Por Francisco José dos Santos Braga
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| Carlos Machado Bittencourt (✰ Porto Alegre, 12/04/1940 ✞ Rio, 05/11/1897) - Crédito: Wikimedia Commons |
I. INTRODUÇÃO
Na minha última postagem no Blog do Braga intitulada “Flashes da Memória de um cabo do Exército na Guerra de Canudos”, devo ter deixado claro, em minha análise de “Veredicto em Canudos”, que o autor húngaro Sándor Márai fez uso da ficção na caracterização de alguns personagens, especialmente na caracterização do Marechal Bittencourt. Embora na história real o Marechal Carlos Machado Bittencourt tenha sido consagrado como o patrono da Intendência do Exército Brasileiro por ter sido incumbido de estruturar com sucesso as linhas de abastecimento da quarta expedição a Canudos, o romance fictício do húngaro Sándor Márai foca em um viés marcadamente psicológico e humanista. O foco de Sándor Márai na dita obra pode ser resumida da seguinte forma:
— O autor utiliza o Marechal Bittencourt não para exaltar estratégias militares ou o sucesso dos comboios de mulas, mas como a a voz da Razão do Estado e do pragmatismo republicano.
— Grande parte do livro se desenvolve por meio do interrogatório fictício feito pelo Marechal a uma prisioneira sobrevivente do arraial.
— Em vez de celebrar o êxito logístico, o livro questiona onde realmente termina a civilização e onde começa a barbárie, traçando paralelos implícitos com as opressões ideológicas totalitárias do século XX na Europa.
— A história é contada à luz das memórias de Oliver O'Connel, um ex-cabo e bibliotecário que serviu como escrivão de Bittencourt, focando no peso emocional da carnificina final e não na exaltação burocrática do reabastecimento.
Portanto, enquanto a historiografia militar brasileira e a obra Os Sertões (de Euclides da Cunha, que inspirou Márai) destacam que a vitória em Canudos foi antes de tudo uma vitória da logística, o escritor húngaro preferiu transformar Bittencourt em um personagem trágico e irreflexivo sobre os limites da violência política.
Resumindo, enquanto no ensaio anterior, utilizei o enfoque literário sobre a narrativa de Sándor Márai, neste, meu olhar será o de historiador e, portanto, com um viés realista, dentro do possível.
II. REMEMORAÇÃO DAS 4 EXPEDIÇÕES NO CONFLITO ENTRE O EXÉRCITO E OS CONSELHEIRISTAS
Primeira Expedição (novembro de 1896): Liderada pelo tenente Manuel da Silva Pires Ferreira com cerca de 100 soldados estaduais. A tropa sofreu uma emboscada surpresa dos conselheiristas na cidade de Uauá e recuou às pressas para Juazeiro.
Segunda Expedição (janeiro de 1897): Comandada pelo major Febrônio de Brito, contando com mais de 500 homens, metralhadoras e canhões. O exército foi novamente repelido e derrotado na Serra do Cambaio pelas táticas de guerrilha e conhecimento do terreno dos jagunços.
Terceira Expedição (março de 1897): Liderada pelo coronel Moreira César, conhecido como "Corta-Cabeças", com cerca de 1.300 homens da infantaria e cavalaria. Considerada uma resposta de força total do governo federal, terminou em desastre absoluto com a morte do comandante. Diante da morte do coronel Moreira César, em seu lugar assumiu o coronel Pedro Nunes Batista Ferreira Tamarindo. Abalada, a expedição foi obrigada a retroceder, derrotada. No Rio de Janeiro, a repercussão da derrota foi enorme, principalmente porque se atribuía ao Conselheiro a intenção de restaurar a monarquia. Jornais monarquistas foram empastelados e Gentil José de Castro, gerente de dois deles, assassinado.
Quarta e última Expedição (junho a outubro de 1897): Comandada pelo general Artur Oscar de Andrade Guimarães e apoiada diretamente pelo ministro da Guerra, marechal Carlos Machado de Bittencourt, que seguiu para o sertão baiano e se instalou em Monte Santo, base das operações. Mobilizou mais de 10 mil soldados fortemente armados com artilharia pesada. Promoveu um cerco penoso e violento, culminando no massacre total da população e destruição completa do arraial em 5 de outubro de 1897.
Segunda Expedição (janeiro de 1897): Comandada pelo major Febrônio de Brito, contando com mais de 500 homens, metralhadoras e canhões. O exército foi novamente repelido e derrotado na Serra do Cambaio pelas táticas de guerrilha e conhecimento do terreno dos jagunços.
Terceira Expedição (março de 1897): Liderada pelo coronel Moreira César, conhecido como "Corta-Cabeças", com cerca de 1.300 homens da infantaria e cavalaria. Considerada uma resposta de força total do governo federal, terminou em desastre absoluto com a morte do comandante. Diante da morte do coronel Moreira César, em seu lugar assumiu o coronel Pedro Nunes Batista Ferreira Tamarindo. Abalada, a expedição foi obrigada a retroceder, derrotada. No Rio de Janeiro, a repercussão da derrota foi enorme, principalmente porque se atribuía ao Conselheiro a intenção de restaurar a monarquia. Jornais monarquistas foram empastelados e Gentil José de Castro, gerente de dois deles, assassinado.
Quarta e última Expedição (junho a outubro de 1897): Comandada pelo general Artur Oscar de Andrade Guimarães e apoiada diretamente pelo ministro da Guerra, marechal Carlos Machado de Bittencourt, que seguiu para o sertão baiano e se instalou em Monte Santo, base das operações. Mobilizou mais de 10 mil soldados fortemente armados com artilharia pesada. Promoveu um cerco penoso e violento, culminando no massacre total da população e destruição completa do arraial em 5 de outubro de 1897.
O primeiro combate verificou-se em Cocorobó, em 25 de junho, com a coluna Savaget. No dia 27, depois de sofrerem perdas consideráveis, os atacantes chegaram a Canudos. Após várias batalhas, a tropa conseguiu dominar os jagunços, apertando o cerco sobre o arraial. Depois da morte de Conselheiro (supõe-se que em decorrência da desinteria), em 22 de setembro, parte da população de mulheres, crianças e idosos foi colocada à disposição das tropas federais, enquanto um último reduto resistia na praça central do povoado.
Em tal momento de rendição, há relatos de que foi instituída, suspeitadamente por oficiais de baixa patente do Exército, o que se denominou de pena da "gravata vermelha" — execução sumária de prisioneiros já subjugados, que eram posicionados de joelhos e degolados. Estima-se que parte da população civil rendida, que ainda não havia sido dizimada pela fome e pelas doenças no arraial, e não somente os prisioneiros combatentes, tenha sido executada dessa forma por tropas federais, o que constituiu num dos maiores crimes já praticados em território brasileiro.
O arraial resistiu até 5 de outubro de 1897, quando morreram os quatro derradeiros defensores. O cadáver de Antônio Conselheiro foi exumado e sua cabeça decepada a faca. No dia 6, o arraial foi arrasado e incendiado, tendo o Exército registrado a contagem 5.200 casebres.
Em tal momento de rendição, há relatos de que foi instituída, suspeitadamente por oficiais de baixa patente do Exército, o que se denominou de pena da "gravata vermelha" — execução sumária de prisioneiros já subjugados, que eram posicionados de joelhos e degolados. Estima-se que parte da população civil rendida, que ainda não havia sido dizimada pela fome e pelas doenças no arraial, e não somente os prisioneiros combatentes, tenha sido executada dessa forma por tropas federais, o que constituiu num dos maiores crimes já praticados em território brasileiro.
O arraial resistiu até 5 de outubro de 1897, quando morreram os quatro derradeiros defensores. O cadáver de Antônio Conselheiro foi exumado e sua cabeça decepada a faca. No dia 6, o arraial foi arrasado e incendiado, tendo o Exército registrado a contagem 5.200 casebres.
III. DADOS OFICIAIS SOBRE O MARECHAL BITTENCOURT
Para o verbete "BITTENCOURT, Carlos Machado" no CPDOC/FGV - Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, Cláudio Beserra de Vasconcelos escreveu:
"(...) Em 17 de maio de 1897, em meio a uma crise de relacionamento entre o presidente da República, Prudente de Morais, e o ministro da Guerra, general Francisco de Paula Argolo, foi designado para assumir a pasta. (...)
Os moradores da localidade (arraial de Canudos) haviam repelido as duas primeiras (expedições militares), enviadas em novembro de 1896 e janeiro de 1897. Diante das perdas e da pressão de políticos, o governo republicano preparou uma nova expedição, de 1.300 homens, sob o comando do coronel Antônio Moreira César. No dia 2 de março de 1897, depois de ter sofrido pesadas baixas causadas pela guerra de guerrilhas a caminho de Canudos, Moreira César foi morto em combate, e a expedição bateu em retirada. Carlos Machado Bittencourt recebeu então ordem do governo federal de enviar uma quarta e definitiva expedição ao arraial de Canudos. Sob o comando do general de brigada Artur Oscar, foram organizadas duas colunas comandadas pelos generais João da Silva Barbosa e Cláudio do Amaral Savaget, ambas com mais de quatro mil soldados fortemente armados, compostas de mais de 30 unidades militares vindas das mais longínquas regiões do país. Contudo, a quarta expedição também enfrentou sérias dificuldades, e o fracasso era iminente. Diante dessa situação, o presidente da República delegou a seu ministro da Guerra plenos poderes para dar desfecho ao conflito.
O marechal Carlos Machado Bittencourt seguiu então para o sertão baiano em 3 de agosto de 1897 e, lá chegando no dia 7 de setembro seguinte, instalou sua base de operações militares na localidade de Monte Santo. Analisando as derrotas das três expedições anteriores, e baseado em sua experiência na Guerra do Paraguai, logo percebeu que o grande inimigo da expedição não eram os jagunços, mas uma estrutura de apoio logístico inadequada ao sertão. Durante os combates os homens carregavam todo o seu suprimento, mas mesmo assim, no desenvolver da luta, viam-se sem mantimentos e sem ter como cuidar dos feridos. Diante dessa situação, antes de partir para o ataque, tomou várias medidas visando à reorganização da logística nas operações: destituiu fornecedores, adquiriu diretamente os produtos de que necessitava, organizou comboios, estabeleceu postos de suprimento, comprou muares, organizou e sistematizou o transporte de pessoal e material, tornando efetivo e contínuo o fluxo de reabastecimento das tropas. A implantação do adequado apoio logístico foi essencial para o resultado do conflito. Em 5 de outubro, terminava a campanha com a vitória das forças federais.
Durante a Guerra de Canudos (1896-1897), cerca de 20 mil moradores do arraial morreram. Centenas de prisioneiros de guerra, entre homens, mulheres e crianças, inclusive pessoas que se haviam rendido com bandeira branca e recebido promessas de proteção em nome da República, foram executados sumariamente. As ações do Exército, em particular as da fase final do conflito, comandadas por Carlos Machado Bittencourt, tiveram grande repercussão e foram fortemente repudiadas por estudantes, como os da Faculdade de Direito da Bahia, políticos, como Rui Barbosa, e intelectuais, como Euclides da Cunha, que dedicou sua grande obra, Os sertões, à análise dos acontecimentos em Canudos.
O marechal Carlos Machado Bittencourt seguiu então para o sertão baiano em 3 de agosto de 1897 e, lá chegando no dia 7 de setembro seguinte, instalou sua base de operações militares na localidade de Monte Santo. Analisando as derrotas das três expedições anteriores, e baseado em sua experiência na Guerra do Paraguai, logo percebeu que o grande inimigo da expedição não eram os jagunços, mas uma estrutura de apoio logístico inadequada ao sertão. Durante os combates os homens carregavam todo o seu suprimento, mas mesmo assim, no desenvolver da luta, viam-se sem mantimentos e sem ter como cuidar dos feridos. Diante dessa situação, antes de partir para o ataque, tomou várias medidas visando à reorganização da logística nas operações: destituiu fornecedores, adquiriu diretamente os produtos de que necessitava, organizou comboios, estabeleceu postos de suprimento, comprou muares, organizou e sistematizou o transporte de pessoal e material, tornando efetivo e contínuo o fluxo de reabastecimento das tropas. A implantação do adequado apoio logístico foi essencial para o resultado do conflito. Em 5 de outubro, terminava a campanha com a vitória das forças federais.
Durante a Guerra de Canudos (1896-1897), cerca de 20 mil moradores do arraial morreram. Centenas de prisioneiros de guerra, entre homens, mulheres e crianças, inclusive pessoas que se haviam rendido com bandeira branca e recebido promessas de proteção em nome da República, foram executados sumariamente. As ações do Exército, em particular as da fase final do conflito, comandadas por Carlos Machado Bittencourt, tiveram grande repercussão e foram fortemente repudiadas por estudantes, como os da Faculdade de Direito da Bahia, políticos, como Rui Barbosa, e intelectuais, como Euclides da Cunha, que dedicou sua grande obra, Os sertões, à análise dos acontecimentos em Canudos.
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| Atentado contra a vida do Presidente Prudente de Morais, que acabou vitimando o Marechal Bittencourt - Crédito: Wikimedia Commons |
Carlos Machado Bittencourt regressou à capital federal e, no dia 26 de outubro, reassumiu sua pasta. No dia 5 de novembro, quando foi aguardar no cais do Arsenal de Guerra (onde hoje funciona o Museu Histórico Nacional), com Prudente de Morais e outras autoridades, a chegada do navio Espírito Santo, no qual regressava o general João da Silva Barbosa, junto com outras autoridades e com as tropas que haviam lutado no sertão baiano, morreu vítima de um atentado político contra o presidente da República. (...)
Cognominado o “Marechal de Ouro”, Carlos Machado Bittencourt, por haver demonstrado como ministro da Guerra, na expedição a Canudos, a necessidade da existência de um serviço de intendência estruturado, equipado e treinado para garantir o apoio logístico às tropas que lá combatiam, foi consagrado pelo Decreto-Lei nº 2.112, de 5 de abril de 1940, como patrono do Serviço de Intendência do Exército Brasileiro."
IV. CONSEQUÊNCIAS POLÍTICAS DA MORTE DO MARECHAL BITTENCOURT
A morte trágica do homem que havia acabado de estruturar a vitória militar em Canudos chocou o país e provocou uma reviravolta política imediata:
Estado de Sítio: O presidente Prudente de Moraes, fortalecido pela comoção pública e pelo sacrifício de seu ministro, decretou Estado de Sítio na capital para esmagar seus opositores políticos.
Estado de Sítio: O presidente Prudente de Moraes, fortalecido pela comoção pública e pelo sacrifício de seu ministro, decretou Estado de Sítio na capital para esmagar seus opositores políticos.
Conspiração Jacobina: As investigações policiais descobriram que o soldado Marcelino Bispo não agiu sozinho. Ele fazia parte de uma conspiração ligada aos "jacobinos" (republicanos radicais e florianistas) que faziam oposição violenta ao governo civil de Prudente de Moraes. Figuras importantes da política da época foram presas ou investigadas.
Fim do Assassino: O soldado Marcelino Bispo foi preso, mas acabou sendo encontrado enforcado na cela da prisão tempos depois, em circunstâncias até hoje consideradas misteriosas (oficialmente tratado como suicídio).
Legado Militar: O heroísmo de morrer protegendo o chefe da nação, somado à sua impecável eficiência em abastecer o exército na Bahia, imortalizou o militar. Décadas mais tarde, ele foi oficialmente consagrado como o Patrono do Serviço de Intendência do Exército Brasileiro, sendo lembrado anualmente em 12 de abril, data de seu nascimento.
V. BIBLIOGRAFIA
BRAGA, F.J.S.: Flashes da memória de um cabo do Exército na Guerra de Canudos, publicado no Blog do Braga em 04/08/2026
CPDOC/FGV: verbete "BITTENCOURT, Carlos Machado" por Cláudio Beserra de Vasconcelos
MÁRAI, Sándor: Veredicto em Canudos, Companhia das Letras, tradutor do húngaro: Paulo Schiller, 2002, 159 p.
SÓ HISTÓRIA: Guerra de Canudos (continuação): Campanha militar e Consequências da Guerra de Canudos
WIKIPEDIA: Carlos Machado de Bittencourt


