quinta-feira, 8 de outubro de 2026

PEDRO NAVA: TÃO IMPORTANTE NA LITERATURA BRASILEIRA QUANTO PROUST NA FRANCESA

Por RACHEL JARDIM *

Nava não teria escrito sua obra, como escreveu, se não tivesse lido Proust, outro obcecado pela memória. 
Transcrevemos, com a devida vênia da revista de cultura Verbo de Minas, publicação do Programa de Pós-Graduação do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, vol. 3, nº 5, out. 2021, pp. 83-85. A edição da revista tem título próprio: Memórias mineiras e outros textos: Pedro Nava. Originalmente foi um artigo intitulado "Nava, baú de esboços", publicado em D.O. Leitura (publicação cultural da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), em número especial, no ano 18, nº 9, set. 2000, pp. 32-37. 

Rachel Jardim (✰ Juiz de Fora, 1926 ✞ Rio de Janeiro, 2023 - Crédito: Tribuna de Minas

 

Certa vez o José Mindlin demonstrou grande desejo de conhecer Pedro Nava, meu amigo, de Juiz de Fora, a mesma cidade onde nasci. Ele conhecia minha avó, tínhamos relações de família. Eu me propus fazer um jantar, na minha casa, com eles dois, mais a Guita e a Nieta. Como o Pedro Nava era mineiro, e a comida mineira de Juiz de Fora é famosa, sobretudo a carne de porco, quis fazer um jantar bem característico, que nos reportasse à nossa terra. Fiz um lombo de porco, que ficou uma delícia, todo mundo comeu muito bem, fizeram muitos elogios, e o jantar decorreu num clima muito fraterno, houve um entendimento muito grande, parecia que o Mindlin e o Pedro Nava se tinham conhecido a vida inteira. 
 
Para mim, aquele jantar acabou se tornando um ponto de ligação entre duas culturas. Porque o mineiro, dizem, tem muito de judeu. É muito apegado aos bens e ao sangue, aos bens de raiz, aos bens que caracterizam sua cultura. Há até um poema famoso do Drummond, "Os bens e o sangue". Os mineiros são apegados a esses bens e os administram muito bem. São ótimos negociantes, ótimos banqueiros, parcimoniosos, como dizem que os judeus também são. Não desperdiçam, têm uma vocação para a cultura. Apenas são cultos. Nós, de Minas Gerais, não exibimos nem cultura, nem dinheiro. Pelo menos éramos assim, os antigos. Os de hoje eu não sei. 
 
Eu tenho uma admiração muito grande pelo Nava, como escritor. Acho que ele inovou o memorialismo, embora não seja apenas um memorialista. É um romancista, faz o romance da memória. Em sua obra, cria personagens e cria um estilo espantoso, um dos melhores da literatura brasileira. Um estilo próprio, raro e extraordinário por isso se tornou um dos maiores escritores da literatura brasileira e talvez mundial. Pedro Nava não teria escrito sua obra, como escreveu, se não tivesse lido Proust, outro obcecado pela memória. Aliás, o Mindlin é outro apaixonado de Proust, e eu também. Acredito que, nas devidas proporções, o Pedro Nava tem na literatura brasileira a mesma importância que Proust teve na francesa. É um escritor absolutamente extraordinário e original, com estilo próprio, e inovou a literatura brasileira. 
 
O Gilberto Freyre, de certa forma, também fez um pouco isso, criou uma espécie de romance da memória, e o Pedro Nava, seguindo essa onda, fez um trabalho ainda mais completo. Ele reconstrói uma cidade, Juiz de Fora, que eu conheci — saí de lá há muito, estou há anos no Rio de Janeiro — com as pessoas conversando nas calçadas, na porta de casa, sentadas em suas cadeiras. Minha avó tinha as cadeiras em frente da casa, todos conversavam, ele passava por ali, menino ainda, e participava daquele momento familiar privilegiado. Guardou pelo resto da vida, uma coisa muito proustiana, o perfume dos dedos da minha avó passando pela cabeça dele. Lembro essa cena que ele narra, das cadeiras de medalhão de minha avó, as pessoas depois do jantar sentadas civilizadamente, conversando, trocando idéias. Era uma coisa tão fraternal, tão humana, tão bonita...
 
Em sua obra, Pedro Nava traz de volta essa cidade, mas uma coisa é verdade: ele não amou jamais Juiz de Fora, tem queixas amargas da cidade, da sociedade local. Ele tinha um lado nordestino da família, que não era mineiro, a mãe foi parente pobre na casa de parentes ricos — era um traço bem mineiro da época, receber os parentes pobres em casa, mas, no fundo, não tratar de forma bem igual, havia sempre uma pequena diferença que não era dita, mas ficava no ar. Ele tem muita mágoa de Juiz de Fora, mas apesar disso recria uma cidade com tanta beleza que não faz mal, a mágoa não tem importância. O que tem importância é como reconstrói. O Nava era um grande conhecedor da cidade, apesar de ter viajado o mundo inteiro ele tinha uma surpreendente capacidade de olhar a cidade, uma coisa que o Proust também tinha. Ele sabia descobrir coisas como ninguém.
“Nessa época em que passava pela porta da casa de sua avó, menino ainda, ele já mostrava alguma coisa do adulto genial que viria a ser?”
Não, pelo que conta era um menino tímido. Tinha mágoas profundas — aliás, carregou pela vida muitas mágoas e ressentimentos. Ele nunca se libertou desses sentimentos que, por incrível que possa parecer, o ajudaram a ser um grande escritor. 
Pedro Nava só foi escrever depois que a mãe morreu, pois não queria contar coisas que pudessem magoá-la. Foi anotando tudo, tinha uma memória prodigiosa, e só escreveu depois que ela morreu, quando pôde dizer todas as coisas que queria. Proust fez a mesma coisa. Minha amizade com Nava se fortaleceu, mais tarde, porque fui diretora do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro, e ele foi presidente do conselho. Ele era um flâneur, nós andávamos muito pelas ruas, ele ficava olhando os gradis das janelas, o enquadramento, as perspectivas, os torreões, até o cemitério. Tudo com uma paixão pela cidade... Nós andávamos pelas ruas, Pedro Nava e eu. Depois que foi trabalhar comigo, nossa relação ficou muito mais viva, mais intensa, e várias vezes estive na casa dele. Tínhamos muita afinidade, ele tinha um lado muito caloroso, o lado nordestino dele. O Mindlin também é um ser humano muito caloroso. Então, eu acho que os dois tiveram uma amizade muito bonita, muito bonita, que começou na minha casa, nesse jantar em que eu servi um lombo de porco.
“O Mindlin diz não lembrar, exatamente, onde conheceu Pedro Nava...”
Foi na minha casa, nesse jantar. Ele conheceu Pedro Nava na minha casa. Esse jantar, depois, foi muito comentado porque o Chico Assis Barbosa, que era amigo do Pedro Nava e também do Mindlin, ficou muito enciumado. Ele sempre me cobrou por não tê-lo convidado. Não convidei porque minha mesa era pequena, não ia caber todo mundo, precisaria convidar a mulher dele também. Seria gente demais. Eu era tão obcecada pela leitura do Nava que ele nem precisava falar. A obra era ainda mais importante que a pessoa. Lembro que a gente foi num jantar, uma vez, no Club Gourmet, um restaurante aqui no Rio. E um jantar oferecido a proustianos, uma coisa tola. Fomos eu, Nava e a Nieta, e ficamos quase mudos o jantar inteiro. As pessoas diziam tantos disparates a respeito de Proust que não tivemos como dizer nada, comentar nada, ficamos quase calados. Porque o Proust, para nós, era um estado de espírito, tão lá dentro de nós, que a gente não precisava falar muito. Ele não era de se exibir, então ficamos calados. Nós conversávamos muito sobre Proust, sobre Juiz de Fora. Depois fizemos um documentário, A Glória de Pedro Nava, eu fiz o roteiro, que já estava praticamente todo no livro dele. Fizemos o documentário para TVE, com o Joaquim Pedro de Andrade, o Pedro Nava andando e falando. A gente pegava o livro, ia comparando, ficou muito bonito. Quando Pedro Nava morreu, daquela forma trágica — nós trabalhávamos juntos — minha mãe me ligou, às 5 horas da manhã, quando o rádio começou a dar a notícia. Ela ouviu e me ligou. Eu tive um choque terrível, nós tínhamos estado juntos na véspera, ele não estava bem, estava deprimido, por razões que eu não sei quais fossem, ele nunca se abriu comigo. Mas ele não estava bem, não estava alegre. Foi um dos piores choques de toda a minha vida.
“Ele era naturalmente uma pessoa alegre?”
Ele tinha momentos de depressão, pensava muito na morte, a morte sempre rondou a obra dele, estava no fundo de tudo. Havia uma coisa vital nele, nordestina, vital, e uma coisa mais mineira, mais metafísica. Ele não era só metafísico, tinha uma coisa meio reprimida, tinha um ressentimento profundo, mágoas, feridas. Mas ficava muito animado quando falava do Rio, das coisas de que gostava, das pessoas. Aí ele se animava, ficava alegre. Mas, no fundo, havia sempre uma coisa sombria em Pedro Nava, parecia uma pessoa que tinha uma sombra ao fundo. Ao contrário do Mindlin, que tem vocação para a felicidade, o Nava tinha uma sombra ao fundo. Sua morte foi um mergulho nessa sombra. 
 
* A autora se destacou por sua dupla atuação de prestígio como uma das vozes mais sofisticadas da literatura memorialística brasileira e como pioneira na preservação do patrimônio cultural urbano. Ela construiu uma obra singular profundamente marcada pela interseção entre a memória individual, a ficção e a história social do Brasil. As principais características de sua obra literária são: 1. A 'escrita do eu': Rachel utilizava sua própria trajetória (a origem mineira, a formação jurídica e o serviço público) como matéria-prima literária. 2. Olhar político e feminino: sua obra registra o cotidiano das mulheres de classe média no século XX, abordando a questão feminina sob uma ótica política e de defesa de direitos. Na vida pública, atuou como superintendente e diretora do Patrimônio Cultural e Artístico do Rio de Janeiro. Foi uma das mentes por trás da preservação arquitetônica contra as desfigurações da capital fluminense, inspirando-se em suas leituras de Machado de Assis e Marcel Proust. Estreou tardiamente com seu primeiro livro “Os anos 40: a ficção e o real de uma época” pela Livraria José Olympio Editora em 1973. Em seguida vieram “Cheiros e ruídos” (1975), “Vazio pleno: relatório do cotidiano” (1976), Inventário das cinzas” (1980), “A cristaleira invisível” (1982), “O penhoar chinês” (1985) e “Num reino à beira do rio” (2004). 
 
II. BIBLIOGRAFIA sugerida pelo gerente do blog
 
ALBARET, Céleste. Marcel Proust, por Céleste Albaret, publicado em 28/11/2025 pelo Blog de São João del-Rei
 
AMÂNCIO, Angélica: Rachel Jardim, tecelã de histórias, BH: Revista da Academia Mineira de Letras, ano 99, volume 80, 2020, pp. 544-550. 
 
LIMA, Rogério Medeiros Garcia de. Tempo e memória em Pedro Nava, publicado em 30/07/2026 pelo Blog de São João del-Rei
 
MENDONÇA, C. P. & PEREIRA, E. A. As memórias na ficcional autobiografia de Rachel Jardim. Juiz de Fora: Verbo de Minas, vol. 22, nº 40, pp. 208-221, ago/dez 2021
 
MINDLIN, José. Uma boa lembrança, publicado em 12/07/2026 pelo Blog de São João del-Rei 
 
PROUST, Marcel. Sobre a leitura, publicado em 23/11/2025 pelo Blog de São João del-Rei
 
ROCHA, E. C. A. & PEREIRA, E. A.: A memorialística feminina no romance Os Anos 40, de Rachel Jardim. Juiz de Fora: IPOTESI, vol. 13, nº 2, pp. 135-145, jul/dez 2009
 
SILVA, Luciana de Mesquita. Rachel Jardim e sua escrita memorialística: a construção de imagens femininas. Erechim-RS: Revista Literatura em Debate, vol. 4, nº 5, pp. 130-140, jul/dez 2009