domingo, 19 de abril de 2026

CULTO AOS HERÓIS


JORNAL TRIBUNA de Sete Lagoas


"O tirano morre e seu reinado termina, 
O mártir morre e seu reinado começa.
                              Søren Kierkegaard 
Transcrição do Editorial da edição nº 748, de 21 de abril de 2012, no suplemento ESPECIAL TIRADENTES, p. 7
O Blog de São João del-Rei dedica a reprodução deste histórico Editorial de 21 de abril de 2012 ao historiador sete-lagoano Márcio Vicente Silveira Santos, saudoso confrade no Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei. 
 
I. Editorial do Jornal Tribuna de Sete Lagoas, edição de 21/04/2012
 
O brasileiro  esta é uma crítica recorrente  não cultua seus heróis. Antes, aceita como "falha" de caráter e, depois, como decorrência natural da despolitização do povo, essa indiferença aos que deveriam ser "consagrados no altar da Pátria".  A exaltação é reduzida à expressão mais simples pela chamada "nova historiografia". Para ela, o Brasil não tem heróis. Os nomes que frequentam as páginas de nossos compêndios escolares e que passamos a conhecer e aceitar como realizadores de grandes feitos não teriam, portanto, aquela necessária dimensão arquetípica capaz de dar-lhes dimensão histórica.

Nessa vala comum, estariam sepultados Marechal Cândido Rondon, que expandiu nossas fronteiras, realizando obra de integração nacional; Deodoro da Fonseca, que partejou a República; Caxias, o gênio militar da espada a serviço da Pátria; Santos Dumont, que deu asas ao homem e encantou o mundo; Caneca, o frei político da Revolução Pernambucana e da Confederação do Equador; Zumbi, o rebelde libertário de Palmares; e, no coletivo, os "pracinhas" da FEB, que derramaram seu suor, seu sangue e suas lágrimas na Itália durante a II Guerra Mundial. E há tantos outros lembrados e pouco ou nada consagrados. Talvez, nesse rol, salva-se (e com justiça) o alferes de Cavalaria Joaquim José da Silva Xavier  Tiradentes , o mineiro que sonhou com a liberdade e morreu em seu nome.

Tiradentes deveria ser, de fato, o herói nacional, mas tal não acontece. Homenageiam-no, apenas, bordando sua efígie nos uniformes, as Polícias Militares, que o têm como patrono. A Inconfidência Mineira, por sua vez, é tratada em outros Estados, como em São Paulo da "nova" geração de historiadores revisionistas, como fato menor da história nacional. No Rio Grande do Sul, o italiano Garibaldi ocupa maior espaço na memória do povo e no calendário cívico do que qualquer brasileiro. Mesmo em Minas Gerais, o 21 de abril é mais um dia a ser emendado para o prazer de um feriado estendido, do que data reservada ao exercício da cidadania e do civismo.

Não fosse exigir demais, Sete Lagoas poderia fazer a diferença no Estado comemorando a Inconfidência a partir da presença, aqui, do alferes Tiradentes como comandante do Quartel do Sertão. Se há motivos históricos para tal, uma expressão do professor e jornalista Fernandino Júnior (quem não o conhece?) cria o espaço ideológico para que o sete-lagoano se integre às comemorações do 21 de abril. Escrevia ele na edição do dia 30 de novembro de 1930 do Jornal "Minas Central", ao se referir à "presença" de Tiradentes em nossa cidade: "Naquele tempo  quem sabe? , talvez o humilde soldado já acalentasse no espírito a ideia da liberdade da Pátria, que lhe valeu, anos depois, o sacrifício da própria vida".

Como o sete-lagoano não poderá contestar essa possibilidade, talvez possa adotá-la como legenda para a bandeira de seu civismo. 
 
Crédito pelo envio do editorial do Jornal Tribuna: Márcio Vicente Silveira Santos (1942-2019), advogado, jornalista, poeta, escritor e historiador que, mesmo antes de publicar seu livro "Tiradentes em Sete Lagoas" de 2010,  já tinha se envolvido com a História que inscreveu a cidade de Sete Lagoas no cenário da Inconfidência Mineira, com base em suas profundas pesquisas.   
 
 
Livro lançado em 2010, da autoria do jornalista, advogado, escritor e historiador Márcio Vicente Silveira Santos.

No meu breve recorte do cerne do livro acima, Tiradentes em Sete Lagoas (2010), o historiador Márcio Vicente comprova a presença do Alferes em Sete Lagoas, desde sua posse no comando do Quartel de Sete Lagoas (ou Quartel do Sertão) em 22 de abril de 1780 até 23 de junho de 1781, última data em que Tiradentes é mencionado como "Comandante do Sertão" e, por extensão, Comandante do Quartel de Sete Lagoas. Data de junho de 1780 o início da abertura da "picada" entre Sete Lagoas e Paracatu. Comprovam essa tese o livro de Tarquínio J.B. de Oliveira, Um Banqueiro na Inconfidência, 1957, p. 63 e duas cartas de Tiradentes a Dom Rodrigo José de Menezes, datadas de 18 e 25 de junho, lastreadas no livro de Jovelino Lanza, História de Sete Lagoas, 1967, p. 85. Ao examinar o histórico do destacamento de Tiradentes no Quartel do Sertão, Márcio Vicente concluiu que o Alferes foi incumbido, dentre outras, de três missões (a saber: defesa e segurança, cobrança dos impostos e combate ao contrabando), e de uma quarta: estabelecer nova via de comunicação de Sete Lagoas com Paracatu, "desobrigando os viandantes de um contorno geográfico que (para atingi-la) ia quase às fronteiras de São Paulo, no acesso aos Goiases", conforme Tarquínio J.G. de Oliveira, in Correspondência Ativa de João Roiz de Macedo, vol. II, p. 3. Essa ligação se justificava pela importância que a Vila de Paracatu vinha capitalizando desde 1744, quando ali teve início a exploração aurífera.
Fonte: capítulos intitulados Cronologia mínima, pp. 28-30, No comando das Sete Lagoas, pp. 99-113      
 


Livro lançado em 09/05/2019, idem

 

No meu breve recorte do cerne do livro acima, "Sete Lagoas, Século XVIII", o tema em tela é a importância do Registro, instalado no Arraial em 1762, como um dos principais entrepostos comerciais da Capitania de Minas, no século XVIII. "Passagem forçada para os currais da Bahia", como escreveu Waldemar de Almeida Barbosa no seu Dicionário Histórico-Geográfico de Minas Gerais, Sete Lagoas se destacava, no mapa econômico da Capitania, no século XVIII, por sua privilegiada posição geográfica. 
Resumidamente e de modo a trazer uma pequena notícia sobre a obra, veremos os principais tópicos tratados em dois capítulos extremamente importantes do referido livro por Márcio Vicente, quase ipsis litteris:
O Mapa da Capitania de Minas Gerais, levantado por José Joaquim da Rocha, em 1777, sugere o Registro de Sete Lagoas como ponto de confluência das Estradas Reais que, adentrando Minas pelo Norte, se encaminham para Vila Rica e Sabará. Ele também indica claramente que, para Sete Lagoas, procediam as estradas que cruzavam a Barra do Rio das Velhas ou, acompanhando a margem esquerda do Rio São Francisco, tinham como destino a área central de mineração. Outros autores que estudaram as vias de comunicação e abastecimento da Capitania, no século XVIII, são acordes no argumento de que "passava pelo Registro de Sete Lagoas o gado do Sertão Mineiro que abastecia o mercado da região mineradora da Capitania". Com o correr do tempo (e a intensificação do trânsito de pessoas e o crescimento das atividades de comércio), outros caminhos seriam abertos, cortavam Sete Lagoas ou tinham esse povoado como centro irradiador e de abastecimento das caravanas que penetravam o sertão ou se dirigiam às zonas de produção aurífera. Essa posição estratégica levou o historiador Angelo Carrara a classificar Sete Lagoas como "ponto de articulação entre os sertões e as minas gerais", como está consignado em seu extenso estudo e faz parte de seu livro-referência Minas e Currais - Produção Rural e Mercado Interno de Minas Gerais - 1674/1807.
O Arraial  que passou a ser sede de um Registro em 1762  era cortado por dois caminhos da maior importância para o comércio geral e a integração demográfica da região. O primeiro deles vinha de Sabará e passava por Santa Luzia, Lagoa Santa e Rezende, adentrando Sete Lagoas pelo Bairro da Várzea, onde começou o povoamento do núcleo urbano. O segundo, com início em Vila Rica, cruzava Palmital e Buritis, e chegava a Sete Lagoas pela Várzea.
De Sete Lagoas, duas estradas ligavam a centros de expressão econômica na Capitania. Uma, na direção Oeste, se dirigia à Vila de Pitangui. A outra, tomando o rumo Norte e, passando por Paga Bem Onça de Cima e Canabrava, chegava ao sítio do Falcão. Já o outro, a Oeste, passando por Bicudo, demandava o sítio das Pindaíbas. Nesse ponto, entroncava-se-se com a estrada que vinha de Pitangui e, passando por Andrequicé, procurava a direção da Passagem do Espírito Santo, no São Francisco. Atravessando o rio pouco antes da foz do Abaeté, no sentido Noroeste, o destino é Paracatu.
Vale notar que, numa segunda travessia do São Francisco, o caminho vindo de Sete Lagoas funde-se com o originado em São João del-Rei.
A mencionada estrada Sete Lagoas-Curvelo, que levava à região dos diamantes, foi cognominada de "O quinto caminho" pelo professor sete-lagoano Alfredo Valadares.
Sobre a picada de Paracatu, objeto do seu primeiro livro, Márcio Vicente indaga: "Se realmente construída, não  teria a estrada aberta por Tiradentes importância estratégica ou econômica capaz de merecer seu registro?" Outra indagação pode ser alinhada em busca de esclarecimento para a questão: Quais "providências" vinham sendo "dadas" por Tiradentes "a respeito do novo caminho", conforme alude carta a ele remetida pelo Governador? Certamente, a resposta estaria nas cartas de 18 e 23 de junho de 1780. Informa o autor que, embora tenha empreendido intenso trabalho de pesquisa nos registros do Arquivo Público Mineiro, em 2010, não localizou esses documentos. Da mesma forma, a história de Paracatu não faz referência à construção de qualquer estrada a cargo de Tiradentes, citando três "clássicos" da historiografia do Município, que silenciam a respeito do tema.
Como resposta possível à pergunta central  Qual seria o traçado do caminho aberto por Tiradentes? , deve o autor buscar abrigo na expressão cunhada por Carlos Cunha Correia em seu livro Serra da Saudade de 1948: "... isso é problema que continua em equação histórica, desafiando a paciência beneditina dos que se dispõem a enfrentar a poeira dos arquivos".
(Fonte: capítulos intitulados Sete Lagoas, "boca" do sertão e A picada de Paracatu, pp. 104-112)
 
II. MEMORIAL TIRADENTES em Sete Lagoas, projeto de Márcio Vicente Silveira Santos como encarte do Jornal Tribuna.



 




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Obs.: Com ligeiras modificações, este encarte do Jornal Tribuna constou do livro Tiradentes em Sete Lagoas (2010) de Márcio Vicente Silveira Santos, pp. 241-245.
 
 
III. AGRADECIMENTO 

 
À minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação do registro fotográfico utilizado neste trabalho e pela edição das imagens. 

 
 
IV. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 


BRAGA, F. J. S.: Colaborador: MÁRCIO VICENTE SILVEIRA SANTOS, matéria publicada no Blog de São João del-Rei em 22/08/2017
 
JORNAL TRIBUNACulto aos Heróis, in suplemento ESPECIAL TIRADENTES, Editorial da edição nº 748, de 21 de abril de 2012, pp. 7-10.

SILVEIRA SANTOS, Márcio Vicente: Tiradentes em Sete Lagoas, matéria publicada no Blog de São João del-Rei em 22/08/2017

________________________________: Tiradentes na História de Sete Lagoas, matéria publicada no Blog de São João del-Rei em 29/03/2023

________________________________:  São João, matéria publicada no Blog de São João del-Rei em 26/01/2018
 
____________________________: Tiradentes no sertão, publicado na revista Memória Cult,  Ouro Preto, Ano I, nº 3, abril de 2011, pp. 34 e 35.
 
____________________________: Tiradentes em Sete Lagoas - Um mergulho na História que inscreve a Cidade no cenário da Inconfidência Mineira, Sete Lagoas: Tip. Kosmos, 2010, 245 p.   
 
____________________________: Sete Lagoas, Século XVIII - O Registro e as Estradas Reais: Centralidade e Convergências na Capitania de Minas, Sete Lagoas: Edições Instante, 2019,  235 p.