segunda-feira, 17 de agosto de 2026

“O BANDEIRISMO PAULISTA”: terceira e última conferência no IHGSP em março de 1914

 Por Basílio de Magalhães *

Transcrevemos a terceira e última conferência do Prof. Basílio de Magalhães proferida em 23/03/1914 e publicada pelo Correio Paulistano em 24 de março de 1914 na edição nº 18.202, página 2, quando tomou posse como membro efetivo do IHGSP.  
Basílio de Magalhães (✰ Barroso, 07/06/1874 - ✰ Lambari, 14/12/1957)

 

I. INTRODUÇÃO

Nesta terceira e última conferência sobre o tema "O Bandeirismo paulista", o jornal Correio Paulistano não cita as palavras  do orador, mas utiliza uma voz narrativa em 3ª pessoa, que é uma característica do discurso indireto.
Nesta última conferência, o orador privilegia o tema da caça ao índio, mas não só este, tratando de outros temas igualmente importantes, como o de "retificar vários enganos e anacronismos dos cronistas e autores de livros de linhagens" e  "enganos dos escritores especialistas". 
 
II. Texto do Correio Paulista referente à segunda conferência do sr. Basílio de Magalhães
 
Às 20 horas de ontem, realizou-se, no Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo, a segunda sessão extraordinária para a terceira conferência, que, sobre o Bandeirismo paulista, fez o distinto professor sr. Basílio de Magalhães, do Ginásio de Campinas. (...) 
Em seguida, o professor Basílio de Magalhães passou a desenvolver a sua tese, cujo resumo damos a seguir: 
 
A propósito dos índios, em relação com o bandeirismo, diz o orador que a expedição do coronel Salvador Furtado, em 1694, constitui a última leva escravista, de notoriedade histórica, transmudada em descobridora de minas. Refere-se às questões entre os paulistas e os ignacianos, oriundas do cativamento dos silvícolas, a que os jesuítas se opunham, e mostra como a legislação lusitana andou para diante e para trás, tergiversando em assunto de tanta relevância, conforme era maior ou menor, no mimo dos soberanos portugueses, o influxo dos discípulos de Loyola. 
Cita os curiosos documentos que coligiu no Arquivo Nacional, e dos quais se patenteiam os abusos de toda sorte cometidos contra os nossos míseros fetichistas. A seu ver, o truque mais hábil empregado pelos colonos, no intuito de burlarem as leis então vigorantes, foi o de assalariarem os catecúmenos das aldeias do padroado, e, a fim de os vincularem definitivamente à gleba, casá-los com as escravas africanas... 
De uma carta do governador também se infere que até os edis paulistanos se apropriavam indebitamente dos índios das reduções jesuíticas, sitas em Barueri e S. Miguel. 
Artur de Sá e Menezes cuidou do importante problema, buscando-lhe remédios adequados, e, como fosse contrário à direção temporal dos ignacianos, criou o cargo de procurador geral dos índios, para ele nomeando a Isidro Tinoco de Sá, a quem depois fez também capitão-mor de todas as aldeias da capitania,  atos que foram aprovados pelo governo da metrópole,  instituindo-se, desse modo, a assistência civil, hoje renovada com tão prodigiosos resultados. 
Ao tratar da organização das milícias, mostra que foi esse um ato de grande habilidade de Artur de Sá e Menezes, que assim soube agradar aos paulistas e animá-los a prestar novos e ainda mais valiosos serviços à coroa portuguesa. Dos oficiais da ordenança e dos oficiais dos auxiliares (a guarda nacional daquele tempo), foi que ele se serviu para os postos de responsabilidade na organização civil das minas. 
No tocante à regularização da justiça em S. Paulo, encontrou o orador documentos que permitem retificar vários enganos e anacronismos dos cronistas e autores de livros de linhagens. Assim, desfez o erro de Silva Lisboa, perfilhado por Azevedo Marques, quanto à ouvidoria de S. Paulo, evidenciando que esta não foi bipartida em duas, e, sim, jurisdicionalmente separada da do Rio de Janeiro, pelo termo de junta de 2 de maio de 1700, aprovado pelo rei a 29 de outubro do mesmo ano. 
Estudando a sangrenta tragédia doméstica, de que foi protagonista o coronel Antônio de Oliveira Leitão, conclui o orador dizendo que esse cruento episódio,  de matar um pai a única filha, por uma suspeita infundada, e o de que foi autor Fernão Dias Paes Leme,  fero Júnio Bruto ¹ dos sertões mineiros,  fazendo suspender da forca, no acampamento do Sumidouro, a um filho natural, ao seu dileto José Paes, que urdira conspiração para impedir o genitor quase octogenário de prosseguir na inútil jornada à caça das esmeraldas, constituem as duas únicas aberrações de caráter dos paulistas, escurentando com o sangue da própria amada prole a luminosa esteira da sua marcha heróica e triunfal para a imortalidade da História. 
No concernente ao padre dr. Guilherme Pompeu de Almeida, o orador, tomando por tema a carta de Artur de Sá e Menezes ao rei, lembrando o nome do ilustre teólogo paulista para algum alto cargo eclesiástico, cita-lhe o tronco avito e o destino da sua enorme fortuna, deixada à administração dos jesuítas, e faz ver que existem presentemente no Arquivo Nacional documentos de alta valia, relativos às terras de Araçariguama, os quais podem permitir à fazenda pública a reivindicação de imensos latifúndios, incorporados no domínio geral pela lei do confisco de 1761 e hoje talvez indevidamente ocupados. A propósito do testamento do padre dr. Guilherme Pompeu de Almeida, cita o conferencista a carta régia de 17 de novembro de 1713 (ano do falecimento do notável sacerdote), fazendo ver que d. João V ali atribuía ao célebre tonsurado mais vasta progênie do que a confessada em suas disposições de última vontade. 
Passa então o orador, mercê dos documentos que coligiu, a completar a lacunosa biografia do afamado Domingos da Silva Bueno, uma das mais proeminentes figuras do bandeirismo paulista, tão imperfeitamente e tão pouco apreciada pelos linhagistas. E também com o intuito de retificar enganos dos escritores especialistas, como Azevedo Marques, Diogo de Vasconcelos e outros, põe em foco as individualidades de Manuel Lopes de Medeiros e Matias Barbosa da Silva, os quais, não obstante a alta soma dos seus serviços, prestados à terra paulista, não mereceram a honra de que lhes abrissem os cronistas capítulo especial nas suas obras, eivadas de tendências pessoais, de vaidades de família, tanto que Azevedo Marques, tendo longamente tratado do seu avoengo, o reinol Torquato Teixeira de Carvalho, deixou em quase completo olvido a personalidade, por sem dúvida superior àquela outra,  de Domingos da Silva Monteiro. 
Analisando, à luz das provas históricas, o caráter dos paulistas, faz o orador uma longa exposição dos fatos demonstrativos do arrojo insobrepujável, da índole bravia e independente dos bandeirantes, que, além da malograda aclamação de Amador Bueno, em 1641, e da expulsão dos jesuítas, pela mesma data, se rebelaram mais de uma vez contra a autoridade dos procônsules lusitanos (Salvador Corrêa de Sá e Benevides e Artur de Sá e Menezes), contra as ordens do soberano e do governador geral do Estado do Brasil, e não só depuseram do seu posto, em 1697, ao capitão-mor Gaspar Teixeira de Azevedo, e se amotinaram em 1698, para que não fosse executada a ordem régia da quebra do padrão da moeda, como também se insurgiram contra os guardas-mores que primeiro exerceram o seu mister nas minas,  José de Camargo Pimentel e Garcia Rodrigues Velho. 
E, mediante o documento que encerra a queixa dos paulistas, feita a 7 de abril de 1700, contra a concessão de datas na região aurífera a outros que não aos seus descobridores e conquistadores, conforme lhes haviam prometido as cartas régias, estabelece o orador os fundamentos da "guerra dos emboabas", tão mal estudada e tão mal conhecida até agora. 
Com os conceitos emitidos pelos ministros de Estado de Portugal, por Saint-Hilaire e Oliveira Martins, sobre o caráter e o papel proeminente dos paulistas, termina o orador esta parte da sua conferência. 
Entrando a apreciar a figura indeslembrável do hábil administrador que foi Artur de Sá e Menezes, ao regressar definitivamente para a sua pátria, em 1702, levou consigo 30 arrobas de ouro. Pois bem,  isso nada é em cotejo com os benefícios inestimáveis que a nossa terra lhe mereceu. 
Concluindo, afirma o orador que o estudo e a evocação dos audazes pioneiros da civilização brasileira, se outra valia não tivessem, ao menos serviriam para reerguer a fibra desalentada do nosso povo, e dar-lhe, com o exemplo edificante de tantos feitos grandiosos, uma lição necessária, para que cuidemos mais alevantadamente desta Pátria imensa e rica que eles formaram e para que mais dignos deles nos tornemos, na preparação do futuro ridente que nos espera. 
 
As últimas palavras do conferencista foram acolhidas por uma vibrante salva de palmas. 
O sr. presidente, antes de encerrar a sessão, congratulou-se, com o Instituto pelas magníficas conferências com que o estimado consócio, professor Basílio de Magalhães, contribuiu para o desenvolvimento do programa do sodalício e dirigiu ao conferencista palavras de animação e aplausos pelas suas pacientes investigações históricas e acertadas revisões de datas e fatos, de importância para o conhecimento do passado nacional. Apreciou a ação inteligente do brilhante investigador e os resultados profícuos que dele provirão. Foram por igual calorosamente aplaudidas as palavras do sr. presidente, que convidou os societários para a sessão de 5 de abril, e encerrou os trabalhos.
 
* Biografia no site do IHG de São João del-Rei por José Passos de Carvalho
 
 
III. NOTA EXPLICATIVA do gerente do Blog de São João del-Rei 
 
¹  O nome Júnio Bruto refere-se principalmente a duas figuras fundamentais e distintas da história de Roma: o lendário fundador da República Romana e o famoso assassino de Júlio César.

a) Lúcio Júnio Bruto (Século VI a.C.)
 
Foi o fundador semilendário da República Romana e um dos seus dois primeiros cônsules no ano de 509 a.C.. Ele liderou a revolta popular que derrubou o último rei de Roma, Tarquínio, o Soberbo, jurando que Roma nunca mais seria governada por um rei. É lembrado como o símbolo máximo do patriotismo e do sacrifício republicano por ter condenado os próprios filhos à morte quando estes tentaram conspirar para restaurar a monarquia. (Basílio parece estar se referindo a este, já que atribui a Fernão Dias Paes Leme o filicídio devido à condenação do próprio filho à morte por conspirar contra a expedição do pai à caça das esmeraldas.)
 
b) Marco Júnio Bruto (85 a.C. – 42 a.C.)

Este é o célebre senador que liderou o assassinato de Júlio César nos Idos de Março (15 de março de 44 a.C.). Orgulhoso de ser descendente direto de Lúcio Júnio Bruto, ele via o acúmulo de poder nas mãos de César (então ditador vitalício) como uma ameaça mortal à liberdade de Roma.
Apesar de ser um amigo próximo e protegido de César — gerando a famosa expressão dramática "Até tu, Brutus?" (Et tu, Brute? em latim) —, colocou a preservação da República acima dos laços pessoais. Após a morte de César, ele fugiu para a Grécia, reuniu um exército contra os herdeiros do ditador Júlio César (Marco Antônio e Otaviano) e suicidou-se após ser derrotado na Batalha de Filipos.
 
 
III. BIBLIOGRAFIA
 
BRAGA, F.J.S.: BIOBIBLIOGRAFIA DE BASÍLIO DE MAGALHÃES, publicado em 10/03/2019 no Blog de São João del-Rei
 
MAGALHÃES, Basílio de:  “O BANDEIRISMO PAULISTA”: conferência no IHGSP em março de 1914, publicado em 15/08/2026 no Blog de São João del-Rei
 
______________________: “O BANDEIRISMO PAULISTA”: segunda conferência no IHGSP em março de 1914, publicado em 16/03/2026 no Blog de São João del-Rei


______________________: O JORNALISMO SANJOANNENSE NOS FINS DO SECULO XIX  
 

domingo, 16 de agosto de 2026

“O BANDEIRISMO PAULISTA”: segunda conferência no IHGSP em março de 1914

 Por Basílio de Magalhães *

Transcrevemos a segunda de três conferências do Prof. Basílio de Magalhães proferida em 21/03/1914, publicada pelo Correio Paulistano em 22 de março de 1914 na edição nº 18.200, página 2, quando tomou posse como membro efetivo do IHGSP.  
Basílio de Magalhães (✰ Barroso, 07/06/1874 - ✰ Lambari, 14/12/1957)

 

I. INTRODUÇÃO

Nesta segunda conferência sobre o tema "O Bandeirismo paulista", o jornal Correio Paulistano não cita as palavras  do orador, mas utiliza uma voz narrativa em 3ª pessoa, que é uma característica do discurso indireto.
Dessa forma, ficamos sabendo que os documentos referidos na palestra se prendem ao ciclo da prata, uma das divisões do bandeirismo. 

 
II. Texto do Correio Paulista referente à segunda conferência do sr. Basílio de Magalhães
 
No Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo realizou-se ontem uma sessão extraordinária, convocada especialmente para o sr. Basílio de Magalhães efetuar a sua conferência sobre "O Bandeirismo paulista". 
O presidente, sr. senador Luiz Piza, convidou para secretários os srs. drs. João de Serqueira Mendes e Affonso A. de Freitas e, declarando aberta a sessão, deu a palavra ao orador inscrito. Começando a sua exposição, o sr. Basílio de Magalhães estabelece, como preliminar elucidativa, que os documentos a que se vai referir se prendem ao ciclo da prata, na sua fase derradeira, e que as expedições simultâneas, ordenadas por Artur de Sá e Menezes em 1698, uma a Vacaria e outra a Sabarabussu, devem ser estudadas ao mesmo tempo e postas em paralelo no campo visual da nossa evolução histórica, para que de tal exame ressalte, a toda a luz, a verdade verdadeira sobre a individualidade e os feitos de Manuel de Borba Gato. 
Afirma que as peças ora coligidas lhe permitiram por termo às controvérsias, às lendas e às erronices, que pejam os livros de linguagens e de crônicas a tal propósito. 
Assim, não há prova alguma autêntica, de que o responsável pelo homicídio de d. Rodrigo de Castelo-Branco houvesse impetrado, por si e por seus parentes, o indulto do seu delito, nem que lhe tivesse sido dado o perdão a troco do manifesto das minas de ouro do rio das Velhas, nem ainda que acompanhasse o governador ao sertão aurífero. 
O que se pôde inferir dos documentos (as patentes de 3 de março e 15 de outubro de 1698) é que Artur de Sá e Menezes, pondo em prática uma sábia política de larga e utilitária tolerância, deu como castigo único aos dois réus do crime de primeira cabeça, Gaspar de Godoy Colaço e Manuel de Borba Gato, o empreenderem, respectivamente, o descobrimento das minas de prata da Vacaria e do Sabarabuçu. 
A segunda não passou de um consectário natural da primeira, como o evidenciam os termos quase iguais, constantes do atos de nomeações dos cabos das jornadas. 
Em nenhum deles se fala em ouro, e, se algum afim ou consanguíneo de Borba Gato influía no tácito indulto, foi por certo Garcia Rodrigues Paes,  o generoso paulista que se propôs a abrir o caminho novo, realizando à própria custa quase toda essa obra difícil e admirável. 
Retifica o orador muitos equívocos em que andaram claudicando os escritores estrangeiros e nacionais a tal respeito, e põe em evidência a índole bravia e as aspirações de independência, reveladas pelos paulistas no último quartel do século XVII, não só no tocante ao assassínio de d. Rodrigo, como também na sanguinosa luta por causa da quebra do padrão da moeda, cujo lúgubre desfecho foi cair morto pelo bacamarte de Gaspar de Godoy Colaço o audaz régulo Pedro Ortiz de Camargo, que chegara a intimar a Artur de Sá e Menezes não viesse a S. Paulo, porque os paulistas se sabiam muito bem governar... 
E tudo quanto expõe apóia-se nas cartas do citado governador, dirigidas então ao soberano, isto é, nos documentos oficiais. 
Nega o orador a pretendida rivalidade entre paulistas e taubateanos, emulação a que os historiógrafos de além-mar e os nossos cronistas atribuem a expansão dos descobrimentos do ouro no vasto sertão dos índios Cataguases. 
Funda-se tal tradição no atrito entre as bandeiras de Bartolomeu Bueno de Siqueira e Salvador Furtado e nas hostilidade com que os descobridores taubateanos receberam os primeiros guardas-mores. Mas da extensa documentação examinada não se pode concluir que os naturais da vila de S. Paulo e os filhos da vila de Taubaté se houvessem separado em hostes rivais no interior do Brasil. O que se vê das peças oficiais é que foi a fome o fator real da expansão dos descobrimentos. 
Houve duas grandes crises de carestia de gêneros alimentícios, uma em 1697-1698 e outra em 1700-1701, e a elas é que provadamente se deve a fundação de novos arraiais, hoje cidades, e de muitos ribeiros auríferos de Minas Gerais. 
O orador cita os comentos em que estriba o seu asserto, e faz considerações sobre os rushs de aventureiros que buscavam a região do ouro e sobre a imprevidência dos bandeirantes paulistas, tomados pela auri sacra fames, que lhes deu em resultado a fome, a terrível manifestação do instinto nutritivo, operando com coeficiente de revelação de pasmosas riquezas. 
Passando a tratar do “caminho novo”, põe em relevo a figura assombrosa do filho do caçador das esmeraldas, de Garcia Rodrigues Paes, cuja liberalidade e competência merecem lugar de honra nas páginas dos nossos fastos. E, como os tratadistas têm cometido enganos deploráveis nesta matéria, o orador demonstra, pelas cartas de Artur de Sá e Menezes e pela provisão de 2 de outubro de 1699, que o filho de Fernão Dias Paes Leme, logo que a sua proposta foi aceita pelo governador (que rejeitara a de Amador Bueno da Veiga), em começos de 1698, atacou logo a grande obra, que lhe daria jus, como pensa Diogo de Vasconcelos, a ser proclamado o príncipe dos engenheiros”. 
Refere ainda o procedimento incorreto que tiveram para com Garcia Rodrigues Paes os habitantes do Rio de Janeiro, os quais deixaram de cumprir a sua promessa de dar-lhe 10.000 cruzados, quando a estrada lhes permitisse livre tráfego até às Minas, e conclui mostrando, com Diogo de Vasconcelos e Calógeras, que a empresa levada a efeito pelo filho do caçador das esmeraldas servia de traçado à locação dos trilhos da E. de F. Central do Brasil. 
As últimas palavras do orador foram cobertas por vivos aplausos. 
O sr. presidente, encerrando a sessão, marcou outra para amanhã, às 20 horas, a fim de o sr. Basílio de Magalhães realizar a sua terceira conferência.
 
 
III. BIBLIOGRAFIA
 
BRAGA, F.J.S.: BIOBIBLIOGRAFIA DE BASÍLIO DE MAGALHÃES, publicado em 10/03/2019 no Blog de São João del-Rei
 
MAGALHÃES, Basílio de:  “O BANDEIRISMO PAULISTA”: conferência no IHGSP em março de 1914, publicado em 15/08/2026 no Blog de São João del-Rei
 
______________________O JORNALISMO SANJOANNENSE NOS FINS DO SECULO XIX 
 
 

sábado, 15 de agosto de 2026

“O BANDEIRISMO PAULISTA”: conferência no IHGSP em março de 1914

 Por Basílio de Magalhães *

Transcrevemos a primeira de três conferências do Prof. Basílio de Magalhães proferida em 20/03/1914, publicada pelo Correio Paulistano em 21 de março de 1914 na edição nº 18.199, na coluna Crônica Social, página 2, quando tomou posse como membro efetivo do IHGSP. 
Basílio de Magalhães (✰ Barroso, 07/06/1874 - ✰ Lambari, 14/12/1957)

 I. INTRODUÇÃO pelo Gerente do Blog de São João del-Rei

Nesta 1ª conferência, o orador relembra o presente que a Prncesa Isabel lhe fez de sua pequena biblioteca particular e a sua iniciação jornalística em São João del-Rei, sem descurar de enaltecer a pujança e o progresso do povo paulista na sua formação; em seguida, manifesta um preito de louvor e gratidão pelo convite de integrar o quadro social do IHGSP que muito admira; e, por fim, exalta a importância do Arquivo Nacional, graças ao qual realizou importante pesquisa de campo e fez novas descobertas sobre os ciclos do bandeirismo paulista na fase colonial, dando especial atenção aos seguintes ciclos: da caça ao índio, da esmeralda, da prata, do ferro e do ouro. 
Uma observação ainda se faz necessária: o texto abaixo utiliza dois tipos de discurso: o direto (em que a própria fala do orador é transcrita em dois longos trechos e aparece em 1ª pessoa com a citação direta das palavras ditas) e o indireto (em que a fala do orador é mencionada pela voz narrativa no terceiro e último trecho e aparece em 3ª pessoa). Observe que no discurso direto há a existência de aspas, ao passo que o Correio Paulistano corretamente as dispensa no caso do discurso indireto.

 

II. Texto do Correio Paulistano 

Com a presença do sr. comendador Tiburtino Mondim Pestana, representando o sr. dr. Altino Arantes, secretário do Interior, realizou o sr. Basílio de Magalhães, distinto lente do Ginásio de Campinas, a primeira das três conferências que se propõe a efetuar no Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo. (...) 

Na segunda parte da ordem do dia, realizou-se A CONFERÊNCIA do sr. Basílio de Magalhães, obedecendo ao tema:  “O bandeirismo paulista”. 
O distinto conferencista, antes de entrar propriamente no assunto da sua palestra, dirigiu-se ao auditório nos seguintes termos:
Srs.: Desde anos muito em flor, quando, em geral, nos cérebros ainda em incipiente formação para a grande labuta da existência predomina apenas o vivaz e dispersivo pendor para as doidivanices, peculiares dos que nasceram e se criaram no conforto e na fortuna,  a necessidade, de quem muito bem disse eminente pensador que é "ama de seios magros, porém, que dá aos seus rebentos leite são e fortificante", arrojou-me ao trabalho, antes mesmo de haver eu atingido ao extremo da segunda idade. 
Eu mal havia transposto os 13 anos, quando busquei conciliar os estudos de humanidades com o ganha-pão, e o conhecimento da arte tipográfica abriu-me emprego no primeiro órgão republicano que repontou no berço do meu conterrâneo Tiradentes, "A Pátria Mineira", onde um pugilo de crianças, das quais é já viageiro do Além o nobre espírito de Altivo Sette, e aqui estamos apenas dois, Sertório de Castro e eu, bebíamos sofregamente as lições de ciências e letras e os altos ensinamentos de civismo que nos ministrava Sebastião Sette, hoje septuagenário, sólida cultura e caráter sem jaça, e condenado pela politicagem nefasta e mesquinha e estrábica ao ostracismo injusto, que ele suaviza num lar feliz, no remanso bucólico do tradicional Capão da Traição, o Matosinhos de agora. 
"A República Federal" de Assis Brasil, o primeiro livro político que me caiu em mãos para uma constante e proveitosa leitura e a propaganda dos novos ideais, indefessa e acentuadamente realizada por Sebastião Sette, fizeram-me preferir à prometida proteção da herdeira do trono de d. Pedro II,  da qual recebi, com gratidão, que sempre lhe guardo, uma biblioteca de estudos propedêuticos,  o mourejar de cada dia, a árdua conquista do pão material e do pão espiritual, e, simultaneamente, a audaciosa interpresa de combater o grande combate pela radical transformação política de nossa Pátria. 
A crise auroral de 15 de novembro,  infelizmente não transmudada ainda na perene luz de paz, de serena e inamolgável justiça, e, enfim, de vera e civil democracia, que ajudei a pregar,  achou-me de atalaia, no baluarte da "Pátria Mineira", como a pequenina sentinela intimorata que servia de avisar, lá do alto do torreão onde cintilava a almenara, quer a aparição do inimigo, quer as alvíssaras de vitória. 
Norteou-me a vida, de então para cá, um consciente, um esclarecido, um ardoroso amor pátrio, que não cede o passo a nenhum outro dos meus sentimentos. E, para maior felicidade minha, o restante da formação do meu espírito,  vim fazê-lo aqui, nesta gloriosa Atenas brasileira, onde vivem e rebrilham, na imprensa, nos institutos científicos e literários, nas cátedras das escolas, e até nas tão requestadas posições da política, os meus mestres, os meus camaradas e os meus discípulos. 
Dizia sempre, e sempre escrevia de mim, quando gentilmente me ofertava as suas produções poéticas, o velho satírico e bondoso padre que foi Correia de Almeida,  que eu era um "mineiro apaulistado". 
É verdadeiro o asserto,  ouso proclamá-lo alto e bom som. 
Sem nunca olvidar o torrão natal, sem nunca perder as afeições que lá me redobraram a infância e me acompanham como um resplendor saudoso e sugestivo,  aqui foi que completei a minha educação social e aqui, força é que eu pronuncie o termo necessário, foi que yankeezei o meu espírito, plasmado pela febre de progresso, de praticidade de arrojo, de perseverança, que uns restos do sangue dos bandeirantes punha na enfibratura desta gente hospitaleira, fidalga e empreendedora, coadjuvada e cada vez mais impelida para diante pelo braço estrangeiro, que trouxe energias novas a se juntarem às energias deste admirável povo paulista.
* * 
Passado o prurido das pugnas jornalísticas e dos arroubos poéticos,  apanágio daquela "primavera della vita" de que fala Metastasio,  fui, pela porta larga de um concurso, assentar em Campinas a minha tenda de certâmen, no ensino público. 
Surpreendeu-me lá, srs., a eleição com que me honrastes. 
Nunca me fiz lembrado para os cenáculos quaisquer, nunca aspirei a frívolas galas inexpressivas e infecundas; mas também nunca recusei a minha parcela de atividade aos que trabalham seriamente, aos que se votam seriamente ao bem geral. 
O Instituto Histórico de S. Paulo, fundado pelos homens que mais se dedicaram aqui ao culto das gloriosas e venerandas tradições da terra dos intrépidos pioneiros da nossa civilização, dos triplicados da área territorial do Brasil, e contendo no seu ilustre grêmio o escol da intelectualidade paulista, bem merece, pela soma opulenta dos serviços já prestados ao estudo da nossa evolução, que eu lhe ofereça, no estrito limite da minha capacidade, a exígua contribuição que ora lhe trago, e, mais do que ela, o preito da minha profunda admiração e do meu inequívoco reconhecimento. 
O autor inglês de interessante obra, vinda a lume, em meados do século findo, com o título Costumes da Índia, conta que, no reino de Onde, impunha o soberano, a quem por ele quisesse ser recebido, lhe apresentasse 500 moedas de ouro a luzirem sobre rendilhado lenço de fina seda. 
Maior, por sem dúvida, é o tributo que merece se lhe renda este sodalício por parte dos a quem foi galardoada a subida honra de ter o nome inscrito no seu quadro social e de ser aqui acolhido com tanta benevolência e com tanto carinho. 
Não é o fulvo metal, srs., que ostento nas mãos, neste momento, para testemunho do meu apreço para convosco. 
É, sim, a história documentada dos que o descobriram nos virgens recessos do sertão pátrio e o arrancaram das entranhas fecundas do Brasil que me vai sair dos lábios, como prova do desejo sincero que tenho de colaborar convosco neste augusto ministério de reevocar e engrandecer cada vez mais o culto do passado, para que melhor nos guiemos no presente e melhor preparemos o futuro. 
Creio que só assim posso corresponder, embora muito aquém do vultuoso penhor a que me obrigastes, à distinção de que me fizestes alvo e à afetuosa acolhida que acabais de dar-me no Instituto Histórico de S. Paulo,  templo em hora boa erguido pelos descendentes dos bandeirantes àquela a que Cícero chamou "luz da verdade, testemunha do tempo e mestra da vida". 
E, ao concluir este rápido agradecimento, devo também consignar que profundamente me sensibilizaram, tanto as palavras bondosas do sr. dr. Luiz Piza, como a presença do digno representante do dr. secretário do Interior, como ainda a presença de tão seleto auditório.
 
* * 
 
O orador, entrando no assunto da sua conferência, começa assegurando que a guerra holandesa no Norte e o bandeirismo paulista ao Sul são os episódios culminantes de nossa história, na fase colonial, pela extensão, intensidade e consequências que tiveram. 
Se o primeiro já se acha convenientemente estudado e esclarecido,  do segundo é lícito asseverar, com Sílvio Romero, que sabemos, mais e melhor de história do antigo Egito do que da história das "bandeiras" no Brasil. 
Não se pode conhecer a história pátria, afirma o orador, sem pesquisar detida, paciente e cuidadosamente os documentos do Arquivo Nacional. 
Erros de toda sorte pululam nos cronistas antigos, nos historiógrafos especialistas e nos compêndios escolares. 
Não lhe foi fácil tarefa a rebusca, a leitura, o exame, o confronto e o aproveitamento, enfim, das peças que coligiu no volume ora apresentado ao governo do Estado, e a quem o orador lembrou a conveniência e a oportunidade do encargo de que se está desempenhando.
Entra a explicar as dificuldades que se lhe antolharam, por virtude de erros de datas e de restaurações imperfeitas, citando exemplos elucidativos e demonstrando como até escritores modernos têm dado à estampa essas provas do passado, adulterando-as ou truncando-as. 
Em seguida divide o bandeirismo nos seguintes ciclos:  da caça ao índio; das esmeraldas; da prata; do ferro e outros metais úteis, e do ouro. 
O seu estudo atual não vai além de 1700, devendo o volume seguinte abranger as duas décadas de 1700 a 1720, e o terceiro, o restante da matéria. 
Mostra como o rei de Portugal chegou a pedir para as expedições africanas as couraças acolchoadas de algodão, inventadas pelos paulistas apresadores de escravos indígenas. 
Analisa a caça das esmeraldas por Agostinho Barbalho e Paes Leme, tendo desta achado um curioso documento, de todo desconhecido, e mostra o papel que desempenhou Garcia Rodrigues Paes, na prossecução da inútil porfia, cuja utilidade apenas consistiu no desbravamento de uma grande região aurífera, dada depois a manifesto pelo célebre Borba Gato. 
Como o ciclo da prata deve ser apreciado na conferência seguinte, exibe o orador a documentação que se lhe deparou a propósito do ciclo do ferro, especialmente no tocante às tentativas de Luiz Lopes de Carvalho. 
O primeiro manifesto oficial do ouro é a parte mais importante das investigações a que o conferencista procedeu no Arquivo Nacional. Por elas se vê que foi Carlos Pedroso da Silveira quem levou ao governador o ouro achado pela bandeira de Bertholdo Bueno de Siqueira em 1694 no Ituverava, e foi Sebastião de Castro Caldas, e não Antonio Paes de Sande, quem recebeu o manifesto. As provas são muitas e decisivas, servindo igualmente a corrigir os equívocos e a preencher as lacunas que abundam nos tratadistas. 
Nesta parte, fez o orador uma extensa apreciação quer da bandeira de Bueno, quer da do coronel Salvador Furtado, pondo em evidência a primazia de Taubaté, e estabelecendo o fulcro em que vai girar outra relevante questão, qual a da pretendida rivalidade entre os filhos daquela vila e os da vila de S. Paulo,  assunto que será tratado na conferência seguinte.
Passa a analisar a organização fiscal das minas, mostrando, com os documentos, que os primeiro guardas-mores foram recebidos hostilmente pelos descobridores; que José de Camargo Pimentel, demitido do posto e recusado gravemente por Arthur de Sá e Menezes, foi por este, depois, reabilitado e premiado, e patenteia, finalmente, que as provisões dos funcionários do fisco, assim como o regimento de 3 de março de 1700, fazem luz sobre muitos pontos dantes em total escuridade. 
Entrando na última parte do seu discurso, palpabiliza como os reis lusitanos envidaram todos os meios possíveis, no sentido de canalizarem para a metrópole o ouro extraído das minas do Brasil;  estuda os bandos e alvarás, referentes ao imposto dos quintos, e lê um curioso documento, em que  Pedro II ¹ ordenava se pagasse o tributo do vintém para a casa da rainha, mesmo depois do falecimento desta. 
Com o episódio dos cunhos falsos, desenrolado em 1698, e que teve por principais autores o beneditino Frei Roberto, o vigário de Taubaté José Rodrigues Preto e Domingos Dias de Torres ², encerra o orador a conferência, tendo antes feito considerações sobre estes crimes, oriundos da avalanche de ouro, e palpabilizando que o indulto veio a constituir a regra geral. 
Este delito de falsificação era, aliás, de todo ignorado pelos linhagistas e historiógrafos.
Uma vibrante salva de palmas acolheu as últimas palavras do orador.
 
* Biografia no site do IHG de São João del-Rei por José Passos de Carvalho
 
 
III. NOTA EXPLICATIVA do gerente do Blog de São João del-Rei 
 
¹  Basílio não está se referindo aqui ao último imperador do Brasil, que governou entre 1840 e 1889, em um período conhecido como Segundo Reinado. Com efeito, trata-se sim de D. Pedro II, cognominado "o Pacífico", que foi o Rei de Portugal e Algarves de 1683 até à sua morte em 1706, tendo anteriormente servido a nação, como regente do irmão, o rei Afonso VI, já a partir de 1668 até à ascensão ao trono. 
 
² No encerramento de sua primeira conferência, Basílio cita o crime fiscal de 1698  (frequentemente associado às primeiras legislações e fraudes do ouro iniciadas a partir de 1694), o qual pode ser resumido de forma direta como o primeiro grande escândalo de falsificação de selos reais e sonegação de impostos do Ciclo do Ouro no Brasil.
O crime consistiu na seguinte trama: em vez de pagarem o tributo à Coroa, três moradores influentes de Taubaté montaram certa estrutura clandestina com a finalidade de:
Falsificação: O artesão civil Domingos Dias de Torres esculpiu um cunho (carimbo de ferro) idêntico ao selo oficial do Rei de Portugal.
Lavagem: Apoiado pelo monge beneditino Frei Roberto e pelo vigário de Taubaté, José Rodrigues Preto, o grupo carimbava o ouro em pó dos mineradores diretamente dentro de estruturas paroquiais.
Golpe: O metal recebia a marca forjada de "legalizado" e voltava a circular livremente na colônia sem que Portugal recebesse um único grama do imposto devido.
O Desfecho
A fraude gerou um enorme rombo nos cofres públicos, sendo descoberta pelo governador Artur de Sá e Menezes por meio de uma rigorosa investigação judicial (a Devassa de 1698). O escândalo provocou a punição diferenciada dos membros e forçou a Coroa Portuguesa a proibir a circulação de ouro em pó, culminando no fechamento definitivo da Casa de Fundição de Taubaté em 1704 para transferir as operações diretamente para o solo mineiro.
Domingos Dias de Torres, diferentemente de seus comparsas (o beneditino Frei Roberto e o vigário José Rodrigues Preto), não pertencia ao clero nem tinha imunidade eclesiástica; era um cidadão civil, morador da Vila de Taubaté. Ele era o cérebro técnico da fraude, pois possuía o conhecimento metalúrgico necessário para gravar e fabricar o carimbo de ferro (o cunho de punção) que imitava perfeitamente a marca da Coroa Portuguesa. No contexto do grande escândalo do desvio do imposto do ouro (o "quinto") em Taubaté no final do século XVII, Domingos Dias de Torres foi o mestre artesão e principal executor material da falsificação dos cunhos reais.
O esquema funcionava assim: com o cunho falso esculpido por Domingos, o trio transformava ouro clandestino em ouro "legalizado" sem que um único grama fosse entregue às autoridades fiscais da metrópole. O ouro em pó trazido do sertão mineiro era fundido, marcado com o selo falso em Taubaté e devolvido aos contrabandistas, que pagavam uma comissão ao grupo pela fraude.
A Devassa de 1698 foi o inquérito judicial oficial aberto pelo governador da Capitania do Rio de Janeiro, Artur de Sá e Menezes, para investigar e desmantelar a rede de contrabando operada por meio de cunhos falsos em Taubaté.
O processo correu com extremo sigilo e rigor militar, sendo um dos primeiros e mais detalhados registros documentais sobre a corrupção fiscal no início do Ciclo do Ouro no Brasil.
As Descobertas do Inquérito
A investigação revelou uma sofisticada estrutura criminosa dividida em três frentes:
Frente Técnica: Comprovou-se que o artesão Domingos Dias de Torres havia esculpido um punção de ferro idêntico às ferramentas oficiais da Coroa para estampar o selo real nas barras de ouro.
Frente Logística: Os depoimentos colhidos apontaram que o grupo operava de dentro de estruturas religiosas locais. O ouro vindo do sertão era derretido clandestinamente e marcado, burlando o imposto do "quinto".
Frente de Proteção: A devassa expôs o envolvimento direto do clero na facilitação do crime, apontando nominalmente o monge beneditino Frei Roberto e o vigário de Taubaté, José Rodrigues Preto, como cabeças do esquema.
Em 4 de junho de 1698, o governador Artur de Sá e Menezes formalizou o encerramento da primeira fase da devassa e enviou um relatório detalhado ao Rei D. Pedro II de Portugal.
A papelada gerada por essa devassa serviu de base jurídica para as cartas régias de 1699 e determinou as diretrizes que culminaram na reforma total da fiscalização e no encerramento da própria Casa de Fundição de Taubaté em 1704.
Por não possuir imunidade religiosa, Domingos sofreu a punição física e civil mais severa do grupo. Ele foi condenado à prisão, teve todos os seus bens confiscados pela Coroa Portuguesa e foi sentenciado ao degredo (exílio forçado da colônia).
Frei Roberto conseguiu fugir para o Reino de Portugal logo no início das investigações do governador Artur de Sá e Menezes. Como era um religioso da Ordem de São Bento, ele não pôde ser julgado pela justiça civil comum. Sua punição ficou a cargo do Tribunal Eclesiástico e de seus superiores na Europa, resultando no seu recolhimento forçado a um convento em Portugal, onde foi vigiado e afastado definitivamente das atividades na colônia.
Valendo-se do chamado "foro eclesiástico" (o direito de clérigos serem julgados apenas por tribunais da Igreja), o vigário secular José Rodrigues Preto conseguiu evitar a execução de uma pena de morte ou prisão comum pelas mãos do governador. Ele foi afastado de suas funções paroquiais em Taubaté e respondeu a um longo processo canônico.
A fraude dos cunhos evidenciou que a Casa de Fundição de Taubaté ficava localizada em uma "zona de escoamento" vulnerável e muito distante das zonas de extração mineral (as Minas Gerais). Para mitigar os desvios, a Coroa concluiu que as fundições deveriam operar diretamente nos arraiais mineradores.
Em 1704, sob o argumento de que a estrutura de Taubaté havia cumprido seu papel provisório — mas fortemente motivada pela insegurança fiscal gerada pelos escândalos de falsificação —, a Coroa determinou o encerramento definitivo de suas atividades, transferindo o eixo oficial de arrecadação do "quinto" para o território mineiro.
A seguir, no programa de descentralização das Casas de Fundição, foram estas as principais diretamente em solo mineiro:
1) Casa de Fundição de Vila Rica (11/02/1719)
2) Casa de Fundição de Sabará (11/02/1719)
3) Casa de Fundição de São João del-Rei (1725)
4) Casa de Fundição de Ribeirão do Carmo (1734)
 
 
IV. BIBLIOGRAFIA
 
BRAGA, F.J.S.: BIOBIBLIOGRAFIA DE BASÍLIO DE MAGALHÃES, publicado em 10/03/2019 no Blog de São João del-Rei
 
MAGALHÃES, Basílio de: O JORNALISMO SANJOANNENSE NOS FINS DO SECULO XIX 
 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

UM PASSO MACABRO DE “OS SERTÕES”

 Por Célio Pinheiro *

Transcrevemos palestra do Prof. Célio Pinheiro proferida em 13/08/1974 no Salão Nobre da Casa Euclidiana dentro do CICLO DE ESTUDOS EUCLIDIANOS, na Semana Euclidiana - de 9 a 15/08/1974 em São José do Rio Pardo-SP, Área II.
 
Prof. Célio Pinheiro (✰ Araçatuba, ? - ✞ Penápolis, 24/09/2017) - Crédito: Blog do Consa

I. INTRODUÇÃO 
 
A passagem do século dezenove para o atual é marcada por uma atmosfera literária a que se chamou de Decadentismo ou Decadismo. "Os 'decadentes', seguindo os passos de Baudelaire, pregavam a anarquia, o satanismo, as perversões, as morbidezas, o pessimismo, a histeria, o horror da realidade banal...". ¹ 
No entanto, fenômenos sociais e políticos levam os nossos escritores daquele período a uma meditação sobre os rumos de nossa pátria depois de instituída a República. "De fato, restabelecidos pelos movimentos espiritualistas a evidência e o primado da realidade espiritual, inicia-se um processo de penetração num mundo  sem dúvida abstrato, mas para a convicção geral muito mais atuante e decisivo na história de um povo, que os elementos de ordem estritamente material  o mundo da alma nacional, da psicologia e do caráter do povo, das virtudes morais da "raça". ² 
Vivendo e produzindo literariamente nesse período de transição, Euclides da Cunha constrói uma obra que alia essa análise da "raça" brasileira, envolvido pela atmosfera do Decadentismo. Que Euclides analisou verticalmente o homem brasileiro em suas relações étnicas, sociais, geográficas, etc.  já está fartamente provado. Mas que ele escreveu sob a influência do Decadentismo, resta determinar, o quanto minuciosamente for possível. 
A sua vida o predispõe para uma produção estética de profunda gravidade. As análises que têm sido feitas de sua existência sempre o apresentam como um homem mais sombrio do que alegre. 
Muitos críticos literários o colocam dentro do Simbolismo, movimento literário que encampa as diretrizes do Decadentismo. Citamos como exemplo Antônio Soares Amora. ³ 
O gênero que Euclides elegeu para a sua obra, o ensaio, é muito mais propício a um tom sério do que o tom livre. E não podemos negar que toda a obra euclidiana se nos apresenta numa atmosfera de gravidade raramente encontrada na literatura brasileira. 
Porém, da constatação de escritor sério e sombrio, que escreveu na época do Decadentismo/Simbolismo, até a afirmação de autor decadentista vai uma distância a ser esclarecida. É óbvio que Euclides da Cunha não se enquadra nos assunto que copiamos de Massaud Moisés no início deste estudo para identificar os decadentistas. O autor de "Os Sertões" não pregou a anarquia, o satanismo, as perversões, as morbidezas, etc. Achamos que a atmosfera de Decadentismo, que influenciou boa parte de nossos escritores na passagem do século, só atingiu Euclides no que podia casar-se ao seu espírito de natural ensimesmado e grave, no sentido de tragédia que parece tê-lo acompanhado em tudo que fez ou viveu. Os excessos, as loucuras temáticas, as excentricidades literárias mais comuns, ora nuns outra noutros dos autores daquele tempo  como num José Albano ou num Augusto dos Anjos, na poesia; num Coelho Neto ou num Gastão Cruls, na narrativa  ficam em Euclides da Cunha só no apaixonado ardor de quem quer provar aquilo que foi exaustivamente constatado antes, ou sofrido. 
Vários são os passos de "Os Sertões" que identificam essa atmosfera de quase-Decadentismo, ou de aspectos laterais do Decadentismo tratados sob uma forma e concepção literárias superiores. 
Vejamos um deles. 
 
¹ "Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira", organizado e dirigido por José Paulo Paes e Massaud Moisés, Editora Cultrix, São Paulo, 1969, p. 86.
² Antônio Soares Amora, "História da Literatura Brasileira", Edição Saraiva, 4ª edição, São Paulo, 1963, p. 170.
³ Idem, ibidem
 
II. O TEXTO 
 
1. Na terceira expedição anulada, dispersa, desaparecera. E como na maioria os fugitivos evitassem a estrada, desgarraram, sem rumo, errando à toa no deserto, onde muitos, e entre estes os feridos, se perderam para sempre, agonizando e morrendo no absoluto abandono. Alguns, desviando-se da rota, foram bater no Cumbe ou em pontos mais remotos. O resto chegou no outro dia a Monte Santo. O coronel Souza Meneses, comandante da praça, não os esperou. Ao saber do desastre largou à espora feita para Queimadas, até onde se prolongara aquela disparada. 
2. Enquanto isto sucedia, os sertanejos recolhiam os despojos. Pela estrada e pelos lugares próximos jaziam, esparsas, armas e munições, de envolta com as próprias peças do fardamento, dólmãs e calças de listra carmesim, cujos vivos denunciadores demais no pardo da caatinga os tornavam incompatíveis com a fuga. De sorte que a maior parte da tropa não se desarmara apenas diante do adversário. Despira-se... 
3. Assim na distância que medeia do Rosário a Canudos, havia um arsenal desarrumado, ao ar livre, e os jagunços tinham com que se abastecerem a fartar. A expedição Moreira César parecia ter tido um objetivo único: entregar-lhes tudo aquilo, dar-lhes de graça todo aquele armamento moderno e municiá-los largamente. 
4. Levaram para o arraial os quatro Krupps; substituíram nas mãos dos lutadores da primeira linha as espingardas velhas e de carregamento moroso pelas Mannlichers e Comblains fulminantes; e como as fardas, cinturões e bonés, tudo quanto havia tocado o corpo maldito dos praças, lhes maculariam a epiderme de combatentes sagrados, aproveitaram-nos de um modo cruelmente lúgubre. 
5. Os sucessos anteriores haviam-lhes exacerbado a um tempo o misticismo e a rudeza. Partira-se o prestígio do soldado, e a bazófia dos broncos cabecilhas repastava-se das mínimas peripécias dos acontecimentos... A força do governo era agora realmente a fraqueza do governo, denominação irônica destinada a permanecer por todo o curso da campanha. Haviam-na visto chegar  imponente e terrível  apercebida de armas ante as quais eram brincos de criança os clavinotes brutos; tinham-na visto rolar terrivelmente sobre o arraial e assaltá-lo, e invadi-lo, e queimá-lo, varando-o de ponta a ponta; e depois destes arrancos temerários, presenciaram o recuo, e a fuga, e a disparada douda, e o abandono pelos caminhos fora das armas e bagagens. 
6. Era sem dúvida um milagre. O complexo dos acontecimentos perturbava-os e tinha uma interpretação única: amparava-os visivelmente a potência superior da divindade. 
7. E a crença, revigorada na brutalidade dos combates, crescendo, maior, num reviver de todos os instintos bárbaros, malignou-lhes a índole. 
8. Atesta-o fato estranho, espécie de divertimento sinistro lembrando a religiosidade trágica dos Achantis, que rematou estes sucessos. 
9. Concluídas as pesquisas nos arredores, e recolhidas as armas e munições de guerra, os jagunços reuniram os cadáveres que jaziam esparsos em vários pontos. Decapitaram-nos. Queimaram os corpos. Alinharam depois, nas duas bordas da estrada, as cabeças, regularmente espaçadas, fronteando-se, faces volvidas para o caminho. Por cima, nos arbustos marginais mais altos, dependuraram os restos de fardas, calças e dólmãs multicores, selins, cinturões, quepes de listras rubras, capotes, mantas, cantis e mochilas... 
10. A caatinga mirrada e nua, apareceu repentinamente desabrochando numa florescência extravagantemente colorida no vermelho forte das divisas, no azul desmaiado dos dólmãs e nos brilhos vivos das chapas dos talins e estribos oscilantes... 
11. Um pormenor doloroso completou esta encenação cruel: a uma banda avultava, empalado, erguido num galho seco, de angico, o corpo do coronel Tamarindo. 
12. Era assombroso... Como um manequim terrivelmente lúgubre, o cadáver desaprumado, braços e pernas pendidos, oscilando à feição do vento no galho flexível e vergado, aparecia nos ermos feito uma visão demoníaca. 
13. Ali permaneceu longo tempo... 
14. Quando, três meses mais tarde, novos expedicionários seguiam para Canudos, depararam ainda o mesmo cenário: renques de caveiras branqueando nas orlas do caminho, rodeadas de velhos trapos, esgarçados nos ramos dos arbustos e, de uma banda,  mudo protagonista de um drama formidável  o espectro do velho comandante... 
 
 Euclides da Cunha, "Os Sertões", 31ª edição, Livraria Francisco Alves Editora S/A, Rio de Janeiro, 1982, pp. 239-240.
 
III - Os substantivos e a atmosfera para o macabro. 
 
Este excerto mostra dois personagens genéricos: os soldados e os sertanejos. De um lado estão os membros do Exército, batidos a fugirem do palco da luta, deixando despojos de guerra: cadáveres de companheiros, fardamentos e munições. De outro lado estão os canudenses a exultarem com a vitória parcial, recolhendo os despojos e praticando atos terríveis com os soldados defuntos. 
Os substantivos do texto, em número de 150 (se resumirmos alguns em sintagmas que incluem certas locuções adjetivas ou outras formações, como "calças de listra", "potência da divindade", "coronel Souza Meneses", "à espora feita", etc.), podem ser distribuídos, segundo essa divisão dos personagens genéricos, em: 
1º. substantivos que têm significado referente aos soldados; 
2º. substantivos que apresentam significado referente aos sertanejos; 
3º. substantivos de significação dupla: referente aos soldados e aos sertanejos ao mesmo tempo. 
 
Há sete nomes "neutros": dia, sorte, ar, graça, dúvida, feição do vento, tempo. 
 
O critério para a obtenção do significado, ora de soldado, ora de sertanejo, ora duplo pode ser entendido através de exemplos. Tomemos o substantivo expedição, no parágrafo 1, linha 1. Este nome significa que um conjunto de soldados foram organizados para atacar Canudos. Tem o significado referente a soldados porque tem muito mais de fato, de coisa do Exército (causa) do que de fato, de coisa para atingir os sertanejos (efeito); e mesmo no efeito, a ação da expedição, quer com a vitória, quer com a derrota, fica sendo da responsabilidade dos soldados. Vejamos, em seguida, um exemplo de substantivo de significado referente a sertanejos, no parágrafo 1, linha 3: deserto. É o "habitat" dos sertanejos, no qual os soldados estão acidentalmente. E, por último, um exemplo de nome com significado duplo: estrada, no parágrafo 1, linha 2; este nome identifica o lugar de acesso a Canudos, portanto caminho natural dos sertanejos; mas também é o lugar por onde os soldados se dirigem ao arraial fatídico e o mesmo lugar por onde toda a terceira expedição se desmantela, deixando, depois, "esteticamente", em renques de caveiras, as cabeças de uma série de membros mortos. 
Identificado o critério para a divisão dos substantivos, vejamos como eles se distribuem assim, quantitativamente: 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A estrutura da narrativa é feita segundo uma linha de adensamento dos soldados no início, dos sertanejos em seguida e, afinal, dos sertanejos com os despojos: 
Parágrafo 1- só se refere aos soldados.
      "        2- refere-se aos sertanejos, embora não deixem de aparecer os soldados mortos; nos dois últimos períodos o autor volta a focalizar os soldados em disparadas.
    "      3- sertanejos e despojos: o autor interrompe a narração dos fatos e faz um comentário. 
      "         4- sertanejos e despojos.
      "         5 e 6- comentários que preparam a explicação da malignidade dos sertanejos.
      "        7 e 8- conclusão dos comentários sobre a índole dos malignados sertanejos.
      "         9- sertanejos e despojos (cadáveres).      "        10- despojos (fardas).
      "        11, 12 e 13- despojos (coronel Tamarindo).
    "      14- soldados e despojos (cadáveres, fardas e coronel Tamarindo). 
Da mesma forma são distribuídos os substantivos do texto: no início comparecem os nomes que se referem aos soldados  metade deles está no primeiro parágrafo; depois incidem os nomes referentes aos sertanejos  o último a parecer, jagunços, está na segunda linha do oitavo parágrafo; quanto aos nomes de sentido duplo começam a aparecer intensamente no parágrafo 4 e tomam conta de todos os substantivos do texto, com somente duas exceções, desde o oitavo até o último parágrafo. 
A intensidade de substantivos de referência dupla, quer na quantidade, quer no englobamento da metade até o final do excerto tem o efeito de transformar os dois personagens  soldados e jagunços  em um só ser. Ora, nada mais paradoxal do que, em "Os Sertões", a identificação dos soldados do Exército com os sertanejos ou jagunços de Canudos. Em que linha de significação, pois, aconteceu essa significação? Na linha do macabro, é a resposta. Realmente, os sertanejos se apossam dos despojos dos soldados impulsionados por uma índole de maldade ("malignou-lhes a índole"). Os canadenses agem com os cadáveres sob a compulsão de uma ordem interior que lhes diz ser a vitória incrível sobre a terceira expedição um milagre que o maravilhoso divino lhes ofereceu. Isso lhes desata uma disposição para requintes macabros com cadáveres dos soldados. A disposição das caveiras, depois de decapitarem os cadáveres, em renques, faces fronteando-se, na estrada, é uma ação coletivo-detalhada que se aproxima do detalhe estético da dança macabra.  
Desta forma verifica-se que: 
1º. O autor faz uma escolha vocabular que dá aos substantivos poderes de identificação dos personagens. 
2º. A massa nominal adensa-se em torno dos soldados, depois em torno dos sertanejos e, afinal, engloba os dois, enquanto os sertanejos, vivos, agem macabramente sobre os soldados, mortos. 
3º. A quantidade de nomes com significado duplo é particularmente grande, pontificando muito mais o significado das ações macabras. 
4º. A significação dupla dos substantivos  jagunços vivos e soldados mortos  cria a atmosfera de práticas requintadas com defuntos (o macabro) que o significado das frases vai colocando conscientemente no leitor. 
 
 Após um estudo extenso sobre a etimologia de macabro, Silveira Bueno, em seu "Grande Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa", conclui por definir a origem do vocábulo como vindo de Macabeu: "... a 'dança macabra' provém de Macabeu que teve as variantes 'Macabré', 'Macabé', tendo passado de substantivo 'Macabre' a adjetivo 'macabre'." (p. 2240) 
O "Dicionario Enciclopedico Union Tipografica Editorial Hispano-Americana" informa o seguinte, na p. 3: "Macabeos: (...) El capitulo VII del libro II narra el martirio de los Siete Macabeos Y de sua madre, a los que queria obligar bajo tormento Antioco-IV Epifanes a 'comer carne de cerdo, contra lo proibido por la ley."
E o dicionário "Lello Universal", no vol. III, p. 118, informa que dança macabra é "nome dado na Idade Média a uma renda infernal, pintada ou esculpida, dançada pelos mortos de todas as condições e de todas as idades, nobres ou plebeus, ricos ou pobres, velhos ou crianças. A Morte dirige essa ronda, servindo-se de um esqueleto como rabeca e de um osso como arco instrumento. A dança macabra é uma alegoria da fatalidade que arrasta todos os mortais para a sepultura." 
 
IV - Outros recursos na atmosfera para o macabro. 
 
-1- 
No primeiro parágrafo, Euclides informa que a expedição desaparecera: "A terceira expedição anulada, dispersa, desaparecera." Na sequência da leitura sentimos que o verbo desaparecer é usado como força de expressão, pois a terceira expedição continua a existir até com um de seus chefes citados, em Queimadas. E, em realidade, a terceira expedição continua a existir inclusive no papel que os despejos em armamentos vão representar no prosseguimento da luta. 
O arsenal (expressão do autor) que o malfadado Moreira César acaba por entregar aos jagunços tem uma importância capital na disputa. A primeira expedição (7/11/1896 a 23/11/1896) contava com 100 praças; não poderia, depois de derrotada em Uauá pelos canadenses, ter fornecido muitos despojos em armamentos. A segunda expedição (25/11/1896 a 20/01/1897) contou com cerca de 550 soldados, e também não ofereceu oportunidade de captação de armas do Exército pelos sertanejos. É, pois, com a terceira expedição (03/02/1897 a meados de março de 1897) que "um arsenal desarrumado, ao ar livre" fica à disposição dos jagunços. A quarta expedição, que liquidará a luta a favor dos soldados, inicia-se a 05/04/1897 e encerra-se somente a 6 de outubro do mesmo ano ; são seis meses de luta. Mesmo que os canadenses contassem com um potencial humano e guerreiro incomuns, se não fossem as armas arrecadadas da terceira expedição, esses seis meses teriam sido bem mais abreviados. Basta lembrar que entre os despojos estavam quatro canhões Krupp, além de variado e numeroso armamento de potencial inferior. 
Vê-se, assim, que a expedição de Moreira César não desaparecera, na realidade. Ela podia ter ficado anulada ou dispersa, que são qualificações do próprio Euclides, mas não desaparecida: os seus membros, soldados e oficiais, continuaram em debandada e se reagruparam posteriormente, mais longe de Canudos; os seus armamentos continuaram, mudando de lado, a exercer forte influência na luta; e os seus mortos, incluindo o corpo do coronel Tamarindo, serviram para uma tétrica comemoração de vitória por parte dos sertanejos. 
A afirmação inicial (no excerto) do desaparecimento da expedição é impactuosa. Ela ajuda a criar a atmosfera de gravidade que aumenta ou alarga o sentido dos três fatos indicadores de que a expedição não desapareceu: 
1º. A fuga dos soldados que o conseguiram ganha em dramaticidade perante a afirmação figurada do desaparecimento de sua expedição. 
2º. Os armamentos que a expedição deixa, continuam, em uma herança trágica, como novo alimento da luta. A expedição "desaparecera", mas suas armas continuam, paradoxalmente, nas mãos dos contrários. 
3º. Os mortos da terceira expedição anulada revivem de modo macabro, como enfeites para os caminhos de Canudos e como um fantástico presepe ou mamulengo com o cadáver do coronel Tamarindo. 
Essa é uma técnica estrutural que explora a distância como um dado informativo. A distância é provocada pelo espaço que vai da palavra desaparecera até a explicitação do que realmente aconteceu com a terceira expedição. Se Euclides da Cunha não tivesse empregado o verbo desaparecer (se ele somente ficasse com os dois verbos anteriores anular e dispersar), na sequência da leitura nós não teríamos no fundo de nossa consciência, como um dado impactuoso, esse tom de fim, de que nada restara. Esse dado que nos persegue na leitura até o final do excerto envolve a narração na atmosfera negativa de que o desastre foi mesmo terrível. 
A mesma técnica é explorada no parágrafo 4, quando Euclides informa que os sertanejos aproveitaram as fardas dos soldados mortos de uma forma lúgubre: "(...) e como as fardas (...) lhes maculariam (...) aproveitaram-nos de um modo cruelmente lúgubre." Qual modo cruelmente lúgubre foi esse? Para explicá-lo, o autor distancia a informação desde o parágrafo 4 até o 9: "Por cima, nos arbustos (...) dependuraram os restos de fardas (...)". E completa a informação do "modo lúgubre" no parágrafo 10: "A caatinga (...) apareceu (...) desabrochando (...)". O espaço que há entre a primeira afirmação, prenunciadora da lugubridade do uso das fardas, e a explicação de que o lúgubre foi espalhar as fardas pela caatinga incolor, dando-lhe um colorido fantástico, mantém o leitor em um "suspense" que aumenta a atmosfera lúgubre. 
 
⁷ Os dados sobre as expedições foram extraídos de "Euclides da Cunha: Obra Completa", Editora Aguilar, Rio de Janeiro, 1966, Vol. II, pp. 89 e 90. 
 
-2- 
No parágrafo 10 o autor usou o adjetivo oscilantes; e no parágrafo 12 usou oscilando. Ambos da mesma raiz de oscilar. Ora, normalmente, quando se escreve, procura-se evitar a repetição muito próxima da mesma palavra. Apesar disso, Euclides (revisor perfeccionista) manteve as duas palavras de mesmo sentido, empregadas próximas uma da outra. 
Notemos que oscilantes é qualidade de estribos, substantivo de ser inanimado; e oscilando é a ação atribuída aos membros do corpo morto do coronel Tamarindo. A identificação entre os dois seres, estribos e corpo do coronel, é sequentemente lógica no entendimento do leitor. E essa identificação do ser que fora animado (coronel) com o ser inanimado (estribos) aumenta o tom de horror da realidade em que foi colocado o defunto oficial do Exército. Como se o cadáver não pudesse ter aquela aura de resto mortal de um ser animado que fora em vida; agora, pendurado no galho seco era mais um ser inanimado "enfeitando" a caatinga. 
 
-3- 
"Ali permaneceu longo tempo..." constitui um dos famosos parágrafos sintéticos, concludentes e de efeito, próprios do estilo euclidiano. Grifamos a expressão longo tempo, porque podemos elucidar logo no parágrafo seguinte, o 14, que esse tempo se circunscreveu a "três meses mais tarde", ou, quando muito  se o corpo do coronel Tamarindo não foi tirado da árvore logo que a quarta expedição chegou a Canudos  mais um par de meses. Afinal, o total do longo tempo, em realidade, não pode ter sido mais que meio ano. 
A função específica do sintagma longo tempo é criar uma atmosfera irreal de extensão temporal que provoca o sofrimento de angústia no leitor diante da perversão feita com o cadáver do oficial pelos jagunços. 
 
-4- 
A empalação do corpo de Tamarindo, executada de uma forma nativa e prática com o aproveitamento de um galho seco de angico, é referida por Euclides da Cunha como uma "espécie de divertimento sinistro lembrando a religiosidade trágica dos Achantis". Informação que nos remete à consulta enciclopédica.  Aí lê-se que os Achantis são uma bela raça negra, inteligente, constituída de nativos do interior da Costa do Ouro. 
Infelizmente não conseguimos encontrar a data de publicação da citada enciclopédia, que deverá girar por volta de 1940, sem certeza. Ali se lê, ainda, que o número dos Achantis, "atualmente atinge três milhões, com a florescente agricultura entregue às mulheres e aos escravos. Com poligamia generalizada, o rei sempre deveria possuir o número macabro de 3.333 mulheres. Entre os Achantis, por ocasião das festas religiosas em louvor a Igname  e outras divindades, as solenidades se constituem na empalação de escravos em honra dessas divindades. 
A referência aos Achantis, feita no parágrafo 8, com o fato macabro explicitado no parágrafo 11  e depois que se busca a informação mais detida sobre a religião daquele povo africano  dá um sentido mais amplo ao destino que os sertanejos deram ao corpo do coronel Tamarindo. Cerca essa ação, em si já macabra, de uma aura mais apoteótica de macabro. 
 
 Larousse du XXème Siècle, vol. I, p. 42.
⁹ Palavra em francês para inhame. 
 
 
V - Conclusão 
 
Euclides da Cunha teve uma vida muito séria e grave, e produziu textos literários polêmicos e belos, plenos de rigorismos muito mais que tristes. A alegria, pode-se dizer, não comparece em seus escritos. 
A época literária em que viveu e produziu teve a marca do Simbolismo, uma consequência do Decadentismo, que pregou uma atmosfera de pessimismo e de horror da realidade. 
Em muitos excertos de "Os Sertões" encontramos a mesma tendência euclidiana a um para-decadentismo, na apropriação de fatos trágicos como os da Campanha de Canudos. 
Euclides cria uma atmosfera que tende para o macabro em um passo de "Os Sertões"  o excerto que se objetivou analisar aqui: 
1º. Na distribuição dos substantivos em nomes que se referem a soldados, a jagunços e de duplo sentido, conduzindo a significação nominal para uma massa uniforme a englobar jagunços e soldados num ponto idêntico de referência: a ação macabra. 
2º. A distância entre as palavras é usada para a criação de uma atmosfera pessimista ou de "suspense" para a angústia. 
3º. A escolha vocabular é feita com o desejo sub-reptícii de dar propriedade ao horror. 
Finalmente e de um modo lateral, essa aplicação de palavra com um sentido tão sutil  a de criar uma atmosfera macabra  vem provar, mais uma vez, o quanto Euclides da Cunha era cioso do objeto formal da literatura: a palavra, e quanto ele soube explorá-la na produção do Belo. 
 
* Mentor e fundador da AAL-Academia Araçatubense de Letras; publicou os seguintes livros como coordenador: Oitenta anos de Os Sertões de Euclides da Cunha (1982); como autor: Introdução à Literatura Portuguesa (1991), Sondagem em Literatura Portuguesa em 3 volumes (1997), Vagas vendidas - um vestibular incomum (2004); em coautoria: História de Araçatuba (1997). 
 
 
VI. AGRADECIMENTO 
 
Agradeço à minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação e edição das fotos aqui transcritas.
 
 
VII. BIBLIOGRAFIA  
 
 
BROOKS, Cleanth & WARREN, Robert Penn: Understanding Fiction, New York, Appleton-Century-Crofts, 1959 (2nd. edition) 
 
BUENO, Francisco da Silveira: Grande Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa, 5º vol., 2ª tiragem, Edição Saraiva, S. Paulo, 1968 
 
Dicionário Enciclopédico Union Tipografica Editorial Hispano-Americana, tomo VII, México, 1952. 
 
Dicionário de Literatura - Direção de COELHO, J.P., AMORA, A.S. & DA CAL, E.G., vol. I, Companhia Brasileira de Publicações, Rio de Janeiro, 1969 
 
JAKOBSON, Roman: Linguística e Comunicação, Editora Cultrix, São Paulo, 4ª edição, 1970 
 
Lello Universal, vol. II, Bello & Irmãos Editores, Porto, s/d 
 
WELLEK, René & WARREN, Austin: Teoria da Literatura - Publicações Europa-América, Lisboa, 1962.