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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Reminiscências de Dr. Tancredo de Almeida Neves em 1944

O Blog de São João del-Rei tem o prazer de hospedar um texto da autoria da são-joanense Celina dos Santos Braga, publicado pela Academia de Letras de São João del-Rei em revista comemorativa do centenário de nascimento do Dr. Tancredo de Almeida Neves, lançada em 28 de dezembro de 2010.

Reminiscências de Dr. Tancredo de Almeida Neves em 1944*

Réminiscences du Dr. Tancredo de Almeida Neves en 1944

Por Celina dos Santos Braga

Francisco Nestor dos Santos (✯ Barroso, 26/02/1900  ✞ São João del-Rei, 06/02/1946)

Francisco Nestor dos Santos, meu pai, natural de Barroso mas são-joanense de coração, foi homem trabalhador, inteligente e dinâmico. Gostava de sua profissão de eletricista e dedicava-se com amor a suas tarefas, a ponto de carregar a escada nos ombros para desempenhar seu trabalho. É claro que fazia isso e muitos outros exageros por não haver ainda a proteção do trabalhador em seu local de trabalho, como hoje.

Como era pessoa correta, teve a sorte de encontrar-se, à porta da estação ferroviária da E.F.O.M.- Estrada de Ferro Oeste de Minas, com um espanhol de nome João Sanchez Robles que procurava algum sócio para abrir um ferro-velho, o primeiro em São João del-Rei. Foi assim que, tendo aceito o convite, trabalhou, se dedicou à nova profissão e se enriqueceu com honestidade.

Exercendo seu trabalho como eletricista, era comunicativo e se cercou de muitos amigos, entre os quais de Dr. Tancredo de Almeida Neves, para quem prestou inúmeros serviços em sua residência, onde funciona a “Gazeta de São João del-Rei”. Sabedor do prestígio que gozava a pessoa admirável de Dr. Tancredo e da simpatia que transmitia a todos os que dele se aproximavam, meu pai teve a oportunidade de consagrar-lhe toda a amizade e apreço. Quando aquele precisava dos serviços de meu pai, este o atendia com a maior presteza e dedicação. Assim foi a boa convivência desses dois grandes amigos, e nossa também, de seus filhos.
Tancredo de Almeida Neves (✯ São João del-Rei, 04/03/1910  ✞ São Paulo,  21/04/1985)


Como toda pessoa que se enriquece e cresce na profissão, meu pai cercou-se não só de muitos amigos, como foi dito, mas também de pessoas invejosas de seu progresso. Certa ocasião, trabalhando no depósito de ferro-velho, adquiriu de um adulto uma roda grande, que, conforme veio a saber depois, pertencia à “Caieira” do Coronel Amorim. Alguém invejoso delatou que a referida roda estava de posse de papai. Por isso, ele foi acionado judicialmente pelo dono da roda, o qual exigia a sua restituição, tendo levado o delegado Dr. Nabor a retê-lo por um dia.

Minha família ficou transtornada com o incidente. Não me restou senão ir, com apenas 16 anos, à residência de Dr. Tancredo pedir-lhe para soltar meu pai. Nessa ocasião, eu não passava de uma adolescente, aluna do Colégio Nossa Senhora das Dores, mas era eu quem cuidava das correspondências comerciais de meu pai. Dr. Tancredo deu uma solução imediata ao problema e trouxe papai consigo para o convívio da família.

É claro que ainda mais cresceu nossa amizade.

Depois, Dr. Tancredo subiu na política até se tornar Primeiro Ministro. Infelizmente, contudo, papai não viu sua ascensão, pois faleceu eletrocutado, enquanto trabalhava como eletricista. Mais uma vez, Dr. Tancredo mostrou sua amizade sincera para com nossa família, pois foi o inventariante do espólio deixado por meu pai.

Com justa razão, portanto, eu considero Dr. Tancredo um político ímpar, meu ídolo, a quem serei eternamente grata pelos bens que nos proporcionou, primeiro como amigo, depois como estadista.

* Este artigo saiu publicado na Revista da Academia de Letras de São João del-Rei, Ano IV, nº 04, 2010 (número especial dedicado às comemorações do centenário de nascimento do Dr. Tancredo de Almeida Neves), p. 143-144.



* Celina dos Santos Braga nasceu em 23 de janeiro de 1928 na Rua Coronel Tamarindo em São João del-Rei, sendo a quarta filha de Francisco Nestor dos Santos, natural de Barroso-MG, e Brasilina Sebastiana dos Santos, natural de Vitoriano Veloso, distrito de Prados-MG. Fez o curso primário no Grupo Escolar Maria Teresa, quando este estava situado na residência que pertenceu ao Deputado Mateus Salomé. Obteve o grau de Normalista em 1945 no Colégio Nossa Senhora das Dores, tendo sido aluna do Tenente João Cavalcanti, Domingos Horta, Monsenhor José Maria Fernandes e Irmã Maria Lanna (autora do hino do Colégio), dentre outros. Durante os anos em que cursou esse educandário, foi soprano no coral “Orfeão”, dirigido pelo Tenente João Cavalcanti. Mais...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Valença, São João del-Rei e o Visconde do Rio Preto

Por José Antônio de Ávila Sacramento *

Em 27 de agosto de 2006, por iniciativa das presidências da Academia Valenciana de Letras (AVL) e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto (ICVRP), reiniciou-se um formidável e permanente intercâmbio histórico-cultural entre as cidades de Valença - RJ e São João del-Rei - MG.

Liderados pela dra. Elizabeth Santos Cupello e pelo dr. Mario Pellegrini Cupello, um grupo de intelectuais integrantes das entidades estiveram em São João del-Rei, visitando a Academia de Letras local. A finalidade maior da visita foi a reativação dos laços históricos e culturais que uniram, unem e unirão para sempre as duas cidades.

Valença, hoje próspera cidade fluminense, então Aldeia de Nossa Senhora da Glória de Valença, surgiu no final dos anos setecentos e início dos oitocentos; a Freguesia de Valença foi criada em 1813 e a partir de 1817 começaram a ser repartidas as sesmarias naquela região. A Aldeia de Valença foi elevada à condição de Vila em 1823, e alcançou a categoria de cidade em 29 de setembro de 1857.

A Academia Valenciana de Letras, atualmente muito bem presidida pela doutora Elizabeth Santos Cupello, foi criada em 1949. O Instituto Cultural Visconde do Rio Preto, magistralmente presidido pelo doutor Mário Pellegrini Cupello, foi fundado em 1990. O casal de presidentes é uma referência na área cultural valenciana. As ações e as pesquisas por eles empreendidas muito enriquecem as tradições daquela região fluminense. Ambos dirigentes mantêm laços históricos, familiares, afetivos e intelectuais com o Estado de Minas Gerais, mais particularmente com as cidades de Mariana, Ouro Preto e São João del-Rei. Devo afirmar que tanto a Academia Valenciana de Letras como o Instituto Cultural Visconde do Rio Preto exercem importantes papéis na cultura daquela região fluminense e cultuam, de modo exemplar, a memória do são-joanense Domingos Custódio Guimarães, o Visconde do Rio Preto, cuja vida e obra chega a ser praticamente desconhecidas dos habitantes desta terra "onde os sinos falam".

Domingos Custódio Guimarães, um descendente da ilhôa Júlia Maria da Caridade (como nós, destas "muitas Minas" Gerais!), nasceu em 23 de agosto de 1802, na localidade conhecida como Fazenda da Rocinha (atual município de Carrancas-MG, região que àquela época pertencia a São João del-Rei). Foi batizado aos 07 de setembro de 1802. Com 21 anos ele foi para o Rio de Janeiro e constituiu a empresa "Mesquita & Guimarães" que visava o fornecimento de carnes, em sociedade com João Francisco Mesquita (futuro Marquês de Bonfim). Valendo-se de boa administração e aproveitando a escassez de gêneros alimentícios no Rio de Janeiro, a empresa prosperou e gerou grande fortuna aos empresários. Anos depois, devido à forte concorrência no negócio de carnes, a sociedade foi desfeita. Financeiramente realizado, Domingos investiu a sua fortuna adquirindo fazendas no município de Valença, dedicando-as ao plantio do café, à criação de gado e ao plantio de hortifrutigranjeiros. Expandiu os seus negócios, adquiriu mais fazendas e tornou-se um dos maiores produtores de café do Brasil.

Casou-se com a senhora Maria das Dores de Carvalho e tiveram dois filhos: Maria Amélia Guimarães e Domingos Custódio Guimarães Filho (mais tarde 2º Barão do Rio Preto).

Juntamente com as atividades agropecuárias, o Visconde participou ativamente da vida político-administrativa e cultural de Valença. Foi um homem generoso. Socorria as famílias carentes e ajudava financeiramente várias entidades. Foi grande mantenedor da Santa Casa da Misericórdia de Valença. Construiu vários prédios e entregou-os à Administração Pública. Abriu estradas de rodagem, a exemplo da que ligava Valença à cidade de Taboas. Idealizou a construção de uma ferrovia entre Valença e o distrito de Juparanã. Instalou a rede de abastecimento de água potável em Valença. Foi um dos pioneiros da adoção da iluminação a gás, quando até mesmo o Império ainda desconhecia tal sistema.

Domingos Custódio Guimarães foi feito tenente-coronel da Guarda Nacional, por D. Pedro I; em 1829 foi agraciado pelo Imperador com o grau de "Comendador da Ordem da Rosa" e depois com o grau de "Gran Cruz da Ordem de São Bento de Avis". O Imperador Pedro II o condecorou com a "Gran Cruz da Ordem da Torre e Espada". Através de Decreto Imperial de 18 de dezembro de 1847 ele foi elevado a Comendador da "Ordem de Cristo"; em 06 de dezembro de 1854, D. Pedro II elevou-o à nobreza, entregando-lhe o título de Barão do Rio Preto. Em 1867 recebeu nova homenagem do imperador, desta feita com o título de Visconde do Rio Preto.

É importante ressaltar que "Domingos Custódio Guimarães jamais lançou mão de dinheiro público ou envolveu-se em negociatas que malversassem o bem da nação. Muito pelo contrário, deu o melhor de si em benefício do povo, tirando do próprio bolso para melhorar as condições de vida da cidade e dos habitantes de Valença. Mais do que sua riqueza, construída com labuta, Domingos Custódio notabilizou-se por sua firmeza de caráter, sua probidade, seriedade...".

O Visconde do Rio Preto veio a falecer no dia 7 de setembro de 1868, na sua Fazenda Flores do Paraíso, no exercício dos cargos de Presidente da Câmara Municipal e Provedor da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Valença. Naquela ocasião a sua morte foi copiosamente chorada pelos valencianos, principalmente. O corpo dele foi sepultado no Cemitério Riachuelo, em mausoléu artisticamente concebido.

Vale dizer que em memória do dito Visconde, por sugestão da presidência do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto, a Câmara Municipal de Valença criou a medalha que leva seu nome, a maior honraria que aquele Município concede a personalidades que se destacam e fazem jus ao agraciamento. Recentemente, através da ação da presidência do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, especialmente do confrade Adenor Luiz Simões Coelho, um modesto preito de reconhecimento foi prestado por São João del-Rei à vida e obra de Domingos Custódio Guimarães: uma via urbana foi denominada oficialmente com o nome de Avenida Visconde do Rio Preto.

Assim está delineada, ainda que muito brevemente, a grande contribuição do são-joanense Domingos Custódio Guimarães ao desenvolvimento da cidade de Valença e região fluminense. Para quem se interessar em conhecer mais profundamente a vida e obra dele, recomendo a leitura do livro "Visconde do Rio Preto – Sua vida, sua obra. O esplendor de Valença", publicado pelo professor, historiador, escritor e pesquisador Rogério da Silva Tjader (Valença:Gráfica PC Duboc Ltda., 2004, 248 p.), onde me nutri da maioria das informações para escrever este modesto artigo. Também me utilizei dos preciosos registros contidos no relatório "Principais Atividades do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto – Idealismo, Pioneirismo e Ação em defesa da Cultura e da Preservação da Memória – Vol. 1, 1990-2007", peça muito bem elaborada pelos doutos dirigentes do ICVRP.

As relações de amizade dos valencianos com São João del-Rei foram outrora iniciadas através de contatos com o notável genealogista Sebastião de Oliveira Cintra e ora vêm sendo mantidas com intensos vigor e reciprocidade. Eu e a minha esposa (Vânia Roseli Vilela de Ávila) nos orgulhamos de ser sócios efetivos do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto e membros correspondentes da Academia Valenciana de Letras. O casal drs. Mario e Elizabeth honra com seus nomes os quadros sociais da Academia de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, na qualidade de correspondentes, sempre participam de eventos da nossa vida cultural e mantém permanente contato com a terra são-joanense. Outras personalidades são-joanenses também fazem parte da AVL e do ICVRP.

Estes intercâmbios poderiam propiciar o início de um processo oficial de geminação entre os dois municípios (este é um ato de irmanação muito comum nas comunidades européias); o ato possibilitaria que os municípios envolvidos reforçassem as suas identidades históricas, culturais e até mesmo econômicas. Com a ratificação da sonhada geminação, os poderes executivo e legislativo, em nome do povo de ambas as cidades, dariam início à detecção de identidades comuns entre os municípios e estabeleceriam acordos de parcerias em diversas áreas.

A vontade que se expressa é a de que nós e também as gerações vindouras saibamos bem interpretar e reconhecer o simbolismo destes preciosos atos bilaterais que já vêm acontecendo e que cuidemos com o maior carinho destas formidáveis relações intermunicipais e interestaduais.

A intenção principal deste articulista é a de que, através da publicação deste modesto artigo no BLOG DE SÃO JOÃO DEL-REI, fosse iniciado o fomento de uma geminação protocolar entre os poderes constituídos da cidade mineira e fluminense (e vice-versa). Assim, através deste ato, buscaríamos uma ainda maior e melhor reaproximação e um contínuo estreitamento de laços históricos, culturais, sociais, educacionais, esportivos e turísticos, fato que ora já acontece de maneira espetacular e sob a forma de uma recíproca irmandade entre pessoas e entidades do Município de Valença e de São João del-Rei.

Que assim seja!


Fotos:

1. Dr. Mario Pellegrini Cupello, presidente do ICVRP, faz a entrega de quadro com a efígie do dr. Domingos Custódio Guimarães - Visconde do Rio Preto, para o acervo do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei - MG (ano de 2006); na parede aparece o retrato do saudoso historiador Sebastião de Oliveira Cintra, um dos primeiros incentivadores da relação cultural do Município de São João del-Rei e Valença.

2. Em 2007, o casal Mario Pellegrini Cupello e Elizabeth Santos Cupello, tendo ao centro o ex-prefeito de São João del-Rei Sidney Antônio de Souza, em evento militar no 11º BI Mth (Regimento Tiradentes) de São João del-Rei.

3. Na sede do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, numa de suas costumeiras visitas, o dr. Mario Pellegrini Cupello (presidente do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto) e a dra Elizabeth Santos Cupello (presidente da Academia Valenciana de Letras). O casal está acompanhado do autor deste artigo, à época (2007) presidente do IHG.

(Fotos: arquivo José Antônio de Ávila Sacramento)


* José Antônio de Ávila Sacramento nasceu em São João del-Rei/MG (distrito de São Miguel do Cajuru). É sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, membro efetivo da Academia de Letras de São João del-Rei, conselheiro titular do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural. Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (Belo Horizonte/MG). Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (João Pessoa/PB). Sócio Correspondente da Academia Bauruense de Letras (Bauru/SP). Sócio Correspondente da Academia Mageense de Letras (Magé/RJ). Mais...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A agonia do Lenheiro


Por José Antônio de Ávila Sacramento *
“Por fim / a água escorre cada vez mais suja / a História segue o seu curso e, / com um prazer cada vez maior, / nós, Pôncios Pilatos, continuamos a lavar as mãos...”.
Uma relíquia do patrimônio natural são-joanense está na UTI. Para que se tenha uma idéia, nos nossos mais de 300 anos de história, avaliamos que o Córrego do Lenheiro permaneceu belo e praticamente limpo até o início do século passado; foi a partir do início do séc. XX, principalmente, que a poluição do córrego tornou-se um problema sério, agravando-se cada vez mais, até chegar ao estágio atual. O então Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, fundado por Antônio Garcia da Cunha (o genro de Thomé Portes!) foi crescendo assim meio que desordenadamente e os esgotos foram direcionados para o leito do Córrego, sem nenhum tratamento.

Nos primórdios da Vila, certamente que a água usada na higiene pessoal, na lavagem de utensílios e os dejetos deviam de ser lançados pelas janelas das residências com a única restrição de que a dona da casa ou os escravos gritasse bem alto: "lá vem água!", a fim de se evitar que os distraídos tomassem "banhos" indesejados. Posteriormente, pelas ruas da cidade, a exemplo do que era comum, começaram a existir valas desordenadas e que cresciam meio fedorentas. Decerto que por aqui aconteceu também a imitação de hábitos da Corte pela elite são-joanense, que "importava" todos os costumes da população do Rio de Janeiro: a parte mais malcheirosa dos dejetos era colocada em penicos e jogadas em espécie de fossas sépticas, sendo que a classe menos favorecida, a maioria do povo, "fazia suas necessidades no mato mesmo".

Posteriormente, no Rio de Janeiro, os excrementos eram depositados em potes chamados "tigres", e conduzidos por escravos até às margens da Baía da Guanabara; é bem possível que os dejetos daqui também seriam lançados nos tais potes, os quais seriam carregados por escravos até às margens do Córrego do Lenheiro, onde eram lançados. Devia ser engraçada a situação dos são-joanenses daquela época, quando ao caminharem à noitinha pela Rua Direita ou Rua da Intendência, mal iluminadas por precários lampiões de azeite, temiam esbarrar naqueles escravos conduzindo os "tigres" e serem presenteados com um monte de sujeira. Vale lembrar aqui uma oportuna observação do meu amigo, confrade de IHG e historiador Antônio Gaio Sobrinho: "o termo enfezado, que hoje significa 'pessoa com muita raiva', deriva, certamente, daqueles escravos que, carregando os potes (tigres) cheios de fezes (enfezados), não deviam caminhar alegres, mas com as fisionomias aborrecidas, descontentes com aquela incômoda situação".

A indignação da população com a falta de limpeza da Cidade, como era natural que acontecesse, deve ter começado a surgir juntamente com o aparecimento de epidemias de varíola, febre amarela, cólera, etc, fato que decerto levou o povo a requisitar um serviço de limpeza mais amplo, a canalização dos esgotos e também da água. Começou, assim, a crítica história dos esgotos de São João del-Rei, com a continuação da poluição do Córrego do Lenheiro e, conseqüentemente, a do histórico Rio das Mortes.

Além de poluirmos cada vez mais o Córrego através dos esgotos, por outro lado fomos também responsáveis pela degradação da natureza que o cerca, impedindo a absorção de parte da poluição. Aterros, invasões, obras indevidas, desmatamentos, mudança do curso original da água e outros diversos fatores também ajudaram a tirar a vida do Córrego, diminuindo o nível de oxigênio de suas águas, eliminando-lhe a fauna e flora.

Os mais antigos ainda devem se lembrar do cheiro da lenha de candeia, queimada nos fogões da Rua da Prata: "lenha de primêra, freguesa!!!", anunciavam as lenheiras... A serra, nascente do Lenheiro, era coberta de candeias, finas, elegantes e desaparecidas nos fogões e fornos, tanto caseiros como de hotéis, padarias, fábricas e quartéis. Esse é o nosso passado: antiecológico, um resumo dos nossos crimes coletivos. A falta de espaço d'uma cidade "espremida" num vale, entre-serras e morros, possibilitou também que toda sorte de poluição fosse lançada ao Lenheiro, aproveitando-se da comodidade, e, também, da naturalidade da lei da gravidade.

A situação foi tomando uma forma insustentável a partir de fins dos anos 1950 e início da década de 60, até atingir aos críticos dias atuais. Com a canalização de parte do Córrego foi resolvido um problema estético, mas foi mantido um "esgoto a céu aberto". Os afluentes Rio Acima, Água Limpa e Águas Férreas foram sofrendo, cada vez mais, dos mesmos males. Anos atrás, uma verba federal de mais de meio milhão de reais foi desperdiçada pelo Poder Público Municipal num "emissário de esgotos", que de tão mal planejado e mal executado não chegou nem mesmo a amenizar o problema; e mesmo que tivesse sido diferente, com a falta de uma estação de tratamento, os esgotos continuariam sendo jogados no Córrego um pouco mais abaixo, "in natura", indo poluir o Rio das Mortes.

É necessário, pois, que as gestões em favor da despoluição (ou de se evitar a continuação da poluição) do Córrego do Lenheiro sejam efetivadas. Países como a França e a Inglaterra praticamente já despoluiram os rios Sena e Tâmisa, adotando duras leis ambientais e impostos proporcionais à degradação, além de reformulação da rede de esgotos e tratamento dos mesmos. Assim também se deu na Baía de Tóquio (Japão). Em países do Primeiro Mundo empresas poluidoras já respondem a violentos processos judiciais, com indenizações que são revertidas em favor da recuperação dos cursos d’água. No Brasil são exemplos de ações despoluidoras, ainda que tímidas, as que estão em curso nos Rios Tietê e Paraibuna. Vale mencionar o "Projeto Rio Limpo" que visa salvar a vida do Rio das Mortes, do qual o Córrego do Lenheiro é um dos poluidores.

Guardadas as devidas proporções econômicas e culturais estes são exemplos a serem seguidos antes que o histórico Córrego do Lenheiro, um dos símbolos da cidade de São João del-Rei, continue agonizando sem perspectivas de salvação.


* José Antônio de Ávila Sacramento nasceu em São João del-Rei/MG (distrito de São Miguel do Cajuru). É sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, membro efetivo da Academia de Letras de São João del-Rei, conselheiro titular do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural. Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (Belo Horizonte/MG). Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (João Pessoa/PB). Sócio Correspondente da Academia Bauruense de Letras (Bauru/SP). Sócio Correspondente da Academia Mageense de Letras (Magé/RJ). Mais...

Fotos:
1 - Ponte da Cadeia, sobre o Córrego do Lenheiro, ornamentada com flores em razão da eleição de São João del-Rei com o título de "Capital Brasileira da Cultura 2007". Crédito: José Antônio de Ávila.
2 - Ponte da Cadeia, sobre o Córrego do Lenheiro. Crédito: Cris Carezzato

Veja mais fotos do Córrego do Lenheiro aqui.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Ana Pereira Lima e a Revolução de 1932


Por José Antônio de Ávila Sacramento *


Dizem que a Revolução Constitucionalista de 1932 foi uma resposta paulista à Revolução de 1930. Em julho de 1930 uma revolução derrubou o governo dos grandes latifundiários de MG e de SP e assumiu a presidência, com grandes poderes, o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas (1883-1945). O episódio, como não poderia deixar de ser, desagradou a importantes setores da sociedade; então, em julho de 1932, no Estado de São Paulo, explodiu uma revolta contra o governo Vargas. Tropas federais foram enviadas para conter o movimento.

O 11º Regimento Legalista de Infantaria, da cidade mineira de São João d’El-Rey, contribuiu com suas tropas para combater as forças paulistas. Foi nessa ocasião que uma mulher chamada Ana Pereira da Silva alistou-se como voluntária nas fileiras do Regimento, fazendo-se passar por homem; clandestinamente, mas com muita garra, participou dos combates, especialmente aqueles que foram travados na Estação Barão Ataliba Nogueira (inaugurada em 1891, atualmente descaracterizada, a estação fica no município de Itapira-SP e faz parte da Estrada de Ferro Mogiana).

Ana Pereira da Silva, posteriormente apelidada "Cianinha", nasceu em 16 de agosto de 1907, no município de Abaeté-MG e casou-se com Ozório Lourenço de Lima, passando a assinar Ana Pereira Lima (Cartório de S. João del-Rei - Livro 11, Fl. 194 v, termo 123, de 28.12.1922).

Em face da sua coragem e bravura recebeu louvor registrado no Boletim Interno nº 258 do 11º BI, datado de 10 de outubro de 1932, referenciando a sua maneira de agir em combate, com acentuado destemor. Foi ferida em combate, na cabeça, por um estilhaço de granada de avião; ao ser socorrida é que descobriram que ela era do sexo feminino.

Sobre ataques aéreos na dita Revolução, cabe registrar que o inventor do avião, o mineiro Alberto Santos Dumont, suicidou-se em 23 de julho de 1932, deprimido pelo que considerou um mau uso da sua invenção, especialmente por causa dos bombardeios aéreos efetuados nas cidades paulistas, no Campo de Marte e no Forte de Itaipu, fato que ocasionou muitas mortes durante a Revolução de 1932. Com o controle emocional abalado, Santos Dumont recolheu-se ao seu quarto, no Hotel de La Plage, em Guarujá, fechou-se no banheiro, amarrou duas gravatas no cano do chuveiro e enforcou-se.

"Cianinha", já viúva do subtenente Osório Lourenço de Lima, faleceu aos 83 anos, em 13 de agosto de 1991, na cidade de Barroso-MG, vítima de parada respiratória e pneumonia. Não deixou filhos e nem parentes; era muito reservada e por isso não tinha amigos; viveu os últimos momentos da sua vida internada em um asilo. Depois da morte dela, ao demolirem a casa de sua propriedade, foi encontrada uma boa quantidade de munição escondida no imóvel.

No dia 08 de março de 2004, data dedicada ao Dia Internacional da Mulher, o comandante do 11º BI Mth, coronel Jorge da Conceição, prestou a homenagem da Unidade Militar às mulheres. Naquela oportunidade o comando militar do Regimento recebeu a todas com a oferta de botões de rosas; logo após, em cerimônia cívica, o comandante inaugurou, na sala do Acervo Histórico do Batalhão, o memorial dedicado a Ana Pereira Lima. A tradicional Banda de Música do Regimento, com a afinação de sempre, abrilhantou o evento.

E por falar da trajetória de uma mulher, creio que é importante registrar as atuais presenças de representantes do sexo feminino no seio da Unidade Militar de São João del-Rei; a primeira que integrou o contingente do 11º BI Mth foi a primeiro-tenente mato-grossense (da cidade de Cáceres) Alessandra Garcia de Oliveira Fernandes, que naquela solenidade apresentou publicamente o resultado das suas pesquisas biográficas referentes a "Cianinha".

Será que a praticamente desconhecida saga de Ana Pereira Lima não é um bom enredo para um livro histórico, um precioso roteiro para um filme ou, ainda, um interessante tema para a gravação de uma minissérie?


* José Antônio de Ávila Sacramento nasceu em São João del-Rei/MG (distrito de São Miguel do Cajuru). É sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, membro efetivo da Academia de Letras de São João del-Rei, conselheiro titular do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural. Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (Belo Horizonte/MG). Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (João Pessoa/PB). Sócio Correspondente da Academia Bauruense de Letras (Bauru/SP). Sócio Correspondente da Academia Mageense de Letras (Magé/RJ). Mais...

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Encontro em São João del-Rei discute cidadania desmemoriada e preservação do patrimônio histórico


Por Francisco José dos Santos Braga *

- Artigo publicado na Revista de Cultura Vozes, ano LXXXVI, março/abril de 1992, p. 235-238 - nº 2; também foi publicado em 2 partes com o título "A Cidadania desmemoriada e Patrimônio" e "Cidadania desmemoriada e Patrimônio - II", na coluna Pauta Livre, seção 2, do Jornal de Brasília, ambas na p. 6, respectivamente nos dias 28/4 e 12/5/1992. 



No dia 20 de abril de 1992 aconteceu em São João deI-Rei - MG, berço do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, o I Encontro de Historiadores, que teve como tema principal o resgate da memória e consciência nacional. O evento faz parte das comemorações do Bicentenário da Execução de Tiradentes naquela histórica cidade, organizadas por egrégia comissão presidida pelo Procurador-Geral da República, Aristides de Alvarenga Junqueira, e desdobrou-se em duas vertentes:

- um grupo de historiadores e estudiosos de todo o País discutiu a cidadania desmemoriada e a preservação do patrimônio histórico, reunindo-se na FUNREI - Fundação de Ensino Superior de São João del-Rei;

- outro grupo de estudiosos locais, representantes da comunidade são-joanense, reuniu-se no Museu Regional para apresentação e discussão de diversos trabalhos voltados para questões relativas à memória e ao patrimônio nacional e da cidade.

Ao final do primeiro grupo de trabalho, com participação de Severo Gomes, Paulo de Tarso Santos, Edmur Fonseca, Geraldo Forbes, Ovídio de Andrade Melo, Wilson Coutinho, Marco Antônio Coelho, Fábio Lucas, Luís Antônio Valle Arantes, Galba Ribeiro Di Mambro, Lídia Avelar Estanislau, Eduardo França Paiva, Geraldo Guimarães, Antônio Gaio Sobrinho, José da Paz Lopez, Mônica de Fátima Massara e Ricardo Seitenfus, foi redigida e assinada a "Carta de São João del-Rei", promulgada em sessão solene, no Salão Nobre da Prefeitura na noite do dia 21 de abril.

O segundo grupo de trabalho, coordenado pelo Diretor do Museu Regional, Jairo Braga Machado, e formado por Aluízio José Viegas, Carlos Magno de Araújo, Pedro Paulo Correia, Sueli Franco, Beatriz Gaede, Emílio Costa e o autor desta matéria, houve por bem aprovar um elenco de recomendações às autoridades constituídas do nosso Pais, especialmente aquelas responsáveis pelo nosso importante patrimônio cultural, e aos intelectuais preocupados com a preservação de nossa memória. Esse documento, aprovado na Sessão Local do Encontro de Historiadores, repassado de espírito cívico, é reflexo de um amor apaixonado pela conservação e restauração dos testemunhos de nossa História.

Ambos os trabalhos que abaixo transcrevo objetivaram lançar um alerta à Nação, denunciando a possibilidade do desmantelamento de instituições de pesquisa e de preservação de elementos culturais, por falta de apoio oficial, reforçando o perigo da cidadania desmemoriada e do desleixo com a preservação do patrimônio histórico da Nação.


CARTA DE SÃO JOÃO DEL-REI

Brasileiros.

Nós, signatários desta carta, cidadãos de várias partes deste País, queremos, neste 21 de abril, comemorar o bicentenário da execução de Tiradentes, relembrando as razões de sua luta e o alcance de seus ideais, para compartilhá-los com todos os brasileiros.

Não podemos relegar ao esquecimento os feitos de nossos antepassados e de todo o nosso povo, sob pena de perdermos a consciência de nossa identidade e comprometermos nossa soberania. A memória da cultura comum só se perpetua através da preservação de nossos documentos e monumentos históricos.

Se as grandes datas, os nossos monumentos, nossos fundadores e os arquivos da nossa memória forem sepultados, em pouco tempo nada mais teremos a celebrar.

É fundamental que cada um de nós, no exercício da cidadania, se torne defensor de nosso patrimônio cultural, que escolas, sindicatos, empresas e governo promovam em todo o país o conhecimento de nossa história e o sentimento de respeito e amor a tudo que nos pertence.

Ligados sempre pelo uso da língua comum, a brasilidade é um amálgama fundido no cadinho da diversidade que mistura esforços de variada origem em cinco séculos de história. Herdamos um gigantesco país criado pelo índio, pelo branco e pelo negro, e consolidado por todos quantos a ele deram seu amor, sangue e engenho, na admirável construção da nacionalidade brasileira.

O Brasil de hoje, porém, não é o Brasil sonhado por nossos antepassados; menos ainda o Brasil que desejamos transmitir a nossos filhos e netos. Interesses externos atingem nossa soberania e nossos propósitos de desenvolvimento e bem-estar social. A miséria inaceitável escraviza a metade de nossos conterrâneos. A indigência cultural agrilhoa quase outro tanto.

A nós cabe não esquecer essa triste realidade, quando comemoramos o martírio do Alferes. Devemos lembrar-nos de que esta situação não nos é imposta pelos fados, nem é inelutável. Temos certeza de que a força do povo, consciente de sua cidadania, suplantará as terríveis dificuldades do presente por meio da democracia e do estado de direito.

Tiradentes, o herói enlouquecido de esperança, de que nos falava Tancredo Neves, lutou, até à morte, por este valor supremo do homem: a liberdade. No mundo atual, sabemos todos, não há liberdade sem justiça social e sem soberania, sem educação e sem cultura, sem trabalho e sem progresso.

São estes valores inalienáveis, a que juntamos a vida pacífica e segura, em nossa paisagem, na defesa do verde e do límpido azul, na indivisível República Federativa do Brasil que, sob a memória reverenciada de Joaquim José da Silva Xavier, pretendemos defender e promover, com nosso amor e convicção.

"Se todos quisermos poderemos fazer deste país uma grande nação".


São João del-Rei, 21 de abril de 1992


RECOMENDAÇÕES PROPOSTAS PELA SESSÃO LOCAL DO ENCONTRO DE HISTORIADORES
 
Orador: Jairo Braga Machado, Diretor do Museu Regional de São João del-Rei, na inauguração do busto do Alferes Tiradentes  na Praça Severiano de Resende em 21/04/1992


Historiadores, pesquisadores, professores, músicos e representantes da comunidade são-joanense, reunidos na tarde do dia 20 de abril de 1992, no Museu Regional de São João deI-Rei – 13ª CR-IBPC, ao fim da apresentação e discussão de diversos trabalhos voltados para questões relativas à memória e ao patrimônio de São João del-Rei, aprovaram as seguintes recomendações:

- fortalecimento das instituições culturais em âmbito municipal, estadual e federal, particularmente aquelas voltadas para a preservação do patrimônio cultural e da memória brasileira;

- destinação de recursos públicos para as ações de identificação, documentação, proteção e promoção do patrimônio cultural em sua pluralidade;

- formação de recursos humanos para a pesquisa da memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira e para as ações de conservação e restauração dos testemunhos de nossa história, em seus diferentes suportes (oral, musical, escrito, fotográfico, iconográfico, arquitetônico e paisagístico);

- realização de Encontros Anuais de Pesquisadores e Estudiosos da Cultura São-joanense, para troca de informações e experiências sobre a preservação do patrimônio cultural e da memória brasileira, em especial a de São João del-Rei;

- retorno de livros e documentos importantes da história de São João del-Rei, que estão hoje sob a guarda da Biblioteca Nacional;

- efetivação de todos os esforços visando possibilitar a complementação do restauro da matriz de Nossa Senhora do Pilar;

- intensificação das ações de divulgação e difusão cultural do patrimônio são-joanense, tendo em vista a conscientização da comunidade local para a importância de tão importantes bens;

- reconhecimento da naturalidade são-joanense do Alferes Joaquim José da Silva Xavier.


São João del-Rei, 20 de abril de 1992 . 200º Ano da Execução de Tiradentes



* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ, além da Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas culturais, musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do patrimônio histórico nacional.Mais...

domingo, 14 de dezembro de 2008

São João del-Rei: a terra natal de Tiradentes >>> Parte 5 (Conclusão)

Por Francisco José dos Santos Braga*

- Artigo publicado originalmente na Revista de Cultura Vozes, ano LXXXVI, janeiro-fevereiro 1992, p. 80-91, nº 1, por ocasião do Bicentenário da Morte do Tiradentes, o qual deu origem a um discurso do Senador Alfredo Campos (PMDB-MG) em Plenário (11/03/1992) e a um opúsculo intitulado "Tiradentes, Cidadão Sanjoanense (uma contribuição ao restabelecimento da verdade histórica acerca do local de nascimento do Tiradentes)", editado pela Gráfica do Senado.

Contra a naturalidade sanjoanense do Tiradentes, insurgem-se certos autores, em especial o major Herculano Velloso, autor de "Ligeiras memórias sobre a Villa de S. José nos tempos coloniaes". Na página 37 do seu opúsculo, relata que o pai do Tiradentes, eleito a 2 de dezembro de 1754 vereador da Câmara de S. José del-Rei, para o biênio 1755/1756, exerceu o referido cargo, como consta no auto de abertura do pelouro e termo de posse. Basílio de Magalhães, no artigo retrocitado, mostrou que nos tempos coloniais foi useiro e vezeiro mudar com freqüência de vereança, seja por transferência de domicílio, seja até, sem que esta ocorresse, por intuitos escusos. Para comprovar essa assertiva, transcreveu uma provisão em regra de D. João V, após ouvido o parecer dos magistrados do seu Conselho Ultramarino, endereçada ao Ouvidor Geral do Rio das Mortes. Nela, "Sua Majestade que Deus Guarde" ordena que ele não consinta seja vereador Silvestre Marques da Cunha, "senão naquella Villa em que tiver a sua família e domicílio, e nella sirva somente o tempo que dispõem (sic) a ley", uma vez que o dito Silvestre se fazia eleger - pelo poder que tinha - vereador das Câmaras das vilas de S. José e S. João del-Rei, um ano em uma, e outro em outra, maquinando crimes e furtando-se ao pagamento de seus credores. Embora essa decisão régia se endereçasse a pessoa certa e determinada, é de se supor que casos idênticos se repetissem sem a ciência de Sua Majestade.

Outro argumento utilizado por outros historiadores é que a vila de S. José, nos tempos coloniais, exigiu dos moradores de Santa Rita do Rio Abaixo o pagamento de impostos, justificando desta maneira a inclusão desse povoado na jurisdição territorial da dita vila. Fábio Nelson Guimarães e Canabrava Barreiros (op. cit.) contestaram esse argumento, esclarecendo que a partir de 1755, através de edital, a Câmara de S. José passou a arrecadar importâncias de licenças e dos Reais Quintos, pela primeira vez, do povo de Santa Rita do Rio Abaixo. O pai de Tiradentes, como lhe pagasse seus impostos, declarara que a fazenda do Pombal pertencia a S. José. Por força de tais cobranças de impostos, aqueles historiadores (mencionados no início deste parágrafo) concluem apressadamente que o Pombal estava sob a jurisdição de S. José del-Rei. Esquecem-se eles da "pertinácia e fibra de lutadores dos são-josefenses" que estenderam os limites do seu termo até os confins dos sertões do Piui, não enjeitando briga nem mesmo com a poderosa Vila Rica, com a qual andaram medindo forças. Foi dessa maneira que estenderam sua jurisdição pelas ramas da Comarca do Rio das Velhas, na ousadia de invadi-la. Não surpreende o fato de, "de maneira efêmera e não definitiva", terem tentado abocanhar impostos de Santa Rita do Rio Abaixo, isso devido a demarcações realizadas nos anos de 1755 e 1777.

Por todas as provas documentais e evidências apresentadas, estou convicto de que o Patrono Cívico da Nação Brasileira, o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, é são-joanense, uma vez que, à época do seu nascimento, a fazenda do Pombal pertencia ao termo da Vila de São João del-Rei.

A posição que venho de assumir é repleta de espírito patriótico, antes de qualquer provincianismo. Anima-me o interesse de expor o fato histórico, repor a verdade e, com isso, alimentar no espírito dos cidadãos brasileiros o desejo de conhecer as gestas de nossa terra.


BIBLIOGRAFIA

1. Fontes Bibliográficas

ALENCAR, Gilberto de: Tal Dia É o Batizado (vol. nº 1 da Coleção Grandes Homens da História), Ed. Itatiaia, 1959.

"Autos da devassa da Inconfidência Mineira", edição da Câmara dos Deputados - governo do Estado de Minas Gerais, 1976.

BARREIROS, Eduardo Canabrava: As Vilas del-Rei e a Cidadania de Tiradentes (vol. nº 172 da Coleção Documentos Brasileiros), Livraria José Olympio Ed., em convênio com o INL, 1976.

GUIMARÃES, Fábio Nélson; CÂMARA, Altivo Lemos Sette & BARBOSA, Waldemar de Almeida: O Tiradentes. São João del-Rei, Instituto Histórico e Geográfico, 1972.

"Livro para servir de assentos dos batizados da freguezia de N.S. do Pilar da Vila de São João del-Rei - 1742/1749", existente na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

MOTA, Dantas: Elegias do País das Gerais, Livraria José Olympio Ed., em convênio com o INL, 1988.

2. Revistas e Outras Publicações

"Documentos Genealógicos de Bárbara Eleodora e Tiradentes". Luís de Melo Alvarenga, em Vozes de Petrópolis, set-out de 1954, p. 489-506.

"Estudos Históricos (Controvérsias)". Basílio de Magalhães e Teófilo Feu de Carvalho, em Revista do Arquivo Público Mineiro, Ano XXIV, 1933, Vol. I, p. 405-436.

"Onde Tiradentes Nasceu". Fábio Nélson Guimarães, em Revista de História e Arte, Ano II, nº 6, p. 36 e 37.

3. Manuscritos

"Tiradentes é Sanjoanense". Luís de Melo Alvarenga.


* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ, além da Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do patrimônio histórico nacional.Mais...

São João del-Rei: a terra natal de Tiradentes >>> Parte 4

Por Francisco José dos Santos Braga*

- Artigo publicado originalmente na Revista de Cultura Vozes, ano LXXXVI, janeiro-fevereiro 1992, p. 80-91, nº 1, por ocasião do Bicentenário da Morte do Tiradentes, o qual deu origem a um discurso do Senador Alfredo Campos (PMDB-MG) em Plenário (11/03/1992) e a um opúsculo intitulado "Tiradentes, Cidadão Sanjoanense (uma contribuição ao restabelecimento da verdade histórica acerca do local de nascimento do Tiradentes)", editado pela Gráfica do Senado.

Gostaria ainda de mencionar dois fatos que colhi nos "Autos da Devassa da Inconfidência Mineira" e que vêm mostrar o brio e patriotismo dos moradores da Vila de S. João del-Rei à época da conjuração - embora transvertidos pelo delator do movimento - e o plano do próprio Tiradentes para a sua terra natal.

O primeiro fato está no volume 5, p. 161, quando da acareação do Vigário Carlos Correia de Toledo com Joaquim Silvério dos Reis em 13/07/1791: "... o acareado Vigário de São José lhe tinha dito, que na Comarca de São João del-Rei havia mais de sessenta homens, que seguiam o mesmo partido do levante, os quais tinha reduzido o Alferes Joaquim José da Silva Xavier; e que entre eles havia muitos de grandes possibilidades; e que estavam prontos a concorrerem para este negócio, e gastarem até o último real...".

O segundo fato está registrado no mesmo volume 5, p. 305, quando da acareação do Ten. Cel. Domingos de Abreu Vieira com Joaquim Silvério dos Reis em 15/07/1791. Aí se lê: "... porque a capital, feita a sublevação, havia de ser na Vila de São João del-Rei...". Como explicar a predileção do Tiradentes por esta vila?

O romancista mineiro Gilberto de Alencar, em sua obra "Tal Dia é o Batizado" (senha que seria usada para deflagrar o levante) fala-nos de uma visita do Tiradentes ao Aleijadinho, formulando-lhe um pedido muito especial:
-- "... desejamos que você execute um monumento à república. Uma grande estátua a ser erguida numa das praças de São João del-Rei...
-- São João del Rei?
-- Sim, a capital será lá.
-- Logo vi. Sua terra, hem?
-- Não, não é por essa razão. É que a vila de S. João del-Rei está melhor situada do que a Vila Rica e dispõe de mais recursos. Só por isso".
Além disso, o ilustre romancista precisa outros elementos fundamentais que nortearam a vida do Tiradentes e que dizem respeito a este artigo. Na página 13, situa "... a fazenda do Pombal, à margem direita do Rio das Mortes e próxima da Vila de S. João del-Rei, a cujo termo pertencia...". Na página 16, revela que no princípio do ano de 1754, Domingos da Silva dos Santos matriculou os filhos Antônio e Joaquim José na escola do clarinetista Mestre Lucas, o qual "ensinava as primeiras letras e rudimentos de música em sua escola da vila de S. João del-Rei, instalada numa casa baixa próxima à igreja de S. Francisco". Finalmente, na página 197, informa sobre Bárbara Eleodora: "A mulher de Alvarenga (Peixoto) nascera em S. João del-Rei, onde residia o casal, era conterrânea de Tiradentes...".

Não poderia deixar de mencionar que acompanham o trabalho supracitado do estudioso Canabrava Barreiros os seguintes laudos abonadores:
1) do Institudo Histórico e Geográfico Brasileiro: "... depois da leitura atenta de As Vilas del-Rei e a Cidadania de Tiradentes, constitui, agora, ponto pacífico, que no ano de 1746, quando se deu o batismo de Joaquim José da Silva Xavier, os terrenos onde se situava a fazenda do Pombal, local de seu nascimento, estavam vinculados administrativamente à Vila de São João del-Rei";

2) do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil: "... Eduardo Canabrava Barreiros nos brinda com mais um interessante estudo, esclarecedor de muitos fatos históricos, mas, principalmente, esclarecedor da verdade, para ele incontestável, diante dos documentos autênticos reproduzidos dos originais, de que a Fazenda do Pombal fazia parte do território de São João del-Rei, à época do nascimento do glorioso alferes e durante a maior parte do período de disputa com São José del-Rei. Destarte, o vulto admirado do protomártir da nossa independência, 'herói tutelar do Brasil, o Tiradentes, nasceu no termo da vila de São João del-Rei'. É a conclusão.";

3) do Instituto dos Advogados Brasileiros: "... Depois de atenta leitura do texto e de meditada consideração dos documentos, inclusive cartográficos, que o acompanham, fiquei convencido, sem qualquer dúvida, da procedência da tese defendida pelo eminente historiador e geógrafo, ou seja, que o Alferes Joaquim José da Silva Xavier nasceu, no ano de 1746, em território que então pertencia à Vila de São João del-Rei. Ass.: Afonso Arinos de Melo Franco".
Continua...

* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ, além da Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do patrimônio histórico nacional. Mais...

São João del-Rei: a terra natal de Tiradentes >>> Parte 3

Por Francisco José dos Santos Braga*
 
- Artigo publicado originalmente na Revista de Cultura Vozes, ano LXXXVI, janeiro-fevereiro 1992, p. 80-91, nº 1, por ocasião do Bicentenário da Morte do Tiradentes, o qual deu origem a um discurso do Senador Alfredo Campos (PMDB-MG) em Plenário (11/03/1992) e a um opúsculo intitulado "Tiradentes, Cidadão Sanjoanense (uma contribuição ao restabelecimento da verdade histórica acerca do local de nascimento do Tiradentes)", editado pela Gráfica do Senado.

O quarto a reconhecer a cidadania sanjoanense do Tiradentes foi Canabrava Barreiros nascido em Curvelo-MG, que em 1976 nos brindou com o excelente estudo "As Vilas Del Rei e a Cidadania de Tiradentes", que faz parte da coleção Documentos Brasileiros (nº 172), onde, a partir da página 104, usque ad finem, o eminente técnico em cartografia firma o seguinte entendimento:
"a) Tiradentes nasceu na Fazenda do Pombal, no termo da Vila de São João del-Rei, isso em 1746.

b) Foi batizado na Capela de São Sebastião do Rio Abaixo, freguesia de N. S. do Pilar da vila de São João del-Rei.

c) Aos 9 anos de idade, em 1755, a área onde nasceu passou, em virtude de correição do Ouvidor da Comarca do Rio das Mortes, à jurisdição da Vila de São José del-Rei (atual Tiradentes).

d) Cinco anos depois, em 1760, uma irmã de Tiradentes e seu marido assinaram requerimento dizendo-se moradores do Rio Abaixo, na 'Freguesia de N. S. do Pilar da vila de São João del-Rei'.

e) O próprio Tiradentes informa, na primeira inquirição, em 22 de maio de 1789, ser 'NATURAL DO POMBAL, TERMO DA VILA DE SÃO JOÃO D'EL REY'.

f) Finalmente, em 238 anos de relacionamento comprovado, de Santa Rita do Rio Abaixo com as duas vilas del-rei, 30 anos foram sob a jurisdição de São José (atual Tiradentes), 29 anos não suficientemente comprovados, e 238 anos sob a jurisdição da vila de São João del-Rei".
Ou seja, aqui Canabrava Barreiros afirma categoricamente que o povoado onde se localiza a Fazenda do Pombal jamais deixou de estar juridicamente vinculado a São João del-Rei, mesmo após a correição de 17/12/1755, feita pelo ouvidor-geral da Comarca.

Após exaustivas pesquisas em documentos autênticos nos arquivos das duas localidades em ficha toponímica dos dois municípios, coube ao ilustre geógrafo estabelecer que "é patente o desligamento do distrito de Santa Rita do Rio Abaixo da vila municipal de São José del-Rei, com exceção do curto período iniciado em 1755, e terminado, ao que tudo parece, em 1760 ou logo depois. Período só parcialmente levantado por nós, em vista da ausência de dados oficiais, oriundos do poder civil, muito embora tenhamos alinhado farta documentação de origem eclesiástica".

À vista farta documentação trazida a lume pela respeitada autoridade em cartografia, parece que a disputa sobre a cidadania do Tiradentes perde sua razão de ser, permitindo-me pleitear que a comemoração oficial do bicentenário da morte de Tiradentes se realize na sua terra natal. Tradicionalmente, o Governo Estadual de Minas Gerais, em 21 de abril, transfere a capital para Ouro Preto, pois foi principalmente aí, na antiga Vila Rica, que o Alferes fez sua pregação revolucionária e onde, após ter sido enforcado e esquartejado no Rio de Janeiro, teve sua cabeça exposta à execração pública, dentro de uma gaiola de ferro, no alto de um poste erguido no centro da praça principal, entre o palácio do governo e a cadeia pública, "para escarmento dos povos".

Como sanjoanense nato, admirador de seu zelo pela tradição e cultor de sua cultura, que através dos anos tem inscrito nos fastos da história vultos famosos como o Tiradentes, Bárbara Eleodora Guilhermina da Silveira (esposa do inconfidente Alvarenga Peixoto), o poeta - membro da Arcádia Mineira - Manuel Inácio de Alvarenga, o compositor Padre José Maria Xavier, o historiador Basílio de Magalhães (um dos mais ilustres e cultos filhos adotivos de São João del-Rei), o ex-Presidente Tancredo Neves e o atual Procurador Geral da República, Aristides Junqueira Alvarenga, para citar apenas alguns; portanto, identificando-me com os destinos desta terra, é que venho reivindicar às Autoridades competentes - o IHGB, o SBPC, a Secretaria de Cultura do Estado de Minas e demais entidades culturais brasileiras - e especialmente ao Vice-Presidente da República, mineiro, Itamar Franco, se dignem restabelecer a verdade histórica, tributando a São João del-Rei a homenagem de ter sido o berço do Tiradentes, através de reconhecimento oficial, por ocasião dos festejos do bicentenário de sua morte.

Continua...

* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ, além da Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do patrimônio histórico nacional. Mais...

São João del-Rei: a terra natal de Tiradentes >>> Parte 2

Por Francisco José dos Santos Braga*

- Artigo publicado originalmente na Revista de Cultura Vozes, ano LXXXVI, janeiro-fevereiro 1992, p. 80-91, nº 1, por ocasião do Bicentenário da Morte do Tiradentes, o qual deu origem a um discurso do Senador Alfredo Campos (PMDB-MG) em Plenário (11/03/1992) e a um opúsculo intitulado "Tiradentes, Cidadão Sanjoanense (uma contribuição ao restabelecimento da verdade histórica acerca do local de nascimento do Tiradentes)", editado pela Gráfica do Senado.

Basílio de Magalhães, natural de Barroso-MG, pela primeira vez ao que me consta, sustentou a tese da cidadania são-joanense do Alferes, em artigos que fez publicar no "Minas Gerais" em 1920, sob o nome singelo de "O Tiradentes é Sanjoanense", reproduzido na Revista do Arquivo Público Mineiro em 1933. Nele, o historiador mostra que "a povoação de S. João d'El-Rei fora elevada à categoria de villa em 8 de dezembro de 1713, de modo que a comarca, fundada no ano seguinte, lhe outorgou domínio e jurisdição sobre toda a vasta superfície territorial compreendida entre o ribeirão das Congonhas e das fronteiras de Guaratinguetá".

Desse ato de 6 de abril de 1714 consta que São João del-Rei já era "cabeça da comarca do Rio das Mortes", cabendo-lhe, por isso, a jurisdição sobre todo o território mineiro compreendido entre os limites de Vila Rica e Guaratinguetá.

Apenas a 19 de janeiro de 1718, o Conde de Assumar erigiu em vila o arraial Velho de Santo Antônio do Rio das Mortes, dando-lhe o nome de S. José d'El-Rey, sob os protestos da Câmara de S. João d'El-Rey.

A 7 de março do mesmo ano, o supracitado governador concedeu à novel vila meia légua de terras em quadra, mas, em face de representação da edilidade são-joanense pelo flagrante desrespeito à sesmaria anteriormente outorgada a esta, houve por bem admitir que "o termo da Villa de Sam Joseph fosse de meia légua em circunferência fazendo Piam na Villa" e subordinado-lhe também à jurisdição os distritos de Cattas Altas da Noruega e Ituberaba.

Com efeito, nem a primitiva sesmaria de meia légua em quadra, muito menos a confirmada de meia légua em circunferência, obtida pela Câmara da Vila de São José del-Rei, atingiam o sítio de Pombal.

A posse legítima de S. João del-Rei no tocante ao Pombal só foi abalada quando, por pressão da Câmara sanjosefense, o então ouvidor-geral da comarca do Rio das Mortes, em capítulo de correição, feito a 17 de dezembro de 1755, determinou que fosse o Rio das Mortes o limite de demarcação natural entre os municípios das duas vilas.

Como a fazenda do Pombal estivesse situada à direita do referido curso d'água, o ato do ouvidor-geral veio dar legalmente à Câmara da vila de São José del-Rei o povoado de Santa Rita do Rio Abaixo e, por conseqüência, o sítio em que nascera o Tiradentes.

No entanto, Basílio entendeu que essa decisão do ouvidor-geral não passou em julgado, porque, em documentos de 1760 e 1779, o Rio Abaixo e a Capela N. S. da Ajuda do Pombal já são tidos como pertencentes a S. João del-Rei, concluindo: "Si, nas relações entre as duas vilas limítrofes, houve um momento, embora ephemero, em que o local, depois celebrizado pelo martyrio do seu filho egrégio, vacillou entre as duas orbitas de posse e de jurisdição - os documentos particulares, sobretudo os existentes nos archivos ecclesiasticos, são accordes, são unanimes a favor de S. João del Rey".

No final de seu artigo, o eminente historiador requer ao governo mineiro se digne reparar a clamorosa usurpação feita a S. João del-Rei, pois foi com base em elementos probantes de evidente precariedade (o processo de inventário da mãe do Tiradentes aforado em 1756 perante a justiça de S. José del-Rei), que o Governo de Minas Gerais "tão levianamente enxertou em S. José del Rei, pela simples virtude de um decreto, o berço de Tiradentes".

Cabe a mim e a todos os brasileiros perguntar, em consonância com Basílio de Magalhães: "E quem é que melhor que o próprio Tiradentes, poderia saber a quem pertencia o pedaço de terra onde viera à luz e que ele havia de santificar pelo mais glorioso martírio?"

Outro historiador, desta feita um sanjoanense, Luís de Melo Alvarenga, supracitado, em artigo manuscrito denominado "Tiradentes é Sanjoanense", a respeito do flagrante equívoco do governo mineiro, entende "que o principal causador foi o ilustre historiador Xavier da Veiga, quando deu favorável a mudança do nome de São José del-Rei, para Tiradentes, por ser, segundo ele, Pombal pertencente a São José. Baseou sua argumentação no inventário da mãe de Tiradentes efetuado em São José, em 1756. Mas, como já vimos, nesta época estava em vigor o ato de correição de 17 de dezembro de 1755, de valor um tanto quanto duvidoso...".

Anteriormente, no mesmo artigo, Melo de Alvarenga já afirmara categoricamente. "Acontece ainda que esta correição só poderia ter valor na parte administrativa interna da ouvidoria, por faltar autoridade legal a um simples ouvidor mudar a demarcação de uma vila, tanto assim que já em 1760 voltava esta região a pertencer a São João del-Rei".

Outro historiador sanjoanense, Fábio Nélson Guimarães, publicou na Revista de História e Arte nº 6 (1964) artigo denominado "Onde Tiradentes Nasceu", no qual lamenta que "a partir de 1963, ano em que São João del-Rei comemorou 250 dezembros de sua autonomia municipalista, com incontido pesar, ela aceitou a perda constitucional da fazenda do Pombal, que se integrou aos destinos de outra cidade, recém-criada. A 1º de março de 1963, Pombal, termo do município são-joanense, vetusta e inquebrantável terra que hospedou na via terrena o primeiro gemido de Joaquim José da Silva Xavier, fixou-se, legalmente, ao patrimônio de Ritápolis ...".

Outro artigo do mesmo pesquisador intitulado "O Local Onde Nasceu o Alferes", editado em 1972 pelo Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, em comemoração ao sesquicentenário da Independência do Brasil, ressalta que, na ocasião da medição e demarcação das divisas da recém-criada vila de São José del-Rei (6 a 8 de fevereiro de 1719) se entendeu que seria "o distrito da vila, limitado pela serra de seu nome..." Ora, esse limite natural - a Serra de São José - interpõe-se entre a Vila de São José e a fazenda do Pombal. O autor deixou explícito que a referida fazenda, não pertencendo à Vila de São José, automaticamente faria parte da jurisdição territorial da Vila de São João, por ser esta, cabeça de comarca. Para comprovar sua tese, acrescenta: "Em 1724, o capitão Francisco Viegas Barbosa (o construtor inicial da então matriz do Pilar são-joanense) obteve licença para edificar a ermida de N. Sra. da Ajuda, no Pombal, ocasião em que declarou que aquele sítio pertencia a São João del-Rei. Foi também o que afirmou o padre Alexandre Marques do Valle, Vigário da Vara, no termo da bênção da ermida, a 15 de julho de 1729". O autor municiou o seu artigo com essas e outras informações, para concluir que "a fazenda do Pombal, até 1755, pertenceu ao termo e jurisdição da Vila de São João del-Rei, quando o Alferes já contava com pouco mais de 9 anos".

Continua...

* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ, além da Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do patrimônio histórico nacional.Mais...

sábado, 13 de dezembro de 2008

São João del-Rei: a terra natal de Tiradentes > > > Parte 1

Por Francisco José dos Santos Braga*

- Artigo publicado originalmente na Revista de Cultura Vozes, ano LXXXVI, janeiro-fevereiro 1992, p. 80-91, nº 1, por ocasião do Bicentenário da Morte do Tiradentes, o qual deu origem a um discurso do Senador Alfredo Campos (PMDB-MG) em Plenário (11/03/1992) e a um opúsculo intitulado "Tiradentes, Cidadão Sanjoanense (uma contribuição ao restabelecimento da verdade histórica acerca do local de nascimento do Tiradentes)", editado pela Gráfica do Senado.

"Genealogia do Tiradentes
Os Teres dos seus Pais

Tendo vindo ao mundo,
no dia 12 de nov. de 1748 **, no arraial
do Pombal, Termo da Vila de
São João del Rey, Capitania das
Minas Gerais,
Nascido sou de Domingos da Silva
dos Santos com D. Antônia da
Encarnação Xavier, que Deos haja;
Aquele português de boa cepa e
relativa instrução, que ainda os há,
até hoje,
e era natural da Freguesia de
Santo André, no Salto,
de Basto,
Vila Nova do Teixeira,
Comarca da Vila dos Guimarães,
do Reino de Portugal;
Esta,
do mesmo arraial donde fui vindo,
isto é: Pombal, Termo da Vila de
São João del Rey,
da Capitania das Minas;
(...)"

(Dantas Mota: Elegias do País das Gerais, p. 200)

** O poeta desconhecia a verdadeira data de nascimento do Tiradentes (1746).

No próximo dia 21 de abril, toda a Nação estará comemorando o bicentenário da morte do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, ínclito herói nacional que deu a própria vida por um ideal libertário, pelo que fez jus ao título de Protomártir da Independência e da República do Brasil e hoje, por decreto federal, Patrono Cívico da Nação Brasileira.

O Presidente da República, ciente da importância do evento, nomeou, através do Decreto de 17 de janeiro de 1992, a Comissão do Bicentenário da Execução de Tiradentes, sob a presidência do Vice-Presidente da República, Itamar Franco.

Enquanto que inúmeros preparativos são iniciados a nível do Executivo Federal, para prestar devida e reconhecida homenagem ao vulto ímpar da nossa história e emprestar o merecido brilhantismo ao transcurso do feriado nacional, os órgãos de divulgação da imprensa mineira diariamente noticiam enorme disputa entre a cidade de São João del-Rei e a vizinha Tiradentes, antiga São José del-Rei, denominação que foi modificada pelo Decreto nº 3, de 06/12/1889, no governo Cesário Alvim. O litígio desta feita refere-se basicamente à cidadania do Tiradentes, uma vez que ambas se consideram terra natal da principal figura da Inconfidência Mineira.

Na primeira inquirição da Devassa, na Fortaleza da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, em 22 de maio de 1789, o próprio Tiradentes informou ser "natural do Pombal, termo da Villa de S. João de El Rey", verbis:
"E sendo perguntado, como se chamava, de quem era filho, donde era natural, se tinha alguas ordens, se era casado, ou solteiro, e que ocupação tinha.

Respondeo que se chamava Joaquim José da Silva Xavier, filho de Domingos da Silva dos Santos, e de sua mulher Antônia da Encarnação Xavier, natural do Pombal, termo da Villa de S. João de El Rey Capitania de Minas Geraes, que tinha quarenta e hum annos de idade, que era solteiro, q não tinha ordens alguas; e com effeicto, vendo-lhe eu o alto da Cabeça, vi que não tinha tonsura algua, e que era Alferes do Regimento da Cavallaria paga de Minas Geraes".
De fato, encontra-se na Biblioteca Nacional o "Livro para servir de assentos dos batizados da freguezia de N. S. do Pilar da Vila de São João del-Rei - 1742/1749", onde, a folhas 151v., no dia 12 de novembro de 1746, Joaquim José da Silva Xavier era batizado na Capela de São Sebastião do Rio Abaixo, filial da Matriz de Nossa Senhora do Pilar da Vila de São João del-Rei. Para não restar qualquer dúvida, transcrevo a seguir os dizeres do assento do batizado do Tiradentes:
"Aos doze dias do mez de Novembro de mil setecentos e quarenta e seis annos, na Capella de São Sebastião do Rio abaixo o Reverendo Padre João Gonçalves capellão da dita Capella baptizou e poz os Santos Oleos a Joaquim filho legitimo de Domingos da Silva dos Santos e de Antonia da Encarnação Xavier; foram padrinhos Sebastião Ferreira Leytão, e não teve madrinha; do que fiz este assento.

O Coadjutor Jeronymo da Fonseca Alz."
Aliás, neste mesmo livro, cuja fotocópia se acha no arquivo paroquial da atual Basílica de Nossa Senhora do Pilar de São João del-Rei, encontram-se mais três registros de batizados realizados na mesma Capela e relativos a irmãos do Tiradentes, a saber:
1) a fls. 101 e 101v.: Antonio, batizado aos 05/04/1745;

2) a fls. 225: José, batizado aos 05/12/1748;

3) a fls. 213v.: Ana, batizada aos 29/06/1748. Pela leitura deste assento, fica-se sabendo que Ana não era sua irmã carnal, sim irmã de criação, eis que foi "exposta a porta de Domingos da Silva dos Santos".
Esses assentos se revestem de especial importância, já que deixam claro, primeiro que a Capela de São Sebastião era "filial desta Matriz de Nossa Senhora do Pilar da Vila de São João del-Rei", e segundo, quem eram "os pais do bautizado desta dita freguezia da vila de São João del-Rei". Quem primeiro publicou esses documentos elucidativos foi o genealogista são-joanense Luís de Melo Alvarenga, em artigo denominado "Documentos Genealógicos de Bárbara Eleodora e Tiradentes", na revista Vozes de Petrópolis, setembro-outubro de 1954.

Se eclesiasticamente não paira dúvida sobre a paróquia sob cuja jurisdição nasceu o herói, resta ainda indagar sobre sua cidadania quanto ao aspecto civil: Afinal, onde atualmente se localiza a Fazenda do Pombal, onde nasceu o Alferes? De 1963 em diante, o Pombal está sob a jurisdição da cidade de Ritápolis. A Lei Estadual nº 2.764, de 30 de dezembro de 1962, elevou a Município o referido distrito são-joanense, modificando-lhe o nome, que era de Santa Rita do Rio Abaixo.

Devido aos permanentes litígios entre as duas vilas e depois municípios de São João del-Rei e Tiradentes sobre sua jurisdição territorial, por mais de dois séculos, fica extremamente complicado para um leigo elucidar o relacionamento político-administrativo do povoado de Santa Rita do Rio Abaixo com as duas localidades litigantes. Entretanto, não o foi, para estudiosos de reconhecida seriedade que se debruçaram sobre o tema com isenção de ânimo.

Continua...  Parte 2

* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, hoje UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ, além da Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do patrimônio histórico nacional.Mais...