Por STEFAN ZWEIG (1881-1942)
I. INTRODUÇÃO PREPARATÓRIA do conteúdo do Capítulo IV - Universitas Vitae ¹ até o ponto em que ocorre o encontro com Theodor Herzl
Antes de transcrever o texto contendo a íntegra dos pormenores do encontro, é preciso contextualizar o leitor sobre o momento exato da narrativa.
O encontro de Stefan Zweig com Theodor Herzl é apresentado no quarto capítulo intitulado "Universitas Vitae" de suas memórias, na obra de 1942: O Mundo de Ontem ² (ou O Mundo que eu Vi). Na
fala de Stefan Zweig, a expressão latina Universitas Vitae significa
literalmente "A Universidade da Vida". Ao intitular o quarto capítulo de
sua autobiografia com esse termo, Zweig faz um jogo de palavras irônico
e filosófico para contrastar o ensino institucionalizado com o
aprendizado real. Para o autor, o verdadeiro conhecimento não estava
dentro das paredes da universidade tradicional (Universitas Litterarum),
mas sim na vivência direta com o mundo.
Stefan Zweig, então com 19 anos, narra o período de transição após concluir o ensino secundário rígido e ingressar na Universidade de Viena. Longe de encarar a faculdade com rigor acadêmico tradicional, Zweig e seus contemporâneos viam o status de estudante universitário com o romantismo de uma "liberdade conquistada", aproveitando os privilégios sociais e a autonomia que a vida acadêmica proporcionava na Áustria da virada do século.
Ele próprio relata que
“o verdadeiro critério para a minha escolha não foi procurar o curso que mais trabalho me desse, e sim o que mo desse menos e me concedesse o máximo de tempo e de liberdade para o que eu tinha verdadeiro pendor. Afinal me decidi pela filosofia, ou melhor, pela filosofia "exata", como em nossa terra se dizia de acordo com o esquema antigo, porém, deveras não o fiz por vocação, pois minhas aptidões para o pensar puramente abstrato são pequenas.”
Em vez de se fechar nas salas de aula, Zweig passa a frequentar os cafés e os círculos intelectuais de Viena, onde a verdadeira "universidade da vida" se desenrolava. É nesse ambiente de efervescência cultural e paixão pela literatura que ele reúne coragem para dar seus primeiros passos como autor.
Após publicar de forma independente sua primeira coletânea de poesias, Cordas de Prata (Silberne Saiten), publicada pela editora que então era a mais representativa para a poesia lírica alemã, a Schuster & Löffler, a editora das obras de Liliencron, Dehml, Bierbaum, Mombert, Rilke e Hofmannsthal. A sua maior surpresa, porém, foi o fato de os compositores Max Reger e Richard Strauss terem se dirigido a ele a fim de pedir permissão para fazer arranjo musical para seis poemas de sua coletânea.
O jovem escritor decide arriscar um salto maior: enviar um texto em prosa para o jornal de maior prestígio e influência da Europa Central na época, a Neue Freie Presse.
O caderno de cultura e folhetim (feuilleton) desse influente diário era comandado por uma figura magnética que exercia um papel duplo fascinante na Viena daquela época: era respeitado como um brilhante jornalista e homem de letras, ao mesmo tempo em que chocava a burguesia judaica assimilada ao emergir como o líder e idealizador do movimento sionista moderno e que Zweig passa a descrever.
¹ Na
fala de Stefan Zweig, a expressão latina Universitas Vitae significa
literalmente "A Universidade da Vida". Ao intitular o quarto capítulo de
sua autobiografia com esse termo, Zweig faz um jogo de palavras irônico
e filosófico para contrastar o ensino institucionalizado com o
aprendizado real. Para o autor, o verdadeiro conhecimento não estava
dentro das paredes da universidade tradicional (Universitas Litterarum),
mas sim na vivência direta com o mundo. (Nota do gerente do blog)
² A obra, finalizada em 1941, foi publicada de forma póstuma na Suécia, por uma editora voltada para a chamada Exilliteratur (literatura de exílio). Stefan Zweig concluiu e enviou o manuscrito datilografado para a editora apenas um dia antes de cometer suicídio com sua esposa, Lotte Altmann, em Petrópolis, em fevereiro de 1942. No ano seguinte, em abril de 1943, o livro ganhou sua primeira edição em inglês pela Viking Press.
No Brasil, o lançamento ocorreu logo após a morte do autor, por meio da Editora Guanabara, sediada no Rio de Janeiro. Posteriormente, essa mesma tradução icônica de Odilon Gallotti foi integrada ao Volume 15 das Obras Completas de Stefan Zweig, publicadas pela Editora Delta nos anos 1950. Esta última é a que estou utilizando no texto a seguir, levemente modificada em alguns poucos trechos considerados incompreensíveis. Acho que houve certa precipitação para a publicação da obra no Brasil, o que comprometeu a perfeição desejada para a tradução de uma obra de tal relevo e importância. Para essas poucas alterações, baseei-me em Le Monde d'Hier (1948), a partir da tradução de Jean-Paul Zimmermann (pp. 123-137, mencionada na Bibliografia). (Nota do gerente do blog)
II. TEXTO sobre o encontro de Zweig com Theodor Herzl
Esses aplausos inesperados, que eram acompanhados de críticas públicas favoráveis, animaram-me a dar um passo que eu, pela minha insanável falta de confiança em mim, jamais teria dado, ou ao menos, não o teria feito tão cedo. Ainda ginasiano, publicara, além de poesias, pequenas novelas e ensaios nas revistas literárias da “Moderna” ³, nunca, porém, me atrevera a mandar uma dessas tentativas para uma revista importante e de grande circulação. Em Viena verdadeiramente só existia um órgão de publicidade de nível elevado, a “Neue Freie Press” ⁴, que, por sua atitude nobre, seu empenho em prol da cultura e seu prestígio político, era para toda a Áustria-Hungria o mesmo que o “Times” para o mundo inglês e o “Le Temps” para o mundo francês; mesmo nenhum dos jornais da Alemanha diligenciava tanto um nível cultural representativo. Seu redator, Maurício Benedikt, homem de fenomenal capacidade de organização e infatigável operosidade, empenhava toda sua energia, verdadeiramente demoníaca, para conseguir que o seu jornal no domínio da literatura e da cultura sobrepujasse todos os jornais alemães. Quando desejava de um autor de nomeada alguma coisa, não olhava despesas, enviava-lhe dez ou vinte telegramas, concedia-lhe de antemão qualquer remuneração. O número do Natal e o do dia do Ano Bom com seus suplementos literários constituíam grandes volumes, que tinha a colaboração dos maiores nomes da época; Anatole France, Gerhardt Hauptmann, Ibsen, Zola, Strindberg e Shaw nessa ocasião achavam-se reunidos nessa folha, que fez muitíssimo pela orientação literária de Viena e do país inteiro. Evidentemente “progressista” e liberal, esse jornal, em sua maneira modelar, representava o elevado padrão cultural da Áustria antiga.
Esse templo do “progresso” possuía um santuário especial, o folhetim, que, como o dos grandes diários parisienses “Le Temps” e o “Journal des Débats”, publicava os trabalhos mais substanciais e perfeitos sobre poesia, teatro, música e arte, nitidamente separados das coisas efêmeras da política e da vida diária. Nesse folhetim só podiam escrever as autoridades, os que, já havia muito, tinham dado provas de competência. Somente a solidez das opiniões, a experiência comparativa de muitos anos e a forma artística perfeita podiam colocar nesse santo lugar um autor após anos de prova de capacidade. Ludwig Speidel, mestre da descrição das minúcias, e Eduard Hanslick nesse jornal tinham em assuntos de teatro e de música autoridade papal idêntica à de Saint-Beuve em Paris nos seus “Lundis”; o seu sim ou o seu não decidiam para Viena o êxito de uma obra, de uma peça teatral, de um livro, e com isso, muitas vezes, o de uma pessoa. Cada um desses artigos constituía o assunto do dia para os círculos ilustrados, era discutido, criticado, admirado ou combatido, e a aparição de um nome novo na série dos folhetinistas desde muito reputados era um acontecimento. Da geração mais nova só Hofmannsthal com alguns dos seus magníficos trabalhos encontrava às vezes acolhida nesse folhetim; de ordinário os autores jovens tinham de se contentar com a penetração feita discretamente na página literária, uma das últimas do jornal. Quem escrevia na primeira página, tinha para Viena seu nome gravado em mármore.
Hoje já não posso compreender como tive coragem de oferecer um pequeno trabalho poético ao jornal “Neue Freie Presse”, o oráculo de meus antepassados e o domicílio dos sete vezes consagrados. Mas afinal de contas o mais que poderia acontecer-me era não aceitarem a minha oferta. O redator do folhetim só recebia uma vez por semana, entre as duas e três horas, pois graças ao turno regular dos colaboradores célebres e fixos, só mui raramente havia espaço para o trabalho de um estranho. Não foi sem palpitações que subi a pequena escada de caracol que levava à redação, e me fiz anunciar. Passados alguns minutos, voltou o porteiro, avisou-me que o redator do folhetim dissera que eu podia entrar e penetrei na pequena sala.
Esse templo do “progresso” possuía um santuário especial, o folhetim, que, como o dos grandes diários parisienses “Le Temps” e o “Journal des Débats”, publicava os trabalhos mais substanciais e perfeitos sobre poesia, teatro, música e arte, nitidamente separados das coisas efêmeras da política e da vida diária. Nesse folhetim só podiam escrever as autoridades, os que, já havia muito, tinham dado provas de competência. Somente a solidez das opiniões, a experiência comparativa de muitos anos e a forma artística perfeita podiam colocar nesse santo lugar um autor após anos de prova de capacidade. Ludwig Speidel, mestre da descrição das minúcias, e Eduard Hanslick nesse jornal tinham em assuntos de teatro e de música autoridade papal idêntica à de Saint-Beuve em Paris nos seus “Lundis”; o seu sim ou o seu não decidiam para Viena o êxito de uma obra, de uma peça teatral, de um livro, e com isso, muitas vezes, o de uma pessoa. Cada um desses artigos constituía o assunto do dia para os círculos ilustrados, era discutido, criticado, admirado ou combatido, e a aparição de um nome novo na série dos folhetinistas desde muito reputados era um acontecimento. Da geração mais nova só Hofmannsthal com alguns dos seus magníficos trabalhos encontrava às vezes acolhida nesse folhetim; de ordinário os autores jovens tinham de se contentar com a penetração feita discretamente na página literária, uma das últimas do jornal. Quem escrevia na primeira página, tinha para Viena seu nome gravado em mármore.
Hoje já não posso compreender como tive coragem de oferecer um pequeno trabalho poético ao jornal “Neue Freie Presse”, o oráculo de meus antepassados e o domicílio dos sete vezes consagrados. Mas afinal de contas o mais que poderia acontecer-me era não aceitarem a minha oferta. O redator do folhetim só recebia uma vez por semana, entre as duas e três horas, pois graças ao turno regular dos colaboradores célebres e fixos, só mui raramente havia espaço para o trabalho de um estranho. Não foi sem palpitações que subi a pequena escada de caracol que levava à redação, e me fiz anunciar. Passados alguns minutos, voltou o porteiro, avisou-me que o redator do folhetim dissera que eu podia entrar e penetrei na pequena sala.
³ Denominação para as orientações novas da poesia e da arte, mais ou menos desde o começo do Naturalismo por volta de 1890. (N. do T.).
⁴ Neue Freie Presse - Nova Imprensa Livre (N. do T.).
* * *
O redator do folhetim da “Neue Freie Press” chamava-se Theodor Herzl e foi o primeiro homem de importância histórica diante do qual vi — sem saber, é verdade, que enorme mudança sua pessoa iria determinar no destino do povo judeu e na história da nossa época. Sua posição, nesse tempo, ainda não estava bem definida. Ele começara com tentativas poéticas, revelara cedo um talento jornalístico fascinante e se tornara predileto do público vienense, primeiramente como correspondente em Paris e depois como folhetinista da “Neue Freie Press”. Seus artigos, ainda hoje encantadores pela sua riqueza em observações penetrantes e, muitas vêzes, sábias, pela graça do seu estilo, pelo seu encanto nobre, que, mesmo nas críticas e nas coisas alegres, nunca perdia a nobreza inata, eram o que de mais apurado se podia conceber no jornalismo, e o fascínio de uma cidade que havia cultivado o senso para o que é sutil. Também no Burgtheater Herzl lograra êxito feliz com uma peça; era nessa ocasião um homem estimado, idolatrado pela mocidade, respeitado por nossos pais, até que um dia se deu o que não se esperava. O destino sabe sempre achar um caminho a fim de buscar para si a pessoa de que precisa para seus desígnios secretos, mesmo que ela se queira esconder.
Theodor Herzl tivera em Paris um fato que lhe abalara a alma, uma dessas horas que modificam uma existência inteira: como correspondente assistira à degradação pública de Alfred Dreyfus, vira arrancarem-lhe as dragonas enquanto o infeliz exclamava: “Estou inocente”. Sabia seguramente naquele momento que Dreyfus estava inocente e que sobre ele pesava essa horrenda suspeita de traição, só porque ele era judeu. Theodor Herzl em sua altivez varonil e firme quando estudante já sofrera a sina dos judeus, ou melhor, graças a seu instinto profético já sofrera esta sina numa época em que ela quase não parecia ser uma sina funesta. Com o sentimento de haver nascido para chefe, sentimento a que lhe dava direito tanto sua aparência vistosa e imponente como a elevação do seu pensar e o seu conhecimento do mundo, concebera então o plano fantástico de resolver de uma vez para sempre o problema do judaísmo, propondo que esse espontaneamente se unisse ao cristianismo por um batismo em massa. Pensando sempre dramaticamente, imaginara como conduziria num grande préstito os milhares de judeus da Áustria à catedral de Santo Estêvão, a fim de ali, num ato modelarmente simbólico, libertar para sempre da maldição da segregação e do ódio o povo escorraçado e sem pátria. Dentro em pouco reconhecera a inexequibilidade desse plano. Muitos anos de outras atividades haviam-no desviado do problema principal de sua vida, cuja “solução” considerava sua verdadeira tarefa; no momento da degradação de Dreyfus, porém, a idéia da eterna proscrição do seu povo penetrou-lhe no peito como se fôra um punhal. Se a segregação é inevitável, disse ele de si para si, que seja então completa! Se o nosso fado é sempre humilhação, enfrentemo-lo com altivez; se sofremos de falta de pátria, criemos uma pátria para nós. Por isso publicou sua brochura “O Estado dos Judeus”, na qual proclamou que toda igualação assimiladora e toda esperança de uma completa tolerância seriam impossíveis para o povo judeu e que seria necessário fundar uma pátria nova, uma pátria própria na velha pátria, a Palestina.
Quando essa brochura pequena, porém provida da força de uma seta de aço em vôo, apareceu, eu ainda estava no ginásio, mas recordo-me bem da perplexidade e indignação gerais que causou nos círculos burgueses judaicos de Viena: “Que, perguntavam amuados esses judeus, se meteu na cabeça desse escritor, de ordinário tão sensato, hábil e culto? Que loucuras anda ele praticando e escrevendo? Por que razão devemos ir para a Palestina? O nosso idioma é o alemão e não o hebraico, a nossa pátria é a bela Áustria. Não nos achamos otimamente sob o governo do bom imperador Francisco José? Não temos nossa conveniente prosperidade, nossa situação segura? Não somos cidadãos do Estado com direitos iguais aos dos demais, não somos cidadãos domiciliados e dedicados desta Viena querida? Não vivemos numa época progressista, que em alguns anos há-de pôr de lado todos os preconceitos religiosos? Por que ele, que fala como judeu e quer auxiliar o judaísmo, fornece argumentos aos nossos piores inimigos e tenta segregar-nos quando cada dia nos une mais estreita e intimamente ao mundo alemão?” Os rabinos exaltaram-se nos púlpitos, o diretor da “Neue Freie Press” proibiu que em seu jornal “progressista” se mencionasse sequer a palavra sionismo. O Tersites ⁵ do sarcasmo venenoso, Karl Kraus, escreveu uma brochura “O rei de Sião”, e quando Theodor Herzl entrava no teatro, zombeteiramente se murmurava em todas as filas: “Chegou Sua Majestade”.
No primeiro momento Herzl pôde sentir-se mal compreendido; Viena, onde ele, dada a estima que nela gozava havia muitos anos, se julgava mais seguro, o abandonara ou até se ria dele. Mas, em seguida, retumbou subitamente a resposta com tal violência e êxtase que ele quase se assustou de, com algumas dúzias de páginas, haver provocado no mundo um movimento tão poderoso e de tão grande irradiação. A resposta, sem dúvida, não partiu dos judeus burgueses do Ocidente, que viviam comodamente e tinham boa situação econômica, mas sim das enormes massas judaicas do Oriente, do proletariado dos ghettos da Galícia, da Polônia e da Rússia. Sem pressentir, Herzl com sua brochura inflamou o núcleo do judaísmo que ardia sob as cinzas do estrangeiro, o milenário sonho messiânico da promessa, confirmada nos Livros Sagrados, do regresso à Terra da Promissão — essa esperança e, ao mesmo tempo, certeza religiosa, os únicos sentimentos que ainda tornavam a vida útil para esses milhões de entes espezinhados e escravizados. Sempre que um indivíduo, profeta ou impostor, nos dois mil anos da maldição que pesa sobre o povo judeu, tangeu a corda, a alma de todo esse povo vibrou, porém nunca com tanta intensidade como dessa vez, nunca com ressonância tão ruidosa, tão retumbante. Com algumas dúzias de páginas um só homem havia formado de uma massa dispersa e desunida uma unidade.
Esse primeiro instante, em que a idéia ainda tinha formas indecisas, estava destinado a ser o mais feliz na vida breve de Herzl. Logo que este começou a fixar os objetivos no espaço real, a unir as forças, teve de reconhecer quão heterogêneo se havia tornado esse povo entre os povos e destinos mais diversos, combatendo-se uns aos outros em todas as línguas, aqui os ortodoxos, ali os livres pensadores, acolá os judeus socialistas, mais adiante os capitalistas, e pouco dispostos a sujeitarem-se a uma só autoridade. Em 1901, ano em que pela primeira vez vi Herzl, achava-se ele em plena luta e talvez também em luta consigo próprio; ainda não acreditava suficientemente no bom êxito de sua idéia para abandonar o emprego com que mantinha a si e sua família. Ainda era obrigado a dividir-se entre o pequeno serviço no jornalismo e a tarefa que constituía o ideal de sua vida. Quem então me recebeu ainda foi o Theodor Herzl redator do folhetim.
⁵ O termo Tersites (ou Térsites) possui dois significados principais que se conectam diretamente com o universo literário de Stefan Zweig: o mito grego original e a própria peça teatral escrita por Zweig. Parece, evidentemente, que Zweig usa Tersites na primeira acepção abaixo citada.
1. O Personagem Mitológico (no Canto II da Ilíada, entre os versos 211 e 277)
• Aparência e Postura: É descrito por Homero como o homem mais feio que foi a Tróia — coxo, corcunda, calvo e desajeitado.
• O "Criador de Casos": Em vez de buscar a glória militar, Tersites usava sua oratória ácida para questionar, insultar e ridicularizar os reis e comandantes gregos, especialmente Agamêmnon e Aquiles, acusando-os de ganância e egoísmo. Ele é frequentemente apontado por críticos literários como o "primeiro agitador político" ou demagogo da literatura ocidental.
• Destino: Acabou espancado por Odisseu (Ulisses) para ser calado perante as tropas e, mais tarde, foi morto por Aquiles após zombar do luto do herói pela rainha amazona Pentesileia.
2. A Peça Teatral de Stefan Zweig (Tersites, 1907)
No contexto das obras de Stefan Zweig, Tersites (Tersites. Ein Trauerspiel in drei Aufzügen) é o título da sua primeira peça teatral concluída, publicada em 1907.
• Na tragédia em versos de Zweig, a maldade e o ressentimento de Tersites são transformados em uma espécie de sabedoria dolorosa.
• O autor usa o personagem para expor a brutalidade, a vaidade e a injustiça dos "heróis" perfeitos e vitoriosos (como Aquiles), mostrando como o sofrimento e a rejeição podem refinar a alma de quem o mundo considera feio ou inferior, enquanto o sucesso cega e endurece os vencedores. (Nota do gerente do blog)
• Aparência e Postura: É descrito por Homero como o homem mais feio que foi a Tróia — coxo, corcunda, calvo e desajeitado.
• O "Criador de Casos": Em vez de buscar a glória militar, Tersites usava sua oratória ácida para questionar, insultar e ridicularizar os reis e comandantes gregos, especialmente Agamêmnon e Aquiles, acusando-os de ganância e egoísmo. Ele é frequentemente apontado por críticos literários como o "primeiro agitador político" ou demagogo da literatura ocidental.
• Destino: Acabou espancado por Odisseu (Ulisses) para ser calado perante as tropas e, mais tarde, foi morto por Aquiles após zombar do luto do herói pela rainha amazona Pentesileia.
2. A Peça Teatral de Stefan Zweig (Tersites, 1907)
No contexto das obras de Stefan Zweig, Tersites (Tersites. Ein Trauerspiel in drei Aufzügen) é o título da sua primeira peça teatral concluída, publicada em 1907.
• Na tragédia em versos de Zweig, a maldade e o ressentimento de Tersites são transformados em uma espécie de sabedoria dolorosa.
• O autor usa o personagem para expor a brutalidade, a vaidade e a injustiça dos "heróis" perfeitos e vitoriosos (como Aquiles), mostrando como o sofrimento e a rejeição podem refinar a alma de quem o mundo considera feio ou inferior, enquanto o sucesso cega e endurece os vencedores. (Nota do gerente do blog)
* * *
Theodor Herzl levantou-se para cumprimentar-me, e senti que na expressão chistosa e escarninha “o rei de Sião” existia algo de verdadeiro: de fato, ele com sua fronte alta desassombrada, seus traços bem acentuados, sua barba de sacerdote, longa e muito preta, e seus olhos castanhos escuros e melancólicos, parecia um rei. Os gestos amplos e um tanto teatrais não davam a impressão de serem artificiosos, porque eram condicionados por uma nobreza natural, e não haveria necessidade dessa ocasião especial para ele me parecer importante. Mesmo junto à escrivaninha, já muito usada e cheia de papéis, naquela pequena sala de redação, em que havia uma janela apenas, parecia ele um xeique beduíno; um albornoz branco e flutuante vesti-lo-ia tão naturalmente como seu fraque preto cuidadosamente talhado, evidentemente por figurino parisiense. Após breve pausa, propositadamente feita — ele gostava desses pequenos artifícios, como muitas vezes percebi mais tarde, e certamente os estudara no Burgtheater — estendeu-me a mão condescendentemente e, apesar disso, com toda bondade. Apontando para a cadeira que estava a seu lado, disse: “Creio que já ouvi ou li algures o seu nome. Poesias, não é?” Tive de responder afirmativamente. Repoltreando-se, perguntou: “Então, que me traz?”
Disse-lhe que desejava mostrar-lhe um pequeno trabalho em prosa e passei às suas mãos o manuscrito. Ele olhou o frontispício, folheou o trabalho todo, a fim de verificar a extensão do mesmo, e refestelou-se ainda mais na poltrona. Com surpresa (eu não o esperava) notei que ele já começara a ler o manuscrito. Leu devagar, pondo de parte as folhas, sem erguer o olhar. Depois de lida a última, reuniu-as lentamente, meteu-as cuidadosamente, sempre ainda sem olhar para mim, num envelope e sobre ele escreveu com lápis azul uma nota. Só depois de com essas misteriosas maquinações me haver por bastante tempo mantido em estado de curiosidade, ergueu para mim os olhos, aqueles olhos bonitos, graves e pretos, e disse com solenidade propositada e vagarosa: “Tenho o prazer de poder declarar-lhe que o seu trabalho foi aceito para o folhetim da “Neue Freie Press”. Foi como se Napoleão no campo de batalha pregasse no peito de um jovem sargento a cruz da Legião de Honra.
Esse episódio, à primeira vista, parece pequeno, sem importância. Mas é preciso haver sido vienense, vienense daquela época, para compreender que impulso para cima esse acoroçoamento representava. Com ele, aos dezenove anos, de repente fui elevado a uma posição preeminente, e Theodor Herzl, que desde esse primeiro momento se mostrou meu amigo, aproveitou logo um ensejo casual para, em um dos seus artigos, escrever que não se deveria acreditar numa decadência da arte em Viena. Ao contrário, existia agora, escreveu ele, além de Hofmannsthal, uma série de talentos novos, dos quais se deveriam esperar as melhores produções, e citou em primeiro lugar o meu nome. Sempre considerei especial distinção o ter sido um homem da importância e preeminência de Theodor Herzl o primeiro que publicamente, num lugar de grande projeção e, por isso, cheio de responsabilidade, me protegeu, e foi para mim uma decisão difícil o fato de eu — parecendo ingrato — não me associar ativamente e até como um dos chefes a seu movimento sionista, o que ele desejaria que eu fizesse.
Mas eu não conseguia simpatizar verdadeiramente com esse movimento; causava-me má impressão a maneira desrespeitosa, hoje não mais concebível, com que os correligionários propriamente ditos de Herzl procediam em relação a este. Os judeus orientais declaravam que ele nada entendia do judaísmo, que nem sequer conhecia os costumes deste, os economistas consideravam-no folhetinista, cada qual fazia sua objeção, que nem sempre era das mais respeitosas. Eu sabia quanto precisamente então seriam úteis e necessárias a Herzl pessoas, e sobretudo pessoas jovens. Mas o espírito rixoso e altercador dessa incessante oposição e a falta de subordinação sincera e cordial dessa gente me afastaram do movimento, do qual eu me teria aproximado com curiosidade, só por causa de Herzl. Quando certa vez conversávamos sobre o assunto confessei-lhe abertamente o desagrado que a falta de disciplina em suas fileiras me causava. Ele sorriu um pouco contrafeito e disse: “Não se esqueça de que há séculos estamos habituados a brincar com problemas, a lutar contra ideias. Nós judeus, há dois mil anos, no que se refere à História, não temos o hábito de dar algo de real ao mundo. Precisamos primeiramente aprender a dedicação absoluta e eu próprio até hoje ainda não a aprendi, pois continuo a escrever folhetins de vez em quando e a ser redator do folhetim da "Neue Freie Press", e era de meu dever não pensar senão no nosso problema, não escrever uma linha sobre qualquer outra coisa. Mas já estou em caminho para me corrigir, quero primeiramente aprender eu próprio a dedicação absoluta, e talvez depois os outros também a aprendam". Sei que essas palavras me causaram profunda impressão, pois nem todos compreendiam que Herzl ainda não podia decidir-se a abandonar o seu lugar na "Neue Freie Press". Pensávamos que ele não o abandonava por causa dos encargos com a família. Só muito mais tarde veio o mundo a saber que ele não pensara assim e que sacrificara à causa do judaísmo sua fortuna particular. Quanto essa dissensão do seu espírito o fazia sofrer, fiquei sabendo não só por essa conversa, mas também por muitas notas de seus diários.
Depois ainda o vi várias vezes, de todos os encontros com êle só um ficou inolvidável para mim, talvez porque foi o último. Eu estivera no estrangeiro e não tivera com Viena outra comunicação senão por cartas. Certo dia o encontrei no Parque da Cidade. Evidentemente saíra da redação, caminhava muito devagar e um pouco curvado; seu andar já não era o de outrora, desembaraçado. Saudei-o cortêsmente e quis seguir o meu caminho, mas ele dirigiu-se célere para mim, apertou-me a mão e falou-me: "Por que se oculta? Não tem necessidade de fazê-lo!" Deu muita importância ao fato de eu frequentemente viajar para o estrangeiro. "É nosso único caminho", disse ele. "Tudo o que sei, aprendi no estrangeiro. Só nele nos habituamos a observar de longe. Estou convencido de que aqui nunca eu teria o ânimo para aventar aquela primeira concepção, ter-ma-iam destruído enquanto ela ainda estava germinando e crescendo. Mas, graças a Deus, quando eu a trouxe para aqui, tudo já estava pronto, e não puderam fazer outra coisa senão criticá-la". Queixou-se então amargamente de Viena; nela encontrara os mais fortes obstáculos, e, se não chegassem do exterior, sobretudo do Oriente e nesse momento também da América, novos impulsos, já teria desistido de tudo. "Meu erro", disse ele, “foi haver iniciado tarde demais. Victor Adler aos trinta anos, em seus melhores, em seus verdadeiros anos de luta, se tornou chefe da democracia social, e dos grandes homens da História nem quero falar. Se soubesse como sofro, pensando nos anos perdidos, pensando em que não me entreguei mais cedo à minha tarefa. Se minha saúde se achasse tão boa como a minha vontade, tudo estaria bem, mas anos perdidos não se podem reaver”. Acompanhei-o até a sua morada. Ali chegados, ele parou, estendeu-me a mão e disse: “Por que nunca vem à minha casa? Nunca me visitou em minha residência. Telefone-me antes, que arranjarei tempo para conversarmos”. Prometi-lhe fazê-lo, firmemente resolvido a não cumprir a promessa, pois quanto mais gosto de uma pessoa tanto mais respeito o seu tempo. Estava absolutamente decidido a não ir visitá-lo.
Todavia fui à casa dele e isso fiz apenas poucos meses tarde. A enfermidade que já naquela ocasião começara a curvá-lo, derrubara-o de repente, e só pude acompanhá-lo para o cemitério. Foi um dia fora do comum, um dia de julho, inolvidável para todos os que viram o que nele aconteceu em Viena. Subitamente afluíram a todas as estações de estrada de ferro da cidade, vindas por todos os trens de dia e de noite, chegaram pessoas de todos os países, judeus ocidentais, orientais, russos e turcos, de todas as províncias e cidadezinhas, trazendo ainda no semblante o espanto causado pela notícia; nunca se sentiu mais nitidamente que ali tombara o chefe de um grande movimento, cujo valor as disputas e as rixas não deixaram ser percebido. Foi um cortejo imenso. De repente, Viena notou que morrera não só um escritor ou poeta medíocre, mas sim também um daqueles criadores de ideias que só com imensos intervalos surgem triunfantes num país, num povo. No cemitério originou-se um tumulto; enorme massa de pessoas, aproximou-se subitamente do esquife, chorando, soluçando, num desespero brutal e explosivo, houve quase um acesso de loucura, de furor; toda ordem era rompida por uma espécie de luto elementar e extático como eu nunca vi, nem antes nem depois, por ocasião de um enterro. Por essa dor imensa, irrompida abruptamente do íntimo de um milhão de pessoas, pude, pela primeira vez, avaliar quanto entusiasmo e esperança aquele homem sozinho lançara no mundo mediante a força de seu pensamento.
* * *
A verdadeira importância da minha admissão solene para colaborar no folhetim da “Neue Freie Presse” manifestou-se na minha vida particular. Com essa admissão adquiri uma segurança inesperada diante de minha família. Meus pais ocupavam-se com literatura e não se atreviam a dar opiniões a respeito dela; para eles, como para toda a burguesia vienense, era importante o que era elogiado na “Neue Freie Presse” e não tinha importância o que ali era ignorado ou reprovado. O que estava escrito no folhetim, parecia-lhes garantido pela mais alta autoridade, pois quem ali opinava e orientava, já pela sua simples posição, despertava respeito. Imagine-se agora uma família que com respeito e expectação dirigia diariamente o olhar para a primeira página do seu jornal e certa manhã, descobriu esta coisa incrível: que o rapaz de dezenove anos, bastante desmazelado no vestir, que está sentado à mesa, que na escola de nenhum modo se distinguia e cujos escritos ela com benevolência aceitava como brincadeiras “não perigosas” (em todo caso sempre melhores do que os jogos de carta ou os namoros com meninas levianas), podia tomar a palavra nesse lugar cheio de responsabilidade, entre homens célebres e experimentados, para manifestar suas opiniões. Se eu tivesse escrito as mais belas poesias de Keats, Hölderlin ou Shelley, não teria isso produzido nos que me cercavam tão completa mudança de opinião em relação à minha pessoa. Quando eu chegava ao teatro, os espectadores mostravam uns aos outros o jovem enigmático que de maneira misteriosa penetrara no santuário reservado para as pessoas velhas e venerandas. Como eu freqüentemente e quase regularmente publicava trabalhos no folhetim, incorri em breve no perigo de tornar-me uma pessoa de respeito e de importância na localidade, perigo a que eu, porém, felizmente, me subtraí a tempo, surpreendendo, uma manhã, a meus pais com a comunicação de que queria estudar no semestre seguinte em Berlim. Minha família respeitava demasiado a minha pessoa, ou melhor, a “Neue Freie Presse”, a cuja sombra eu me encontrava, para não deixar de aceder ao meu desejo.
III. BIBLIOGRAFIA adicional sugerida pelo gerente do blog
ALMEIDA, Paulo Roberto de: Stefan Zweig e o país que não chegou ao futuro, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 20/04/2025
BIBLIOTHÈQUE NUMÉRIQUE ROMANDE: Le Monde d'Hier, traduzido do alemão para o francês por Jean-Paul Zimmermann, 1948, 522 p.
CHACON, Vamireh: Tragédia e Equívoco de Stefan Zweig, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 16/09/2026
SCHWAMBORN, Ingrid: Stefan Zweig e suas viagens pelo Brasil, publicado pelo Blog do Braga em 17/01/2018
ZWEIG, Stefan: O mundo insone, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 16/02/2025
_____________: JEAN JAURÈS, o socialista, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 25/04/2025
_____________: O Rio antigo, publicado pelo Blog do Braga em 15/09/2024



Um comentário:
Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...
Prezad@,
Nas páginas 123 a 137 de O MUNDO QUE EU VI (1942), STEFAN ZWEIG relembra seu encontro com Theodor Herzl, editor de cultura do Neue Freie Presse (Nova Imprensa Livre) e idealizador do sionismo moderno. Esse trecho retrata a generosidade de Herzl ao incentivar jovens talentos literários, oferecendo um vislumbre da aura aristocrática e magnética do líder vienense, pouco antes de sua morte. Convido-o a desfrutar da beleza dessas páginas da autoria do autor de Brasil, um País do Futuro.
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/10/encontro-de-stefan-zweig-com-theodor.html
Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei
Postar um comentário