem enredo’ (de um manuscrito de José Egon Barros da Cunha).” (O Círio Perfeito, 1983, p. 19) 
Não era hipócrita nos seus desafetos, como revela o alter ego Egon: “Logo concebeu um ódio que longe de atenuar, o tempo foi acrescentando. Durou vida afora, chegou até às eras de todos no Rio. Hei de mijar na cova desses putos! pensava o Egon. Não mijou. Mas foi muito gratificado que leu-lhes o necrológio nos jornais anos e anos depois. Desejou que a terra lhes fosse leve  com o Pão de Açúcar por cima e o Corcovado de quebra...” (Galo-das-Trevas, 1981, p. 154) 
Todavia, temperava o fel com a admiração confessa pelos grandes professores. Numa entrevista veiculada na década de 1980, dizia que o homem decente que está ensinando, mesmo sem querer, infunde sua decência no jovem que está aprendendo. Citava Mendes Pimentel: “O lente é o aluno mais experiente.” (O Círio Perfeito, 1983, p. 56) 
E mais: “Essa última qualidade  o preparo e o amor ao estudo  é que faz os doutores mais cheios de coleguismo e comportamento confraternal. O duro que dão em cima livros, o trabalho que dá o bem saber  fazem-n’os valorizar essas qualidades nos outros e o tempo passado debruçados nos livros e nos doentes não tem intervalos de folga para a mexida, a fofoca, o dizquedisse, a intrigalhada, a perfídia, a calúnia. A certeza do próprio valor cria os tolerantes com o valor alheio.” (Galo-das-Trevas, 1981, p. 366) 

Medicina e bondade 

Em Pedro Nava, casaram-se o médico e o humanista:  

“Ensinava, honestamente, que as doenças não têm cura mas que todas têm tratamento. Este é outro segredo do médico. Auxiliar o equilíbrio somático acompanhando a natureza na sua reconstrução provisória. Nunca remando contra a maré. Sabendo desde o princípio que toda a Medicina é o ato gratuito de saber diagnosticar. Depois medicar pouco e na hora, não ser ativista terapêutico. Entender o doente. Conversar com o doente. Saber ouvi-lo com paciência. Amparar com o remédio sintomático. Consolar com a presença, a palavra oportuna, a bendita mentira, o santo perjúrio. Ser bom e simples. Guardar e repetir a cada instante a melhor coisa que ensinou Miguel Couto em frase um pouco rebuscada: ‘Se toda a Medicina não está na bondade, menos vale dela separada.’ (...) “Foi citado várias vezes o grande Couto. Talvez seja a necessidade de lembrar um nome de nossa Medicina que não deve ser olvidado. Não posso nunca esquecer da pergunta que ouvi, há bem seus muitos anos, de interno meu  sextanista  que diante de minha insistência em citar aquele médico perguntou-me  ‘Mas Doutor Nava, afinal quem era esse Miguel Couto em quem o senhor tanto fala?’ Isso se passou com um doutorando de 1949  apenas quinze anos depois da morte desse que, a seu tempo, era o maior médico brasileiro – a própria encarnação da Clínica Médica Brasileira... Preste-se ao menos atenção ao fato de existirem no Rio  uma rua e um hospital com o nome ilustríssimo.” (Galo-das-Trevas, 1981, p. 404).

Sobre o médico, colega e amigo Joaquim Nunes Coutinho Cavalcanti escreveu:  

“Durante toda sua longa vida de médico ele veio conservando muita coisa do tanto que aprendera com seu amigo não só tecnicamente, como na profissionalidade e no desinteresse a que está sempre obrigado o médico diante do doente pobre. Humildemente obrigado diante do doente pobre... E na certeza de que não está praticando caridade nem fazendo um favor. Apenas cumprindo uma obrigação. (...) “É preciso acrescentar aqui suas qualidades humanas. A bondade, abnegação, a participação, o altruísmo, seu sofrimento com o sofrimento alheio, seu interesse que ia além do ‘caso clínico’ para estender-se ao homem, a suas lutas, suas misérias, sua posição social, seus pensamentos, seus sofrimentos. Era o médico dotado do poder de desdobrar-se no pai, no irmão, no companheiro, no amigo, no mentor de seus clientes.” (O Círio Perfeito, 1983, pp. 128 e 149) 

Amizade mineira 

Travou sólida amizade com Afonso Arinos de Melo Franco, desde 1915, quando foram contemporâneos no Colégio Pedro II, Rio de Janeiro. O convívio rendeu belas citações sobre amizade: 

“A gente se conhece no colégio, vira amigo, convive de irmão, de confidente. Isto é sentimento para sempre. Uns perdemos de vista. Outros reencontramos no caminho da vida, logo com a mesma afeição e a mesma confiança de amigos. Passaram anos e logo retomamos. Porque nos conhecemos e sabemos que somos os mesmos: porque cada homem bom ou mau traz dentro de si, com qualidades positivas ou negativas, o menino que nasceu assim.” (Chão de Ferro, 1976, p. 114) 
“Está explicada a razão do bem querer de um pelo outro  porque a amizade assenta-se na coincidência de gostos ou de interesses  também os intelectuais  de duas pessoas. E ela só se conserva mantida por esses elos.” (O Círio Perfeito, 1983, pp. 320 e 391)
Amizade e admiração eram recíprocas entre Afonso Arinos e Pedro Nava. Arinos fez referência a figuras notáveis de sua geração, inclusive Pedro Nava “escrevendo a monumental obra autobiográfica, um panorama sociológico formidável.” (Afonso Arinos na UnB, 1981, p. 24)

A solidão no trem, a fala com Deus 

Nava descobriu a solidão durante viagem de trem ao Rio de Janeiro, para estudar no Colégio Pedro II: 

“Descobri apavorado e encantado que eu era um indivíduo autônomo destinado a viver minha própria vida e a encarar desde aquele comboio serrabaixo – a solidão que todos têm de enfrentar um dia. Assumi, ai! de mim, a minha e foi assim que desembarquei só na Central.” (Chão de Ferro, 1976, p. 111)

Não o entusiasmava a religião  

“Fui escasseando minhas visitas ao templo e mais ou menos nessa época, depois de curta reconciliação, deixei também definitivamente o aprisco da nossa querida Igreja Católica Apostólica Romana. Como a Sinhá-Cota, aboli os intermediários e passei a entender-me diretamente com Jesus, meu Salvador.” (Chão de Ferro, 1976, p. 233). 
“Usava daqueles bigodaços de cortina  para disfarçar o corte espesso e sensual da boca e os belos dentes, que eram todos perfeitos. Estava de negro, insígnia religiosa à lapela e até chegar à mesa, andou numa atitude modesta, olhos baixos e as mãos peludas uma na outra  ao jeito do comungante se aproximando do repasto eucarístico.” (descrevendo um personagem em Galo-das-Trevas,1981, p. 235)

A morte e o amor 

Angustiavam-lhe a doença e a morte: 

“Já estará? em mim. Onde? ai de mim! que assim me interrogo nas noites longas. Onde? Estará? no pulmão a que dei tanto fumo. No fígado? a que dei os espíritos e as especiarias e a cuja neutralização atirei a toxicidade das vitualhas engolidas rabelaisianamente. ‘Mea culpa’. Na pequena curvatura? Na bexiga? Próstata? partes cansadas do baixo ventre? Nos fatigados ossos? armação, estrutura, vigamento que sustentou meu corpo no bem e no mal... Bato na madeira, rezo, faço figa, passa-fora, fica lá-nele, fica na galáxia – SAI, CÂNCER.” (Galo-das-Trevas, 1981, p. 80)

A vida amorosa de Pedro Nava foi abalada pelo suicídio da namorada Zilah (Lenora) no Rio de Janeiro. Em Beira-Mar, reporta-se a uma moça por quem teve paixão passageira:

“No dia em que a vi de mãos dadas com um brutamontes do futebol. Tudo, menos aquele. Era como ver camélias mastigadas por um porco.”

Durante passeio pela Praça da Liberdade, na bucólica Belo Horizonte dos anos 1920, Egon, um tanto poético e apaixonado, derramou um frasco de perfume francês sobre a cabeça da namorada:  

 Olha o que eu trouxe para você... O que ter-lhe-ia? passado pela cabeça para ela dizer que não aceitava aquele presente, que não queria  
 ah! e você insistindo assim me magoa e me aborrece... Ele ouvia forçando a tampa e desatarraxando aquela extremidade. Quando teve na mão direita o vidro aberto falou de repente: 
 Depressa, minha flor, depressa, fecha os olhos!
Maquinalmente, instintivamente ela os fechou e ele derramou-lhe na cabeça o vidro inteiro de perfume. Um cheiro se espalhou no ar tão invasor, tão intenso, tão imperioso, mas tão abafado, e tão surdo, como o das madeiras, só que cortado aqui e ali por gumes acídulos como os do odor das magnólias e das cravinas. Rindo toda ela abriu os olhos passando a mão para evitar que aquela onda escorresse até aos olhos, rindo toda, feliz, espontânea e alegre ao quase inesperado gesto do Egon...” (O Círio Perfeito, 1983, pp. 75-76)

Minas para sempre, carioca amador 

Minas Gerais mereceu páginas memoráveis em sua obra: 

“Minas é no céu da nossa pátria o prodigioso cometa que vem infalivelmente, passa perto, tudo inflama como sua cauda de fogo e depois vai, perde-se no infinito (...) Pronto, sumiu, não volta mais: Minas acabou! Engano – ela resiste reconcentra sua matéria reentra no caminho gravitacional. Vem de novo, torna a passar. Vem irregularmente, mas vem. Não falta nem faltará. Veio em 1720 quando Felipe dos Santos foi arrastado num chão de ferro por não sei quantos cavalos-vapor; em 1792 com Tiradentes na ponta duma corda; em 1842, em 1930... Minha ‘Antologia’ dava Minas de novo, quando Joaquim Norberto relatava os mistérios e os terrores da conspiração, quando mostrava Alvarenga, Cláudio, Gonzaga, Toledo e Rolim traçando nossa flâmula e escolhendo sua divisa. ‘Libertas aequo spiritus’? Não! ‘Aut libertas, aut nihil’? Também não! ‘Libertas quae sera tamen’? Esta, sim! Ótima! ainda que tarde. Passará o Barbacena, passará a Justiça Régia, passará a Alçada, passarão os grilhões e a mão larga, espalmada, ossuda e salgada do Tiradentes ficará para sempre fazendo sinal de esperar, de aguardar a volta do cometa...” (Chão de Ferro, 1976, p. 45) 
“Todas as cidades de Minas podem contar seu caso de aparição. As mais decrépitas são as mais assombradas. Ouro Preto, mais que São João d’el-Rei. Diamantina, mais que Sabará. Mariana muito mais que Ouro Preto e Diamantina. O Serro do Frio mais que Mariana. E esses fantasmas viajam com a gente. Emigram para o resto do Brasil com cada mineiro que muda de Minas. Enchi a Rua da Glória com os que trouxe comigo, mais a lembrança dos meus burgos moribundos, dos meus sobradões barrocos, dos meus profetas, das minhas igrejas. Irremediável. Indelével. Minas eterna Minas perene... Como rimos quando falam no projeto de dividi-la em outras unidades federativas. Que importa? Serão gotas separadas de azougue. Encostando, juntam. Para acabar com Minas seria preciso esquartejar cada mineiro. E isso é possível? ‘Quales’ nada!... Ficará sempre um para recomeçar.” (Chão de Ferro, 1976, p. 311)

Mineiros são os melhores interlocutores do país: 

“Conversamos não procurando falar o tempo todo mas ouvir metade do tempo. Assim calamos e estamos usando o outro termo do papo que é prestar atenção. É por isso que somos os melhores interlocutores do Brasil. Nunca ficamos no eu eueu insuportável. Gostamos da segundo pessoa e ressalvamos sempre seu amor próprio quando elogiamos terceiros. Mal comparando. Sem desfazer nos presentes. E não chateamos, despedimos, logo: vamossimbora. Até outro dia, o senhor desculpe qualquer coisa.” (Chão de Ferro, 1976, p. 295) 

Desvelava também seu fascínio pelo Rio de Janeiro: 

“Esse encanto pelo Rio, eu o encontro em cada bairro que morei. (...) Desde meu nascimento subindo e descendo o Caminho Novo – morei vinte anos em Minas. Dois, em São Paulo. Finalmente, cinquenta e três nesta Muy Leal e Heróica. Sou mineiro dos que dizem – mineiro graças a Deus! Mas por minha Mãe tenho origens paulistas, montanhesas, baianas e cearenses. Por meu Pai, maranhenses e outra vez cearenses. Sou um brasileiro integrado na tricomia da raça. Com tantos sangues provincianos de que me orgulho tenho aspiração a mais: quero ser ainda – carioca amador.” (Galo-das-Trevas, 1981, p. 6)

De jabuticabas e rum creosotado 

Selecionei ainda passagens pitorescas das memórias de Nava. Quem viveu a infância no interior de Minas Gerais, conhece o prazer de saborear jabuticabas ao pé das jabuticabeiras. Pedro Nava resgatou a meninice e as árvores no quintal da casa da avó materna Inhá Luísa, em Juiz de Fora:

“Eram ‘hors-concours’, eram gigantescas. Tinham tratamento o ano inteiro. Poda especial. Galho seco catado. Adubo de todo o restolho da cozinha que ia para o redor de suas raízes, de mistura com estrume. As folhas e jabuticabas que caíam, as cascas e os caroços das que eram chupadas durante as ‘barrigadas’ eram varridas para junto do tronco, ali fermentavam, destilavam o resíduo que entrava terra adentro com a água das chuvas. Esses tratos faziam das árvores da Inhá Luísa verdadeiros fenômenos da terra de promissão. Quando era tempo, as frutas negras e lustrosas se comprimiam desde rente ao chão. Tronco e galhos ficavam parecendo cabeças cheias de cachos noturnos, como os da prima Crisólita, como de minha tia Risoleta, como os de São Filipe Apóstolo no plano inferior da ‘Transfiguração’ do Rafael, da Pinacoteca do Vaticano.” (Balão Cativo, 1973, pp. 25-26)

Desfiou seu humor obsceno na transcrição de trovinha sobre parentes de Juiz de Fora, na primeira década do século 20 (Balão Cativo, 1973, p. 32): 

“Estas são aquelas Souzas, /Parentas daqueles Alvas, /Que gostam daquelas cousas, /Que têm as cabeças calvas...”

Rememorava saudoso os bondes do Rio, no início do século 20 (Balão Cativo, 1973, pp. 25-26):  

“Saudade dessas idas à cidade com tio Salles... Saudade do Rio Velho, do Muda, do Tijuca em que voltávamos para casa ao calor da tarde. Saudade do bonde cheio de anúncios. Lá estava o de que eu gosto mais. “‘Veja ilustre passageiro, O belo tipo faceiro, Que o senhor tem ao seu lado. E entretanto acredite, Quase morreu de bronquite! Salvou-o o RUM CREOSOTADO!’” 
Em Beira-Mar, conta que o ex-governador mineiro Milton Campos tinha pavor de viajar de avião. Certa vez, voando durante uma tormenta, a aeromoça perguntou se estava com falta de ar. Milton respondeu:  
— O que estou é com falta de terra.

Memória e futuro 

Para concluir, a relevância da obra memorialística é exaltada pela notável historiadora mineira Lucilia de Almeida Neves Delgado (Aldeia Universal, 14.05.2011):

São múltiplas as possibilidades de diálogo da história com a memória, pois ambas visitam o passado a partir do presente. A história é construção de conhecimento sobre o tempo pretérito. Já a memória nutre vivências individuais ou coletivas com lembranças ou esquecimentos. Inúmeros objetos ou lugares da memória, como fotografias, móveis, músicas, revistas, jornais, filmes, museus, edificações, monumentos, cartas e literatura, tornam-se, não raras vezes, fontes especiais para elaboração do saber histórico. 
A literatura, quando instruída pela memorialística, é esteio inesgotável, tanto para o registro de experiências, como para expressão de características de tempos históricos específicos.
Arremata Afonso Arinos de Melo Franco (Afonso Arinos na UnB, 1981, p. 24) com a infuência das gerações antigas sobre as gerações mais novas:
Eu tenho esperança de que essa nossa experiência, meditada, estudada, criticada, mais compreendida, será o elemento com que vocês vão contar no futuro para enfrentar os outros problemas que se denunciam no nosso horizonte, problemas que eu não consigo ainda desvendar no mistério do amanhã, mas que consigo apreender pela sua espantosa realidade. (...) 
O que vale é explicar, é entender por que esses homens de 60 anos para cima viveram, sofreram, experimentaram, enfrentaram o desconhecido e como elaboraram, como compreenderam, como disciplinaram, como sintetizaram os elementos díspares dessas modificações e confundiram-nas num amálgama nacional, ao mesmo tempo retensivo do que é necessário ser retido no nosso País, para que ele não exploda numa série de faíscas inoperantes de conflitos sem solução, mas que não cesse o caminho para o desenvolvimento e as transformações do futuro.”

 

II. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

 

Afonso Arinos na UnB: Conferências, comentários e debates de um Seminário realizado de 07 a 09 de abril de 1981. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981. 

Arquivo Pedro Nava, acervo de Pedro Nava na Casa de Rui Barbosa; disponível em http://pedronava.clientes.tecnopop.com.br/linha.php, captado em 06.06.2011. 

DaMATTA, Roberto: A fonte da juventude, jornal O Estado de S. Paulo, edição de 08.06.2011, caderno Cultura. 

DELGADO, Lucilia de Almeida Neves: Aldeia Universal, jornal Estado de Minas, Belo Horizonte, edição de 14.05.2011, caderno PensarBrasil. 

LE MOING, Monique. A Solidão Povoada – Uma Biografia de Pedro Nava. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996. 

NAVA, Pedro. Balão Cativo – Memórias 2. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973. ____________: Baú de Ossos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 6ª Ed., 1983.  
____________: Beira-Mar – Memórias 4. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978. ____________: Chão de Ferro – Memórias 3. Rio de Janeiro: José Olympio, 2ª ed., 1976. ____________: Galo-das-Trevas – Memórias 5. Rio de Janeiro: José Olympio, 3ª ed., 1981. 
____________: O Círio Perfeito – Memórias 6. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 3ª ed., 1983. 

PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. São Paulo: Abril Cultural, trad. Mário Quintana, 1982. 

SKIDMORE, Thomas. Brasil: De Getúlio a Castelo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 6ª ed., 1979. 

VENTURA, Zuenir. Minhas Histórias dos Outros. São Paulo: Planeta, 2005. 

NOTA DO AUTOR: O exemplar de Beira-Mar, quarto volume das memórias de Pedro Nava, extraviou-se em uma das muitas mudanças que a carreira de magistrado me impôs. Todavia, conservei os trechos aqui citados em anotações de meus arquivos, embora sem menção às páginas da obra das quais foram transcritos.

terça-feira, 28 de julho de 2026

NOITE DE TEMPORAL

 Por DANILO GOMES

“Outrora, no meu tempo de menino, como era bom quando chovia assim, interminavelmente. (...) Chove sobre esse passado. Os olhos úmidos procuram as ruas que pareciam estradas. Os ouvidos em vão tentam surpreender as vozes que contavam histórias de dilúvios. Chove sobre túmulos. As árvores estão pesadas das grandes chuvas intermináveis e monótonas.” (Augusto Frederico Schmidt: “As Florestas  páginas de memórias”.)
 
Volto ao tempo das lamparinas a óleo, dos lampiões de querosene em noites bem escuras, em que a luz elétrica pifa, “vai embora”. Já era uma luz mortiça, amarelada, e agora apagou de todo. Noites de chuva forte. Os mais velhos anunciavam : “É chuva para três dias, chuva de invernada”... Era uma noite assim, agora, mais uma vez, me recordo. Meu pai dizia: “um temporal medonho”. Não deixava de ser. Esse medonho temporal açoitava minha então pequena cidade de Mariana. Viajo no tempo. É um ano de antigamente. Talvez 1949, agora só Deus sabe ao certo. Pode ser 1948, tempo do Presidente Eurico Gaspar Dutra. Deposto em 1945, Getúlio Vargas se enfurnou nos seus pagos gaúchos, em Itu, Santos Reis e depois São Borja, tomando chimarrão na cuia (porongo) quente, olhando a natal savana verde e aguardando o giro da Roda do Destino. Ele, Getúlio, voltará ao Palácio do Catete, para lá morrer com um tiro no peito, dado por ele mesmo. Mas isso só na manhã de 24 de agosto de 1954. 
 
Volto a Mariana. Ainda estamos em 1948, talvez 1949. As chamas dos lampiões alumiam a escuridão. Ventos fortes, trovoadas ruidosas, muitos raios  raios do outro mundo. 
 
Um lampião alumia o corredor que vai dar na cozinha, onde brasas ainda crepitam no fogão; linguiças penduradas, defumando. Não existem forno elétrico, geladeira, televisão, garrafa térmica. Na parede, um velho telefone raramente usado. O rádio é um grande Telefunken, cheio de ruídos, na sala grande. Na despensa, grandes latas de banha de porco. 
 
Do Barro Preto ao Alto da Igreja de São Pedro e até o bairro de nome Chácara, o toró inunda toda a cidade, fundada como arraial em 1696. 
 
O temporal continua. Invocam-se São Jerônimo e Santa Bárbara, a cada trovão. Deve ser coisa de dez horas da noite. Os meninos (ainda somos três) estão agitados. A mãe, Dorita, e a velha empregada, Maria Augusta, de apelido Baía (corruptela de seu nome), rezam. Primeira ordem unida contra raios: não tocar em garfos, facas, colheres, chaves de fenda, nada que atraísse descargas elétricas vindas do espaço carregado. O pai, de pijama, fuma um forte cigarro Douradinho Extra. Ou Caporal Douradinho. Ou, talvez, Continental. Ele estava lendo uma revista, quando a luz elétrica foi para o beleléu, o que todos já esperavam. E as invocações hagiológicas continuavam, como proteção garantida: “São Jerônimo!”, “Santa Bárbara!” Palmas de Santa Rita nos corredores. A chuva trouxe o frio. 
 
A tempestade abrandou um pouco. O aguaceiro diminuiu, mas não parou. Contudo, ainda se ouviam trovões. 
 
Foi quando bateram na porta da rua. Pancadas fortes. Quem será, a essa hora e com essa chuva? Meu pai foi abrir a porta; eu fui atrás, filho mais velho, curioso. 
 
Meu pai abriu a porta. 
 
Todo molhado, surgiu Calixto, o conhecido bombeiro-encanador, que fazia serviços por toda a cidade. Afrodescendente, grande bigode, baixinho  e bêbado, como sempre. Foi logo dizendo, com voz grossa, quase ameaçadora: 
 Daniel, vim te dar uma facada! 
 
Levei um susto, um choque. Segurei a perna de meu pai, apavorado com aquela história de facada. Até hoje me lembro. A facada de Calixto, na noite escura de “temporal medonho”. Por certo comecei a chorar, esperando que o bêbado fizesse a loucura de puxar da cintura um punhal, uma faca mortal. “Daniel, vim te dar uma facada!” 
 
A custo meu pai me sossegou. Não, Calixto só veio pedir um dinheiro “emprestado”, por certo para tomar mais umas pingas, no boteco de Geraldo Faísca, perto da Pensão Souza, quase na beira do Ribeirão do Carmo. Certamente meu pai o atendeu, e ele , com uns dez mil-réis no bolso, saiu na chuva, meio “sambado... 
 
Até hoje, quase oitenta anos depois, ainda vejo Calixto na minha frente, naquela noite tenebrosa, de raios, trovões, aguaceiro. A invisível faca mortal de Calixto como que ainda me assombra, no tempo da velhice. Está lá, no subconsciente, não sei onde, nas profundezas da alma, subterrâneos de Freuds e Jungs. Uma faca, um facão, um punhal, uma arma branca toledana, uma cimitarra de Damasco ou de Bagdad, dos tempos das Mil e Uma Noites... Mas era só o pobre Calixto, bêbado, numa noite de tempestade...

domingo, 12 de julho de 2026

UMA BOA LEMBRANÇA

Por JOSÉ MINDLIN *

O bibliófilo e colecionador José Mindlin remexeu na memória e nos guardados de estimação para compor esta eloquente página a uma amizade "de encontros intermitentes, mas sempre cordiais". 
Transcrevemos, com a devida vênia da revista de cultura Verbo de Minas, publicação do Programa de Pós-Graduação do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, vol. 3, nº 5, out. 2021, pp. 19-20. A edição da revista tem título próprio: Memórias mineiras e outros textos: Pedro Nava. Originalmente foi um  artigo intitulado "Nava, baú de esboços",  publicado em D.O. Leitura (publicação cultural da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), em número especial, publicado no ano 18, nº 9, set. 2000, pp. 28-31 . 

Pedro Nava (✰ Juiz de Fora, 1903 ✞ Rio de Janeiro, 1984)

 

Desde meus tempos de advocacia  lá vão mais de 60 anos!  sempre achei muito precário a prova testemunhal. Tenho experiência de que versões incorretas de fatos passados podem ser feitas na melhor boa-fé. E não sou, nem de longe, o único a pensar assim. Basta lembrar de Rashonon, o admirável filme de Kurosawa. 
 
Faço essa ressalva porque tenho dúvidas sobre como começou minha amizade com Pedro Nava. Creio que o conheci, nos anos 70, em casa do Plínio Doyle, nos famosos "sabadoyles", que ele e Drummond frequentavam, mas aí o contato foi superficial  lembro-me de ter-lhe mandado, a pedido de Drummond, um exemplar da edição fac-similar da Revista de Antropologia, que publiquei em 75 comemorando o 25º aniversário da Metal Leve. Mas quem nos aproximou, à minha mulher e a mim, de Nava, foi pouco depois disso, Francisco de Assis Barbosa, nosso querido e saudoso Chico. Disso tenho quase certeza, pois foi Chico que nos apresentou, em 77, a Urania e Fernando da Rocha Peres, de Salvador, de quem nos tornamos grandes amigos, e que por sua vez tinham grande amizade por Nava. Nessa ronde, não me lembro como entrou, em relação ao Nava. Rachel Jardim, também amiga dele e de Chico, mas lembro de um jantar em casa de Rachel, mais ou menos na mesma época, proporcionando-nos um bom papo com Nieta e Nava. Com Rachel Jardim estou quase certo que a amizade começou por iniciativa nossa, quando lançou seu primoroso Os Anos 40 em Guaratinguetá, e fomos ao lançamento para conhecê-la. 
 
Como se vê, confusões são fáceis de fazer, e difíceis de destrinchar... 
 
O fato é que, nesses últimos anos da década de 70, e primeiros de 80, Drummond, Nava, Chico, Ubarina, Fernando Peres, Rachel Jardim e nós tínhamos nos tornado bons amigos. 
Com Drummond a amizade se estreitou em 76/77, quando fiz uma edição de arte do poema "A Visita", inédito. Com Nava os encontros formais mais intermitentes, mas sempre cordiais. Quando, em 1983, ele festejou 80 anos, Fernando Peres e eu publicamos, em tiragem limitada, uma Louvação Poética a Pedro Nava, reunindo as poesias que serviram de epígrafe aos seus livros de memórias, e para a qual Drummond escreveu especialmente um soneto de abertura, que é o seguinte: 
 
PEDRO (O MÚLTIPLO) NAVA 
 
Tantas vezes corri ao Dr. Nava 
em demanda de alívio, e ele acudia. 
De seu saber, minh'alma fez-se escrava, 
e o corpo, devedor com alegria. 
 
Do moço Nava a poética palavra 
que em cadências modernas se expandia, 
admirei, e no peito ainda se grava 
um certo poema seu, que me arrepia. 
 
Nava pintor e Nava desenhista 
esquivo, agudo, exato, surpreendente, 
quem nos seus traços não consola a vista? 
 
Esse querido Nava, simplesmente, 
de nosso tempo fiel memorialista, 
é mistura de santo, sábio e artista. 
 
Réplicas em tamanho natural em bronze de Carlos Drummond e Pedro Nava na Rua da Bahia em BH
 
 
Meu exemplar da "Louvação" traz as seguintes dedicatórias: 
 
A um amador de livros e editor bissexto de raridades: 
Neste volume se grava 
exemplo a ser imitado. 
Após louvar Pedro Nava, 
que Mindlin seja louvado! 
 
Carlos Drummond de Andrade 
Rio, 5 de junho, 1983 
 
A caríssimo Mindlin 
A quem devo essa Louvação 
E a quem por isso louvo também  
Esse é o primeiro exemplar dado (de todo coração)  
do 
Pedro Nava 
 
No curso da amizade com Nava, dele recebi um exemplar de uma edição de apenas 50 exemplares do poema "O Defunto", e ele, a meu pedido, ainda fez uma excelente introdução à edição fac-similar de "A Revista", que Drummond publicara nos anos 20. Foram poucos anos de amizade, mas foi muito afetuosa, e para mim inesquecível. 
 
Insisti muitas vezes com Nava para que fizesse também em São Paulo o lançamento de seus livros, e ele sempre arranjou uma desculpa para não vir. Lembro-me de um telefonema que dei sobre isso, em que ele me disse que gostaria muito, mas que Nieta, sua mulher, tinha medo de avião, o que tornava a viagem difícil. "Posso falar com Nieta?", perguntei. "Isso não", disse Nava, "porque de repente ela aceita". Aí têm os leitores uma boa mostra do jeito de Pedro Nava. 
 
Nosso último encontro deu-se poucos dias antes de sua morte. Dessa vez ele tinha vindo receber o Prêmio Jabuti, e fizemos um jantar em casa, só com amigos mineiros. Dois dias depois embarcávamos para Lisboa, e lá recebemos, pouco depois, a triste notícia do que tinha acontecido.
 
* Bibliófilo, colecionador, editor e empresário, jornalista e advogado. Em 1930, trabalha como repórter e redator do jornal O Estado de S. Paulo e, dois anos depois, ingressa na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde conhece sua esposa, a especialista em restauração de livros e editora Guita Mindlin (1916 - 2006). Formado em 1936 pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, advogou até 1950, quando foi um dos fundadores e presidente da empresa Metal Leve S/A. Assume a vice-presidência da Congregação Israelita de São Paulo - CIP, na década de 1940, e presta auxílio aos judeus perseguidos pelos regimes fascistas vigentes em alguns países europeus.De interesses muito diversificados, tanto no campo cultural, como da educação, da economia, da política (não partidária), da ciência e da vida empresarial, vem atuando há muitos anos em todos esses setores. Faz parte de numerosos Conselhos e entidades, no Brasil e no exterior (FAPESP, FIESP, secretário na Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia de SP, Conselho do CNPq, Conselho Internacional da FIAT, do Unibanco e do Banco de Montreal, etc.). Foi membro colaborador da Academia Brasileira de Ciências e de vários museus. Recebeu título de Professor Honorário da EAESP-FGV, da UnB, da UFBA, UFT e USP. Eleito, em 1999, membro da Academia Paulista de Letras. Em maio de 2006, o casal Guita e Mindlin fez a doação de cerca de 15 mil obras da Biblioteca Brasiliana para a USP. Quinto ocupante da cadeira 29, eleito em 20 de junho de 2006, na sucessão de Josué Montello, e recebido em 10 de outubro de 2006 pelo Acadêmico Alberto da Costa e Silva. É o autor de Uma Vida entre Livros – Reencontros com o tempo e Memórias Esparsas de uma Biblioteca. Lançou em 1998 o CD O Prazer da Poesia. Faleceu em São Paulo em 28 de fevereiro de 2010.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Na morte de JOSÉ VAN DEN BESSELAAR

 Por FRITS SMULDERS *

Transcrevemos, com a devida vênia da revista COLÓQUIO/Letras. Letras em Trânsito, matéria publicada no nº 125/126, Jul. 1992, p. 336.
 
A 20 de Junho de 1991 faleceu com a idade de 75 anos, na cidade de Nijmegen, onde residia, o lusitanista holandês José van den Besselaar. Com uma obra conhecida tanto em Portugal como no Brasil, o seu nome será o mais das vezes associado, e com razão, ao estudo da obra de António Vieira. Contudo, o investigador assinou dezenas de publicações em numerosas outras áreas. 
José van den Besselaar nasceu a 17 de Março de 1916 em Valkenswaard, no Sul da Holanda. Em 1940, já durante a ocupação alemã, formou-se em Estudos Clássicos na Universidade de Nijmegen. A tese de doutoramento  sobre o monge e político romano Cassiodorus Senator  estava pronta em 1943, mas teve de esperar o fim da guerra para ser defendida. As suas publicações dos anos seguintes mostram-no um defensor dos Estudos Clássicos. Traduz sermões de, entre outros, Leandro de Sevilha e Martinho de Braga, e escreve um desenvolvido curso de Grego. 
Em 1950, toma uma resolução que seria decisiva na sua vida: parte para o Brasil, com o propósito de ensinar línguas clássicas numa colônia holandesa de São Paulo. O fim de sua estada de onze anos no Brasil vê-lo-ia catedrático de Filologia Latina em Assis, após uma carreira de docente de línguas clássicas noutras universidades. Data de 1956 a publicação de uma Introdução aos Estudos Históricos ¹, que viria a ter em 1980 quinta edição. Esta obra metodológica teve continuação, ainda nos anos 50, nos dois volumes de As Interpretações da História através dos Séculos. A esta mesma época se reporta um curso de morfologia e sintaxe latina, Propylaeum Latinum ² (São Paulo, 1961). A sua expressão em língua portuguesa já então prima por notória transparência e propriedade, qualidades que haverão de intensificar-se. 
De regresso à Holanda, José van den Besselaar torna-se o primeiro docente de língua e literatura portuguesa da Universidade de Nijmegen. Catedrático em 1967, pronuncia uma lição inaugural sobre "António Vieira e a Holanda", publicada em 1971 na Revista da Universidade de Lisboa. Seguem-se inúmeras publicações de interesse clássico ou relativas a temas brasileiros e, cada vez mais, portugueses. Ficará célebre o vasto estudo Brazilië: ontwakende reus in de tropen (Brasil: Gigante que Desperta nos Trópicos), de 1963, que viria a conhecer em seguida duas edições alemãs. O vivo interesse pelo Brasil e a capacidade de olhá-lo de perto animam o autor a não ocultar, onde necessário, aspectos incômodos da sua experiência brasileira. 
António Vieira vai ocupar, desde então, intensamente Van den Besselaar. E não só Vieira  o escritor, o diplomata, o missionário, o teólogo, o militante social  como também o mundo em que estava imerso, particularmente o do profetismo, temática que sobre todas o atrai. O melhor de si põe-no na prestigiosa edição da História do Futuro (Münster, 1976). O primeiro volume contém o texto do "Livro Anteprimeiro', com aparato crítico e uma introdução histórico-textual. O segundo é um extenso comentário onde o excelente conhecedor da antiguidade latina e cristã localiza exaustivamente fontes e referências de Vieira. Deste estudo sairá mais tarde, em 1983, uma editio minor, aos cuidados da Biblioteca Nacional de Lisboa. Para público menos especializado, escreveu ainda o volume da Biblioteca Breve António Vieira: o Homem, a Obra, as Ideias, com que pretende prosseguir a obra, que aliás admira, de João Lúcio de Azevedo, a impressionante História de António Vieira
A sua actividade universitária, encerrou-a em 1984 com uma última lição que intitulou "Bandarra, Sapateiro e Profeta de Trancoso". Aí afirmava:
O profetismo é uma tentativa de dar sentido à história dum povo ou da humanidade. Sempre me interessou examinar como é que essa tentativa tomou forma na história cultural do Ocidente.
E o crente José van den Besselaar finalizava:
Desejo terminar esta lição com uma variante a uma afirmação de Vieira. Passando a vista sobre o que foi a minha vida, acho nela razões para rir ou para chorar, para me espantar ou para me embravecer, mas sobretudo para estar grato a Deus por todo o bem que me deu. Com o subir dos anos, cresce de fato o meu convencimento de que quase tudo numa vida humana é graça, bem pouco mérito próprio.

 

* Editor, nasceu em 1959. Estudou Português e Direito Internacional na Universidade Católica de Nijmegen e Direito Holandês na Universidade Católica de Tilburg. Autor da tese de doutoramento apresentada à Universidade Católica de Nijmegen, Holanda, intitulada ANTÓNIO VIEIRA: Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda, que teve como orientador José van den Besselaar e com a qual obteve o grau de doutor. Trabalhou como tradutor e revisor para a União Europeia em Bruxelas e, atualmente, ocupa um cargo de gestão no Instituto Europeu de Pesquisa Ferroviária da União Internacional de Ferrovias, em Utrecht, nos Países Baixos.

 
 
II. NOTAS EXPLICATIVAS do gerente do Blog
 
¹ Possuo a 4ª edição revista e ampliada (São Paulo: EDUSP, 1974, 340 p.) 

² Possuo o Propylaeum Latinum (São Paulo: Editora Herder, 1960) que se compõe de dois volumes: o primeiro (abrangedo a sintaxe latina superior com 442 páginas) e o segundo, leitura-exercícios-vocabulário com 304 páginas. Nesta obra, Besselaar adaptou uma vertente germânica da gramática latina tradicional e utiliza noções e procedimentos oriundos da linguística histórico-comparativa para a didática do Latim.

 

III. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

 

BECCARI, Alessandro: José van den Besselaar (1916-1991) e seu Propylaeum Latinum, Curitiba: Revista Letras, UFPR, nº 104, pp. 125-144, jul/dez 2021
Link: https://revistas.ufpr.br/letras/article/view/80236/45501

BRAGA, Francisco J.S.: A MESTRA DA VIDA, texto retirado do capítulo VI do livro Introdução aos Estudos Históricos, 4ª edição, São Paulo: EDUSP, 1974, pp. 103-114 e publicado no Blog de São João del-Rei, em 24/01/2024
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2024/01/a-mestra-da-vida.html

FREIRE, José Geraldes: In memoriam de José van den Besselaar (1916-1991), in NOTÍCIAS E COMENTÁRIOS - Universidade de Coimbra (disponível na Internet)

SMULDERS, Frits: Na Morte de José van den Besselar, in Revista Colóquio | Letras. Letras em Trânsito, nº 125/126, Jul 1992, p. 336.

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

ADEUS, DONA NÍDIA, AUTORA DE VERSOS IMORTAIS!


Por Fagner Dias *
 
Nídia Maria da Costa Reis (✰ Prados-MG,  21/11/1932 ✞ 24/04/2026) 

 
Dona Nídia fez sua última e mais longa viagem. Partiu para morar no céu, em sua derradeira jornada mais longa até do que aquela que a levou a Paris, à lendária faculdade parisiense, a Sorbonne.
 
Foi-se, porque não há outro caminho, nem outro destino: é preciso ir ao encontro do Criador. 
 
Após quase um século de vida, Dona Nídia que foi filha, irmã, esposa, mãe, avó encerra na terra os versos de uma linda história. Fez uma pausa em suas rimas, mas não no legado que deixa.
 
Gravou seu nome na história. Com seus versos, contou a história de Prados, que o também saudoso Paulo de Carvalho Vale mandou cunhar em bronze e, no alto do Cruzeiro, imortalizou em uma placa histórica. 
 
Agora, livre das mazelas que a idade avançada lhe trouxe, Dona Nídia recebe de Deus o prêmio reservado aos bons e aos justos.
 
As Escrituras dizem que no céu há uma festa que nunca se acaba. E, com sua poesia e seus versos que em vida encantaram a todos nós, Dona Nídia agora há de fazer um sarau no céu. 
Uma lady, uma grande dama, de lenços e broches: assim nos lembraremos de Dona Nídia na escola, na igreja, na música, na poesia, em Prados, em nossas casas, em nossas memórias e na história da cidade.
 
Na despedida de Dona Nídia Costa Reis todos nós, tornamos-nos um pouco mais pobres , carentes de requinte, de beleza  de nobreza pois Dona Nidia foi sinônimo e referência de tudo isso e Prados tem essa dívida de gratidão por ela em sua memória. 
 
E, quando formos a Paris, lembraremos desta senhora que soube, ao longo da vida, escrever uma história tão linda. 
 
E entre os seus versos escreveu também o Hino de Prados com uma inspiração divinal.
 
“Galopa, a vida... é para o céu que nós vamos.” 
 
 
II. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 

 
ALVES E COSTA, Átila: Colaborador na Biografia de Antônio Américo da Costa, publicada no Blog de São João del-Rei em 6/01/2020
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2020/01/colaborador-atila-alves-e-costa.html

BRAGA, Francisco J.S.: A PORFIA DAS FLORES, OPERETA DE ANTÔNIO AMÉRICO DA COSTA, texto publicado em 7/01/2020
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2020/01/a-porfia-das-flores-opereta-de-antonio.html

_____________________: NÍDIA MARIA DA COSTA REIS, EDUCADORA E ESCRITORA PRADENSE, texto publicado em 30/04/2021
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2021/04/nidia-maria-da-costa-reis-educadora-e.html