sexta-feira, 10 de julho de 2026

Na morte de JOSÉ VAN DEN BESSELAAR

 
Por FRITS SMULDERS *

Transcrevemos, com a devida vênia da revista COLÓQUIO/Letras. Letras em Trânsito, matéria publicada no nº 125/126, Jul. 1992, p. 336.
 
A 20 de Junho de 1991 faleceu com a idade de 75 anos, na cidade de Nijmegen, onde residia, o lusitanista holandês José van den Besselaar. Com uma obra conhecida tanto em Portugal como no Brasil, o seu nome será o mais das vezes associado, e com razão, ao estudo da obra de António Vieira. Contudo, o investigador assinou dezenas de publicações em numerosas outras áreas. 
José van den Besselaar nasceu a 17 de Março de 1916 em Valkenswaard, no Sul da Holanda. Em 1940, já durante a ocupação alemã, formou-se em Estudos Clássicos na Universidade de Nijmegen. A tese de doutoramento  sobre o monge e político romano Cassiodorus Senator  estava pronta em 1943, mas teve de esperar o fim da guerra para ser defendida. As suas publicações dos anos seguintes mostram-no um defensor dos Estudos Clássicos. Traduz sermões de, entre outros, Leandro de Sevilha e Martinho de Braga, e escreve um desenvolvido curso de Grego. 
Em 1950, toma uma resolução que seria decisiva na sua vida: parte para o Brasil, com o propósito de ensinar línguas clássicas numa colônia holandesa de São Paulo. O fim de sua estada de onze anos no Brasil vê-lo-ia catedrático de Filologia Latina em Assis, após uma carreira de docente de línguas clássicas noutras universidades. Data de 1956 a publicação de uma Introdução aos Estudos Históricos ¹, que viria a ter em 1980 quinta edição. Esta obra metodológica teve continuação, ainda nos anos 50, nos dois volumes de As Interpretações da História através dos Séculos. A esta mesma época se reporta um curso de morfologia e sintaxe latina, Propylaeum Latinum ² (São Paulo, 1961). A sua expressão em língua portuguesa já então prima por notória transparência e propriedade, qualidades que haverão de intensificar-se. 
De regresso à Holanda, José van den Besselaar torna-se o primeiro docente de língua e literatura portuguesa da Universidade de Nijmegen. Catedrático em 1967, pronuncia uma lição inaugural sobre "António Vieira e a Holanda", publicada em 1971 na Revista da Universidade de Lisboa. Seguem-se inúmeras publicações de interesse clássico ou relativas a temas brasileiros e, cada vez mais, portugueses. Ficará célebre o vasto estudo Brazilië: ontwakende reus in de tropen (Brasil: Gigante que Desperta nos Trópicos), de 1963, que viria a conhecer em seguida duas edições alemãs. O vivo interesse pelo Brasil e a capacidade de olhá-lo de perto animam o autor a não ocultar, onde necessário, aspectos incômodos da sua experiência brasileira. 
António Vieira vai ocupar, desde então, intensamente Van den Besselaar. E não só Vieira  o escritor, o diplomata, o missionário, o teólogo, o militante social  como também o mundo em que estava imerso, particularmente o do profetismo, temática que sobre todas o atrai. O melhor de si põe-no na prestigiosa edição da História do Futuro (Münster, 1976). O primeiro volume contém o texto do "Livro Anteprimeiro', com aparato crítico e uma introdução histórico-textual. O segundo é um extenso comentário onde o excelente conhecedor da antiguidade latina e cristã localiza exaustivamente fontes e referências de Vieira. Deste estudo sairá mais tarde, em 1983, uma editio minor, aos cuidados da Biblioteca Nacional de Lisboa. Para público menos especializado, escreveu ainda o volume da Biblioteca Breve António Vieira: o Homem, a Obra, as Ideias, com que pretende prosseguir a obra, que aliás admira, de João Lúcio de Azevedo, a impressionante História de António Vieira
A sua actividade universitária, encerrou-a em 1984 com uma última lição que intitulou "Bandarra, Sapateiro e Profeta de Trancoso". Aí afirmava:
O profetismo é uma tentativa de dar sentido à história dum povo ou da humanidade. Sempre me interessou examinar como é que essa tentativa tomou forma na história cultural do Ocidente.
E o crente José van den Besselaar finalizava:
Desejo terminar esta lição com uma variante a uma afirmação de Vieira. Passando a vista sobre o que foi a minha vida, acho nela razões para rir ou para chorar, para me espantar ou para me embravecer, mas sobretudo para estar grato a Deus por todo o bem que me deu. Com o subir dos anos, cresce de fato o meu convencimento de que quase tudo numa vida humana é graça, bem pouco mérito próprio.

 

* Editor, nasceu em 1959. Estudou Português e Direito Internacional na Universidade Católica de Nijmegen e Direito Holandês na Universidade Católica de Tilburg. Autor da tese de doutoramento apresentada à Universidade Católica de Nijmegen, Holanda, intitulada ANTÓNIO VIEIRA: Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda, que teve como orientador José van den Besselaar e com a qual obteve o grau de doutor. Trabalhou como tradutor e revisor para a União Europeia em Bruxelas e, atualmente, ocupa um cargo de gestão no Instituto Europeu de Pesquisa Ferroviária da União Internacional de Ferrovias, em Utrecht, nos Países Baixos.

 
 
II. NOTAS EXPLICATIVAS do gerente do Blog
 
¹ Possuo a 4ª edição revista e ampliada (São Paulo: EDUSP, 1974, 340 p.) 

² Possuo o Propylaeum Latinum (São Paulo: Editora Herder, 1960) que se compõe de dois volumes: o primeiro (abrangedo a sintaxe latina superior com 442 páginas) e o segundo, leitura-exercícios-vocabulário com 304 páginas. Nesta obra, Besselaar adaptou uma vertente germânica da gramática latina tradicional e utiliza noções e procedimentos oriundos da linguística histórico-comparativa para a didática do Latim.

 

III. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

 

BECCARI, Alessandro: José van den Besselaar (1916-1991) e seu Propylaeum Latinum, Curitiba: Revista Letras, UFPR, nº 104, pp. 125-144, jul/dez 2021
Link: https://revistas.ufpr.br/letras/article/view/80236/45501

BRAGA, Francisco J.S.: A MESTRA DA VIDA, texto retirado do capítulo VI do livro Introdução aos Estudos Históricos, 4ª edição, São Paulo: EDUSP, 1974, pp. 103-114 e publicado no Blog de São João del-Rei, em 24/01/2024
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2024/01/a-mestra-da-vida.html

FREIRE, José Geraldes: In memoriam de José van den Besselaar (1916-1991), in NOTÍCIAS E COMENTÁRIOS - Universidade de Coimbra (disponível na Internet)

SMULDERS, Frits: Na Morte de José van den Besselar, in Revista Colóquio | Letras. Letras em Trânsito, nº 125/126, Jul 1992, p. 336.

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

ADEUS, DONA NÍDIA, AUTORA DE VERSOS IMORTAIS!


Por Fagner Dias *
 
Nídia Maria da Costa Reis (✰ Prados-MG,  21/11/1932 ✞ 24/04/2026) 

 
Dona Nídia fez sua última e mais longa viagem. Partiu para morar no céu, em sua derradeira jornada mais longa até do que aquela que a levou a Paris, à lendária faculdade parisiense, a Sorbonne.
 
Foi-se, porque não há outro caminho, nem outro destino: é preciso ir ao encontro do Criador. 
 
Após quase um século de vida, Dona Nídia que foi filha, irmã, esposa, mãe, avó encerra na terra os versos de uma linda história. Fez uma pausa em suas rimas, mas não no legado que deixa.
 
Gravou seu nome na história. Com seus versos, contou a história de Prados, que o também saudoso Paulo de Carvalho Vale mandou cunhar em bronze e, no alto do Cruzeiro, imortalizou em uma placa histórica. 
 
Agora, livre das mazelas que a idade avançada lhe trouxe, Dona Nídia recebe de Deus o prêmio reservado aos bons e aos justos.
 
As Escrituras dizem que no céu há uma festa que nunca se acaba. E, com sua poesia e seus versos que em vida encantaram a todos nós, Dona Nídia agora há de fazer um sarau no céu. 
Uma lady, uma grande dama, de lenços e broches: assim nos lembraremos de Dona Nídia na escola, na igreja, na música, na poesia, em Prados, em nossas casas, em nossas memórias e na história da cidade.
 
Na despedida de Dona Nídia Costa Reis todos nós, tornamos-nos um pouco mais pobres , carentes de requinte, de beleza  de nobreza pois Dona Nidia foi sinônimo e referência de tudo isso e Prados tem essa dívida de gratidão por ela em sua memória. 
 
E, quando formos a Paris, lembraremos desta senhora que soube, ao longo da vida, escrever uma história tão linda. 
 
E entre os seus versos escreveu também o Hino de Prados com uma inspiração divinal.
 
“Galopa, a vida... é para o céu que nós vamos.” 
 
 
II. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 

 
ALVES E COSTA, Átila: Colaborador na Biografia de Antônio Américo da Costa, publicada no Blog de São João del-Rei em 6/01/2020
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2020/01/colaborador-atila-alves-e-costa.html

BRAGA, Francisco J.S.: A PORFIA DAS FLORES, OPERETA DE ANTÔNIO AMÉRICO DA COSTA, texto publicado em 7/01/2020
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2020/01/a-porfia-das-flores-opereta-de-antonio.html

_____________________: NÍDIA MARIA DA COSTA REIS, EDUCADORA E ESCRITORA PRADENSE, texto publicado em 30/04/2021
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2021/04/nidia-maria-da-costa-reis-educadora-e.html 

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

CAROLINA


Por Raquel Naveira *
 
Machado de Assis e Carolina Augusta Xavier de Novais - Crédito: Itaú Cultural


Observo as fotografias de Carolina. Carolina Augusta Xavier de Novaes, a esposa de Machado de Assis. Vestido escuro, austero, todo fechado. Cabelos pretos, presos em coque. Bonita sim. Séria. Quem teria sido essa mulher que viveu por décadas ao lado do escritor? Era portuguesa, irmã do poeta Faustino Xavier de Novaes, amigo de Machado. Culta, forte, inteligente, oriunda de uma elite intelectual. O namoro com Machado foi, a princípio, reprovado pela família. Ele era mulato e humilde. Seria um rebaixamento cultural. Uma vida de dificuldades financeiras. Mas os apaixonados insistiram, trocaram inúmeras cartas, cheias de declarações amorosas como esta: “Carolina, tu pertences ao pequeno número de mulheres que ainda sabem amar, sentir e pensar. Além disso, tens para mim um dote, que realça os demais: sofreste.” Que sofrimento ela teria passado? Uma decepção amorosa em terras lusitanas? Afinal, Carolina tinha 32 anos quando se casou. Cinco a mais do que Machado. Permanece o mistério. 
 
O certo é que ela foi companheira na vida e na arte. Nada era publicado antes do seu aval, da sua leitura atenta, da sua revisão ao passar os textos do marido a limpo. Foi ela que o apresentou aos autores portugueses, ingleses e clássicos. Amava os romances de Jane Austen e das irmãs Brontë. Era caprichosa com a casa, com o arquivamento dos livros e dos papéis. Carolina deu a Machado a estabilidade emocional necessária para o desenvolvimento de uma extensa obra literária. Era desembaraçada, falante. Transitava bem entre os colegas escritores. Nas crises de epilepsia de Machado, era ela quem o socorria, afastava-o dos olhares curiosos, enxugava o suor de sua testa e a espuma de sua boca. O casal não teve filhos, o que os entristecia. Mas viviam intensamente um para o outro. Machado escreveu: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” 
 
A morte de Carolina em 1904 foi um duro golpe para Machado, que viveu seus últimos dias terrivelmente abatido. Escreveu a Joaquim Nabuco: “Foi-se a melhor parte da minha vida, aqui estou só no mundo. Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la... mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada.” Nessa mesma ocasião, vem a lume o soneto “A Carolina”, uma peça comovente:
 
Querida, ao pé do leito derradeiro, 
Em que descansas dessa longa vida, 
Aqui venho e virei, pobre querida, 
Trazer-te o coração do companheiro. 
 
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro 
Que a despeito de toda a humana lida 
Fez a nossa existência apetecida 
E num recanto pôs o mundo inteiro. 
 
Trago-lhe flores, restos arrancados 
Da terra que nos viu passar unidos 
E ora mortos nos deixa e separados. 
 
Que eu se tenho olhos malferidos 
Pensamentos de vida formulados, 
São pensamentos idos e vividos. 
 
Imaginei-me na pele de um leitor anônimo relembrando a figura de Carolina, os passos de Machado. Surgiu este poema: 
 
Muitas vezes os vi 
No Cosme Velho, 
Na casa mergulhada em árvores, 
Rosas e murtas, 
Carolina vestida de preto, 
Machado olhando o regato, 
Partilhando o silêncio e as borboletas. 
 
De manhã, 
O rosto dele, 
Franzino e mulato, 
Ficava ao centro da janela, 
Debruçado sobre papéis avulsos, 
Ora observava os retratos, 
Ora os formatos das letras. 
 
Depois caminhava pela rua do Ouvidor, 
Entre alfaiates, 
Floristas, 
Joalheiros, 
Cumprimentando a todos, cortês, 
Chegava à livraria Garnier 
Em busca de um livro francês. 
 
Estava na repartição, 
No gabinete, 
Nos jantares, 
Nas reuniões, 
Sempre com sua ironia tranquila, 
Cheio de piedade 
Por vítimas e algozes. 
 
Seu cotidiano, 
Presenciei, 
Era simples e burguês, 
Mas da mente saíam crisálidas, 
Falenas, 
Vermes que roíam cadáveres 
Em ressacas de pessimismo. 
 
Assisti ao calvário de sua doença: 
A ausência, 
A boca amarga, 
A crise de nervos, 
Como se Netuno 
Com seu tridente 
Abalasse suas carnes de vulcão. 
 
Estava perto 
Naquele domingo 
Quando ele saltou do bonde 
Segurando flores, 
Em direção ao cemitério, 
Ao túmulo de Carolina, 
Ao leito derradeiro 
Da amada compreensiva e boa. 
 
Fui eu o leitor anônimo 
Que lhe fez a última visita 
Bati na porta, 
Abriram, 
Conduziram-me até ele, 
Ajoelhei-me, 
Tomei sua mão de mestre, 
Beijei-a 
E pensei: 
“Sou o filho que não tiveste, 
Aquele a quem deixaste teu legado: 
Teus livros, teu encanto 
E a compreensão de nossa miséria”.
 
* Graduada em Direito e em Letras pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/SP. Doutora em Literatura Portuguesa pela USP. Ministrou ainda disciplinas de Literaturas Brasileira, Portuguesa, Latina, por 31 anos na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), onde se aposentou. Depois disso, no período que morou em São Paulo, deu aulas de Pós-Graduação em várias Universidades e em aparelhos culturais como Casa das Rosas, Casa Mário de Andrade, Casa Guilherme de Almeida e PEN Clube do Brasil. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, onde ocupa a Cadeira nº 8, à Academia Cristã de Letras de São Paulo e ao PEN Clube do Brasil. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, onde ocupa a Cadeira nº 8, à Academia Cristã de Letras de São Paulo e ao PEN Clube do Brasil. Como escritora, é autora de quase 40 livros publicados. 
 
II. AGRADECIMENTO 

À minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação do registro fotográfico utilizado neste trabalho.  

sexta-feira, 1 de maio de 2026

O NASCIMENTO DA CRÔNICA ¹

Por MACHADO DE ASSIS
 
I
 
Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! que desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outros sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e la glace est rompue ²; está começada a crônica. 
Mas, leitor amigo, esse meio é mais velho ainda do que as crônicas, que apenas datam de Esdras. Antes de Esdras, antes de Moisés, antes de Abraão, Isaac e Jacó, antes mesmo de Noé, houve calor e crônicas. No paraíso é provável, é certo que o calor era mediano, e não é prova do contrário o fato de Adão andar nu. Adão andava nu por duas razões, uma capital e outra provincial. A primeira é que não havia alfaiates, não havia sequer casimiras; a segunda é que, ainda havendo-os, Adão andava baldo ao naipe ³. Digo que esta razão é provincial, porque as nossas províncias estão nas circunstâncias do primeiro homem. 
Quando a fatal curiosidade de Eva fez-lhes perder o paraíso, cessou, com essa degradação, a vantagem de uma temperatura igual e agradável. Nasceu o calor e o inverno; vieram as neves, os tufões, as secas, todo o cortejo de males, distribuídos pelos doze meses do ano. 
Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas. Essas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta, para debicar  os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastimar-se do calor. Uma dizia que não pudera comer ao jantar, outra que tinha a camisa ensopada do que as ervas que comera. Passar das ervas às plantações do morador fronteiro, e logo às tropelias amatórias do dito morador, e ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo. Eis a origem da crônica. 
Que eu, sabedor ou conjeturado de tão alta prosápia , queira repetir o meio de que lançaram mão as duas avós do cronista, é realmente cometer uma trivialidade; e contudo, leitor, seria difícil falar desta quinzena  sem dar à canícula o lugar de honra que lhe compete. Seria; mas eu dispensarei esse meio quase tão velho como o mundo, para somente dizer que a verdade mais incontestável que achei debaixo do sol, é que ninguém se deve queixar, porque cada pessoa é sempre mais feliz do que outra. 
Não afirmo sem prova. 
Fui há dias a um cemitério, a um enterro, logo de manhã, num dia ardente como todos os diabos e suas respectivas habitações. Em volta de mim ouvia o estribilho geral:  Que calor! que sol! é de rachar passarinho ! é de fazer um homem doido! 
Íamos em carros; apeamo-nos à porta do cemitério e caminhamos um longo pedaço. O sol das onze horas batia de chapa em todos nós; mas sem tirarmos os chapéus, abríamos os de sol  e seguíamos a suar até o lugar onde devia verificar-se o enterramento. Naquele lugar esbarramos com seis ou oito homens ocupados em abrir covas: estavam de cabeça descoberta, a erguer e fazer cair a enxada. Nós enterramos o morto, voltamos nos carros, e daí às nossas casas ou repartições. E eles? Lá os achamos, lá os deixamos, ao sol, de cabeça descoberta, a trabalhar com a enxada. Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres diabos, durante todas as horas quentes do dia?
 
II 
 
Para fazer alguma diversão ¹aparece uma mulher que se traspassa, tal qual a mais ínfima taberna. A diferença é que a taberna traspassa-se por meio de uma escritura e a mulher por meio de uma espada. Antes a escritura.
Não vi ainda essa dama, que achou meio de fazer do próprio pescoço uma bainha e suicidar-se uma vez por noite, antes de tomar chá. Já vi um sujeito que engolia espadas; vi também uma cabeça que fazia discursos, dentro de um prato, em cima de uma mesa, no meio de uma sala. O segredo da cabeça descobri-o eu, no fim de dois minutos; não assim o do engole-espadas. Mas, tenho para mim, que ninguém pode engolir uma espada, nem quente nem fria (ele engolia-as em brasa), e concluo que algum segredo havia, menos acessível ao meu bestunto 
¹¹.
Não digo com isto que a dama da rua da Carioca deixe de cravar efetivamente uma espada no pescoço. É mulher e basta. Há de ser ciumenta, e adquiriu essa prenda, na primeira cena de ciúmes que teve de representar. Quis matar-se sem morrer, e bastou o desejo para realizá-lo; de maneira que aquilo mesmo que me daria a morte, dá a essa senhora nada menos do que vida. A razão da diferença pode ser que esteja na espada, mas eu antes creio que está no sexo.
Anda no Norte um colono, um homem que faz coisas espantosas. No Sul apareceu um menino mulher. Todos os prodígios vieram juntar-se à sombra de nossas palmeiras: é um rendez-vous 
¹² das coisas extraordinárias.
Sem contar os tufões. 
 
III 
 
Falei no cemitério, sem dizer que a esta hora ou pouco mais tarde, terá o leitor de ir à visitação dos defuntos.
A visitação dos defuntos é um bom costume católico; mas não há trigo sem joio; e a opinião do Sr. Artur Azevedo é que, na visitação, tudo é joio sem trigo.
A sátira publicada por esse jovem escritor é um opúsculo, contendo umas quantas centenas de versos, fáceis e correntios, com muito pico 
¹³, boa intenção, catanada ¹ cega e às vezes cega demais. A ideia do poeta é que há ostentação repreensível na demonstração de uma piedade ruidosa. Tem razão. Há excesso de vidrilhos e candelabros, de souvenirs e de inconsoláveis. Alguns quadros estão pintados com traços tão espantosos, que fazem recuar de horror. Será certo que se tomam nos cemitérios aquelas carraspanas ¹, que se comem aqueles camarões torrados? O poeta o diz; e se o colorido pode estar carregado, o desenho deve ser fiel. Na verdade é de fazer pedir uma reforma nos costumes, ou a eliminação... dos vivos.
Onde o poeta me parece ter levado a sátira além da meta, é no que diz da viúva que, convulsa de dor pela morte do marido, vem a casar um ano depois. Hélas! 
¹ Isso que lhe parece melancólico, e na verdade o é, não deixa de ser necessário e providencial. A culpa não é da viúva, é da lei que rege esta máquina, lei benéfica, tristemente benéfica, mediante a qual a dor tem de acabar, como acaba o prazer, como acaba tudo. É a natureza que sacrifica o indivíduo à espécie.
O poeta é favorável ao sistema da cremação. A cremação tem adversários, ainda fora da igreja; e até agora não me parece essa imitação do antigo seja uma alta necessidade do século. Pode ser higiênico; mas no outro método parece haver mais piedade, e não sei se mais filosofia. Numa das portas do cemitério do Caju, há este lema: Revertere ad locum tuum
¹Quando ali vou, não deixo de ler essas palavras, que resumem todo o resultado das labutações da vida. Pois bem; esse lugar, teu e meu, é a terra, a terra donde viemos, para onde iremos todos, alguns palmos abaixo do solo, no repouso último e definitivo, enquanto a alma vai a outras regiões.
No entanto, parabéns ao poeta. 
 
IV 
 
Se eu disser que a vida é um meteoro, o leitor pensará que vou escrever uma coluna de filosofia, e eu vou apenas noticiar-lhe o Meteoro, um jornal de 8 páginas, que inscreve no programa: "O Meteoro não tem pretensões à duração."
Bastam essas quatro palavras para ver que é jornal de espírito e senso. Geralmente, cada folha que aparece promete, pelo menos, três séculos e meio de existência, e uma regularidade cronométrica. O Meteoro nem promete durar, nem aparecer em dias certos. Virá quando puder vir.
Variado, gracioso, interessante, em alguns lugares, sério e até científico, o Meteoro deixa-se ler sem esforço nem enfado. Pelo contrário; lastima-se que seja meteoro e deseja-se-lhe um futuro de planeta, pelo menos que dure tanto como o planeta em que ele e nós habitamos.
Planeta, meteoro, duração, tudo isso me traz à mente uma ideia de um sábio francês moderno. Por cálculos que fez, é opinião dele que de dez em dez mil anos, haverá na terra um dilúvio universal, ou pelo menos continental, por motivo do deslocamento dos oceanos, produzido pelo giro do planeta.
Um dilúvio periódico! Que será feito então da imortalidade das nossas obras? Salvo se puserem na arca 
¹ um exemplar das de todos os poetas, músicos e artistas. Oh! mas que arca não será essa! Se não temesse uma vaia, diria que será arcabuz ¹
MANASSÉS 
 
II. GLOSSÁRIO por Francisco José dos Santos Braga
 
¹  Machado de Assis assinou com o heterônimo "Manassés" a crônica dentro da seção intitulada "História de quinze dias" (dedicada à política, cultura e variedades), publicada na revista quinzenal Illustração Brasileira em 1º de novembro de 1877, edição nº 33, pp. 142 e 143. Colaborou com 37 crônicas de 1º de julho de 1876 a 1º de janeiro de 1878. Quando a revista se tornou mensal, em fevereiro de 1878, a coluna passou a se chamar "História de Trinta Dias", sendo publicada até o último número da revista, em abril desse ano, totalizando 3 colaborações. Portanto, foram ao todo 40 colaborações.
Essa crônica pode ser localizada no portal do MEC que dispõe de toda a obra machadiana devidamente digitalizada.
2  Trad.: "O gelo foi quebrado", significando que está havendo uma aproximação e diálogo entre entre o emissor e o receptor.
³ Expressão que veio do jogo de cartas, onde "baldo" (proveniente de baldado=falto) significa não ter cartas de um determinado naipe. A partir daí, ganhou o sentido de não "ter cartas na manga", ou seja,  estar totalmente sem dinheiro ou meios para fazer algo.
⁴ Caçoar ou zombar de algo ou de alguém.
⁵ Ardis, artimanhas, truques.
Vaidade, ostentação. 
A revista Illustração Brasileira era publicada quinzenalmente. 
⁸ Expressão que denota que está demasiadamente quente a ponto de tostar ou assar um passarinho. 
⁹ Guarda-chuvas. 
¹Mudança de rumo ou atenção. 
¹¹  Cabeça, cérebro. 
¹²  Encontro marcado.
¹³  Graça, chiste. 
¹⁴ Repreensão severa (fig.). 
¹⁵ Bebedeiras
¹Infelizmente, ai de mim. 
¹⁷ Volta para o lugar donde vieste. 
¹⁸ Aqui relembra a Arca de Noé. 
¹Aqui Machado utiliza um tipo de assonância com o objetivo de sugerir que a "arca" é para "todas as coisas" em latim. Assim, temos arca + (omni)bus = arcabuz, que é uma arma de fogo portátil primitiva.
 
III. BREVE ANÁLISE LITERÁRIA DA CRÔNICA por Francisco José dos Santos Braga
 
Contexto: Escreve Leonardo Affonso de Miranda Pereira, organizador do livro História de Quinze Dias, e autor da introdução e notas: "Em julho de 1876, pouco depois de completar 37 anos, Machado de Assis assumia mais um desafio literário: a redação de uma série de crônicas quinzenais, para a qual deu o título de "História de quinze dias". Fazia-o a partir do primeiro número da revista Illustração Brasileira, elegante novidade que se apresentava naquele mês aos leitores do Rio de Janeiro. Como era costume entre os cronistas do período, não punha seu próprio nome em tais escritos, preferindo assiná-los com um pseudônimo. Em meio às incertezas que marcavam aquela década, tratava de oferecer ao público uma leitura do tempo, organizado na história proposta por sua narrativa quinzenal", escreve Pereira na abertura da Introdução [p. 9].
Esta crônica é conhecida especialmente por sua metalinguagem, na qual o autor, usando o heterônimo Manassés, reflete sobre a origem do gênero crônica, simulando uma conversa sobre o calor entre duas vizinhas, algo constatável através do uso do exemplo mais banal possível pelo cronista: a conversa entre duas vizinhas. “Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas,” enuncia o eu da crônica. Claro, trata-se de uma observação irônica de Machado, que atribui à fofoca a origem do gênero literário, uma das "sacadas" geniais do "bruxo do Cosme Velho".
(Obs.: Na metalinguagem, faz-se referência à própria linguagem utilizada para transmitir um discurso. Assim, é o uso do meio de comunicação pelo autor para falar de si próprio, podendo apontar inclusive para suas próprias características, que podem ser reais ou fictícias.)

Estrutura: O texto da crônica de 1877 é composto por quatro blocos, sendo o primeiro focado na metalinguagem e os três seguintes menos conectados ao primeiro, embora foquem na temática de morte e enterro.

Protagonista: O eu da crônica afirma que há uma forma correta para se começar uma crônica: por meio de uma trivialidade, ou seja, o calor. Em seguida, ele cita alguns exemplos que confirmam o seu ponto de vista. Primeiro, o eu do cronista cita Adão e Eva, alegando que, quando Eva nos fez perder o paraíso, veio o calor e tudo mais que norteia o nosso cotidiano, como tufões, seca, etc. Depois, foi a vez das duas primeiras vizinhas que, ao iniciarem uma conversa trivial, após uma refeição, certamente falaram do calor, entre outras coisas. Neste caso, Manassés não se importa com  o elemento histórico da origem da crônica, mas sim enfatizar 
o aspecto do novo e do cotidiano das notícias que chegam ao conhecimento das duas vizinhas que, na sua opinião, dão origem à crônica. Por fim, o eu do cronista vai a um cemitério, onde todos reclamam do calor, menos os coveiros responsáveis por abrir e por fechar as covas, sob o sol escaldante, sem se queixarem da sua sina. Terminada a cerimônia, os homens que abrem covas são deixados lá sob o sol, enquanto todos voltam nos carros, e daí às suas próprias casas ou repartições. "Lá os achamos, lá os deixamos, ao sol, de cabeça descoberta, a trabalhar com a enxada. Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres diabos, durante todas as horas quentes do dia?", enuncia o eu da crônica.
 
IV. ANÁLISE PSICOLÓGICA DA CRÔNICA
 
Achei curiosa e interessante a análise da crônica sob o prisma psicológico da Associação Junguiana do Brasil, que a Internet oferece com o título "O nascimento da crônica (Machado de Assis) - Intervenções". Cada um dos "interventores" dão sua breve análise da crônica com base em sua profissão de psicoterapeutas. 
 
Acaci Alcântara: Comecemos por personagem da crônica.....
Quem é o personagem desta crônica? O Sol e suas emanações? Ele é quem deve ser personificado, pelo menos para mim é o que parece. Ele é o perene, permeia a crônica 
 do começo ao fim. Torra "os miolos" ontem no escrito e hoje na vida real. Clamamos por um ar condicionado. É personagem das sessões de análise. É uma luz que se apresenta de forma devastadora. O que é feito dos processos que precisam de pouca luz e umidade? Será que você, caro Machado, já aludia sobre os novos tempos onde o que tem valor é o que brilha na luz escaldante? Algo que não é suportável, somos despreparados para enfrentar pois nos apresentamos de casaca sob um calor insuportável! Quem morreu? A capacidade de nos indignarmos e procurarmos abrigo da luz cegante do mundo. Ainda bem que o consultório do analista pode ser um abrigo.

Roque Tadeu Gui: Penso sobre como deve ter-se originado a crônica de M.A. Talvez pelo final. Bem que nosso autor pode ter ido a um enterro de algum amigo ou conhecido. Ou, quem sabe, não foi, mas alguém que foi lhe contou sobre a adversidade de ir a um sepultamento numa tarde de intenso calor. Seja como for, o autor assume a experiência como sua. As vestimentas, de acordo com a ocasião, mas em desacordo com o clima. Machado (ou quem lhe narrou a cena) sentia calor, quase sufocado em sua casaca. Assis e seus acompanhantes sequer tiram os chapéus, cuidando sim de abrir "os de sol" (guarda-chuvas, diríamos). Se Assis lá não esteve, então, esse detalhe foi livremente ficcionado. Faz parte da arte do cronista.
Nosso autor sente o calor escaldante e pensa na vida dura dos que trabalham sob o sol, sem poder se abrigar. Julga-se mais feliz do que aqueles pobres trabalhadores. Daí a sua tese/"a verdade mais incontestável que achei debaixo do sol é que ninguém se deve queixar, porque cada pessoa é sempre mais feliz do que outra".
A sensação do calor escaldante, a forte impressão sobre a dureza do trabalho braçal sob o sol, a reflexão sobre o privilégio de não ter que realizar tal trabalho extenuante, culmina na intuição de que /isso dá uma crônica!/
A partir desse momento a crônica está pré-escrita. O autor terá apenas que encontrar os recursos adequados para escrevê-la em definitivo. Terá que arquitetar uma "lenga-lenga" literária, com qualidades estéticas convincentes, para conduzir o leitor a compartilhar das sensações, impressões e reflexões que o autor teve naquela tarde ensolarada. E, assim, nascerá uma crônica.

Áurea Christina: Inicialmente, fiquei impregnada, desde as primeiras palavras de Assis, com a idéia da rotina diária do trabalho do psicoterapeuta. A reação, por mim constelada, foi essa: a lembrança de como é comum, o “sinal de largada” da crônica diária de meus clientes, o ato de tecer comentários sobre o clima ou sobre os problemas do trânsito na cidade. Imagino que, no tempo de Machado, o tráfego não seria um problema, mas com certeza, o calor escaldante do Rio de Janeiro sim. Ainda mais, se levarmos em conta, a inadequação das roupas europeias usadas naquela época. Neste momento, me veio à mente o conceito de persona de Jung: a imagem dessas vestimentas copiadas do velho mundo, inadequadas pra um país tropical como o Brasil, e talvez consideradas, na época, como as mais apropriadas e “respeitosas” para uma homenagem sincera, em um ritual de velório e sepultamento. Finalmente, para mim, os personagens e caracteres são quase infinitos porque representam os anônimos que tanto nos oferecem suas histórias e que vão transformando, não somente nossa vida pessoal, como o coletivo também.

Camila Maciel Polônio: O sol, aquele que nasce e morre todos os dias. Um eterno ressurgir, às vezes escondido por trás das nuvens, outras vezes por trás da chuva e muitas aparições que nos agradam e incomodam. Esperamos do sol sempre a medida certa, aquela temperatura aprazível. Doce ilusão! Nossa inconsequência ao tratar com a natureza nos traz lástimas na espera de que alguém, um outro qualquer, nos salve dos miolos queimados. Quanta coincidência, não? Não seríamos como o sol? Nossos pacientes não trazem essa metáfora? Essas roupas inadequadas nos levam ao resultado desse calor tremendo em cada corpo. Como lidamos com nossa imagem e com nossa alma? Seria o sol um caminho para iluminar a escassez e os excessos? Quem será o nosso personagem principal?  
 
V. BIBLIOGRAFIA
 
ASSIS, Machado de: História de Quinze Dias (com organização, introdução e notas de Leonardo Affonso de Miranda Pereira), Campinas: Editora Unicamp, 2009, 303 p. 

domingo, 19 de abril de 2026

CULTO AOS HERÓIS


Por JORNAL TRIBUNA de Sete Lagoas


"O tirano morre e seu reinado termina, 
O mártir morre e seu reinado começa.
                              Søren Kierkegaard 
Transcrição do Editorial da edição nº 748, de 21 de abril de 2012, no suplemento ESPECIAL TIRADENTES, p. 7
O Blog de São João del-Rei dedica a reprodução deste histórico Editorial de 21 de abril de 2012 ao historiador sete-lagoano Márcio Vicente Silveira Santos, saudoso confrade no Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei. 
 
I. Editorial do Jornal Tribuna de Sete Lagoas, edição de 21/04/2012
 
O brasileiro  esta é uma crítica recorrente  não cultua seus heróis. Antes, aceita como "falha" de caráter e, depois, como decorrência natural da despolitização do povo, essa indiferença aos que deveriam ser "consagrados no altar da Pátria".  A exaltação é reduzida à expressão mais simples pela chamada "nova historiografia". Para ela, o Brasil não tem heróis. Os nomes que frequentam as páginas de nossos compêndios escolares e que passamos a conhecer e aceitar como realizadores de grandes feitos não teriam, portanto, aquela necessária dimensão arquetípica capaz de dar-lhes dimensão histórica.

Nessa vala comum, estariam sepultados Marechal Cândido Rondon, que expandiu nossas fronteiras, realizando obra de integração nacional; Deodoro da Fonseca, que partejou a República; Caxias, o gênio militar da espada a serviço da Pátria; Santos Dumont, que deu asas ao homem e encantou o mundo; Caneca, o frei político da Revolução Pernambucana e da Confederação do Equador; Zumbi, o rebelde libertário de Palmares; e, no coletivo, os "pracinhas" da FEB, que derramaram seu suor, seu sangue e suas lágrimas na Itália durante a II Guerra Mundial. E há tantos outros lembrados e pouco ou nada consagrados. Talvez, nesse rol, salva-se (e com justiça) o alferes de Cavalaria Joaquim José da Silva Xavier  Tiradentes , o mineiro que sonhou com a liberdade e morreu em seu nome.

Tiradentes deveria ser, de fato, o herói nacional, mas tal não acontece. Homenageiam-no, apenas, bordando sua efígie nos uniformes, as Polícias Militares, que o têm como patrono. A Inconfidência Mineira, por sua vez, é tratada em outros Estados, como em São Paulo da "nova" geração de historiadores revisionistas, como fato menor da história nacional. No Rio Grande do Sul, o italiano Garibaldi ocupa maior espaço na memória do povo e no calendário cívico do que qualquer brasileiro. Mesmo em Minas Gerais, o 21 de abril é mais um dia a ser emendado para o prazer de um feriado estendido, do que data reservada ao exercício da cidadania e do civismo.

Não fosse exigir demais, Sete Lagoas poderia fazer a diferença no Estado comemorando a Inconfidência a partir da presença, aqui, do alferes Tiradentes como comandante do Quartel do Sertão. Se há motivos históricos para tal, uma expressão do professor e jornalista Fernandino Júnior (quem não o conhece?) cria o espaço ideológico para que o sete-lagoano se integre às comemorações do 21 de abril. Escrevia ele na edição do dia 30 de novembro de 1930 do Jornal "Minas Central", ao se referir à "presença" de Tiradentes em nossa cidade: "Naquele tempo  quem sabe? , talvez o humilde soldado já acalentasse no espírito a ideia da liberdade da Pátria, que lhe valeu, anos depois, o sacrifício da própria vida".

Como o sete-lagoano não poderá contestar essa possibilidade, talvez possa adotá-la como legenda para a bandeira de seu civismo. 
 
Crédito pelo envio do editorial do Jornal Tribuna: Márcio Vicente Silveira Santos (1942-2019), advogado, jornalista, poeta, escritor e historiador que, mesmo antes de publicar seu livro "Tiradentes em Sete Lagoas" de 2010,  já tinha se envolvido com a História que inscreveu a cidade de Sete Lagoas no cenário da Inconfidência Mineira, com base em suas profundas pesquisas.   
 
 
Livro lançado em 2010, da autoria do jornalista, advogado, escritor e historiador Márcio Vicente Silveira Santos.

No meu breve recorte do cerne do livro acima, Tiradentes em Sete Lagoas (2010), o historiador Márcio Vicente comprova a presença do Alferes em Sete Lagoas, desde sua posse no comando do Quartel de Sete Lagoas (ou Quartel do Sertão) em 22 de abril de 1780 até 23 de junho de 1781, última data em que Tiradentes é mencionado como "Comandante do Sertão" e, por extensão, Comandante do Quartel de Sete Lagoas. Data de junho de 1780 o início da abertura da "picada" entre Sete Lagoas e Paracatu. Comprovam essa tese o livro de Tarquínio J.B. de Oliveira, Um Banqueiro na Inconfidência, 1957, p. 63 e duas cartas de Tiradentes a Dom Rodrigo José de Menezes, datadas de 18 e 25 de junho, lastreadas no livro de Jovelino Lanza, História de Sete Lagoas, 1967, p. 85. Ao examinar o histórico do destacamento de Tiradentes no Quartel do Sertão, Márcio Vicente concluiu que o Alferes foi incumbido, dentre outras, de três missões (a saber: defesa e segurança, cobrança dos impostos e combate ao contrabando), e de uma quarta: estabelecer nova via de comunicação de Sete Lagoas com Paracatu, "desobrigando os viandantes de um contorno geográfico que (para atingi-la) ia quase às fronteiras de São Paulo, no acesso aos Goiases", conforme Tarquínio J.G. de Oliveira, in Correspondência Ativa de João Roiz de Macedo, vol. II, p. 3. Essa ligação se justificava pela importância que a Vila de Paracatu vinha capitalizando desde 1744, quando ali teve início a exploração aurífera.
Fonte: capítulos intitulados Cronologia mínima, pp. 28-30, No comando das Sete Lagoas, pp. 99-113      
 


Livro lançado em 09/05/2019, idem

 

No meu breve recorte do cerne do livro acima, "Sete Lagoas, Século XVIII", o tema em tela é a importância do Registro, instalado no Arraial em 1762, como um dos principais entrepostos comerciais da Capitania de Minas, no século XVIII. "Passagem forçada para os currais da Bahia", como escreveu Waldemar de Almeida Barbosa no seu Dicionário Histórico-Geográfico de Minas Gerais, Sete Lagoas se destacava, no mapa econômico da Capitania, no século XVIII, por sua privilegiada posição geográfica. 
Resumidamente e de modo a trazer uma pequena notícia sobre a obra, veremos os principais tópicos tratados em dois capítulos extremamente importantes do referido livro por Márcio Vicente, quase ipsis litteris:
O Mapa da Capitania de Minas Gerais, levantado por José Joaquim da Rocha, em 1777, sugere o Registro de Sete Lagoas como ponto de confluência das Estradas Reais que, adentrando Minas pelo Norte, se encaminham para Vila Rica e Sabará. Ele também indica claramente que, para Sete Lagoas, procediam as estradas que cruzavam a Barra do Rio das Velhas ou, acompanhando a margem esquerda do Rio São Francisco, tinham como destino a área central de mineração. Outros autores que estudaram as vias de comunicação e abastecimento da Capitania, no século XVIII, são acordes no argumento de que "passava pelo Registro de Sete Lagoas o gado do Sertão Mineiro que abastecia o mercado da região mineradora da Capitania". Com o correr do tempo (e a intensificação do trânsito de pessoas e o crescimento das atividades de comércio), outros caminhos seriam abertos, cortavam Sete Lagoas ou tinham esse povoado como centro irradiador e de abastecimento das caravanas que penetravam o sertão ou se dirigiam às zonas de produção aurífera. Essa posição estratégica levou o historiador Angelo Carrara a classificar Sete Lagoas como "ponto de articulação entre os sertões e as minas gerais", como está consignado em seu extenso estudo e faz parte de seu livro-referência Minas e Currais - Produção Rural e Mercado Interno de Minas Gerais - 1674/1807.
O Arraial  que passou a ser sede de um Registro em 1762  era cortado por dois caminhos da maior importância para o comércio geral e a integração demográfica da região. O primeiro deles vinha de Sabará e passava por Santa Luzia, Lagoa Santa e Rezende, adentrando Sete Lagoas pelo Bairro da Várzea, onde começou o povoamento do núcleo urbano. O segundo, com início em Vila Rica, cruzava Palmital e Buritis, e chegava a Sete Lagoas pela Várzea.
De Sete Lagoas, duas estradas ligavam a centros de expressão econômica na Capitania. Uma, na direção Oeste, se dirigia à Vila de Pitangui. A outra, tomando o rumo Norte e, passando por Paga Bem Onça de Cima e Canabrava, chegava ao sítio do Falcão. Já o outro, a Oeste, passando por Bicudo, demandava o sítio das Pindaíbas. Nesse ponto, entroncava-se-se com a estrada que vinha de Pitangui e, passando por Andrequicé, procurava a direção da Passagem do Espírito Santo, no São Francisco. Atravessando o rio pouco antes da foz do Abaeté, no sentido Noroeste, o destino é Paracatu.
Vale notar que, numa segunda travessia do São Francisco, o caminho vindo de Sete Lagoas funde-se com o originado em São João del-Rei.
A mencionada estrada Sete Lagoas-Curvelo, que levava à região dos diamantes, foi cognominada de "O quinto caminho" pelo professor sete-lagoano Alfredo Valadares.
Sobre a picada de Paracatu, objeto do seu primeiro livro, Márcio Vicente indaga: "Se realmente construída, não  teria a estrada aberta por Tiradentes importância estratégica ou econômica capaz de merecer seu registro?" Outra indagação pode ser alinhada em busca de esclarecimento para a questão: Quais "providências" vinham sendo "dadas" por Tiradentes "a respeito do novo caminho", conforme alude carta a ele remetida pelo Governador? Certamente, a resposta estaria nas cartas de 18 e 23 de junho de 1780. Informa o autor que, embora tenha empreendido intenso trabalho de pesquisa nos registros do Arquivo Público Mineiro, em 2010, não localizou esses documentos. Da mesma forma, a história de Paracatu não faz referência à construção de qualquer estrada a cargo de Tiradentes, citando três "clássicos" da historiografia do Município, que silenciam a respeito do tema.
Como resposta possível à pergunta central  Qual seria o traçado do caminho aberto por Tiradentes? , deve o autor buscar abrigo na expressão cunhada por Carlos Cunha Correia em seu livro Serra da Saudade de 1948: "... isso é problema que continua em equação histórica, desafiando a paciência beneditina dos que se dispõem a enfrentar a poeira dos arquivos".
(Fonte: capítulos intitulados Sete Lagoas, "boca" do sertão e A picada de Paracatu, pp. 104-112)
 
II. MEMORIAL TIRADENTES em Sete Lagoas, projeto de Márcio Vicente Silveira Santos como encarte do Jornal Tribuna.



 




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Obs.: Com ligeiras modificações, este encarte do Jornal Tribuna constou do livro Tiradentes em Sete Lagoas (2010) de Márcio Vicente Silveira Santos, pp. 241-245.
 
 
III. AGRADECIMENTO 

 
À minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação do registro fotográfico utilizado neste trabalho e pela edição das imagens. 

 
 
IV. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 


BRAGA, F. J. S.: Colaborador: MÁRCIO VICENTE SILVEIRA SANTOS, matéria publicada no Blog de São João del-Rei em 22/08/2017
 
JORNAL TRIBUNACulto aos Heróis, in suplemento ESPECIAL TIRADENTES, Editorial da edição nº 748, de 21 de abril de 2012, pp. 7-10.

SILVEIRA SANTOS, Márcio Vicente: Tiradentes em Sete Lagoas, matéria publicada no Blog de São João del-Rei em 22/08/2017

________________________________: Tiradentes na História de Sete Lagoas, matéria publicada no Blog de São João del-Rei em 29/03/2023

________________________________:  São João, matéria publicada no Blog de São João del-Rei em 26/01/2018
 
____________________________: Tiradentes no sertão, publicado na revista Memória Cult,  Ouro Preto, Ano I, nº 3, abril de 2011, pp. 34 e 35.
 
____________________________: Tiradentes em Sete Lagoas - Um mergulho na História que inscreve a Cidade no cenário da Inconfidência Mineira, Sete Lagoas: Tip. Kosmos, 2010, 245 p.   
 
____________________________: Sete Lagoas, Século XVIII - O Registro e as Estradas Reais: Centralidade e Convergências na Capitania de Minas, Sete Lagoas: Edições Instante, 2019,  235 p.
 
 

quarta-feira, 4 de março de 2026

SÃO JOÃO DEL-REI

SÃO JOÃO DEL-REI
 
Por Mário Celso Rios *

Professor Mário Celso Rios (1952-2020)

 
Longe da metrópole, com bravura, sua História ocorreu. 
E, às margens de um rio, a vila, irrequieta, incandesceu! 
Amores, correspondidos ou não, entreteciam dramas. 
Confabulava-se por liberdade em imprevisíveis tramas. 
 
O Sangue derramado, a humilhação dos Inconfidentes, 
Decisivos foram para o sonho do Tiradentes. 
Pedras sobre pedras, pontes a desbravar caminhos, 
Ir-vir, olhares, gestos, mistério, aos torvelinhos. 
 
Sinos repicando a vida: templos adornados,
O Pilar: singelas festas de santos irmanados,
Lirismo: orquestras tocando melodias cordiais. 
 
Nos Campos das Vertentes, conspirou-se pelas sendas. 
Eram os filhos da aventura em cor de lendas, 
A esculpir na Coragem e Valentia seus sinais.
 
Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, vol. XIV, 2020, p. 9.
 
* Intelectual barbacenense que se destacou no magistério, nas letras, nos estudos históricos,
 na conservação da memória e das artes. Pesquisador, incentivador cultural, foi titular da cadeira nº 21 patroneada por Sabino José Ferreira e presidente da Academia Barbacenense de Letras durante vários mandatos desde 1993 a 2020, professor universitário, advogado, escritor, tradutor, jornalista, autor dos seguintes livros: Das Ideias em Obras, London: A Digression, Verdes Caminhos Cinzentos, Poetificando, Nélson Tafúri, O Homem e a Lição, Poemas do Presente, Barbacena: Projeções para o novo Século, Barbacena: Cultura Regional e Projetos Culturais. Na área jurídica publicou “Direitos Humanos - Trinta Anos e Direitos Humanos na América Latina”. Além disso, é autor de dois ensaios: Música - Terra de Villa-Lobos e Cultura numa era de Cultura de Massas. Finalmente, participou de todas as edições do Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo, tendo colaborado para o Blog de São João del-Rei com uma resenha para uma delas, intitulada  V Encontro sobre o Caminho Novo busca Novas Fontes para a História.