quinta-feira, 4 de junho de 2026

CAROLINA


Por Raquel Naveira *
 
Machado de Assis e Carolina Augusta Xavier de Novais - Crédito: Itaú Cultural


Observo as fotografias de Carolina. Carolina Augusta Xavier de Novaes, a esposa de Machado de Assis. Vestido escuro, austero, todo fechado. Cabelos pretos, presos em coque. Bonita sim. Séria. Quem teria sido essa mulher que viveu por décadas ao lado do escritor? Era portuguesa, irmã do poeta Faustino Xavier de Novaes, amigo de Machado. Culta, forte, inteligente, oriunda de uma elite intelectual. O namoro com Machado foi, a princípio, reprovado pela família. Ele era mulato e humilde. Seria um rebaixamento cultural. Uma vida de dificuldades financeiras. Mas os apaixonados insistiram, trocaram inúmeras cartas, cheias de declarações amorosas como esta: “Carolina, tu pertences ao pequeno número de mulheres que ainda sabem amar, sentir e pensar. Além disso, tens para mim um dote, que realça os demais: sofreste.” Que sofrimento ela teria passado? Uma decepção amorosa em terras lusitanas? Afinal, Carolina tinha 32 anos quando se casou. Cinco a mais do que Machado. Permanece o mistério. 
 
O certo é que ela foi companheira na vida e na arte. Nada era publicado antes do seu aval, da sua leitura atenta, da sua revisão ao passar os textos do marido a limpo. Foi ela que o apresentou aos autores portugueses, ingleses e clássicos. Amava os romances de Jane Austen e das irmãs Brontë. Era caprichosa com a casa, com o arquivamento dos livros e dos papéis. Carolina deu a Machado a estabilidade emocional necessária para o desenvolvimento de uma extensa obra literária. Era desembaraçada, falante. Transitava bem entre os colegas escritores. Nas crises de epilepsia de Machado, era ela quem o socorria, afastava-o dos olhares curiosos, enxugava o suor de sua testa e a espuma de sua boca. O casal não teve filhos, o que os entristecia. Mas viviam intensamente um para o outro. Machado escreveu: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” 
 
A morte de Carolina em 1904 foi um duro golpe para Machado, que viveu seus últimos dias terrivelmente abatido. Escreveu a Joaquim Nabuco: “Foi-se a melhor parte da minha vida, aqui estou só no mundo. Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la...mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada.” Nessa mesma ocasião, vem a lume o soneto “A Carolina”, uma peça comovente:
 
Querida, ao pé do leito derradeiro, 
Em que descansas dessa longa vida, 
Aqui venho e virei, pobre querida, 
 
Trazer-te o coração do companheiro. 
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro 
Que a despeito de toda a humana lida 
Fez a nossa existência apetecida 
E num recanto pôs o mundo inteiro. 
 
Trago-lhe flores, restos arrancados 
Da terra que nos viu passar unidos 
E ora mortos nos deixa e separados. 
 
Que eu se tenho olhos malferidos 
Pensamentos de vida formulados, 
São pensamentos idos e vividos. 
 
Imaginei-me na pele de um leitor anônimo relembrando a figura de Carolina, os passos de Machado. Surgiu este poema: 
 
Muitas vezes os vi 
No Cosme Velho, 
Na casa mergulhada em árvores, 
Rosas e murtas, 
Carolina vestida de preto, 
Machado olhando o regato, 
Partilhando o silêncio e as borboletas. 
 
De manhã, 
O rosto dele, 
Franzino e mulato, 
Ficava ao centro da janela, 
Debruçado sobre papéis avulsos, 
Ora observava os retratos, 
Ora os formatos das letras. 
 
Depois caminhava pela rua do Ouvidor, 
Entre alfaiates, 
Floristas, 
Joalheiros, 
Cumprimentando a todos, cortês, 
Chegava à livraria Garnier 
Em busca de um livro francês. 
 
Estava na repartição, 
No gabinete, 
Nos jantares, 
Nas reuniões, 
Sempre com sua ironia tranquila, 
Cheio de piedade 
Por vítimas e algozes. 
 
Seu cotidiano, 
Presenciei, 
Era simples e burguês, 
Mas da mente saíam crisálidas, 
Falenas, 
Vermes que roíam cadáveres 
Em ressacas de pessimismo. 
 
Assisti ao calvário de sua doença: 
A ausência, 
A boca amarga, 
A crise de nervos, 
Como se Netuno 
Com seu tridente 
Abalasse suas carnes de vulcão. 
 
Estava perto 
Naquele domingo 
Quando ele saltou do bonde 
Segurando flores, 
Em direção ao cemitério, 
Ao túmulo de Carolina, 
Ao leito derradeiro 
Da amada compreensiva e boa. 
 
Fui eu o leitor anônimo 
Que lhe fez a última visita 
Bati na porta, 
Abriram, 
Conduziram-me até ele, 
Ajoelhei-me, 
Tomei sua mão de mestre, 
Beijei-a 
E pensei: 
“Sou o filho que não tiveste, 
Aquele a quem deixaste teu legado: 
Teus livros, teu encanto 
E a compreensão de nossa miséria”.
 
* Graduada em Direito e em Letras pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/SP. Doutora em Literatura Portuguesa pela USP. Professora de Literaturas Brasileira, Portuguesa, Latina, por 31 anos na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), onde se aposentou. Ministrou ainda disciplinas de Literaturas Brasileira, Portuguesa, Latina, por 31 anos na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), onde se aposentou. Depois disso, no período que morou em São Paulo, deu aulas de Pós-Graduação em várias Universidades e em aparelhos culturais como Casa das Rosas, Casa Mário de Andrade, Casa Guilherme de Almeida e PEN Clube do Brasil. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, onde ocupa a Cadeira nº 8, à Academia Cristã de Letras de São Paulo e ao PEN Clube do Brasil. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, onde ocupa a Cadeira nº 8, à Academia Cristã de Letras de São Paulo e ao PEN Clube do Brasil. Como escritora, é autora de quase 40 livros publicados. 
 
II. AGRADECIMENTO 

À minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação do registro fotográfico utilizado neste trabalho.  

3 comentários:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
A escritora RAQUEL NAVEIRA, natural de Campo Grande-MS e colaboradora do Blog de São João del-Rei, participa com nova crônica intitulada CAROLINA, finalizando com um poema de sua autoria, no qual reconstitui a solidão de Machado de Assis após a morte de sua esposa Carolina Augusta Xavier de Novais (Porto, 1835-Rio de Janeiro, 20/10/1904).

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/06/carolina.html

Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei

Francisco José dos Santos Braga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Francisco José dos Santos Braga disse...

Jorge Antunes (maestro, ex-professor universitário, compositor, precursor da música eletrônica no Brasil, reconhecido internacionalmente) disse...

31 de maio/2023
Morre em Brasília a pianista Mariuga Lisbõa Antunes, esposa do compositor Jorge Antunes, que em sua homenagem escreveu:
Três anos sem minha musa,
mãe, irmã, deusa, rainha.
A vida ficou confusa:
sem graça, ela definha.