Por DANILO GOMES
“Outrora, no meu tempo de menino, como era bom quando chovia assim, interminavelmente. (...) Chove sobre esse passado. Os olhos úmidos procuram as ruas que pareciam estradas. Os ouvidos em vão tentam surpreender as vozes que contavam histórias de dilúvios. Chove sobre túmulos. As árvores estão pesadas das grandes chuvas intermináveis e monótonas.” (Augusto Frederico Schmidt: “As Florestas — páginas de memórias”.)
Volto ao tempo das lamparinas a óleo, dos lampiões de querosene em noites bem escuras, em que a luz elétrica pifa, “vai embora”. Já era uma luz mortiça, amarelada, e agora apagou de todo. Noites de chuva forte. Os mais velhos anunciavam : “É chuva para três dias, chuva de invernada”... Era uma noite assim, agora, mais uma vez, me recordo. Meu pai dizia: “um temporal medonho”. Não deixava de ser. Esse medonho temporal açoitava minha então pequena cidade de Mariana. Viajo no tempo. É um ano de antigamente. Talvez 1949, agora só Deus sabe ao certo. Pode ser 1948, tempo do Presidente Eurico Gaspar Dutra. Deposto em 1945, Getúlio Vargas se enfurnou nos seus pagos gaúchos, em Itu, Santos Reis e depois São Borja, tomando chimarrão na cuia (porongo) quente, olhando a natal savana verde e aguardando o giro da Roda do Destino. Ele, Getúlio, voltará ao Palácio do Catete, para lá morrer com um tiro no peito, dado por ele mesmo. Mas isso só na manhã de 24 de agosto de 1954.
Volto a Mariana. Ainda estamos em 1948, talvez 1949. As chamas dos lampiões alumiam a escuridão. Ventos fortes, trovoadas ruidosas, muitos raios — raios do outro mundo.
Um lampião alumia o corredor que vai dar na cozinha, onde brasas ainda crepitam no fogão; linguiças penduradas, defumando. Não existem forno elétrico, geladeira, televisão, garrafa térmica. Na parede, um velho telefone raramente usado. O rádio é um grande Telefunken, cheio de ruídos, na sala grande. Na despensa, grandes latas de banha de porco.
Do Barro Preto ao Alto da Igreja de São Pedro e até o bairro de nome Chácara, o toró inunda toda a cidade, fundada como arraial em 1696.
O temporal continua. Invocam-se São Jerônimo e Santa Bárbara, a cada trovão. Deve ser coisa de dez horas da noite. Os meninos (ainda somos três) estão agitados. A mãe, Dorita, e a velha empregada, Maria Augusta, de apelido Baía (corruptela de seu nome), rezam. Primeira ordem unida contra raios: não tocar em garfos, facas, colheres, chaves de fenda, nada que atraísse descargas elétricas vindas do espaço carregado. O pai, de pijama, fuma um forte cigarro Douradinho Extra. Ou Caporal Douradinho. Ou, talvez, Continental. Ele estava lendo uma revista, quando a luz elétrica foi para o beleléu, o que todos já esperavam. E as invocações hagiológicas continuavam, como proteção garantida: “São Jerônimo!”, “Santa Bárbara!” Palmas de Santa Rita nos corredores. A chuva trouxe o frio.
A tempestade abrandou um pouco. O aguaceiro diminuiu, mas não parou. Contudo, ainda se ouviam trovões.
Foi quando bateram na porta da rua. Pancadas fortes. Quem será, a essa hora e com essa chuva? Meu pai foi abrir a porta; eu fui atrás, filho mais velho, curioso.
Meu pai abriu a porta.
Todo molhado, surgiu Calixto, o conhecido bombeiro-encanador, que fazia serviços por toda a cidade. Afrodescendente, grande bigode, baixinho — e bêbado, como sempre. Foi logo dizendo, com voz grossa, quase ameaçadora:
— Daniel, vim te dar uma facada!
Levei um susto, um choque. Segurei a perna de meu pai, apavorado com aquela história de facada. Até hoje me lembro. A facada de Calixto, na noite escura de “temporal medonho”. Por certo comecei a chorar, esperando que o bêbado fizesse a loucura de puxar da cintura um punhal, uma faca mortal. “Daniel, vim te dar uma facada!”
A custo meu pai me sossegou. Não, Calixto só veio pedir um dinheiro “emprestado”, por certo para tomar mais umas pingas, no boteco de Geraldo Faísca, perto da Pensão Souza, quase na beira do Ribeirão do Carmo. Certamente meu pai o atendeu, e ele , com uns dez mil-réis no bolso, saiu na chuva, meio “sambado”...
Até hoje, quase oitenta anos depois, ainda vejo Calixto na minha frente, naquela noite tenebrosa, de raios, trovões, aguaceiro. A invisível faca mortal de Calixto como que ainda me assombra, no tempo da velhice. Está lá, no subconsciente, não sei onde, nas profundezas da alma, subterrâneos de Freuds e Jungs. Uma faca, um facão, um punhal, uma arma branca toledana, uma cimitarra de Damasco ou de Bagdad, dos tempos das Mil e Uma Noites... Mas era só o pobre Calixto, bêbado, numa noite de tempestade...
