Por João Bosco da Silva *
PSEUDÔNIMO DO AUTOR: ODISSEU ¹
Há
vezes em que penso que a vida é um desencadear de circunstâncias sobre as quais
não temos nenhum controle. Outras vezes penso que é exatamente o contrário; que
somos nós que criamos as circunstâncias do nosso existir. E, por fim, há
momentos, também, em que penso (se é que penso) que nada sabemos a respeito de
nada...
Seja
como for, não sei em qual dessas três possibilidades se enquadraria o meu caso,
isto é, o caso do meu encontro não desejado e nem esperado com aquele sinistro
cavaleiro das trevas...
Tudo
começou muito antes, quando Eliana morreu. Estávamos apaixonados e íamos nos
casar. Mas, veio aquele terrível acidente de automóvel... E eu a perdi de vez.
E
foi depois de sua morte que comecei a frequentar a ponte. Aquela ponte antiga e
pouco utilizada, construída em forma de arco sobre o rio de águas cristalinas
que passa perto da cidade.
Eu
não costumava ir até lá para pensar apenas na ponte, mas às vezes fico pensando
que ela deve ter sido muito movimentada, muito utilizada em épocas antigas,
quando foi construída. Afinal, era por ela que chegavam as mercadorias que
vinham de longe para abastecer os colonizadores. Mas como a cidade, por alguma
razão, cresceu apenas para um dos lados do rio, a ponte parecia estar ali
apenas para ligar a cidade de um lado e a não cidade do outro lado, onde apenas
uma coisa parecia existir: o Campo dos Mortos, o cemitério onde Eliana estava
enterrada. Enfim, parecia que o rio sobre o qual ela fora construída existia
apenas para separar aqueles que eu julgava vivos, na cidade, daqueles que eu
julgava mortos, lá no cemitério...
A
verdade era que, a partir de algum momento, a velha ponte havia passado a ser muito
pouco utilizada. Também era verdade que alguns agricultores a utilizavam -
assim como os mercadores do passado haviam feito uso dela - para trazerem à
cidade suas produções agropecuárias. Como tais agricultores, para chegarem até
ela, tinham, necessariamente, que passar pela Estrada Abandonada, esta deixava
de ser totalmente abandonada, apesar daquele seu singelo nome ou apelido.
Além
disso, ela era utilizada, esporadicamente, por aqueles que se supunham vivos lá
na cidade, quando necessitavam enterrar seus mortos. Foi o que aconteceu quanto
tivemos que enterrar Eliana. Aquele dia, o dia do enterro, além de ter sido um
dos dias mais tristes da minha vida, foi também o dia em que, verdadeiramente,
descobri a ponte, tendo passado a frequentá-la com certa assiduidade.
Acho
que posso dizer, também, que depois da morte de Eliana passei a ficar mais
introspectivo e a meditar mais sobre as coisas da vida. E, para isto, não havia
lugar melhor do que aquela ponte antiga e arciforme que levava, de forma
inevitável, à Estrada Abandonada e ao Campo dos Mortos.
Assim, nas
minhas horas de folga (que estranhamente passaram a ser muitas depois daquele
acidente trágico), de lazer ou de simples tédio, eu gostava de estar sobre ela,
sobre a parte mais alta do arco por ela formado. Afinal, daquela parte mais
alta, dando as costas para o movimento e o frenesi da cidade, eu podia ver, lá
embaixo, a paisagem calma e bucólica que rodeava o cemitério mais antigo da
redondeza, que, significativamente, havia sido batizado de Campo dos
Mortos.
No
começo, nas minhas idas até a ponte, eu não conseguia despregar os olhos da
sepultura de Eliana, a qual conseguia distinguir facilmente das outras lá no
meio do cemitério. Havia muito sentimento naquela época e perder Eliana tinha
sido, mais ou menos, como perder um braço ou uma perna. Era uma perda
insuportável e confesso que, naqueles dias, derramei muitas lágrimas de cima da
ponte. Até porque ali era um lugar onde eu podia chorar sozinho, sem ninguém
para me incomodar, para inquirir a respeito de minhas próprias angústias. Com o
passar do tempo, entretanto, parece que as lágrimas foram secando e os
sentimentos também, chegando um momento em que o sentimento de perda já não
parecia tão insuportável e o túmulo de Eliana passava quase que a ser apenas
mais um entre os demais lá embaixo.
Entretanto,
não sei se por hábito ou não, a ponte, a paisagem ao seu redor e tudo o mais
que ela representava continuaram a exercer sobre mim uma atração praticamente
irresistível. Posso mesmo dizer que desde o falecimento de Eliana até meu último
encontro com aquele cavaleiro sinistro, não passei um dia sequer sem ir até lá.
Era ali que eu pensava na vida e no existir humano. E acho que filosofava um
pouco sobre a morte.
Mas
houve uma vez, uma fatídica vez, em que não me limitei a permanecer sobre a
ponte, tendo atravessado-a e adentrado a Estrada Abandonada. Naquele dia, depois
de uma irresistível, porém ligeira parada ante o portão do Campo dos Mortos,
continuei a caminhar por ela, adentrando-a cada vez mais, andando meio sem
rumo, embora seguisse na direção contrária à direção da cidade.
E,
naquela caminhada, naquela partida sem rumo definido, acabei não percebendo a
chegada da noite. Quando me dei por mim, estava no meio da mais completa
escuridão; não me sendo possível sequer ver as últimas luzes da cidade que, com
certeza, terminariam um pouco antes da velha ponte lá atrás, a qual acabara por
cruzar sem saber as medonhas consequências que isto me traria.
Entretanto, apesar da escuridão que passara a me rodear, provavelmente eu teria caminhado muito mais se, em determinado momento, não tivesse sido meio que despertado de mim mesmo por um som que me soou estranho, além de inesperado. Primeiro começou com pequenos barulhos, repetidos e não muito fortes. Depois, o som foi aumentando e percebi que aqueles barulhos eram, na verdade, o tropel de um cavalo a galope. E que vinha em minha direção.
Temendo ser abalroado, procurei afastar-me do meio da estrada, permanecendo em um canto, rente à vegetação espessa que a tangenciava. E ali, de pé no meio da escuridão, ouvindo aquele tropel que se aproximava, pude perceber claramente que não estava sentindo apenas o medo de ser abalroado ou atropelado. Um outro tipo de medo, o medo do desconhecido, também começava a me dominar e aumentava na mesma proporção em que o tropel parecia se aproximar. Embora desde a morte de Eliana eu tivesse me tornado uma criatura bastante solitária, sem que a solidão chegasse a me incomodar, naquele momento, acho que pela primeira vez me senti totalmente abandonado em minha solidão.
Pior ainda: imobilizado e impotente ante o medo e a perplexidade que se apossavam de mim, percebi que estava ficando paralisado, com meus sentidos e movimentos enfraquecidos, somente conseguindo enxergar a escuridão e ouvir aquele tropel avassalador que se aproximava mais e mais.
Passados talvez alguns segundos, pude ver alguma coisa. Mas era algo que preferiria não ter visto, preferindo mil vezes a escuridão pura e simples. Eram faíscas que pareciam enormes; fagulhas infernais arrancadas pelo encontro das potentes patas de um cavalo que eu ainda não podia enxergar, batendo de encontro ao cascalho da estrada. O medo deu lugar ao terror. Meus cabelos se arrepiaram e meu pensamento paralisou de vez. Aliás, tudo parecia paralisado, exceto as faíscas e aquele tropel estrondoso que estavam cada vez mais próximos.
Algum tempo depois, não sei dentro de que fração de segundos, foi-me possível ver o conjunto, ou seja, cavalo e cavaleiro, que provocavam tudo aquilo. E acho que a própria visão do inferno não me teria aterrorizado tanto.
Porém, para minha surpresa, tão rápido como surgiu, aquele cavaleiro das trevas desapareceu no meio da escuridão da estrada, seguindo no sentido do Campo dos Mortos, da ponte em forma de arco que eu agora me arrependia amargamente de ter cruzado e, naturalmente, da cidade. E, para minha sorte e minha ainda maior estranheza, nem cavalo nem cavaleiro pareciam ter dado conta de minha presença. Ou, se me haviam percebido, me haviam ignorado completamente.
Fosse como fosse, depois que desapareceram, aos poucos fui recobrando meu pensamento e minhas percepções. Percebi que minhas pernas estavam bambas. Meus joelhos tremiam tanto que chegavam a chocar-se um contra o outro. Meus cabelos insistiam em permanecer arrepiados. Hirtos e apontados insistentemente para cima. E, como que para compensar o tempo em que havia ficado paralisado, meu cérebro, de repente, começou a funcionar com um frenesi incontrolável.
Na verdade, era mesmo preciso pensar. Pensar em fugir, em sair dali o mais rápido possível. Mas fugir para onde? O cavaleiro da escuridão havia seguido rumo à cidade e à ponte. Se a coisa que eu menos queria era encontrar-me novamente com ele, talvez o melhor a fazer fosse correr na direção oposta. Mas isto significava penetrar ainda mais na Estrada Abandonada e na escuridão que a envolvia, coisa que não tinha a mínima vontade de fazer. Além disso, nada me garantia que o cavaleiro, em algum momento, não resolvesse voltar. Se fizesse isto, com a velocidade de que aquele seu cavalo sinistro era portador, me apanharia num piscar de olhos, tornando vão qualquer esforço de minha parte no sentido de afastar-me dele.
Uma outra hipótese que se me aventou foi a de abandonar a estrada. Mas como caminhar no meio daquela vegetação espessa, principalmente numa noite escura como aquela? Era bem verdade que caso o cavaleiro resolvesse voltar, ele voltaria pela estrada e não pela vegetação. Mas, e se não fosse assim? E se, por alguma razão, aquele ser estranho e sinistro resolvesse voltar justamente pelo meio do matagal, coisa que, pelo visto, não lhe era impossível?
E, como um pensamento parece puxar outro pensamento similar, eis que me acordei para uma possibilidade ainda mais aterradora. E se existissem outros cavaleiros iguais àquele? E se estivessem vindo na minha direção, como fizera o primeiro, embora eu não estivesse – ainda – ouvindo ou vendo o faiscar de novos tropéis no meio daquelas trevas que pareciam cada vez mais espessas?
Ante todas aquelas interrogações, pude perceber que meu cérebro, em seu frenesi, ao invés de encontrar uma solução, estava levantando mais e mais questões cada vez mais complexas, as quais eu simplesmente não podia resolver.
Mas era preciso fazer alguma coisa. Era preciso pensar em algo mais. Quem sabe, pensar de forma diferente, mudar de pensamento?
E foi então que comecei a pensar em Eliana, coisa que havia deixado de fazer havia algum tempo. Lembrei-me do amor que sentíamos um pelo outro. De nossas promessas mútuas. De nossas esperanças compartilhadas. Lembrei-me até do acidente brusco que havia levado sua vida, coisa em que vinha evitando pensar ultimamente. E - pensamento puxando pensamento, sentimento puxando sentimento - lembrei-me das minhas primeiras idas à ponte. Das lágrimas que havia derramado sobre as águas, olhando para sepultura lá embaixo.
E foi aí que tomei uma decisão. Acontecesse o que acontecesse, eu queria ver novamente o Campo dos Mortos, a sepultura de Eliana, ainda que para isto eu tivesse que correr o risco de topar novamente com aqueles seres, cavalo e cavaleiro, de aspecto sinistro e amedrontador.
Tomada a decisão, recomecei a caminhada, agora em direção oposta, ou seja, voltando rumo à ponte e à cidade. E parece que eu havia permanecido realmente muito tempo na estrada. Afinal, mal dava os primeiros passos e percebi que a aurora começava a querer despontar no horizonte. Isto significava que eu havia passado toda a noite na Estrada Abandonada.
É estranho como pequenas coisas às quais damos, geralmente, pouco valor, adquirem valores e significados novos quando estamos em situações extremas. Eu, com minha alma algo taciturna e mesmo sombria, até então, pouco havia valorizado o raiar do sol, o raiar da aurora. No entanto, a alegria com que recebia os primeiros arremedos de raios solares naqueles angustiosos momentos era quase indescritível.
Quando passei pelo portão do Campo dos Mortos, o sol já estava a certa altura do horizonte. E, naquele momento, mesmo cansado acabei fazendo mais uma parada algo irresistível junto àquele portão. Desnecessário dizer que quando ali cheguei o susto, o grande susto, já havia passado e o profundo medo que havia sentido ante o cavaleiro e a escuridão parecia algo dissipado pela claridade do dia. Em razão disso, parece que pude usufruir ali, em frente àquele portão, um pouco daquela paz tão comum aos cemitérios.
E parece que aquela calma possibilitou-me permanecer um pouco mais no local, dedicando algum tempo a olhar o túmulo de Eliana, como tantas vezes fizera antes e que havia deixado de fazer desde algum tempo atrás.
Entretanto, mesmo me sentindo melhor, mesmo podendo usufruir daquele momento de relativa paz, pude também perceber que estava cansado. Muito cansado. Tanto que minhas pernas, que haviam estado trêmulas quando daquele encontro sinistro, agora estavam doloridas e desanimadas. Assim, devido ao extremo cansaço, com as pernas doloridas ou não, eu não podia continuar parado ali. Tinha que voltar para casa e tentar descansar um pouco. E foi o que fiz, não me dando, desta vez, ao luxo de parar em cima da ponte, apesar do fascínio que continuava a sentir por ela. Era mesmo preciso voltar para casa e descansar; tentar fazer com que meu corpo recobrasse um pouco de sua energia.
Chegando à minha casa, embora muito cansado e combalido, percebi que, por alguma razão, não sentia fome nem sede, como era de se esperar numa situação como aquela. Por isto, fui direto para o meu quarto e para minha cama. E, se há uma coisa de que estou seguro é de que não sei quanto tempo dormi. É bem possível que tenha dormido todo o restante do dia e também toda a noite, pois, quando acordei, o dia, o outro dia, estava claro e viçoso, e o sol da manhã batia diretamente sobre minha janela, banhando-me com seus raios dourados e alegres.
Tendo acordado com as energias renovadas, levantei-me e, não sei se por hábito ou por necessidade, a primeira coisa que fiz foi tomar um bom banho de chuveiro, o banho que certamente deveria ter tomado na véspera. Somente depois disto fui procurar algo para comer, embora, estranhamente, ainda não sentisse fome, mesmo depois de já ter passado provavelmente mais de vinte e quatro horas sem ingerir qualquer alimento; já que não comera nada desde que encetara minha fatídica caminhada por aquela estrada velha e realmente algo abandonada.
Entretanto, apesar da escuridão que passara a me rodear, provavelmente eu teria caminhado muito mais se, em determinado momento, não tivesse sido meio que despertado de mim mesmo por um som que me soou estranho, além de inesperado. Primeiro começou com pequenos barulhos, repetidos e não muito fortes. Depois, o som foi aumentando e percebi que aqueles barulhos eram, na verdade, o tropel de um cavalo a galope. E que vinha em minha direção.
Temendo ser abalroado, procurei afastar-me do meio da estrada, permanecendo em um canto, rente à vegetação espessa que a tangenciava. E ali, de pé no meio da escuridão, ouvindo aquele tropel que se aproximava, pude perceber claramente que não estava sentindo apenas o medo de ser abalroado ou atropelado. Um outro tipo de medo, o medo do desconhecido, também começava a me dominar e aumentava na mesma proporção em que o tropel parecia se aproximar. Embora desde a morte de Eliana eu tivesse me tornado uma criatura bastante solitária, sem que a solidão chegasse a me incomodar, naquele momento, acho que pela primeira vez me senti totalmente abandonado em minha solidão.
Pior ainda: imobilizado e impotente ante o medo e a perplexidade que se apossavam de mim, percebi que estava ficando paralisado, com meus sentidos e movimentos enfraquecidos, somente conseguindo enxergar a escuridão e ouvir aquele tropel avassalador que se aproximava mais e mais.
Passados talvez alguns segundos, pude ver alguma coisa. Mas era algo que preferiria não ter visto, preferindo mil vezes a escuridão pura e simples. Eram faíscas que pareciam enormes; fagulhas infernais arrancadas pelo encontro das potentes patas de um cavalo que eu ainda não podia enxergar, batendo de encontro ao cascalho da estrada. O medo deu lugar ao terror. Meus cabelos se arrepiaram e meu pensamento paralisou de vez. Aliás, tudo parecia paralisado, exceto as faíscas e aquele tropel estrondoso que estavam cada vez mais próximos.
Algum tempo depois, não sei dentro de que fração de segundos, foi-me possível ver o conjunto, ou seja, cavalo e cavaleiro, que provocavam tudo aquilo. E acho que a própria visão do inferno não me teria aterrorizado tanto.
Porém, para minha surpresa, tão rápido como surgiu, aquele cavaleiro das trevas desapareceu no meio da escuridão da estrada, seguindo no sentido do Campo dos Mortos, da ponte em forma de arco que eu agora me arrependia amargamente de ter cruzado e, naturalmente, da cidade. E, para minha sorte e minha ainda maior estranheza, nem cavalo nem cavaleiro pareciam ter dado conta de minha presença. Ou, se me haviam percebido, me haviam ignorado completamente.
Fosse como fosse, depois que desapareceram, aos poucos fui recobrando meu pensamento e minhas percepções. Percebi que minhas pernas estavam bambas. Meus joelhos tremiam tanto que chegavam a chocar-se um contra o outro. Meus cabelos insistiam em permanecer arrepiados. Hirtos e apontados insistentemente para cima. E, como que para compensar o tempo em que havia ficado paralisado, meu cérebro, de repente, começou a funcionar com um frenesi incontrolável.
Na verdade, era mesmo preciso pensar. Pensar em fugir, em sair dali o mais rápido possível. Mas fugir para onde? O cavaleiro da escuridão havia seguido rumo à cidade e à ponte. Se a coisa que eu menos queria era encontrar-me novamente com ele, talvez o melhor a fazer fosse correr na direção oposta. Mas isto significava penetrar ainda mais na Estrada Abandonada e na escuridão que a envolvia, coisa que não tinha a mínima vontade de fazer. Além disso, nada me garantia que o cavaleiro, em algum momento, não resolvesse voltar. Se fizesse isto, com a velocidade de que aquele seu cavalo sinistro era portador, me apanharia num piscar de olhos, tornando vão qualquer esforço de minha parte no sentido de afastar-me dele.
Uma outra hipótese que se me aventou foi a de abandonar a estrada. Mas como caminhar no meio daquela vegetação espessa, principalmente numa noite escura como aquela? Era bem verdade que caso o cavaleiro resolvesse voltar, ele voltaria pela estrada e não pela vegetação. Mas, e se não fosse assim? E se, por alguma razão, aquele ser estranho e sinistro resolvesse voltar justamente pelo meio do matagal, coisa que, pelo visto, não lhe era impossível?
E, como um pensamento parece puxar outro pensamento similar, eis que me acordei para uma possibilidade ainda mais aterradora. E se existissem outros cavaleiros iguais àquele? E se estivessem vindo na minha direção, como fizera o primeiro, embora eu não estivesse – ainda – ouvindo ou vendo o faiscar de novos tropéis no meio daquelas trevas que pareciam cada vez mais espessas?
Ante todas aquelas interrogações, pude perceber que meu cérebro, em seu frenesi, ao invés de encontrar uma solução, estava levantando mais e mais questões cada vez mais complexas, as quais eu simplesmente não podia resolver.
Mas era preciso fazer alguma coisa. Era preciso pensar em algo mais. Quem sabe, pensar de forma diferente, mudar de pensamento?
E foi então que comecei a pensar em Eliana, coisa que havia deixado de fazer havia algum tempo. Lembrei-me do amor que sentíamos um pelo outro. De nossas promessas mútuas. De nossas esperanças compartilhadas. Lembrei-me até do acidente brusco que havia levado sua vida, coisa em que vinha evitando pensar ultimamente. E - pensamento puxando pensamento, sentimento puxando sentimento - lembrei-me das minhas primeiras idas à ponte. Das lágrimas que havia derramado sobre as águas, olhando para sepultura lá embaixo.
E foi aí que tomei uma decisão. Acontecesse o que acontecesse, eu queria ver novamente o Campo dos Mortos, a sepultura de Eliana, ainda que para isto eu tivesse que correr o risco de topar novamente com aqueles seres, cavalo e cavaleiro, de aspecto sinistro e amedrontador.
Tomada a decisão, recomecei a caminhada, agora em direção oposta, ou seja, voltando rumo à ponte e à cidade. E parece que eu havia permanecido realmente muito tempo na estrada. Afinal, mal dava os primeiros passos e percebi que a aurora começava a querer despontar no horizonte. Isto significava que eu havia passado toda a noite na Estrada Abandonada.
É estranho como pequenas coisas às quais damos, geralmente, pouco valor, adquirem valores e significados novos quando estamos em situações extremas. Eu, com minha alma algo taciturna e mesmo sombria, até então, pouco havia valorizado o raiar do sol, o raiar da aurora. No entanto, a alegria com que recebia os primeiros arremedos de raios solares naqueles angustiosos momentos era quase indescritível.
Quando passei pelo portão do Campo dos Mortos, o sol já estava a certa altura do horizonte. E, naquele momento, mesmo cansado acabei fazendo mais uma parada algo irresistível junto àquele portão. Desnecessário dizer que quando ali cheguei o susto, o grande susto, já havia passado e o profundo medo que havia sentido ante o cavaleiro e a escuridão parecia algo dissipado pela claridade do dia. Em razão disso, parece que pude usufruir ali, em frente àquele portão, um pouco daquela paz tão comum aos cemitérios.
E parece que aquela calma possibilitou-me permanecer um pouco mais no local, dedicando algum tempo a olhar o túmulo de Eliana, como tantas vezes fizera antes e que havia deixado de fazer desde algum tempo atrás.
Entretanto, mesmo me sentindo melhor, mesmo podendo usufruir daquele momento de relativa paz, pude também perceber que estava cansado. Muito cansado. Tanto que minhas pernas, que haviam estado trêmulas quando daquele encontro sinistro, agora estavam doloridas e desanimadas. Assim, devido ao extremo cansaço, com as pernas doloridas ou não, eu não podia continuar parado ali. Tinha que voltar para casa e tentar descansar um pouco. E foi o que fiz, não me dando, desta vez, ao luxo de parar em cima da ponte, apesar do fascínio que continuava a sentir por ela. Era mesmo preciso voltar para casa e descansar; tentar fazer com que meu corpo recobrasse um pouco de sua energia.
Chegando à minha casa, embora muito cansado e combalido, percebi que, por alguma razão, não sentia fome nem sede, como era de se esperar numa situação como aquela. Por isto, fui direto para o meu quarto e para minha cama. E, se há uma coisa de que estou seguro é de que não sei quanto tempo dormi. É bem possível que tenha dormido todo o restante do dia e também toda a noite, pois, quando acordei, o dia, o outro dia, estava claro e viçoso, e o sol da manhã batia diretamente sobre minha janela, banhando-me com seus raios dourados e alegres.
Tendo acordado com as energias renovadas, levantei-me e, não sei se por hábito ou por necessidade, a primeira coisa que fiz foi tomar um bom banho de chuveiro, o banho que certamente deveria ter tomado na véspera. Somente depois disto fui procurar algo para comer, embora, estranhamente, ainda não sentisse fome, mesmo depois de já ter passado provavelmente mais de vinte e quatro horas sem ingerir qualquer alimento; já que não comera nada desde que encetara minha fatídica caminhada por aquela estrada velha e realmente algo abandonada.
Quando
abri a geladeira, entretanto, aquela quase-fome que estava sentindo deu lugar a
uma grande surpresa. Que me lembrasse, desde a morte de Eliana, eu passara a
descuidar da casa e - acho que poso dizer - até mesmo de mim. Por isto, havia
muito tempo não fazia compras e não reabastecia minha geladeira. No entanto, agora me deparava com ela abarrotada de
alimentos; parecendo estar recém-abastecida. E, o mais o mais surpreendente,
estava abastecida de coisas das quais eu nem gostava muito, como peixes e legumes,
por exemplo.
Fosse
como fosse, diante daquela surpresa, acabei perdendo a fome de vez e nada comi.
E parece que eu, há muito tempo não vinha prestando atenção em minha própria
casa, em minha residência. Depois da surpresa com a geladeira, observando um
pouco mais atentamente a cozinha, pude notar que ela parecia modificada. Ou em
muito eu me enganava, ou sua mobília parecia mudada, parecia diferente.
Além
disso, impressionado com o que via na cozinha, passei a investigar o resto da
casa. E, para minha nova surpresa, tudo parecia realmente mudado ou modificado.
Os móveis não só estavam em lugares diferentes dos habituais, como pareciam ter
sido trocados ou substituídos. Diante daquilo, cheguei a pensar que a situação aterradora
pela qual havia passado naquela estranha noite, aliada ao cansaço físico, podia
ter perturbado minha mente a ponto de ter-me feito adentrar uma casa errada,
uma casa que não era a minha. Tal hipótese ficou tão forte para mim que resolvi
sair para o lado de fora e verificar o número e a fachada da casa. E, para
minha momentânea felicidade, pude verificar que, se os móveis e as coisas no interior
da casa pareciam mudados, o mesmo não acontecia com sua parte externa. Nos
arredores, também nada parecia modificado. Aquele era, sem dúvida, o Bairro dos
Redivivos, para onde havia me mudado fazia algum tempo. E aquela casa, sita no
mesmo bairro, à Rua dos Finados, número 13, era realmente a minha.
Adentrando
novamente a casa, no entanto, a certeza se esvaía, dando lugar a questões e perguntas
que simplesmente não podia responder. Afinal, será que eu havia passado a ficar
tão perturbado, a partir da trágica morte de Eliana, que trocara a mobília de
minha casa sem me dar por isso, sem perceber o que estava fazendo? Ou teria, por
ventura, trocado a mobília no intuito de me distrair um pouco da tragédia representada
pela morte de minha amada, tendo, no entanto, me esquecido de que havia feito
isto; esquecendo-me até da presença dos novos móveis, voltando a me lembrar
somente depois de um novo choque, representado pelo fatídico encontro que havia
tido na véspera?
Uma
outra hipótese que parecia querer insistir em vir à minha mente, mas que
descartei logo por julgá-la totalmente absurda, seria a possibilidade de que alguém
tivesse entrado em minha casa e feito aquelas modificações em algum momento
durante minhas ausências, sem que eu o tivesse percebido.
Fosse
como fosse, diante de tudo aquilo, de tantas questões e acontecimentos
inusitados, se não absurdos, minha mente foi ficando cada vez mais confusa. E,
na ânsia de fugir dessas confusões, comecei a pensar novamente na ponte, na
Estrada Abandonada e no Campo dos Mortos. A verdade é que eu não podia negar
que, desde já algum tempo, eram aquelas paragens que me davam um pouco de vida.
E, sem dúvida, apesar do susto da véspera, eu, inevitavelmente, voltaria lá.
E
foi o que fiz. Fechei resolutamente a casa e saí para a rua, que pareceu
abrir-se de maneira singular e receptiva aos meus passos um tanto ou quanto
incertos. Afinal, apesar da certeza de que desejava ir para a ponte, existiam
bons motivos para estar inseguro: havia, naquela hora do dia, muitas pessoas na
rua e eu não desejava encontrá-las. Mesmo lá na ponte, apesar de toda a vida e
toda a paz que ela e a paisagem me proporcionavam, eu sabia que teria que ser
cauteloso. Não poderia cruzá-la e correr o risco de ingressar-me novamente na
Estrada Abandonada; de distrair-me caminhando por ela e, dessa forma, correr o
risco de ter novamente o mesmo encontro sinistro.
Pensando
em tudo isto, fui caminhando meio furtivamente em direção à rua que cruzava com
a minha, a rua da esquina. Enquanto caminhava, procurando, talvez
instintivamente, alguma coisa em que fixar minha mente, comecei a observar os
números das casas. A minha era a de número treze. Depois vinha a de número
doze, número onze... A da esquina, a de número um, era a última delas.
Contornei-a de forma viva e resoluta. Em breve estaria saindo do Bairro dos
Redivivos, estaria passando por outros bairros e ruas, chegando, finalmente, à
minha ponte que levava ao Campo dos Mortos...
Chegando
lá, embora temendo um pouco olhar na direção da estrada, meu coração encheu-se
de vivacidade. O sol brilhava e parecia mais radiante do que nunca. As águas
que passavam por debaixo da ponte estavam cristalinas e transparentes, de uma
forma que jamais pareciam ter estado antes. Também parecia estar mais radiante
a vegetação, o canto dos pássaros; enfim, toda a natureza ao derredor. As
flores, essas então pareciam muito mais belas do que jamais haviam sido. As que
brotavam lá no cemitério, embora um pouco distantes, pareciam de uma vitalidade
algo incomum. Enfim, tudo parecia bastante diferente agora.
Ocorreu-me,
então, que talvez aquela diferença estivesse em mim mesmo e não nas coisas. Era
bem possível que os transtornos pelos quais estava passando, provocados pelas
situações perturbadoras representadas tanto pelo que ocorrera na noite fatídica
quanto pelas mudanças inexplicáveis em minha casa, estivessem fazendo com que
minha mente percebesse, de forma excepcional, o contraste entre tudo aquilo e
as coisas ao redor da ponte.
De
qualquer forma, o fato é que era muito bom estar ali, e senti vontade de
mudar-me definitivamente para aquele local. O Bairro dos Redivivos era um
bairro muito bom para se morar, muito próximo ao centro. Entretanto, nas atuais
circunstâncias, não podia dizer o mesmo quanto à minha rua e minha casa. Desde
o fatídico acidente, nenhum vizinho havia trocado sequer uma palavra comigo, a
ponto de me parecer que me culpavam pela morte de minha noiva. Não me olhavam e
não respondiam aos meus cumprimentos, por mais que eu tentasse ser gentil ao
cruzar com eles. Quanto à minha casa, se desde a morte de Eliana ela havia se
tornado, de certa forma, menos aprazível, agora, com aquela estranha mudança na
mobília e no seu interior, parecia totalmente desconfortável, além de algo perturbadora.
Ante tudo isto, talvez fosse mesmo hora de abandonar meu endereço à Rua dos
Finados, onde vivera por um bom tempo. E mudar-me definitivamente para ali, para
as proximidades do Campo dos Mortos.
Não
obstante, apesar de estar gostando tanto de estar sobre a ponte naquele
momento, podendo, mais que nunca, apreciar tudo o que a rodeava, pude perceber
que, conforme de certa forma havia previsto ai sair de casa, também ali, alguma
coisa me incomodava um pouco. Era a Estrada Abandonada. Mas ela me incomodava
justamente por estar, agora, parecendo atrair-me mais do que me atraíra antes.
Eu, apesar de provavelmente ser tido, especialmente por meus vizinhos, como uma
pessoa esquisita e até meio louca, não era tolo. E sabia, por alguma razão, que
aquela renovada atração por aquela estrada podia realmente significar um real
estado de loucura. Afinal, somente um louco poderia sentir-se atraído por um
lugar, uma estrada, onde havia passado por um dos mais pavorosos momentos de
sua existência. Por outro lado, como igualmente imaginara ao sair de casa, havia
também um outro temor em relação a ela. Afinal, nada me garantia que em algum
momento, o cavaleiro infernal pudesse surgir dela e vir em direção à ponte, em
minha direção. A verdade é que, com isto, ela, a Estrada Abandonada, acabava
por me perturbar bastante, acabando por se tornar numa espécie de contradição
dentro da calma daquelas paragens que eu elegera para meu paraíso particular.
Com
isto, não pude deixar de pensar, como, aliás, vinha pensando muito ultimamente,
nas contradições da vida. Ela, a vida, nunca era totalmente clara, totalmente
límpida ou transparente. Por mais que as coisas estivessem bem, por mais que o
sol brilhasse sobre mim ou sobre qualquer indivíduo, sempre parecia haver algum
ponto negro, incômodo e escuro. E isto parecia acontecer, também, com os
objetos que nos cercam. Nunca algo era totalmente branco ou totalmente negro.
Sempre havia uma espécie de penumbra incômoda permeando tudo. Daí que, se os
males da vida eram passageiros, a felicidade por sua vez também o era. Até
parecia que a vida de cada indivíduo era uma constante contradição. Contradição
dentro de si mesma; contradição nas coisas do mundo, nos objetos exteriores. Enfim,
a vida parecia ser um constante branco-escuro cuja única certeza era seu
desaguamento na morte...
Mas,
e a escuridão que me cercava quando tivera aquele encontro infernal bem lá no
meio daquela estrada? Ela não me parecera total e absoluta? Pensando bem,
talvez não. Mesmo quando ela parecia pior, quando parecia mais densa e
amedrontadora, teria havido alguma centelha de luz, representada,
paradoxalmente, pelas fagulhas arrancadas no cascalho pelas patas daquele cavalo
infernal.
Devido
a todos esses pensamentos, pude notar que algo vinha mudando em mim mesmo, em
minha mente, de forma bastante acentuada, fazia já bastante tempo; talvez desde
o acidente fatal que culminara na morte de minha noiva. Se antes eu me preocupava
apenas em viver e em sobreviver, buscando a felicidade quase que a todo custo,
agora percebia que outras coisas me atraíam de forma estranha, causando
perguntas nem sempre fáceis de ser respondidas. E, sob esse aspecto, a própria
existência era uma questão a ser resolvida...
Quantos
seres humanos, naqueles momentos em que eu passava ali na ponte, não estariam,
como eu estivera outrora, lá na cidade, lutando pela vida e pela sobrevivência?
Quantos não estariam, uns com pensamentos grandiosos, outros nem tanto, buscando
levar adiante seus projetos de vida? Aliás, todos estavam, de alguma forma,
tentando construir sua própria essência. E todos, sem exceção, um dia acabariam
por sucumbir ante o peso da existência...
De
certa forma, era isto o que havia acontecido comigo. Eu aprendera muito cedo a
“lutar pela vida” de unhas e dentes, tentando construir tudo aquilo que
julgasse que deveria ser construído, para mim ou para outrem. Havia vezes em
que me desanimava e, ante o desânimo, chegava a parar e cochilar um pouco, meio
que fazendo uma pausa na vida, ou nas lutas pela sobrevivência. Mas logo vinha
- como dizia uma canção antiga - a banda
da ilusão. E ela me acordava. Então, sem alternativa, apanhava um
instrumento e a seguia. Era sempre preciso tocar
pra não morrer. Entretanto, isso não havia impedido que um caminhão
desgovernado abalroasse nosso carro, ceifando a vida de Eliana e mudando minha
própria vida de forma intensa e irrevogável.
Sem
dúvida, havia sido a morte de Eliana que me havia feito acordar para todas
essas coisas, para todos esses pensamentos incômodos. Eles tinham a vantagem de
fazer-me recusar, definitivamente, os instrumentos oferecidos pela banda da ilusão e a seguir tocando a
vida da forma que sempre fizera antes. Entretanto, será que eu não havia
deixado uma ilusão para cair em outra, talvez mais envolvente e, por isto
mesmo, mais perigosa? Não seria, por exemplo, aquele paraíso singular que eu
havia forjado sobre a ponte e seus arredores também ele ilusório? A Estrada
Abandonada lá embaixo parecia me dizer isto. Parecia ser ela, ou o incidente
que me ocorrera enquanto estivera nela, que me tornava esses pensamentos ainda
mais agudos e mais atrozes.
E
eles foram como que adquirindo um crescendo insuportável. Tão insuportável que
era urgentemente necessário que me livrasse deles. Mas como proceder para que
isto acontecesse?
Ao
fazer-me esta pergunta, olhei, mais uma vez, para aquela estrada, para o início
dela, perto do Campo dos Mortos, onde todos, sem exceção, encontravam seu fim. Por
alguma razão, parecia ser ali que estavam as respostas para todas as minhas
questões. E se eu quisesse obtê-las, teria que sair de minha posição algo
confortável ali no alto, em cima da ponte, e ir lá para baixo, por mais que
isto me parecesse incômodo e amedrontador.
Em razão
disso, enchi-me de toda a coragem que pude e desci. Passei novamente pelo
portão do cemitério, como fizera da vez anterior. E, enquanto o observava por
alguns momentos senti alguma paz. E tive vontade permanecer ali. Entretanto, sabia
que aquele instante de quietude não perduraria e eu teria mesmo que seguir
adiante, pela Estrada Abandonada, buscando encontrar o que talvez fosse meu
verdadeiro destino.
E foi o que
fiz, não sem certo arrepio a percorrer todo o meu corpo, tão logo a adentrei de
verdade, deixando para trás o cemitério e a ponte. Enquanto caminhava, por
alguma razão deixei meus pensamentos de lado e passei a observar as coisas.
Muito diferente do que acontecera à noite, o céu estava límpido e o sol
brilhava muito. Havia muita vida nas margens daquela estrada. Pássaros faziam
algazarras. Havia abelhas, flores. Naquelas novas circunstâncias, chamar aquela
estrada de “abandonada”, sem dúvida, pareceria no mínimo algo inadequado.
E
foi apreciando aquele enxame de vida e de claridade que continuei a caminhar
mais e mais, estranhamente não sentindo fome, sede ou cansaço, apesar de nada
ter comido ou bebido fazia um bom tempo.
Enquanto
caminhava, porém, a noite, como era de se esperar, foi chegando aos poucos.
Lenta e quase imperceptivelmente.
Quando
me dei por mim, tudo era novamente escuridão. E aí as coisas, literalmente
mudaram de figura. Contrastando com toda aquela luminosidade e vida que eu
presenciara e de que até mesmo chegara a participar de alguma forma, agora a
escuridão densa e pesada começava a me envolver.
Noite
escura; pensamentos escuros... Comecei a lembrar-me do cavaleiro das sombras e
seu cavalo aterrador. Na outra noite, ambos pareciam ter saído das profundezas
infernais com o único intuito de assombrar-me. Nesta noite, talvez não fosse
diferente...
Ao
pensar nisso, toda a coragem de que podia armar-me não foi suficiente. Parei
com a caminhada, ou melhor, estaquei-me totalmente paralisado, temendo ouvir, a
qualquer momento, o fantasmagórico tropel. Enquanto fazia isto, tentava a todo
custo fazer com que pelo menos meu cérebro não parasse de funcionar, pois, como
percebi, estava muito próximo de ter uma vertigem ou coisa parecida.
Nessa
luta interior contra meu próprio desfalecimento, tentei, com todas as forças,
convencer-me de que o cavaleiro poderia não aparecer desta vez, que ele poderia
até ter sido mera criação de minha mente. Além disso, como certamente sabem os
filósofos, o fato de um evento ou uma ocorrência ter-se dado em algum momento
não implica, necessariamente, que venha a se repetir no futuro. Além disso, não
havia nada que pudesse me dizer que a escuridão teria sido a causa do
cavaleiro, a causa para que ele tivesse aparecido. Portanto, se eu não temera
seu surgimento durante o dia, enquanto seguia pela estrada, por que temer que
isto acontecesse durante a noite?
Por
alguns instantes, esse pensamento chegou a tranquilizar-me um pouco.
Entretanto, meus cabelos insistiam em permanecer arrepiados e minhas pernas
simplesmente não conseguiam mover-se. A escuridão, porém, não me impediu de ver
algo. Parecia bem distante. Eram pequenas luzes que pareciam sair do chão. Eram
faíscas. Em seguida, ouvi o tropel. Inevitavelmente, esqueci minhas pernas
bambas e meus cabelos arrepiados e comecei a prestar atenção nele. Longínquo e fraco
no início, foi aumentando e se aproximando...
Tentei
não acreditar naquilo. Tentei convencer-me de que tudo não passava de algum
engano, de alguma peça pregada a mim mesmo por minha imaginação. No entanto,
quanto mais eu tentava pensar dessa forma, mais ele se aproximava e se tornava
nítido. Não havia como duvidar. Aquele era mesmo um tropel de cavalo e vinha em
minha direção. E as faíscas no chão me diziam que se tratava do mesmo cavalo...
E do mesmo cavaleiro. Pensei em fechar os olhos para não ver, como havia visto
antes, aquelas formas aterradoras. Mas fechar os olhos tornava as coisas ainda
mais aterradoras. Era como se eu estivesse criando mais escuridão dentro da
escuridão que me rodeava.
Abri
novamente os olhos e lá estavam elas, as fagulhas, aumentando de intensidade na
mesma proporção em que aumentava o som provocado pelas patas de encontro ao
chão da estrada. Devido à escuridão, de início não pude ver o cavalo e o cavaleiro.
Numa fração ínfima de segundos, entretanto, eles apareceram. E, assim como na
noite anterior, pareciam terríveis. E não sei como, não sei com que arremedo de
coragem, consegui observar, fixar-me um pouco naquela visão avassaladora.
Se
na outra noite o cavaleiro parecera não ter notado minha presença, desta vez
algo bem diferente acontecia. Ele não apenas notou-me como me olhou fixamente
com dois olhos que pareciam brasas incandescentes. E não se limitou a isto. Atirou
alguns objetos que, parecendo dotados de vida, vieram quicando em minha direção,
parando rente aos meus pés. E aquilo como que redobrando meu susto e medo,
fez-se simplesmente insuportável. E acabei desmaiando, perdendo de vez os
sentidos.
Quando voltei
do desmaio, embora permanecesse ainda numa espécie de torpor, percebi que estava
deitado de costas. Com algum esforço consegui sentar-me. Depois disso, a
primeira coisa de que me lembrei, além do cavaleiro infernal que felizmente já
não estava mais ali, foram os objetos que ele me havia atirado. Eles deveriam
estar em algum lugar por ali. Movido entre o medo e a curiosidade, passei a procurá-los.
E os localizei sem dificuldade, pois continuavam onde haviam parado; bem
próximos dos meus pés.
Além disso,
havia uma claridade estranha, provinda deles próprios. Tal claridade
permitiu-me distingui-los e identificá-los perfeitamente. E, decididamente, aquela
era mesmo uma noite infernal, a noite do terror dos meus dias. Os objetos, em
número de três, eram nada mais nada menos que uma caveira e duas tíbias.
Estavam dispostas à maneira daquelas figuras desenhadas nos mastros de navios
piratas. Ou seja, as duas tíbias estavam cruzadas e a caveira estava sobre
elas. Aquilo, para mim, era o símbolo da morte e, pela primeira vez, ocorreu-me
pensar na possibilidade de que talvez já não me encontrasse entre aqueles que
julgam estar vivos.
Fosse como
fosse, movido não sei por que sentimento ou por que força, consegui erguer a
caveira entre as mãos. Com isto pude perceber que a estranha claridade vinha de
algumas letras que haviam estado sobre as duas tíbias, debaixo da própria
caveira. Eram letras fosforescentes, gravadas em uma espécie de papiro bem
pequeno, mas que talvez tivessem um significado muito grande, embora eu não pudesse,
naquele momento, decifrar a estranha frase que formavam: PREPARA-TE PARA O TERCEIRO ENCONTRO.
Não sei o que
havia de tão aterrorizante naquela frase, mas ela me soou tão terrível que fez
com que me erguesse sobre minhas pernas trêmulas. Em seguida, como que numa
demonstração inconsciente e inútil de coragem, peguei aqueles três objetos, a
caveira e as duas tíbias, e os atirei para fora da estrada com todas as minhas
forças, se é que ainda restava alguma força. Feito isto, desta vez sem
titubear, comecei a caminhar de volta para a cidade ou, mais precisamente, para
a ponte lá no começo da estrada.
E, enquanto
caminhava, aquela frase imperativa, que mais me parecia uma maldição, não saía
da minha cabeça. Estava claro que ela era uma mensagem para mim, dirigida à
minha pessoa, mas o que significaria? Quem ou o que a teria enviado? Seria o
cavaleiro apenas um mensageiro de algo ou de alguém? Ou aquilo partira dele
próprio, com o intuito de assustar-me ainda mais e deixar-me mais confuso do
que já estava?
Além disso,
supondo-se que eu quisesse atender aquela mensagem, como deveria preparar-me
para o “terceiro encontro”? Interrogações mortais aquelas. Como as
interrogações da própria vida.
De qualquer
forma, continuei a caminhar resoluto, meio que progredindo para trás em direção
à cidade. Desta vez, não parei junto ao cemitério. Por alguma razão, não queria
olhar para ele ou para o que ele, de certa forma, passava a representar depois
daquele meu contato com as duas tíbias e a caveira...
Passei por
sobre a ponte. Ali, sim, fiz uma inevitável parada. Ainda estava escuro e consegui
apenas ouvir o ruído das águas debaixo dela. Depois segui adiante, voltando
resoluto para a cidade. Dentro de pouco tempo estaria novamente em minha casa.
Quando
adentrei o Bairro dos Redivivos, o sol já havia nascido e o banho dourado de
seus raios era pleno sobre a cidade. Pensando bem, nem a cidade nem aquele meu
bairro eram assim tão desagradáveis a ponto de eu, por alguma razão, ter
passado a fugir deles. Talvez tivesse estado tentando, muito mais, fugir da
perda representada pela morte de Eliana. Ou talvez andasse tentando fugir de
mim mesmo...
E
foi assim pensando que ganhei forças, botei um pouco mais de velocidade em
minhas pernas e, rapidamente, cheguei à minha casa. Antes de entrar, chequei
com cuidado. Aquela era realmente a casa número
treze da Rua dos Finados, ou seja, a minha casa, cuja porta abri rapidamente.
Desta feita, não fui diretamente para o meu quarto. Vagarosamente, passei a
observar tudo com o máximo de atenção.
E
foi assim, observando com mais calma, que pude notar que tudo estava mesmo
muito diferente ali no interior da casa. Parecia até que alguém havia se mudado
para ela e modificado tudo. Nenhum móvel se parecia com a minha mobília. Mesas
diferentes, camas diferentes, fogão diferente, geladeira diferente. Até a
pintura da sala estava ou parecia estar mudada.
A
maior surpresa, entretanto, ocorreu quando entrei no meu próprio quarto. Havia
nele, agora, uma cama de casal. Eu havia alugado aquela casa quando estava
preparando para casar-me com Eliana. E, quando me mudara para ela, havia levado
comigo os móveis do meu apartamento. Era bem verdade que eu e Eliana havíamos
combinado trocar os móveis tão logo pudéssemos. Nessa troca estava incluída,
naturalmente a cama do quarto principal por uma cama de casal. Entretanto, o
acidente que a matara havia interropido todos os nossos planos, inclusive o da
troca dos móveis.
Portanto,
eu tinha absoluta certeza de que nada
disso havia ocorrido e de que não havíamos chegado a trocar móvel algum. Além
disso, eu tinha plena certeza, também, de que havia dormido naquele quarto na
noite anterior e não havia percebido a troca da cama... Mas, será que alguma
certeza pode mesmo ser absoluta ou plena? Os gramatiqueiros dizem que sim, que toda certeza é, por definição,
absoluta. Aliás, eu, naquele momento angustioso, até conseguia lembrar-me de
uma mensagem de E-mail, que havia
circulado na Internet, por meio da
qual alguém dotado de muita gramatiquice e
pouco saber fazia algumas afirmações nem todas muito sensatas. E uma dessas
afirmações era no sentido de que adjetivar a palavra certeza como absoluta
constituiria erro gramatical, um vício de linguagem. Naturalmente que a pessoa
que escrevera tal baboseira não tinha mais o que fazer e por isto se apegava à absoluta certeza de que estava certa...
Eu,
por minha vez, principalmente diante daquelas circunstâncias, já não podia me
dar ao luxo de estar certo sobre o que quer que fosse. E a incerteza acabou por
minar o pouco de confiança que eu, resolutamente, havia conseguido reaver.
Não
havia dúvida de que algo muito estranho estava acontecendo comigo. Estaria
ficando louco? Teria trocado os móveis antes de Eliana morrer, não me lembrando
mais de ter feito isso? Ou, coisa pior, teria realmente existido uma Eliana?
Existiria realmente uma sepultura sua lá no cemitério que ficava depois da
ponte? Estaria eu sonhando? Nesse caso, como provar para mim mesmo que não
estava sonhando, que nada daquilo estava acontecendo, que eu não havia visto um
cavaleiro dos infernos lá na Estrada Abandonada, etc., etc., e etc.?
Quando
entrara em casa, havia decidido, como da outra vez, a tomar uma boa ducha e
depois descansar. Mas, agora, diante daquelas novas dúvidas, nem para isto eu
tinha ânimo. Mina vontade era deitar e dormir. Isto é, no caso de não estar
sonhando... Mas não senti, também, ânimo para deitar-me naquela cama que
parecia não ser minha. Com isto, acabei deitando-me ali mesmo, na sala, naquele
sofá que também não parecia ser meu.
Não
sei se é possível sonhar que se está dormindo, mas a verdade é que, em sonho ou
não, parece que dormi bastante. Tanto que acordei com um barulho o mais
inesperado possível. Alguém, rindo, tentava abrir a porta da sala.
Felizmente,
o sofá onde eu havia me deitado estava um pouco afastado da parede. Assustado,
escondi-me rapidamente atrás dele e passei a aguardar os acontecimentos. Dentro
de pouquíssimos instantes, uma nova surpresa. Sem sequer ter tido que arrombar
a porta, um casal bastante jovem adentrou a casa. Por alguma razão, aqueles
dois possuíam a chave da porta da frente.
Sem
saber o que fazer, continuei escondido e fiquei observando o comportamento dos
dois invasores. Ele foi até a cozinha e voltou com uma lata de cerveja, enquanto
ela se dirigia ao “meu” quarto. Em outras épocas e em outras circunstâncias,
ver uma bela mulher como aquela se dirigindo para o meu quarto me deixaria
simplesmente maravilhado. E excitado... Naquele momento, porém, a estupefação
era a única coisa que me dominava.
E
a estupefação aumentou ainda mais quando ele, tomando a cerveja na própria lata,
sentou-se no sofá atrás do qual eu estava escondido, ligando, em seguida, a
televisão. Como se a casa fosse dele...
Diante
daquilo, novas interrogações dominaram minha mente. Teria aquele desgraçado
conseguido, de alguma forma, a chave de minha casa durante minha ausência?
Estaria utilizando minha casa como motel ou coisa parecida? Diante de tal hipótese,
cheio de raiva e indignação, cogitei agredi-lo. Afinal, ele estava distraído
com a televisão, e eu, além de não ser uma pessoa fisicamente fraca, já não
estava mais tão cansado, principalmente depois de haver dormido ali mesmo, no
sofá. Poderia, portanto, pegá-lo de surpresa. Bastaria aplicar-lhe uma gravata
e provavelmente conseguiria dominá-lo antes que pudesse esboçar qualquer
reação. Em seguida, daria um jeito de dominar também a mulher. Depois, veria o
que fazer com ambos. Se fosse o caso, chamaria a polícia.
Estava
bastante determinado a fazer isto, quando a mulher veio até a sala reclamando:
-
Era só o que faltava. Eu lá em nosso quarto, cheia de amor, à sua espera e você
aqui! Tomando cerveja e assistindo TV! Nem parece que somos recém-casados!
Sem
responder qualquer coisa, ele simplesmente desligou a televisão e abraçou-a. Em
seguida, aos beijos, os dois se dirigiram para o meu quarto. Nesse momento,
tive vontade de agredir os dois. Mas esse era o problema. Agora, os dois
estavam juntos e eu certamente não teria como surpreendê-los e nem como
dominá-los. A menos que estivesse armado. Mas eu não possuía armas. Pensei,
então, em ligar para a polícia. Entretanto, onde estava o telefone? Até ele parecia
ter sido mudado de lugar. E eu simplesmente não conseguia encontrá-lo.
Lembrei-me de meu telefone celular. Comecei a remexer meus bolsos à procura
dele. Mas também não o encontrei. Aliás, fazia muito tempo que não o utilizava
e, na verdade, não fazia a mínima ideia de seu paradeiro.
Estava
naquela situação bastante complicada, realmente sem saber o que fazer, de pé, meio
que paralisado, bem no meio da sala, quando fui novamente surpreendido. A mulher
saiu totalmente nua de dentro do quarto. Não tive tempo de esconder-me. Para
minha sorte, ela pareceu agir exatamente como vinham agindo meus vizinhos.
Estava certo de que ela, caminhando para a cozinha, havia olhado para a sala,
para onde eu estava, mas se me vira, fingira o contrário, agindo como se eu não
estivesse ali.
Antes
que ela voltasse da cozinha, escondi-me novamente atrás do sofá. Logo que fiz
isto, ouvi-a gritar:
-
Querido, não podemos esquecer de pagar o aluguel. Ele está vencendo.
E a resposta
dele, nitidamente em tom de brincadeira, deixou-me ainda mais estupefato:
- Mas,
querida, você nem queria que alugássemos esta casa. Chegou até a dizer que ela
é assombrada. E agora está tão ansiosa para pagar o aluguel!
- Eu ainda
acho que esta casa é assombrada. Mas isto não quer dizer que não devamos pagar
o aluguel.
- Não se
preocupe. Amanhã mesmo vou dar um jeito nisso. Aliás, vou até passar na
imobiliária e pedir-lhes um desconto. Por causa da assombração!
- Está bem,
faça isto – ela limitou-se a responder, antes de voltar para o quarto, levando
duas latas de cerveja.
Então é isto –
pensei. A maldita imobiliária alugou a casa para eles em algum momento enquanto
eu estava ausente. Mas como poderia isto ter acontecido? Afinal, eu não
rescindira meu contrato de aluguel da casa. A prova disso é que eu detinha as
chaves comigo.
De
qualquer forma, agora já não era o casal que me preocupava, mas a imobiliária.
Afinal, ela era a culpada por aquele terrível erro e não os jovens
recém-casados. Olhei para o relógio eletrônico que os dois haviam colocado bem
ali na sala. Ainda não eram cinco da tarde. Resolvi, então, ir correndo até o
escritório da imobiliária e tentar desfazer o mais rapidamente possível aquele
terrível erro; embora sabendo que, apesar da pressa, teria que ir a pé ou
talvez tomar um táxi ou um ônibus, pois, tendo perdido meu carro no próprio
acidente em que Eliana morrera, não havia adquirido outro veículo.
Apesar de tudo
isso, enquanto seguia pela calçada para pegar a rua da esquina, novamente me
distraí com seus números das casas: 12, 11, 10... E, por último, a de número 1.
Aquilo realmente me chamava a atenção. Até parecia que, de alguma forma, eu
estava sempre sendo obrigado a retornar ao início. A algum início...
Devido à
distração ou não, a verdade é que acabei não indo à imobiliária. Ao invés
disso, vi-me, irremediavelmente, me dirigindo mais uma vez para a ponte.
Ao chegar lá,
o sol estava começando a encobrir-se. Não sei se devido a isto ou se por alguma
outra razão, quando estava em cima da ponte, senti uma terrível sensação de
angústia e de perda. Algo me dizia que aquela seria a última vez que parava
sobre ela; a última vez que, de cima dela, observava as coisas ao seu redor.
Por isto, parei e tentei apreciar tudo aquilo o máximo possível, como que me
despedindo. Em seguida, não sei se resoluto ou se movido por alguma força
estranha, prossegui rumo à estrada lá embaixo.
Era a terceira
vez que atravessava a ponte naquelas circunstâncias, ou seja, atraído pela
Estrada Abandonada. Era mesmo muito forte a sensação de que talvez não
retornasse mais.
Assim, mais uma
vez, passei em frente ao portão do Campo dos Mortos. Ali, fiquei na dúvida se
parava ou não. Por estranho que pudesse parecer, se havia sentido que não mais poria
meus pés sobre a ponte, o mesmo não aconteceu em relação ao cemitério. Algo me
dizia que, de alguma forma eu o veria novamente. De qualquer forma, tomei a
resolução de parar e olhar lá para dentro. Como já estava escurecendo, não pude
diferenciar muito bem a sepultura de Eliana. Aquilo aumentou um pouco minha
ansiedade e acabei me decidindo a prosseguir. Não, porém, sem dar uma última
olhada lá para a ponte que me havia sido tão cara. Em seguida, parti rumo à
escuridão. O “terceiro encontro” era mesmo inevitável.
Retomando
a caminhada, não pude deixar de notar que pela primeira vez adentrava aquela
estrada já à noite. Das outras vezes, eu a adentrara de dia e a noite havia me
apanhado, por assim dizer, no meio do caminho. Desta vez, no entanto, era
diferente. Eu a havia tomado já dentro da escuridão da noite. Talvez estivesse
mesmo resolvido a ir de encontro ao meu destino, fosse ele qual fosse.
Na
medida em que avançava, porém, a ansiedade ia aumentando. Na verdade, foi
aumentando a ponto de transformar-se em medo puro e simples. Se meu destino era
inevitável, eu não tinha como saber qual seria ele e isto, com certeza, era
aterrador, embora uma força estranha parecesse sair de dentro de mim mesmo,
impelindo-me a caminhar.
E,
enquanto prosseguia caminhando, também a noite avançava. Comecei, então, a me
preparar para o pior. O cavaleiro me havia prevenido quanto ao “terceiro
encontro”. Estava mais do que claro, agora, que se trataria de um encontro
entre mim e ele. E eu não sabia o que esperar disso. Afinal, da primeira vez,
ele e seu cavalo infernal me haviam ignorado. Na segunda vez ele me havia passado
uma mensagem clara, relativa a um novo encontro; apesar de enigmática sob
muitos outros aspectos. E agora, nesse “terceiro encontro”, o que aconteceria?
Eu simplesmente não podia imaginar, embora soubesse que tal encontro seria
inevitável; além de, talvez, fatal.
E,
como era de se esperar, em dado momento, pareceu-me ouvir o tropel. Por uma
ínfima fração de tempo, cheguei a ter esperança de que nada tivesse ouvido, de
que tudo não passava de mera impressão por parte de minha mente transtornada. Em
razão disto, cheguei a pensar em não olhar para a estrada à minha frente. Eu
não queria ver novamente aquelas faíscas aterradoras levantadas do chão. Vã
esperança, entretanto. Até podia não olhar para frente a fim de não ver as
faíscas, mas não tinha como impedir-me de ouvir aqueles ruídos que se
aproximavam. Por alguma razão, pareciam lentos, no início. Lentos como o tempo,
que parecia não querer passar... Entretanto, se o tempo parecia lento, não
havia dúvida de que o cavaleiro se aproximava rapidamente. Em breve eu estaria
vendo, bem diante de mim, aqueles aterradores pares de olhos em brasa, do
cavalo e do cavaleiro; coisa que realmente não demorou a suceder-se.
A
visão era mesmo aterradora. Na verdade, parecia mais aterradora que das outras
duas vezes. Talvez porque eu soubesse que agora seria diferente. Algo terrível estava
mesmo para acontecer...
E aconteceu.
Ao invés de fechar os olhos, reuni todas as minhas forças e tentei observar o
fantasma dos meus últimos dias, o cavaleiro que saíra dos infernos para
atormentar minha vida. Foi então que percebi a coisa mais estranha que já pudera
ver. Não havia realmente um cavaleiro. Havia um chapéu, uma capa esvoaçante, um
par de olhos em brasa... E nada mais. Fiquei ainda mais aterrado ante esta nova
percepção e estava para desmaiar, quando ouvi uma voz que vinha ou parecia vir
do cavaleiro ou do que quer que fosse aquilo:
- Por que tem
tanto medo se eu sou você?
Não posso
estar ouvindo isto, pensei comigo mesmo.
No entanto, a
voz se repetiu:
- Venha ocupar
seu lugar. O cavalo não passará uma quarta vez.
Decididamente,
aquilo era demais. Eu devia mesmo ter ficado louco. Estaria padecendo de alguma
forma de doença mental? Seria um esquizofrênico? Como podia um cavaleiro
inexistente, estar dirigindo-me a palavra e, pior que isto, dizendo que ele era
eu ou vice-versa. Aquelas dúvidas eram piores que o medo. Diante delas, senti
minhas últimas forças se esvaírem. E acho que desmaiei.
Quando me dei
novamente por mim, lá estava eu, sobre o cavalo. Era eu quem usava aquele
chapéu e aquela capa fantasmagórica e esvoaçante. Era eu quem tinha os olhos incandescentes.
Era eu, enfim, quem montava aquele ginete infernal.
Era eu que havia
cavalgado debaixo das sombras noturnas, vagando mundo a fora, sem saber
exatamente para onde ir. Havia sido eu quem havia assombrado a mim próprio nos
dois encontros anteriores. Havia sido eu que, num ato decidido, um dos poucos
deles desde a morte de Eliana, havia marcado o “terceiro encontro”, um encontro
comigo mesmo.
De
repente, aquele cavalo já não parecia tão infernal e tão bizarro. Ele também, de
alguma forma, fazia parte da minha existência.
Compreendendo
isto, tomei as rédeas em minhas mãos, mas deixei-as soltas. Por alguma razão
esperava que o cavalo me levasse até a ponte. A ponte que me havia tornado tão
cara desde algum tempo atrás, desde que Eliana morrera. A ponte que eu havia
cruzado por três vezes sem saber exatamente a razão de ter feito isto.
E, realmente
aquele possante animal me levou em sua direção. Mas não chegamos à ponte. Era
como se o pressentimento que me ocorrera quando de sua última travessia estivesse
se concretizando. Em razão disto, apenas pude vê-la de longe; e realmente pela
última vez. O cavalo havia parado ante o portão do Campo dos Mortos. Atravessamo-lo
facilmente, embora estivesse fechado. Paramos diante da sepultura de Eliana. Pela
primeira vez, apesar da escuridão - ou talvez ajudado por ela - uma outra
sepultura bem ao lado chamou-me a atenção.
Apeei do
cavalo e passei a observá-la detidamente. Para minha surpresa, em sua lápide se
lia: Joaquim Boanerges. *
03-03-1971 + 03-03-2004.
Como podia meu
nome estar ali naquela lápide e, mais ainda, na lápide de uma pessoa que havia
morrido no mesmo dia da morte de Eliana? Que eu lembrasse, não tinha havido
outro enterro naquele dia. Ou teria...?
De repente, as
coisas começaram a se tornar mais claras. Eu e Eliana tínhamos saído para
comemorar o meu próprio aniversário. E não havíamos regressado para casa,
devido ao acidente... Aquela estranha indiferença por parte de meus vizinhos,
que pareciam não perceber minha presença desde aquela noite fatídica... A
“invasão” de minha casa por aquele jovem casal, cuja mulher julgava ser minha
casa uma casa mal-assombrada... A ausência quase total de fome, de necessidade
de alimentar-me; minhas folgas excessivas, nunca tendo que ir trabalhar para
sobreviver, como sempre acontecera antes do acidente. Meu excessivo apego à
ponte e ao cemitério, embora, a não ser nas últimas três vezes, nunca tivesse
tido coragem de atravessá-la e chegar até este último... Não havia como
duvidar. O caminhão desgovernado não matara apenas Eliana naquela noite, a
partir da qual, eu também havia deixado de pertencer à categoria dos viventes
lá da cidade...
Sim, agora era
possível compreender muita coisa. Compreender que era preciso deixar que os
mortos enterrassem seus mortos. Compreender que eu, até então, de alguma forma
não havia permitido isto. Não, pelo menos, com relação à minha pessoa, embora
meu corpo estivesse ali, sepultado ao lado de Eliana...
Assim
pensando, meio que instintivamente, procurei pelo meu cavalo. E lá estava ele.
Branco como a neve, magnífico como um unicórnio. Montei-o sem hesitar. E
partimos rumo aos campos sem fim...
NOTAS DO AUTOR
NOTAS DO AUTOR
¹ Gostaria de
relatar como se originou a ideia de escrever o conto “A Ponte do Terceiro
Encontro”.
No dia 29
de julho de 2012, a Academia de Letras de São João del-Rei foi agraciada com
uma palestra proferida pelo Acadêmico Francisco José dos Santos Braga, intitulada
“O pensamento alemão, a
"descoberta" da cultura germânica e novos apontamentos sobre o Lied ‘Rei
dos Elfos’, de Franz Schubert,
composto sobre poema de mesmo nome do poeta Johann Wolfgang von Goethe” ², a
qual despertou o mais vivo interesse em todos os presentes. Da minha parte, fiquei
o mais vivamente impressionado com a balada Erlkönig (Rei dos Elfos) de Goethe,
bem como com o áudio da declamação do poema em alemão e com o auxílio do qual, além disso, o
palestrante nos brindou com uma apresentação
antológica de Erlkönig pelo barítono alemão Dietrich Fischer-Dieskau, acompanhado
pelo pianista inglês Gerald Moore, tendo discorrido longamente sobre o cantor e
sua morte ocorrida então recentemente. Mas, o que mais me impressionou, além do
texto da balada traduzida pelo palestrante e do áudio, foi a imagem de um
cavalo cavalgado por um cavaleiro (pai), que trazia nos braços seu filho
moribundo.
Entre os inúmeros pontos abordados naquela ilustre palestra,
lembro-me de que me marcou muito a exposição de Francisco Braga sobre a
percepção para os românticos, tendo então explicado que “a
percepção sempre desempenhou um papel importante nas obras da época romântica.
Nessa escola, era comum o uso de realidades distorcidas, colocando em dúvida a
ideia da existência de apenas uma realidade."
E Braga continuou a sua exposição descrevendo a situação desesperadora vivida pelo pai, com o filho desfalecido nos braços:
"Um ótimo exemplo disso vem de Goethe, cuja obra alavancou o movimento “Sturm und Drang” e, mais tarde, o Romantismo. Sua balada ‘Erlkönig’ apresenta um menino que acredita estar obsedado por um espírito da floresta, o Rei dos Elfos, enquanto ele e seu pai cavalgam pela floresta à noite. Seu pai, não vendo o Rei dos Elfos, recusa-se a ouvir os apelos da criança; pelo contrário, dá explicações lógicas para tudo o que o menino está a relatar. Ao final do poema, o menino está morto, mas fica a dúvida: O Rei dos Elfos lhe tirou a vida? Ou a criança estava simplesmente febril, sofrendo alucinação? O poema não dá resposta, mas, em vez disso, leva o leitor a indagar: Quem afinal deve ser levado a sério, o pai ou o filho? Ou ambos os pontos de vista são igualmente reais?", indagou Braga. E assim continuou sua exposição:
E Braga continuou a sua exposição descrevendo a situação desesperadora vivida pelo pai, com o filho desfalecido nos braços:
"Um ótimo exemplo disso vem de Goethe, cuja obra alavancou o movimento “Sturm und Drang” e, mais tarde, o Romantismo. Sua balada ‘Erlkönig’ apresenta um menino que acredita estar obsedado por um espírito da floresta, o Rei dos Elfos, enquanto ele e seu pai cavalgam pela floresta à noite. Seu pai, não vendo o Rei dos Elfos, recusa-se a ouvir os apelos da criança; pelo contrário, dá explicações lógicas para tudo o que o menino está a relatar. Ao final do poema, o menino está morto, mas fica a dúvida: O Rei dos Elfos lhe tirou a vida? Ou a criança estava simplesmente febril, sofrendo alucinação? O poema não dá resposta, mas, em vez disso, leva o leitor a indagar: Quem afinal deve ser levado a sério, o pai ou o filho? Ou ambos os pontos de vista são igualmente reais?", indagou Braga. E assim continuou sua exposição:
"Esse tipo de questionamento vai completamente
contra o Iluminismo, no qual se buscava uma verdade única. Goethe, em vez
disso, sugere, com a sua balada ‘Erlkönig’, que várias verdades podem existir,
cada uma delas igualmente válida."
"Independente de o resultado ter sido obtido
através do efeito de febre, drogas ou doença mental, o fato é que ficou muito
claro para os românticos que havia mais modos de ver as coisas do que o
habitual. Ao levarem em conta que podia haver mais de uma forma de perceber o
mundo e as pessoas aí, essa descoberta lhes deu muito maior liberdade de
pensamento do que se estivessem querendo mostrar apenas uma interpretação
‘verdadeira’."
"De fato, foi este
questionamento sobre o papel da mente humana que pavimentou a estrada para a
psicologia moderna e suas investigações da percepção humana”, conforme as palavras literais de Francisco
Braga.
Assim, embora eu seja um admirador dos iluministas franceses, tendo, inclusive, chegado a publicar um artigo sobre a Encyclopédie, devo confessar que, quando escrevo textos puramente literários, minha propensão é muito mais para o "jeito romântico" de percepção da realidade, chegando mesmo a pender para o chamado realismo fantástico.
Foi certamente em razão disto que, além da forte impressão causada a todos pela palestra de Braga, a mim, de forma especial, me impressionou o "cavaleiro da balada de Erlkönig" na forma por ele apresentada; a ponto de a figura daquele cavaleiro soturno, cavalgando numa noite brumosa, mágica e sombria, continuar a ferroar meu cérebro por um longo período. Tanto que, algum tempo depois, tendo ouvido uma canção popular cujo nome não recordo e que fazia referência, também ela, a uma espécie de "cavaleiro mágico", acabei indo procurar na Internet alguma coisa sobre "cavaleiros arquetípicos"; isto é, algo que, pelo menos segundo meu entendimento, mediasse entre a magia dos românticos e os arquétipos junguianos; o que realmente encontrei. Alguém, sob o pseudônimo de Anaxandron, havia tido a feliz ideia de postar uma figura de um cavaleiro algo "sinistro", juntamente com o poema "Meu Sonho", de Álvares de Azevedo... Pronto, estava ali o que me faltava para começar a escrever mais um conto, sob pena de não conseguir tirar o desassossego que ia pelo meu espírito.
E o que escrevi como que fazendo uma mescla de tudo o que havia sido despertado no íntimo do meu ser por esses "cavaleiros arquetípicos", especialmente o "cavaleiro da balada de Erlkönig", exposto na palestra de Braga, acima mencionada. E creio que nele acabei mesclando um pouco dos meus próprios arquétipos com um pouco da minha formação na área de letras e de filosofia, inclusive misturando uma pitada de romantismo com uma pitada de existencialismo heideggeriano...
Na verdade, nem sei se é possível juntar todas essas coisas, mas o fato é que esse conto acabou conquistando duas premiações no XIX PRÊMIO CIDADE DE CONSELHEIRO LAFAIETE/2012, a saber: "1º lugar - categoria conto" e "1º lugar - prêmio especial - conto". E é ele que segue abaixo sob o título de "A Ponte do Terceiro Encontro".
² O texto desta célebre palestra pode ser acessado através do seguinte endereço eletrônico: http://bragamusician.blogspot.com.br/2013/01/o-pensamento-alemao-descoberta-da.html
* João Bosco da Silva nasceu em São João del-Rei, MG, a 13 de julho de 1952, tendo passado boa parte de sua infância no campo. Ingressando na então denominada Escola Agrícola Padre Sacramento, escola pública rural localizada nas imediações de São João del-Rei, ali concluiu o chamado “Sexto Ano Profissionalizante – Arte em Madeira”. Naquela escola, aos treze anos de idade, recebeu seu primeiro prêmio “literário” ao escrever um texto intitulado Por Que Gosto de Minha Família, considerado “a melhor composição sobre a família” num concurso realizado entre alunos de escolas públicas de São João del-Rei e adjacências. Ao sair daquela escola, tendo que voltar à vida do campo, somente regressou definitivamente a São João del-Rei no ano de 1972, para prestar o serviço militar obrigatório, ingressando no Regimento Tiradentes, o que lhe possibilitou continuar seus estudos. No ano de 1980, concluiu o Curso de Ciências Físicas e Biológicas pela antiga Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, tendo, porém, seguido carreira no Exército Brasileiro. Mais...
5 comentários:
BOA TARDE FRANCISCO,
Há bastante tempo não acesso meus e-mails e hoje, tive a agradável surpresa de poder me deliciar com esse conto maravilhoso de um conterrâneo (que não conhecia). Agradeço-lhe por essa oportunidade. ADOREI. Ao mesmo tempo que queria que chegasse ao final, eu queria mais: que não acabasse.
Obrigada. Abraços. Luci
Amigo Braga, hoje, finalmente, li o texto do Blog de São João del-Rei. É uma narração que prende e nos estimula a refletir sobre o mistério da morte. Ou das mortes. Afinal, quando alguém que nos é caro vem a morrer, nós morremos um pouco. Ou morremos junto. Talvez, simplesmente, achemos um cavalo num terceiro encontro e trotar para bem longe. Ou bem perto. E morrer... de verdade. Gostei. Parabéns para o autor. Fernando Teixeira
Prezado amigo BRAGA,
Muito obrigado.Achei o texto fantástico.
Att
CAMILLO
Belo conto, ao estilo dos de Lincoln de Souza.
José Maurício
Hi Bosco,
Finally I found time to read “A PONTE DO TERCEIRO ENCONTRO”. Once I started, I could not stop reading. In my opinion you really got talent to write. Foreseeing retirement, I wish I had too, but definitely I don’t. I can kind of imagine pictures of what was/is/will be “LIFE” and what is lack of “IT”. These pictures take me over past, present, future, bridges, and roads, but I just can’t express them. I read in some place, a kind of contradiction that maybe explains it: …if you’re too emotional, you can’t be a writer… Well, EMOTION is my middle name….I could easily cry just remembering the churrascos we used to have in the backyard, Bosco, Cleyton, Fernando, Gonsalves, Paulo, etc..
Hope you keep up the good work as well as I hope to be able to read more of your writings. Whenever I read something that I like, I choose the word, phrase, sentence that impressed me the most. In “A PONTE DO TERCEIRO ENCONTRO” it was the phrase: “Ou talvez andasse tentando fugir de mim mesmo...”
Um abraco amigo. Jesse Meneses
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