Por MÁRIO CELSO RIOS *
Não há a menor dúvida de que existe, na literatura brasileira, um "caso" Jorge de Lima. Tendo sido, na opinião de muitos críticos e poetas do Brasil e de outras partes do mundo (incluindo o autor destas linhas), aquele que mais longe foi em nossa terra na feitura do verso e no uso da poesia como expressão de um povo e de uma nação, é de se espantar seja ele posto de lado — permanentemente de lado — pela presente comunidade literária do País. Em vida, teria sido normal, por ser católico praticante e ortodoxo, colocá-lo sob suspeita. (...) Como pode nosso maior poeta ser colocado, por gerações posteriores, em nível tão baixo? Como pode ser tão esquecido? Como pôde ter sido candidato à Academia Brasileira de Letras cinco vezes e não ter sido eleito? (...).
Antonio Olinto: O Caso Jorge de Lima, in Tribuna da Imprensa (RJ), edição de 26/06/2007
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| Jorge (Mateus) de Lima (1893-1953) |
Injustamente, Jorge de Lima anda esquecido, mas venerado por especialistas e leitores mais bem informados como é o meu caso. Ana Maria Paulino, uma das maiores estudiosas do poeta, atribui o fato ao epíteto de "poeta cristão" de que foi tachado e a qualidade de "poesia religiosa" conferida a seus versos, o que teria afastado deles o leitor dos anos 60. Segundo Paulino, o leitor estaria mais interessado em obras cujo tema abordasse o momento político-social vivido pelo país.
Nascido em União dos Palmares (AL) e falecido no Rio de Janeiro, filho de um senhor de engenho. Descendendo de uma antiga linhagem rural do Nordeste, sua infância de engenho, na plantação paterna de cana de açúcar, explica sua inclinação à terra natal e a simpatia para com a raça negra. Lançou-se escritor, menino ainda, com um soneto parnasiano: "O Acendedor de Lampiões" (1907). Ainda da fase parnasiana cito "XIV Alexandrinos" (1914).
Em 1911, iniciou o curso de Medicina em Salvador, tendo concluído no Rio de Janeiro em 1915. Ainda em 1915, retornou a Maceió para exercer a Medicina. Em 1919 elegeu-se Deputado Estadual pelo PRAL-Partido Republicano de Alagoas. Em 1930, transferiu-se para o Rio de Janeiro por desavenças políticas, e ali na Capital exerceu a clínica médica e foi professor de Literatura Brasileira na Universidade do Brasil. O seu consultório na Cinelândia tornou-se famoso como centro de reunião de intelectuais e amigos. Após a queda do Estado Novo, militou na política, elegendo-se vereador no antigo Distrito Federal, pela UDN. De 1937 a 1945, teve sua candidatura à Academia Brasileira de Letras recusada por seis (sic) vezes. Em 1952, é fundada a Sociedade Carioca de Escritores (SOCE), da qual foi o primeiro presidente provisório.
Em 1925 aderiu ao Modernismo, mas pertence à chamada "geração de 30", segunda geração de modernistas. Época de seus belos poemas regionais (negros). "Essa Negra Fulô" (1928) lhe trouxe êxito estupendo, nacional e mundial, tendo a artista argentina Berta Singerman uma intérprete incomparável.
A partir de 1930, dedica-se à militância católica. Em feliz associação com Murilo Mendes, escreveu um livro de poemas religiosos: Tempo e Eternidade (1935). Essa mesma tendência revelou-se em A Túnica Inconsútil (1938), espécie de profissão de fé do eu-lírico que se coloca no mundo regido pela lei divina, composta por por 73 poemas de forma livre (dentre os quais se destaca o poema "O grande desastre aéreo de ontem", dedicado a Cândido Portinari: "Vejo sangue no ar... Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.") e Anunciação e Encontro de Mira-Coeli (1950), com sua linguagem místico-religiosa.
Fase negra: É de 1947 o livro Poemas Negros, cujo tema é a realidade africana no Brasil e a vida na regiões Norte e Nordeste do país.
Mas há de ser na fase hermética/(neo)classizante com o Livro dos Sonetos (1949) e Invenção de Orfeu (1952) que a excelsa inspiração do poeta alcançará seu ponto culminante e seu lugar definitivo, graças ao domínio técnico do verso, o poder onírico, a originalidade e o sopro épico bebido nas fontes da grande tradição da arte ocidental. Em Invenção de Orfeu (retorno à epopeia, embora utilize heterogeneidade de formas como soneto, sextilha, quadra, oitava, terça; rima, bem como gênero híbrido: épico X lírico. Conforme E. R. Curtius: O poeta épico navega em um grande navio no amplo mar; o poeta lírico em um barquinho pelo rio, Jorge de Lima revisita Camões, construindo uma épica camoniana subjetivada. Segundo João Gaspar Simões, é o caso de uma epopeia interior: o primeiro poema de brasilidade interior.
Destacou-se Jorge de Lima em diversas áreas de sua exemplar atuação: médica, política, literária (extraordinária contribuição poética, crítico-histórica e novelística) e artística (como pintor e escultor, fazia fotomontagens).
José Santiago Naud assim definiu o poeta alagoano: "Jorge de Lima é como um painel. Total. Registro das nossas raízes, linguagem criada ou herdada, mito e mistério, a complexidade do universo referida pelo local. Assim como Drummond estabeleceu o código do dizer poético em brasileiro, Jorge de Lima abriu peculiaridades ao universal."
A AVE
Por Jorge de Lima (in A Túnica Inconsútil)
Ninguém sabia donde viera a estranha ave.
Talvez o último ciclone a arrebatasse
de incógnita ilha ou de algum golfo
ou nascesse das algas gigantescas do mar;
ou caísse de uma outra atmosfera,
ou de outro mundo ou de outro mistério.
Velhos homens do mar nunca a haviam visto nos gelos
nem nenhum andarilho a encontrara jamais:
era antropomorfa como um anjo e silenciosa
como qualquer poeta.
Primeiro pairou na grande cúpula do templo
mas o pontífice tangeu-a de lá como se tange um
[demônio doente.
E na mesma noite pousou no cimo do farol;
e o faroleiro tangeu-a: ela podia atrapalhar as naus.
Ninguém lhe ofereceu um pedaço de pão
ou um gesto suave onde se dependurasse.
E alguém disse: “essa ave é uma ave má das que devoram
[o gado.
E outro: “essa ave deve ser um demônio faminto”.
E quando as suas asas pairavam espalmadas dando
[sombra às crianças cansadas,
até a mães jogavam pedras na misteriosa ave perseguida
[e inquieta.
Talvez houvesse fugido de qualquer pico silencioso entre
[as nuvens
ou perdesse a companheira abatida de seta.
A ave era antropomorfa como um anjo
e solitária como qualquer poeta.
E parecia querer o convívio dos homens
que a enxotavam como se enxota um demônio doente.
Quando a enchente periódica afogou os trigais, alguém
[disse:
— A ave trouxe a enchente.
Quando a seca anual assolou os rebanhos, alguém disse:
— A ave comeu os cordeiros
E todas as fontes lhe negando água,
a ave desabou sobre o mundo como um Sansão sem vida.
Então um simples pescador apanhou o cadáver macio e
[falou:
— Achei o corpo de uma grande ave mansa.
E alguém recordou que a ave levava ovos aos anacoretas.
Um mendigo falou que a ave o abrigara muitas vezes do
[frio.
E um nu: a ave cedeu as penas para meu gibão.
E o chefe do povo: era o rei das aves, que
[desconhecemos.
E o filho mais moço do chefe que era sozinho e manso:
— Dá-me as penas para eu escrever a minha vida
tão igual à da ave em quem me vejo
mais do me vejo em ti, meu pai.
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| Mário Celso Rios (1954-2020) na ABL-Academia Barbacenense de Letras, presidindo a posse do gerente deste blog como membro da AMEF-Academia Mantiqueira de Estudos Filosóficos em 16/05/2019 |
Antes de meu comentário sobre o poema, digo a você que no ano de 1993, fui visitar na Filadélfia o Museu dedicado a Edgar Allan Poe. Lá havia traduções de THE RAVEN em vários idiomas. Para minha frustração, nada em português! Lembrei-me dar tradução de Machado de Assis e da de Fernando Pessoa. Aí, enviei uma carta a Zilda de Castro e pedi a ela para me enviar uma cópia da versão machadiana a partir da obra completa que havia no Colégio Estadual Soares Ferreira e que lera nos meus tempos do curso científico. Recebi posteriormente um agradecimento expresso do governo americano pelo meu gesto em prol da literatura. (...)
Releio o poema A Ave de Jorge de Lima e me recordo de Hesíodo (Teogonia e Trabalhos e Dias) e de sua recriação de Prometeu Acorrentado em que o preço das vida por ter acesso ao fogo do saber é ter seu fígado devorado pela águia, ave emblemática como a de Jorge de Lima. Também me vem à mente Raduan Nassar e de sua primorosa Lavoura Arcaica em que as questões vida-morte, solidão-convivência, obediência-libertação, diálogo-incompreensão nos remetem a esse lapidado texto jorgiano. A AVE de Lima brilha e voa alto por trazer sutis referências à essência — "de onde vim? quem sou? qual meu papel no mundo? temos alguém além de nosso egocentrismo na convivência? somos anacoretas e misantropos? na pena de uma ave existe a iridescência de todo o ser? ou a pena em que me expresso é tão-somente sinal do meu inconformismo diante da minha irremediável finitude?"
Na mitologia ocidental a culpa original é trabalhada como arquétipo visceral ou como possibilidade catártica. Enquanto Poe cria um "nunca mais" em estado de eclipse, o poema de Jorge de Lima é uma tese em aberto. Isso é uma das nuances que o torna maestral.
* Pesquisador, advogado, professor, incentivador cultural, pertenceu a várias entidades de valorização das causas intelectuais, foi membro da Academia Barbacenense de Letras, tendo sido seu presidente de 1993 a 2020, e participou ativamente de todas as edições do Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo. Durante vários anos foi professor da Escola Estadual Professor Soares Ferreira e também professor da Faculdade de Direito em Barbacena.
II. BIBLIOGRAFIA
BELÉM, Euler de França: Poeta brasileiro quase ganhou Nobel de Literatura, Jornal Opção 50 Anos, edição de 17/07/2019
OLINTO, Antonio: O Caso Jorge de Lima, in Tribuna da Imprensa (RJ), edição de 26/06/2007
PAULINO, Ana Maria: Jorge de Lima, São Paulo: Edusp, 1995 (Coleção Artistas Brasileiros, 1)




