sexta-feira, 1 de maio de 2026

O NASCIMENTO DA CRÔNICA ¹

Por MACHADO DE ASSIS
 
I
 
Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! que desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outros sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e la glace est rompue ²; está começada a crônica. 
Mas, leitor amigo, esse meio é mais velho ainda do que as crônicas, que apenas datam de Esdras. Antes de Esdras, antes de Moisés, antes de Abraão, Isaac e Jacó, antes mesmo de Noé, houve calor e crônicas. No paraíso é provável, é certo que o calor era mediano, e não é prova do contrário o fato de Adão andar nu. Adão andava nu por duas razões, uma capital e outra provincial. A primeira é que não havia alfaiates, não havia sequer casimiras; a segunda é que, ainda havendo-os, Adão andava baldo ao naipe ³. Digo que esta razão é provincial, porque as nossas províncias estão nas circunstâncias do primeiro homem. 
Quando a fatal curiosidade de Eva fez-lhes perder o paraíso, cessou, com essa degradação, a vantagem de uma temperatura igual e agradável. Nasceu o calor e o inverno; vieram as neves, os tufões, as secas, todo o cortejo de males, distribuídos pelos doze meses do ano. 
Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas. Essas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta, para debicar  os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastimar-se do calor. Uma dizia que não pudera comer ao jantar, outra que tinha a camisa ensopada do que as ervas que comera. Passar das ervas às plantações do morador fronteiro, e logo às tropelias amatórias do dito morador, e ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo. Eis a origem da crônica. 
Que eu, sabedor ou conjeturado de tão alta prosápia , queira repetir o meio de que lançaram mão as duas avós do cronista, é realmente cometer uma trivialidade; e contudo, leitor, seria difícil falar desta quinzena  sem dar à canícula o lugar de honra que lhe compete. Seria; mas eu dispensarei esse meio quase tão velho como o mundo, para somente dizer que a verdade mais incontestável que achei debaixo do sol, é que ninguém se deve queixar, porque cada pessoa é sempre mais feliz do que outra. 
Não afirmo sem prova. 
Fui há dias a um cemitério, a um enterro, logo de manhã, num dia ardente como todos os diabos e suas respectivas habitações. Em volta de mim ouvia o estribilho geral:  Que calor! que sol! é de rachar passarinho ! é de fazer um homem doido! 
Íamos em carros; apeamo-nos à porta do cemitério e caminhamos um longo pedaço. O sol das onze horas batia de chapa em todos nós; mas sem tirarmos os chapéus, abríamos os de sol  e seguíamos a suar até o lugar onde devia verificar-se o enterramento. Naquele lugar esbarramos com seis ou oito homens ocupados em abrir covas: estavam de cabeça descoberta, a erguer e fazer cair a enxada. Nós enterramos o morto, voltamos nos carros, e daí às nossas casas ou repartições. E eles? Lá os achamos, lá os deixamos, ao sol, de cabeça descoberta, a trabalhar com a enxada. Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres diabos, durante todas as horas quentes do dia?
 
II 
 
Para fazer alguma diversão ¹aparece uma mulher que se traspassa, tal qual a mais ínfima taberna. A diferença é que a taberna traspassa-se por meio de uma escritura e a mulher por meio de uma espada. Antes a escritura.
Não vi ainda essa dama, que achou meio de fazer do próprio pescoço uma bainha e suicidar-se uma vez por noite, antes de tomar chá. Já vi um sujeito que engolia espadas; vi também uma cabeça que fazia discursos, dentro de um prato, em cima de uma mesa, no meio de uma sala. O segredo da cabeça descobri-o eu, no fim de dois minutos; não assim o do engole-espadas. Mas, tenho para mim, que ninguém pode engolir uma espada, nem quente nem fria (ele engolia-as em brasa), e concluo que algum segredo havia, menos acessível ao meu bestunto 
¹¹.
Não digo com isto que a dama da rua da Carioca deixe de cravar efetivamente uma espada no pescoço. É mulher e basta. Há de ser ciumenta, e adquiriu essa prenda, na primeira cena de ciúmes que teve de representar. Quis matar-se sem morrer, e bastou o desejo para realizá-lo; de maneira que aquilo mesmo que me daria a morte, dá a essa senhora nada menos do que vida. A razão da diferença pode ser que esteja na espada, mas eu antes creio que está no sexo.
Anda no Norte um colono, um homem que faz coisas espantosas. No Sul apareceu um menino mulher. Todos os prodígios vieram juntar-se à sombra de nossas palmeiras: é um rendez-vous 
¹² das coisas extraordinárias.
Sem contar os tufões. 
 
III 
 
Falei no cemitério, sem dizer que a esta hora ou pouco mais tarde, terá o leitor de ir à visitação dos defuntos.
A visitação dos defuntos é um bom costume católico; mas não há trigo sem joio; e a opinião do Sr. Artur Azevedo é que, na visitação, tudo é joio sem trigo.
A sátira publicada por esse jovem escritor é um opúsculo, contendo umas quantas centenas de versos, fáceis e correntios, com muito pico 
¹³, boa intenção, catanada ¹ cega e às vezes cega demais. A ideia do poeta é que há ostentação repreensível na demonstração de uma piedade ruidosa. Tem razão. Há excesso de vidrilhos e candelabros, de souvenirs e de inconsoláveis. Alguns quadros estão pintados com traços tão espantosos, que fazem recuar de horror. Será certo que se tomam nos cemitérios aquelas carraspanas ¹, que se comem aqueles camarões torrados? O poeta o diz; e se o colorido pode estar carregado, o desenho deve ser fiel. Na verdade é de fazer pedir uma reforma nos costumes, ou a eliminação... dos vivos.
Onde o poeta me parece ter levado a sátira além da meta, é no que diz da viúva que, convulsa de dor pela morte do marido, vem a casar um ano depois. Hélas! 
¹ Isso que lhe parece melancólico, e na verdade o é, não deixa de ser necessário e providencial. A culpa não é da viúva, é da lei que rege esta máquina, lei benéfica, tristemente benéfica, mediante a qual a dor tem de acabar, como acaba o prazer, como acaba tudo. É a natureza que sacrifica o indivíduo à espécie.
O poeta é favorável ao sistema da cremação. A cremação tem adversários, ainda fora da igreja; e até agora não me parece essa imitação do antigo seja uma alta necessidade do século. Pode ser higiênico; mas no outro método parece haver mais piedade, e não sei se mais filosofia. Numa das portas do cemitério do Caju, há este lema: Revertere ad locum tuum
¹Quando ali vou, não deixo de ler essas palavras, que resumem todo o resultado das labutações da vida. Pois bem; esse lugar, teu e meu, é a terra, a terra donde viemos, para onde iremos todos, alguns palmos abaixo do solo, no repouso último e definitivo, enquanto a alma vai a outras regiões.
No entanto, parabéns ao poeta. 
 
IV 
 
Se eu disser que a vida é um meteoro, o leitor pensará que vou escrever uma coluna de filosofia, e eu vou apenas noticiar-lhe o Meteoro, um jornal de 8 páginas, que inscreve no programa: "O Meteoro não tem pretensões à duração."
Bastam essas quatro palavras para ver que é jornal de espírito e senso. Geralmente, cada folha que aparece promete, pelo menos, três séculos e meio de existência, e uma regularidade cronométrica. O Meteoro nem promete durar, nem aparecer em dias certos. Virá quando puder vir.
Variado, gracioso, interessante, em alguns lugares, sério e até científico, o Meteoro deixa-se ler sem esforço nem enfado. Pelo contrário; lastima-se que seja meteoro e deseja-se-lhe um futuro de planeta, pelo menos que dure tanto como o planeta em que ele e nós habitamos.
Planeta, meteoro, duração, tudo isso me traz à mente uma ideia de um sábio francês moderno. Por cálculos que fez, é opinião dele que de dez em dez mil anos, haverá na terra um dilúvio universal, ou pelo menos continental, por motivo do deslocamento dos oceanos, produzido pelo giro do planeta.
Um dilúvio periódico! Que será feito então da imortalidade das nossas obras? Salvo se puserem na arca 
¹ um exemplar das de todos os poetas, músicos e artistas. Oh! mas que arca não será essa! Se não temesse uma vaia, diria que será arcabuz ¹
MANASSÉS 
 
II. GLOSSÁRIO por Francisco José dos Santos Braga
 
1  Machado de Assis assinou com o heterônimo "Manassés" a crônica dentro da seção intitulada "História de quinze dias" (dedicada à política, cultura e variedades), publicada na revista quinzenal Illustração Brasileira em 1º de novembro de 1877, edição nº 33, pp. 142 e 143. Colaborou com 37 crônicas de 1º de julho de 1876 a 1º de janeiro de 1878. Quando a revista se tornou mensal, em fevereiro de 1878, a coluna passou a se chamar "História de Trinta Dias", sendo publicada até o último número da revista, em abril desse ano, totalizando 3 colaborações. Portanto, foram ao todo 40 colaborações.
Essa crônica pode ser localizada no portal do MEC que dispõe de toda a obra machadiana devidamente digitalizada.
2  Trad.: "O gelo foi quebrado", significando que está havendo uma aproximação e diálogo entre entre o emissor e o receptor.
³ Expressão que veio do jogo de cartas, onde "baldo" (proveniente de baldado=falto) significa não ter cartas de um determinado naipe. A partir daí, ganhou o sentido de não "ter cartas na manga", ou seja,  estar totalmente sem dinheiro ou meios para fazer algo.
⁴ Caçoar ou zombar de algo ou de alguém.
⁵ Ardis, artimanhas, truques.
Vaidade, ostentação. 
A revista Illustração Brasileira era publicada quinzenalmente. 
⁸ Expressão que denota que está demasiadamente quente a ponto de tostar ou assar um passarinho. 
⁹ Guarda-chuvas. 
¹Mudança de rumo ou atenção. 
¹¹  Cabeça, cérebro. 
¹²  Encontro marcado.
¹³  Graça, chiste. 
¹⁴ Repreensão severa (fig.). 
¹⁵ Bebedeiras
¹Infelizmente, ai de mim. 
¹⁷ Volta para o lugar donde vieste. 
¹⁸ Aqui relembra a Arca de Noé. 
¹Aqui Machado utiliza um tipo de assonância com o objetivo de sugerir que a "arca" é para "todas as coisas" em latim. Assim, temos arca + (omni)bus = arcabuz, que é uma arma de fogo portátil primitiva.
 
III. BREVE ANÁLISE LITERÁRIA DA CRÔNICA por Francisco José dos Santos Braga
 
Contexto: Escreve Leonardo Affonso de Miranda Pereira, organizador do livro História de Quinze Dias, e autor da introdução e notas: "Em julho de 1876, pouco depois de completar 37 anos, Machado de Assis assumia mais um desafio literário: a redação de uma série de crônicas quinzenais, para a qual deu o título de "História de quinze dias". Fazia-o a partir do primeiro número da revista Illustração Brasileira, elegante novidade que se apresentava naquele mês aos leitores do Rio de Janeiro. Como era costume entre os cronistas do período, não punha seu próprio nome em tais escritos, preferindo assiná-los com um pseudônimo. Em meio às incertezas que marcavam aquela década, tratava de oferecer ao público uma leitura do tempo, organizado na história proposta por sua narrativa quinzenal", escreve Pereira na abertura da Introdução [p. 9].
Esta crônica é conhecida especialmente por sua metalinguagem, na qual o autor, usando o heterônimo Manassés, reflete sobre a origem do gênero crônica, simulando uma conversa sobre o calor entre duas vizinhas, algo constatável através do uso do exemplo mais banal possível pelo cronista: a conversa entre duas vizinhas. “Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas,” enuncia o eu da crônica. Claro, trata-se de uma observação irônica de Machado, que atribui à fofoca a origem do gênero literário, uma das "sacadas" geniais do "bruxo do Cosme Velho".
(Obs.: Na metalinguagem, faz-se referência à própria linguagem utilizada para transmitir um discurso. Assim, é o uso do meio de comunicação pelo autor para falar de si próprio, podendo apontar inclusive para suas próprias características, que podem ser reais ou fictícias.)

Estrutura: O texto da crônica de 1877 é composto por quatro blocos, sendo o primeiro focado na metalinguagem e os três seguintes menos conectados ao primeiro, embora foquem na temática de morte e enterro.

Protagonista: O eu da crônica afirma que há uma forma correta para se começar uma crônica: por meio de uma trivialidade, ou seja, o calor. Em seguida, ele cita alguns exemplos que confirmam o seu ponto de vista. Primeiro, o eu do cronista cita Adão e Eva, alegando que, quando Eva nos fez perder o paraíso, veio o calor e tudo mais que norteia o nosso cotidiano, como tufões, seca, etc. Depois, foi a vez das duas primeiras vizinhas que, ao iniciarem uma conversa trivial, após uma refeição, certamente falaram do calor, entre outras coisas. Neste caso, Manassés não se importa com  o elemento histórico da origem da crônica, mas sim enfatizar 
o aspecto do novo e do cotidiano das notícias que chegam ao conhecimento das duas vizinhas que, na sua opinião, dão origem à crônica. Por fim, o eu do cronista vai a um cemitério, onde todos reclamam do calor, menos os coveiros responsáveis por abrir e por fechar as covas, sob o sol escaldante, sem se queixarem da sua sina. Terminada a cerimônia, os homens que abrem covas são deixados lá sob o sol, enquanto todos voltam nos carros, e daí às suas próprias casas ou repartições. "Lá os achamos, lá os deixamos, ao sol, de cabeça descoberta, a trabalhar com a enxada. Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres diabos, durante todas as horas quentes do dia?", enuncia o eu da crônica.
 
IV. ANÁLISE PSICOLÓGICA DA CRÔNICA
 
Achei curiosa e interessante a análise da crônica sob o prisma psicológico da Associação Junguiana do Brasil, que a Internet oferece com o título "O nascimento da crônica (Machado de Assis) - Intervenções". Cada um dos "interventores" dão sua breve análise da crônica com base em sua profissão de psicoterapeutas. 
 
Acaci Alcântara: Comecemos por personagem da crônica.....
Quem é o personagem desta crônica? O Sol e suas emanações? Ele é quem deve ser personificado, pelo menos para mim é o que parece. Ele é o perene, permeia a crônica 
 do começo ao fim. Torra "os miolos" ontem no escrito e hoje na vida real. Clamamos por um ar condicionado. É personagem das sessões de análise. É uma luz que se apresenta de forma devastadora. O que é feito dos processos que precisam de pouca luz e umidade? Será que você, caro Machado, já aludia sobre os novos tempos onde o que tem valor é o que brilha na luz escaldante? Algo que não é suportável, somos despreparados para enfrentar pois nos apresentamos de casaca sob um calor insuportável! Quem morreu? A capacidade de nos indignarmos e procurarmos abrigo da luz cegante do mundo. Ainda bem que o consultório do analista pode ser um abrigo.

Roque Tadeu Gui: Penso sobre como deve ter-se originado a crônica de M.A. Talvez pelo final. Bem que nosso autor pode ter ido a um enterro de algum amigo ou conhecido. Ou, quem sabe, não foi, mas alguém que foi lhe contou sobre a adversidade de ir a um sepultamento numa tarde de intenso calor. Seja como for, o autor assume a experiência como sua. As vestimentas, de acordo com a ocasião, mas em desacordo com o clima. Machado (ou quem lhe narrou a cena) sentia calor, quase sufocado em sua casaca. Assis e seus acompanhantes sequer tiram os chapéus, cuidando sim de abrir "os de sol" (guarda-chuvas, diríamos). Se Assis lá não esteve, então, esse detalhe foi livremente ficcionado. Faz parte da arte do cronista.
Nosso autor sente o calor escaldante e pensa na vida dura dos que trabalham sob o sol, sem poder se abrigar. Julga-se mais feliz do que aqueles pobres trabalhadores. Daí a sua tese/"a verdade mais incontestável que achei debaixo do sol é que ninguém se deve queixar, porque cada pessoa é sempre mais feliz do que outra".
A sensação do calor escaldante, a forte impressão sobre a dureza do trabalho braçal sob o sol, a reflexão sobre o privilégio de não ter que realizar tal trabalho extenuante, culmina na intuição de que /isso dá uma crônica!/
A partir desse momento a crônica está pré-escrita. O autor terá apenas que encontrar os recursos adequados para escrevê-la em definitivo. Terá que arquitetar uma "lenga-lenga" literária, com qualidades estéticas convincentes, para conduzir o leitor a compartilhar das sensações, impressões e reflexões que o autor teve naquela tarde ensolarada. E, assim, nascerá uma crônica.

Áurea Christina: Inicialmente, fiquei impregnada, desde as primeiras palavras de Assis, com a idéia da rotina diária do trabalho do psicoterapeuta. A reação, por mim constelada, foi essa: a lembrança de como é comum, o “sinal de largada” da crônica diária de meus clientes, o ato de tecer comentários sobre o clima ou sobre os problemas do trânsito na cidade. Imagino que, no tempo de Machado, o tráfego não seria um problema, mas com certeza, o calor escaldante do Rio de Janeiro sim. Ainda mais, se levarmos em conta, a inadequação das roupas europeias usadas naquela época. Neste momento, me veio à mente o conceito de persona de Jung: a imagem dessas vestimentas copiadas do velho mundo, inadequadas pra um país tropical como o Brasil, e talvez consideradas, na época, como as mais apropriadas e “respeitosas” para uma homenagem sincera, em um ritual de velório e sepultamento. Finalmente, para mim, os personagens e caracteres são quase infinitos porque representam os anônimos que tanto nos oferecem suas histórias e que vão transformando, não somente nossa vida pessoal, como o coletivo também.

Camila Maciel Polônio: O sol, aquele que nasce e morre todos os dias. Um eterno ressurgir, às vezes escondido por trás das nuvens, outras vezes por trás da chuva e muitas aparições que nos agradam e incomodam. Esperamos do sol sempre a medida certa, aquela temperatura aprazível. Doce ilusão! Nossa inconsequência ao tratar com a natureza nos traz lástimas na espera de que alguém, um outro qualquer, nos salve dos miolos queimados. Quanta coincidência, não? Não seríamos como o sol? Nossos pacientes não trazem essa metáfora? Essas roupas inadequadas nos levam ao resultado desse calor tremendo em cada corpo. Como lidamos com nossa imagem e com nossa alma? Seria o sol um caminho para iluminar a escassez e os excessos? Quem será o nosso personagem principal?  
 
V. BIBLIOGRAFIA
 
ASSIS, Machado de: História de Quinze Dias (com organização, introdução e notas de Leonardo Affonso de Miranda Pereira), Campinas: Editora Unicamp, 2009, 303 p. 

domingo, 19 de abril de 2026

CULTO AOS HERÓIS


Por JORNAL TRIBUNA de Sete Lagoas


"O tirano morre e seu reinado termina, 
O mártir morre e seu reinado começa.
                              Søren Kierkegaard 
Transcrição do Editorial da edição nº 748, de 21 de abril de 2012, no suplemento ESPECIAL TIRADENTES, p. 7
O Blog de São João del-Rei dedica a reprodução deste histórico Editorial de 21 de abril de 2012 ao historiador sete-lagoano Márcio Vicente Silveira Santos, saudoso confrade no Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei. 
 
I. Editorial do Jornal Tribuna de Sete Lagoas, edição de 21/04/2012
 
O brasileiro  esta é uma crítica recorrente  não cultua seus heróis. Antes, aceita como "falha" de caráter e, depois, como decorrência natural da despolitização do povo, essa indiferença aos que deveriam ser "consagrados no altar da Pátria".  A exaltação é reduzida à expressão mais simples pela chamada "nova historiografia". Para ela, o Brasil não tem heróis. Os nomes que frequentam as páginas de nossos compêndios escolares e que passamos a conhecer e aceitar como realizadores de grandes feitos não teriam, portanto, aquela necessária dimensão arquetípica capaz de dar-lhes dimensão histórica.

Nessa vala comum, estariam sepultados Marechal Cândido Rondon, que expandiu nossas fronteiras, realizando obra de integração nacional; Deodoro da Fonseca, que partejou a República; Caxias, o gênio militar da espada a serviço da Pátria; Santos Dumont, que deu asas ao homem e encantou o mundo; Caneca, o frei político da Revolução Pernambucana e da Confederação do Equador; Zumbi, o rebelde libertário de Palmares; e, no coletivo, os "pracinhas" da FEB, que derramaram seu suor, seu sangue e suas lágrimas na Itália durante a II Guerra Mundial. E há tantos outros lembrados e pouco ou nada consagrados. Talvez, nesse rol, salva-se (e com justiça) o alferes de Cavalaria Joaquim José da Silva Xavier  Tiradentes , o mineiro que sonhou com a liberdade e morreu em seu nome.

Tiradentes deveria ser, de fato, o herói nacional, mas tal não acontece. Homenageiam-no, apenas, bordando sua efígie nos uniformes, as Polícias Militares, que o têm como patrono. A Inconfidência Mineira, por sua vez, é tratada em outros Estados, como em São Paulo da "nova" geração de historiadores revisionistas, como fato menor da história nacional. No Rio Grande do Sul, o italiano Garibaldi ocupa maior espaço na memória do povo e no calendário cívico do que qualquer brasileiro. Mesmo em Minas Gerais, o 21 de abril é mais um dia a ser emendado para o prazer de um feriado estendido, do que data reservada ao exercício da cidadania e do civismo.

Não fosse exigir demais, Sete Lagoas poderia fazer a diferença no Estado comemorando a Inconfidência a partir da presença, aqui, do alferes Tiradentes como comandante do Quartel do Sertão. Se há motivos históricos para tal, uma expressão do professor e jornalista Fernandino Júnior (quem não o conhece?) cria o espaço ideológico para que o sete-lagoano se integre às comemorações do 21 de abril. Escrevia ele na edição do dia 30 de novembro de 1930 do Jornal "Minas Central", ao se referir à "presença" de Tiradentes em nossa cidade: "Naquele tempo  quem sabe? , talvez o humilde soldado já acalentasse no espírito a ideia da liberdade da Pátria, que lhe valeu, anos depois, o sacrifício da própria vida".

Como o sete-lagoano não poderá contestar essa possibilidade, talvez possa adotá-la como legenda para a bandeira de seu civismo. 
 
Crédito pelo envio do editorial do Jornal Tribuna: Márcio Vicente Silveira Santos (1942-2019), advogado, jornalista, poeta, escritor e historiador que, mesmo antes de publicar seu livro "Tiradentes em Sete Lagoas" de 2010,  já tinha se envolvido com a História que inscreveu a cidade de Sete Lagoas no cenário da Inconfidência Mineira, com base em suas profundas pesquisas.   
 
 
Livro lançado em 2010, da autoria do jornalista, advogado, escritor e historiador Márcio Vicente Silveira Santos.

No meu breve recorte do cerne do livro acima, Tiradentes em Sete Lagoas (2010), o historiador Márcio Vicente comprova a presença do Alferes em Sete Lagoas, desde sua posse no comando do Quartel de Sete Lagoas (ou Quartel do Sertão) em 22 de abril de 1780 até 23 de junho de 1781, última data em que Tiradentes é mencionado como "Comandante do Sertão" e, por extensão, Comandante do Quartel de Sete Lagoas. Data de junho de 1780 o início da abertura da "picada" entre Sete Lagoas e Paracatu. Comprovam essa tese o livro de Tarquínio J.B. de Oliveira, Um Banqueiro na Inconfidência, 1957, p. 63 e duas cartas de Tiradentes a Dom Rodrigo José de Menezes, datadas de 18 e 25 de junho, lastreadas no livro de Jovelino Lanza, História de Sete Lagoas, 1967, p. 85. Ao examinar o histórico do destacamento de Tiradentes no Quartel do Sertão, Márcio Vicente concluiu que o Alferes foi incumbido, dentre outras, de três missões (a saber: defesa e segurança, cobrança dos impostos e combate ao contrabando), e de uma quarta: estabelecer nova via de comunicação de Sete Lagoas com Paracatu, "desobrigando os viandantes de um contorno geográfico que (para atingi-la) ia quase às fronteiras de São Paulo, no acesso aos Goiases", conforme Tarquínio J.G. de Oliveira, in Correspondência Ativa de João Roiz de Macedo, vol. II, p. 3. Essa ligação se justificava pela importância que a Vila de Paracatu vinha capitalizando desde 1744, quando ali teve início a exploração aurífera.
Fonte: capítulos intitulados Cronologia mínima, pp. 28-30, No comando das Sete Lagoas, pp. 99-113      
 


Livro lançado em 09/05/2019, idem

 

No meu breve recorte do cerne do livro acima, "Sete Lagoas, Século XVIII", o tema em tela é a importância do Registro, instalado no Arraial em 1762, como um dos principais entrepostos comerciais da Capitania de Minas, no século XVIII. "Passagem forçada para os currais da Bahia", como escreveu Waldemar de Almeida Barbosa no seu Dicionário Histórico-Geográfico de Minas Gerais, Sete Lagoas se destacava, no mapa econômico da Capitania, no século XVIII, por sua privilegiada posição geográfica. 
Resumidamente e de modo a trazer uma pequena notícia sobre a obra, veremos os principais tópicos tratados em dois capítulos extremamente importantes do referido livro por Márcio Vicente, quase ipsis litteris:
O Mapa da Capitania de Minas Gerais, levantado por José Joaquim da Rocha, em 1777, sugere o Registro de Sete Lagoas como ponto de confluência das Estradas Reais que, adentrando Minas pelo Norte, se encaminham para Vila Rica e Sabará. Ele também indica claramente que, para Sete Lagoas, procediam as estradas que cruzavam a Barra do Rio das Velhas ou, acompanhando a margem esquerda do Rio São Francisco, tinham como destino a área central de mineração. Outros autores que estudaram as vias de comunicação e abastecimento da Capitania, no século XVIII, são acordes no argumento de que "passava pelo Registro de Sete Lagoas o gado do Sertão Mineiro que abastecia o mercado da região mineradora da Capitania". Com o correr do tempo (e a intensificação do trânsito de pessoas e o crescimento das atividades de comércio), outros caminhos seriam abertos, cortavam Sete Lagoas ou tinham esse povoado como centro irradiador e de abastecimento das caravanas que penetravam o sertão ou se dirigiam às zonas de produção aurífera. Essa posição estratégica levou o historiador Angelo Carrara a classificar Sete Lagoas como "ponto de articulação entre os sertões e as minas gerais", como está consignado em seu extenso estudo e faz parte de seu livro-referência Minas e Currais - Produção Rural e Mercado Interno de Minas Gerais - 1674/1807.
O Arraial  que passou a ser sede de um Registro em 1762  era cortado por dois caminhos da maior importância para o comércio geral e a integração demográfica da região. O primeiro deles vinha de Sabará e passava por Santa Luzia, Lagoa Santa e Rezende, adentrando Sete Lagoas pelo Bairro da Várzea, onde começou o povoamento do núcleo urbano. O segundo, com início em Vila Rica, cruzava Palmital e Buritis, e chegava a Sete Lagoas pela Várzea.
De Sete Lagoas, duas estradas ligavam a centros de expressão econômica na Capitania. Uma, na direção Oeste, se dirigia à Vila de Pitangui. A outra, tomando o rumo Norte e, passando por Paga Bem Onça de Cima e Canabrava, chegava ao sítio do Falcão. Já o outro, a Oeste, passando por Bicudo, demandava o sítio das Pindaíbas. Nesse ponto, entroncava-se-se com a estrada que vinha de Pitangui e, passando por Andrequicé, procurava a direção da Passagem do Espírito Santo, no São Francisco. Atravessando o rio pouco antes da foz do Abaeté, no sentido Noroeste, o destino é Paracatu.
Vale notar que, numa segunda travessia do São Francisco, o caminho vindo de Sete Lagoas funde-se com o originado em São João del-Rei.
A mencionada estrada Sete Lagoas-Curvelo, que levava à região dos diamantes, foi cognominada de "O quinto caminho" pelo professor sete-lagoano Alfredo Valadares.
Sobre a picada de Paracatu, objeto do seu primeiro livro, Márcio Vicente indaga: "Se realmente construída, não  teria a estrada aberta por Tiradentes importância estratégica ou econômica capaz de merecer seu registro?" Outra indagação pode ser alinhada em busca de esclarecimento para a questão: Quais "providências" vinham sendo "dadas" por Tiradentes "a respeito do novo caminho", conforme alude carta a ele remetida pelo Governador? Certamente, a resposta estaria nas cartas de 18 e 23 de junho de 1780. Informa o autor que, embora tenha empreendido intenso trabalho de pesquisa nos registros do Arquivo Público Mineiro, em 2010, não localizou esses documentos. Da mesma forma, a história de Paracatu não faz referência à construção de qualquer estrada a cargo de Tiradentes, citando três "clássicos" da historiografia do Município, que silenciam a respeito do tema.
Como resposta possível à pergunta central  Qual seria o traçado do caminho aberto por Tiradentes? , deve o autor buscar abrigo na expressão cunhada por Carlos Cunha Correia em seu livro Serra da Saudade de 1948: "... isso é problema que continua em equação histórica, desafiando a paciência beneditina dos que se dispõem a enfrentar a poeira dos arquivos".
(Fonte: capítulos intitulados Sete Lagoas, "boca" do sertão e A picada de Paracatu, pp. 104-112)
 
II. MEMORIAL TIRADENTES em Sete Lagoas, projeto de Márcio Vicente Silveira Santos como encarte do Jornal Tribuna.



 




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Obs.: Com ligeiras modificações, este encarte do Jornal Tribuna constou do livro Tiradentes em Sete Lagoas (2010) de Márcio Vicente Silveira Santos, pp. 241-245.
 
 
III. AGRADECIMENTO 

 
À minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação do registro fotográfico utilizado neste trabalho e pela edição das imagens. 

 
 
IV. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 


BRAGA, F. J. S.: Colaborador: MÁRCIO VICENTE SILVEIRA SANTOS, matéria publicada no Blog de São João del-Rei em 22/08/2017
 
JORNAL TRIBUNACulto aos Heróis, in suplemento ESPECIAL TIRADENTES, Editorial da edição nº 748, de 21 de abril de 2012, pp. 7-10.

SILVEIRA SANTOS, Márcio Vicente: Tiradentes em Sete Lagoas, matéria publicada no Blog de São João del-Rei em 22/08/2017

________________________________: Tiradentes na História de Sete Lagoas, matéria publicada no Blog de São João del-Rei em 29/03/2023

________________________________:  São João, matéria publicada no Blog de São João del-Rei em 26/01/2018
 
____________________________: Tiradentes no sertão, publicado na revista Memória Cult,  Ouro Preto, Ano I, nº 3, abril de 2011, pp. 34 e 35.
 
____________________________: Tiradentes em Sete Lagoas - Um mergulho na História que inscreve a Cidade no cenário da Inconfidência Mineira, Sete Lagoas: Tip. Kosmos, 2010, 245 p.   
 
____________________________: Sete Lagoas, Século XVIII - O Registro e as Estradas Reais: Centralidade e Convergências na Capitania de Minas, Sete Lagoas: Edições Instante, 2019,  235 p.
 
 

quarta-feira, 4 de março de 2026

SÃO JOÃO DEL-REI

SÃO JOÃO DEL-REI
 
Por Mário Celso Rios *

Professor Mário Celso Rios (1952-2020)

 
Longe da metrópole, com bravura, sua História ocorreu. 
E, às margens de um rio, a vila, irrequieta, incandesceu! 
Amores, correspondidos ou não, entreteciam dramas. 
Confabulava-se por liberdade em imprevisíveis tramas. 
 
O Sangue derramado, a humilhação dos Inconfidentes, 
Decisivos foram para o sonho do Tiradentes. 
Pedras sobre pedras, pontes a desbravar caminhos, 
Ir-vir, olhares, gestos, mistério, aos torvelinhos. 
 
Sinos repicando a vida: templos adornados,
O Pilar: singelas festas de santos irmanados,
Lirismo: orquestras tocando melodias cordiais. 
 
Nos Campos das Vertentes, conspirou-se pelas sendas. 
Eram os filhos da aventura em cor de lendas, 
A esculpir na Coragem e Valentia seus sinais.
 
Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, vol. XIV, 2020, p. 9.
 
* Intelectual barbacenense que se destacou no magistério, nas letras, nos estudos históricos,
 na conservação da memória e das artes. Pesquisador, incentivador cultural, foi titular da cadeira nº 21 patroneada por Sabino José Ferreira e presidente da Academia Barbacenense de Letras durante vários mandatos desde 1993 a 2020, professor universitário, advogado, escritor, tradutor, jornalista, autor dos seguintes livros: Das Ideias em Obras, London: A Digression, Verdes Caminhos Cinzentos, Poetificando, Nélson Tafúri, O Homem e a Lição, Poemas do Presente, Barbacena: Projeções para o novo Século, Barbacena: Cultura Regional e Projetos Culturais. Na área jurídica publicou “Direitos Humanos - Trinta Anos e Direitos Humanos na América Latina”. Além disso, é autor de dois ensaios: Música - Terra de Villa-Lobos e Cultura numa era de Cultura de Massas. Finalmente, participou de todas as edições do Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo, tendo colaborado para o Blog de São João del-Rei com uma resenha para uma delas, intitulada  V Encontro sobre o Caminho Novo busca Novas Fontes para a História.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Saudade do grupo escolar


Por Francisco José dos Santos Braga

Artigo dedicado às minhas inesquecíveis mestras do curso primário do Grupo Escolar João dos Santos no período de 1956-1959, que faziam parte daquele corpo docente vitorioso e conduziam as centenas de alunos pelo caminho seguro do Conhecimento.
 
I. INTRODUÇÃO

 
No final do primeiro meado do século XX, o sonho de qualquer casal brasileiro era ter uma filha professora, enquanto o dos rapazes era namorar uma normalista. Ela desfilava com seu uniforme: saia pregueada azul, uma blusa branca, ostentando orgulhosamente um laço de fita no peito e uma estrelinha metálica no colarinho. À sua passagem, despertava suspiros e palavras elogiosas pelo seu charme, elegância e radioso sorriso. A beleza física daquelas normalistas ficou bem retratada em famosa canção de 1949 intitulada "Normalista" — composição de Benedito Lacerda e letra de David Nasser —  perpetuada nas vozes de Nelson Gonçalves e Miltinho:
"Vestida de azul e branco
Trazendo um sorriso franco
Num rostinho encantador..."

"Professorinha", assim era chamada carinhosamente a jovem recém-formada na Escola Normal, que tinha como experiência inicial lecionar numa Escola Rural.

Ser professora era "a" vocação e por ela nutriam verdadeira adoração seus alunos. Era respeitada, admirada e ouvida pelos pais de seus alunos, que lhe davam total liberdade não só para ensinar a seus filhos, mas também para orientá-los e até mesmo corrigi-los, quando necessário. Naqueles tempos, os pais sabiam que as medidas tomadas pela professora eram em benefício da educação e formação moral dos seus filhos. Ela era tão querida que os alunos se amontoavam à sua espera na frente da escola e disputavam o privilégio de carregarem sua pasta e a pilha de livros e cadernos corrigidos.

O seu dia comemorativo era 15 de outubro, ocasião em que a escola programava uma série de atividades em sua homenagem. Os alunos escreviam mensagens e declamavam poesias alusivas aos mestres, sem falar nas redações dos jornais que publicavam bonitas mensagens nos seus periódicos.

Exemplos não faltam da dedicação dessas mestras para organizar e relembrar as efemérides nacionais. Por exemplo, em 21 de abril se comemorava, com grande garbo e desfile pelas ruas da cidade, a morte do Tiradentes. Segue a descrição dessa comemoração, registrada num periódico local:
 
 
II. REGISTROS EM PERIÓDICOS E LIVROS LOCAIS


Grupo escolar "D. Maria Teresa" 

Programma do "Auditorium" de 21 de abril, realizado no grupo escolar "D. Maria Teresa", para commemorar a ephemeride.

Hymno à Bandeira, cantado por todos os alumnos; saudação à Bandeira, alumna Natalya Campos; hymno à Proclamação da Republica, entoado por todos os alumnos.
Conferencia pela professora — Nadyr Rangel, sobre Tiradentes.
Hymno "A Inconfidencia", todos os alumnos.
Recitativos — 
4º anno — No altar do martyr, Corina Rosa Barbosa; 21 de abril, Diva Alves; Tiradentes, Guimar Pereira do Carmo; O Tiradentes, Moacyr Ribeiro; Culto à Bandeira, Laura Guimarães; Tiradentes perante a Alçada, Attilio Fallieri.

3º anno — Conjuração Mineira, Lucy Soares de Jesus; Tiradentes, Natiere Moreira Leite.

2º anno — A cabeça de Tiradentes, Hilda Rodrigues; Tiradentes, Lyres Gomes Ribeiro; Minhas dívidas, Maria José Andrade; Cinema, Marina do Amaral; Somnambula, Maria José Lobato; Tiradentes, Giacomina Moura; 21 de abril, Maria José Lobato.

Fonte: TRIBUNA, Anno XV, nº 975, São João del-Rei, 28 de abril de 1929.

Mesmo ganhando pouco, andando às vezes a pé, a cavalo, de charrete e até mesmo de trem para chegar às escolas rurais, ela era feliz: trajava sempre seu melhor vestido, adornada com anéis, brincos e pulseiras. Não deixava de presentear principalmente seus próprios pais quando recebia seu primeiro salário, com dois ou três meses de atraso.

Não havia greve no magistério. Naquela ocasião, os secretários de Estado da Educação e os ministros da Educação não eram políticos que se preocupavam apenas com a política partidária. Antes, eram, geralmente, pessoas identificadas com a educação, educadores natos.

Estou falando de uma época em que atuava em São João del-Rei o Tenente João CAVALCANTE (Passagem de Mariana, 18/05/1902-Petrópolis, 14/08/1985), que, segundo [GUERRA, 1968; 179] "foi um dos grandes valores que a nossa cidade conquistou e aqui realizou o milagre de organizar a maior e melhor orquestra Sinfônica de cidades do interior de Minas. Foi também, por muitos anos, regente da Banda de Música do 11º Regimento de Infantaria." ¹ Também aqui fundou o Orfeão da Escola Normal (Colégio Nossa Senhora das Dores)." Acrescento o fato de que o Tenente João Cavalcante foi o compositor do hino desse colégio, que pertencia à Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei.
 
 
III. MINHAS LEMBRANÇAS ESCOLARES
 
 
Minha mãe, Celina dos Santos Braga, normalista em fins de 1945, lecionou durante um ano numa escola rural na estação ferroviária de César de Pina. Relembrava com saudade ter sido mestra dos filhos de João Longatti, entre outros, e ter sido madrinha de uma das filhas dele, Amélia Conceição.

Diante do pedido de casamento por parte de meu pai, Roque da Fonseca Braga, minha mãe abandonou a profissão de professora em 1947, para se dedicar exclusivamente à educação de seus filhos. O povo dizia que marido que se prezava não ficava dependente do salário de sua noiva professora, preconceito imperdoável eis que afastava da sua missão tantas professoras. Por isso, muitos noivos, como meu pai Roque e meu tio Júlio Teixeira, pediam em casamento suas noivas, desde que abandonassem a profissão de educadora. Muitas interromperam definitivamente, como minha mãe Celina e minha tia Olga, sua carreira pedagógica.

Depois de décadas, tive grande emoção ao pisar o mesmo pavimento do meu antigo Grupo Escolar João dos Santos ², do lado direito do Córrego do Lenheiro, da lendária São João del-Rei e entrar numa das antigas salas de aula do antigo educandário onde fui escolarizado. Foi bom percorrer outras salas, até o grande salão onde funcionava a diretoria, em que minha mente infantil registrou as imagens das professoras Mercedes Passarini de Resende Ferreira ("Cecê") e Beatriz Leite de Andrade: a primeira, ao piano, comunicativa e de grandes dotes artísticos, e a segunda, diretora altiva e de alta linhagem, já que irmã do grande orador são-joanense Dr. Belisário Leite de Andrade. Das janelas abertas, constatei com tristeza que não mais conseguia avistar as palmeiras plantadas por Dr. Paulo Lustosa no quintal do seu solar para cada um dos seus onze filhos. Simplesmente foram arrancadas: deixaram de existir.
 
Segundo minha irmã Celina Maria Braga Campos, Cecê costumava convocar determinada turma para ensaio de certo hino cívico a ser cantado em uma data futura. Os escolares, então, se postavam ao redor do piano na sala da diretoria e recebiam a lição no primeiro e nos próximos contatos com a música e letra do hino. No dia da comemoração programada, todas as turmas já estavam devidamente treinadas e prontas e sem titubear para a apresentação comunitária.

Sobre Cecê, relembro o hino de despedida do Grupo cantado por todas as crianças do 4º ano primário, despedindo-se de seu querido grupo escolar em festividade solene no Teatro Municipal local. Na ocasião, eu tinha dez anos. Era final do ano de 1959. A melodia foi retirada da última parte do Estudo Op. 10 nº 3 em mi maior ("Tristesse") de Chopin. Cecê era a pianista e provavelmente autora também da letra abaixo:

Adeus, companheiro,
Com que saudade,
Vamos deixar
O grupo escolar.

E, ao partir,
Nós te louvaremos com fervor
E exaltaremos nossa escola
Tão amada e tão querida.

E, ao partir,
Cheios de emoção,
Deixamos aqui
Nossa gratidão.

Adeus, adeus...

Adeus, adeus.

Cecê também tocava "Le Tambourin" de Jean-Philippe Rameau, com letra provavelmente composta por ela própria e que dizia:

Tamborzinho alegre,
Toca, toca...
Sempre sorridente,
Juvenil.

Teu rufar sonoro
E cadenciado
Tem muitos encantos
Tem encantos mil.

Tamborzinho alegre,
Toca, toca...
Teu rufar sonoro,
Rufa, rufa...

Toca, toca,
Rufa, rufa,
Toca sempre,
Tamborzinho. (Da capo al fine)
 
Não poderia findar estas breves recordações, sem mencionar a excelência das apresentações de Cecê tocando ao piano o acompanhamento de hinos cívicos inesquecíveis, como o hino oficial da cidade (letra de Bento Ernesto Júnior e melodia por Carlos dos Passos Andrade Silva), hino à Bandeira Nacional (música de Antônio Francisco Braga e letra por Olavo Bilac), Hino Nacional Brasileiro (música de Francisco Manoel da Silva e letra por Osório Duque Estrada), hino do Grupo Escolar João dos Santos (música de João Américo da Costa e letra por José Américo da Costa) e a Canção do Expedicionário (música de Spartaco Rossi e letra por Guilherme de Almeida).

Perambulando pelas antigas salas, pareceu-me entrever, apressadas e solícitas, minhas professoras do curso primário Eneida Simões Alves, Zilda Natalina Gonçalves Gomes, Yvane Leite de Andrade e Beatriz Maria de Resende Silva. Mais tarde, houve outras mestras portadoras de títulos notáveis. Mas nenhuma delas marcou tanto a retina dos meus olhos quanto aquelas seis primeiras que encantaram os alegres anos do meu curso primário.



IV. NOTAS  EXPLICATIVAS


¹ A TRIBUNA: São João del-Rei, Anno XV, nº 975, São João del-Rei, 28 de abril de 1929

² Nas "Ephemerides Mineiras" de José Pedro Xavier da Veiga pode-se ler na data 2 de abril de 1881 a seguinte anotação: "Inaugura-se na florescente e adiantada cidade de São João d'El-Rey a 'Escola João dos Santos', fundada, patrioticamente, pelo dr. visconde de Ibituruna, que mais tarde (1889) foi o ultimo presidente desta provincia." Tal informação me foi repassada pelo confrade Francisco Oliveira, da Academia Barbacenense de Letras, o qual anotou ainda que tal registro foi publicado no Fascículo do Ano III, 1898, pela Imprensa Oficial, ainda em Ouro Preto, na página 291 da Revista do Arquivo Público Mineiro, cobrindo o período de 1696 a 1896.
 
 
V. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 


BRAGA, Francisco José dos Santos: O cinquentenário do Grupo Escolar João dos Santos (26/7/1908-26/7/1958), publicado no Blog de São João del-Rei em 7/10/2016.
 
GUERRA, Antônio Manoel de Souza: Pequena História de Teatro, Circo, Música e Variedades em São João del-Rei - 1717 a 1967, Juiz de Fora: Sociedade Propagadora Esdeva - Lar Católico, 327 p.
 
MAGALHÃES, Luiz Alberto de Almeida: A Normalista, publicado no Blog de São João del-Rei em 27/03/2023
 
VEIGA, José Pedro Xavier da: Efemérides Mineiras, Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro (Centro de Estudos Históricos e Culturais), 1998, vol. 1-4

Sugestão de vídeo: Normalista (composição de David Nasser e Benedito Lacerda), interpretada por Nelson Gonçalves

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Carta de mãe para filho

Por Celina dos Santos Braga (1928-2014)
 
São João del-Rei, 2 de abril de 1970 
 
Meu querido filho, 
 
Não queria lhe escrever, pois sabe que sou pessimista, embora lute contra essa tormenta. Os meus dias transcorrem monótonos, pois novos motivos dia a dia surgem à minha frente. 
 
Tomei uma resolução de silenciar. Não de derrota, mas de reflexão e esperança de dias melhores. E eles virão, bem sei, pois há na minha vida uma luz maravilhosa que brilha nos momentos difíceis e não me deixa sucumbir. É a luz da Fé. Esta Fé que recebi de meus pais, herança benfazeja e inigualável, que às vezes quer apagar como a chama de uma vela ao vento, mas que, com o auxílio de Deus e de muitas circunstâncias felizes qual oxigênio, deu vida a esta chama e a mantém acesa. 
 
É que a gente não tem olhos para ver as coisas pequenas que fazem a felicidade; coisas lindas que acontecem todo dia. O sorriso das crianças, o desabrochar das flores, o deslumbramento de um dia que nasce, o crepúsculo, a emoção de ouvir uma música predileta ou a leitura de uma carta de um amigo, etc. 
 
Saí da rotina, mas desejo de coração que esteja bem de saúde e de estudos. Com muita saudade, despede-se sua mãe com um abraço carinhoso e pede a Deus que o abençoe, 
                                                                                                                                         Celina
 
Final da carta de minha mãe (detalhe: excelente caligrafia!):
 
 

 
 
De seu arquivo de fotos: 

Celina no naipe de sopranos na década de 80, a última à esquerda da primeira fila - Coral do Colégio Nossa Senhora das Dores 



Recorte de Celina tirado da foto acima

 
II. AGRADECIMENTO 

 
À minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação do registro fotográfico utilizado neste trabalho.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

JORGE DE LIMA, POETA ESQUECIDO

Por MÁRIO CELSO RIOS *

Não há a menor dúvida de que existe, na literatura brasileira, um "caso" Jorge de Lima. Tendo sido, na opinião de muitos críticos e poetas do Brasil e de outras partes do mundo (incluindo o autor destas linhas), aquele que mais longe foi em nossa terra na feitura do verso e no uso da poesia como expressão de um povo e de uma nação, é de se espantar seja ele posto de lado  permanentemente de lado  pela presente comunidade literária do País. Em vida, teria sido normal, por ser católico praticante e ortodoxo, colocá-lo sob suspeita. (...) Como pode nosso maior poeta ser colocado, por gerações posteriores, em nível tão baixo? Como pode ser tão esquecido? Como pôde ter sido candidato à Academia Brasileira de Letras cinco vezes e não ter sido eleito? (...)
                                             Antonio Olinto: O Caso Jorge de Lima, in Tribuna da Imprensa (RJ), edição de 26/06/2007
Jorge (Mateus) de Lima (1893-1953)

Injustamente, Jorge de Lima anda esquecido, mas venerado por especialistas e leitores mais bem informados como é o meu caso. Ana Maria Paulino, uma das maiores estudiosas do poeta, atribui o fato ao epíteto de "poeta cristão" de que foi tachado e a qualidade de "poesia religiosa" conferida a seus versos, o que teria afastado deles o leitor dos anos 60. Segundo Paulino, o leitor estaria mais interessado em obras cujo tema abordasse o momento político-social vivido pelo país. 

Nascido em União dos Palmares (AL) e falecido no Rio de Janeiro, filho de um senhor de engenho. Descendendo de uma antiga linhagem rural do Nordeste, sua infância de engenho, na plantação paterna de cana de açúcar, explica sua inclinação à terra natal e a simpatia para com a raça negra. Lançou-se escritor, menino ainda, com um soneto parnasiano: "O Acendedor de Lampiões" (1907). Ainda da fase parnasiana cito "XIV Alexandrinos" (1914). 
 
Em 1911, iniciou o curso de Medicina em Salvador, tendo concluído no Rio de Janeiro em 1915. Ainda em 1915, retornou a Maceió para exercer a Medicina. Em 1919 elegeu-se Deputado Estadual pelo PRAL-Partido Republicano de Alagoas. Em 1930, transferiu-se para o Rio de Janeiro por desavenças políticas, e ali na Capital exerceu a clínica médica e foi professor de Literatura Brasileira na Universidade do Brasil. O seu consultório na Cinelândia tornou-se famoso como centro de reunião de intelectuais e amigos. Após a queda do Estado Novo, militou na política, elegendo-se vereador no antigo Distrito Federal, pela UDN. De 1937 a 1945, teve sua candidatura à Academia Brasileira de Letras recusada por seis (sic) vezes. Em 1952, é fundada a Sociedade Carioca de Escritores (SOCE), da qual foi o primeiro presidente provisório.
 
Em 1925 aderiu ao Modernismo, mas pertence à chamada "geração de 30", segunda geração de modernistas. Época de seus belos poemas regionais (negros). "Essa Negra Fulô" (1928) lhe trouxe êxito estupendo, nacional e mundial, tendo a artista argentina Berta Singerman uma intérprete incomparável. 
 
A partir de 1930, dedica-se à militância católica. Em feliz associação com Murilo Mendes, escreveu um livro de poemas religiosos: Tempo e Eternidade (1935). Essa mesma tendência revelou-se em A Túnica Inconsútil (1938), espécie de profissão de fé do eu-lírico que se coloca no mundo regido pela lei divina, composta por 73 poemas de forma livre (dentre os quais se destaca o poema "O grande desastre aéreo de ontem", dedicado a Cândido Portinari: "Vejo sangue no ar... Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.") e Anunciação e Encontro de Mira-Coeli (1950), com sua linguagem místico-religiosa. 
 
Fase negra: É de 1947 o livro Poemas Negros, cujo tema é a realidade africana no Brasil e a vida na regiões Norte e Nordeste do país. 
 
Mas há de ser na fase hermética/(neo)classizante com o Livro dos Sonetos (1949) e Invenção de Orfeu (1952) que a excelsa inspiração do poeta alcançará seu ponto culminante e seu lugar definitivo, graças ao domínio técnico do verso, o poder onírico, a originalidade e o sopro épico bebido nas fontes da grande tradição da arte ocidental. Em Invenção de Orfeu (retorno à epopeia, embora utilize heterogeneidade de formas como soneto, sextilha, quadra, oitava, terça; rima, bem como gênero híbrido: épico X lírico. Conforme E. R. Curtius: O poeta épico navega em um grande navio no amplo mar; o poeta lírico em um barquinho pelo rio, Jorge de Lima revisita Camões, construindo uma épica camoniana subjetivada. Segundo João Gaspar Simões, é o caso de uma epopeia interior: o primeiro poema de brasilidade interior. 
 
Destacou-se Jorge de Lima em diversas áreas de sua exemplar atuação: médica, política, literária (extraordinária contribuição poética, crítico-histórica e novelística) e artística (como pintor e escultor, fazia fotomontagens). 
 
José Santiago Naud assim definiu o poeta alagoano: "Jorge de Lima é como um painel. Total. Registro das nossas raízes, linguagem criada ou herdada, mito e mistério, a complexidade do universo referida pelo local. Assim como Drummond estabeleceu o código do dizer poético em brasileiro, Jorge de Lima abriu peculiaridades ao universal." 
 
A AVE 
 
Por Jorge de Lima (in A Túnica Inconsútil)

Ninguém sabia donde viera a estranha ave. 
Talvez o último ciclone a arrebatasse 
de incógnita ilha ou de algum golfo 
ou nascesse das algas gigantescas do mar; 
ou caísse de uma outra atmosfera, 
ou de outro mundo ou de outro mistério. 
Velhos homens do mar nunca a haviam visto nos gelos 
nem nenhum andarilho a encontrara jamais: 
era antropomorfa como um anjo e silenciosa 
como qualquer poeta. 
Primeiro pairou na grande cúpula do templo
mas o pontífice tangeu-a de lá como se tange um 
[demônio doente. 
E na mesma noite pousou no cimo do farol; 
e o faroleiro tangeu-a: ela podia atrapalhar as naus. 
Ninguém lhe ofereceu um pedaço de pão 
ou um gesto suave onde se dependurasse. 
E alguém disse: “essa ave é uma ave má das que devoram 
[o gado.
E outro: “essa ave deve ser um demônio faminto”. 
E quando as suas asas pairavam espalmadas dando 
[sombra às crianças cansadas, 
até a mães jogavam pedras na misteriosa ave perseguida 
[e inquieta. 
Talvez houvesse fugido de qualquer pico silencioso entre 
[as nuvens 
ou perdesse a companheira abatida de seta. 
A ave era antropomorfa como um anjo 
e solitária como qualquer poeta. 
E parecia querer o convívio dos homens 
que a enxotavam como se enxota um demônio doente. 
Quando a enchente periódica afogou os trigais, alguém 
[disse: 
A ave trouxe a enchente. 
Quando a seca anual assolou os rebanhos, alguém disse: 
A ave comeu os cordeiros 
E todas as fontes lhe negando água, 
a ave desabou sobre o mundo como um Sansão sem vida. 
Então um simples pescador apanhou o cadáver macio e 
[falou: 
Achei o corpo de uma grande ave mansa. 
E alguém recordou que a ave levava ovos aos anacoretas. 
Um mendigo falou que a ave o abrigara muitas vezes do 
[frio. 
E um nu: a ave cedeu as penas para meu gibão. 
E o chefe do povo: era o rei das aves, que 
[desconhecemos. 
E o filho mais moço do chefe que era sozinho e manso: 
Dá-me as penas para eu escrever a minha vida 
tão igual à da ave em quem me vejo 
mais do me vejo em ti, meu pai. 
 
Mário Celso Rios (1954-2020) na sede da ABL-Academia Barbacenense de Letras, presidindo a posse do gerente deste blog como membro da AMEF-Academia Mantiqueira de Estudos Filosóficos em 16/05/2019

 
Antes de meu comentário sobre o poema, digo a você que no ano de 1993, fui visitar na Filadélfia o Museu dedicado a Edgar Allan Poe. Lá havia traduções de THE RAVEN em vários idiomas. Para minha frustração, nada em português! Lembrei-me da tradução de Machado de Assis e da de Fernando Pessoa. Aí, enviei uma carta a Zilda de Castro e pedi a ela para me enviar uma cópia da versão machadiana a partir da obra completa que havia no Colégio Estadual Soares Ferreira e que lera nos meus tempos do curso científico. Recebi posteriormente um agradecimento expresso do governo americano pelo meu gesto em prol da literatura. (...) 
 
Releio o poema A Ave de Jorge de Lima e me recordo de Hesíodo (Teogonia e Trabalhos e Dias) e de sua recriação de Prometeu Acorrentado em que o preço da vida por ter acesso ao fogo do saber é ter seu fígado devorado pela águia, ave emblemática como a de Jorge de Lima. Também me vem à mente Raduan Nassar e de sua primorosa Lavoura Arcaica em que as questões vida-morte, solidão-convivência, obediência-libertação, diálogo-incompreensão nos remetem a esse lapidado texto jorgiano. A AVE de Lima brilha e voa alto por trazer sutis referências à essência  "de onde vim? quem sou? qual meu papel no mundo? temos alguém além de nosso egocentrismo na convivência? somos anacoretas e misantropos? na pena de uma ave existe a iridescência de todo o ser? ou a pena em que me expresso é tão-somente sinal do meu inconformismo diante da minha irremediável finitude?"
 
Na mitologia ocidental a culpa original é trabalhada como arquétipo visceral ou como possibilidade catártica. Enquanto Poe cria um "nunca mais" em estado de eclipse, o poema de Jorge de Lima é uma tese em aberto. Isso é uma das nuances que o torna maestral.
 
O gerente do blog em companhia de Mário Celso Rios, em Santos Dumont, em 30/11/2013, depois da apresentação de O Peregrino de Assis, cantata de Frei Joel Postma OFM.
 
* Pesquisador, advogado, professor, incentivador cultural, pertenceu a várias entidades de valorização das causas intelectuais, foi membro da Academia Barbacenense de Letras, tendo sido seu presidente de 1993 a 2020, e participou ativamente de todas as edições do Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo. Durante vários anos foi professor da Escola Estadual Professor Soares Ferreira e também professor da Faculdade de Direito em Barbacena.


II. BIBLIOGRAFIA

BELÉM, Euler de França: Poeta brasileiro quase ganhou Nobel de Literatura, Jornal Opção 50 Anos, edição de 17/07/2019
 
OLINTO, Antonio: O Caso Jorge de Lima, in Tribuna da Imprensa (RJ), edição de 26/06/2007
 
PAULINO, Ana Maria: Jorge de Lima, São Paulo: Edusp, 1995 (Coleção Artistas Brasileiros, 1)