segunda-feira, 14 de setembro de 2026

BERNANOS EM BARBACENA

 Por Vamireh Chacon *

Transcrevemos o ensaio intitulado Bernanos em Barbacena pelo notável pensador pernambucano, extraído do seu livro “O Humanismo Brasileiro, São Paulo: Summus Editorial: Secretaria da Cultura, 1980, pp. 248-257.
 
VAMIREH CHACON de Albuquerque Nascimento (✰ Recife, 01/02/1934 ✞ Brasília, 18/09/2023)
 
A Serra da Mantiqueira atinge um pouco mais de dez mil metros de altura em Barbacena. Hoje, quase à beira da estrada entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro, aos pés do monte Grogotó, onde agora se situa um moderno hotel, encontra-se o antigo Sítio Cruz das Almas, no qual se asilou Georges Bernanos, durante quase toda a Segunda Guerra Mundial. A Prefeitura local, nos tempos de Simão Bias Fortes, desapropriou o pequeno conjunto de casas brancas, com janelas verdes e uma área circundante, centro da propriedade antigamente rural. Ali morou o Unamuno ¹, católico e francês, Bernanos. 
Quem chega à residência, cercada de arame farpado em postes tortos, logo se defronta com o nicho da Virgem de Lourdes sobre o portal da entrada, devoção francesa antes de universal. No interior, poucos móveis, de escasso valor e menor gosto; livros mal conservados pela umidade e pior pela apresentação desarrumada. O que vale, aqui, são essas paredes nuas, esse piso rijo, esse teto ascético; a seu modo, retratos do próprio Bernanos. Dele, que pretendera fazer da sua casa mineira "algo que se parecesse a uma fazenda nossa" (da França). ²
Certo dia, Afonso Arinos de Melo Franco e Anah almoçaram ali, "que ele arranjara carinhosamente, um pouco ao jeito de uma casa rural de Lorena."E ouviram da sua boca longos poemas... ³
O escritor francês vivia apenas na companhia da sua família. Visitantes, raros; visitas ao Rio de Janeiro, ou Belo Horizonte, menos ainda. O cidadão curtia a vergonha da desordem do mundo, com apelos quase desesperados para transformá-lo. 
Mas guardava a intimidade daquele lar rústico, camponês mesmo, na comunhão da Fé e da Terra. Nos últimos dias de permanência no Brasil, escrevia:
Felizmente nossa casinha acha-se longe dessas agitações políticas, sobre uma colina solitária, como se ela tivesse vindo pousar naquele ponto, uma noite por acaso, depois de uma longa viagem aérea, esperando abrir as asas e retomar o voo àquela hora da madrugada em que os grandes eucaliptos fremem, antes de enrubescer até o cimo, ao levantar do sol.
A vida era monotonamente simples, para alegria de solitário Zaratustra  humano, demasiado humano, apesar de também peregrino do absoluto:
Cada manhã, ao levantar, logo depois do café, o meu bom cavalo Osvaldo me esperava na porta. Como o frade ao seu ministério; como o soldado ao exército, ou mais exatamente, como o empregado ao escritório, íamos nós  um levando o outro  até a cidade, para de lá voltar ao meio-dia com o único fim de nos dar o prazer de retornar às três horas e não vir para a casa senão à noite  a noite seca, fria e penetrante de inverno ou essas admiráveis noites de verão; essas noites quentes de perfume selvagem como o flanco de uma fera.
Depois de meditar e escrever em bares pobres, no meio da algazarra que o unia ainda mais à Vida, retornava na mesma cavalgada de silêncio.
Caros amigos: se algum de vós passar um dia por Barbacena e quiser se lembrar de mim, lance um olhar sobre esse café minúsculo e reflita que eu ali fiz a experiência de quase todas as formas de solidão; ali me achei muitas vezes  ali à beira da calçada, no vaivém dos transeuntes  só  sim, tão só! Como o meu país.” 
O itinerário fora longo. 
Georges Bernanos nasceu e morreu em Paris, antes e logo após os dois conflitos mundiais. Esteve no Brasil de 1938 a 1945, em seguida a apenas onze dias no Paraguai. Entre nós habitou, de início, no Rio de Janeiro, Itaipava, Juiz de Fora, Vassouras, Pirapora, Belo Horizonte e Barbacena, onde se fixou durante quatro anos. Em Vassouras, escreveu Nous autres Français; em Pirapora, na fazenda Santo Antônio, perto do rio São Francisco, redigiu Les enfants humiliés e completou Monsieur Ouine; finalmente, no último pouso, Lettre aux Anglais, Le Chemin de la Croix-des-Âmes, Écrits de Combat e La France contre les Robots; ampla bibliografia de ensaios, nela se destacando um romance. 
E ao relê-los, nos dias atuais, não se pode reprimir o protesto que Bernanos tenha sido, com frequência, apresentado como pequeno-burguês neurótico, ele que escrevera La grande Peur des bien Pensants. Daí se ter tornado tão pouco lido e sua casa ainda menos visitada... 
A nós, brasileiros, o escritor que repelia os dois extremismos máximos da Guerra Civil espanhola, em Les grands Cimétières sous la Lune, interessa em particular, pois raros os estrangeiros que tanto sentiram e sofreram o Brasil. No seu "Salut au Brésil, com entusiasmo exclamava, naquele seu tom mais oratório que retórico, porque espontâneo e límpido:
Do alto de nossa pequena colina da Cruz das Almas, vemos, há semanas, fundirem-se, pouco a pouco, nossos maus caminhos, como manteiga numa panela queimante. A graciosa cidade branca, a meia légua, parece tão perto, porém nenhum carro ousaria arriscar-se até nós e os próprios cavalos percorrem, com desconfiança, esta estrada arrasada que deslisa, pouco a pouco, sobre sua inclinação mesma. 
E, entendendo, ao mesmo tempo que denunciava, concluía, num ímpeto de amargor e solidariedade:
O trabalho da terra foi reservado aqui  pelo menos em parte  desde longo tempo, aos escravos. Claro, que não tenho qualquer título para dirigir-me aos intelectuais brasileiros, senão, talvez, a profunda gratidão que lhes devo, pelo generoso, magnífico acolhimento, que quiseram por bem dar ao meu livro, escrito no exílio...
Mas, em seguida, numa advertência com frequência pouco do agrado dos bem pensantes de qualquer tipo:
Que eles me permitam, contudo, uni-los hoje, no meu pensamento, a estes homens obscuros, cuja missão não é garantir a Liberdade, e sim assegurar à sua Miséria um bem ainda mais precioso, a Consciência da Liberdade. Pois não é a Servidão que faz os escravos, é a aceitação da Servidão. E há algo pior que a aceitação da Servidão: a ela conformar sua vida, a ponto de nela se achar à vontade e, enfim  ignorá-la.” (grifo nosso)
A bela paisagem montanhesa não o hipnotizava. Nem o induzia a esquecer a tragédia do mundo, naquele momento culminando na dominação fascista da França:
Foi no sertão que tomei conhecimento da Queda de Paris. A tarde já empalidecia, o sol vermelho do curral entrava na pobre casa, com o voo dos primeiros morcegos. A floresta imensa, a floresta anã e disforme, torturada pela sede, estendia-se ao Infinito em torno dos nossos muros de argila. Lá estávamos sós, verdadeiramente sós, sós como mortos, enquanto a horrenda voz nasal de uma estação de rádio, alimentada por uma bateria fora de uso, anunciava-nos que a bandeira alemã flutuava sobre Notre-Dame... Tenho o direito de escrever que o Povo brasileiro odeia a Servidão, pois, desde a primeira notícia do desastre, eu o vi odiar a nossa...” ⁷ (grifo nosso)
Por que não se evoca este Bernanos, também o profeta contra a mecanicista tecnização do Homem, o mesmo que insistia na repulsa às condições degradantes dos trabalhadores rurais, ao seu redor? O Bernanos que bradava, no prefácio à Lettre aux Anglais, em 15 de janeiro de 1942:
O Brasil não é, para mim, o hotel suntuoso, quase anônimo, onde depositei minha valise, esperando retomar o oceano e regressar à minha terra: é meu lar, é minha casa...
O povo brasileiro, mais do que as suas elites, tornou-se a fonte de inspiração de Bernanos, vez por outra, saindo de casa para escrever numa taberna de beira de estrada de Barbacena, melhor do que se estivesse numa confeitaria carioca ou num café parisiense.
Foram vossos camponeses que me fizeram compreender vossos intelectuais  eis a verdade. Compreendi que vossos intelectuais se serviam da nossa cultura contra uma certa concepção da vida, que vosso povo repele instintivamente... Vossos intelectuais se servem da nossa cultura, porque ela é, para eles, o instrumento mais apropriado à defesa comum; porém é do fundo popular que têm o sentimento quase psíquico do perigo corrido, a vontade de vencê-lo.” (grifo nosso)
Diante até mesmo dos brasileiros impacientes em compadecerem-se com o suposto Paraíso europeu perdido pelos ancestrais imigrantes, Bernanos respondia:
A terra do meu país é uma terra amiga do homem. A vossa não é vossa inimiga, certamente, mas ela vos ignora; estais sós diante dela, sem aldeias, sem vizinhos, com vossas pobres famílias. Aqui, o homem conquista a terra selvagem pelas suas próprias forças, as mãos nuas. Que isto faça rir os mercadores de quinquilharia mecânica, bem o espero. Eles não rirão sempre. 
Pois é assim que se formam os grandes povos, os povos livres; é assim que todas as forças e toda a paciência da terra passam aos músculos e corações dos homens. Assim o ritmo de vosso esforço não é o mesmo daquele nosso, ou melhor, vosso esforço guardou um ritmo que o nosso perdeu. Assim podeis sofrer e durar, lá, onde qualquer outro, além de vós, esgotaria em pouco tempo sua coragem. Porém este segredo de vossa força é também o de vossa incomparável resignação.” (grifo nosso)
Após todas as dificuldades, "tereis dado ao mundo um tesouro mil vezes mais precioso que as pastagens e os vergéis, ter-lhe-eis dado um povo livre, formado para a Liberdade." (grifo nosso)
No Sítio de Cruz das Almas, que ele traduzia para Croix-des-Âmes, com ressonâncias ao mesmo tempo tão brasileiras e francesas, Bernanos passou quase cinco anos, repensando o que sentira nas cidades e nos campos, na Serra ou no vale do São Francisco, sobre o seu e o nosso país. Desde agosto de 1940 a junho de 1945, tempos de meditação e participação, analisando e escrevendo sobre o drama do vizinho e a tragédia do mundo, a paz dos arredores e a guerra distante. O pensador católico, escrevendo em ficção e não só ensaio, é o panfletário da Resistência, publicando nos jornais franceses clandestinos ou que, no exílio, desabrochavam no trópico mineiro. Ali Georges Bernanos amadureceu tanto a reflexão quanto o estilo. 
Os brasileiros ajudaram-no com desafios e até injustiças, não apenas com apoio e amizade. 
Parecia insólito um escritor católico que não fosse beato. Catolicismo tinha um sentido tradicional, conservador, querendo justificar seus Antiliberalismo e Anti-Socialismo como respostas ao anticlericalismo. Para Bernanos, estes problemas não existiam. 
Daí que, logo à sua chegada, ouviu-se o protesto. Guilherme Auler  historiador depois diretor do Museu Imperial de Petrópolis, membro do grupo Fronteiras que reunia a fina flor monárquica, à direita do próprio Fascismo  apresentou-se como porta-voz. Escreveu dois violentos artigos de recepção ao auto-exilado. 
No primeiro, começava indagando-se:
Por que Georges Bernanos, escritor de relativa fama, abandona a França, a Europa enfim, para vir residir no Brasil? Motivo de simpatia intelectual com os brasileiros é argumento de caça-níqueis. Bernanos é um difamador e um espião comunista (sic). Não são palavras nossas. É o arcebispo de Majorca, Dom José Miralles Sbert, quem o afirma publicamente em documento irrespondível.” 
Pois, em julho Bernanos atacara Franco e o clero que o apoiava, na revista New Statesman. O prelado respondeu-lhe, no mês seguinte, pelas páginas de America, ambas nos Estados Unidos. O fiel, que assistira na Espanha às violências em nome de Cristo contra os anticristãos, desentendia-se com o conivente hierarca. 
Não deixando o ódio esfriar, Auler logo voltou à carga, contra o autor de Les grands Cimetières sous la Lune, "um nojento livro" (sic). E arrolava a lista de adversários católicos de Bernanos. 
Na realidade, insultando-o em fins de 1938 e princípios de 1939, Auler e asseclas brasileiros uniam-se aos nazi-fascistas dedicados a tarefas idênticas. Entre eles Karl Epting, lançando anátemas contra Bernanos de Berlim, em pleno auge do conflito mundial logo em seguida. ¹
Os tempos depois mudariam. À calúnia seguir-se-ia o silêncio dos bem pensantes, ironizados por Georges Bernanos em livro que marcou época. Bem pensantes a serviço ora dum ora doutro extremismo, que os desobriguem de distinguir, que é a substância do pensamento. 
Enquanto isto, Bernanos meditava na noite tropical. Em carta publicaada no jornal parisiense Le Figaro, em 27 de dezembro de 1942, escrevia do Rio de Janeiro:
Este país, esta cidade, não se podem crer. Esta cidade tão bela, tão prodigiosamente bela, tão bela e tão humilde. Tem o ar de deitar-se a vossos pés, com suas jóias, seus perfumes e seu olhar de inocência e a docilidade dos animais. O ar é uma doçura selvagem. E agora, graças ao Céu, estou como um velho guerreiro, curtido pela guerra, no meio de crianças.” ¹¹
E, de Pirapora, no sertão do Alto São Francisco:
Estranho país! À primeira vista se é fortemente tentado de retomar o trem e fugir. Depois, acostuma-se pouco a pouco, e creio que se termina por amá-lo. O horizonte assemelha-se ao de certas províncias francesas, colinas bastante parecidas com as de Tours... Quanto à cidade, é uma autêntica aldeia de desbravamento, muito cinematográfica, com casas em construção por toda parte, uma desordem surpreendente.” ¹²
Para ver melhor e não esquecer, ao contrário do que dizem alguns críticos. Bernanos internara-se na distante fazenda Santo Antônio, de Virgílio de Melo Franco, "companheiro ideal" na definição do seu irmão Afonso Arinos de Melo Franco, cercado durante oito meses por imensos rebanhos, no cerrado a perder de vista. Virara feitor de animais, já não quisera ser de homens, a serviço de ideologias totalitárias. Daquela distância remota, podia entender, na plenitude, a grandeza da tragédia humana em sua Europa nativa e do próprio Brasil dos campos, ignorados pela sofisticação urbana dos intelectuais seus amigos. 
Pouco a pouco o velho leão  "grande, gordo, moreno como um cigano, os bigodes bastos e a juba leonina", "aleijado de uma perna", com "aspecto rebarbativo" se não fossem "os olhos rasgados e azuis, olhos puros de criança, que pareciam sempre à espera do prêmio ou do castigo", no retrato vivido por Afonso Arinos de Melo Franco ¹³  o sofrido leão foi aceitando aproximar-se dos católicos brasileiros. 
Alceu Amoroso Lima começaria falando em Maritain, quando o que o aproximava de Bernanos era a evocação da morte de um amigo desconhecido. ¹ Jorge de Lima perturbava-lhe a paz, pedindo-lhe que intercedesse por votos na sua candidatura à Academia Brasileira de Letras, para decepção de Bernanos. ¹ As comparações dele com Léon Bloy também o desagradavam, apesar do que supunham os críticos. ¹
E quando Georges Bernanos teve de retornar à França, atendendo a apelo pessoal do General De Gaulle, precisou vender seu único bem ¹, aquela casinha de Barbacena, quase no fim da Mantiqueira, quando a Serra principia a descer na direção do mar. 
De volta a Paris, escrevia a Virgílio de Melo Franco solicitando assinaturas do Correio da Manhã, então o mais prestigioso jornal carioca, pedindo a Deus para não morrer sem rever o Corcovado no horizonte... ¹ E, a Fernando Carneiro, mal comparava sua nova casa, perdida nas montanhas francesas, sem água nem eletricidade, quase sem vidros, com a que construíra e deixara sob trópicos que acabaram sendo tão acolhedores. ¹
E, perto de morrer, já em 1948, escrevendo do interior da Tunísia para onde fugira na busca de um rude sertão mais próximo da França, dizia a Georges Duhamel, companheiro de glória literária e sem conexões lisonjeantes com o além-mar, quanto sofria por ter abandonado Cruz-das-Almas: "Como lamento ter deixado o Brasil! Se ainda estivesse lá, teria pelo menos a certeza de ser útil ao meu país." Era a possibilidade de trabalhar com dominicanos franceses e intelectuais brasileiros familiarizados com Bloy e Péguy. ²
Perto de morrer, voltaram-lhe as lembranças dos amigos fiéis: Alceu Amoroso Lima, Virgílio e Afonso Arinos de Melo Franco, Pedro Octavio Carneiro da Cunha, Carlos Chagas Filho, Jorge de Lima, Edgar da Mata Machado, Augusto Frederico Schmidt, Fernando Carneiro, Álvaro Lins, Raul Fernandes, Oswaldo Aranha, Otto Lara Resende, Murilo Mendes, Assis Chateaubriand, Dario de Almeida Magalhães, Austregésilo de Athayde e Miguel Osório de Almeida, para lembrar só alguns dos privilegiados pelo seu convívio. 
No Brasil, Bernanos pensara ter vindo curtir sua vergonha pelo descalabro europeu, que levaria à II Guerra Mundial, porém aqui reencontraria seu orgulho e "foi este povo que mo devolveu." ²¹
As ruínas de que ele fugia eram, de resto, mais as invisíveis do que as visíveis, as de um mundo que desabara mais dentro dele do que em torno. Assim como os sentimentos que o levaram a evadir-se eram os de nojo e cólera; não os do interesse ou do temor. 
Nas páginas também escritas no Brasil continuaria ressoando, para sempre, sua voz:
Aquela voz apaixonada ressuscitava bravuras extintas, coragens de outras eras, teimosamente, como quem recusava nivelar-se ao morno conformismo das derrotas...” ²²
Georges Benanos descobrira, nos intelectuais encontrados nas ruas do Rio de Janeiro e principalmente nos camponeses perdidos pelos sertões, a certeza da universalidade do drama humano, em carne viva na Espanha dilacerada por uma Guerra Civil, prelúdio doutra mundial, anúncios do fim de um mundo insensato. A cujo naufrágio e redenção é preciso enfrentar com coragem e esperança. 
Daí a validade das últimas palavras de Bernanos em nosso país, dirigidas à juventude:
Moços e moças do Brasil, o que hoje vos escrevo é tudo o que vos deixarei de mim e, quando vos lembrardes do velho escritor de Cruz das Almas, dentro de vinte anos, de trinta anos  se vossa memória, por um impossível, me for fiel até então  estas palavras, desde muito esquecidas, é que se levantarão talvez, a despeito de vós mesmos, das profundezas de vossa consciência. 
Moços e moças, escutai-me bem, eis a minha última mensagem. A Liberdade não deve apenas ser amada, a Liberdade pouco se incomoda, atualmente de ser amada, ela deve ser salva, ela exige a sua salvação. Jovens amigos meus, é antes de tudo em vós mesmos, e em vossos espíritos, que salvareis a Liberdade. A Liberdade vos impõe uma clarividência heróica de que seríeis certamente dispensados numa sociedade digna desse nome. Se a exigência é de algum modo inumana, a culpa é de uma sociedade inumana. Pois, as místicas sanguinárias do Nacionalismo, do Racismo e do Partido substituíram as fidelidades tradicionais, as fidelidades humanas da Família e da Pátria, a obediência absoluta, totalitária, a idolatria do Estado ou do Partido. ²³  (grifo nosso)
Atentai para que essas opiniões e esses credos não sejam senão fórmulas de segurança. Católicos, vós vos assegurais contra os riscos do inferno. Socialistas, contra os riscos desse outro inferno, não menos cruel e inflexível, que se chama o determinismo econômico. Comunistas, contra o Fascismo. Fascistas, contra o Comunismo. 
Por que haveis de vos assegurar contra o amanhã? O amanhã, sois vós!” ²
Mais que um francês, um escritor de todos os tempos falava não só à juventude brasileira, aos moços e moças de todas as épocas.
 
II. NOTAS EXPLICATIVAS
 
¹ Nota do gerente do Blog: Miguel de Unamuno (1864-1936) foi um ensaísta, romancista, dramaturgo e filósofo espanhol católico, cuja obra é frequentemente estudada em conjunto com a de Bernanos por tratarem ambos os autores, na literatura comparada católica ou existencial, de temas ligados à angústia espiritual, a fé agoniada e o sentimento trágico da vida.
² Carta ao Coronel X, Rio de Janeiro, abril, 1945, in Correspondance, recolhida por Albert Béguin e escolhida e apresentada pela Irmã Jean Murray O. P., Paris: Plon, tomo II, 1934-1948, 1971, p. 561.
³ A Alma do Tempo (Memórias: Formação e Mocidade) por Afonso Arinos de Melo Franco, Rio de Janeiro: Livr. J. Olympio Edit., 1961, p. 384. 
⁴ Nota do gerente do Blog: Zaratustra (também conhecido como Zoroastro) foi um antigo profeta e reformador religioso persa que fundou o zoroastrismo, uma religião seguida pelos Aquemênidas e uma das religiões monoteístas mais antigas da história humana.
Sua existência real é objeto de debates entre historiadores, mas sua figura moldou profundamente a espiritualidade do Oriente Médio Antigo e, séculos mais tarde, inspirou a filosofia ocidental. 
Entre seus principais ensinamentos, estão os seguintes resumidamente:
- Deus Supremo: Há um único deus criador, Ahura Mazda (o "Senhor da Sabedoria"), que representa a luz, a verdade e a ordem cósmica;
- Dualismo ético: O zoroastrismo apresenta o universo como um campo de batalha entre o bem (representado por Ahura Mazda) e o mal (representado por Angra Mainyu ou Ahriman)
- Livre arbítrio: Para Zaratustra, os seres humanos possuem a liberdade de escolher entre o caminho da verdade (Asha) e o da falsidade/caos (Druj), sendo responsáveis por suas escolhas morais.
O pensador alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) usou o nome do profeta na famosa obra Assim Falava Zaratustra (1883). No livro, Nietzsche utiliza Zaratustra como um alter ego fictício para proclamar o niilismo, a "morte de Deus", a chegada do Além-do-homem ou Super-homem (Übermensch) e o anúncio da crise dos valores do Ocidente (a transvaloração dos valores tradicionais). O eterno retorno é outro conceito central do livro, segundo o qual toda a existência se repetiria infinitamente.
 "A Liberdade não deve apenas ser amada II", Diário de Pernambuco, 13 de junho de 1945. E noutros Diários Associados. 
 Nota do gerente do Blog: Não se trata de um poema, nem de um livro independente; trata-se na realidade, de um artigo ou texto de combate (ensaio/crônica) escrito em janeiro de 1943.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Bernanos exilou-se no Brasil, de onde escreveu diversos textos de resistência e de reflexão política. Esse texto específico foi posteriormente compilado e publicado em suas coleções de escritos de guerra e correspondências, notadamente na obra póstuma Le Chemin de la Croix-des-Âmes 
 Lettre aux Anglais, Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 1942, pp. IV, V, I, VII e IX-XI. 
 "O indesejável 'Monsieur' Bernanos. Um novo embaixador dos soviets?", Fronteiras, Recife, ano VII, nº 10, outubro, 1938. Curiosamente, um ano antes, quando as posições, de Bernanos contra Franco na Guerra civil espanhola, eram menos notórias, a mesma revista Fronteiras publicava uma recensão de João Vasconcelos, favorável à Nouvelle Histoire de Mouchette ano VI, nº 28, setembro de 1937). Ainda Fronteiras promoveria violenta campanha contra Jacques Maritain, por conta de idênticos motivos, sendo então ecoada por muitos outros setores.
 Ainda "O indesejável 'Monsieur' Bernanos", Fronteiras, Recife, ano VIII, nº 2, fevereiro, 1939. 
Pode ser um paradoxo, mas o certo é que Bernanos admirava o Conde de Paris, herdeiro do Trono da França, então muito em evidência, conforme se vê na sua carta a René Prouvot, em 9 de julho de 1939, in Correspondance, ob. cit., p. 255. Os monarquistas brasileiros ignoravam-no...
¹ "Georges Bernanos", Frankreich in Widerspruch, Hamburgo, Hanseatische Verlargsanstalt, 1943, p. 65. 
¹¹ Carta recohida por André Rousseaux, in Correspondance, ob. cit., p. 225. 
¹²  Carta a René Prouvot, em 5 de julho de 1939, in idem, pp. 254 e 255.
¹³ Melo Franco, ob. cit., p. 384. 
¹ Carta a Amoso Lima, em 26 de setembro de 1938, in Correspondance, ob. cit., p. 227. 
¹ Carta a Jorge de Lima, em 5 de janeiro de 1945, ob. cit., pp. 557 e 558. 
¹ Carta novamente a Jorge de Lima, idem, pp. 558 e 559. 
¹ Carta ao Coronel X, ibidem, pp. 551 e 552. 
¹ Carta a V. Melo Franco, em 24 de dezembro de 1945, ibidem, pp. 594 e 595. 
¹ Carta a F. Carneiro na mesma data, ibidem, p. 593. 
²Carta a G. Duhamel, 15 de março de 1948, ibidem, p. 751. 
²¹ Lettre aux Anglais, ob. cit., p. I.
²² Alma do Tempo, ob. cit., pp. 384 e 385. 
²³ "A Liberdade não deve apenas ser amada!", Diário de Pernambuco ( e todos os Diários Associados), 10 de junho de 1945. 
²⁴ Idem, nº II, 13 de junho de 1945, ob. cit.
Ficou um registro sinótico dos amigos brasileiros de Georges Bernanos in Bernanos no Brasil, ed. por Hubert Sarrazin, com depoimentos de Jorge de Lima et alii, Petrópolis, Vozes, 1968. 
O Humanismo Brasileiro, por Vamireh Chacon (1980), 272 p.

* Vamireh Chacon foi um dos mais brilhantes cientistas políticos, juristas, historiadores, professores e escritores brasileiros. Nascido no Recife, Pernambuco, dedicou sua vida ao estudo profundo da identidade nacional, da história política e das ideias sociais do Brasil. Sua formação acadêmica incluiu: graduado simultaneamente em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco e em Direito pela Faculdade de Direito do Recife (FDR) em 1956. Concluiu seu doutorado em Direito também pela FDR em 1959. Obteve pós-doutorado pela Universidade de Chicago, nos EUA em 1960, tendo no mesmo ano concluído o ciclo de pesquisa focada na área de Sociologia do Desenvolvimento. Retornando ao Brasil, obteve o título de livre-docente na FDR. Posteriormente, realizou estudos de Sociologia na Alemanha, onde morou por cerca de quatro anos. Foi na UnB que consolidou grande parte de sua carreira, tornando-se Professor Emérito, tendo atuado como chefe do Departamento de Ciência Política e Decano de Extensão. Publicou mais de 30 livros ao longo de sua vida. Sua obra é caracterizada pela análise da formação da sociedade brasileira, com forte influência da Escola do Recife e do pensamento de Gilberto Freyre. Chacon era considerado um defensor do "iberismo brasileiro", analisando as raízes culturais ibéricas do Brasil em diálogo com a modernidade universal. Membro titular e fundador da Academia Brasileira de Filosofia (cadeira nº 39) e membro da Academia Pernambucana de Letras, Chacon recebeu as maiores honrarias das letras nacionais. Em 2014, foi o grande vencedor do Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras (ABL) pelo conjunto de sua obra. A cooperação intelectual de Vamireh Chacon com o Senado e com os órgãos de editoração do parlamento remonta à década de 1970 e passando pela publicação de suas grandes obras oficiais nos anos 1990. Sua atuação como servidor em comissão do ILB encerrou-se em março de 2019. 

Um comentário:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
VAMIREH CHACON brilhou como um dos mais brilhantes cientistas políticos, juristas, historiadores, professores e escritores brasileiros.
Tive a oportunidade de privar da amizade de Vamireh Chacon, um assíduo frequentador da Biblioteca do Senado Federal e funcionário do ILB-Instituto Legislativo Brasileiro (que goza de status de escola de governo do Legislativo, através das plataformas Saberes e Interleges), enquanto eu exercia o cargo de Consultor Legislativo. Mais tarde, mantivemos profícua correspondência e tive a honra de acolher seus comentários a muitas matérias de meus dois blogs.
Neste post, apreciaremos o ensaio desse grande jurista e cientista político sobre a estada de GEORGES BERNANOS em Barbacena (de agosto de 1940 a junho de 1945), enriquecida pela pesquisa de Chacon na correspondência do pensador católico francês e no testemunho de vários de seus amigos no Brasil.

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/09/bernanos-em-barbacena.html

Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei