Por Basílio de Magalhães *
Transcrevemos a segunda de três conferências do Prof. Basílio de Magalhães proferida em 21/03/1914, publicada pelo Correio Paulistano em 22 de março de 1914 na edição nº 18.200, página 2, quando tomou posse como membro efetivo do IHGSP.
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| Basílio de Magalhães (✰ Barroso, 07/06/1874 - ✰ Lambari, 14/12/1957) |
I. INTRODUÇÃO
Nesta segunda conferência sobre o tema "O Bandeirismo paulista", o jornal Correio Paulistano não cita as palavras do orador, mas utiliza uma voz narrativa em 3ª pessoa, que é uma característica do discurso indireto.
Dessa forma, ficamos sabendo que os documentos referidos na palestra se prendem ao ciclo da prata, uma das divisões do bandeirismo.
II. Texto do Correio Paulista referente à segunda conferência do sr. Basílio de Magalhães
No Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo realizou-se ontem uma sessão extraordinária, convocada especialmente para o sr. Basílio de Magalhães efetuar a sua conferência sobre "O Bandeirismo paulista".
O presidente, sr. senador Luiz Piza, convidou para secretários os srs. drs. João de Serqueira Mendes e Affonso A. de Freitas e, declarando aberta a sessão, deu a palavra ao orador inscrito.
Começando a sua exposição, o sr. Basílio de Magalhães estabelece, como preliminar elucidativa, que os documentos a que se vai referir se prendem ao ciclo da prata, na sua fase derradeira, e que as expedições simultâneas, ordenadas por Artur de Sá e Menezes em 1698, uma a Vacaria e outra a Sabarabussu, devem ser estudadas ao mesmo tempo e postas em paralelo no campo visual da nossa evolução histórica, para que de tal exame ressalte, a toda a luz, a verdade verdadeira sobre a individualidade e os feitos de Manuel de Borba Gato.
Afirma que as peças ora coligidas lhe permitiram por termo às controvérsias, às lendas e às erronices, que pejam os livros de linguagens e de crônicas a tal propósito.
Assim, não há prova alguma autêntica, de que o responsável pelo homicídio de d. Rodrigo de Castelo-Branco houvesse impetrado, por si e por seus parentes, o indulto do seu delito, nem que lhe tivesse sido dado o perdão a troco do manifesto das minas de ouro do rio das Velhas, nem ainda que acompanhasse o governador ao sertão aurífero.
O que se pôde inferir dos documentos (as patentes de 3 de março e 15 de outubro de 1698) é que Artur de Sá e Menezes, pondo em prática uma sábia política de larga e utilitária tolerância, deu como castigo único aos dois réus do crime de primeira cabeça, Gaspar de Godoy Colaço e Manuel de Borba Gato, o empreenderem, respectivamente, o descobrimento das minas de prata da Vacaria e do Sabarabuçu.
A segunda não passou de um consectário natural da primeira, como o evidenciam os termos quase iguais, constantes do atos de nomeações dos cabos das jornadas.
Em nenhum deles se fala em ouro, e, se algum afim ou consanguíneo de Borba Gato influía no tácito indulto, foi por certo Garcia Rodrigues Paes, — o generoso paulista que se propôs a abrir o caminho novo, realizando à própria custa quase toda essa obra difícil e admirável.
Retifica o orador muitos equívocos em que andaram claudicando os escritores estrangeiros e nacionais a tal respeito, e põe em evidência a índole bravia e as aspirações de independência, reveladas pelos paulistas no último quartel do século XVII, não só no tocante ao assassínio de d. Rodrigo, como também na sanguinosa luta por causa da quebra do padrão da moeda, cujo lúgubre desfecho foi cair morto pelo bacamarte de Gaspar de Godoy Colaço o audaz régulo Pedro Ortiz de Camargo, que chegara a intimar a Artur de Sá e Menezes não viesse a S. Paulo, porque os paulistas se sabiam muito bem governar...
E tudo quanto expõe apóia-se nas cartas do citado governador, dirigidas então ao soberano, isto é, nos documentos oficiais.
Nega o orador a pretendida rivalidade entre paulistas e taubateanos, emulação a que os historiógrafos de além-mar e os nossos cronistas atribuem a expansão dos descobrimentos do ouro no vasto sertão dos índios Cataguases.
Funda-se tal tradição no atrito entre as bandeiras de Bartolomeu Bueno de Siqueira e Salvador Furtado e nas hostilidade com que os descobridores taubateanos receberam os primeiros guardas-mores. Mas da extensa documentação examinada não se pode concluir que os naturais da vila de S. Paulo e os filhos da vila de Taubaté se houvessem separado em hostes rivais no interior do Brasil. O que se vê das peças oficiais é que foi a fome o fator real da expansão dos descobrimentos.
Houve duas grandes crises de carestia de gêneros alimentícios, uma em 1697-1698 e outra em 1700-1701, e a elas é que provadamente se deve a fundação de novos arraiais, hoje cidades, e de muitos ribeiros auríferos de Minas Gerais.
O orador cita os comentos em que estriba o seu asserto, e faz considerações sobre os rushs de aventureiros que buscavam a região do ouro e sobre a imprevidência dos bandeirantes paulistas, tomados pela auri sacra fames, que lhes deu em resultado a fome, a terrível manifestação do instinto nutritivo, operando com coeficiente de revelação de pasmosas riquezas.
Passando a tratar do “caminho novo”, põe em relevo a figura assombrosa do filho do caçador das esmeraldas, de Garcia Rodrigues Paes, cuja liberalidade e competência merecem lugar de honra nas páginas dos nossos fastos. E, como os tratadistas têm cometido enganos deploráveis nesta matéria, o orador demonstra, pelas cartas de Artur de Sá e Menezes e pela provisão de 2 de outubro de 1699, que o filho de Fernão Dias Paes Leme, logo que a sua proposta foi aceita pelo governador (que rejeitara a de Amador Bueno da Veiga), em começos de 1698, atacou logo a grande obra, que lhe daria jus, como pensa Diogo de Vasconcelos, a ser proclamado “o príncipe dos engenheiros”.
Refere ainda o procedimento incorreto que tiveram para com Garcia Rodrigues Paes os habitantes do Rio de Janeiro, os quais deixaram de cumprir a sua promessa de dar-lhe 10.000 cruzados, quando a estrada lhes permitisse livre tráfego até às Minas, e conclui mostrando, com Diogo de Vasconcelos e Calógeras, que a empresa levada a efeito pelo filho do caçador das esmeraldas servia de traçado à locação dos trilhos da E. de F. Central do Brasil.
As últimas palavras do orador foram cobertas por vivos aplausos.
O sr. presidente, encerrando a sessão, marcou outra para amanhã, às 20 horas, a fim de o sr. Basílio de Magalhães realizar a sua terceira conferência.
III. BIBLIOGRAFIA
BRAGA, F.J.S.: BIOBIBLIOGRAFIA DE BASÍLIO DE MAGALHÃES, publicado em 10/03/2019 no Blog de São João del-Rei
MAGALHÃES, Basílio de: “O BANDEIRISMO PAULISTA”: conferência no IHGSP em março de 1914, publicado em 15/08/2026 no Blog de São João del-Rei

