quarta-feira, 30 de setembro de 2026

A consciência da morte como pontapé da Filosofia

Por Farias Brito *


Transcrevemos o ensaio que constitui a seção I da Introdução ao 1º volume de Finalidade do Mundo, Rio de Janeiro: ANL (MEC), 1957, pp. 13 a 19. 
O gerente do blog dedica o presente post a José Cimino, presidente da Academia Mantiqueira de Estudos Filosóficos-AMEF, de Barbacena.

Raimundo de FARIAS BRITO (✰ 1862, São Benedito (CE) ✞ Rio, 1917)


 
I. INTRODUÇÃO pelo gerente do Blog
 
A Seção I da Introdução do livro Finalidade do Mundo funciona como o manifesto metodológico de Farias Brito, estabelecendo a premissa de que a morte é a única certeza humana. O autor resgata a máxima socrática de que "filosofar é aprender a morrer" para despertar a consciência do leitor para a finitude da existência humana, contrapondo-se à ilusão cotidiana de imortalidade. Na sua exposição do tema, Farias Brito estabelece o tom dramático e existencial de sua filosofia ao abrir com a máxima "filosofar é aprender a morrer". 

Farias Brito foi inovador porque ousou ser o único grande pensador brasileiro de sua geração a romper com o cientificismo absoluto, com o positivismo de Augusto Comte, com o evolucionismo de Herbert Spencer e com o materialismo. Antecipou o existencialismo no Brasil, colocando a angústia, a dor, o sofrimento e a inevitabilidade da morte no centro do debate filosófico brasileiro. Além disso, inovou ainda, ao propor que o conhecimento verdadeiro não começa nos objetos externos examinados pelo microscópio, mas sim no estudo rigoroso da própria consciência. Ele foi ainda inovador ao propor o conceito de Filosofia pós-científica: a ideia de que, após as descobertas da ciência, cabe à filosofia intervir para dar a essas descobertas uma direção moral, impedindo que o progresso técnico se transforme em barbárie e egoísmo destrutivo. Foi  finalmente um dos primeiros a importar de forma madura o pensamento de Arthur Schopenhauer e a filosofia da intuição de Henri Bergson para o ambiente acadêmico brasileiro, temperando o pessimismo schopenhaueriano com a moralidade espiritual para criar um sistema próprio: o diagnóstico de que o mundo físico é doloroso e serve exatamente como o combustível que nos obriga a buscar a elevação espiritual e ética. 
 
 
II. Seção I da Introdução ao 1º volume do livro FINALIDADE DO MUNDO
 
Filosofar é aprender a morrer: são palavras de Sócrates. E começando o presente trabalho por esta luminosa ideia do mais puro dos pensadores antigos, não tenho em vista outra cousa, senão tornar desde logo bem patente quanto nos deve preocupar o nada da existência humana. Vivemos todos como se fôssemos imortais. Entretanto a morte é a única solução verdadeira do problema da vida. É assim que nossa atividade se desenrola sob mil formas: pensamos e trabalhamos e nosso pensamento e nosso trabalho constituem uma luta constante, uma reação permanente contra inumeráveis influências externas e internas; mas ao mesmo tempo que vamos pelo esforço de cada dia acumulando elementos para o combate da vida, vamos do mesmo modo caminhando invariavelmente para a morte. 
 
Em nossas relações ordinárias, no exercício comum de nossa atividade, vivemos sempre como se nunca tivéssemos de morrer, consideramos as coisas como se nossa vida tivesse de ser eterna; mas nisto somos vítimas de uma ilusão permanente: e consultando a experiência, interrogando a realidade brutal que a todos irresistivelmente se impõe, o que há de incontestável sobre a vida é isto: a vida é um combate de que só se pode sair vencido, porque toda a vida termina inevitavelmente na morte. 
 
Neste caso para que viver? Para que vir ao mundo, contemplá-lo um momento e desaparecer na voragem do tempo, sem saber o que somos, nem a que viemos, ignorando a significação de tudo o que nos cerca, desconhecendo o papel que representamos, arrastados pela corrente inexorável da fatalidade, sujeitos à miséria e à dor?
 
A natureza é maravilhosamente imponente e em sua opulência inesgotável sentimos que se desdobra com majestade infinita por cima de nossas cabeças: mas tanto maior se revela quanto mais inflexível se mostra, cruel para com os fracos, ilusória contra os fortes, terrível contra todos. O espírito sente-se amesquinhado em contemplá-la. Cada estrela é um sol: cada constelação, um sistema de estrelas. O espaço e o tempo constituem o cenário ilimitado em que se representa o drama universal, o oceano em que se move o mundo; e é pelo atrito passageiro das forças neste oceano eternamente em jogo, que se desenvolve o ser vivo, que nasce o homem; mas unicamente para ser logo em seguida esmagado. 
 
Quando se diz de um corpo que se move: — ele vive —, logo se pode acrescentar: —morrerá. Morte — eis a verdade suprema. Morte — eis a palavra terrível com que facilmente se poderá abater o orgulho dos poderosos do mundo, indo tudo fatalmente terminar na lúgubre sentença: — Vaidade das vaidades, tudo vaidade. ¹ Omne vivum in pulverem. ²
 
Além disto, a vida, mesmo libertando-a da morte, será porventura uma coisa desejável, se é que semelhante libertação pode ser imaginada?
 
Consultemos todos aqueles que vivem, interroguemos todos aqueles que sofrem: ouçamos a linguagem dos leprosos, as queixas da miséria, as blasfêmias do crime. Em que consiste a vida? Ninguém vacilará em reconhecê-lo: viver é ser escravo das necessidades, é desejar, é sofrer. O primeiro grito da criança que nasce, é um grito de dor; e toda a vida, mesmo a mais risonha e venturosa, é uma tragédia. Todo o gozo é ilusório. É assim que se esforçam todos por conseguir a felicidade; mas a felicidade não é senão um sonho, sendo comprovada a cada instante pela experiência vulgar a palavra de Voltaire, quando afirma: "A dor é que é real", acrescentando em confirmação: "Há oitenta anos a experimento e não sei outra coisa senão resignar-me e dizer que as moscas nasceram para ser comidas pelas aranhas e os homens para ser devorados pelas aflições". ³ Ê o testemunho de um homem que se achava no último período da vida e que, aliás, não pode ser incluído no número dos infelizes, tendo sido mesmo em vida uma das glórias de sua nação, respeitado e adorado pelos contemporâneos. E todos, se quiserem dizer o que sentem, hão de falar do mesmo modo. O mais insignificante prazer não se consegue sem esforço e para muitos o prazer, fato negativo, não é senão a ausência da dor. E quantas vezes para uma ligeira volúpia de uns não se torna necessária a morte de outros? "Comparai", diz Schopenhauer, "os sofrimentos do animal comido com o prazer do animal que o come". Além disto o prazer passa rapidamente e de sua passagem nada mais fica além de uma recordação muitas vezes dolorosa; e a dor tudo destrói e aniquila. Mille piacer' non vaglion' un tormento, diz Petrarca. ⁴ "Há amargura até no meio da felicidade", diz Hettinger. ⁵ "Toda a biografia é uma patografia", diz Schopenhauer, cuja tese fundamental pode assim ser formulada: — A vida é sofrimento e a vida humana é a mais dolorosa forma da vida. 
 
É em desenvolvimento dessa tese que ele afirma: "Já, considerando a natureza bruta, temos reconhecido para sua essência íntima o esforço; um esforço contínuo, sem fim, sem repouso; mas na besta e no homem a mesma verdade brilha ainda com mais evidência. Querer, esforçar-se — eis todo o seu ser: é como uma sede inextinguível. Ora, todo o querer tem por princípio uma necessidade, uma falta, logo uma dor." E mais: "Este esforço incessante que constitui o fundo mesmo de todas as formas visíveis revestidas pela vontade, chega por fim no alto da escala de suas manifestações objetivas a achar seu princípio verdadeiro e mais geral: aí com efeito a vontade revela-se a si mesma em um corpo vivo que lhe impõe uma lei de ferro: a de nutri-lo; e o que dá vigor a esta lei é que este corpo é simplesmente a vontade mesma de viver, mas encarnada. Eis por que o homem, a mais perfeita das formas objetivas dessa vontade, é também e em consequência, de todos os seres o mais cheio de necessidades. Todo ele, vontade, esforço, inúmeras necessidades formam a substância mesma que o constitui." É fácil daí deduzir que o homem, de todos os seres o mais perfeito, é ao mesmo tempo e por isto mesmo de todos os seres o mais desgraçado. Primeiro cumpre-lhe tratar da conservação da própria existência, o que só por si importa "cuidados suficientes para encher toda uma vida de homem". Vem depois a necessidade de perpetuar a espécie. E sempre e por toda parte inúmeros perigos. E é assim que, lutando contra as enfermidades, contra a fome e contra a miséria, vencido em tudo, mas lutando sempre, prossegue o homem em sua peregrinação, de olhar vacilante, abandonado a si mesmo. Só no mundo, "incerto de tudo, exceto de suas necessidades e de sua escravidão". ⁶ E no meio de que trevas, de que perigos não passa esse pouco que nos é concedido de vida! — admira Lucrécio. ⁷
 
Eis como Schopenhauer nos descreve em resumo o quadro de vida: "O mundo humano é o reinado do acaso e do erro que aí governam tudo, as grandes e as pequenas cousas; ao lado deles, de látego na mão, marcham a tolice e a malícia; também se vê que tudo o que é bom tem dificuldade em vir à luz, que nada de nobre, nem de sábio chega a manifestar-se senão mui raramente; que ao contrário o inepto e o absurdo em fato de pensamento, o vulgar, o sem gosto em fato de arte, o mal e a perfídia em matéria de conduta, dominam sem ser repelidos senão momentaneamente. Em tudo o excelente ficar reduzido ao estado de exceção, de caso isolado, perdido em milhões de outros e se algumas vezes chega a revelar-se em alguma obra de duração, mais tarde, quando esta obra sobrevive aos rancores dos contemporâneos, fica solitária, igual a uma pedra do céu, que se conserva à parte, como um fragmento destacado de um mundo submetido a uma ordem diferente. ⁸ 
 
 
III. NOTAS EXPLICATIVAS
 
 
¹  Livro do Eclesiastes, 1, 2. (Nota do gerente do blog)

² Idem, 3, 20 e 12, 7. A frase "Omne vivum in pulverem" (que se traduz como "tudo o que é vivo retorna ao pó") não aparece exatamente com essas palavras em latim no texto bíblico. Ela é uma síntese filosófica posterior, muito associada a Farias Brito. (Nota do gerente do blog)

³ "Le bonheur n'est qu'un rêve, et la douleur est réelle ; il y a quatre-vingts ans que je l'éprouve. Je n'y sais autre chose que me résigner, et me dire que les mouches sont nées pour être mangées par les araignées, et les hommes pour être dévorés par les chagrins." (frase extraída da correspondência de Voltaire, especificamente da carta 9067, escrita em 1774). Acredita-se que ela tenha sido apropriada por Schopenhauer em sua obra-prima O Mundo como Vontade e Representação (no capítulo XLVI dos Suplementos) e então tenha chegado a Farias Brito, que vai utilizá-la para demolir conceitualmente o otimismo científico que dominava o final do século XIX e início do XX, época em que o cenário intelectual brasileiro era profundamente moldado pelo positivismo e pelo cientificismo materialista, que prometiam que a ciência, a técnica e a evolução biológica linear trariam a emancipação e a felicidade plena à humanidade, conceitos que chamava de um "entusiasmo ingênuo". (Nota do gerente do blog)

⁴ De novo, Farias Brito transcreveu o verso de Petrarca constante do Soneto 231 do Canzoniere, que tinha sido usado por Schopenhauer para fundamentar seu pessimismo, provando que a dor tem um peso existencial muito maior do que a alegria. O contexto usado por Petrarca no soneto foi outro: ali ele refletia sobre sua própria sina amorosa em relação à sua musa Laura. Ele expressa que, embora outros amantes pudessem parecer ter mais sorte no amor, as dores e tormentos que ele próprio enfrentava por sua paixão eram tão intensos que nenhuma quantidade de prazeres mundanos poderia compensá-los. (Nota do gerente do blog)

⁵ Franz Hettinger foi um pensador cristão famoso que escreveu essa frase em sua célebre obra de teologia e apologética Apologia do Cristianismo. Farias Brito a utiliza lado a lado com a afirmação de Schopenhauer ("Toda biografia é uma patografia"), construindo um "mosaico do pessimismo" para provar que tanto pensadores cristãos profundos (como Hettinger) quanto ateus convictos (como Schopenhauer) concordavam que a existência terrena é marcada pela dor e pela insatisfação crônica. (Nota do gerente do blog)

⁶ SCHOPENHAUER. O mundo como vontade e como representação, liv. 4 § 57.

⁷ Lucrécio escreveu essa célebre passagem em sua única e mais famosa obra: o poema filosófico De Rerum Natura (conhecido em português como Sobre a Natureza das Coisas). Seus versos originais em latim encontram-se no Livro II (versos 15-16): "Qualibus in tenebris vitae quantisque periclis/ degitur hoc aevi quodcumque est!" (Nota do gerente do blog)

⁸ SCHOPENHAUER. Ob. cit., liv. 4 § 59. 
 
 
* Escritor e filósofo brasileiro, sendo considerado como um dos maiores nomes do pensamento filosófico do país e autor de uma das mais completas obras filosóficas produzidas originalmente no Brasil, voltada à metafísica tradicional, de caráter espiritualista. Francisco Elias de Tejada o aponta como "o maior pensador político do primeiro século do Brasil independente", e sua obra como "o ponto de partida para uma interpretação do nacionalismo brasileiro". Para Plínio Salgado, Farias Brito foi uma das influências mais importantes do integralismo brasileiro. Vitorino Félix Sanson argumenta que Brito professava o estoicismo: "estóicos são os seus conceitos de Filosofia e de Metafísica, a sua metafísica da natureza e do homem, a sua demonstração da existência de Deus, a sua concepção da essência divina e da religião". Jackson de Figueiredo, seu maior discípulo, dizia que Brito foi um grande crente que em toda a vida ignorou o seu próprio cristianismo íntimo. 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O CHINÊS DE MARIANA

 Por DANILO GOMES


 
Quando eu era menino, em Mariana, MG, na década de 194O e início da de 195O, lá vivia um senhor chinês, magro, de complicada e fina fala sino-mineira. Ninguém lhe sabia o nome nem de que cantão do velho Império viera. Todos o chamavam de China. Vendia coisas, legumes, frutas, miudezas, que trazia em duas cestas, penduradas num varal que lhe assentava às costas curvadas. Magrinho, baixinho, todo cortesias. Era uma figura popular, pelo exotismo oriental, pela fala enviesada, pela gentileza do trato pessoal. Ôi, China? Lá vem o China vendendo suas coisas. Boa tarde, China! China, o que você vende hoje aí? 
Tenho hoje 83 anos e nove meses. Esses dias, lendo o livro Marília e Dirceu – Genealogia e Diversos, de Waldemar Rodrigues de Oliveira Leal, de 1977, da Expressa Artes Gráficas, de Belo Horizonte, encontrei esta passagem, à pág. 7:
“Passeando pela vetusta Ribeirão do Carmo, hoje Mariana, vi uma quitanda, onde entrei para comprar laranjas. Chamou-me a atenção o tipo oriental do vendeiro, perguntei-lhe se era japonês. Respondeu-me que era chinês, bem do interior da velha China. Perguntei como viera parar tão longe. Respondeu-me que não sabia explicar.”
O historiador, também poeta, prossegue:
“Passaram-se mais de vinte anos. Um dia, estando novamente em Mariana, lembrei-me do chinês. Perguntei a um senhor sobre o mesmo. Disse-me que o Zé Maria, era esse o apelido que lhe puseram, havia morrido. Contou-me que fora levado, bem doente, para o hospital. As freiras que o cuidaram ficaram apreensivas sabendo que ele era ateu e pagão. Insistiram para que se batizasse, comungasse e recebesse a extrema-unção, caso contrário iria direto para o inferno. O “Zé Maria” arregalou os olhinhos oblíquos e respondeu a respeito da ida para o inferno: “A gente cutuma.” Confúcio não responderia melhor.”
Mas é no livro intitulado Hebe Rôla – 90 anos de vida – 75 anos dedicados à educação e à cultura marianense, que vou encontrar maiores informações sobre a singular pessoa do “chinês de Mariana”, que tive a sorte de conhecer. 
O aludido livro foi organizado pela escritora Andreia Donadon Leal, colega de Hebe Maria Rôla Santos na Academia Marianense de Letras, Ciências e Artes, de que também tenho a honra de pertencer. Trata-se de uma edição de 2021, pela Aldrava Letras e Artes, da nossa cidade de Mariana. Nas págs. 115 e 116, Hebe Rôla aborda o tema, sob o título de “China”. E assim ela começa o capítulo de reminiscências:
“Rosto moreno, meio amarelado, já bastante castigado pelo tempo, olhos amendoados, quase fechados, lábios finos, estrias e rugas, chapéu chinês, roupas largas e soltas de bons tecidos, sapatos grandes afunilados nas pontas, vinha pela rua D. Viçoso, antiga rua D’ Olaria, o China, patinando na ponta dos pés. 
Num bastão de madeira, atravessado aos ombros, pendurava balaios, cestas, peneiras, sombrinhas artísticas e pacientemente tecidas em taquara. Em uma das mãos, um vistoso balaio de verduras e bananas que vendia pelas ruas: 
— Come foia ! Foia muito mais mió. 
Oferecia aos que visitava sua casa, na rua D. Viçoso, água de banana como nutriente e quase milagroso alimento. Em uma gamela mergulhava pedaços de banana e até hoje não se sabe o resto dos ingredientes que compunham a beberagem que ele tomava e servia cerimoniosamente, com um misto de sábio e bruxo: 
— Água de panana mió saúde! Muito pom! 
As irmãs do Colégio Providência, lideradas por irmã Luísa, empenhavam-se na catequese do China. Visitavam-no e davam-lhe aulas de catecismo. Queriam batizá-lo, mas ele ficava irredutível. 
Um dia, bastante adoentado, enquanto recebia os cuidados médicos que elas levaram até ele, a irmã Luísa, temendo que ele morresse sem o sacramento do batismo, intensificou seu trabalho pastoral: 
— Olha, China, o inferno é um lugar horrível! Lá só se vê fogo e caldeiras de água fervente! Quem vai para o inferno queima-se eternamente na fogueira! ... Já imaginou o sofrimento de quem fica lá, sem poder sair, espetado pelos garfos em brasa dos demônios? Quem resistiria a esses sofrimentos, além de não ver Deus? O calor é desesperador! 
China ficou cabisbaixo e pensativo. A irmã Luísa quase comemorava a vitória, quando, depois de longo silêncio, ele respondeu convicto: 
— O’ mã, cum tu gi cutum. (Olhe, irmã, com tudo a gente acostuma.) 
Mas a resistência do China foi vencida e batizaram-no com o nome de João Maria.”
Senhoras e senhores, a história não termina aqui. A narrativa da minha querida amiga Hebe Rôla é tão saborosa que dou continuidade a ela. Assim:
“Na década de 1980, a Folia Nossa, grêmio artístico cultural de Mariana, desenvolveu, no carnaval, o tema Chinoiserie em Mariana, e, a certa altura da marcha-enredo, cantavam: 
Toda rua d’ Olaria crê no China João Maria/ A criançada vibrante de sombrinha e balaio/ Se encanta com o seu falar/ Repete ao vê-lo na rua/ Velha marcha popular:/ “Já vem seu China/ Na ponta do pé/ Ligue, ligue, ligue,/ Ligue, ligue, ligue, lé/ Dez tostões, vinte pratas/ Banana e café/ Ligue, ligue, ligue,/ Ligue, ligue, ligue, lé.”
E Hebe Rôla conclui seu histórico texto:
“Assim, à Chinoiserie de Mariana acrescentou-se a Chinesite, o ite do nosso China João Maria. E a expressão cum tu gi cutum passou a fazer parte do léxico marianense.”
Como veem, nosso saudoso China não foi abrasileirado com o prenome de José Maria, mas, sim — como ensinou Hebe — João Maria. Destarte, com esse título, após cerrar os olhos para o mundo, se apresentou ao guardião São Pedro e, pedindo licença numa elegante curvatura de mandarim, bem ao seu estilo, foi logo recebido e abençoado pela misericórdia do Deus Altíssimo. Ele disse apenas: “Senhor, sou o chinês da rua d’ Olaria, João Maria.” E entrou no Céu, com seu passinho miúdo.
 
II. AGRADECIMENTO 
 
À minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação do registro fotográfico utilizado neste trabalho.  

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Tragédia e Equívoco de Stefan Zweig

 Por Vamireh Chacon *

Transcrevemos o ensaio intitulado Tragédia e equívoco de Stefan Zweig pelo notável pensador pernambucano, extraído da seção Viajantes Diferentes do seu livro “O Humanismo Brasileiro”, São Paulo: Summus Editorial: Secretaria da Cultura, 1980, pp. 248-257.
 
VAMIREH CHACON de Albuquerque Nascimento (✰ Recife, 01/02/1934 ✞ Brasília, 18/09/2023)
 
Um importante capítulo da História das Ideias, a ser ainda estudado no Brasil, é o da imigração de intelectuais europeus, antes e durante a II Guerra Mundial. Nunca eles acorreram em tão grande quantidade, e não só qualidade, à América Latina, quanto naquelas difíceis décadas. 
Alguns ficaram, outros não puderam adaptar-se. Porém todos davam a sua contribuição, com frequência de longo alcance, à Cultura brasileira. Eram Otto Maria Carpeaux, Anatol Rosefeld, Ziembinski, Georges Bernanos, Paulo Rónai, Robert Garric, Fortunat Strowski e Claude Lévi-Strauss, entre outros. Além dos que quase permaneciam, à maneira de Jacques Maritain, que teve suas possíveis ilusões de retorno, ao país que tanto o festejou, dissipadas por posterior chuva de ataques injustos. Ou os que quase vieram, ao modo de Thomas Mann, cujo passaporte teve o visto negado pelo Estado Novo, sob o argumento de que se tratava de um extremista. ¹ 
O mais trágico de todos foi Stefan Zweig. 
Apesar de judeu, o que podia ter atraído as iras também da Embaixada Alemã já respondendo pelos austríacos após o "Anschluss", Zweig não tinha envolvimentos políticos e dispunha de muito dinheiro. Foi o intelectual melhor realizado, materialmente, na sua geração. Chegou até a fazer fortuna pessoal. Traduzido em vários idiomas, ajudava inúmeros confrades exilados, com generosidade e simpatia. 
Em 1936, o acaso trouxe-o ao Brasil, pela primeira vez. País que logo o fascinou e seria o palco do último ato da sua vida. 
O ensejo era o congresso do PEN Clube em Buenos Aires, ao qual compareceu um grupo heterogêneo de escritores, desde Georges Duhamel a Jules Romain, que brigavam pela sua presidência, a Emil Ludwig, Jacques Maritain e o próprio Stefan Zweig, entre outros. 
De passagem pelo porto do Rio de Janeiro, em agosto daquele ano, fora recebido no cais por representantes do Ministério brasileiro das Relações Exteriores e da Embaixada da Áustria ainda operando, o que conferia à visita um caráter oficial. Pois estas autoridades tinham-lhe reservado uma "suíte" no Copacabana Palace Hotel e designaram um acompanhante para dar-lhe toda assistência, com carro de chapa branca e tudo. 
Cumprindo solene programa, Zweig começou visitando o próprio Presidente da República, Getúlio Vargas, os Presidentes da Academia Brasileira de Letras e do PEN Clube do Brasil. Jantou com o Ministro das Relações Exteriores no Jockey Clube e fez conferências frequentadíssimas, embora em francês, no Instituto Nacional de Música e na Academia Brasileira de Letras, assistidas por cerca de duas mil pessoas, enquanto outras milhares se alongavam nas filas, em vão, por duas ruas vizinhas. 
Escoltado, com honras, Zweig subiu a Petrópolis, que o encantou ("O mais belo lugar que já vi!"), e esteve em São Paulo. É natural que, após tantas celebrações, não se comovesse em Buenos Aires. ²
O ponto alto de sua passagem pelo Rio foi a conferência na Academia Brasileira de Letras, em 25 de agosto de 1936. Na sessão especial, com o Presidente Laudelino Freire e o Secretário Otávio Mangabeira à mesa, Stefan Zweig ouviu breve saudação de Laudelino e outra longa pelo acadêmico Múcio Leão. 
Este começou lembrando a vocação de "globe trotter" do homenageado. Sem vinculá-lo à sofisticada herança cultural judia e vienense ("Minha capacidade de análise dos espíritos é reduzida, sr. Stefan Zweig", reconhecia Leão...), o orador resolveu desfiar uma descrição quilométrica e superficial das principais obras do visitante, com enredo, personagens e tudo. Mostrou-se deslumbrado com a sua ficção novelística e biografias romanceadas. ³
Vê-se nisto claramente a raiz do fascínio exercido pela divulgação cultural, ao alcance daqueles intelectuais autodidatas. 
Concluindo, tímido e já sem erudição, Múcio Leão desculpava-se pela juventude, embora promissora, da América do Sul e previa "que o contato com a vida americana serve apenas, aos escritores europeus, para estimular-lhes o sentimento de europeísmo." O que despertaria a atenção deles, sobre nós, seria o exotismo do nosso "mundo semibárbaro"... ⁴
Após os agradecimentos de praxe, Zweig foi mais otimista que o orador. Egresso da Europa em vésperas de dilacerar-se de novo, noutro conflito mundial — "aquelas horas trágicas de dúvidas que, quais nuvens negras, pesam dias inteiros sobre nossos trabalhos, paralisando-nos a ação" — insinuou estar seu continente exausto e rumo a ser substituído por novos mundos como centro universal da Civilização. Enquanto isto,
“Persiste ainda, até certo ponto, no velho continente o erro de se encararem as regiões extra-europeias como colônias espirituais, às quais não se rende nenhuma homenagem. Ainda hoje não se quer compreender na Europa que a Humanidade não estacionou no século XIII e que as forças de equilíbrio do mundo dela se estão afastando.”
Ao mesmo tempo, no Brasil,
“recebeis a obra dos estrangeiros de braços abertos, não a afastais, não estais possuídos dessa reprovável xenofobia, que hoje torna a Europa tão moralmente odiosa.”
Pela primeira vez aparecia, em Zweig, o vislumbre do "país do futuro", tema de próximo livro dele. 
Concluindo, confessava:
“O Brasil sempre foi para mim uma visão mágica".

Desde a infância, quando colecionava nossos selos remotos, até aquele instante de deslumbramento, de modo que, nas suas palavras,

“só me resta uma única coisa: voltar a esta terra maravilhosa!” ⁵
De retorno ao exílio em Nova York, Stefan Zweig não conseguiu mais sentir-se em casa senão no Brasil. Em carta à ex-esposa Friederike, com quem mantinha boas relações de amizade, declarava-o um país "incrível"... 
Sempre inquieto, naquela encruzilhada de refugiados intelectuais, imaginou que os trópicos, tão amáveis para com ele, amenizariam sua angústia. Em agosto de 1940 regressava ao Brasil, desta vez na companhia da segunda esposa, Lotte. 
A seu pedido, não houve então cansativas homenagens. Ele tinha tempo, viera para ficar. 
Após visitar Abraão Koogan, seu editor, procurou os velhos amigos Jaime Chermont e Afonso Arinos de Melo Franco. Retomou os contatos com o PEN Clube, sob a presidência de Cláudio de Souza. Foi de novo a São Paulo e descobriu Ouro Preto. Permaneceu brevemente em Teresópolis e seguiu para outra visita a Buenos Aires, entre outubro e novembro de 1940, com breve escala em Montevidéu, sempre para pronunciar concorridas conferências. 
Conhecendo, além do alemão natal, o francês e o inglês, como "grande europeu" que era na definição de Jules Romain, Zweig logo aprendeu castelhano e português, nos quais se tornaria expositor desembaraçado. A ponto de poder passear de bonde, na companhia de Leopoldo Stern que o sugerira, pelas ruas do Rio. Alfredo Cahn — tão devotado amigo, que acabou recebendo os apelidos de "Alfred Zweig" ou "Stefan Cahn"... — foi outro judeu que muito o ajudou no exílio, fazendo-o descobrir o Judaísmo. Pois, segundo o próprio Zweig confessava ao rabino do Rio de Janeiro, Lemle, não se sentia digno de participar de liturgias na sinagoga, pois não tinha aquela Religião e sim os seus sentimentos. 
Em janeiro de 1941, Stefan e Lotte passaram por Salvador, Recife e Belém do Pará, rumo a uma breve visita aos Estados Unidos. Sua nova pátria era agora, definitivamente, o Brasil. No Hotel Taft, usando a biblioteca da Universidade de Yale, em New Haven, Connecticut, escreve Brasilien — Land der Zukunft em apenas três semanas, porque aproveitou muitas notas tomadas desde 1936. O panegírico Brasil — País do Futuro foi imediatamente editado, com prefácio encomiástico de Afrânio Peixoto, então outro príncipe das letras, valendo-lhe telegrama de felicitações inclusive de um Ministro de Estado. Não era para menos. Zweig professava ali o mais lisonjeiro entusiasmo para com o Brasil, suas paisagens e seu povo. 
Mas o último livro de Stefan Zweig seria Die Well von Gestern (em português: O Mundo que eu vi), descrevendo o trágico arco da sua geração, extinta ao seu ver naquele setembro de 1939, quando irrompera a II Guerra Mundial. As suas notas biográficas sobre Montaigne ficariam incompletas. 
De volta ao Brasil, alugou a casa nº 34 da rua Gonçalves Dias, no bairro das Duas Pontes em Petrópolis, onde terminaria os dias, ao lado de Lotte. 
A então pequena cidade serrana pareceu-lhe uma Bad Ischl tropical ⁶, em vez de alpina. Lá também estava morando a poetisa chilena Gabriela Mistral, depois Prêmio Nobel. Ali ele terminaria de escrever O Mundo que eu vi, nostálgica autobiografia cheia de apreensões. 
Seu último aniversário, o 60º, encontrou-o deprimido: ele sempre temera esta idade. Outrora escrevera: "Sessenta e um anos — uma idade quando a indiferença e a fadiga começam a invadir um ser humano, pois quanto tempo mais se pode ser eficaz e para quem?" Através da data, só anteviu "infernos e purgatórios". 
Passou os últimos meses dedicado a meditar e escrever sobre Montaigne, "irmão em Destino", o pensador das senectudes iluminadas, novo estóico maior que os antigos. Adiara indefinidamente o plano de um livro sobre Balzac, o qual pretendeu, em certa fase, que seria sua obra-prima. 
Era o fim do terrível ano de 1941, auge das vitórias do Eixo nazi-fascista, trazendo até ao Brasil os ecos dos triunfos da tirania, trombeteando a decadência final da Democracia acusada de "fraca", "podre" e "covarde". Em junho, Hitler ousara atacar a União Soviética, numa vã cruzada antibolchevique, já "em nome da civilização ocidental e cristã". Em dezembro, os militaristas japoneses desabavam em cima da esquadra dos Estados Unidos em Pearl Harbour. 
Stefan Zweig vislumbrou o fim de todo um mundo por trás daquilo. Em carta a Friederike, escrevia com as apreensões do testemunho de tantos traumas, desde a derrocada da sua querida Europa, sob o tacão nazi-fascista: "Aqui tudo está calmo e quieto... mas também este país será envolvido algum dia... O tempo corre com assustadora rapidez." Assombrava-o a penetração totalitária no Brasil. Passou a receber ameaçadoras cartas anônimas e a tomar crescentes doses de tranquilizante para dormir. (grifo nosso)
Veio o Carnaval. Foi vê-lo nas ruas do Rio de Janeiro. A Terça-feira Gorda surpreendeu-o com as notícias do máximo avanço nazi-fascista na II Guerra Mundial, que ele erradamente imaginou como sendo apenas outra etapa de uma ofensiva final: os japoneses tomavam Singapura e os ítalos-alemães lançavam a derradeira ofensivas contra Suez. 
Decidiu voltar às pressas a Petrópolis, com Lotte. Atravessando as ruas apinhadas, os mascarados troçavam deles, tão tristes, no meio dos confetes, serpentinas e músicas estridentes. Já na casa serrana, Zweig começou a escrever cartas de despedida, a partir do dia 18 de fevereiro de 1942. A primeira foi para o editor e amigo Koogan:
“Não me lamente; minha vida estava aniquilada há anos e sinto-me feliz por poder sair de um mundo enlouquecido e cruel. Guarde de mim uma boa recordação, sempre me orgulhei e fui grato à sua amizade fiel e devotada.”
Outras cartas seguiram: para Friederike, Jules Romains, René Fueloep-Miller e Afonso Arinos de Melo Franco, na fraternidade universal do afeto e da inteligência. Às autoridades locais de Petrópolis destinou mais algumas, postas na cabeceira cuidadosamente. Ao mesmo tempo, convencia Lotte a acompanhá-lo na última viagem, tarefa difícil, dado o temperamento mórbido e físico doentio da sua segunda esposa. 
Entre suas derradeiras leituras, figurava este trecho de Montaigne, elogiando o suicídio na típica linha estóica:
“A morte não é a receita apenas para um mal e sim para todos... A mais voluntária das mortes é a mais bela. A vida depende da vontade de outros; a morte, da nossa.”
Rubem Braga ainda lhe telefonou. Stefan Zweig deu desculpas falsas para evitar o encontro. Preferiu dedicar os momentos finais a uma "Declaração", com o título em português e o texto em alemão, terminando assim: "Saúdo todos meus amigos! Que lhes seja dado ver ainda o amanhecer, após a longa noite! Eu, demasiado impaciente, parti antes." Entre meio-dia e quatro da tarde, de 22 de fevereiro de 1942, Stefan e Lotte tomaram doses maciças de Verona, dormindo para sempre. 
O enterro foi solene. Petrópolis parou. O Brasil deu-lhe honras de chefe de Estado. Ao som de Haendel e das preces de um rabino, os corpos desceram ao túmulo cercado pelos ciprestes da Serra. 
O mundo supreendeu-se com o gesto, principalmente os anti-fascistas, a quem parecia uma deserção. Thomas Mann, em nome de todos, deplorou-o. Mas seu irmão Heinrich entendeu a fraqueza do desespero. ⁷
Hoje Stefan Zweig parece uma figura menor. Naqueles tempos era diferente. Foi amigo de Rainer Maria Rilke, que lhe desejara muitas felicidades no início das suas numerosas viagens. ⁸ Romain Rolland esperou com ele construir "uma grande obra", "Uma Igreja acima de todas as igrejas", pacifisticamente tolstoiana, de modo que pudesse recomeçar — ou até começar mesmo — uma nova era religiosa, "no sentido autêntico".  ⁹ Jules Romains nele viu o europeu por excelência, a partir da Germanidade universal ("Weltdeutschtum"), austríaca e humanista, Erasmo dos novos tempos, também de crise. ¹⁰ Fülöp-Miller registrou o recebimento da sua última carta, evocando efetivamente Montaigne a propósito da morte. ¹¹
Mas nem todas as vozes eram só de saudade. 
Um judeu, Franz Werfel, e um católico praticante, Georges Bernanos, ¹² exprobaram seu gesto, por terem esperado contar com Zweig para a resistência anti-fascista até o fim. 
O novelista e biógrafo romanceado, Stefan Zweig, outrora "best seller", paraíso dos autodidatas, entrou em declínio, porém sobrevive o jornalista de Tempo e Mundo (inédito em português: Zeit und Welt) e O Mundo que eu vi (Die Welt von Gestern), testemunho daquele século XIX se prolongando até ver-se liquidado em duas guerras mundiais. 
Se o que escreveu merece grandes reparos,
“No caso de Zweig a morte não apenas completou a sua obra como a excedeu prodigiosamente, emprestando um formidável vigor de verdade e seriedade a todas e a cada uma das ideias que emitiu. Não há livro no mundo que represente com mais força o protesto de uma cultura assaltada pelo crime, do que aquele gesto duplo.” (grifo nosso)
"Revelação" e "advertência" nas palavras de Afonso Arinos de Melo Franco. "Um aviso trágico do que será o mundo se os bárbaros, que causaram a morte de Zweig, conseguirem dominá-lo." ¹³  (grifo nosso) 
O desespero veio na penúltima hora. Meses depois, começava o refluxo nazi-fascista a partir de Stalingrad, El Alamein e Medway. Quem esperou, viu a luz no fundo daquele túnel, como a descobrirão outros que souberam confiar, sempre que necessário. 
 
 
II. NOTAS EXPLICATIVAS 
 
 
¹ Mostrei em pormenores a injustiça in Thomas Mann e o Brasil, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975, pp. 68-70. 
² Prater, D. A.: European of Yesterday (A Biography of Stefan Zweig), Oxford at the Claredon Press, 1972, pp. 248 e 253-256. 
³ "Homenagem a Stefan Zweig, na Academia", Suplemento Literário de A Manhã, Rio de Janeiro, ano II, nº 7, 1º de março de 1942, pp. 98-100. 
⁴ Idem, p. 100. 
⁵ Ibidem, p. 100. 
⁶ Nota do gerente do blog: Assim como Bad Ischl era a renomada estância de veraneio oficial da corte dos Habsburgo — onde o imperador Francisco José I e a imperatriz Sissi passavam os meses de calor na Kaiservilla —, Petrópolis desempenhava exatamente o mesmo papel no Brasil, tendo sido fundada pelo imperador Dom Pedro II para ser a residência de verão da família imperial brasileira.
Além disso,  Petrópolis oferecia um clima ameno que contrastava com o calor do Rio de Janeiro, por se achar ercada por montanhas, formações rochosas e vegetação densa. Esse cenário alpino remetia imediatamente o escritor às paisagens montanhosas de Bad Ischl e da região de Salzkammergut.  
⁷Prater, ob. cit., pp. 290-296 e 308-344. 
⁸ Carta a Zweig em 20 de setembro de 1917, in Der grosse Europäer Stefan Zweig, antologia de Hanns Arens, Munique, Kindler Verlag, 1956, p. 82. 
⁹ "Briefe an Stefan Zweig", in idem, p. 91. Zweig confessava dever mais a Rolland, que a qualquer outra pessoa (p. 95). [Há o título "Briefe an Stefan Zweig" (Cartas para Stefan Zweig) como uma seção/capítulo específico dentro da antologia Der große Europäer Stefan Zweig, organizada por Hanns Arens e publicada originalmente em Munique pela editora Kindler Verlag em 1956 (e posteriormente reeditada pela S. Fischer Verlag)]
¹⁰ "Stefan Zweig, ein grosser Europäer", p. 325. 
Nota do gerente do blog: Este é o título de um texto comemorativo e conhecido tributo sobre a vida de Zweig por Jules Romains. 
Thomas Mann admitia ter sido também influenciado pelo Pacifismo de Rolland e Zweig, quase o convencendo, pois acabara achando o problema "insolúvel" ("Stefan Zweig zum zehnten Todestag", in ibidem, p. 373).  
¹¹ "Erinnerungsblatt für Stefan Zweig", in ibidem, p. 205. 
Nota do Gerente do Blog: A autoria é do escritor, jornalista e historiador cultural René Fülöp-Miller.
¹² Werfel em "Stefan Zweigs Tod" in ibidem, p. 282, e Bernanos em "Apologias do suicídio" in Vida e morte de Stefan Zweig, antologia de Raul de Azevedo, Rio de Janeiro, edição especial da revista Aspectos, 1942, pp. 98-100. Gabriela Mistral incorporou-se, da "nossa Petrópolis, que ele amava como quanto eu", aos hinos de saudade (ibidem, p. 93).  
¹³ "Revelações de Stefan Zweig", in ibidem, p. 116. Afonso Arinos de Melo Franco levanta a hipótese da influência de Lotte no suicídio do marido (A Alma do Tempo, Rio de Janeiro, Livr. J. Olympio, 1961, p. 387). 
A primeira esposa de Zweig alongou-se nesta demonstração, por motivos óbvios, embora se tenha de reconhecer nela uma parte de razão, pois o segundo casal era claramente nevropata, ambos sujeitos a periódicas crises de depressão, agravadas pelo curso desfavorável da II Guerra Mundial (Stefan Zweig: o homem e o gênio, sua obra e a minha vida ao seu lado, São Paulo, Editora Universitária, 1945, pp. 323, 324 e 328-341). Ernst Feder dá outro testemunho da melancolia crescente dos últimos anos, e sobretudo meses, da vida de Zweig ("Recordações pessoais", Suplemento Literário de A Manhã, ob. cit., p. 104). Outro amigo, Léopold Stern, relata em pormenores a descoberta dos cadáveres (La Mort de Stefan Zweig, Editora Civilização Brasileira, 1942, sem ref. a local, pp. 24-27 e 96-99). Destes últimos, o biógrafo Prater recolheu muitas informações primárias. Fonte interessante e não usada é Cláudio de Araújo Lima, Ascensão e Queda de Stefan Zweig, Rio de Janeiro, Livr. J. Olympio Edit. sem ref. à data de publ. também escrita em pleno 1942. Araújo Lima insiste também na tendência depressiva de Zweig, agravada pelo "climatério" dele e pela presença da segunda esposa (pp. 167 e 168). 
O Humanismo Brasileiro por Vamireh Chacon (272 p.)

* Vamireh Chacon foi um dos mais brilhantes cientistas políticos, juristas, historiadores, professores e escritores brasileiros. Nascido no Recife, Pernambuco, dedicou sua vida ao estudo profundo da identidade nacional, da história política e das ideias sociais do Brasil. Sua formação acadêmica incluiu: graduado simultaneamente em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco e em Direito pela Faculdade de Direito do Recife (FDR) em 1956. Concluiu seu doutorado em Direito também pela FDR em 1959. Obteve pós-doutorado pela Universidade de Chicago, nos EUA em 1960, tendo no mesmo ano concluído o ciclo de pesquisa focada na área de Sociologia do Desenvolvimento. Retornando ao Brasil, obteve o título de livre-docente na FDR. Posteriormente, realizou estudos de Sociologia na Alemanha, onde morou por cerca de quatro anos. Foi na UnB que consolidou grande parte de sua carreira, tornando-se Professor Emérito, tendo atuado como chefe do Departamento de Ciência Política e Decano de Extensão. Publicou mais de 30 livros ao longo de sua vida. Sua obra é caracterizada pela análise da formação da sociedade brasileira, com forte influência da Escola do Recife e do pensamento de Gilberto Freyre. Chacon era considerado um defensor do "iberismo brasileiro", analisando as raízes culturais ibéricas do Brasil em diálogo com a modernidade universal. Membro titular e fundador da Academia Brasileira de Filosofia (cadeira nº 39) e membro da Academia Pernambucana de Letras, Chacon recebeu as maiores honrarias das letras nacionais. Em 2014, foi o grande vencedor do Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras (ABL) pelo conjunto de sua obra. A cooperação intelectual de Vamireh Chacon com o Senado e com os órgãos de editoração do parlamento remonta à década de 1970 e passando pela publicação de suas grandes obras oficiais nos anos 1990. Sua atuação como servidor em comissão do ILB encerrou-se em março de 2019. 
 
 
III. BIBLIOGRAFIA adicional sugerida pelo gerente do blog
 
 
ALMEIDA, Paulo Roberto de: Stefan Zweig e o país que não chegou ao futuro, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 20/04/2025
 
SCHWAMBORN, Ingrid: Stefan Zweig e suas viagens pelo Brasil, publicado pelo Blog do Braga em 17/01/2018
 
ZWEIG, Stefan: O mundo insone, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 16/02/2025
 
_____________: JEAN JAURÈS, o socialista, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 25/04/2025
 
_____________: O Rio antigo, publicado pelo Blog do Braga em 15/09/2024
 
 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

BERNANOS EM BARBACENA

 Por Vamireh Chacon *

Transcrevemos o ensaio intitulado Bernanos em Barbacena pelo notável pensador pernambucano, extraído da seção Viajantes Diferentes do seu livro “O Humanismo Brasileiro”, São Paulo: Summus Editorial: Secretaria da Cultura, 1980, pp. 248-257.
 
VAMIREH CHACON de Albuquerque Nascimento (✰ Recife, 01/02/1934 ✞ Brasília, 18/09/2023)
 
A Serra da Mantiqueira atinge um pouco mais de dez mil metros de altura em Barbacena. Hoje, quase à beira da estrada entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro, aos pés do monte Grogotó, onde agora se situa um moderno hotel, encontra-se o antigo Sítio Cruz das Almas, no qual se asilou Georges Bernanos, durante quase toda a Segunda Guerra Mundial. A Prefeitura local, nos tempos de Simão Bias Fortes, desapropriou o pequeno conjunto de casas brancas, com janelas verdes e uma área circundante, centro da propriedade antigamente rural. Ali morou o Unamuno ¹, católico e francês, Bernanos. 
Quem chega à residência, cercada de arame farpado em postes tortos, logo se defronta com o nicho da Virgem de Lourdes sobre o portal da entrada, devoção francesa antes de universal. No interior, poucos móveis, de escasso valor e menor gosto; livros mal conservados pela umidade e pior pela apresentação desarrumada. O que vale, aqui, são essas paredes nuas, esse piso rijo, esse teto ascético; a seu modo, retratos do próprio Bernanos. Dele, que pretendera fazer da sua casa mineira "algo que se parecesse a uma fazenda nossa" (da França). ²
Certo dia, Afonso Arinos de Melo Franco e Anah almoçaram ali, "que ele arranjara carinhosamente, um pouco ao jeito de uma casa rural de Lorena."E ouviram da sua boca longos poemas... ³
O escritor francês vivia apenas na companhia da sua família. Visitantes, raros; visitas ao Rio de Janeiro, ou Belo Horizonte, menos ainda. O cidadão curtia a vergonha da desordem do mundo, com apelos quase desesperados para transformá-lo. 
Mas guardava a intimidade daquele lar rústico, camponês mesmo, na comunhão da Fé e da Terra. Nos últimos dias de permanência no Brasil, escrevia:
“Felizmente nossa casinha acha-se longe dessas agitações políticas, sobre uma colina solitária, como se ela tivesse vindo pousar naquele ponto, uma noite por acaso, depois de uma longa viagem aérea, esperando abrir as asas e retomar o voo àquela hora da madrugada em que os grandes eucaliptos fremem, antes de enrubescer até o cimo, ao levantar do sol.”
A vida era monotonamente simples, para alegria de solitário Zaratustra ⁴ humano, demasiado humano, apesar de também peregrino do absoluto:
“Cada manhã, ao levantar, logo depois do café, o meu bom cavalo Osvaldo me esperava na porta. Como o frade ao seu ministério; como o soldado ao exército, ou mais exatamente, como o empregado ao escritório, íamos nós — um levando o outro — até a cidade, para de lá voltar ao meio-dia com o único fim de nos dar o prazer de retornar às três horas e não vir para a casa senão à noite — a noite seca, fria e penetrante de inverno ou essas admiráveis noites de verão; essas noites quentes de perfume selvagem como o flanco de uma fera.”
Depois de meditar e escrever em bares pobres, no meio da algazarra que o unia ainda mais à Vida, retornava na mesma cavalgada de silêncio.
“Caros amigos: se algum de vós passar um dia por Barbacena e quiser se lembrar de mim, lance um olhar sobre esse café minúsculo e reflita que eu ali fiz a experiência de quase todas as formas de solidão; ali me achei muitas vezes — ali à beira da calçada, no vaivém dos transeuntes — só — sim, tão só! Como o meu país.” ⁵
O itinerário fora longo. 
Georges Bernanos nasceu e morreu em Paris, antes e logo após os dois conflitos mundiais. Esteve no Brasil de 1938 a 1945, em seguida a apenas onze dias no Paraguai. Entre nós habitou, de início, no Rio de Janeiro, Itaipava, Juiz de Fora, Vassouras, Pirapora, Belo Horizonte e Barbacena, onde se fixou durante quatro anos. Em Vassouras, escreveu Nous autres Français; em Pirapora, na fazenda Santo Antônio, perto do rio São Francisco, redigiu Les enfants humiliés e completou Monsieur Ouine; finalmente, no último pouso, Lettre aux Anglais, Le Chemin de la Croix-des-Âmes, Écrits de Combat e La France contre les Robots; ampla bibliografia de ensaios, nela se destacando um romance. 
E ao relê-los, nos dias atuais, não se pode reprimir o protesto que Bernanos tenha sido, com frequência, apresentado como pequeno-burguês neurótico, ele que escrevera La grande Peur des bien Pensants. Daí se ter tornado tão pouco lido e sua casa ainda menos visitada... 
A nós, brasileiros, o escritor que repelia os dois extremismos máximos da Guerra Civil espanhola, em Les grands Cimétières sous la Lune, interessa em particular, pois raros os estrangeiros que tanto sentiram e sofreram o Brasil. No seu "Salut au Brésil" ⁶, com entusiasmo exclamava, naquele seu tom mais oratório que retórico, porque espontâneo e límpido:
“Do alto de nossa pequena colina da Cruz das Almas, vemos, há semanas, fundirem-se, pouco a pouco, nossos maus caminhos, como manteiga numa panela queimante. A graciosa cidade branca, a meia légua, parece tão perto, porém nenhum carro ousaria arriscar-se até nós e os próprios cavalos percorrem, com desconfiança, esta estrada arrasada que deslisa, pouco a pouco, sobre sua inclinação mesma.” 
E, entendendo, ao mesmo tempo que denunciava, concluía, num ímpeto de amargor e solidariedade:
“O trabalho da terra foi reservado aqui — pelo menos em parte — desde longo tempo, aos escravos. Claro, que não tenho qualquer título para dirigir-me aos intelectuais brasileiros, senão, talvez, a profunda gratidão que lhes devo, pelo generoso, magnífico acolhimento, que quiseram por bem dar ao meu livro, escrito no exílio...”
Mas, em seguida, numa advertência com frequência pouco do agrado dos bem pensantes de qualquer tipo:
“Que eles me permitam, contudo, uni-los hoje, no meu pensamento, a estes homens obscuros, cuja missão não é garantir a Liberdade, e sim assegurar à sua Miséria um bem ainda mais precioso, a Consciência da Liberdade. Pois não é a Servidão que faz os escravos, é a aceitação da Servidão. E há algo pior que a aceitação da Servidão: a ela conformar sua vida, a ponto de nela se achar à vontade e, enfim — ignorá-la.” (grifo nosso)
A bela paisagem montanhesa não o hipnotizava. Nem o induzia a esquecer a tragédia do mundo, naquele momento culminando na dominação fascista da França:
“Foi no sertão que tomei conhecimento da Queda de Paris. A tarde já empalidecia, o sol vermelho do curral entrava na pobre casa, com o voo dos primeiros morcegos. A floresta imensa, a floresta anã e disforme, torturada pela sede, estendia-se ao Infinito em torno dos nossos muros de argila. Lá estávamos sós, verdadeiramente sós, sós como mortos, enquanto a horrenda voz nasal de uma estação de rádio, alimentada por uma bateria fora de uso, anunciava-nos que a bandeira alemã flutuava sobre Notre-Dame... Tenho o direito de escrever que o Povo brasileiro odeia a Servidão, pois, desde a primeira notícia do desastre, eu o vi odiar a nossa...” ⁷ (grifo nosso)
Por que não se evoca este Bernanos, também o profeta contra a mecanicista tecnização do Homem, o mesmo que insistia na repulsa às condições degradantes dos trabalhadores rurais, ao seu redor? O Bernanos que bradava, no prefácio à Lettre aux Anglais, em 15 de janeiro de 1942:
“O Brasil não é, para mim, o hotel suntuoso, quase anônimo, onde depositei minha valise, esperando retomar o oceano e regressar à minha terra: é meu lar, é minha casa...”
O povo brasileiro, mais do que as suas elites, tornou-se a fonte de inspiração de Bernanos, vez por outra, saindo de casa para escrever numa taberna de beira de estrada de Barbacena, melhor do que se estivesse numa confeitaria carioca ou num café parisiense.
“Foram vossos camponeses que me fizeram compreender vossos intelectuais — eis a verdade. Compreendi que vossos intelectuais se serviam da nossa cultura contra uma certa concepção da vida, que vosso povo repele instintivamente... Vossos intelectuais se servem da nossa cultura, porque ela é, para eles, o instrumento mais apropriado à defesa comum; porém é do fundo popular que têm o sentimento quase psíquico do perigo corrido, a vontade de vencê-lo.” (grifo nosso)
Diante até mesmo dos brasileiros impacientes em compadecerem-se com o suposto Paraíso europeu perdido pelos ancestrais imigrantes, Bernanos respondia:
“A terra do meu país é uma terra amiga do homem. A vossa não é vossa inimiga, certamente, mas ela vos ignora; estais sós diante dela, sem aldeias, sem vizinhos, com vossas pobres famílias. Aqui, o homem conquista a terra selvagem pelas suas próprias forças, as mãos nuas. Que isto faça rir os mercadores de quinquilharia mecânica, bem o espero. Eles não rirão sempre. 
Pois é assim que se formam os grandes povos, os povos livres; é assim que todas as forças e toda a paciência da terra passam aos músculos e corações dos homens. Assim o ritmo de vosso esforço não é o mesmo daquele nosso, ou melhor, vosso esforço guardou um ritmo que o nosso perdeu. Assim podeis sofrer e durar, lá, onde qualquer outro, além de vós, esgotaria em pouco tempo sua coragem. Porém este segredo de vossa força é também o de vossa incomparável resignação.” (grifo nosso)
Após todas as dificuldades, "tereis dado ao mundo um tesouro mil vezes mais precioso que as pastagens e os vergéis, ter-lhe-eis dado um povo livre, formado para a Liberdade." (grifo nosso)
No Sítio de Cruz das Almas, que ele traduzia para Croix-des-Âmes, com ressonâncias ao mesmo tempo tão brasileiras e francesas, Bernanos passou quase cinco anos, repensando o que sentira nas cidades e nos campos, na Serra ou no vale do São Francisco, sobre o seu e o nosso país. Desde agosto de 1940 a junho de 1945, tempos de meditação e participação, analisando e escrevendo sobre o drama do vizinho e a tragédia do mundo, a paz dos arredores e a guerra distante. O pensador católico, escrevendo em ficção e não só ensaio, é o panfletário da Resistência, publicando nos jornais franceses clandestinos ou que, no exílio, desabrochavam no trópico mineiro. Ali Georges Bernanos amadureceu tanto a reflexão quanto o estilo. 
Os brasileiros ajudaram-no com desafios e até injustiças, não apenas com apoio e amizade. 
Parecia insólito um escritor católico que não fosse beato. Catolicismo tinha um sentido tradicional, conservador, querendo justificar seus Antiliberalismo e Anti-Socialismo como respostas ao anticlericalismo. Para Bernanos, estes problemas não existiam. 
Daí que, logo à sua chegada, ouviu-se o protesto. Guilherme Auler — historiador depois diretor do Museu Imperial de Petrópolis, membro do grupo Fronteiras que reunia a fina flor monárquica, à direita do próprio Fascismo — apresentou-se como porta-voz. Escreveu dois violentos artigos de recepção ao auto-exilado. 
No primeiro, começava indagando-se:
“Por que Georges Bernanos, escritor de relativa fama, abandona a França, a Europa enfim, para vir residir no Brasil? Motivo de simpatia intelectual com os brasileiros é argumento de caça-níqueis. Bernanos é um difamador e um espião comunista (sic). Não são palavras nossas. É o arcebispo de Majorca, Dom José Miralles Sbert, quem o afirma publicamente em documento irrespondível.” ⁸
Pois, em julho Bernanos atacara Franco e o clero que o apoiava, na revista New Statesman. O prelado respondeu-lhe, no mês seguinte, pelas páginas de America, ambas nos Estados Unidos. O fiel, que assistira na Espanha às violências em nome de Cristo contra os anticristãos, desentendia-se com o conivente hierarca. 
Não deixando o ódio esfriar, Auler logo voltou à carga, contra o autor de Les grands Cimetières sous la Lune, "um nojento livro" (sic). E arrolava a lista de adversários católicos de Bernanos. ⁹
Na realidade, insultando-o em fins de 1938 e princípios de 1939, Auler e asseclas brasileiros uniam-se aos nazi-fascistas dedicados a tarefas idênticas. Entre eles Karl Epting, lançando anátemas contra Bernanos de Berlim, em pleno auge do conflito mundial logo em seguida. ¹⁰
Os tempos depois mudariam. À calúnia seguir-se-ia o silêncio dos bem pensantes, ironizados por Georges Bernanos em livro que marcou época. Bem pensantes a serviço ora dum ora doutro extremismo, que os desobriguem de distinguir, que é a substância do pensamento. 
Enquanto isto, Bernanos meditava na noite tropical. Em carta publicaada no jornal parisiense Le Figaro, em 27 de dezembro de 1942, escrevia do Rio de Janeiro:
“Este país, esta cidade, não se podem crer. Esta cidade tão bela, tão prodigiosamente bela, tão bela e tão humilde. Tem o ar de deitar-se a vossos pés, com suas jóias, seus perfumes e seu olhar de inocência e a docilidade dos animais. O ar é uma doçura selvagem. E agora, graças ao Céu, estou como um velho guerreiro, curtido pela guerra, no meio de crianças.” ¹¹
E, de Pirapora, no sertão do Alto São Francisco:
“Estranho país! À primeira vista se é fortemente tentado de retomar o trem e fugir. Depois, acostuma-se pouco a pouco, e creio que se termina por amá-lo. O horizonte assemelha-se ao de certas províncias francesas, colinas bastante parecidas com as de Tours... Quanto à cidade, é uma autêntica aldeia de desbravamento, muito cinematográfica, com casas em construção por toda parte, uma desordem surpreendente.” ¹²
Para ver melhor e não esquecer, ao contrário do que dizem alguns críticos. Bernanos internara-se na distante fazenda Santo Antônio, de Virgílio de Melo Franco, "companheiro ideal" na definição do seu irmão Afonso Arinos de Melo Franco, cercado durante oito meses por imensos rebanhos, no cerrado a perder de vista. Virara feitor de animais, já não quisera ser de homens, a serviço de ideologias totalitárias. Daquela distância remota, podia entender, na plenitude, a grandeza da tragédia humana em sua Europa nativa e do próprio Brasil dos campos, ignorados pela sofisticação urbana dos intelectuais seus amigos. 
Pouco a pouco o velho leão — "grande, gordo, moreno como um cigano, os bigodes bastos e a juba leonina", "aleijado de uma perna", com "aspecto rebarbativo" se não fossem "os olhos rasgados e azuis, olhos puros de criança, que pareciam sempre à espera do prêmio ou do castigo", no retrato vivido por Afonso Arinos de Melo Franco ¹³ — o sofrido leão foi aceitando aproximar-se dos católicos brasileiros. 
Alceu Amoroso Lima começaria falando em Maritain, quando o que o aproximava de Bernanos era a evocação da morte de um amigo desconhecido. ¹⁴ Jorge de Lima perturbava-lhe a paz, pedindo-lhe que intercedesse por votos na sua candidatura à Academia Brasileira de Letras, para decepção de Bernanos. ¹⁵ As comparações dele com Léon Bloy também o desagradavam, apesar do que supunham os críticos. ¹⁶
E quando Georges Bernanos teve de retornar à França, atendendo a apelo pessoal do General De Gaulle, precisou vender seu único bem ¹⁷, aquela casinha de Barbacena, quase no fim da Mantiqueira, quando a Serra principia a descer na direção do mar. 
De volta a Paris, escrevia a Virgílio de Melo Franco solicitando assinaturas do Correio da Manhã, então o mais prestigioso jornal carioca, pedindo a Deus para não morrer sem rever o Corcovado no horizonte... ¹⁸ E, a Fernando Carneiro, mal comparava sua nova casa, perdida nas montanhas francesas, sem água nem eletricidade, quase sem vidros, com a que construíra e deixara sob trópicos que acabaram sendo tão acolhedores. ¹⁹
E, perto de morrer, já em 1948, escrevendo do interior da Tunísia para onde fugira na busca de um rude sertão mais próximo da França, dizia a Georges Duhamel, companheiro de glória literária e sem conexões lisonjeantes com o além-mar, quanto sofria por ter abandonado Cruz-das-Almas: "Como lamento ter deixado o Brasil! Se ainda estivesse lá, teria pelo menos a certeza de ser útil ao meu país." Era a possibilidade de trabalhar com dominicanos franceses e intelectuais brasileiros familiarizados com Bloy e Péguy. ²⁰
Perto de morrer, voltaram-lhe as lembranças dos amigos fiéis: Alceu Amoroso Lima, Virgílio e Afonso Arinos de Melo Franco, Pedro Octavio Carneiro da Cunha, Carlos Chagas Filho, Jorge de Lima, Edgar da Mata Machado, Augusto Frederico Schmidt, Fernando Carneiro, Álvaro Lins, Raul Fernandes, Oswaldo Aranha, Otto Lara Resende, Murilo Mendes, Assis Chateaubriand, Dario de Almeida Magalhães, Austregésilo de Athayde e Miguel Osório de Almeida, para lembrar só alguns dos privilegiados pelo seu convívio. 
No Brasil, Bernanos pensara ter vindo curtir sua vergonha pelo descalabro europeu, que levaria à II Guerra Mundial, porém aqui reencontraria seu orgulho e "foi este povo que mo devolveu." ²¹
As ruínas de que ele fugia eram, de resto, mais as invisíveis do que as visíveis, as de um mundo que desabara mais dentro dele do que em torno. Assim como os sentimentos que o levaram a evadir-se eram os de nojo e cólera; não os do interesse ou do temor. 
Nas páginas também escritas no Brasil continuaria ressoando, para sempre, sua voz:
“Aquela voz apaixonada ressuscitava bravuras extintas, coragens de outras eras, teimosamente, como quem recusava nivelar-se ao morno conformismo das derrotas...” ²²
Georges Benanos descobrira, nos intelectuais encontrados nas ruas do Rio de Janeiro e principalmente nos camponeses perdidos pelos sertões, a certeza da universalidade do drama humano, em carne viva na Espanha dilacerada por uma Guerra Civil, prelúdio doutra mundial, anúncios do fim de um mundo insensato. A cujo naufrágio e redenção é preciso enfrentar com coragem e esperança. 
Daí a validade das últimas palavras de Bernanos em nosso país, dirigidas à juventude:
“Moços e moças do Brasil, o que hoje vos escrevo é tudo o que vos deixarei de mim e, quando vos lembrardes do velho escritor de Cruz das Almas, dentro de vinte anos, de trinta anos — se vossa memória, por um impossível, me for fiel até então — estas palavras, desde muito esquecidas, é que se levantarão talvez, a despeito de vós mesmos, das profundezas de vossa consciência. 
Moços e moças, escutai-me bem, eis a minha última mensagem. A Liberdade não deve apenas ser amada, a Liberdade pouco se incomoda, atualmente de ser amada, ela deve ser salva, ela exige a sua salvação. Jovens amigos meus, é antes de tudo em vós mesmos, e em vossos espíritos, que salvareis a Liberdade. A Liberdade vos impõe uma clarividência heróica de que seríeis certamente dispensados numa sociedade digna desse nome. Se a exigência é de algum modo inumana, a culpa é de uma sociedade inumana. Pois, as místicas sanguinárias do Nacionalismo, do Racismo e do Partido substituíram as fidelidades tradicionais, as fidelidades humanas da Família e da Pátria, a obediência absoluta, totalitária, a idolatria do Estado ou do Partido. ²³  (grifo nosso)
Atentai para que essas opiniões e esses credos não sejam senão fórmulas de segurança. Católicos, vós vos assegurais contra os riscos do inferno. Socialistas, contra os riscos desse outro inferno, não menos cruel e inflexível, que se chama o determinismo econômico. Comunistas, contra o Fascismo. Fascistas, contra o Comunismo. 
Por que haveis de vos assegurar contra o amanhã? O amanhã, sois vós!” ²⁴
Mais que um francês, um escritor de todos os tempos falava não só à juventude brasileira, aos moços e moças de todas as épocas.
 
II. NOTAS EXPLICATIVAS
 
¹ Nota do gerente do Blog: Miguel de Unamuno (1864-1936) foi um ensaísta, romancista, dramaturgo e filósofo espanhol católico, cuja obra é frequentemente estudada em conjunto com a de Bernanos por tratarem ambos os autores, na literatura comparada católica ou existencial, de temas ligados à angústia espiritual, a fé agoniada e o sentimento trágico da vida.
² Carta ao Coronel X, Rio de Janeiro, abril, 1945, in Correspondance, recolhida por Albert Béguin e escolhida e apresentada pela Irmã Jean Murray O. P., Paris: Plon, tomo II, 1934-1948, 1971, p. 561.
³ A Alma do Tempo (Memórias: Formação e Mocidade) por Afonso Arinos de Melo Franco, Rio de Janeiro: Livr. J. Olympio Edit., 1961, p. 384. 
⁴ Nota do gerente do Blog: Zaratustra (também conhecido como Zoroastro) foi um antigo profeta e reformador religioso persa que fundou o zoroastrismo, uma religião seguida pelos Aquemênidas e uma das religiões monoteístas mais antigas da história humana.
Sua existência real é objeto de debates entre historiadores, mas sua figura moldou profundamente a espiritualidade do Oriente Médio Antigo e, séculos mais tarde, inspirou a filosofia ocidental. 
Entre seus principais ensinamentos, estão os seguintes resumidamente:
- Deus Supremo: Há um único deus criador, Ahura Mazda (o "Senhor da Sabedoria"), que representa a luz, a verdade e a ordem cósmica;
- Dualismo ético: O zoroastrismo apresenta o universo como um campo de batalha entre o bem (representado por Ahura Mazda) e o mal (representado por Angra Mainyu ou Ahriman)
- Livre arbítrio: Para Zaratustra, os seres humanos possuem a liberdade de escolher entre o caminho da verdade (Asha) e o da falsidade/caos (Druj), sendo responsáveis por suas escolhas morais.
O pensador alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) usou o nome do profeta na famosa obra Assim Falava Zaratustra (1883). No livro, Nietzsche utiliza Zaratustra como um alter ego fictício para proclamar o niilismo, a "morte de Deus", a chegada do Além-do-homem ou Super-homem (Übermensch) e o anúncio da crise dos valores do Ocidente (a transvaloração dos valores tradicionais). O eterno retorno é outro conceito central do livro, segundo o qual toda a existência se repetiria infinitamente.
⁵ "A Liberdade não deve apenas ser amada II", Diário de Pernambuco, 13 de junho de 1945. E noutros Diários Associados. 
⁶ Nota do gerente do Blog: Não se trata de um poema, nem de um livro independente; trata-se na realidade, de um artigo ou texto de combate (ensaio/crônica) escrito em janeiro de 1943.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Bernanos exilou-se no Brasil, de onde escreveu diversos textos de resistência e de reflexão política. Esse texto específico foi posteriormente compilado e publicado em suas coleções de escritos de guerra e correspondências, notadamente na obra póstuma Le Chemin de la Croix-des-Âmes.  
⁷ Lettre aux Anglais, Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 1942, pp. IV, V, I, VII e IX-XI. 
⁸ "O indesejável 'Monsieur' Bernanos. Um novo embaixador dos soviets?", Fronteiras, Recife, ano VII, nº 10, outubro, 1938. Curiosamente, um ano antes, quando as posições, de Bernanos contra Franco na Guerra civil espanhola, eram menos notórias, a mesma revista Fronteiras publicava uma recensão de João Vasconcelos, favorável à Nouvelle Histoire de Mouchette ano VI, nº 28, setembro de 1937). Ainda Fronteiras promoveria violenta campanha contra Jacques Maritain, por conta de idênticos motivos, sendo então ecoada por muitos outros setores.
⁹ Ainda "O indesejável 'Monsieur' Bernanos", Fronteiras, Recife, ano VIII, nº 2, fevereiro, 1939. 
Pode ser um paradoxo, mas o certo é que Bernanos admirava o Conde de Paris, herdeiro do Trono da França, então muito em evidência, conforme se vê na sua carta a René Prouvot, em 9 de julho de 1939, in Correspondance, ob. cit., p. 255. Os monarquistas brasileiros ignoravam-no...
¹⁰ "Georges Bernanos", Frankreich in Widerspruch, Hamburgo, Hanseatische Verlargsanstalt, 1943, p. 65. 
¹¹ Carta recohida por André Rousseaux, in Correspondance, ob. cit., p. 225. 
¹²  Carta a René Prouvot, em 5 de julho de 1939, in idem, pp. 254 e 255.
¹³ Melo Franco, ob. cit., p. 384. 
¹⁴ Carta a Amoso Lima, em 26 de setembro de 1938, in Correspondance, ob. cit., p. 227. 
¹⁵ Carta a Jorge de Lima, em 5 de janeiro de 1945, ob. cit., pp. 557 e 558. 
¹⁶ Carta novamente a Jorge de Lima, idem, pp. 558 e 559. 
¹⁷ Carta ao Coronel X, ibidem, pp. 551 e 552. 
¹⁸ Carta a V. Melo Franco, em 24 de dezembro de 1945, ibidem, pp. 594 e 595. 
¹⁹ Carta a F. Carneiro na mesma data, ibidem, p. 593. 
²⁰Carta a G. Duhamel, 15 de março de 1948, ibidem, p. 751. 
²¹ Lettre aux Anglais, ob. cit., p. I.
²² Alma do Tempo, ob. cit., pp. 384 e 385. 
²³ "A Liberdade não deve apenas ser amada!", Diário de Pernambuco ( e todos os Diários Associados), 10 de junho de 1945. 
²⁴ Idem, nº II, 13 de junho de 1945, ob. cit.
Ficou um registro sinótico dos amigos brasileiros de Georges Bernanos in Bernanos no Brasil, ed. por Hubert Sarrazin, com depoimentos de Jorge de Lima et alii, Petrópolis, Vozes, 1968. 
O Humanismo Brasileiro por Vamireh Chacon (272 p.)

* Vamireh Chacon foi um dos mais brilhantes cientistas políticos, juristas, historiadores, professores e escritores brasileiros. Nascido no Recife, Pernambuco, dedicou sua vida ao estudo profundo da identidade nacional, da história política e das ideias sociais do Brasil. Sua formação acadêmica incluiu: graduado simultaneamente em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco e em Direito pela Faculdade de Direito do Recife (FDR) em 1956. Concluiu seu doutorado em Direito também pela FDR em 1959. Obteve pós-doutorado pela Universidade de Chicago, nos EUA em 1960, tendo no mesmo ano concluído o ciclo de pesquisa focada na área de Sociologia do Desenvolvimento. Retornando ao Brasil, obteve o título de livre-docente na FDR. Posteriormente, realizou estudos de Sociologia na Alemanha, onde morou por cerca de quatro anos. Foi na UnB que consolidou grande parte de sua carreira, tornando-se Professor Emérito, tendo atuado como chefe do Departamento de Ciência Política e Decano de Extensão. Publicou mais de 30 livros ao longo de sua vida. Sua obra é caracterizada pela análise da formação da sociedade brasileira, com forte influência da Escola do Recife e do pensamento de Gilberto Freyre. Chacon era considerado um defensor do "iberismo brasileiro", analisando as raízes culturais ibéricas do Brasil em diálogo com a modernidade universal. Membro titular e fundador da Academia Brasileira de Filosofia (cadeira nº 39) e membro da Academia Pernambucana de Letras, Chacon recebeu as maiores honrarias das letras nacionais. Em 2014, foi o grande vencedor do Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras (ABL) pelo conjunto de sua obra. A cooperação intelectual de Vamireh Chacon com o Senado e com os órgãos de editoração do parlamento remonta à década de 1970 e passando pela publicação de suas grandes obras oficiais nos anos 1990. Sua atuação como servidor em comissão do ILB encerrou-se em março de 2019.