Por MACHADO DE ASSIS
I
Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! que desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outros sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e la glace est rompue ²; está começada a crônica.
Mas, leitor amigo, esse meio é mais velho ainda do que as crônicas, que apenas datam de Esdras. Antes de Esdras, antes de Moisés, antes de Abraão, Isaac e Jacó, antes mesmo de Noé, houve calor e crônicas. No paraíso é provável, é certo que o calor era mediano, e não é prova do contrário o fato de Adão andar nu. Adão andava nu por duas razões, uma capital e outra provincial. A primeira é que não havia alfaiates, não havia sequer casimiras; a segunda é que, ainda havendo-os, Adão andava baldo ao naipe ³. Digo que esta razão é provincial, porque as nossas províncias estão nas circunstâncias do primeiro homem.
Quando a fatal curiosidade de Eva fez-lhes perder o paraíso, cessou, com essa degradação, a vantagem de uma temperatura igual e agradável. Nasceu o calor e o inverno; vieram as neves, os tufões, as secas, todo o cortejo de males, distribuídos pelos doze meses do ano.
Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas. Essas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta, para debicar ⁴ os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastimar-se do calor. Uma dizia que não pudera comer ao jantar, outra que tinha a camisa ensopada do que as ervas que comera. Passar das eras às plantações do morador fronteiro, e logo às tropelias ⁵amatórias do dito morador, e ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo. Eis a origem da crônica.
Que eu, sabedor ou conjeturado de tão alta prosápia ⁶, queira repetir o meio de que lançaram mão as duas avós do cronista, é realmente cometer uma trivialidade; e contudo, leitor, seria difícil falar desta quinzena ⁷ sem dar à canícula o lugar de honra que lhe compete. Seria; mas eu dispensarei esse meio quase tão velho como o mundo, para somente dizer que a verdade mais incontestável que achei debaixo do sol, é que ninguém se deve queixar, porque cada pessoa é sempre mais feliz do que outra.
Não afirmo sem prova.
Fui há dias a um cemitério, a um enterro, logo de manhã, num dia ardente como todos os diabos e suas respectivas habitações. Em volta de mim ouvia o estribilho geral: — Que calor! que sol! é de rachar passarinho ⁸! é de fazer um homem doido!
Íamos em carros; apeamo-nos à porta do cemitério e caminhamos um longo pedaço. O sol das onze horas batia de chapa em todos nós; mas sem tirarmos os chapéus, abríamos os de sol ⁹ e seguíamos a suar até o lugar onde devia verificar-se o enterramento. Naquele lugar esbarramos com seis ou oito homens ocupados em abrir covas: estavam de cabeça descoberta, a erguer e fazer cair a enxada. Nós enterramos o morto, voltamos nos carros, e daí às nossas casas ou repartições. E eles? Lá os achamos, lá os deixamos, ao sol, de cabeça descoberta, a trabalhar com a enxada. Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres diabos, durante todas as horas quentes do dia?
II
Para fazer alguma diversão ¹⁰aparece uma mulher que se traspassa, tal qual a mais ínfima taberna. A diferença é que a taberna traspassa-se por meio de uma escritura e a mulher por meio de uma espada. Antes a escritura.
Não vi ainda essa dama, que achou meio de fazer do próprio pescoço uma bainha e suicidar-se uma vez por noite, antes de tomar chá. Já vi um sujeito que engolia espadas; vi também uma cabeça que fazia discursos, dentro de um prato, em cima de uma mesa, no meio de uma sala. O segredo da cabeça descobri-o eu, no fim de dois minutos; não assim o do engole-espadas. Mas, tenho para mim, que ninguém pode engolir uma espada, nem quente nem fria (ele engolia-as em brasa), e concluo que algum segredo havia, menos acessível ao meu bestunto ¹¹.
Não digo com isto que a dama da rua da Carioca deixe de cravar efetivamente uma espada no pescoço. É mulher e basta. Há de ser ciumenta, e adquiriu essa prenda, na primeira cena de ciúmes que teve de representar. Quis matar-se sem morrer, e bastou o desejo para realizá-lo; de maneira que aquilo mesmo que me daria a morte, dá a essa senhora nada menos do que vida. A razão da diferença pode ser que esteja na espada, mas eu antes creio que está no sexo.
Anda no Norte um colono, um homem que faz coisas espantosas. No Sul apareceu um menino mulher. Todos os prodígios vieram juntar-se à sombra de nossas palmeiras: é um rendez-vous ¹² das coisas extraordinárias.
Sem contar os tufões.
Não vi ainda essa dama, que achou meio de fazer do próprio pescoço uma bainha e suicidar-se uma vez por noite, antes de tomar chá. Já vi um sujeito que engolia espadas; vi também uma cabeça que fazia discursos, dentro de um prato, em cima de uma mesa, no meio de uma sala. O segredo da cabeça descobri-o eu, no fim de dois minutos; não assim o do engole-espadas. Mas, tenho para mim, que ninguém pode engolir uma espada, nem quente nem fria (ele engolia-as em brasa), e concluo que algum segredo havia, menos acessível ao meu bestunto ¹¹.
Não digo com isto que a dama da rua da Carioca deixe de cravar efetivamente uma espada no pescoço. É mulher e basta. Há de ser ciumenta, e adquiriu essa prenda, na primeira cena de ciúmes que teve de representar. Quis matar-se sem morrer, e bastou o desejo para realizá-lo; de maneira que aquilo mesmo que me daria a morte, dá a essa senhora nada menos do que vida. A razão da diferença pode ser que esteja na espada, mas eu antes creio que está no sexo.
Anda no Norte um colono, um homem que faz coisas espantosas. No Sul apareceu um menino mulher. Todos os prodígios vieram juntar-se à sombra de nossas palmeiras: é um rendez-vous ¹² das coisas extraordinárias.
Sem contar os tufões.
III
Falei no cemitério, sem dizer que a esta hora ou pouco mais tarde, terá o leitor de ir à visitação dos defuntos.
A visitação dos defuntos é um bom costume católico; mas não há trigo sem joio; e a opinião do Sr. Artur Azevedo é que, na visitação, tudo é joio sem trigo.
A sátira publicada por esse jovem escritor é um opúsculo, contendo umas quantas centenas de versos, fáceis e correntios, com muito pico ¹³, boa intenção, catanada ¹⁴ cega e às vezes cega demais. A ideia do poeta é que há ostentação repreensível na demonstração de uma piedade ruidosa. Tem razão. Há excesso de vidrilhos e candelabros, de souvenirs e de inconsoláveis. Alguns quadros estão pintados com traços tão espantosos, que fazem recuar de horror. Será certo que se tomam nos cemitérios aquelas carraspanas ¹⁵, que se comem aqueles camarões torrados? O poeta o diz; e se o colorido pode estar carregado, o desenho deve ser fiel. Na verdade é de fazer pedir uma reforma nos costumes, ou a eliminação... dos vivos.
Onde o poeta me parece ter levado a sátira além da meta, é no que diz da viúva que, convulsa de dor pela morte do marido, vem a casar um ano depois. Hélas! ¹⁶ Isso que lhe parece melancólico, e na verdade o é, não deixa de ser necessário e providencial. A culpa não é da viúva, é da lei que rege esta máquina, lei benéfica, tristemente benéfica, mediante a qual a dor tem de acabar, como acaba o prazer, como acaba tudo. É a natureza que sacrifica o indivíduo à espécie.
O poeta é favorável ao sistema da cremação. A cremação tem adversários, ainda fora da igreja; e até agora não me parece essa imitação do antigo seja uma alta necessidade do século. Pode ser higiênico; mas no outro método parece haver mais piedade, e não sei se mais filosofia. Numa das portas do cemitério do Caju, há este lema: Revertere ad locum tuum. ¹⁷Quando ali vou, não deixo de ler essas palavras, que resumem todo o resultado das labutações da vida. Pois bem; esse lugar, teu e meu, é a terra, a terra donde viemos, para onde iremos todos, alguns palmos abaixo do solo, no repouso último e definitivo, enquanto a alma vai a outras regiões.
No entanto, parabéns ao poeta.
A visitação dos defuntos é um bom costume católico; mas não há trigo sem joio; e a opinião do Sr. Artur Azevedo é que, na visitação, tudo é joio sem trigo.
A sátira publicada por esse jovem escritor é um opúsculo, contendo umas quantas centenas de versos, fáceis e correntios, com muito pico ¹³, boa intenção, catanada ¹⁴ cega e às vezes cega demais. A ideia do poeta é que há ostentação repreensível na demonstração de uma piedade ruidosa. Tem razão. Há excesso de vidrilhos e candelabros, de souvenirs e de inconsoláveis. Alguns quadros estão pintados com traços tão espantosos, que fazem recuar de horror. Será certo que se tomam nos cemitérios aquelas carraspanas ¹⁵, que se comem aqueles camarões torrados? O poeta o diz; e se o colorido pode estar carregado, o desenho deve ser fiel. Na verdade é de fazer pedir uma reforma nos costumes, ou a eliminação... dos vivos.
Onde o poeta me parece ter levado a sátira além da meta, é no que diz da viúva que, convulsa de dor pela morte do marido, vem a casar um ano depois. Hélas! ¹⁶ Isso que lhe parece melancólico, e na verdade o é, não deixa de ser necessário e providencial. A culpa não é da viúva, é da lei que rege esta máquina, lei benéfica, tristemente benéfica, mediante a qual a dor tem de acabar, como acaba o prazer, como acaba tudo. É a natureza que sacrifica o indivíduo à espécie.
O poeta é favorável ao sistema da cremação. A cremação tem adversários, ainda fora da igreja; e até agora não me parece essa imitação do antigo seja uma alta necessidade do século. Pode ser higiênico; mas no outro método parece haver mais piedade, e não sei se mais filosofia. Numa das portas do cemitério do Caju, há este lema: Revertere ad locum tuum. ¹⁷Quando ali vou, não deixo de ler essas palavras, que resumem todo o resultado das labutações da vida. Pois bem; esse lugar, teu e meu, é a terra, a terra donde viemos, para onde iremos todos, alguns palmos abaixo do solo, no repouso último e definitivo, enquanto a alma vai a outras regiões.
No entanto, parabéns ao poeta.
IV
Se eu disser que a vida é um meteoro, o leitor pensará que vou escrever uma coluna de filosofia, e eu vou apenas noticiar-lhe o Meteoro, um jornal de 8 páginas, que inscreve no programa: "O Meteoro não tem pretensões à duração."
Bastam essas quatro palavras para ver que é jornal de espírito e senso. Geralmente, cada folha que aparece promete, pelo menos, três séculos e meio de existência, e uma regularidade cronométrica. O Meteoro nem promete durar, nem aparecer em dias certos. Virá quando puder vir.
Variado, gracioso, interessante, em alguns lugares, sério e até científico, o Meteoro deixa-se ler sem esforço nem enfado. Pelo contrário; lastima-se que seja meteoro e deseja-se-lhe um futuro de planeta, pelo menos que dure tanto como o planeta em que ele e nós habitamos.
Planeta, meteoro, duração, tudo isso me traz à mente uma ideia de um sábio francês moderno. Por cálculos que fez, é opinião dele que de dez em dez mil anos, haverá na terra um dilúvio universal, ou pelo menos continental, por motivo do deslocamento dos oceanos, produzido pelo giro do planeta.
Um dilúvio periódico! Que será feito então da imortalidade das nossas obras? Salvo se puserem na arca um exemplar das de todos os poetas, músicos e artistas. Oh! mas que arca não será essa! Se não temesse uma vaia, diria que será arcabuz.
Bastam essas quatro palavras para ver que é jornal de espírito e senso. Geralmente, cada folha que aparece promete, pelo menos, três séculos e meio de existência, e uma regularidade cronométrica. O Meteoro nem promete durar, nem aparecer em dias certos. Virá quando puder vir.
Variado, gracioso, interessante, em alguns lugares, sério e até científico, o Meteoro deixa-se ler sem esforço nem enfado. Pelo contrário; lastima-se que seja meteoro e deseja-se-lhe um futuro de planeta, pelo menos que dure tanto como o planeta em que ele e nós habitamos.
Planeta, meteoro, duração, tudo isso me traz à mente uma ideia de um sábio francês moderno. Por cálculos que fez, é opinião dele que de dez em dez mil anos, haverá na terra um dilúvio universal, ou pelo menos continental, por motivo do deslocamento dos oceanos, produzido pelo giro do planeta.
Um dilúvio periódico! Que será feito então da imortalidade das nossas obras? Salvo se puserem na arca um exemplar das de todos os poetas, músicos e artistas. Oh! mas que arca não será essa! Se não temesse uma vaia, diria que será arcabuz.
MANASSÉS
II. GLOSSÁRIO por Francisco José dos Santos Braga
1 Machado de Assis assinou com o heterônimo "Manassés" a crônica dentro da seção intitulada "História de quinze dias" (dedicada à política, cultura e variedades), publicada na revista quinzenal Illustração Brasileira em 1º de novembro de 1877, edição nº 33, pp. 142 e 143. Colaborou com 37 crônicas de 1º de julho de 1876 a 1º de janeiro de 1878. Quando a revista se tornou mensal, em fevereiro de 1878, a coluna passou a se chamar "História de Trinta Dias", sendo publicada até o último número da revista, em abril desse ano, totalizando 3 colaborações. Portanto, foram ao todo 40 colaborações.
Essa crônica pode ser localizada no portal do MEC que dispõe de toda a obra machadiana devidamente digitalizada.
Essa crônica pode ser localizada no portal do MEC que dispõe de toda a obra machadiana devidamente digitalizada.
2 Trad.: "O gelo foi quebrado", significando que está havendo uma aproximação e diálogo entre entre o emissor e o receptor.
³ Expressão que veio do jogo de cartas, onde "baldo" (proveniente de baldado=falto) significa não ter cartas de um determinado naipe. A partir daí, ganhou o sentido de não "ter cartas na manga", ou seja, estar totalmente sem dinheiro ou meios para fazer algo.
⁴ Caçoar ou zombar de algo ou de alguém.
⁵ Ardis, artimanhas, truques.
⁶Vaidade, ostentação.
⁷ A revista Illustração Brasileira era publicada quinzenalmente.
⁸ Expressão que denota que está demasiadamente quente a ponto de tostar ou assar um passarinho.
⁹ Guarda-chuvas.
¹⁰Mudança de rumo ou atenção.
¹¹ Cabeça, cérebro.
¹² Encontro marcado.
¹³ Graça, chiste.
¹⁴ Repreensão severa (fig.).
¹⁵ Bebedeiras
¹⁶Infelizmente, ai de mim.
¹⁷ Volta para o lugar donde vieste.
¹⁸ Aqui relembra a Arca de Noé.
¹⁹Aqui Machado utiliza um tipo de assonância com o objetivo de sugerir que a "arca" é para "todas as coisas" em latim. Assim, temos arca + (omni)bus = arcabuz, que é uma arma de fogo portátil primitiva.
III. BREVE ANÁLISE LITERÁRIA DA CRÔNICA por Francisco José dos Santos Braga
Contexto: Escreve Leonardo Affonso de Miranda Pereira, organizador do livro História de Quinze Dias, e autor da introdução e notas: "Em julho de 1876, pouco depois de completar 37 anos, Machado de Assis assumia mais um desafio literário: a redação de uma série de crônicas quinzenais, para a qual deu o título de "História de quinze dias". Fazia-o a partir do primeiro número da revista Illustração Brasileira, elegante novidade que se apresentava naquele mês aos leitores do Rio de Janeiro. Como era costume entre os cronistas do período, não punha seu próprio nome em tais escritos, preferindo assiná-los com um pseudônimo. Em meio às incertezas que marcavam aquela década, tratava de oferecer ao público uma leitura do tempo, organizado na história proposta por sua narrativa quinzenal", escreve Pereira na abertura da Introdução [p. 9].
Esta crônica é conhecida especialmente por sua metalinguagem, na qual o autor, usando o heterônimo Manassés, reflete sobre a origem do gênero crônica, simulando uma conversa sobre o calor entre duas vizinhas, algo constatável através do uso do exemplo mais banal possível pelo cronista: a conversa entre duas vizinhas. “Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas,” enuncia o eu da crônica. Claro, trata-se de uma observação irônica de Machado, que atribui à fofoca a origem do gênero literário, uma das "sacadas" geniais do "bruxo do Cosme Velho".
(Obs.: Na metalinguagem, faz-se referência à própria linguagem utilizada para transmitir um discurso. Assim, é o uso do meio de comunicação pelo autor para falar de si próprio, podendo apontar inclusive para suas próprias características, que podem ser reais ou fictícias.)
Estrutura: O texto da crônica de 1877 é composto por quatro blocos, sendo o primeiro focado na metalinguagem e os três seguintes menos conectados ao primeiro, embora foquem na temática de morte e enterro.
Protagonista: O eu da crônica afirma que há uma forma correta para se começar uma crônica: por meio de uma trivialidade, ou seja, o calor. Em seguida, ele cita alguns exemplos que confirmam o seu ponto de vista. Primeiro, o eu do cronista cita Adão e Eva, alegando que, quando Eva nos fez perder o paraíso, veio o calor e tudo mais que norteia o nosso cotidiano, como tufões, seca, etc. Depois, foi a vez das duas primeiras vizinhas que, ao iniciarem uma conversa trivial, após uma refeição, certamente falaram do calor, entre outras coisas. Neste caso, Manassés não se importa com o elemento histórico da origem da crônica, mas sim enfatizar o aspecto do novo e do cotidiano das notícias que chegam ao conhecimento das duas vizinhas que, na sua opinião, dão origem à crônica. Por fim, o eu do cronista vai a um cemitério, onde todos reclamam do calor, menos os coveiros responsáveis por abrir e por fechar as covas, sob o sol escaldante, sem se queixarem da sua sina. Terminada a cerimônia, os homens que abrem covas são deixados lá sob o sol, enquanto todos voltam nos carros, e daí às suas próprias casas ou repartições. "Lá os achamos, lá os deixamos, ao sol, de cabeça descoberta, a trabalhar com a enxada. Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres diabos, durante todas as horas quentes do dia?", enuncia o eu da crônica.
(Obs.: Na metalinguagem, faz-se referência à própria linguagem utilizada para transmitir um discurso. Assim, é o uso do meio de comunicação pelo autor para falar de si próprio, podendo apontar inclusive para suas próprias características, que podem ser reais ou fictícias.)
Estrutura: O texto da crônica de 1877 é composto por quatro blocos, sendo o primeiro focado na metalinguagem e os três seguintes menos conectados ao primeiro, embora foquem na temática de morte e enterro.
Protagonista: O eu da crônica afirma que há uma forma correta para se começar uma crônica: por meio de uma trivialidade, ou seja, o calor. Em seguida, ele cita alguns exemplos que confirmam o seu ponto de vista. Primeiro, o eu do cronista cita Adão e Eva, alegando que, quando Eva nos fez perder o paraíso, veio o calor e tudo mais que norteia o nosso cotidiano, como tufões, seca, etc. Depois, foi a vez das duas primeiras vizinhas que, ao iniciarem uma conversa trivial, após uma refeição, certamente falaram do calor, entre outras coisas. Neste caso, Manassés não se importa com o elemento histórico da origem da crônica, mas sim enfatizar o aspecto do novo e do cotidiano das notícias que chegam ao conhecimento das duas vizinhas que, na sua opinião, dão origem à crônica. Por fim, o eu do cronista vai a um cemitério, onde todos reclamam do calor, menos os coveiros responsáveis por abrir e por fechar as covas, sob o sol escaldante, sem se queixarem da sua sina. Terminada a cerimônia, os homens que abrem covas são deixados lá sob o sol, enquanto todos voltam nos carros, e daí às suas próprias casas ou repartições. "Lá os achamos, lá os deixamos, ao sol, de cabeça descoberta, a trabalhar com a enxada. Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres diabos, durante todas as horas quentes do dia?", enuncia o eu da crônica.
IV. ANÁLISE PSICOLÓGICA DA CRÔNICA
Achei curiosa e interessante a análise da crônica sob o prisma psicológico da Associação Junguiana do Brasil, que a Internet oferece com o título "O nascimento da crônica (Machado de Assis) - Intervenções". Cada um dos "interventores" dão sua breve análise da crônica com base em sua profissão de psicoterapeutas.
Acaci Alcântara: Comecemos por personagem da crônica.....
Quem é o personagem desta crônica? O Sol e suas emanações? Ele é quem deve ser personificado, pelo menos para mim é o que parece. Ele é o perene, permeia a crônica — do começo ao fim. Torra "os miolos" ontem no escrito e hoje na vida real. Clamamos por um ar condicionado. É personagem das sessões de análise. É uma luz que se apresenta de forma devastadora. O que é feito dos processos que precisam de pouca luz e umidade? Será que você, caro Machado, já aludia sobre os novos tempos onde o que tem valor é o que brilha na luz escaldante? Algo que não é suportável, somos despreparados para enfrentar pois nos apresentamos de casaca sob um calor insuportável! Quem morreu? A capacidade de nos indignarmos e procurarmos abrigo da luz cegante do mundo. Ainda bem que o consultório do analista pode ser um abrigo.
Roque Tadeu Gui: Penso sobre como deve ter-se originado a crônica de M.A. Talvez pelo final. Bem que nosso autor pode ter ido a um enterro de algum amigo ou conhecido. Ou, quem sabe, não foi, mas alguém que foi lhe contou sobre a adversidade de ir a um sepultamento numa tarde de intenso calor. Seja como for, o autor assume a experiência como sua. As vestimentas, de acordo com a ocasião, mas em desacordo com o clima. Machado (ou quem lhe narrou a cena) sentia calor, quase sufocado em sua casaca. Assis e seus acompanhantes sequer tiram os chapéus, cuidando sim de abrir "os de sol" (guarda-chuvas, diríamos). Se Assis lá não esteve, então, esse detalhe foi livremente ficcionado. Faz parte da arte do cronista.
Nosso autor sente o calor escaldante e pensa na vida dura dos que trabalham sob o sol, sem poder se abrigar. Julga-se mais feliz do que aqueles pobres trabalhadores. Daí a sua tese/a verdade mais incontestável que achei debaixo do sol é que ninguém se deve queixar, porque cada pessoa é sempre mais feliz do que outra.
A sensação do calor escaldante, a forte impressão sobre a dureza do trabalho braçal sob o sol, a reflexão sobre o previlégio de não ter que realizar tal trabalho extenuante, culmina na intuição de que /isso dá uma crônica!/
A partir desse momento a crônica está pré-escrita. O autor terá apenas que encontrar os recursos adequados para escrevê-la em definitivo. Terá que arquitetar uma "lenga-lenga" literária, com qualidades estéticas convincentes, para conduzir o leitor a compartilhar das sensações, impressões e reflexões que o autor teve naquela tarde ensolarada. E, assim, nascerá uma crônica.
Quem é o personagem desta crônica? O Sol e suas emanações? Ele é quem deve ser personificado, pelo menos para mim é o que parece. Ele é o perene, permeia a crônica — do começo ao fim. Torra "os miolos" ontem no escrito e hoje na vida real. Clamamos por um ar condicionado. É personagem das sessões de análise. É uma luz que se apresenta de forma devastadora. O que é feito dos processos que precisam de pouca luz e umidade? Será que você, caro Machado, já aludia sobre os novos tempos onde o que tem valor é o que brilha na luz escaldante? Algo que não é suportável, somos despreparados para enfrentar pois nos apresentamos de casaca sob um calor insuportável! Quem morreu? A capacidade de nos indignarmos e procurarmos abrigo da luz cegante do mundo. Ainda bem que o consultório do analista pode ser um abrigo.
Roque Tadeu Gui: Penso sobre como deve ter-se originado a crônica de M.A. Talvez pelo final. Bem que nosso autor pode ter ido a um enterro de algum amigo ou conhecido. Ou, quem sabe, não foi, mas alguém que foi lhe contou sobre a adversidade de ir a um sepultamento numa tarde de intenso calor. Seja como for, o autor assume a experiência como sua. As vestimentas, de acordo com a ocasião, mas em desacordo com o clima. Machado (ou quem lhe narrou a cena) sentia calor, quase sufocado em sua casaca. Assis e seus acompanhantes sequer tiram os chapéus, cuidando sim de abrir "os de sol" (guarda-chuvas, diríamos). Se Assis lá não esteve, então, esse detalhe foi livremente ficcionado. Faz parte da arte do cronista.
Nosso autor sente o calor escaldante e pensa na vida dura dos que trabalham sob o sol, sem poder se abrigar. Julga-se mais feliz do que aqueles pobres trabalhadores. Daí a sua tese/a verdade mais incontestável que achei debaixo do sol é que ninguém se deve queixar, porque cada pessoa é sempre mais feliz do que outra.
A sensação do calor escaldante, a forte impressão sobre a dureza do trabalho braçal sob o sol, a reflexão sobre o previlégio de não ter que realizar tal trabalho extenuante, culmina na intuição de que /isso dá uma crônica!/
A partir desse momento a crônica está pré-escrita. O autor terá apenas que encontrar os recursos adequados para escrevê-la em definitivo. Terá que arquitetar uma "lenga-lenga" literária, com qualidades estéticas convincentes, para conduzir o leitor a compartilhar das sensações, impressões e reflexões que o autor teve naquela tarde ensolarada. E, assim, nascerá uma crônica.
Áurea Christina: Inicialmente, fiquei impregnada, desde as primeiras palavras de Assis, com a idéia da rotina diária do trabalho do psicoterapeuta. A reação, por mim constelada, foi essa: a lembrança de como é comum, o “sinal de largada” da crônica diária de meus clientes, o ato de tecer comentários sobre o clima ou sobre os problemas do trânsito na cidade. Imagino que, no tempo de Machado, o tráfego não seria um problema, mas com certeza, o calor escaldante do Rio de Janeiro sim. Ainda mais, se levarmos em conta, a inadequação das roupas europeias usadas naquela época. Neste momento, me veio à mente o conceito de persona de Jung: a imagem dessas vestimentas copiadas do velho mundo, inadequadas pra um país tropical como o Brasil, e talvez consideradas, na época, como as mais apropriadas e “respeitosas” para uma homenagem sincera, em um ritual de velório e sepultamento. Finalmente, para mim, os personagens e caracteres são quase infinitos porque representam os anônimos que tanto nos oferecem suas histórias e que vão transformando, não somente nossa vida pessoal, como o coletivo também.
Camila Maciel Polônio: O sol, aquele que nasce e morre todos os dias. Um eterno ressurgir, às vezes escondido por trás das nuvens, outras vezes por trás da chuva e muitas aparições que nos agradam e incomodam. Esperamos do sol sempre a medida certa, aquela temperatura aprazível. Doce ilusão! Nossa inconsequência ao tratar com a natureza nos traz lástimas na espera de que alguém, um outro qualquer, nos salve dos miolos queimados. Quanta coincidência, não? Não seríamos como o sol? Nossos pacientes não trazem essa metáfora? Essas roupas inadequadas nos levam ao resultado desse calor tremendo em cada corpo. Como lidamos com nossa imagem e com nossa alma? Seria o sol um caminho para iluminar a escassez e os excessos? Quem será o nosso personagem principal?
V. BIBLIOGRAFIA
ASSIS, Machado de: História de Quinze Dias (com organização, introdução e notas de Leonardo Affonso de Miranda Pereira), Campinas: Editora Unicamp, 2009, 303 p.
