Por Raquel Naveira *
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| O jardim frontal da Casa de Rui Barbosa em 1934-Crédito: Acervo Iconográfico da Fundação Casa de Rui Barbosa |
Rio de Janeiro. Morro Santa Marta. Rua São Clemente. Casa de Rui Barbosa. Uma mansão neoclássica, aristocrática, no meio de um vasto jardim. Foi o Barão da Lagoa que comprou o terreno e construiu a casa, terminando-a em 1850. Mais tarde, o comerciante português Albino de Oliveira Guimarães adquiriu o imóvel, anos depois, vendeu-o ao inglês John Roscoe Allen. Este, por sua vez, vendeu-a a Rui Barbosa em 1893. A família de Rui ocupou o imóvel depois de voltar da Inglaterra, onde se exilara por motivos políticos. Rui estava com 46 anos, casado com Dona Maria Augusta há 19 anos e o casal tinha cinco filhos. Em homenagem à sua mulher, Rui batizou a casa de “Vila Maria Augusta” (o nome de minha neta, pensei ao ver a inscrição na fachada lateral). Nessa casa Rui viveu até morrer, em 1923, aos 74 anos de idade.
Que emoção andar por esse jardim cheio de jambeiros, mangueiras e pitangueiras! Sinto que recuei no tempo e poderei ver Rui Barbosa chegar a qualquer momento, com suas botinas marrons, seu chapéu de feltro cinza, a distinta camisa com gravata branca de laço, apoiado sobre uma bengala. Seria ele aquele vulto franzino, sentado num banco sob a pérgula metálica forrada de folhas de parreira? Será ele? Parece cansado... Derrotado nas urnas em duas campanhas a Presidente da República, depois de tantas lutas, tantas perseguições; depois de representar brilhantemente o Brasil na II Conferência de Paz em Haia, numa atuação que lhe valeu o cognome de Águia de Haia e fez dele um ídolo nacional; depois de defender tantas causas: liberalismo, abolicionismo, liberdade dos cultos, sufrágio direto... Sim, parece cansado. Parece que fala algo. Aproximo-me do pé de fruta-pão e ouço sua voz dizendo:
“ — Sinto vergonha de mim por ter sido educador de parte desse povo, por ter batalhado sempre pela justiça, por compactuar com a honestidade, por primar pela verdade e por ver este povo já chamado varonil enveredar pelo caminho da desonra.”
Rui levanta-se com dificuldade, entra na casa, eu o sigo. O homem austero, metódico, com uma grande capacidade de trabalho, vai passar mais um dia, mais um século, entre seus livros e escritos. Alcança o gabinete gótico, a imensa biblioteca, vai até o escritório, senta-se em frente à escrivaninha. Antes de molhar a pena no tinteiro, desabafa:
“ — Sinto vergonha de mim por ter feito parte de uma era que lutou pela democracia, pela liberdade de ser, e ter que entregar aos meus filhos a derrota das virtudes pelos vícios, a ausência da sensatez no julgamento da verdade, a negligência com a família, célula-mater da sociedade, a demasiada preocupação com o “eu” feliz a qualquer custo, buscando a tal “felicidade” em caminhos eivados pelo desrespeito para com seu próximo. Tenho vergonha de mim pela passividade em ouvir, sem despejar meu verbo, a tantas desculpas ditadas pelo orgulho e pela vaidade, e tanta falta de humildade para reconhecer um erro cometido, a tantos ‘floreios’ para justificar atos criminosos e tanta relutância em esquecer a antiga posição de sempre ‘contestar’, voltar atrás e mudar o futuro .”
Caminha até a sala de visitas, dirige-se aos convivas invisíveis com sua oratória solene, sua eloqüência clássica, herdada das lições retóricas de Cícero e de Quintiliano, da sintaxe seiscentista do Padre Vieira, do léxico opulento de Herculano e Camilo:
“ — Tenho vergonha de mim, pois faço parte de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer. Tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço. Não tenho para onde ir pois amo este meu chão, vibro ao ouvir meu Hino e jamais usei a Bandeira para enxugar o meu suor ou enrolar meu corpo na pecaminosa manifestação de nacionalidade.”
Rui entra na cozinha, onde o fogão a lenha estala caldas de doces cristalinos em tachos de cobre, desce as escadas de volta ao jardim, aproxima-se das cavalariças onde um “coupé” negro o espera, entra no coche, dá ordem de partida. Tenho a impressão que me olhou fixamente antes da última confissão:
“ — Ao lado da vergonha de mim, tenho pena de ti, povo brasileiro! De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”
Pôr-do-sol. Saio da casa de Rui pelas ruas que lembram os voluntários da pátria. Nem sei, Rui, se tudo isso aconteceu agora ou no passado.



6 comentários:
Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...
Prezad@,
É com grande alegria que compartilho com você uma leitura verdadeiramente inspiradora e tocante. Trata-se da crônica intitulada "CASA DE RUI BARBOSA", escrita pela sensível e talentosa escritora RAQUEL NAVEIRA.
Neste texto, a autora nos conduz por uma viagem poética e histórica, resgatando a memória, a grandiosidade e a atmosfera única que envolvem o legado de uma das figuras mais importantes da nossa cultura e história jurídica. Com sua escrita refinada e profunda, Raquel transforma a visita física a esse espaço em um mergulho na própria alma do Brasil, despertando reflexões sobre o tempo, o saber e o afeto.
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/10/casa-de-rui-barbosa.html
Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei
Raquel Naveira (membro da Academia Matogrossense de Letras e, como poetisa publicou, entre outras obras, Jardim Fechado, antologia poética em comemoração aos seus 30 anos dedicados à poesia) disse...
Obrigada, caro Francisco Braga, por suas palavras e pela divulgação de nosso texto em seu prestigiado blog.
Fico honrada e feliz.
Abraço fraterno,
Raquel Naveira
Impressionante meu querido, meu amor.
Vejo Rui Barbosa hoje, dentro de casa com tristeza, mas vejo também que ca fora, o movimento é pujante em busca da tão sonhada pátria livre enfim. O “ sol” ainda nascerá para o povo Brasileiro. Não se preocupe Dr. Rui, estamos sempre a postus em busca daquele seu ideal de Nação.
Obrigado, Francisco, pelo envio do primoroso texto de Raquel sobre o grande Rui.
Geraldo Reis (poeta, autor de Pastoral de Minas (1981), membro da Academia Marianense de Letras e gerente do Blog O Ser Sensível) disse...
Querido amigo, muito obrigado.
O que recebemos de você é, sem dúvida, um presente. Um arquivo de ouro, uma escolha feliz. Aliás, é hora de salvar o Brasil. Estamos vivendo a Ditadura da Toga. Estamos aqui, saindo para salvar o futuro. Votando pelos nossos filhos e netos. Deus abençoe o Brasil. A hora é agora.
Forte abraço poético.
GR.
Geraldo Reis (poeta, autor de Pastoral de Minas (1981), membro da Academia Marianense de Letras e gerente do Blog O Ser Sensível) disse...
Eu recebi... A Raquel é Cultura. Faz jus ao carimbo, título, medalha ou diploma, que poderia ter o seu nome, porquanto seria instituída pelo seu blog. Já disse a ela, e vou repetir o que eu disse: Raquel Naveira, obrigado por você existir.
O texto é lúcido e nos remete ao momento crucial do voto. O recado é claro: é preciso salvar o Brasil. É a chance, afinal, de mudar os rumos da História.
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