Por Célio Pinheiro *
Transcrevemos palestra do Prof. Célio Pinheiro proferida em 13/08/1974 no Salão Nobre da Casa Euclidiana dentro do CICLO DE ESTUDOS EUCLIDIANOS, na Semana Euclidiana - de 9 a 15/08/1974 em São José do Rio Pardo-SP, Área II.
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| Prof. Célio Pinheiro (✰ Araçatuba, ? - ✞ Penápolis, 24/09/2017) - Crédito Blog do Consa |
I. INTRODUÇÃO
A passagem do século dezenove para o atual é marcada por uma atmosfera literária a que se chamou de Decadentismo ou Decadismo. "Os 'decadentes', seguindo os passos de Baudelaire, pregavam a anarquia, o satanismo, as perversões, as morbidezas, o pessimismo, a histeria, o horror da realidade banal...". ¹
No entanto, fenômenos sociais e políticos levam os nossos escritores daquele período a uma meditação sobre os rumos de nossa pátria depois de instituída a República. "De fato, restabelecidos pelos movimentos espiritualistas a evidência e o primado da realidade espiritual, inicia-se um processo de penetração num mundo — sem dúvida abstrato, mas para a convicção geral muito mais atuante e decisivo na história de um povo, que os elementos de ordem estritamente material — o mundo da alma nacional, da psicologia e do caráter do povo, das virtudes morais da "raça". ²
Vivendo e produzindo literariamente nesse período de transição, Euclides da Cunha constrói uma obra que alia essa análise da "raça" brasileira, envolvido pela atmosfera do Decadentismo. Que Euclides analisou verticalmente o homem brasileiro em suas relações étnicas, sociais, geográficas, etc. — já está fartamente provado. Mas que ele escreveu sob a influência do Decadentismo, resta determinar, o quanto minuciosamente for possível.
A sua vida o predispõe para uma produção estética de profunda gravidade. As análises que têm sido feitas de sua existência sempre o apresentam como um homem mais sombrio do que alegre.
Muitos críticos literários o colocam dentro do Simbolismo, movimento literário que encampa as diretrizes do Decadentismo. Citamos como exemplo Antônio Soares Amora. ³
O gênero que Euclides elegeu para a sua obra, o ensaio, é muito mais propício a um tom sério do que o tom livre. E não podemos negar que toda a obra euclidiana se nos apresenta numa atmosfera de gravidade raramente encontrada na literatura brasileira.
Porém, da constatação de escritor sério e sombrio, que escreveu na época do Decadentismo/Simbolismo, até a afirmação de autor decadentista vai uma distância a ser esclarecida. É óbvio que Euclides da Cunha não se enquadra nos assunto que copiamos de Massaud Moisés no início deste estudo para identificar os decadentistas. O autor de "Os Sertões" não pregou a anarquia, o satanismo, as perversões, as morbidezas, etc. Achamos que a atmosfera de Decadentismo, que influenciou boa parte de nossos escritores na passagem do século, só atingiu Euclides no que podia casar-se ao seu espírito de natural ensimesmado e grave, no sentido de tragédia que parece tê-lo acompanhado em tudo que fez ou viveu. Os excessos, as loucuras temáticas, as excentricidades literárias mais comuns, ora nuns outra noutros dos autores daquele tempo — como num José Albano ou num Augusto dos Anjos, na poesia; num Coelho Neto ou num Gastão Cruls, na narrativa — ficam em Euclides da Cunha só no apaixonado ardor de quem quer provar aquilo que foi exaustivamente constatado antes, ou sofrido.
Vários são os passos de "Os Sertões" que identificam essa atmosfera de quase-Decadentismo, ou de aspectos laterais do Decadentismo tratados sob uma forma e concepção literárias superiores.
Vejamos um deles.
¹ "Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira", organizado e dirigido por José Paulo Paes e Massaud Moisés, Editora Cultrix, São Paulo, 1969, p. 86.
² Antônio Soares Amora, "História da Literatura Brasileira", Edição Saraiva, 4ª edição, São Paulo, 1963, p. 170.
³ Idem, ibidem.
II. O TEXTO
1. Na terceira expedição anulada, dispersa, desaparecera. E como na maioria os fugitivos evitassem a estrada, desgarraram, sem rumo, errando à toa no deserto, onde muitos, e entre estes os feridos, se perderam para sempre, agonizando e morrendo no absoluto abandono. Alguns, desviando-se da rota, foram bater no Cumbe ou em pontos mais remotos. O resto chegou no outro dia a Monte Santo. O coronel Souza Meneses, comandante da praça, não os esperou. Ao saber do desastre largou à espora feita para Queimadas, até onde se prolongara aquela disparada.
2. Enquanto isto sucedia, os sertanejos recolhiam os despojos. Pela estrada e pelos lugares próximos jaziam, esparsas, armas e munições, de envolta com as próprias peças do fardamento, dólmãs e calças de listra carmesim, cujos vivos denunciadores demais no pardo da caatinga os tornavam incompatíveis com a fuga. De sorte que a maior parte da tropa não se desarmara apenas diante do adversário. Despira-se...
3. Assim na distância que medeia do Rosário a Canudos, havia um arsenal desarrumado, ao ar livre, e os jagunços tinham com que se abastecerem a fartar. A expedição Moreira César parecia ter tido um objetivo único: entregar-lhes tudo aquilo, dar-lhes de graça todo aquele armamento moderno e municiá-los largamente.
4. Levaram para o arraial os quatro Krupps; substituíram nas mãos dos lutadores da primeira linha as espingardas velhas e de carregamento moroso pelas Mannlichers e Comblains fulminantes; e como as fardas, cinturões e bonés, tudo quanto havia tocado o corpo maldito dos praças, lhes maculariam a epiderme de combatentes sagrados, aproveitaram-nos de um modo cruelmente lúgubre.
5. Os sucessos anteriores haviam-lhes exacerbado a um tempo o misticismo e a rudeza. Partira-se o prestígio do soldado, e a bazófia dos broncos cabecilhas repastava-se das mínimas peripécias dos acontecimentos..A força do governo era agora realmente a fraqueza do governo, denominação irônica destinada a permanecer por todo o curso da campanha. Haviam-na visto chegar — imponente e terrível — apercebida de armas ante as quais eram brincos de criança os clavinotes brutos; tinham-na visto rolar terrivelmente sobre o arraial e assaltá-lo, e invadi-lo, e queimá-lo, varando-o de ponta a ponta; e depois destes arrancos temerários, presenciaram o recuo, e a fuga, e a disparada douda, e o abandono pelos caminhos fora das armas e bagagens.
6. Era sem dúvida um milagre. O complexo dos acontecimentos perturbava-os e tinha uma interpretação única: amparava-os visivelmente a potência superior da divindade.
7. E a crença, revigorada na brutalidade dos combates, crescendo, maior, num reviver de todos os instintos bárbaros, malignou-lhes a índole.
8. Atesta-o fato estranho, espécie de divertimento sinistro lembrando a religiosidade trágica dos Achantis, que rematou estes sucessos.
9. Concluídas as pesquisas nos arredores, e recolhidas as armas e munições de guerra, os jagunços reuniram os cadáveres que jaziam esparsos em vários pontos. Decapitaram-nos. Queimaram os corpos. Alinharam depois, nas duas bordas da estrada, as cabeças, regularmente espaçadas, fronteando-se, faces volvidas para o caminho. Por cima, nos arbustos marginais mais altos, dependuraram os restos de fardas, calças e dólmãs multicores, selins, cinturões, quepes de listras rubras, capotes, mantas, cantis e mochilas...
10. A caatinga mirrada e nua, apareceu repentinamente desabrochando numa florescência extravagantemente colorida no vermelho forte das divisas, no azul desmaiado dos dólmãs e nos brilhos vivos das chapas dos talins e estribos oscilantes...
11. Um pormenor doloroso completou esta encenação cruel: a uma banda avultava, empalado, erguido num galho seco, de angico, o corpo do coronel Tamarindo.
12. Era assombroso... Como um manequim terrivelmente lúgubre, o cadáver desaprumado, braços e pernas pendidos, oscilando à feição do vento no galho flexível e vergado, aparecia nos ermos feito uma visão demoníaca.
13. Ali permaneceu longo tempo...
14. Quando, três meses mais tarde, novos expedicionários seguiam para Canudos, depararam ainda o mesmo cenário: renques de caveiras branqueando nas orlas do caminho, rodeadas de velhos trapos, esgarçados nos ramos dos arbustos e, de uma banda, — mudo protagonista de um drama formidável — o espectro do velho comandante...
⁴ Euclides da Cunha, "Os Sertões", 31ª edição, Livraria Francisco Alves Editora S/A, Rio de Janeiro, 1982, pp. 239-240.
III - Os substantivos e a atmosfera para o macabro.
Este excerto mostra dois personagens genéricos: os soldados e os sertanejos. De um lado estão os membros do Exército, batidos a fugirem do palco da luta, deixando despojos de guerra: cadáveres de companheiros, fardamentos e munições. De outro lado estão os canudenses a exultarem com a vitória parcial, recolhendo os despojos e praticando atos terríveis com os soldados defuntos.
Os substantivos do texto, em número de 150 (se resumirmos alguns em sintagmas que incluem certas locuções adjetivas ou outras formações, como "calças de listra", "potência da divindade", "coronel Souza Meneses", "à espora feita", etc.), podem ser distribuídos, segundo essa divisão dos personagens genéricos, em:
1º. substantivos que têm significado referente aos soldados;
2º. substantivos que apresentam significado referente aos sertanejos;
3º. substantivos de significação dupla: referente aos soldados e aos sertanejos ao mesmo tempo. ⁵
⁵Há sete nomes "neutros": dia, sorte, ar, graça, dúvida, feição do vento, tempo.
O critério para a obtenção do significado, ora de soldado, ora de sertanejo, ora duplo pode ser entendido através de exemplos. Tomemos o substantivo expedição, no parágrafo 1, linha 1. Este nome significa que um conjunto de soldados foram organizados para atacar Canudos. Tem o significado referente a soldados porque tem muito mais de fato, de coisa do Exército (causa) do que de fato, de coisa para atingir os sertanejos (efeito); e mesmo no efeito, a ação da expedição, quer com a vitória, quer com a derrota, fica sendo da responsabilidade dos soldados. Vejamos, em seguida, um exemplo de substantivo de significado referente a sertanejos, no parágrafo 1, linha 3: deserto. É o "habitat" dos sertanejos, no qual os soldados estão acidentalmente. E, por último, um exemplo de nome com significado duplo: estrada, no parágrafo 1, linha 2; este nome identifica o lugar de acesso a Canudos, portanto caminho natural dos sertanejos; mas também é o lugar por onde os soldados se dirigem ao arraial fatídico e o mesmo lugar por onde toda a terceira expedição se desmantela, deixando, depois, "esteticamente", em renques de caveiras, as cabeças de uma série de membros mortos.
Identificado o critério para a divisão dos substantivos, vejamos como eles se distribuem assim, quantitativamente:
A estrutura da narrativa é feita segundo uma linha de adensamento dos soldados no início, dos sertanejos em seguida e, afinal, dos sertanejos com os despojos:
Parágrafo 1- só se refere aos soldados.
" 2- refere-se aos sertanejos, embora não deixem de aparecer os soldados mortos; nos dois últimos períodos o autor volta a focalizar os soldados em disparadas.
" 3- sertanejos e despojos: o autor interrompe a narração dos fatos e faz um comentário.
" 4- sertanejos e despojos.
" 5 e 6- comentários que preparam a explicação da malignidade dos sertanejos.
" 7 e 8- conclusão dos comentários sobre a índole dos malignados sertanejos.
" 9- sertanejos e despojos (cadáveres). " 10- despojos (fardas).
" 11, 12 e 13- despojos (coronel Tamarindo).
" 14- soldados e despojos (cadáveres, fardas e coronel Tamarindo).
Da mesma forma são distribuídos os substantivos do texto: no início comparecem os nomes que se referem aos soldados — metade deles está no primeiro parágrafo; depois incidem os nomes referentes aos sertanejos — o último a parecer, jagunços, está na segunda linha do oitavo parágrafo; quanto aos nomes de sentido duplo começam a aparecer intensamente no parágrafo 4 e tomam conta de todos os substantivos do texto, com somente duas exceções, desde o oitavo até o último parágrafo.
A intensidade de substantivos de referência dupla, quer na quantidade, quer no englobamento da metade até o final do excerto tem o efeito de transformar os dois personagens — soldados e jagunços — em um só ser. Ora, nada mais paradoxal do que, em "Os Sertões", a identificação dos soldados do Exército com os sertanejos ou jagunços de Canudos. Em que linha de significação, pois, aconteceu essa significação? Na linha do macabro, é a resposta. Realmente, os sertanejos se apossam dos despojos dos soldados impulsionados por uma índole de maldade ("malignou-lhes a índole"). Os canadenses agem com os cadáveres sob a compulsão de uma ordem interior que lhes diz ser a vitória incrível sobre a terceira expedição um milagre que o maravilhoso divino lhes ofereceu. Isso lhes desata uma disposição para requintes macabros com cadáveres dos soldados. A disposição das caveiras, depois de decapitarem os cadáveres, em renques, faces fronteando-se, na estrada, é uma ação coletivo-detalhada que se aproxima do detalhe estético da dança macabra. ⁶
Desta forma verifica-se que:
1º. O autor faz uma escolha vocabular que dá aos substantivos poderes de identificação dos personagens.
2º. A massa nominal adensa-se em torno dos soldados, depois em torno dos sertanejos e, afinal, engloba os dois, enquanto os sertanejos, vivos, agem macabramente sobre os soldados, mortos.
3º. A quantidade de nomes com significado duplo é particularmente grande, pontificando muito mais o significado das ações macabras.
4º. A significação dupla dos substantivos — jagunços vivos e soldados mortos — cria a atmosfera de práticas requintadas com defuntos (o macabro) que o significado das frases vai colocando conscientemente no leitor.
⁶ Após um estudo extenso sobre a etimologia de macabro, Silveira Bueno, em seu "Grande Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa", conclui por definir a origem do vocábulo como vindo de Macabeu: "... a 'dança macabra' provém de Macabeu que teve as variantes 'Macabré', 'Macabé', tendo passado de substantivo 'Macabre' a adjetivo 'macabre'." (p. 2240)
O "Dicionario Enciclopedico Union Tipografica Editorial Hispano-Americana" informa o seguinte, na p. 3: "Macabeos: (...) El capitulo VII del libro II narra el martirio de los Siete Macabeos Y de sua madre, a los que queria obligar bajo tormento Antioco-IV Epifanes a 'comer carne de cerdo, contra lo proibido por la ley."
E o dicionário "Lello Universal", no vol. III, p. 118, informa que dança macabra é "nome dado na Idade Média a uma renda infernal, pintada ou esculpida, dançada pelos mortos de todas as condições e de todas as idades, nobres ou plebeus, ricos ou pobres, velhos ou crianças. A Morte dirige essa ronda, servindo-se de um esqueleto como rabeca e de um osso como arco instrumento. A dança macabra é uma alegoria da fatalidade que arrasta todos os mortais para a sepultura."
IV - Outros recursos na atmosfera para o macabro.
-1-
No primeiro parágrafo, Euclides informa que a expedição desaparecera: "A terceira expedição anulada, dispersa, desaparecera." Na sequência da leitura sentimos que o verbo desaparecer é usado como força de expressão, pois a terceira expedição continua a existir até com um de seus chefes citados, em Queimadas. E, em realidade, a terceira expedição continua a existir inclusive no papel que os despejos em armamentos vão representar no prosseguimento da luta.
O arsenal (expressão do autor) que o malfadado Moreira César acaba por entregar aos jagunços tem uma importância capital na disputa. A primeira expedição (7/11/1896 a 23/11/1896) contava com 100 praças; não poderia, depois de derrotada em Uauá pelos canadenses, ter fornecido muitos despojos em armamentos. A segunda expedição (25/11/1896 a 20/01/1897) contou com cerca de 550 soldados, e também não ofereceu oportunidade de captação de armas do Exército pelos sertanejos. É, pois, com a terceira expedição (03/02/1897 a meados de março de 1897) que "um arsenal desarrumado, ao ar livre" fica à disposição dos jagunços. A quarta expedição, que liquidará a luta a favor dos soldados, inicia-se a 05/04/1897 e encerra-se somente a 6 de outubro do mesmo ano ⁷; são seis meses de luta. Mesmo que os canadenses contassem com um potencial humano e guerreiro incomuns, se não fossem as armas arrecadadas da terceira expedição, esses seis meses teriam sido bem mais abreviados. Basta lembrar que entre os despojos estavam quatro canhões Krupp, além de variado e numeroso armamento de potencial inferior.
Vê-se, assim, que a expedição de Moreira César não desaparecera, na realidade. Ela podia ter ficado anulada ou dispersa, que são qualificações do próprio Euclides, mas não desaparecida: os seus membros, soldados e oficiais, continuaram em debandada e se reagruparam posteriormente, mais longe de Canudos; os seus armamentos continuaram, mudando de lado, a exercer forte influência na luta; e os seus mortos, incluindo o corpo do coronel Tamarindo, serviram para uma tétrica comemoração de vitória por parte dos sertanejos.
A afirmação inicial (no excerto) do desaparecimento da expedição é impactuosa. Ela ajuda a criar a atmosfera de gravidade que aumenta ou alarga o sentido dos três fatos indicadores de que a expedição não desapareceu:
1º. A fuga dos soldados que o conseguiram ganha em dramaticidade perante a afirmação figurada do desaparecimento de sua expedição.
2º. Os armamentos que a expedição deixa, continuam, em uma herança trágica, como novo alimento da luta. A expedição "desaparecera", mas suas armas continuam, paradoxalmente, nas mãos dos contrários.
3º. Os mortos da terceira expedição anulada revivem de modo macabro, como enfeites para os caminhos de Canudos e como um fantástico presepe ou mamulengo com o cadáver do coronel Tamarindo.
Essa é uma técnica estrutural que explora a distância como um dado informativo. A distância é provocada pelo espaço que vai da palavra desaparecera até a explicitação do que realmente aconteceu com a terceira expedição. Se Euclides da Cunha não tivesse empregado o verbo desaparecer (se ele somente ficasse com os dois verbos anteriores anular e dispersar), na sequência da leitura nós não teríamos no fundo de nossa consciência, como um dado impactuoso, esse tom de fim, de que nada restara. Esse dado que nos persegue na leitura até o final do excerto envolve a narração na atmosfera negativa de que o desastre foi mesmo terrível.
A mesma técnica é explorada no parágrafo 4, quando Euclides informa que os sertanejos aproveitaram as fardas dos soldados mortos de uma forma lúgubre: "(...) e como as fardas (...) lhes maculariam (...) aproveitaram-nos de um modo cruelmente lúgubre." Qual modo cruelmente lúgubre foi esse? Para explicá-lo, o autor distancia a informação desde o parágrafo 4 até o 9: "Por cima, nos arbustos (...) dependuraram os restos de fardas (...)". E completa a informação do "modo lúgubre" no parágrafo 10: "A caatinga (...) apareceu (...) desabrochando (...)". O espaço que há entre a primeira afirmação, prenunciadora da lugubridade do uso das fardas, e a explicação de que o lúgubre foi espalhar as fardas pela caatinga incolor, dando-lhe um colorido fantástico, mantém o leitor em um "suspense" que aumenta a atmosfera lúgubre.
⁷ Os dados sobre as expedições foram extraídos de "Euclides da Cunha: Obra Completa", Editora Aguilar, Rio de Janeiro, 1966, Vol. II, pp. 89 e 90.
-2-
No parágrafo 10 o autor usou o adjetivo oscilantes; e no parágrafo 12 usou oscilando. Ambos da mesma raiz de oscilar. Ora, normalmente, quando se escreve, procura-se evitar a repetição muito próxima da mesma palavra. Apesar disso, Euclides (revisor perfeccionista) manteve as duas palavras de mesmo sentido, empregadas próximas uma da outra.
Notemos que oscilantes é qualidade de estribos, substantivo de ser inanimado; e oscilando é a ação atribuída aos membros do corpo morto do coronel Tamarindo. A identificação entre os dois seres, estribos e corpo do coronel, é sequentemente lógica no entendimento do leitor. E essa identificação do ser que fora animado (coronel) com o ser inanimado (estribos) aumenta o tom de horror da realidade em que foi colocado o defunto oficial do Exército. Como se o cadáver não pudesse ter aquela aura de resto mortal de um ser animado que fora em vida; agora, pendurado no galho seco era mais um ser inanimado "enfeitando" a caatinga.
-3-
"Ali permaneceu longo tempo..." constitui um dos famosos parágrafos sintéticos, concludentes e de efeito, próprios do estilo euclidiano. Grifamos a expressão longo tempo, porque podemos elucidar logo no parágrafo seguinte, o 14, que esse tempo se circunscreveu a "três meses mais tarde", ou, quando muito — se o corpo do coronel Tamarindo não foi tirado da árvore logo que a quarta expedição chegou a Canudos — mais um par de meses. Afinal, o total do longo tempo, em realidade, não pode ter sido mais que meio ano.
A função específica do sintagma longo tempo é criar uma atmosfera irreal de extensão temporal que provoca o sofrimento de angústia no leitor diante da perversão feita com o cadáver do oficial pelos jagunços.
-4-
A empalação do corpo de Tamarindo, executada de uma forma nativa e prática com o aproveitamento de um galho seco de angico, é referida por Euclides da Cunha como uma "espécie de divertimento sinistro lembrando a religiosidade trágica dos Achantis". Informação que nos remete à consulta enciclopédica. ⁸ Aí lê-se que os Achantis são uma bela raça negra, inteligente, constituída de nativos do interior da Costa do Ouro.
Infelizmente não conseguimos encontrar a data de publicação da citada enciclopédia, que deverá girar por volta de 1940, sem certeza. Ali se lê, ainda, que o número dos Achantis, "atualmente atinge três milhões, com a florescente agricultura entregue às mulheres e aos escravos. Com poligamia generalizada, o rei sempre deveria possuir o número macabro de 3.333 mulheres. Entre os Achantis, por ocasião das festas religiosas em louvor a Igname ⁹ e outras divindades, as solenidades se constituem na empalação de escravos em honra dessas divindades.
A referência aos Achantis, feita no parágrafo 8, com o fato macabro explicitado no parágrafo 11 — e depois que se busca a informação mais detida sobre a religião daquele povo africano — dá um sentido mais amplo ao destino que os sertanejos deram ao corpo do coronel Tamarindo. Cerca essa ação, em si já macabra, de uma aura mais apoteótica de macabro.
⁸ Larousse du XXème Siècle, vol. I, p. 42.
⁹ Palavra em francês para inhame.
V - Conclusão
Euclides da Cunha teve uma vida muito séria e grave, e produziu textos literários polêmicos e belos, plenos de rigorismos muito mais que tristes. A alegria, pode-se dizer, não comparece em seus escritos.
A época literária em que viveu e produziu teve a marca do Simbolismo, uma consequência do Decadentismo, que pregou uma atmosfera de pessimismo e de horror da realidade.
Em muitos excertos de "Os Sertões" encontramos a mesma tendência euclidiana a um para-decadentismo, na apropriação de fatos trágicos como os da Campanha de Canudos.
Euclides cria uma atmosfera que tende para o macabro em um passo de "Os Sertões" — o excerto que se objetivou analisar aqui:
1º. Na distribuição dos substantivos em nomes que se referem a soldados, a jagunços e de duplo sentido, conduzindo a significação nominal para uma massa uniforme a englobar jagunços e soldados num ponto idêntico de referência: a ação macabra.
2º. A distância entre as palavras é usada para a criação de uma atmosfera pessimista ou de "suspense" para a angústia.
3º. A escolha vocabular é feita com o desejo sub-reptícii de dar propriedade ao horror.
Finalmente e de um modo lateral, essa aplicação de palavra com um sentido tão sutil — a de criar uma atmosfera macabra — vem provar, mais uma vez, o quanto Euclides da Cunha era cioso do objeto formal da literatura: a palavra, e quanto ele soube explorá-la na produção do Belo.
* Mentor e fundador da AAL-Academia Araçatubense de Letras; publicou os seguintes livros como coordenador: Oitenta anos de Os Sertões de Euclides da Cunha (1982); como autor: Introdução à Literatura Portuguesa (1991), Sondagem em Literatura Portuguesa em 3 volumes (1997), Vagas vendidas - um vestibular incomum (2004); em coautoria: História de Araçatuba (1997).
VI. AGRADECIMENTO
Agradeço à minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação e edição das fotos aqui transcritas.
VII. BIBLIOGRAFIA
BROOKS, Cleanth & WARREN, Robert Penn: Understanding Fiction, New York, Appleton-Century-Crofts, 1959 (2nd. edition)
BUENO, Francisco da Silveira: Grande Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa, 5º vol., 2ª tiragem, Edição Saraiva, S. Paulo, 1968
Dicionário Enciclopédico Union Tipografica Editorial Hispano-Americana, tomo VII, México, 1952.
Dicionário de Literatura - Direção de COELHO, J.P., AMORA, A.S. & DA CAL, E.G., vol. I, Companhia Brasileira de Publicações, Rio de Janeiro, 1969
JAKOBSON, Roman: Linguística e Comunicação, Editora Cultrix, São Paulo, 4ª edição, 1970
Lello Universal, vol. II, Bello & Irmãos Editores, Porto, s/d
WELLEK, René & WARREN, Austin: Teoria da Literatura - Publicações Europa-América, Lisboa, 1962.




Um comentário:
Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...
Prezad@,
Tive a sorte de localizar, em visita ao Sebo Messias em São Paulo, uma coletânea mimeografada (Departamento Mimeográfico Experimental) que pertenceu ao paraense Prof. Adelino Brandão (✰Belém, 1926-✞Jundiaí, 2004), repleta de palestras sobre a vida e obra de Euclides da Cunha que foram proferidas no CICLO DE ESTUDOS EUCLIDIANOS na Semana Euclidiana-1974 de São José do Rio Pardo-SP, patrocinada pela Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo e Conselho Estadual de Cultura do Estado de SP.
Apraz-me compartilhar com o leitor do Blog de São João del-Rei a palestra do Prof. CÉLIO PINHEIRO, proferida em 13/08/1974, onde analisa detalhadamente excerto do capítulo VI da Expedição Moreira César, em “Os Sertões”.
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/08/um-passo-macabro-de-os-sertoes.html
Abraço cordial,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei
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