quarta-feira, 28 de outubro de 2026

CHUVA

Por Danilo Gomes


Transcrevemos a crônica "CHUVA", publicada no livro Augusto Frederico Schmidt, Juscelino Kubitschek e Odilon Behrens, impresso em Brasília pela Gráfica e Editora Ideal, 2017, pp. 35-40. 
"A chuva é bela, na música e no formato. E, acima de tudo, porque é água. A água é bela."
                     (Antônio Maria, na crônica "Notas da chuva".) 

 
A casa se situava na Praça dos Bandeirantes, que depois se tornou Avenida Salvador Furtado, nome do bandeirante paulista que fundou Mariana, à frente de sua tropa, em 1696. Essa praça ficava no Jardim do Meio. Tínhamos também o Jardim de Cima, na Praça Gomes Freire, e o Jardim de Baixo, na Praça da Estação. 
 
Meu pai Daniel construiu a casa para se casar com minha mãe Dorita, em 1938. Havia um pequeno alpendre. Alpendre: palavra hoje em desuso e de etimologia fincada na língua árabe: como algarismo, álgebra, armazém (em espanhol almacén), algazarra, alarido, alaúza, almoxarifado, alambique, almirante, etc. 
 
Tínhamos um pequeno jardim, à frente do alpendre. Esse jardim era o xodó da nossa empregada “Baía”, corruptela infantil de Maria, Maria Augusta Borges, nascida no distrito de Acaiaca. 
 
Ali os três primeiros filhos do casal viviam a aurora de sua existência, por assim dizer: Danilo, Duílio e Darcílio. Infância comum aos meninos daquele tempo: décadas de 1940, 1950. Depois é que viriam os outros filhos: Daniel, Djalma e Maria de Fátima. 
 
O que marcou bastante aquele tempo foi a chuva, foram as chuvas torrenciais, os ditos temporais. Trovões e relâmpagos eram o presságio dos torós que viriam, no meio daquelas montanhas chamadas alterosas pelos poetas. 
 
Manhã de chuva. Mal dava para sair de casa. Não havia capa, galocha e guarda-chuva que aguentassem. A chuva rompeu tarde adentro. Céu plúmbeo, pesado, raios despencando. A chuva redobrava, o Ribeirão do Carmo vazava. 
 
Primeira ordem unida contra os raios: não tocar em garfos, facas, colheres, nada que atraísse cargas elétricas vindas do espaço carregado. Palmas de Santa Rita pela casa, em meio a certa aflição. E o aguaceiro descendo. E as invocações hagiológicas:
 
— São Jerônimo! Santa Bárbara! Proteção garantida. 
 
— É chuva pra três dias! Chuva de invernada! – alguém dizia, benzendo-se. 
 
Todo mundo ficava meio ilhado em casa, no meio do “temporal medonho”, como era a voz corrente. Seria um dia de semana? Um sábado? O pai viria depressa do cartório, para proteger sua gente? 
 
E o tempo passou. A infância ficou nas fotografias em preto e branco, em sépia. Na memória dos bons e maus momentos. Na brisa de montanha que ainda sopra da aurora da vida. 
 
* * * 
 
Já então nas garras da adolescência e da mocidade, eu sentia no descer da chuva uma certa melancolia, um estado de alma que soube chamar-se “spleen” (como então se dizia). Era uma associação das lembranças da infância com as impressões de leitura dos livros de memórias do grande poeta carioca Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). Afora os livros de poesia, seus livros memorialísticos são As florestas, O galo branco e Paisagens e seres. 
 
Augusto Frederico Schmidt - Crédito: Wikipedia

 
Schmidt foi um paradigma do melancólico, do saudosista, do nostálgico incurável. O poeta escreveu:
“As horas de maior felicidade de minha vida foram algumas passadas durante a infância. Quando a chuva, por exemplo, invadia a Rua Araújo Leitão, impedia que fôssemos ao colégio e nos permitia atirar na água barrenta os frágeis barcos de papel — aí então eu era feliz. E havia, também, de noite, pouco antes da hora de dormir — nessa mesma rua — um certo vendedor de broas de milho quentes, a quem esperávamos com impaciência.”
Outro trecho do poeta, editor, empresário, assessor e redator do Presidente JK e futuro embaixador na ONU:
“Hoje chove sobre meu campo-santo de São João Batista. Não é estranho nem desconhecido o São João Batista. A chuva transforma todos os cemitérios do mundo em irmãos do cemitério de Lofoten.”
E mais isto:
“Saudade de coisas perdidas, de objetos do passado, de velhos móveis, de ruas antigas por onde não mais passarei talvez. Saudade de amigos mortos, de amigos de infância, que não reverei. (...) Saudade do que não fui, de tudo o que desejava ter sido e não fui. Dos sonhos, das ilusões, do desejo de conforto modesto e de paz que não me coube. Saudade dos filhos que não tive.”
E, para encerrar esse interregno schmidtiano, uma frase sua que no momento não encontro em seus livros e que deve estar em As florestas: “Chove sobre esse passado.” 
 
O passado é, muitas vezes, um feliz tempo de aurora e de luz, e às vezes é também um tempo chuvoso, carregado de vívidas lembranças, que nos acalentarão para sempre, como uma chuva antiga batendo numa velha janela de Mariana.
 
 
II. BREVE ANÁLISE LITERÁRIA da crônica memorialística de Danilo Gomes por Francisco José dos Santos Braga 
 
 
A crônica “Chuva”, de Danilo Gomes, destaca-se como um exemplar clássico da crônica memorialística e lírica brasileira. O tema central da crônica é o retorno à infância e ao passado por meio do estímulo sensorial da chuva. O autor utiliza o clima chuvoso como um portal temporal, conectando o presente urbano e maduro à quietude e às lembranças de sua terra natal, Mariana (MG), evidenciando falas e expressões antigas dos mais velhos (como “chuva de invernada”, “chuva pra três dias” e “chuva antiga batendo numa velha janela de Mariana”).
Na primeira parte da crônica, Gomes explora o tempo psicológico: a desaceleração do tempo infantil que a chuva provocava, convidando o leitor a olhar para dentro, para o aconchego do lar e o som ambiente.
Fiel à melhor tradição da crônica mineira, o texto é marcado por uma linguagem despretensiosa, fluida e de forte frescor poético. Há uma valorização extrema das coisas simples e corriqueiras — o barulho das gotas no telhado, o cheiro de terra molhada e obrigação do recolhimento —, transformando o evento meteorológico em pura poesia visual e afetiva.
Na segunda parte da crônica, Gomes introduz as suas novas fases do tempo cronológico (adolescência e mocidade), conectando o clima cinzento e reflexivo da chuva à própria essência da obra de Augusto Frederico Schmidt, que se destacou na segunda geração do Modernismo brasileiro. A chuva deixa de ser apenas uma lembrança da infância mineira e passa a ser a moldura perfeita para sintonizar com o sentimento de vazio e finitude que o autor fluminense tão bem cantava. Na prosa poética de Schmidt, há não só um tom lírico, melancólico e metafísico, mas também muito focado nas perdas cotidianas e Gomes usa a sua figura como um 
“interlocutor invisível” enquanto observa o mundo do outro lado da janela.O ambiente criado reflete o ritmo da obra deste: longo, cadenciado, que convida à introspecção e ao isolamento.
Na visão poética e existencial de Augusto Frederico Schmidt, ecoada por Danilo Gomes na crônica, destaca-se o da irmandade dos cemitérios, para quem todos os cemitérios do mundo se tornam 
“irmãos” desde o remoto cemitério das ilhas Lofoten (no norte da Noruega), através da universalidade da solidão, do esquecimento e do abandono, até à necrópole de São João Batista no Rio, onde aliás estão  sepultados os seus restos mortais desde 1965.  
 
 
III. BIBLIOGRAFIA
 
GOMES, Danilo:  Augusto Frederico Schmidt, Juscelino Kubitschek e Odilon Behrens, Brasília: Gráfica e Editora Ideal, 2017, 95 p.
 

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