domingo, 11 de outubro de 2026

CRÔNICAS DE PIRENÓPOLIS

Por JOSÉ MENDONÇA TELES *

Transcrevemos duas crônicas do livro Crônicas de Pirenópolis, publicado em Goiânia pela Ed. Kelps, 2009, 121 p. Do livro serão reproduzidas as páginas 41-42 e 75-76.
Desse livro reproduzimos as crônicas intituladas O livro de minha mãe e Sesta na Quinta, publicadas originalmente no jornal pirepolitano O Popular, respectivamente em 02/08/2006 e 26/02/2004.

 

José Mendonça Teles (✰ Hidrolândia (GO) em 1936 ✞ Rio em 2018)

 

I. TEXTOS 

O LIVRO DE MINHA MÃE 

Com o falecimento do meu pai, em 1977, minha mãe foi morar na casinha que construí para ela, no quintal de minha casa. Nessa época, ela tinha 66 anos, boa saúde e disposição para caminhar, pois vira e mexe, cadê dona Celuta? — Foi à igreja, foi à casa de uma parenta e assim ela ia passando os dias. Ali, no cantinho, cercada de filhos e netos, ela viveu 18 anos. Sua tarefa diária era cozinhar, costurar, tocar bandolim, ler romances e rezar. Como rezava, dona Celuta! 
Ela mesma fazia sua comida, quanto à costura ela ia produzindo roupinhas para crianças de colchas de retalhos para, na véspera do Natal, distribuir às creches. Tinha seu oratório de santas, diante do qual ela se ajoelhava e rezava, com velas acesas, pedindo proteção para sua família. Com o passar dos anos, foram surgindo as complicações da velhice, a saúde um pouco debilitada, o que a obrigava ficar mais tempo em casa. 
Foi aí que tive a ideia de passar a ela um caderno e uma caneta com o pedido de que escrevesse o que viesse à cabeça. Ela levou a sério o meu pedido, pois toda hora que eu ia à sua casinha, a encontrava escrevendo. Estávamos no ano de 1991, ela completaria 80 anos, quando me devolveu o caderno com todas as folhas preenchidas, com letras bem legíveis, dizendo que eu o lesse e não mostrasse para ninguém.  — Eram umas rememorações de seu tempo de menina, em Pirenópolis, disse-me ela. Li suas reminiscências num supetão, já com a decisão de publicá-las, em livro, para a comemoração de seus 80 anos que se aproximava. E na festa, a surpresa: ela autografando para todos os presentes seu livro História da Menina de Pirenópolis. 
Entusiasmada com o sucesso familiar de seu livrinho, que mereceu uma segunda edição, minha mãe pediu mais cadernos e quando ela faleceu, 11 de maio de 1995, deixou um caderno com 200 páginas manuscritas, contando sua vida de casada, outro caderno registrando as histórias que ela ouviu contar quando menina e mais outros contendo orações e as letras das canções de seu tempo, valsas e modinhas, principalmente. 
Minha mãe faleceu em maio de 1995, mas a memória de seu casamento com meu pai, João Alves Teles — quase 50 anos de amor aos filhos, resignação, sofrimento, fé em Deus, paixão e turbulências conjugais — é narrada em seu livro Minha Vida de Casada (Edições Galo Branco, Rio de Janeiro), com carinhoso prefácio da escritora e crítica literária Darcy França Denófrio, que, afirmando ser o livro a história de todas as mulheres de seu tempo, sentencia: "Por seu notável substrato humano, interessa a qualquer um. Mas, de modo especial, às mulheres". 
Ilustrado com fotografias familiares e notas explicativas deste cronista e do seu irmão Gilberto, o livro não se encontra à venda. Está sendo distribuído às instituições culturais e pessoas amigas.

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SESTA NA QUINTA 
 
Na segunda, terça e quarta estou na Quinta, tirando minha sesta. Isto mesmo, estou aqui no Condomínio Quinta Santa Barbara, em Pirenópolis, terra de minha mãe, onde levantei meu ranchinho beira-chão, abri a gaiola de minha sensibilidade e me enturmei com os passarinhos. Eu, menino passarinho, passo-preto, bem-te-vi, rolinha fogo-pagô, curicaca, periquito, uma infinidade de pássaros voando no universo de meus olhos. Ah, e os animais passando?
“Reza cutia/ de noite e de dia/ pai e nosso com ave-maria".”
É ela mesma, arrisca, corre pra matinha, parece uma paca, eu na paquera, paquerando a macaquinha trepando (ó mente suja) nas árvores, pulando de galho em galho. Onde estou mesmo? Tirando minha sesta, aqui na Quinta, encostada na Igreja do Bonfim e de grito da Igreja do Rosário. Cinco minutos de carro do condomínio do prefeito de Goiânia, Pedro Wilson, e quinze da fazenda do governador Marconi. Como se vê, não estou em Goiânia, mas estou no centro do poder. 
Enquanto isso, o telefone na minha casa, em Goiânia, não para de tocar – Cadê ele? Tem reunião no Conselho de Cultura, na Academia, no Instituto Histórico. Ele me prometeu um prefácio. Onde ele está tem telefone? A senhora não sabe se ele já leu meu livro? Amanhã é o lançamento, lá na Fundação Jaime Câmara, ele está sabendo, vai fazer a apresentação. O casamento é no próximo sábado, a presença dele é importante. Será que ele pode fazer uma palestra aqui na Faculdade? Mais ele falou que vinha pra reunião. Quando que ele volta? Vou deixar aí os originais do meu livro Alma Minha (com cacófono e tudo) para ele dar uma olhada e fazer a “orelha”. Ufa, mais de 80 telefonadas por dia! 
Aqui na Quinta, vou tirando minha sesta, ouvindo o cantar da galinha d’água (três potes, três potes) e vendo os patos, inúmeros alimentando o seu viver patológico. O telefone, ali no canto, mudinho, o silêncio aconchegando-se à solidão, e Pirenópolis do tamanho de mim. Interno-me em seu passado, converso com Jarbas Jayme e seu filho José Sizenando, que me contam tudo sobre a casa de Deus, dos homens e dos mortos. Vou à fazenda Babilônia para conhecer Joaquim Alves de Oliveira, o fundador do primeiro jornal goiano, A Matutina Meiapontense, o homem mais rico de Goiás, que emprestava dinheiro para o governo pagar o funcionalismo. Retorno, passo na casa de minha avó, na Rua Direita, veja quem encontro lá, o nosso parente, Tonico do Padre, o grande maestro e compositor meiapontense, autor do Hino do Divino, e da Sinfonia dos Sapos! 
Vou dar uma paradinha, descer da rede, desligar a engrenagem dos sonhos, porque acaba de chegar em minha casa o notável santeiro e dentista Clemente Maciel, que veio me presentear com uma bela e grande imagem de São José, meu protetor, que será devidamente entronizada no altar de minha fé, para me livrar de todos males, prefácios e orelhas também, amém! 
 
* Advogado, professor, escritor, poeta, historiador e pesquisador da cultura goiana, tornou-se uma das figuras mais influentes na construção da identidade literária e historiográfica do Estado. De formação jurídica e de espírito profundamente humanista, José Mendonça Teles desenvolveu ao longo de sua trajetória uma obra consistente, marcada pela atenção à história de Goiás, ao folclore, à memória regional e à poesia. Sua escrita alcançou reconhecimento nacional e consolidou seu nome entre os maiores intelectuais do Centro-Oeste. Foi autor de dezenas de livros em diversas áreas — literatura, história, crítica, ensaio e textos institucionais — e manteve atuação destacada na vida cultural de Goiás. Exerceu funções importantes, como presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) por 12 anos e presidente da Academia Goiana de Letras (AGL) por 10 anos, instituições das quais foi membro ativo e referência intelectual. Também foi Secretário de Cultura de Goiânia, contribuindo para políticas culturais e preservação da memória local. Entre suas realizações mais conhecidas, destaca-se a autoria da letra oficial do Hino do Estado de Goiás, vigente desde 2001, obra que eternizou sua contribuição à identidade simbólica do povo goiano. No âmbito das academias literárias, além de sua atuação na AGL — onde ocupou a Cadeira 32 — José Mendonça Teles também foi reconhecido na Academia de Letras e Artes do Planalto (ALAP), tornando-se Segundo Titular da Cadeira nº 1, posição que reforça sua importância para a literatura, para o pensamento regional e para o patrimônio intelectual do Planalto Central.
(Crédito: Perfil do acadêmico José Mendonça Teles no site da ALAP)
 
II. BREVE ANÁLISE das duas crônicas 
 
O livro Crônicas de Pirenópolis, de José Mendonça Teles, é uma obra profundamente marcada pelo memorialismo e pelo lirismo regionalista. Nas crônicas "O livro de minha mãe" e "Sesta na Quinta", o autor resgata a identidade de sua terra natal através do afeto familiar e da contemplação do cotidiano interiorano. 
Em "O livro de minha mãe", resgata a figura materna como guardiã da memória e do patrimônio afetivo. A sua temática é o afeto familiar, a ancestralidade e o livro como metáfora de um legado de vida.
Como aspectos literários, podemos identificar o tom como de profunda reverência e nostalgia. A mãe não representa apenas a genitora, mas o próprio elo do cronista com o passado de Pirenópolis. A escrita evoca sentimentos de acolhimento, transformando as lembranças pessoais em uma herança universal sobre o amor e o tempo.
Em "Sesta na Quinta", o foco desloca-se para a atmosfera pacífica e a rotina bucólica da cidade ou das antigas propriedades rurais da região. A sua temática é o ócio contemplativo, a desaceleração do tempo e a íntima comunhão com a natureza e o espaço doméstico (a "quinta" ou quintal).
Como aspectos literários, citamos as descrições sensoriais — o silêncio que convida ao descanso (a sesta), o calor do interior e a calmaria típica das cidades goianas de outrora. O tempo cronológico dá lugar ao tempo psicológico, focado na percepção do momento presente, após uma curta mirada no mundo de suas memórias pirenopolitanas.

Em suma, as duas crônicas funcionam como duas faces da mesma moeda memorialista de Teles: enquanto uma busca as raízes da identidade no afeto e na ancestralidade humana, a outra encontra o mesmo refúgio na paz do cenário geográfico e cultural de Pirenópolis. 
 
 
III. PEQUENA BIBLIOGRAFIA constante de minha pequena biblioteca sobre Pirenópolis 
 
JAYME, Jarbas: Famílias Pirenopolinas (Ensaios genealógicos), Goiânia: Ed. Rio Bonito/Ed. UFG, 1ª edição póstuma, 1973, 5 vol., 2.136 p.
 
_____________: Esboço Histórico de Pirenópolis, Goiânia: Ed. UFG, 1971, 2 vol., 624 p.
 
JAYME, José Sisenando: Goiás - Humorismo e Folclore, Brasília: Centro Gráfico do Senado Federal,  2ª edição, 1990, 320 p.
 
_____________________: Origem da Família Fleuri, Brasília: Centro Gráfico do Senado Federal, 1990, 264 p.
 
JAYME, Jarbas e José Sisenando: Pirenópolis: Casas de Deus, Casas dos Mortos e Casas dos Homens, Goiânia: Univerdade Católica de Goiás, 2002, 315 p.
 
REVISTA MEYA PONTE, publicada pela Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música, ano II, nº 4, jan/abr 1999, 182 p.; ano V, nº 14, mai/ago 2002 
 

3 comentários:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
Estou compartilhando os textos das crônicas "O livro de minha mãe" e "Sesta na Quinta", escritas por JOSÉ MENDONÇA TELES e integrantes da obra Crônicas de Pirenópolis.
Junto aos textos, incluo também uma breve análise literária que elaborei. Nela, busco traçar um paralelo entre ambas as narrativas, destacando como o autor articula a estética do acolhimento, o memorialismo e a profunda identidade com o cenário pirenopolino através do afeto familiar e da contemplação.

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/10/cronicas-de-pirenopolis.html

Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei

Francisco José dos Santos Braga disse...

Pedro Rogério Moreira (jornalista e sócio da Gracián Telecom, cronista e memorialista brasileiro) disse...

Obrigado, Mestre.

Francisco José dos Santos Braga disse...

Geraldo Reis (poeta, autor de Pastoral de Minas (1981), membro da Academia Marianense de Letras e gerente do Blog O Ser Sensível) disse...

Obrigado, Braga, pela atenção e carinho que dispensa aos amigos e às coisas do coração. Temos, na lembrança, a imagem viva do Gilberto Mendonça Teles, irmão do José Mendonça Teles. Ambos, na expressão do G. ROSA, "estão no Deus". Apesar do legado que deixaram, é certo que, fisicamente, fazem falta.