Por Gustavo Dourado *
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Manoel Quirino de Matos (✰ Arraial de Milagres, 04/06/1885 - ✞ Jacobina, 21/12/1955) |
Uma história vou contar
Desejo a sua atenção
Peço ao céu sabedoria
E uma boa inspiração
Relato Manoel Quirino
Um guerreiro do sertão
No Arraial de Milagres
Dizem que ele nasceu
Perto da Chapada Velha
Manoel Quirino viveu
Nas quebradas do sertão
Assim que o fato se deu
Manoel Quirino de Matos
Foi um famoso capitão
É de Barra do Mendes
A boa terra do sertão
Chapada Diamantina
No espaço setentrião
Canuto Pereira de Matos
Foi seu pai do coração
Josefa Madalena a mãe
Lhe deu boa educação
Terra de Barra do Mendes
Do comandante Militão
Manoel Quirino gostava
Da sombra do arvoredo
Na Fazenda Pedra Lisa
Pertencente a Rochedo
Hoje é a nossa Ibititá
Terra de gente sem medo
Manoel Quirino de Matos
Comerciante fazendeiro
Homem forte no garimpo
Seu nome sempre luzeiro
Foi temido e respeitado
De Irecê ao Juazeiro
No tempo dos revoltosos
Coluna Prestes no sertão
Pelo Estado da Bahia
Foi grande a comoção
Os coronéis no comando
No combate a Lampião
Era o vinte e seis (1926)
Revoltosos na Bahia
Prestes e Miguel Costa
A Coluna em demasia
Atacaram Pedra Lisa
Foi uma grande tirania
A Fazenda Pedra Lisa
Era do capitão Manoel
Quirino, homem valente
Fez muito bem seu papel
Expulsou os revoltosos
Deu-lhes bala, sangue, fel
A sanha dos revoltosos
Foi um ato de rebeldia
Atacaram o comércio
Fazendas à luz do dia
Pintaram o sete e o oito
Nos caatingais da Bahia
Manoel Quirino com fibra
À Coluna bem combateu
Com Horácio de Matos
Manoel nunca arrefeceu
Do Rochedo ao Recife
Grande peleja aconteceu
Nos cafundós do sertão
Teve uma luta aguerrida
Em diversos povoados
Em batalha bem renhida
Manoel Quirino valente
Com sua verve atrevida
Lutaram nas Caraíbas
Em quase todo o sertão
Em Recife dos Cardosos
No Aleixo e no Canoão
Pelejaram em Ibipeba
No Uibaí e no Lajedão
Na Lagoa do Mondubim
O Capitão se refugiou
No encalço da Coluna
Escondeu-se e lá ficou
Respirou por um canudo
Mas no fim ele escapou
Manoel Quirino atirava
Nos ritmos de Lampião
Cada tiro que ele dava
Era um soldado no chão
Na Lagoa da Canabrava
Foi grande a confusão
Pelo Nordeste inteiro
Foi grande a engrisia
Os sertanejos unidos
Lutaram com valentia
Perseguiram a Coluna
De Pernambuco à Bahia
Por todo o nosso sertão
Houve luta encarniçada
Os Batalhões Patrióticos
Fizeram grande jornada
Manoel Quirino lutava
Dia, noite e madrugada
Desertores da Coluna
Do Exército Brasileiro
Desejavam a mudança
Mas faltou o timoneiro
Atacaram os sertanejos
Em seu brilho altaneiro
O sertanejo aguerrido
É um valente cidadão
Manoel Quirino o guia
Foi gigante em sua ação
Deu combate à tirania
Que invadiu nosso sertão
Manoel não desejava
Aos revoltosos combater
Pilharam sua fazenda
Foi um ato de estarrecer
Saquearam o comércio
Botaram tudo a perder
Na imensidão sertaneja
Por onde Corisco andou
O Conselheiro na labuta
Seu povo revolucionou
Capitão Manoel Quirino
Seu nome se eternizou
José e Ângelo Martins
Os Martins de Canarana
Com Pedrinho e Belinha
O amor não desengana
Pedrinho fugiu do amor
Pela madrugada baiana
Pedrinho amava Belinha
Mas não queria casar
Não assumiu o seu amor
Só pretendia enamorar
Preferiu fugir da cena
Na noite se afugentar
Ele escapou pelo sertão
Da Chapada Diamantina
Rumo a Morro do Chapéu
Foi depois pra Jacobina
Manoel Quirino em cena
À nova peleja se destina
Foram atrás de Pedrinho
Que fugiu do casamento
Rumou para Jacobina
Na fuga em movimento
Estava em uma pensão
Fugindo do sentimento
No ano 55 (1955)
Houve uma fatalidade
Manoel Quirino foi morto
Em grande adversidade
Na cidade de Jacobina
Perdeu sua vitalidade
Manoel teve influência
Nos garimpos do sertão
Teve fazenda e comércio
Tinha uma boa condição
Foi respeitado pelo povo
Que lhe tinha devoção
Em toda a Chapada Velha
Manoel Quirino afamado
Homem de mineração
Também criador de gado
Na Fazenda Pedra Lisa
Fazia o seu bom roçado
Faleceu Manoel Quirino
Sua lenda continuou
É um nome legendário
Que pelo sertão ficou
Manoel Quirino de Matos
Nosso povo o consagrou
Manoel Quirino se uniu
Às famílias do sertão
Matos, Martins, Dourado
Na peleja com Militão
Sempre fiel a Horácio
Seu primo do coração
Manoel Quirino presente
É parte de nossa história
De um passado glorioso
Batalhas na trajetória
Foi um líder sertanejo
Patrimônio da memória
* Poeta da Chapada Diamantina
no Planalto Central do Brasil
8 comentários:
O cordelista GUSTAVO DOURADO, colaborador do Blog de São João del-Rei com inúmeras contribuições para a divulgação do cordel, esse gênero poético eminentemente brasileiro, relembra os atos de heroísmo de Horácio de Matos e seu primo MANOEL QUIRINO DE MATOS no romance histórico em versos em homenagem a este último.
Nesta data, há 65 anos atrás, tombava, vítima de morte cruenta e tocaia, Manoel Quirino de Matos, uma das mais destacadas figuras do alto sertão da Bahia e Chapada Diamantina, que foi imolado, no seu afã de fazer reparo em um crime de honra na sua família, portanto, em busca de justiça, não por um dos trabucos dos "revoltosos" da Coluna Prestes, mas pela arma de um meliante, João Gomes Bonifácio, codinominado "Pedrinho". Acuado dentro de uma casa em Jacobina e ouvindo do delegado voz de prisão, o criminoso atira à queima-roupa no inditoso Capitão Manoel Quirino e, em seguida, alveja também o delegado de polícia.
O historiador Mário Ribeiro Martins, que descreveu as façanhas bélicas do Capitão Manoel Quirino, relata: "em março de 1926 foi convocado pelo seu primo Horácio de Matos para combater a Coluna Prestes. (Observe-se que o Estado-Maior da Coluna, formado de Carlos Prestes, Miguel Costa, João Alberto, Djalma Dutra e mais o jornalista Pinheiro Machado já tinha visitado e tomado café na casa de Manoel Quirino, no Município de Morro do Chapéu.)
Apesar de bem recebidos, os elementos da Coluna terminaram por saquear todas as mercadorias da casa comercial de Manoel Quirino, sob a afirmativa: “ISTO É DA GUERRA, BAIANO”. Quando a Coluna Prestes passou por Rochedo (município de Morro do Chapéu), tentando invadir sua Fazenda Pedra Lisa, Manoel Quirino, com poucos homens, provocou baixas tremendas na Coluna, alcançando com isto muita fama. De qualquer forma, a Coluna alcançou Tiririca do Bode e invadiu Barra do Mendes (27.03.1926), prosseguindo sua viagem.
Manoel Quirino continuou ao lado de Horácio de Matos, organizando batalhões de voluntários e dando apoio logístico aos combatentes. Foram estes Batalhões que perseguiram a Coluna Prestes pelo Estado de Goiás e Mato Grosso até a fronteira da Bolívia, em La Guaiba (ou La Gaiba), o que ocorreu por volta de janeiro de 1927, já sob o governo do Presidente Washington Luís que tinha tomado posse no lugar do Presidente Artur Bernardes."
O historiador Martins, entretanto, no seu estudo, ainda denuncia que, apesar desses seus atos de bravura cívica, o Capitão Manoel Quirino de Matos, caiu num semi-esquecimento, não sendo mencionado no livro "Baianos Ilustres", editado pelo INL em 1979, nem é estudado no "Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro", da FGV, publicado em 2002, entre outras obras.
https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2020/12/romance-do-capitao-manoel-quirino-de.html
Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei
Gratidão, confrade Francisco Braga,
excelente a sua análise sobre o capitão Manoel Quirino de Matos, descendente da Família Matos que foi de Diamantina, Minas, para a Chapada Diamantina-Bahia e lá se misturou com a Família Dourado da Bahia, família também parente do português Antônio Vieira Dourado, que veio de Oliveira, Braga, para São Paulo, onde se misturou com os Moraes, descendentes do bandeirante Antônio Raposo Tavares, depois foi para Minas Gerais, onde constituiu numerosa família, que em sua maior parte assina Moraes.
Manoel tornou-se um muito do sertão da Chapada Diamantina-Bahia.
Abraços
Gustavo Dourado
Grata, cordial abraço,
Eudóxia.
Caro professor Braga;
Excelente inspiração de Gustavo Dourado sobre esse personagem realmente desconhecido nos registros, relatos e estudos dessa violenta época. A suaEpopéia acrescenta dados interessantes também para a Saga do Cangaço e da jornada da lendária Coluna Prestes.
Muito grato.
Cupertino
Caro confrade
Francisco Braga
Votos de Santo, Abençoado e Feliz Natal!
Grato pela remessa de suas reflexões.
Abraço,
Pe. Sílvio
Prezado Francisco Braga,
Acabei de ler e agradeço o que você me informou sobre Manoel Quirino de Matos e sobre o terrorismo da Coluna Prestes na Bahia. Conheço pouco da história dessa Coluna. Meu irmão José Mendonça Teles (falecido o ano passado) escreveu sobre a passagem da Coluna por Goiás. Não tenho o livro dele comigo, pois a minha biblioteca (com quinze mil volumes) foi doada à Universidade Federal de Goiás, de que sou professor fundador. Abraço do Gilberto Mendonça Teles
"Comuna" Prestes...
Muitas informacoes que nao sabia, sabia que Manoel Quirino era o " braço direito" de Horácio de Matos. Soube disto na cidade de Mucugê onde tive a honra de conhecer Tacio de Matos filho de Horacio de Matos.
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