Por Fernando Sabino
Transcrevemos a crônica "Passeio", publicada originalmente em 1959, considerada uma das crônicas mais sensíveis do autor sobre as relações familiares.
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| FERNANDO Tavares SABINO (✰BH, 12/10/1923 ✞Rio, 11/10/2004) |
I. "PASSEIO"
— Aonde vamos, papai?
Seguiam devagar, de mãos dadas, em direção ao túnel. Ele olhou em redor, desorientado.
— Dar um passeio... Vamos passar pelo túnel – resolveu. — A pé, você já passou pelo túnel a pé?
— Não – disse a menina, extasiada. Num passeio com o pai, tudo era motivo de prazer. — A gente pode?
— Pode. Tem um lugar do lado que é para a gente passar.
— De que é feito o túnel, papai?
De que era feito o túnel? Essa era uma pergunta meio tola. Tinha oito anos e parecia inteligente... O túnel era um buraco na montanha, não era feito de nada.
— Ah...
De repente, porém, ela o surpreendeu:
— Túnel deprime muito a gente.
— Deprime? Com quem você aprendeu isso?
— Com mamãe: nós duas andamos muito deprimidas.
Positivamente, a mulher deveria ter mais cuidado com o que falava. O que seria daquela menina, sem ele perto, para... para...
— E por que vocês andam deprimidas?
— Não sei: acho que é porque não temos vontade de comer.
Era preciso falar – e falar com jeito, sem escandalizar a menina, assustá-la para a vida. Não dê motivo fútil – era o que recomendavam. O que uma menina de oito anos entenderia por motivo fútil?
— Você já está mocinha – tentou, desajeitadamente, e não soube continuar.
— Aonde nós vamos, papai?
Saíram do túnel. O melhor era procurar um lugar calmo, sossegado. Uma confeitaria, talvez.
— Você quer tomar um sorvete?
— Mamãe disse que está muito frio.
— Não tem importância – disse ele apressadamente: — Vamos tomar um sorvete.
Satisfeitos ambos com a resolução, entraram num ônibus e saltaram à porta da confeitaria. Ela se deteve junto à vitrine:
— Olha, papai, que bonito.
Era uma horrorosa caixa de bombons em forma de coração.
— Dou de presente, você quer? – e puxou-a pelo braço, em direção á entrada. Dar-lhe-ia tudo que quisesse, como a comprar sua simpatia para o que tinha a dizer.
— Mamãe falou que não posso comer bombom senão não janto.
— Hoje você pode, sim.
A mãe também estava exagerando, oprimindo a menina. Não tinha nada de mais comer um bombom de vez em quando. E aquele dia não era um dia comum – pensou, sem perceber que violentava as regras intransigentes de educação da filha que ele próprio firmara e que a mulher agora não fazia senão obedecer. Oprimindo a menina. Nós duas andamos muito deprimidas.
Pessoas entravam e saíam da confeitaria, movimentada àquela hora da tarde. Moças e rapazes esperavam mesa, conversando em grupos, alguns olharam aquele homem tímido, meio curvado, que entrava com uma menina pela mão. Sentiu-se constrangido no ambiente elegante da confeitaria, sentiu-se velho entre aqueles rapazes de suéter e aquelas moças de calça comprida, como rapazes. Em dez anos a filha estaria assim. Dez anos passam depressa. Dez anos haviam passado.
— Aqui não tem lugar – disse ele, contendo a menina. — Vamos ali para o fundo.
Passaram ao outro lado da confeitaria, de aspecto mais humilde.
— Aqui tem sorvete também. Não está bom?
A menina sacudiu a cabeça, submissa:
— Lá na frente era melhor...
— Lá na frente não tem lugar.
— Mas aqui não tem bombom.
— Ah, me esqueci de sua caixa de bombons! Espere aí que eu vou buscar.
Sentou-se a uma das mesas e ordenou ao garçom:
— Traga um sorvete para esta menina, Que sorvete você quer, minha filha? De coco?chocolate?
— Milk shake – disse ela, com displicência. O garçom logo a entendeu. O pai olhou-a espantado:
— Que é que você pediu?
— Milk shake. Venho aqui sempre com a mamãe e ela pede milk shake.
— Então espera aí direitinho que vou buscar seus bombons, volto já.
Passou à outra parte da confeitaria, dirigiu-se ao balcão:
— Quero aquela caixa de bombons que está ali na vitrine, aquela feia, em forma de coração.
De longe avistou a filha, perninhas dependuradas, a chupar o canudo do refresco, olhos vagos, distraídos, inconstantes – os olhos da mãe.
— Demorei? – e sentou-se ao lado dela.
— Fiquei com medo de você ir embora.
— Então eu ia fazer uma coisa dessas, minha filha, ir embora?
A menina apontou a mesa com os olhos, sem abandonar a palha do refresco:
— Pedi um milk shake para você.
Ele se ajeitou na cadeira e acendeu um cigarro. Chegara o momento – como começar?
— Você sentiu saudade do papai?
— Não, porque você demorou pouco. Comprou?
— Comprei, olha aqui – e exibiu-lhe o embrulho.
— Vou levar para mamãe – resolveu ela, subitamente inspirada. — Pode?
— Pode – e ele passou a mão pelo rosto, desconcertado. — Um presente seu para ela.
— Meu, não: seu – fez a menina, como a experimentá-lo. Não respondeu. Ela voltara a chupar o canudo de palha, agora soprava para dentro do copo, fazendo espuma no refresco.
— Eu pergunto se você sentiu saudade de mim não foi agora não, foi quando estive viajando.
— Você esteve viajando mesmo?
Meu Deus, como começar? Era preciso começar, já se fazia tarde, o refresco se acabava, em pouco tinha de levá-la de volta para a mãe. Estivera viajando sim, por que haveria de mentir?
— E chegou assim, sem mala, sem nada?
— É porque eu cheguei... Isto é... Olha aqui. Toma este outro também, papai não está com vontade – e passou-lhe o copo.
— Assim não janto e mamãe zanga – disse ela, indecisa, a boca a meio caminho do segundo refresco.
— Não tem importância. Diga que fui eu.
Não tinha importância – o importante era dizer, contar tudo, escandalizar, violentar a inocência da menina. Assim recomendavam todos hoje em dia: as crianças devem saber de tudo, porque senão inventam por conta própria, e é pior. O que não é capaz de inventar uma criança? Antigamente na escola, entre as amigas, a criança se sentia a única, mas hoje em dia podia-se dizer que era a regra, tantos casais separados! E sacudiam a cabeça, convictos: sobretudo não dê motivos fútil.
— Escuta, minha filha, você é uma mocinha, já deve saber as coisas.
Voltava à formula da mocinha. Agora era continuar, custasse o que custasse. Daria tudo para não viver jamais aquele instante. Pensou se não era bom tomar antes um conhaque.
— Estive viajando sim, mas não é por isso que não estou morando mais com você. Agora, por exemplo, já cheguei e não vou dormir lá em casa.
— Onde é que você vai dormir?
— Noutro lugar – respondeu ele, evasivo: não pensava em dizer onde estava morando, ela poderia querer ir com ele.
— E quem é que vai dormir com a mamãe?
A pergunta apanhou-o desprevenido, sentiu-se jogado de súbito naquela atmosfera de ansiedade que precedera a separação.
— Me diga uma coisa, filhinha – ele não resistia, e se inclinava, ansioso, sobre a mesa, segurando a mão da filha: — Você disse que vem sempre aqui com sua mãe... Sozinha? Não vem ninguém mais com vocês?
A menina limitou-se a negar com a cabeça, sempre tomando o refresco.
— E lá em casa? Tem ido alguém visitar mamãe?
Desta vez ela sacudiu a cabeça afirmativamente.
— Quem?
Desgarrou os lábios da palha já amassada para responder:
— Vovó.
Ele chamou o garçom e pediu um conhaque. Voltou a acomodar-se na cadeira, perturbado. Não interessava! Tudo acabado para sempre. Agora restava contar para a filha:
— Sabe, filhinha, você já é uma... Bem, isso eu já disse. Quero dizer o seguinte: você sabe que papai gosta muito de sua mãe...
Antes de mais nada, deixar bem a mãe: era também o que aconselhavam. Tomou de uma só vez o conhaque e prosseguiu:
— Sua mãe é muito boa, sabe? Muito boa mesmo, gosta muito de você, você deve ser obediente e boazinha para ela.
Não, não era isso. Precisava dizer logo, ou não diria nunca:
— Papai gosta dela e ela de papai. Mas acontece, sabe?, que ela é muito diferente do papai, gosta de uma coisa, papai de outra...
Motivo fútil. O que não seria motivo fútil?
— Bem, eu e sua mãe gostamos muito um do outro mas eu andava muito cansado, trabalhando o dia todo, sua mãe muito nervosa, nós vivíamos discutindo... brigando...
— Se gostam, por que é que brigam?
Foi a única vez que a menina o interrompeu. Dali por diante ficou calada, olhando para outro lado, e ele prosseguiu como pôde, dizendo: ela não tinha amiguinha no colégio? não gostavam uma da outra? e de vez em quando não brigavam? Pois então? Com eles também era assim. E para viver junto era preciso não brigar nunca, era preciso ser muito bom um para o outro, era preciso...
— Minha filha, você não está me escutando.
— Estou sim, papai...
A menina terminara o refresco e agora riscava distraidamente a mesa coma palha umedecida.
— Que é que estou dizendo?
Ela voltou-se para ele:
— Está dizendo que você e mamãe vão separar.
Ele respirou fundo, num misto de angústia e alivio:
— Mas vou visitar vocês sempre...
— Eu sei.
— Posso levar você para passear.
— Sei.
— Posso... Posso...
Ela se levantou, puxando-o pela mão:
— Papai, me leva embora que já está ficando tarde.
— Minha filha – disse ele, confuso e comovido, e não resistiu, tomou-a no colo, abraçou-a com força, enquanto lágrimas lhe enchiam os olhos. Quis falar e as palavras se prenderam num engasgo. Um casal sentado ao fundo da confeitaria, mãos dadas sobre a mesa, voltou-se curiosamente para vê-lo. Ele depositou a menina no chão, sem que ela oferecesse resistência. Chamou o garçom, pagou, reteve a filha:
— Olha, você está esquecendo os bombons.
Saíram, e a menina o conduzia pela mão, como a um cego.
II. BREVE ANÁLISE DA CRÔNICA "PASSEIO"
[SÁ apud TRISTÃO, 2005, 49-50] assegura que Sabino também se vale de alguns recursos tais como ― o uso exclusivo de diálogos (com a completa ausência do narrador) e a concentração do relato numa situação exemplar compondo um texto que fica entre a crônica e o conto.
[TRISTÃO, 2013, 53] acha "possível uma tentativa de classificação ou tipologia das crônicas de Sabino a partir de alguns temas e processos recorrentes, lembrando que muitas vezes as crônicas do autor fogem a uma marcação formal rígida, já que são dotadas de uma mistura de procedimentos que as deslocam de um campo ao outro dependendo da abordagem do leitor".
Analisando os modos de composição das crônicas por Sabino, acha que se possa considerar "Passeio" como o modelo perfeito do que a academia chama de Crônica-Diálogo, na qual a psicologia dos personagens e o avanço da história dependem integralmente da fala, eliminando longas descrições do narrador.
A Crônica-Diálogo (ou crônica dialogada) é um subgênero da crônica jornalística e literária no qual a narrativa é conduzida quase inteiramente pelas falas das personagens, reduzindo drasticamente ou eliminando por completo as intervenções do narrador. Nesse formato, o texto se aproxima muito da estrutura de uma peça de teatro ou de um roteiro de cinema, mas mantém o tom despretensioso, cotidiano e lírico que caracteriza a crônica brasileira.
A Crônica-Diálogo em "Passeio"
A crônica "Passeio" mostra um pai desorientado que caminha com sua filha de oito anos. Ele tenta encontrar o momento e as palavras certas para revelar que está se separando da mãe dela, mas descobre que a maturidade da infância corre em um ritmo diferente da hesitação adulta.
A Crônica-Diálogo em "Passeio"
A crônica "Passeio" mostra um pai desorientado que caminha com sua filha de oito anos. Ele tenta encontrar o momento e as palavras certas para revelar que está se separando da mãe dela, mas descobre que a maturidade da infância corre em um ritmo diferente da hesitação adulta.
A crônica "Passeio" é considerada um dos maiores exemplos desse subgênero na literatura nacional.
Sabino abre mão de explicar os sentimentos de culpa do pai ou o sofrimento da filha diante da separação familiar. Em vez disso, ele deixa o leitor testemunhar o drama diretamente através do choque de discursos: a hesitação cheia de rodeios do adulto contraposta à franqueza cortante e direta da criança. O silêncio que se instala entre as falas é o que constrói o peso emocional da narrativa.
Sabino abre mão de explicar os sentimentos de culpa do pai ou o sofrimento da filha diante da separação familiar. Em vez disso, ele deixa o leitor testemunhar o drama diretamente através do choque de discursos: a hesitação cheia de rodeios do adulto contraposta à franqueza cortante e direta da criança. O silêncio que se instala entre as falas é o que constrói o peso emocional da narrativa.
Principais Características
• Economia Narrativa: Não há espaço para longas descrições de cenários, figurinos ou explicações psicológicas. O leitor precisa deduzir o ambiente e o estado emocional das personagens unicamente pelo tom, ritmo e conteúdo das falas.
• Ação Através da Palavra: O enredo não avança porque as personagens realizam grandes ações físicas, mas porque o diálogo evolui. É na conversa que os segredos são revelados, os conflitos aparecem e os desfechos acontecem.
• Oralidade e Naturalidade: O texto busca mimetizar a fala cotidiana (marcas de hesitação, frases curtas, interrupções, silêncios). No entanto, essa "conversinha" comum é minuciosamente lapidada pelo autor para gerar um efeito estético profundo.
• Subtexto Dominante: O que não é dito explicitamente costuma ser o mais importante. A tensão literária se apoia nas entrelinhas, nos mal-entendidos e nas ironias da comunicação humana.
O Cenário como Metáfora: O Túnel e a Confeitaria
O percurso físico feito pelos dois funciona como um espelho do estado emocional das personagens:
• O Túnel: Logo no início, o pai decide atravessar um túnel a pé com a filha. A travessia simboliza o momento de transição sufocante, a escuridão e a angústia da notícia iminente. Quando a menina diz que aprendeu com a mãe que "túnel deprime muito a gente", o leitor percebe o ambiente pesado que ela já vinha testemunhando em casa.
• A Confeitaria: Ao saírem do túnel, o pai busca o refúgio de uma confeitaria lotada. O ambiente barulhento e os doces funcionam como uma tentativa do pai de anestesiar e adoçar uma realidade dolorosa, mimando a filha com um milk-shake e bombons.
O Contraste entre Adulto e Criança
A crônica constrói sua força no choque de percepções entre as duas personagens:
• O Pai: Mostra-se culpado, hesitante e desorientado. Ele subestima a capacidade de compreensão da filha, temendo "assustá-la para a vida", e busca comprar o afeto ou o perdão da menina por meio de mimos materiais (uma caixa de bombons em formato de coração).
• A Filha: Revela uma sensibilidade e uma maturidade agudas. Ao mesmo tempo em que mantém a pureza infantil — maravilhando-se com o passeio a pé e com o milk-shake —, ela quebra a hesitação do pai ao antecipar calmamente a verdade: "você e mamãe vão separar".
Estilo e Recursos Linguísticos
Fiel ao estilo da crônica modernista brasileira, Sabino utiliza uma linguagem limpa, direta e focada no cotidiano.
• Predomínio de Diálogos: O texto progride quase inteiramente por meio do diálogo entre pai e filha. É no que fica subentendido entre as falas que a verdadeira tensão emocional se constrói.
• Ironia Sutil: Há um sutil humor melancólico no fato de o pai tentar encontrar termos complexos e psicológicos para dar a notícia, enquanto a criança desarma toda a encenação com uma frase simples e direta.
• Inversão de Papéis: O desfecho da crônica consagra a "vitória da infância" (tema recorrente em suas coletâneas). No final, após o segredo ser revelado, as posições se invertem: não é o pai quem ampara a filha, mas a menina quem segura a mão do pai e o conduz, oferecendo o apoio que o adulto desorientado precisava.
III. BIBLIOGRAFIA
SÁ, Jorge de: A Crônica. São Paulo: Ática, 2005
SABINO, Fernando. Passeio. In: SABINO, Fernando. A companheira de viagem: contos e crônicas. Rio de Janeiro: Record, 1965. pp. 7-15.
_________________ Passeio. In: SABINO, Fernando. Obra reunida. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. v. 2, pp. 11-15.
TRISTÃO, Talita Carlos. As crônicas de Fernando Sabino: “Poesia de observação”. 2013. 106 p. (Dissertação – Mestrado em Letras). Universidade Vale do Rio Verde – UNINCOR – Três Corações – MG
SABINO, Fernando. Passeio. In: SABINO, Fernando. A companheira de viagem: contos e crônicas. Rio de Janeiro: Record, 1965. pp. 7-15.
_________________ Passeio. In: SABINO, Fernando. Obra reunida. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. v. 2, pp. 11-15.
TRISTÃO, Talita Carlos. As crônicas de Fernando Sabino: “Poesia de observação”. 2013. 106 p. (Dissertação – Mestrado em Letras). Universidade Vale do Rio Verde – UNINCOR – Três Corações – MG


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