Por DANILO GOMES
Quando eu era menino, em Mariana, MG, na década de 194O e início da de 195O, lá vivia um senhor chinês, magro, de complicada e fina fala sino-mineira. Ninguém lhe sabia o nome nem de que cantão do velho Império viera. Todos o chamavam de China. Vendia coisas, legumes, frutas, miudezas, que trazia em duas cestas, penduradas num varal que lhe assentava às costas curvadas. Magrinho, baixinho, todo cortesias. Era uma figura popular, pelo exotismo oriental, pela fala enviesada, pela gentileza do trato pessoal. Ôi, China? Lá vem o China vendendo suas coisas. Boa tarde, China! China, o que você vende hoje aí?
Tenho hoje 83 anos e nove meses. Esses dias, lendo o livro Marília e Dirceu – Genealogia e Diversos, de Waldemar Rodrigues de Oliveira Leal, de 1977, da Expressa Artes Gráficas, de Belo Horizonte, encontrei esta passagem, à pág. 7:
“Passeando pela vetusta Ribeirão do Carmo, hoje Mariana, vi uma quitanda, onde entrei para comprar laranjas. Chamou-me a atenção o tipo oriental do vendeiro, perguntei-lhe se era japonês. Respondeu-me que era chinês, bem do interior da velha China. Perguntei como viera parar tão longe. Respondeu-me que não sabia explicar.”
O historiador, também poeta, prossegue:
“Passaram-se mais de vinte anos. Um dia, estando novamente em Mariana, lembrei-me do chinês. Perguntei a um senhor sobre o mesmo. Disse-me que o Zé Maria, era esse o apelido que lhe puseram, havia morrido. Contou-me que fora levado, bem doente, para o hospital. As freiras que o cuidaram ficaram apreensivas sabendo que ele era ateu e pagão. Insistiram para que se batizasse, comungasse e recebesse a extrema-unção, caso contrário iria direto para o inferno. O “Zé Maria” arregalou os olhinhos oblíquos e respondeu a respeito da ida para o inferno: “A gente cutuma.” Confúcio não responderia melhor.”
Mas é no livro intitulado Hebe Rôla – 90 anos de vida – 75 anos dedicados à educação e à cultura marianense, que vou encontrar maiores informações sobre a singular pessoa do “chinês de Mariana”, que tive a sorte de conhecer.
O aludido livro foi organizado pela escritora Andreia Donadon Leal, colega de Hebe Maria Rôla Santos na Academia Marianense de Letras, Ciências e Artes, de que também tenho a honra de pertencer. Trata-se de uma edição de 2021, pela Aldrava Letras e Artes, da nossa cidade de Mariana. Nas págs. 115 e 116, Hebe Rôla aborda o tema, sob o título de “China”. E assim ela começa o capítulo de reminiscências:
“Rosto moreno, meio amarelado, já bastante castigado pelo tempo, olhos amendoados, quase fechados, lábios finos, estrias e rugas, chapéu chinês, roupas largas e soltas de bons tecidos, sapatos grandes afunilados nas pontas, vinha pela rua D. Viçoso, antiga rua D’ Olaria, o China, patinando na ponta dos pés.
Num bastão de madeira, atravessado aos ombros, pendurava balaios, cestas, peneiras, sombrinhas artísticas e pacientemente tecidas em taquara. Em uma das mãos, um vistoso balaio de verduras e bananas que vendia pelas ruas:
— Come foia ! Foia muito mais mió.
Oferecia aos que visitava sua casa, na rua D. Viçoso, água de banana como nutriente e quase milagroso alimento. Em uma gamela mergulhava pedaços de banana e até hoje não se sabe o resto dos ingredientes que compunham a beberagem que ele tomava e servia cerimoniosamente, com um misto de sábio e bruxo:
— Água de panana mió saúde! Muito pom!
As irmãs do Colégio Providência, lideradas por irmã Luísa, empenhavam-se na catequese do China. Visitavam-no e davam-lhe aulas de catecismo. Queriam batizá-lo, mas ele ficava irredutível.
Um dia, bastante adoentado, enquanto recebia os cuidados médicos que elas levaram até ele, a irmã Luísa, temendo que ele morresse sem o sacramento do batismo, intensificou seu trabalho pastoral:
— Olha, China, o inferno é um lugar horrível! Lá só se vê fogo e caldeiras de água fervente! Quem vai para o inferno queima-se eternamente na fogueira! ... Já imaginou o sofrimento de quem fica lá, sem poder sair, espetado pelos garfos em brasa dos demônios? Quem resistiria a esses sofrimentos, além de não ver Deus? O calor é desesperador!
China ficou cabisbaixo e pensativo. A irmã Luísa quase comemorava a vitória, quando, depois de longo silêncio, ele respondeu convicto:
— O’ mã, cum tu gi cutum. (Olhe, irmã, com tudo a gente acostuma.)
Mas a resistência do China foi vencida e batizaram-no com o nome de João Maria.”
Senhoras e senhores, a história não termina aqui. A narrativa da minha querida amiga Hebe Rôla é tão saborosa que dou continuidade a ela. Assim:
“Na década de 1980, a Folia Nossa, grêmio artístico cultural de Mariana, desenvolveu, no carnaval, o tema Chinoiserie em Mariana, e, a certa altura da marcha-enredo, cantavam:
Toda rua d’ Olaria crê no China João Maria/ A criançada vibrante de sombrinha e balaio/ Se encanta com o seu falar/ Repete ao vê-lo na rua/ Velha marcha popular:/ “Já vem seu China/ Na ponta do pé/ Ligue, ligue, ligue,/ Ligue, ligue, ligue, lé/ Dez tostões, vinte pratas/ Banana e café/ Ligue, ligue, ligue,/ Ligue, ligue, ligue, lé.”
E Hebe Rôla conclui seu histórico texto:
“Assim, à Chinoiserie de Mariana acrescentou-se a Chinesite, o ite do nosso China João Maria. E a expressão cum tu gi cutum passou a fazer parte do léxico marianense.”
Como veem, nosso saudoso China não foi abrasileirado com o prenome de José Maria, mas, sim — como ensinou Hebe — João Maria. Destarte, com esse título, após cerrar os olhos para o mundo, se apresentou ao guardião São Pedro e, pedindo licença numa elegante curvatura de mandarim, bem ao seu estilo, foi logo recebido e abençoado pela misericórdia do Deus Altíssimo. Ele disse apenas: “Senhor, sou o chinês da rua d’ Olaria, João Maria.” E entrou no Céu, com seu passinho miúdo.
II. AGRADECIMENTO
À minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação do registro fotográfico utilizado neste trabalho.

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2 comentários:
Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...
Prezad@,
Compartilho a crônica "O CHINÊS DE MARIANA", da autoria do jornalista, cronista, contista e memorialista Danilo Gomes. Natural da histórica cidade de Mariana (MG), o autor traz em sua prosa uma sensibilidade única e uma rica bagagem literária, sendo aclamado por sua refinada contribuição à literatura brasileira e por sua participação ativa em diversas Academias de Letras.
Espero que esta leitura proporcione um excelente momento de reflexão e lazer.
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/09/o-chines-de-mariana.html
Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei
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