segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

ROMANCE DO CAPITÃO MANOEL QUIRINO DE MATOS


Por Gustavo Dourado *

 

Manoel Quirino de Matos (✰ Arraial de 
Milagres, 04/06/1885 - ✞ Jacobina, 21/12/1955)


Uma história vou contar 
Desejo a sua atenção 
Peço ao céu sabedoria 
E uma boa inspiração 
Relato Manoel Quirino 
Um guerreiro do sertão 
 
No Arraial de Milagres 
Dizem que ele nasceu 
Perto da Chapada Velha 
Manoel Quirino viveu 
Nas quebradas do sertão 
Assim que o fato se deu 
 
Manoel Quirino de Matos 
Foi um famoso capitão 
É de Barra do Mendes 
A boa terra do sertão 
Chapada Diamantina 
No espaço setentrião 
 
Canuto Pereira de Matos 
Foi seu pai do coração 
Josefa Madalena a mãe 
Lhe deu boa educação 
Terra de Barra do Mendes 
Do comandante Militão 
 
Manoel Quirino gostava 
Da sombra do arvoredo 
Na Fazenda Pedra Lisa 
Pertencente a Rochedo 
Hoje é a nossa Ibititá 
Terra de gente sem medo 
 
Manoel Quirino de Matos 
Comerciante fazendeiro 
Homem forte no garimpo 
Seu nome sempre luzeiro 
Foi temido e respeitado 
De Irecê ao Juazeiro 
 
No tempo dos revoltosos 
Coluna Prestes no sertão 
Pelo Estado da Bahia 
Foi grande a comoção 
Os coronéis no comando 
No combate a Lampião 
 
Era o vinte e seis (1926) 
Revoltosos na Bahia 
Prestes e Miguel Costa 
A Coluna em demasia 
Atacaram Pedra Lisa 
Foi uma grande tirania 
 
A Fazenda Pedra Lisa 
Era do capitão Manoel 
Quirino, homem valente 
Fez muito bem seu papel 
Expulsou os revoltosos 
Deu-lhes bala, sangue, fel 
 
A sanha dos revoltosos 
Foi um ato de rebeldia 
Atacaram o comércio 
Fazendas à luz do dia 
Pintaram o sete e o oito 
Nos caatingais da Bahia
 
Manoel Quirino com fibra 
À Coluna bem combateu 
Com Horácio de Matos 
Manoel nunca arrefeceu 
Do Rochedo ao Recife 
Grande peleja aconteceu 
 
Nos cafundós do sertão 
Teve uma luta aguerrida 
Em diversos povoados 
Em batalha bem renhida 
Manoel Quirino valente 
Com sua verve atrevida 
 
Lutaram nas Caraíbas 
Em quase todo o sertão 
Em Recife dos Cardosos 
No Aleixo e no Canoão 
Pelejaram em Ibipeba 
No Uibaí e no Lajedão 
 
Na Lagoa do Mondubim 
O Capitão se refugiou 
No encalço da Coluna 
Escondeu-se e lá ficou 
Respirou por um canudo 
Mas no fim ele escapou 
 
Manoel Quirino atirava 
Nos ritmos de Lampião 
Cada tiro que ele dava 
Era um soldado no chão 
Na Lagoa da Canabrava 
Foi grande a confusão 
 
Pelo Nordeste inteiro 
Foi grande a engrisia 
Os sertanejos unidos 
Lutaram com valentia 
Perseguiram a Coluna 
De Pernambuco à Bahia 
 
Por todo o nosso sertão 
Houve luta encarniçada 
Os Batalhões Patrióticos 
Fizeram grande jornada 
Manoel Quirino lutava 
Dia, noite e madrugada 
 
Desertores da Coluna 
Do Exército Brasileiro 
Desejavam a mudança 
Mas faltou o timoneiro 
Atacaram os sertanejos 
Em seu brilho altaneiro 
 
O sertanejo aguerrido 
É um valente cidadão 
Manoel Quirino o guia 
Foi gigante em sua ação 
Deu combate à tirania 
Que invadiu nosso sertão 
 
Manoel não desejava 
Aos revoltosos combater 
Pilharam sua fazenda 
Foi um ato de estarrecer 
Saquearam o comércio 
Botaram tudo a perder 
 
Na imensidão sertaneja 
Por onde Corisco andou 
O Conselheiro na labuta 
Seu povo revolucionou 
Capitão Manoel Quirino 
Seu nome se eternizou 
 
José e Ângelo Martins 
Os Martins de Canarana 
Com Pedrinho e Belinha 
O amor não desengana 
Pedrinho fugiu do amor 
Pela madrugada baiana 
 
Pedrinho amava Belinha 
Mas não queria casar 
Não assumiu o seu amor 
Só pretendia enamorar 
Preferiu fugir da cena 
Na noite se afugentar
 
Ele escapou pelo sertão 
Da Chapada Diamantina 
Rumo a Morro do Chapéu 
Foi depois pra Jacobina 
Manoel Quirino em cena 
À nova peleja se destina 
 
Foram atrás de Pedrinho 
Que fugiu do casamento 
Rumou para Jacobina 
Na fuga em movimento 
Estava em uma pensão 
Fugindo do sentimento 
 
No ano 55 (1955) 
Houve uma fatalidade 
Manoel Quirino foi morto 
Em grande adversidade 
Na cidade de Jacobina 
Perdeu sua vitalidade 
 
Manoel teve influência 
Nos garimpos do sertão 
Teve fazenda e comércio 
Tinha uma boa condição
Foi respeitado pelo povo 
Que lhe tinha devoção 
 
Em toda a Chapada Velha 
Manoel Quirino afamado 
Homem de mineração 
Também criador de gado 
Na Fazenda Pedra Lisa 
Fazia o seu bom roçado 
 
Faleceu Manoel Quirino 
Sua lenda continuou 
É um nome legendário 
Que pelo sertão ficou 
Manoel Quirino de Matos 
Nosso povo o consagrou 
 
Manoel Quirino se uniu 
Às famílias do sertão 
Matos, Martins, Dourado 
Na peleja com Militão 
Sempre fiel a Horácio 
Seu primo do coração 
 
Manoel Quirino presente 
É parte de nossa história 
De um passado glorioso 
Batalhas na trajetória 
Foi um líder sertanejo 
Patrimônio da memória
 
*  Poeta da Chapada Diamantina 
no Planalto Central do Brasil
 

7 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

O cordelista GUSTAVO DOURADO, colaborador do Blog de São João del-Rei com inúmeras contribuições para a divulgação do cordel, esse gênero poético eminentemente brasileiro, relembra os atos de heroísmo de Horácio de Matos e seu primo MANOEL QUIRINO DE MATOS no romance histórico em versos em homenagem a este último.
Nesta data, há 65 anos atrás, tombava, vítima de morte cruenta e tocaia, Manoel Quirino de Matos, uma das mais destacadas figuras do alto sertão da Bahia e Chapada Diamantina, que foi imolado, no seu afã de fazer reparo em um crime de honra na sua família, portanto, em busca de justiça, não por um dos trabucos dos "revoltosos" da Coluna Prestes, mas pela arma de um meliante, João Gomes Bonifácio, codinominado "Pedrinho". Acuado dentro de uma casa em Jacobina e ouvindo do delegado voz de prisão, o criminoso atira à queima-roupa no inditoso Capitão Manoel Quirino e, em seguida, alveja também o delegado de polícia.
O historiador Mário Ribeiro Martins, que descreveu as façanhas bélicas do Capitão Manoel Quirino, relata: "em março de 1926 foi convocado pelo seu primo Horácio de Matos para combater a Coluna Prestes. (Observe-se que o Estado-Maior da Coluna, formado de Carlos Prestes, Miguel Costa, João Alberto, Djalma Dutra e mais o jornalista Pinheiro Machado já tinha visitado e tomado café na casa de Manoel Quirino, no Município de Morro do Chapéu.)
Apesar de bem recebidos, os elementos da Coluna terminaram por saquear todas as mercadorias da casa comercial de Manoel Quirino, sob a afirmativa: “ISTO É DA GUERRA, BAIANO”. Quando a Coluna Prestes passou por Rochedo (município de Morro do Chapéu), tentando invadir sua Fazenda Pedra Lisa, Manoel Quirino, com poucos homens, provocou baixas tremendas na Coluna, alcançando com isto muita fama. De qualquer forma, a Coluna alcançou Tiririca do Bode e invadiu Barra do Mendes (27.03.1926), prosseguindo sua viagem.
Manoel Quirino continuou ao lado de Horácio de Matos, organizando batalhões de voluntários e dando apoio logístico aos combatentes. Foram estes Batalhões que perseguiram a Coluna Prestes pelo Estado de Goiás e Mato Grosso até a fronteira da Bolívia, em La Guaiba (ou La Gaiba), o que ocorreu por volta de janeiro de 1927, já sob o governo do Presidente Washington Luís que tinha tomado posse no lugar do Presidente Artur Bernardes."
O historiador Martins, entretanto, no seu estudo, ainda denuncia que, apesar desses seus atos de bravura cívica, o Capitão Manoel Quirino de Matos, caiu num semi-esquecimento, não sendo mencionado no livro "Baianos Ilustres", editado pelo INL em 1979, nem é estudado no "Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro", da FGV, publicado em 2002, entre outras obras.

https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2020/12/romance-do-capitao-manoel-quirino-de.html

Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei

Gustavo Dourado (escritor, poeta de cordel e presidente da Academia Taguatinguense de Letras) disse...

Gratidão, confrade Francisco Braga,
excelente a sua análise sobre o capitão Manoel Quirino de Matos, descendente da Família Matos que foi de Diamantina, Minas, para a Chapada Diamantina-Bahia e lá se misturou com a Família Dourado da Bahia, família também parente do português Antônio Vieira Dourado, que veio de Oliveira, Braga, para São Paulo, onde se misturou com os Moraes, descendentes do bandeirante Antônio Raposo Tavares, depois foi para Minas Gerais, onde constituiu numerosa família, que em sua maior parte assina Moraes.
Manoel tornou-se um muito do sertão da Chapada Diamantina-Bahia.

Abraços
Gustavo Dourado

Eudóxia de Barros (insigne pianista, concertista e membro da Academia Brasileira de Música) disse...

Grata, cordial abraço,
Eudóxia.

Prof. Cupertino Santos (professor aposentado da rede paulistana de ensino fundamental) disse...

Caro professor Braga;
Excelente inspiração de Gustavo Dourado sobre esse personagem realmente desconhecido nos registros, relatos e estudos dessa violenta época. A suaEpopéia acrescenta dados interessantes também para a Saga do Cangaço e da jornada da lendária Coluna Prestes.
Muito grato.
Cupertino

Pe. Sílvio Firmo do Nascimento (professor, escritor e editor da Revista Saberes Interdisciplinares da UNIPTAN e membro da Academia de Letras de SJDR) disse...

Caro confrade
Francisco Braga
Votos de Santo, Abençoado e Feliz Natal!
Grato pela remessa de suas reflexões.
Abraço,
Pe. Sílvio

Gilberto Mendonça Teles (autor de O terra a terra da linguagem e Hora Aberta-Poemas Reunidos e é membro da Academia Goiana de Letras) disse...

Prezado Francisco Braga,

Acabei de ler e agradeço o que você me informou sobre Manoel Quirino de Matos e sobre o terrorismo da Coluna Prestes na Bahia. Conheço pouco da história dessa Coluna. Meu irmão José Mendonça Teles (falecido o ano passado) escreveu sobre a passagem da Coluna por Goiás. Não tenho o livro dele comigo, pois a minha biblioteca (com quinze mil volumes) foi doada à Universidade Federal de Goiás, de que sou professor fundador. Abraço do Gilberto Mendonça Teles

Dr. Rogério Medeiros Garcia de Lima (professor universitário, ex-presidente do TRE/MG, escritor e membro do IHG e da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

"Comuna" Prestes...