quinta-feira, 8 de outubro de 2026

PEDRO NAVA: TÃO IMPORTANTE NA LITERATURA BRASILEIRA QUANTO PROUST NA FRANCESA

Por RACHEL JARDIM *

Nava não teria escrito sua obra, como escreveu, se não tivesse lido Proust, outro obcecado pela memória. 
Transcrevemos, com a devida vênia da revista de cultura Verbo de Minas, publicação do Programa de Pós-Graduação do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, vol. 3, nº 5, out. 2021, pp. 83-85. A edição da revista tem título próprio: Memórias mineiras e outros textos: Pedro Nava. Originalmente foi um artigo intitulado "Nava, baú de esboços", publicado em D.O. Leitura (publicação cultural da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), em número especial, no ano 18, nº 9, set. 2000, pp. 32-37. 

Rachel Jardim (✰ Juiz de Fora, 1926 ✞ Rio de Janeiro, 2023 - Crédito: Tribuna de Minas

 

Certa vez o José Mindlin demonstrou grande desejo de conhecer Pedro Nava, meu amigo, de Juiz de Fora, a mesma cidade onde nasci. Ele conhecia minha avó, tínhamos relações de família. Eu me propus fazer um jantar, na minha casa, com eles dois, mais a Guita e a Nieta. Como o Pedro Nava era mineiro, e a comida mineira de Juiz de Fora é famosa, sobretudo a carne de porco, quis fazer um jantar bem característico, que nos reportasse à nossa terra. Fiz um lombo de porco, que ficou uma delícia, todo mundo comeu muito bem, fizeram muitos elogios, e o jantar decorreu num clima muito fraterno, houve um entendimento muito grande, parecia que o Mindlin e o Pedro Nava se tinham conhecido a vida inteira. 
 
Para mim, aquele jantar acabou se tornando um ponto de ligação entre duas culturas. Porque o mineiro, dizem, tem muito de judeu. É muito apegado aos bens e ao sangue, aos bens de raiz, aos bens que caracterizam sua cultura. Há até um poema famoso do Drummond, "Os bens e o sangue". Os mineiros são apegados a esses bens e os administram muito bem. São ótimos negociantes, ótimos banqueiros, parcimoniosos, como dizem que os judeus também são. Não desperdiçam, têm uma vocação para a cultura. Apenas são cultos. Nós, de Minas Gerais, não exibimos nem cultura, nem dinheiro. Pelo menos éramos assim, os antigos. Os de hoje eu não sei. 
 
Eu tenho uma admiração muito grande pelo Nava, como escritor. Acho que ele inovou o memorialismo, embora não seja apenas um memorialista. É um romancista, faz o romance da memória. Em sua obra, cria personagens e cria um estilo espantoso, um dos melhores da literatura brasileira. Um estilo próprio, raro e extraordinário por isso se tornou um dos maiores escritores da literatura brasileira e talvez mundial. Pedro Nava não teria escrito sua obra, como escreveu, se não tivesse lido Proust, outro obcecado pela memória. Aliás, o Mindlin é outro apaixonado de Proust, e eu também. Acredito que, nas devidas proporções, o Pedro Nava tem na literatura brasileira a mesma importância que Proust teve na francesa. É um escritor absolutamente extraordinário e original, com estilo próprio, e inovou a literatura brasileira. 
 
O Gilberto Freyre, de certa forma, também fez um pouco isso, criou uma espécie de romance da memória, e o Pedro Nava, seguindo essa onda, fez um trabalho ainda mais completo. Ele reconstrói uma cidade, Juiz de Fora, que eu conheci — saí de lá há muito, estou há anos no Rio de Janeiro — com as pessoas conversando nas calçadas, na porta de casa, sentadas em suas cadeiras. Minha avó tinha as cadeiras em frente da casa, todos conversavam, ele passava por ali, menino ainda, e participava daquele momento familiar privilegiado. Guardou pelo resto da vida, uma coisa muito proustiana, o perfume dos dedos da minha avó passando pela cabeça dele. Lembro essa cena que ele narra, das cadeiras de medalhão de minha avó, as pessoas depois do jantar sentadas civilizadamente, conversando, trocando idéias. Era uma coisa tão fraternal, tão humana, tão bonita...
 
Em sua obra, Pedro Nava traz de volta essa cidade, mas uma coisa é verdade: ele não amou jamais Juiz de Fora, tem queixas amargas da cidade, da sociedade local. Ele tinha um lado nordestino da família, que não era mineiro, a mãe foi parente pobre na casa de parentes ricos — era um traço bem mineiro da época, receber os parentes pobres em casa, mas, no fundo, não tratar de forma bem igual, havia sempre uma pequena diferença que não era dita, mas ficava no ar. Ele tem muita mágoa de Juiz de Fora, mas apesar disso recria uma cidade com tanta beleza que não faz mal, a mágoa não tem importância. O que tem importância é como reconstrói. O Nava era um grande conhecedor da cidade, apesar de ter viajado o mundo inteiro ele tinha uma surpreendente capacidade de olhar a cidade, uma coisa que o Proust também tinha. Ele sabia descobrir coisas como ninguém.
“Nessa época em que passava pela porta da casa de sua avó, menino ainda, ele já mostrava alguma coisa do adulto genial que viria a ser?”
Não, pelo que conta era um menino tímido. Tinha mágoas profundas — aliás, carregou pela vida muitas mágoas e ressentimentos. Ele nunca se libertou desses sentimentos que, por incrível que possa parecer, o ajudaram a ser um grande escritor. 
Pedro Nava só foi escrever depois que a mãe morreu, pois não queria contar coisas que pudessem magoá-la. Foi anotando tudo, tinha uma memória prodigiosa, e só escreveu depois que ela morreu, quando pôde dizer todas as coisas que queria. Proust fez a mesma coisa. Minha amizade com Nava se fortaleceu, mais tarde, porque fui diretora do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro, e ele foi presidente do conselho. Ele era um flâneur, nós andávamos muito pelas ruas, ele ficava olhando os gradis das janelas, o enquadramento, as perspectivas, os torreões, até o cemitério. Tudo com uma paixão pela cidade... Nós andávamos pelas ruas, Pedro Nava e eu. Depois que foi trabalhar comigo, nossa relação ficou muito mais viva, mais intensa, e várias vezes estive na casa dele. Tínhamos muita afinidade, ele tinha um lado muito caloroso, o lado nordestino dele. O Mindlin também é um ser humano muito caloroso. Então, eu acho que os dois tiveram uma amizade muito bonita, muito bonita, que começou na minha casa, nesse jantar em que eu servi um lombo de porco.
“O Mindlin diz não lembrar, exatamente, onde conheceu Pedro Nava...”
Foi na minha casa, nesse jantar. Ele conheceu Pedro Nava na minha casa. Esse jantar, depois, foi muito comentado porque o Chico Assis Barbosa, que era amigo do Pedro Nava e também do Mindlin, ficou muito enciumado. Ele sempre me cobrou por não tê-lo convidado. Não convidei porque minha mesa era pequena, não ia caber todo mundo, precisaria convidar a mulher dele também. Seria gente demais. Eu era tão obcecada pela leitura do Nava que ele nem precisava falar. A obra era ainda mais importante que a pessoa. Lembro que a gente foi num jantar, uma vez, no Club Gourmet, um restaurante aqui no Rio. E um jantar oferecido a proustianos, uma coisa tola. Fomos eu, Nava e a Nieta, e ficamos quase mudos o jantar inteiro. As pessoas diziam tantos disparates a respeito de Proust que não tivemos como dizer nada, comentar nada, ficamos quase calados. Porque o Proust, para nós, era um estado de espírito, tão lá dentro de nós, que a gente não precisava falar muito. Ele não era de se exibir, então ficamos calados. Nós conversávamos muito sobre Proust, sobre Juiz de Fora. Depois fizemos um documentário, A Glória de Pedro Nava, eu fiz o roteiro, que já estava praticamente todo no livro dele. Fizemos o documentário para TVE, com o Joaquim Pedro de Andrade, o Pedro Nava andando e falando. A gente pegava o livro, ia comparando, ficou muito bonito. Quando Pedro Nava morreu, daquela forma trágica — nós trabalhávamos juntos — minha mãe me ligou, às 5 horas da manhã, quando o rádio começou a dar a notícia. Ela ouviu e me ligou. Eu tive um choque terrível, nós tínhamos estado juntos na véspera, ele não estava bem, estava deprimido, por razões que eu não sei quais fossem, ele nunca se abriu comigo. Mas ele não estava bem, não estava alegre. Foi um dos piores choques de toda a minha vida.
“Ele era naturalmente uma pessoa alegre?”
Ele tinha momentos de depressão, pensava muito na morte, a morte sempre rondou a obra dele, estava no fundo de tudo. Havia uma coisa vital nele, nordestina, vital, e uma coisa mais mineira, mais metafísica. Ele não era só metafísico, tinha uma coisa meio reprimida, tinha um ressentimento profundo, mágoas, feridas. Mas ficava muito animado quando falava do Rio, das coisas de que gostava, das pessoas. Aí ele se animava, ficava alegre. Mas, no fundo, havia sempre uma coisa sombria em Pedro Nava, parecia uma pessoa que tinha uma sombra ao fundo. Ao contrário do Mindlin, que tem vocação para a felicidade, o Nava tinha uma sombra ao fundo. Sua morte foi um mergulho nessa sombra. 
 
* A autora se destacou por sua dupla atuação de prestígio como uma das vozes mais sofisticadas da literatura memorialística brasileira e como pioneira na preservação do patrimônio cultural urbano. Ela construiu uma obra singular profundamente marcada pela interseção entre a memória individual, a ficção e a história social do Brasil. As principais características de sua obra literária são: 1. A 'escrita do eu': Rachel utilizava sua própria trajetória (a origem mineira, a formação jurídica e o serviço público) como matéria-prima literária. 2. Olhar político e feminino: sua obra registra o cotidiano das mulheres de classe média no século XX, abordando a questão feminina sob uma ótica política e de defesa de direitos. Na vida pública, atuou como superintendente e diretora do Patrimônio Cultural e Artístico do Rio de Janeiro. Foi uma das mentes por trás da preservação arquitetônica contra as desfigurações da capital fluminense, inspirando-se em suas leituras de Machado de Assis e Marcel Proust. Estreou tardiamente com seu primeiro livro “Os anos 40: a ficção e o real de uma época” pela Livraria José Olympio Editora em 1973. Em seguida vieram “Cheiros e ruídos” (1975), “Vazio pleno: relatório do cotidiano” (1976), Inventário das cinzas” (1980), “A cristaleira invisível” (1982), “O penhoar chinês” (1985) e “Num reino à beira do rio” (2004). 
 
II. BIBLIOGRAFIA sugerida pelo gerente do blog
 
ALBARET, Céleste. Marcel Proust, por Céleste Albaret, publicado em 28/11/2025 pelo Blog de São João del-Rei
 
AMÂNCIO, Angélica: Rachel Jardim, tecelã de histórias, BH: Revista da Academia Mineira de Letras, ano 99, volume 80, 2020, pp. 544-550. 
 
LIMA, Rogério Medeiros Garcia de. Tempo e memória em Pedro Nava, publicado em 30/07/2026 pelo Blog de São João del-Rei
 
MENDONÇA, C. P. & PEREIRA, E. A. As memórias na ficcional autobiografia de Rachel Jardim. Juiz de Fora: Verbo de Minas, vol. 22, nº 40, pp. 208-221, ago/dez 2021
 
MINDLIN, José. Uma boa lembrança, publicado em 12/07/2026 pelo Blog de São João del-Rei 
 
PROUST, Marcel. Sobre a leitura, publicado em 23/11/2025 pelo Blog de São João del-Rei
 
ROCHA, E. C. A. & PEREIRA, E. A.: A memorialística feminina no romance Os Anos 40, de Rachel Jardim. Juiz de Fora: IPOTESI, vol. 13, nº 2, pp. 135-145, jul/dez 2009
 
SILVA, Luciana de Mesquita. Rachel Jardim e sua escrita memorialística: a construção de imagens femininas. Erechim-RS: Revista Literatura em Debate, vol. 4, nº 5, pp. 130-140, jul/dez 2009
 
 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

ENCONTRO DE STEFAN ZWEIG COM THEODOR HERZL


Por STEFAN ZWEIG (1881-1942)
 
Theodor Herzl c. 1897 (✰ Peste, Hungria 1860 ✞ Edlach, Áustria 1904)
 
I. INTRODUÇÃO PREPARATÓRIA do conteúdo do Capítulo IV - Universitas Vitae ¹ até o ponto em que ocorre o encontro com Theodor Herzl  
 
Antes de transcrever o texto contendo a íntegra dos pormenores do encontro, é preciso contextualizar o leitor sobre o momento exato da narrativa. O encontro de Stefan Zweig com Theodor Herzl é apresentado no quarto capítulo intitulado "Universitas Vitae" de suas memórias, na obra de 1942: O Mundo de Ontem ² (ou O Mundo que eu Vi). Na fala de Stefan Zweig, a expressão latina Universitas Vitae significa literalmente "A Universidade da Vida". Ao intitular o quarto capítulo de sua autobiografia com esse termo, Zweig faz um jogo de palavras irônico e filosófico para contrastar o ensino institucionalizado com o aprendizado real. Para o autor, o verdadeiro conhecimento não estava dentro das paredes da universidade tradicional (Universitas Litterarum), mas sim na vivência direta com o mundo.
 
Stefan Zweig, então com 19 anos, narra o período de transição após concluir o ensino secundário rígido e ingressar na Universidade de Viena. Longe de encarar a faculdade com rigor acadêmico tradicional, Zweig e seus contemporâneos viam o status de estudante universitário com o romantismo de uma "liberdade conquistada", aproveitando os privilégios sociais e a autonomia que a vida acadêmica proporcionava na Áustria da virada do século. Ele próprio relata que
“o verdadeiro critério para a minha escolha não foi procurar o curso que mais trabalho me desse, e sim o que mo desse menos e me concedesse o máximo de tempo e de liberdade para o que eu tinha verdadeiro pendor. Afinal me decidi pela filosofia, ou melhor, pela filosofia "exata", como em nossa terra se dizia de acordo com o esquema antigo, porém, deveras não o fiz por vocação, pois minhas aptidões para o pensar puramente abstrato são pequenas.”
Em vez de se fechar nas salas de aula, Zweig passa a frequentar os cafés e os círculos intelectuais de Viena, onde a verdadeira "universidade da vida" se desenrolava. É nesse ambiente de efervescência cultural e paixão pela literatura que ele reúne coragem para dar seus primeiros passos como autor. 
Após publicar de forma independente sua primeira coletânea de poesias, Cordas de Prata (Silberne Saiten), publicada pela editora que então era a mais representativa para a poesia lírica alemã, a Schuster & Löffler, a editora das obras de Liliencron, Dehml, Bierbaum, Mombert, Rilke e Hofmannsthal. A sua maior surpresa, porém, foi o fato de os compositores Max Reger e Richard Strauss terem se dirigido a ele a fim de pedir permissão para fazer arranjo musical para seis poemas de sua coletânea. 
O jovem escritor decide arriscar um salto maior: enviar um texto em prosa para o jornal de maior prestígio e influência da Europa Central na época, a Neue Freie Presse. O caderno de cultura e folhetim (feuilleton) desse influente diário era comandado por uma figura magnética que exercia um papel duplo fascinante na Viena daquela época: era respeitado como um brilhante jornalista e homem de letras, ao mesmo tempo em que chocava a burguesia judaica assimilada ao emergir como o líder e idealizador do movimento sionista moderno e que Zweig passa a descrever.
 
¹ Na fala de Stefan Zweig, a expressão latina Universitas Vitae significa literalmente "A Universidade da Vida". Ao intitular o quarto capítulo de sua autobiografia com esse termo, Zweig faz um jogo de palavras irônico e filosófico para contrastar o ensino institucionalizado com o aprendizado real. Para o autor, o verdadeiro conhecimento não estava dentro das paredes da universidade tradicional (Universitas Litterarum), mas sim na vivência direta com o mundo. (Nota do gerente do blog)
 
² A obra, finalizada em 1941, foi publicada de forma póstuma na Suécia, por uma editora voltada para a chamada Exilliteratur (literatura de exílio). Stefan Zweig concluiu e enviou o manuscrito datilografado para a editora apenas um dia antes de cometer suicídio com sua esposa, Lotte Altmann, em Petrópolis, em fevereiro de 1942. No ano seguinte, em abril de 1943, o livro ganhou sua primeira edição em inglês pela Viking Press.
No Brasil, o lançamento ocorreu logo após a morte do autor, por meio da Editora Guanabara, sediada no Rio de Janeiro. Posteriormente, essa mesma tradução icônica de Odilon Gallotti foi integrada ao Volume 15 das Obras Completas de Stefan Zweig, publicadas pela Editora Delta nos anos 1950. Esta última é a que estou utilizando no texto a seguir, levemente modificada em alguns poucos trechos considerados incompreensíveis. Acho que houve certa precipitação para a publicação da obra no Brasil, o que comprometeu a perfeição desejada para a tradução de uma obra de tal relevo e importância. Para essas poucas alterações, baseei-me em Le Monde d'Hier (1948), a partir da tradução de Jean-Paul Zimmermann (pp. 123-137, mencionada na Bibliografia). (Nota do gerente do blog)
 
II. TEXTO sobre o encontro de Zweig com Theodor Herzl 
 
Esses aplausos inesperados, que eram acompanhados de críticas públicas favoráveis, animaram-me a dar um passo que eu, pela minha insanável falta de confiança em mim, jamais teria dado, ou ao menos, não o teria feito tão cedo. Ainda ginasiano, publicara, além de poesias, pequenas novelas e ensaios nas revistas literárias da “Moderna” ³, nunca, porém, me atrevera a mandar uma dessas tentativas para uma revista importante e de grande circulação. Em Viena verdadeiramente só existia um órgão de publicidade de nível elevado, a “Neue Freie Press” ⁴, que, por sua atitude nobre, seu empenho em prol da cultura e seu prestígio político, era para toda a Áustria-Hungria o mesmo que o “Times” para o mundo inglês e o “Le Temps” para o mundo francês; mesmo nenhum dos jornais da Alemanha diligenciava tanto um nível cultural representativo. Seu redator, Maurício Benedikt, homem de fenomenal capacidade de organização e infatigável operosidade, empenhava toda sua energia, verdadeiramente demoníaca, para conseguir que o seu jornal no domínio da literatura e da cultura sobrepujasse todos os jornais alemães. Quando desejava de um autor de nomeada alguma coisa, não olhava despesas, enviava-lhe dez ou vinte telegramas, concedia-lhe de antemão qualquer remuneração. O número do Natal e o do dia do Ano Bom com seus suplementos literários constituíam grandes volumes, que tinha a colaboração dos maiores nomes da época; Anatole France, Gerhardt Hauptmann, Ibsen, Zola, Strindberg e Shaw nessa ocasião achavam-se reunidos nessa folha, que fez muitíssimo pela orientação literária de Viena e do país inteiro. Evidentemente “progressista” e liberal, esse jornal, em sua maneira modelar, representava o elevado padrão cultural da Áustria antiga.

Esse templo do “progresso” possuía um santuário especial, o folhetim, que, como o dos grandes diários parisienses “Le Temps” e o “Journal des Débats”, publicava os trabalhos mais substanciais e perfeitos sobre poesia, teatro, música e arte, nitidamente separados das coisas efêmeras da política e da vida diária. Nesse folhetim só podiam escrever as autoridades, os que, já havia muito, tinham dado provas de competência. Somente a solidez das opiniões, a experiência comparativa de muitos anos e a forma artística perfeita podiam colocar nesse santo lugar um autor após anos de prova de capacidade. Ludwig Speidel, mestre da descrição das minúcias, e Eduard Hanslick nesse jornal tinham em assuntos de teatro e de música autoridade papal idêntica à de Saint-Beuve em Paris nos seus “Lundis”; o seu sim ou o seu não decidiam para Viena o êxito de uma obra, de uma peça teatral, de um livro, e com isso, muitas vezes, o de uma pessoa. Cada um desses artigos constituía o assunto do dia para os círculos ilustrados, era discutido, criticado, admirado ou combatido, e a aparição de um nome novo na série dos folhetinistas desde muito reputados era um acontecimento. Da geração mais nova só Hofmannsthal com alguns dos seus magníficos trabalhos encontrava às vezes acolhida nesse folhetim; de ordinário os autores jovens tinham de se contentar com a penetração feita discretamente na página literária, uma das últimas do jornal. Quem escrevia na primeira página, tinha para Viena seu nome gravado em mármore.

Hoje já não posso compreender como tive coragem de oferecer um pequeno trabalho poético ao jornal “Neue Freie Presse”, o oráculo de meus antepassados e o domicílio dos sete vezes consagrados. Mas afinal de contas o mais que poderia acontecer-me era não aceitarem a minha oferta. O redator do folhetim só recebia uma vez por semana, entre as duas e três horas, pois graças ao turno regular dos colaboradores célebres e fixos, só mui raramente havia espaço para o trabalho de um estranho. Não foi sem palpitações que subi a pequena escada de caracol que levava à redação, e me fiz anunciar. Passados alguns minutos, voltou o porteiro, avisou-me que o redator do folhetim dissera que eu podia entrar e penetrei na pequena sala.

³ Denominação para as orientações novas da poesia e da arte, mais ou menos desde o começo do Naturalismo por volta de 1890. (N. do T.).
 
⁴ Neue Freie Presse - Nova Imprensa Livre (N. do T.). 

*   *   *

O redator do folhetim da “Neue Freie Press” chamava-se Theodor Herzl e foi o primeiro homem de importância histórica diante do qual vi — sem saber, é verdade, que enorme mudança sua pessoa iria determinar no destino do povo judeu e na história da nossa época. Sua posição, nesse tempo, ainda não estava bem definida. Ele começara com tentativas poéticas, revelara cedo um talento jornalístico fascinante e se tornara predileto do público vienense, primeiramente como correspondente em Paris e depois como folhetinista da “Neue Freie Press”. Seus artigos, ainda hoje encantadores pela sua riqueza em observações penetrantes e, muitas vêzes, sábias, pela graça do seu estilo, pelo seu encanto nobre, que, mesmo nas críticas e nas coisas alegres, nunca perdia a nobreza inata, eram o que de mais apurado se podia conceber no jornalismo, e o fascínio de uma cidade que havia cultivado o senso para o que é sutil. Também no Burgtheater Herzl lograra êxito feliz com uma peça; era nessa ocasião um homem estimado, idolatrado pela mocidade, respeitado por nossos pais, até que um dia se deu o que não se esperava. O destino sabe sempre achar um caminho a fim de buscar para si a pessoa de que precisa para seus desígnios secretos, mesmo que ela se queira esconder.

Theodor Herzl tivera em Paris um fato que lhe abalara a alma, uma dessas horas que modificam uma existência inteira: como correspondente assistira à degradação pública de Alfred Dreyfus, vira arrancarem-lhe as dragonas enquanto o infeliz exclamava: “Estou inocente”. Sabia seguramente naquele momento que Dreyfus estava inocente e que sobre ele pesava essa horrenda suspeita de traição, só porque ele era judeu. 
⁵ Theodor Herzl em sua altivez varonil e firme quando estudante já sofrera a sina dos judeus, ou melhor, graças a seu instinto profético já sofrera esta sina numa época em que ela quase não parecia ser uma sina funesta. Com o sentimento de haver nascido para chefe, sentimento a que lhe dava direito tanto sua aparência vistosa e imponente como a elevação do seu pensar e o seu conhecimento do mundo, concebera então o plano fantástico de resolver de uma vez para sempre o problema do judaísmo, propondo que esse espontaneamente se unisse ao cristianismo por um batismo em massa. Pensando sempre dramaticamente, imaginara como conduziria num grande préstito os milhares de judeus da Áustria à catedral de Santo Estêvão, a fim de ali, num ato modelarmente simbólico, libertar para sempre da maldição da segregação e do ódio o povo escorraçado e sem pátria. Dentro em pouco reconhecera a inexequibilidade desse plano. Muitos anos de outras atividades haviam-no desviado do problema principal de sua vida, cuja “solução” considerava sua verdadeira tarefa; no momento da degradação de Dreyfus, porém, a ideia da eterna proscrição do seu povo penetrou-lhe no peito como se fôra um punhal. Se a segregação é inevitável, disse ele de si para si, que seja então completa! Se o nosso fado é sempre humilhação, enfrentemo-lo com altivez; se sofremos de falta de pátria, criemos uma pátria para nós. Por isso publicou sua brochura “O Estado dos Judeus”, na qual proclamou que toda igualação assimiladora e toda esperança de uma completa tolerância seriam impossíveis para o povo judeu e que seria necessário fundar uma pátria nova, uma pátria própria na velha pátria, a Palestina.
Quando essa brochura pequena, porém provida da força de uma seta de aço em vôo, apareceu, eu ainda estava no ginásio, mas recordo-me bem da perplexidade e indignação gerais que causou nos círculos burgueses judaicos de Viena: “Que 
—,  perguntavam amuados esses judeus —, se meteu na cabeça desse escritor, de ordinário tão sensato, hábil e culto? Que loucuras anda ele praticando e escrevendo? Por que razão devemos ir para a Palestina? O nosso idioma é o alemão e não o hebraico, a nossa pátria é a bela Áustria. Não nos achamos otimamente sob o governo do bom imperador Francisco José? Não temos nossa conveniente prosperidade, nossa situação segura? Não somos cidadãos do Estado com direitos iguais aos dos demais, não somos cidadãos domiciliados e dedicados desta Viena querida? Não vivemos numa época progressista, que em alguns anos há de por de lado todos os preconceitos religiosos? Por que ele, que fala como judeu e quer auxiliar o judaísmo, fornece argumentos aos nossos piores inimigos e tenta segregar-nos quando cada dia nos une mais estreita e intimamente ao mundo alemão?” Os rabinos exaltaram-se nos púlpitos, o diretor da “Neue Freie Press” proibiu que em seu jornal “progressista” se mencionasse sequer a palavra sionismo. O Tersites ⁶ da literatura  vienense, o  mestre do sarcasmo venenoso, Karl Kraus, escreveu uma brochura “O rei de Sião”, e quando Theodor Herzl entrava no teatro, zombeteiramente se murmurava em todas as filas: “Chegou Sua Majestade”.

No primeiro momento Herzl pôde sentir-se mal compreendido; Viena, onde ele, dada a estima que nela gozava havia muitos anos, se julgava mais seguro, o abandonara ou até se ria dele. Mas, em seguida, retumbou subitamente a resposta com tal violência e êxtase que ele quase se assustou de, com algumas dúzias de páginas, haver provocado no mundo um movimento tão poderoso e de tão grande irradiação. A resposta, sem dúvida, não partiu dos judeus burgueses do Ocidente, que viviam comodamente e tinham boa situação econômica, mas sim das enormes massas judaicas do Oriente, do proletariado dos ghettos da Galícia, da Polônia e da Rússia. Sem pressentir, Herzl com sua brochura inflamou o núcleo do judaísmo que ardia sob as cinzas do estrangeiro, o milenário sonho messiânico da promessa, confirmada nos Livros Sagrados, do regresso à Terra da Promissão — essa esperança e, ao mesmo tempo, certeza religiosa, os únicos sentimentos que ainda tornavam a vida útil para esses milhões de entes espezinhados e escravizados. Sempre que um indivíduo, profeta ou impostor, nos dois mil anos da maldição que pesa sobre o povo judeu, tangeu a corda, a alma de todo esse povo vibrou, porém nunca com tanta intensidade como dessa vez, nunca com ressonância tão ruidosa, tão retumbante. Com algumas dúzias de páginas um só homem havia formado de uma massa dispersa e desunida uma unidade.

Esse primeiro instante, em que a idéia ainda tinha formas indecisas, estava destinado a ser o mais feliz na vida breve de Herzl. Logo que este começou a fixar os objetivos no espaço real, a unir as forças, teve de reconhecer quão heterogêneo se havia tornado esse povo entre os povos e destinos mais diversos, combatendo-se uns aos outros em todas as línguas, aqui os ortodoxos, ali os livres pensadores, acolá os judeus socialistas, mais adiante os capitalistas, e pouco dispostos a sujeitarem-se a uma só autoridade. Em 1901, ano em que pela primeira vez vi Herzl, achava-se ele em plena luta e talvez também em luta consigo próprio; ainda não acreditava suficientemente no bom êxito de sua ideia para abandonar o emprego com que mantinha a si e sua família. Ainda era obrigado a dividir-se entre o pequeno serviço no jornalismo e a tarefa que constituía o ideal de sua vida. Quem então me recebeu ainda foi o Theodor Herzl redator do folhetim.
 
⁵ Na mesma ocasião, o triste episódio suscitou o manifesto jornalístico e literário J'accuse...! ("Eu acuso!") do autor naturalista Émile Zola, um dos maiores marcos da história da imprensa, no qual ele denunciou nominalmente as autoridades militares francesas por forjarem provas e encobrirem o verdadeiro culpado devido ao antissemitismo institucional da época. 
O texto, publicado em 13 de janeiro de 1898 no jornal L'Aurore, defendia a inocência e a libertação do capitão franco-judeu Alfred Dreyfus, que havia sido injustamente condenado por traição e exilado na Ilha do Diabo. Embora tenha sofrido anos de prisão degradante, Dreyfus sobreviveu, foi formalmente inocentado e reintegrado ao exército francês em 1906. 


⁶ O termo Tersites (ou Térsites) possui dois significados principais que se conectam diretamente com o universo literário de Stefan Zweig: o mito grego original e a própria peça teatral escrita por Zweig. Parece, evidentemente, que Zweig usa Tersites na primeira acepção abaixo citada.
 
1. O Personagem Mitológico (no Canto II da Ilíada, entre os versos 211 e 277)
• Aparência e Postura: É descrito por Homero como o homem mais feio que foi a Tróia — coxo, corcunda, calvo e desajeitado.
• O "Criador de Casos": Em vez de buscar a glória militar, Tersites usava sua oratória ácida para questionar, insultar e ridicularizar os reis e comandantes gregos, especialmente Agamêmnon e Aquiles, acusando-os de ganância e egoísmo. Ele é frequentemente apontado por críticos literários como o "primeiro agitador político" ou demagogo da literatura ocidental.
• Destino: Acabou espancado por Odisseu (Ulisses) para ser calado perante as tropas e, mais tarde, foi morto por Aquiles após zombar do luto do herói pela rainha amazona Pentesileia.

2. A Peça Teatral de Stefan Zweig (Tersites, 1907)
No contexto das obras de Stefan Zweig, Tersites (Tersites. Ein Trauerspiel in drei Aufzügen) é o título da sua primeira peça teatral concluída, publicada em 1907.
• Na tragédia em versos de Zweig, a maldade e o ressentimento de Tersites são transformados em uma espécie de sabedoria dolorosa.
• O autor usa o personagem para expor a brutalidade, a vaidade e a injustiça dos "heróis" perfeitos e vitoriosos (como Aquiles), mostrando como o sofrimento e a rejeição podem refinar a alma de quem o mundo considera feio ou inferior, enquanto o sucesso cega e endurece os vencedores. (Nota do gerente do blog)
 
 
*   *   *

Theodor Herzl levantou-se para cumprimentar-me, e senti que na expressão chistosa e escarninha “o rei de Sião” existia algo de verdadeiro: de fato, ele com sua fronte alta desassombrada, seus traços bem acentuados, sua barba de sacerdote, longa e muito preta, e seus olhos castanhos escuros e melancólicos, parecia um rei. Os gestos amplos e um tanto teatrais não davam a impressão de serem artificiosos, porque eram condicionados por uma nobreza natural, e não haveria necessidade dessa ocasião especial para ele me parecer importante. Mesmo junto à escrivaninha, já muito usada e cheia de papéis, naquela pequena sala de redação, em que havia uma janela apenas, parecia ele um xeique beduíno; um albornoz branco e flutuante vesti-lo-ia tão naturalmente como seu fraque preto cuidadosamente talhado, evidentemente por figurino parisiense. Após breve pausa, propositadamente feita — ele gostava desses pequenos artifícios, como muitas vezes percebi mais tarde, e certamente os estudara no Burgtheater — estendeu-me a mão condescendentemente e, apesar disso, com toda bondade. Apontando para a cadeira que estava a seu lado, disse: “Creio que já ouvi ou li algures o seu nome. Poesias, não é?” Tive de responder afirmativamente. Repoltreando-se, perguntou: “Então, que me traz?”

Disse-lhe que desejava mostrar-lhe um pequeno trabalho em prosa e passei às suas mãos o manuscrito. Ele olhou o frontispício, folheou o trabalho todo, a fim de verificar a extensão do mesmo, e refestelou-se ainda mais na poltrona. Com surpresa (eu não o esperava) notei que ele já começara a ler o manuscrito. Leu devagar, pondo de parte as folhas, sem erguer o olhar. Depois de lida a última, reuniu-as lentamente, meteu-as cuidadosamente, sempre ainda sem olhar para mim, num envelope e sobre ele escreveu com lápis azul uma nota. Só depois de com essas misteriosas maquinações me haver por bastante tempo mantido em estado de curiosidade, ergueu para mim os olhos, aqueles olhos bonitos, graves e pretos, e disse com solenidade propositada e vagarosa: “Tenho o prazer de poder declarar-lhe que o seu trabalho foi aceito para o folhetim da “Neue Freie Press”. Foi como se Napoleão no campo de batalha pregasse no peito de um jovem sargento a cruz da Legião de Honra.

Esse episódio, à primeira vista, parece pequeno, sem importância. Mas é preciso haver sido vienense, vienense daquela época, para compreender que impulso para cima esse acoroçoamento representava. Com ele, aos dezenove anos, de repente fui elevado a uma posição preeminente, e Theodor Herzl, que desde esse primeiro momento se mostrou meu amigo, aproveitou logo um ensejo casual para, em um dos seus artigos, escrever que não se deveria acreditar numa decadência da arte em Viena. Ao contrário, existia agora, escreveu ele, além de Hofmannsthal, uma série de talentos novos, dos quais se deveriam esperar as melhores produções, e citou em primeiro lugar o meu nome. Sempre considerei especial distinção o ter sido um homem da importância e preeminência de Theodor Herzl o primeiro que publicamente, num lugar de grande projeção e, por isso, cheio de responsabilidade, me protegeu, e foi para mim uma decisão difícil o fato de eu — parecendo ingrato — não me associar ativamente e até como um dos chefes a seu movimento sionista, o que ele desejaria que eu fizesse.

Mas eu não conseguia simpatizar verdadeiramente com esse movimento; causava-me má impressão a maneira desrespeitosa, hoje não mais concebível, com que os correligionários propriamente ditos de Herzl procediam em relação a este. Os judeus orientais declaravam que ele nada entendia do judaísmo, que nem sequer conhecia os costumes deste, os economistas consideravam-no folhetinista, cada qual fazia sua objeção, que nem sempre era das mais respeitosas. Eu sabia quanto precisamente então seriam úteis e necessárias a Herzl pessoas, e sobretudo pessoas jovens. Mas o espírito rixoso e altercador dessa incessante oposição e a falta de subordinação sincera e cordial dessa gente me afastaram do movimento, do qual eu me teria aproximado com curiosidade, só por causa de Herzl. Quando certa vez conversávamos sobre o assunto confessei-lhe abertamente o desagrado que a falta de disciplina em suas fileiras me causava. Ele sorriu um pouco contrafeito e disse: “Não se esqueça de que há séculos estamos habituados a brincar com problemas, a lutar contra ideias. Nós judeus, há dois mil anos, no que se refere à História, não temos o hábito de dar algo de real ao mundo. Precisamos primeiramente aprender a dedicação absoluta e eu próprio até hoje ainda não a aprendi, pois continuo a escrever folhetins de vez em quando e a ser redator do folhetim da "Neue Freie Press", e era de meu dever não pensar senão no nosso problema, não escrever uma linha sobre qualquer outra coisa. Mas já estou em caminho para me corrigir, quero primeiramente aprender eu próprio a dedicação absoluta, e talvez depois os outros também a aprendam". Sei que essas palavras me causaram profunda impressão, pois nem todos compreendiam que Herzl ainda não podia decidir-se a abandonar o seu lugar na "Neue Freie Press". Pensávamos que ele não o abandonava por causa dos encargos com a família. Só muito mais tarde veio o mundo a saber que ele não pensara assim e que sacrificara à causa do judaísmo sua fortuna particular. Quanto essa dissensão do seu espírito o fazia sofrer, fiquei sabendo não só por essa conversa, mas também por muitas notas de seus diários.

Depois ainda o vi várias vezes, de todos os encontros com ele só um ficou inolvidável para mim, talvez porque foi o último. Eu estivera no estrangeiro e não tivera com Viena outra comunicação senão por cartas. Certo dia o encontrei no Parque da Cidade. Evidentemente saíra da redação, caminhava muito devagar e um pouco curvado; seu andar já não era o de outrora, desembaraçado. Saudei-o cortêsmente e quis seguir o meu caminho, mas ele dirigiu-se célere para mim, apertou-me a mão e falou-me: "Por que se oculta? Não tem necessidade de fazê-lo!" Deu muita importância ao fato de eu frequentemente viajar para o estrangeiro. "É nosso único caminho", disse ele. "Tudo o que sei, aprendi no estrangeiro. Só nele nos habituamos a observar de longe. Estou convencido de que aqui nunca eu teria o ânimo para aventar aquela primeira concepção, ter-ma-iam destruído enquanto ela ainda estava germinando e crescendo. Mas, graças a Deus, quando eu a trouxe para aqui, tudo já estava pronto, e não puderam fazer outra coisa senão criticá-la". Queixou-se então amargamente de Viena; nela encontrara os mais fortes obstáculos, e, se não chegassem do exterior, sobretudo do Oriente e nesse momento também da América, novos impulsos, já teria desistido de tudo. "Meu erro", disse ele, “foi haver iniciado tarde demais. Victor Adler aos trinta anos, em seus melhores, em seus verdadeiros anos de luta, se tornou chefe da democracia social, e dos grandes homens da História nem quero falar. Se soubesse como sofro, pensando nos anos perdidos, pensando em que não me entreguei mais cedo à minha tarefa. Se minha saúde se achasse tão boa como a minha vontade, tudo estaria bem, mas anos perdidos não se podem reaver”. Acompanhei-o até a sua morada. Ali chegados, ele parou, estendeu-me a mão e disse: “Por que nunca vem à minha casa? Nunca me visitou em minha residência. Telefone-me antes, que arranjarei tempo para conversarmos”. Prometi-lhe fazê-lo, firmemente resolvido a não cumprir a promessa, pois quanto mais gosto de uma pessoa tanto mais respeito o seu tempo. Estava absolutamente decidido a não ir visitá-lo.

Todavia fui à casa dele e isso fiz apenas poucos meses mais tarde. A enfermidade que já naquela ocasião começara a curvá-lo, derrubara-o de repente, e só pude acompanhá-lo para o cemitério. Foi um dia fora do comum, um dia de julho, inolvidável para todos os que viram o que nele aconteceu em Viena. Subitamente afluíram a todas as estações de estrada de ferro da cidade, vindas por todos os trens de dia e de noite, chegaram pessoas de todos os países, judeus ocidentais, orientais, russos e turcos, de todas as províncias e cidadezinhas, trazendo ainda no semblante o espanto causado pela notícia; nunca se sentiu mais nitidamente que ali tombara o chefe de um grande movimento, cujo valor as disputas e as rixas não deixaram ser percebido. Foi um cortejo imenso. De repente, Viena notou que morrera não só um escritor ou poeta medíocre, mas sim também um daqueles criadores de ideias que só com imensos intervalos surgem triunfantes num país, num povo. No cemitério originou-se um tumulto; enorme massa de pessoas, aproximou-se subitamente do esquife, chorando, soluçando, num desespero brutal e explosivo, houve quase um acesso de loucura, de furor; toda ordem era rompida por uma espécie de luto elementar e extático como eu nunca vi, nem antes nem depois, por ocasião de um enterro. Por essa dor imensa, irrompida abruptamente do íntimo de um milhão de pessoas, pude, pela primeira vez, avaliar quanto entusiasmo e esperança aquele homem sozinho lançara no mundo mediante a força de seu pensamento.
 
Funeral de Theodor Herzl em Viena em 07/07/1904

*   *   *

A verdadeira importância da minha admissão solene para colaborar no folhetim da “Neue Freie Presse” manifestou-se na minha vida particular. Com essa admissão adquiri uma segurança inesperada diante de minha família. Meus pais ocupavam-se com literatura e não se atreviam a dar opiniões a respeito dela; para eles, como para toda a burguesia vienense, era importante o que era elogiado na “Neue Freie Presse” e não tinha importância o que ali era ignorado ou reprovado. O que estava escrito no folhetim, parecia-lhes garantido pela mais alta autoridade, pois quem ali opinava e orientava, já pela sua simples posição, despertava respeito. Imagine-se agora uma família que com respeito e expectação dirigia diariamente o olhar para a primeira página do seu jornal e certa manhã, descobriu esta coisa incrível: que o rapaz de dezenove anos, bastante desmazelado no vestir, que está sentado à mesa, que na escola de nenhum modo se distinguia e cujos escritos ela com benevolência aceitava como brincadeiras “não perigosas” (em todo caso sempre melhores do que os jogos de carta ou os namoros com meninas levianas), podia tomar a palavra nesse lugar cheio de responsabilidade, entre homens célebres e experimentados, para manifestar suas opiniões. Se eu tivesse escrito as mais belas poesias de Keats, Hölderlin ou Shelley, não teria isso produzido nos que me cercavam tão completa mudança de opinião em relação à minha pessoa. Quando eu chegava ao teatro, os espectadores mostravam uns aos outros o jovem enigmático que de maneira misteriosa penetrara no santuário reservado para as pessoas velhas e venerandas. Como eu frequentemente e quase regularmente publicava trabalhos no folhetim, incorri em breve no perigo de tornar-me uma pessoa de respeito e de importância na localidade, perigo a que eu, porém, felizmente, me subtraí a tempo, surpreendendo, uma manhã, a meus pais com a comunicação de que queria estudar no semestre seguinte em Berlim. Minha família respeitava demasiado a minha pessoa, ou melhor, a “Neue Freie Presse”, a cuja sombra eu me encontrava, para não deixar de aceder ao meu desejo. 
 
 
III. BIBLIOGRAFIA adicional sugerida pelo gerente do blog 
 
 
ALMEIDA, Paulo Roberto de: Stefan Zweig e o país que não chegou ao futuro, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 20/04/2025
 
BIBLIOTHÈQUE NUMÉRIQUE ROMANDE: Le Monde d'Hier, traduzido do alemão para o francês por Jean-Paul Zimmermann, 1948, 522 p.
 
CHACON, Vamireh: Tragédia e Equívoco de Stefan Zweig, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 16/09/2026
 
SCHWAMBORN, Ingrid: Stefan Zweig e suas viagens pelo Brasil, publicado pelo Blog do Braga em 17/01/2018
 
ZWEIG, Stefan: O mundo insone, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 16/02/2025
 
_____________: JEAN JAURÈS, o socialista, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 25/04/2025
 
_____________: O Rio antigo, publicado pelo Blog do Braga em 15/09/2024
 

domingo, 4 de outubro de 2026

PASSEIO

Por Fernando Sabino


Transcrevemos a crônica "Passeio", publicada originalmente em 1959, considerada uma das crônicas mais sensíveis do autor sobre as relações familiares.

FERNANDO Tavares SABINO (✰BH, 12/10/1923 ✞Rio, 11/10/2004)

 
I. "PASSEIO"
 
— Aonde vamos, papai? 
Seguiam devagar, de mãos dadas, em direção ao túnel. Ele olhou em redor, desorientado. 
— Dar um passeio... Vamos passar pelo túnel – resolveu. — A pé, você já passou pelo túnel a pé? 
— Não – disse a menina, extasiada. Num passeio com o pai, tudo era motivo de prazer. — A gente pode? 
— Pode. Tem um lugar do lado que é para a gente passar. 
— De que é feito o túnel, papai? 
De que era feito o túnel? Essa era uma pergunta meio tola. Tinha oito anos e parecia inteligente... O túnel era um buraco na montanha, não era feito de nada. 
— Ah... 
De repente, porém, ela o surpreendeu: 
— Túnel deprime muito a gente. 
— Deprime? Com quem você aprendeu isso? 
— Com mamãe: nós duas andamos muito deprimidas. 
Positivamente, a mulher deveria ter mais cuidado com o que falava. O que seria daquela menina, sem ele perto, para... para... 
— E por que vocês andam deprimidas? 
— Não sei: acho que é porque não temos vontade de comer. 
Era preciso falar – e falar com jeito, sem escandalizar a menina, assustá-la para a vida. Não dê motivo fútil – era o que recomendavam. O que uma menina de oito anos entenderia por motivo fútil? 
— Você já está mocinha – tentou, desajeitadamente, e não soube continuar. 
— Aonde nós vamos, papai? 
Saíram do túnel. O melhor era procurar um lugar calmo, sossegado. Uma confeitaria, talvez. 
— Você quer tomar um sorvete? 
— Mamãe disse que está muito frio. 
— Não tem importância – disse ele apressadamente: — Vamos tomar um sorvete. 
Satisfeitos ambos com a resolução, entraram num ônibus e saltaram à porta da confeitaria. Ela se deteve junto à vitrine: 
— Olha, papai, que bonito. 
Era uma horrorosa caixa de bombons em forma de coração. 
— Dou de presente, você quer? – e puxou-a pelo braço, em direção á entrada. Dar-lhe-ia tudo que quisesse, como a comprar sua simpatia para o que tinha a dizer. 
— Mamãe falou que não posso comer bombom senão não janto. 
— Hoje você pode, sim. 
A mãe também estava exagerando, oprimindo a menina. Não tinha nada de mais comer um bombom de vez em quando. E aquele dia não era um dia comum – pensou, sem perceber que violentava as regras intransigentes de educação da filha que ele próprio firmara e que a mulher agora não fazia senão obedecer. Oprimindo a menina. Nós duas andamos muito deprimidas. 
Pessoas entravam e saíam da confeitaria, movimentada àquela hora da tarde. Moças e rapazes esperavam mesa, conversando em grupos, alguns olharam aquele homem tímido, meio curvado, que entrava com uma menina pela mão. Sentiu-se constrangido no ambiente elegante da confeitaria, sentiu-se velho entre aqueles rapazes de suéter e aquelas moças de calça comprida, como rapazes. Em dez anos a filha estaria assim. Dez anos passam depressa. Dez anos haviam passado. 
— Aqui não tem lugar – disse ele, contendo a menina. — Vamos ali para o fundo. 
Passaram ao outro lado da confeitaria, de aspecto mais humilde. 
— Aqui tem sorvete também. Não está bom? 
A menina sacudiu a cabeça, submissa: 
— Lá na frente era melhor...
— Lá na frente não tem lugar. 
— Mas aqui não tem bombom. 
— Ah, me esqueci de sua caixa de bombons! Espere aí que eu vou buscar. 
Sentou-se a uma das mesas e ordenou ao garçom: 
— Traga um sorvete para esta menina, Que sorvete você quer, minha filha? De coco?chocolate? 
— Milk shake – disse ela, com displicência. O garçom logo a entendeu. O pai olhou-a espantado: 
— Que é que você pediu? 
— Milk shake. Venho aqui sempre com a mamãe e ela pede milk shake. 
— Então espera aí direitinho que vou buscar seus bombons, volto já. 
Passou à outra parte da confeitaria, dirigiu-se ao balcão: 
— Quero aquela caixa de bombons que está ali na vitrine, aquela feia, em forma de coração. De longe avistou a filha, perninhas dependuradas, a chupar o canudo do refresco, olhos vagos, distraídos, inconstantes – os olhos da mãe. 
— Demorei? – e sentou-se ao lado dela. 
— Fiquei com medo de você ir embora. 
— Então eu ia fazer uma coisa dessas, minha filha, ir embora? 
A menina apontou a mesa com os olhos, sem abandonar a palha do refresco: 
— Pedi um milk shake para você. 
Ele se ajeitou na cadeira e acendeu um cigarro. Chegara o momento – como começar? 
— Você sentiu saudade do papai? 
— Não, porque você demorou pouco. Comprou? 
— Comprei, olha aqui – e exibiu-lhe o embrulho. 
— Vou levar para mamãe – resolveu ela, subitamente inspirada. — Pode? 
— Pode – e ele passou a mão pelo rosto, desconcertado. — Um presente seu para ela. 
— Meu, não: seu – fez a menina, como a experimentá-lo. Não respondeu. Ela voltara a chupar o canudo de palha, agora soprava para dentro do copo, fazendo espuma no refresco. 
— Eu pergunto se você sentiu saudade de mim não foi agora não, foi quando estive viajando. 
— Você esteve viajando mesmo? 
Meu Deus, como começar? Era preciso começar, já se fazia tarde, o refresco se acabava, em pouco tinha de levá-la de volta para a mãe. Estivera viajando sim, por que haveria de mentir? 
— E chegou assim, sem mala, sem nada? 
— É porque eu cheguei... Isto é... Olha aqui. Toma este outro também, papai não está com vontade – e passou-lhe o copo. 
— Assim não janto e mamãe zanga – disse ela, indecisa, a boca a meio caminho do segundo refresco. 
— Não tem importância. Diga que fui eu. 
Não tinha importância – o importante era dizer, contar tudo, escandalizar, violentar a inocência da menina. Assim recomendavam todos hoje em dia: as crianças devem saber de tudo, porque senão inventam por conta própria, e é pior. O que não é capaz de inventar uma criança? Antigamente na escola, entre as amigas, a criança se sentia a única, mas hoje em dia podia-se dizer que era a regra, tantos casais separados! E sacudiam a cabeça, convictos: sobretudo não dê motivo fútil. 
— Escuta, minha filha, você é uma mocinha, já deve saber as coisas. 
Voltava à formula da mocinha. Agora era continuar, custasse o que custasse. Daria tudo para não viver jamais aquele instante. Pensou se não era bom tomar antes um conhaque. 
— Estive viajando sim, mas não é por isso que não estou morando mais com você. Agora, por exemplo, já cheguei e não vou dormir lá em casa. 
— Onde é que você vai dormir?  
— Noutro lugar – respondeu ele, evasivo: não pensava em dizer onde estava morando, ela poderia querer ir com ele. 
— E quem é que vai dormir com a mamãe? 
A pergunta apanhou-o desprevenido, sentiu-se jogado de súbito naquela atmosfera de ansiedade que precedera a separação. 
— Me diga uma coisa, filhinha – ele não resistia, e se inclinava, ansioso, sobre a mesa, segurando a mão da filha: — Você disse que vem sempre aqui com sua mãe... Sozinha? Não vem ninguém mais com vocês? 
A menina limitou-se a negar com a cabeça, sempre tomando o refresco.  
— E lá em casa? Tem ido alguém visitar mamãe? 
Desta vez ela sacudiu a cabeça afirmativamente. 
— Quem? 
Desgarrou os lábios da palha já amassada para responder: 
— Vovó. 
Ele chamou o garçom e pediu um conhaque. Voltou a acomodar-se na cadeira, perturbado. Não interessava! Tudo acabado para sempre. Agora restava contar para a filha: 
— Sabe, filhinha, você já é uma... Bem, isso eu já disse. Quero dizer o seguinte: você sabe que papai gosta muito de sua mãe... 
Antes de mais nada, deixar bem a mãe: era também o que aconselhavam. Tomou de uma só vez o conhaque e prosseguiu: 
— Sua mãe é muito boa, sabe? Muito boa mesmo, gosta muito de você, você deve ser obediente e boazinha para ela. 
Não, não era isso. Precisava dizer logo, ou não diria nunca: 
— Papai gosta dela e ela de papai. Mas acontece, sabe?, que ela é muito diferente do papai, gosta de uma coisa, papai de outra... 
Motivo fútil. O que não seria motivo fútil? 
— Bem, eu e sua mãe gostamos muito um do outro mas eu andava muito cansado, trabalhando o dia todo, sua mãe muito nervosa, nós vivíamos discutindo... brigando... 
— Se gostam, por que é que brigam? 
Foi a única vez que a menina o interrompeu. Dali por diante ficou calada, olhando para outro lado, e ele prosseguiu como pôde, dizendo: ela não tinha amiguinha no colégio? não gostavam uma da outra? e de vez em quando não brigavam? Pois então? Com eles também era assim. E para viver junto era preciso não brigar nunca, era preciso ser muito bom um para o outro, era preciso... 
— Minha filha, você não está me escutando. 
— Estou sim, papai... 
A menina terminara o refresco e agora riscava distraidamente a mesa coma palha umedecida. 
— Que é que estou dizendo? 
Ela voltou-se para ele: 
— Está dizendo que você e mamãe vão separar. 
Ele respirou fundo, num misto de angústia e alivio: 
— Mas vou visitar vocês sempre... 
— Eu sei. 
— Posso levar você para passear. 
— Sei. 
— Posso... Posso... 
Ela se levantou, puxando-o pela mão: 
— Papai, me leva embora que já está ficando tarde. 
— Minha filha – disse ele, confuso e comovido, e não resistiu, tomou-a no colo, abraçou-a com força, enquanto lágrimas lhe enchiam os olhos. Quis falar e as palavras se prenderam num engasgo. Um casal sentado ao fundo da confeitaria, mãos dadas sobre a mesa, voltou-se curiosamente para vê-lo. Ele depositou a menina no chão, sem que ela oferecesse resistência. Chamou o garçom, pagou, reteve a filha: 
— Olha, você está esquecendo os bombons. 
Saíram, e a menina o conduzia pela mão, como a um cego.
 
 
II. BREVE ANÁLISE DA CRÔNICA "PASSEIO"
 
[SÁ apud TRISTÃO, 2005, 49-50] assegura que Sabino também se vale de alguns recursos tais como ― o uso exclusivo de diálogos (com a completa ausência do narrador) e a concentração do relato numa situação exemplar compondo um texto que fica entre a crônica e o conto.
[TRISTÃO, 2013, 53] acha "possível uma tentativa de classificação ou tipologia das crônicas de Sabino a partir de alguns temas e processos recorrentes, lembrando que muitas vezes as crônicas do autor fogem a uma marcação formal rígida, já que são dotadas de uma mistura de procedimentos que as deslocam de um campo ao outro dependendo da abordagem do leitor". 
Analisando os modos de composição das crônicas por Sabino, acha que se possa considerar "Passeio" como o modelo perfeito do que a academia chama de Crônica-Diálogo, na qual a psicologia dos personagens e o avanço da história dependem integralmente da fala, eliminando longas descrições do narrador.
A Crônica-Diálogo (ou crônica dialogada) é um subgênero da crônica jornalística e literária no qual a narrativa é conduzida quase inteiramente pelas falas das personagens, reduzindo drasticamente ou eliminando por completo as intervenções do narrador. Nesse formato, o texto se aproxima muito da estrutura de uma peça de teatro ou de um roteiro de cinema, mas mantém o tom despretensioso, cotidiano e lírico que caracteriza a crônica brasileira.

A Crônica-Diálogo em "Passeio"

A crônica "Passeio" mostra um pai desorientado que caminha com sua filha de oito anos. Ele tenta encontrar o momento e as palavras certas para revelar que está se separando da mãe dela, mas descobre que a maturidade da infância corre em um ritmo diferente da hesitação adulta.
A crônica "Passeio" é considerada um dos maiores exemplos desse subgênero na literatura nacional.
Sabino abre mão de explicar os sentimentos de culpa do pai ou o sofrimento da filha diante da separação familiar. Em vez disso, ele deixa o leitor testemunhar o drama diretamente através do choque de discursos: a hesitação cheia de rodeios do adulto contraposta à franqueza cortante e direta da criança. O silêncio que se instala entre as falas é o que constrói o peso emocional da narrativa.

Principais Características
 
• Economia Narrativa: Não há espaço para longas descrições de cenários, figurinos ou explicações psicológicas. O leitor precisa deduzir o ambiente e o estado emocional das personagens unicamente pelo tom, ritmo e conteúdo das falas.
• Ação Através da Palavra: O enredo não avança porque as personagens realizam grandes ações físicas, mas porque o diálogo evolui. É na conversa que os segredos são revelados, os conflitos aparecem e os desfechos acontecem.
• Oralidade e Naturalidade: O texto busca mimetizar a fala cotidiana (marcas de hesitação, frases curtas, interrupções, silêncios). No entanto, essa "conversinha" comum é minuciosamente lapidada pelo autor para gerar um efeito estético profundo.
• Subtexto Dominante: O que não é dito explicitamente costuma ser o mais importante. A tensão literária se apoia nas entrelinhas, nos mal-entendidos e nas ironias da comunicação humana. 

O Cenário como Metáfora: O Túnel e a Confeitaria

O percurso físico feito pelos dois funciona como um espelho do estado emocional das personagens:
• O Túnel: Logo no início, o pai decide atravessar um túnel a pé com a filha. A travessia simboliza o momento de transição sufocante, escuridão e angústia da notícia iminente. Quando a menina diz que aprendeu com a mãe que "túnel deprime muito a gente", o leitor percebe o ambiente pesado que ela já vinha testemunhando em casa. A atmosfera escura e sufocante do túnel reflete o estado estendido de profunda tristeza que mãe e filha já se encontravam em casa. Ao cruzarem e saírem do túnel, o ambiente muda.
• A Confeitaria: Ao saírem do túnel, o pai busca o refúgio de uma confeitaria iluminada e lotada. O ambiente barulhento e os doces funcionam como uma tentativa do pai de anestesiar e adoçar uma realidade dolorosa, mimando a filha com um milk-shake e bombons. Embora a notícia seja dolorosa, o ato de sair do túnel simboliza enfrentar a realidade. Ao final, a revelação de que a menina já sabia de tudo e seu gesto de guiar o pai pela mão mostram que, após passar pela "escuridão" do problema, há um caminho de maturidade, superação e afeto entre pai e filha.

O Contraste entre Adulto e Criança

A crônica constrói sua força no choque de percepções entre as duas personagens:
• O Pai: Mostra-se culpado, hesitante e desorientado. Ele subestima a capacidade de compreensão da filha, temendo "assustá-la para a vida", e busca comprar o afeto ou o perdão da menina por meio de mimos materiais (uma caixa de bombons em formato de coração).
• A Filha: Revela uma sensibilidade e uma maturidade agudas. Ao mesmo tempo em que mantém a pureza infantil — maravilhando-se com o passeio a pé e com o milk-shake —, ela quebra a hesitação do pai ao antecipar calmamente a verdade: "você e mamãe vão separar".

Estilo e Recursos Linguísticos

Fiel ao estilo da crônica modernista brasileira, Sabino utiliza uma linguagem limpa, direta e focada no cotidiano.
• Predomínio de Diálogos: O texto progride quase inteiramente por meio do diálogo entre pai e filha. É no que fica subentendido entre as falas que a verdadeira tensão emocional se constrói.
• Ironia Sutil: Há um sutil humor melancólico no fato de o pai tentar encontrar termos complexos e psicológicos para dar a notícia, enquanto a criança desarma toda a encenação com uma frase simples e direta.
• Inversão de Papéis: O desfecho da crônica consagra a "vitória da infância" (tema recorrente nas coletâneas de Sabino). No final, após o segredo ser revelado, as posições se invertem: não é o pai quem ampara a filha, mas a menina quem segura a mão do pai e o conduz, oferecendo o apoio que o adulto desorientado precisava.
 

III. BIBLIOGRAFIA

 
SÁ, Jorge de: A Crônica. São Paulo: Ática, 2005

SABINO, Fernando. Passeio. In: SABINO, Fernando. A companheira de viagem: contos e crônicas. Rio de Janeiro: Record, 1965. pp. 7-15.

_________________ Passeio. In: SABINO, Fernando. Obra reunida. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. v. 2, pp. 11-15.

TRISTÃO, Talita Carlos. As crônicas de Fernando Sabino: “Poesia de observação”. 2013. 106 p. (Dissertação – Mestrado em Letras). Universidade Vale do Rio Verde – UNINCOR – Três Corações – MG 

sábado, 3 de outubro de 2026

CASA DE RUI BARBOSA


Por Raquel Naveira *
 
O jardim frontal da Casa de Rui Barbosa em 1934-Crédito: Acervo Iconográfico da Fundação Casa de Rui Barbosa

Rio de Janeiro. Morro Santa Marta. Rua São Clemente. Casa de Rui Barbosa. Uma mansão neoclássica, aristocrática, no meio de um vasto jardim. Foi o Barão da Lagoa que comprou o terreno e construiu a casa, terminando-a em 1850. Mais tarde, o comerciante português Albino de Oliveira Guimarães adquiriu o imóvel, anos depois, vendeu-o ao inglês John Roscoe Allen. Este, por sua vez, vendeu-a a Rui Barbosa em 1893. A família de Rui ocupou o imóvel depois de voltar da Inglaterra, onde se exilara por motivos políticos. Rui estava com 46 anos, casado com Dona Maria Augusta há 19 anos e o casal tinha cinco filhos. Em homenagem à sua mulher, Rui batizou a casa de “Vila Maria Augusta” (o nome de minha neta, pensei ao ver a inscrição na fachada lateral). Nessa casa Rui viveu até morrer, em 1923, aos 74 anos de idade. 
 
Rui Barbosa em seu jardim-Crédito: Acervo Iconográfico da Fundação Casa de Rui Barbosa
 
Que emoção andar por esse jardim cheio de jambeiros, mangueiras e pitangueiras! Sinto que recuei no tempo e poderei ver Rui Barbosa chegar a qualquer momento, com suas botinas marrons, seu chapéu de feltro cinza, a distinta camisa com gravata branca de laço, apoiado sobre uma bengala. Seria ele aquele vulto franzino, sentado num banco sob a pérgula metálica forrada de folhas de parreira? Será ele? Parece cansado... Derrotado nas urnas em duas campanhas a Presidente da República, depois de tantas lutas, tantas perseguições; depois de representar brilhantemente o Brasil na II Conferência de Paz em Haia, numa atuação que lhe valeu o cognome de Águia de Haia e fez dele um ídolo nacional; depois de defender tantas causas: liberalismo, abolicionismo, liberdade dos cultos, sufrágio direto... Sim, parece cansado. Parece que fala algo. Aproximo-me do pé de fruta-pão e ouço sua voz dizendo:
“ — Sinto vergonha de mim por ter sido educador de parte desse povo, por ter batalhado sempre pela justiça, por compactuar com a honestidade, por primar pela verdade e por ver este povo já chamado varonil enveredar pelo caminho da desonra.” 
Rui levanta-se com dificuldade, entra na casa, eu o sigo. O homem austero, metódico, com uma grande capacidade de trabalho, vai passar mais um dia, mais um século, entre seus livros e escritos. Alcança o gabinete gótico, a imensa biblioteca, vai até o escritório, senta-se em frente à escrivaninha. Antes de molhar a pena no tinteiro, desabafa:
“ — Sinto vergonha de mim por ter feito parte de uma era que lutou pela democracia, pela liberdade de ser, e ter que entregar aos meus filhos a derrota das virtudes pelos vícios, a ausência da sensatez no julgamento da verdade, a negligência com a família, célula-mater da sociedade, a demasiada preocupação com o “eu” feliz a qualquer custo, buscando a tal “felicidade” em caminhos eivados pelo desrespeito para com seu próximo. Tenho vergonha de mim pela passividade em ouvir, sem despejar meu verbo, a tantas desculpas ditadas pelo orgulho e pela vaidade, e tanta falta de humildade para reconhecer um erro cometido, a tantos ‘floreios’ para justificar atos criminosos e tanta relutância em esquecer a antiga posição de sempre ‘contestar’, voltar atrás e mudar o futuro .”
Caminha até a sala de visitas, dirige-se aos convivas invisíveis com sua oratória solene, sua eloqüência clássica, herdada das lições retóricas de Cícero e de Quintiliano, da sintaxe seiscentista do Padre Vieira, do léxico opulento de Herculano e Camilo:
“ — Tenho vergonha de mim, pois faço parte de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer. Tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço. Não tenho para onde ir pois amo este meu chão, vibro ao ouvir meu Hino e jamais usei a Bandeira para enxugar o meu suor ou enrolar meu corpo na pecaminosa manifestação de nacionalidade.”
Rui entra na cozinha, onde o fogão a lenha estala caldas de doces cristalinos em tachos de cobre, desce as escadas de volta ao jardim, aproxima-se das cavalariças onde um “coupé” negro o espera, entra no coche, dá ordem de partida. Tenho a impressão que me olhou fixamente antes da última confissão:
“ — Ao lado da vergonha de mim, tenho pena de ti, povo brasileiro! De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”
Pôr-do-sol. Saio da casa de Rui pelas ruas que lembram os voluntários da pátria. Nem sei, Rui, se tudo isso aconteceu agora ou no passado.