sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Algumas elucubrações sobre o Distrito de São Sebastião da Vitória e sobre a necessidade de "falar do nosso quintal"


Por José Antônio de Ávila Sacramento *

Este escriba acredita que uma melhor compreensão das diversas estruturas setecentistas e oitocentistas dos nossos arraiais pode ser importante para o entendimento da formação social das atuais cidades. Considera que as referências rurais ainda estão muito presentes na formação das identidades culturais dos atuais sítios urbanos, principalmente no que se refere à relação dos nossos sub-burgos e a cidade de São João del-Rei, dentre tantas outras plagas destas "muitas Minas". O desenvolvimento satisfatório de uma cultura torna-se cada vez mais visível e consistente a partir do momento em que a população se reconhece através da sua história e, assim, passa a ter a auto-estima elevada e se interessa em percorrer sem ressalvas as várias facetas de suas ancestralidades. Aleksandr Púchkin disse o que Tolstói repetiu por muitas vezes: "quer ser universal, conheça primeiro o seu quintal".

Ao ousar começar a escrever alguma coisa sobre o distrito são-joanense de São Sebastião da Vitória, creio que vale iniciar a dita escrevinhação para o BLOG DE SÃO JOÃO DEL-REI registrando algo elementar a respeito da origem das devoções ao mártir São Sebastião e Nossa Senhora das Vitórias (ou Nossa Senhora da Vitória) que estão relacionadas com o povo do local:

Sebastião nasceu em Narbona, na França, no final do século III. Há quem o tenha como italiano, nascido na cidade de Petrória ou Milão. Alistou no serviço militar de Roma e tornou-se um dos oficiais prediletos do Imperador Diocleciano e comandante de sua guarda pessoal. Valendo-se de seu alto posto militar, Sebastião fazia visitas freqüentes aos cristãos que se encontravam presos para serem levados ao Coliseu, em que seriam devorados por leões ou mortos em lutas com os gladiadores. Essa fama de benfeitor dos cristãos se espalhou e fez com que Sebastião fosse denunciado ao Imperador por um soldado. Assim, o Imperador ainda tentou fazer com que Sebastião renunciasse ao cristianismo. Diante do Imperador, Sebastião não negou a sua fé e foi condenado à morte, sem direito a apelação. Então, foi alvejado com flechadas e depois o deixaram a sangrar para morrer. À noite, algumas mulheres foram ao lugar da execução para tirar o corpo e dar sepultura a Sebastião e notaram que ele ainda estava vivo. Então, elas o levaram e cuidaram de seus ferimentos. Restabelecido, Sebastião voltou a disseminar abertamente o cristianismo. Ele voltou a se apresentar a Diocleciano para lhe pedir que deixasse de perseguir os cristãos. Ignorando os pedidos de seu ex-oficial, o Imperador ordenou que Sebastião fosse espancado até a morte e que seu corpo fosse jogado nos esgotos de Roma, para que não fosse venerado como mártir pelos cristãos. Era o ano de 288 d.C. e uma mulher chamada Luciana, mais tarde Santa Luciana, retirou-o das cloacas romanas e sepultou-o nas catacumbas. Vem do primeiro martírio a São Sebastião a imagem imortalizada dele amarrado a um tronco, com o corpo perfurado por flechas e que passou a ser venerado como santo padroeiro contra a peste, a fome e a guerra. O dia consagrado a São Sebastião é o 20 de janeiro, pois se acredita que este foi o dia da morte dele.

Sabe-se que um mesmo episódio histórico deu origem ao título de Nossa Senhora das Vitórias e, também, ao de Nossa Senhora Auxiliadora e de Nossa Senhora do Rosário; são títulos quase que trigêmeos e se referem à vitória dos Cristãos sobre os Turcos Maometanos, em Lepanto: Nossa Senhora Auxiliadora (por causa do auxílio Dela aos Cristãos na referida batalha), Nossa Senhora do Rosário (por causa de uma das armas usada foi a do Santo Rosário) e das Vitórias (por causa da grande vitória final, no golfo de Lepanto, Grécia), assim eternizadas "Auxilium Christianorum". Além de Nossa Senhora das Vitórias, o povo cristão também homenageia a Mãe de Deus com o título de Nossa Senhora de Lepanto. O título de Nossa Senhora da Vitória foi dado a Maria pelo papa Pio V, depois da Batalha de Lepanto, ocorrida em sete de outubro de 1571, por estar firmemente persuadido de que essa vitória fora obtida por uma particular proteção da Virgem Maria. Há registro de que no mesmo instante da vitória obtida em Lepanto, estando reunidos o Papa Pio V e o seu tesoureiro em Roma, na sala do Consistório, de repente, ele se levantou e chegou até a janela, olhou para o céu e falou: "Ide com Deus. Agora não é hora de tratar dos negócios, mas sim de dar graças, pois nossa esquadra acaba de vencer". O registro desse acontecimento consta no processo de canonização de São Pio V. O dia consagrado a Nossa Senhora das Vitórias e a Nossa Senhora do Rosário é o sete de outubro; a celebração de 24 de maio é dedicada a Nossa Senhora Auxiliadora e remonta ao pontificado do Papa Pio VII e relembra a sua libertação do cativeiro, por Napoleão, em 1814, quando entrou triunfalmente em Roma, retomando o seu poder pastoral.

São Sebastião da Vitória é a denominação de um dos cinco distritos do Município de São João del-Rei. Segundo a tradição oral, o nome do distrito teve a sua origem na Guerra dos Emboabas, entre paulistas e portugueses, ocasião em que os últimos comemoraram a vitória, em 1709, fincando uma grande bandeira vitoriosa e outras menores a aproximadamente 6 km da atual sede distrital, localidade até hoje conhecida pelo nome de Povoado e/ou Alto das Bandeirinhas. Mesmo não havendo a fundamentação documental deste episódio, achei importante registrá-lo aqui como homenagem à memória oral daquele povo. Outra hipótese, a mais provável, é a de que São Sebastião tenha se incorporado ao nome do distrito por se Ele o santo protetor dos fazendeiros. Quanto ao nome Vitória, ele pode ser decorrente da antiga Fazenda da Vitória, da qual se acredita ter originado aquele arraial.

A devoção a São Sebastião e Nossa Senhora das Vitórias, certamente se efetivaram com maior força a partir da construção da primeira capela, denominada Nossa Senhora das Vitórias, inaugurada em 04 de outubro de 1884, pelo do Pe. José Bonifácio dos Santos, então vigário de São Miguel do Cajuru. Em 28 de abril de 1880 o Pe. José Bonifácio dos Santos solicitou a autorização ao então bispo de Mariana, D. Antônio Maria Correia de Sá Benevides, para edificação de uma capela que seria filial da Capela de São Miguel do Cajuru. O povo se uniu e, com muito trabalho e sacrifícios, foram organizados variados eventos em benefício da construção do templo. Foi também construído um cemitério, anexo à Capela. A Capela de Nossa Senhora das Vitórias foi elevada à categoria de Matriz de São Sebastião, através do Decreto Canônico de D. Helvécio Gomes de Oliveira (arcebispo de Mariana) em 25 de março de 1925; o cônego João Batista da Trindade, então vigário de Conceição da Barra de Minas, foi designado para dar assistência à paróquia recém-criada.

A atual matriz, mais ampla e confortável, teve sua construção iniciada em 19 de março de 1961, graças aos esforços do pe. Antônio Batista Lopes, com a ajuda do povo. Em 19 de janeiro de 1964 foi então inaugurada a obra. Neste dia, com pompa e circunstância, foi transportada a imagem do glorioso São Sebastião da igreja antiga para a nova. Embora este escriba não tenha a confirmação, ouvia dizer desde criança que na nova Matriz há (ou havia?) uma relíquia do mártir São Sebastião, um pedaço de osso, conseguido em Roma por D. Delfim Ribeiro Guedes, finado bispo da Diocese de São João del-Rei.

Uma antiga associação – Damas do Sagrado Coração de Jesus – foi criada em 07/08/1921 pelo Pe. Francisco Goulart, então vigário de São Miguel do Cajuru; essa Associação mais tarde transformou-se na Irmandade do Sagrado Coração de Jesus, mais conhecida como "Apostolado da Oração". A Associação das Filhas de Maria foi criada em 1953 e a Irmandade do S.S. Sacramento em 1965.

A primeira Semana Santa foi realizada externamente em 1964, com a aquisição das imagens do Senhor dos Passos, N. Sra. das Dores e Senhor Morto, providenciadas pelo pe. Antônio Batista Lopes. A festa do padroeiro daquele distrito acontece em vinte de janeiro, quando há novenário solene, missas e procissão do padroeiro; era e ainda deve ser característica dessa Festa a apresentação das Folias de São Sebastião, a promoção de leilões de gado e de prendas miúdas.

O primeiro vigário residencial do Distrito foi o dinâmico pe. Antônio Domingos Batista Lopes, empossado em 18 de abril de 1952. Foi a partir dessa data que o Distrito começou a conquistar alguns melhoramentos substanciais. O binômio "Pe. Lopes - São Sebastião da Vitória" ficará por todo o sempre gravado positivamente na memória dos locais, sobretudo daqueles que tiveram a oportunidade de conhecê-lo.

A primeira iluminação incandescente do local aconteceu em 1953/4, através da energia gerada por um motor a óleo, instalado nos fundos da Casa Paroquial, pelo Pe. Lopes. O abastecimento d’água, até então rudimentar, era mantido através de carneiro hidráulico e, depois, através de bomba movida a diesel, providenciados pelo Pe. Lopes; a distribuição de água foi solucionada de modo satisfatório pelo prefeito Octávio de Almeida Neves, em 1977. Pertencem ao Distrito os povoados/vilas do Tijuco, Bandeirinha, Januário, Caquende, Cruzeiro da Barra, Engenho de Serra e Valo Novo.

Desde 1909 o ensino foi mantido pelo Estado. A primeira professora foi a sra. Ernestina Pacheco de Barros, que regia a Escola Mista S. Sebastião. Em 1933, através de doação de terreno pelo sr. Olímpio Moreira, o prefeito José do Nascimento Teixeira inaugurou o prédio escolar que até hoje, em sua homenagem, leva o nome de Escola Estadual Nascimento Teixeira.

Padre Miguel Afonso de Andrade Leite (1912-1976), virtuoso nascido no distrito de São Miguel do Cajuru, como era de costume, atendia a diversas capelas rurais, assim como deu grande assistência religiosa ao povo de São Sebastião da Vitória. O referido padre já teve seu processo de canonização requerido e o assunto está em tramitação na Diocese de São João del-Rei. São Sebastião da Vitória, no ano de 1947, foi palco de um dos mais inusitados fatos ocorridos com o padre cajuruense. Numa festa política, José Ascendino desferiu violentas facadas nas costas de João Pereira da Silva, vulgo "João Pataca", vindo a perfurar-lhe os pulmões, ocasionando-lhe a morte. Quatro médicos que estavam participando da festa, apesar de o socorrerem imediatamente, só puderam atestar a morte imediata de "João Pataca". Pe. Miguel fora chamado para ver o defunto e não se conformava que ele tivesse morrido sem receber a comunhão e, principalmente, sem ter perdoado ao seu assassino. Assim, para espanto dos que lá estavam, o padre veementemente começou a ordenar que "João Pataca" perdoasse a José Ascendino. Ocorreu um assombro geral, inclusive dos ditos médicos, pois o defunto ergueu-se, recebeu a comunhão, disse um sonoro "sim" ao perdão que lhe fora solicitado pelo padre e voltou a dar o último suspiro apenas depois que por ele fora abençoado. Testemunhas idôneas deram seus depoimentos de que mediante a um silêncio sepulcral, os médicos se retiraram da casa declarando que diante do fato que presenciaram deviam "rasgar os seus diplomas", tudo isso enquanto o padre permanecia rezando em latim, certamente que terminando de proferir a extrema-unção ao "João Pataca". Também em Caquende, povoado localizado no distrito de São Sebastião da Vitória, aconteceu um outro fato miraculoso, com a interveniência do padre: após a celebração de um casamento o padre Miguel se dirigiu à casa dos noivos, parabenizou-os e manifestou-lhes o desejo de tomar um copo de vinho. Os recém-casados, gente bastante humilde, não tinham vinho disponível; assim, se sentiram desconfortáveis com a situação e pediram ao padre que esperasse um pouco, pois mandariam procurar nas vizinhanças uma garrafa de vinho para servi-lo. O padre, percebendo a situação, pediu para que ninguém deixasse a sala; virou-se para o filtro de água, orou e fez o sinal da cruz; pediu dois copos e começou a servir aos noivos e as demais pessoas, à vontade. Dizem que todos beberam do vinho, mas ninguém se embriagou. Ao final, o sacerdote também bebeu alguns goles, tornou a fazer o Sinal da Cruz na direção do filtro, e o recipiente voltou a ficar cheio de água. O fato, também atestado por testemunhas, deve ter sido assim como uma reedição do Evangelho de João e das Bodas de Caná!

São Sebastião da Vitória, que teve as suas terras palmilhadas pelo "santo" padre Miguel, tem também seus atrativos históricos e turísticos. A Represa de Camargos, belo lago artificial que alimenta uma usina hidroelétrica da CEMIG, banha as terras locais. Velhas fazendas ainda resistem ao tempo. Corta o distrito uma parte do trajeto original do Caminho Velho, fantásticas trilhas bandeirantes e coloniais ligando Paraty - Ouro Preto, caminhos que agora, graças ao trabalho formatado pelas mentes luzidias do geólogo Áttila de Carvalho Godoy e do professor Oyama de Alencar Ramalho, foram convertidas no produto turístico Estrada Real. Todo o trajeto entre São João del-Rei e a cidade de Carrancas, incluindo o que corta o distrito, foi sinalizado pelo Instituto Estrada Real com marcos onde constam dados sobre o posicionamento global (GPS), latitude, longitude e altitude, um número de telefone para ser utilizado em caso de emergência e breve texto relativo aos acontecimentos históricos e à geografia locais.

A principal atividade econômica local é a agropecuária, com algumas indústrias de laticínios implantadas através do sr. Miguel Afonso Leite. Há bom serviço de telefonia, que existia precariamente desde 1978; há, também, delegacia de polícia (desde 1976), posto de gasolina, restaurantes, serviço de correio, escolas, cartório, posto de saúde e outros estabelecimentos. O tradicional pão-de-queijo mineiro apresenta-se como um dos atrativos culinários de maior supimpitude do distrito.

Esta humilde tentativa de historiar os distritos são-joanenses, especialmente neste artigo o Distrito de S. Sebastião da Vitória, não tem outra intenção a não ser a de fazer vir à tona a nossa rica história rural, antiga aspiração do meu saudoso tio José de Alencar de Ávila Carvalho (1925-2000); de certa forma, é a continuação do cumprimento de uma promessa que lhe fiz quando já estava em seus derradeiros dias. Solicito, portanto, àqueles que se interessarem e tiverem dados disponíveis sobre a história do distrito, que cooperem com esta provocação, enriquecendo-a, corrigindo-a e/ou completando-a.

Ainda há por aqui, nesta Região dos Campos das Vertentes, nos arredores da antiga sede da Comarca do Rio das Mortes, espalhadas pelas beiradas destes Caminhos Reais, ricos relatos históricos. Essas histórias estão pedindo voz e vez. São registros que estão adormecidos e encontram-se depositados sob a poeira do tempo, às margens destas ricas trilhas bandeirantes dos distritos de São Miguel do Cajuru, São Sebastião da Vitória, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, São Gonçalo do Amarante (ou "do Brumado"?) e Emboabas (por que não voltar a nominá-lo com o seu topônimo original de "São Francisco do Onça"?). São registros memoriais que esperam pela hora de serem bem levantados, discutidos e melhor analisados...

É preciso começar a conhecer e a cantar a nossa própria aldeia, falando mais do nosso quintal! Falemos, então, de modo estruturado, com propriedade, com gosto estético e com muita autenticidade, antevendo que esta nossa aldeia é nativamente bela e importante no âmbito de um variado universo e diante de todas as culturas. O que nos importa é a relevância e a qualidade do que descobriremos, é desvendar uma parcela ínfima do universo infindável que é a nossa aldeia. É preciso fazer isso sem temer a questão de ser rotulado como local ou regional, sem violentar o nosso modo de vida e sem depreciar as nossas melhores tradições diante de quaisquer outras, por mais respeitáveis e transcendentes que elas mereçam ou possam ser.

Então, cantemos a nossa aldeia com a alegria e a união dos galos que o poeta João Cabral de Melo Neto nos anunciou em "Tecendo a Manhã" - 1: "Um galo sozinho não tece uma manhã: / ele precisará sempre de outros galos. / De um que apanhe esse grito que ele / e o lance a outro; de um outro galo / que apanhe o grito de um galo antes / e o lance a outro; e de outros galos / que com muitos outros galos se cruzem / os fios de sol de seus gritos de galo, / para que a manhã, desde uma teia tênue, / se vá tecendo, entre todos os galos...".


Fotos:

1 - Matriz de São Sebastião da Vitória, quando da passagem dos integrantes da "Cavalgada Diamantina - Paraty" pela sede do Distrito / Estrada Real (foto cedida pelo Sr. Wilson Leite)

2 - Cruzeiro e campanário da igreja de Nossa Senhora da Vitória; o campanário, como era costume, foi construído em torre separada do corpo da capela (arquivo do autor)

3 - Pe. Miguel Afonso de Andrade Leite, um dos sacerdotes que prestaram boa assistência religiosa ao povo do Distrito de São Sebastião da Vitória (arquivo do autor)

4 - Igreja de Nossa Senhora da Vitória, a primeira do Distrito (arquivo do autor)



* José Antônio de Ávila Sacramento nasceu em São João del-Rei/MG (distrito de São Miguel do Cajuru). É sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, membro efetivo da Academia de Letras de São João del-Rei, conselheiro titular do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural. Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (Belo Horizonte/MG). Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (João Pessoa/PB). Sócio Correspondente da Academia Bauruense de Letras (Bauru/SP). Sócio Correspondente da Academia Mageense de Letras (Magé/RJ). Mais...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Valença, São João del-Rei e o Visconde do Rio Preto

Por José Antônio de Ávila Sacramento *

Em 27 de agosto de 2006, por iniciativa das presidências da Academia Valenciana de Letras (AVL) e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto (ICVRP), reiniciou-se um formidável e permanente intercâmbio histórico-cultural entre as cidades de Valença - RJ e São João del-Rei - MG.

Liderados pela dra. Elizabeth Santos Cupello e pelo dr. Mario Pellegrini Cupello, um grupo de intelectuais integrantes das entidades estiveram em São João del-Rei, visitando a Academia de Letras local. A finalidade maior da visita foi a reativação dos laços históricos e culturais que uniram, unem e unirão para sempre as duas cidades.

Valença, hoje próspera cidade fluminense, então Aldeia de Nossa Senhora da Glória de Valença, surgiu no final dos anos setecentos e início dos oitocentos; a Freguesia de Valença foi criada em 1813 e a partir de 1817 começaram a ser repartidas as sesmarias naquela região. A Aldeia de Valença foi elevada à condição de Vila em 1823, e alcançou a categoria de cidade em 29 de setembro de 1857.

A Academia Valenciana de Letras, atualmente muito bem presidida pela doutora Elizabeth Santos Cupello, foi criada em 1949. O Instituto Cultural Visconde do Rio Preto, magistralmente presidido pelo doutor Mário Pellegrini Cupello, foi fundado em 1990. O casal de presidentes é uma referência na área cultural valenciana. As ações e as pesquisas por eles empreendidas muito enriquecem as tradições daquela região fluminense. Ambos dirigentes mantêm laços históricos, familiares, afetivos e intelectuais com o Estado de Minas Gerais, mais particularmente com as cidades de Mariana, Ouro Preto e São João del-Rei. Devo afirmar que tanto a Academia Valenciana de Letras como o Instituto Cultural Visconde do Rio Preto exercem importantes papéis na cultura daquela região fluminense e cultuam, de modo exemplar, a memória do são-joanense Domingos Custódio Guimarães, o Visconde do Rio Preto, cuja vida e obra chega a ser praticamente desconhecidas dos habitantes desta terra "onde os sinos falam".

Domingos Custódio Guimarães, um descendente da ilhôa Júlia Maria da Caridade (como nós, destas "muitas Minas" Gerais!), nasceu em 23 de agosto de 1802, na localidade conhecida como Fazenda da Rocinha (atual município de Carrancas-MG, região que àquela época pertencia a São João del-Rei). Foi batizado aos 07 de setembro de 1802. Com 21 anos ele foi para o Rio de Janeiro e constituiu a empresa "Mesquita & Guimarães" que visava o fornecimento de carnes, em sociedade com João Francisco Mesquita (futuro Marquês de Bonfim). Valendo-se de boa administração e aproveitando a escassez de gêneros alimentícios no Rio de Janeiro, a empresa prosperou e gerou grande fortuna aos empresários. Anos depois, devido à forte concorrência no negócio de carnes, a sociedade foi desfeita. Financeiramente realizado, Domingos investiu a sua fortuna adquirindo fazendas no município de Valença, dedicando-as ao plantio do café, à criação de gado e ao plantio de hortifrutigranjeiros. Expandiu os seus negócios, adquiriu mais fazendas e tornou-se um dos maiores produtores de café do Brasil.

Casou-se com a senhora Maria das Dores de Carvalho e tiveram dois filhos: Maria Amélia Guimarães e Domingos Custódio Guimarães Filho (mais tarde 2º Barão do Rio Preto).

Juntamente com as atividades agropecuárias, o Visconde participou ativamente da vida político-administrativa e cultural de Valença. Foi um homem generoso. Socorria as famílias carentes e ajudava financeiramente várias entidades. Foi grande mantenedor da Santa Casa da Misericórdia de Valença. Construiu vários prédios e entregou-os à Administração Pública. Abriu estradas de rodagem, a exemplo da que ligava Valença à cidade de Taboas. Idealizou a construção de uma ferrovia entre Valença e o distrito de Juparanã. Instalou a rede de abastecimento de água potável em Valença. Foi um dos pioneiros da adoção da iluminação a gás, quando até mesmo o Império ainda desconhecia tal sistema.

Domingos Custódio Guimarães foi feito tenente-coronel da Guarda Nacional, por D. Pedro I; em 1829 foi agraciado pelo Imperador com o grau de "Comendador da Ordem da Rosa" e depois com o grau de "Gran Cruz da Ordem de São Bento de Avis". O Imperador Pedro II o condecorou com a "Gran Cruz da Ordem da Torre e Espada". Através de Decreto Imperial de 18 de dezembro de 1847 ele foi elevado a Comendador da "Ordem de Cristo"; em 06 de dezembro de 1854, D. Pedro II elevou-o à nobreza, entregando-lhe o título de Barão do Rio Preto. Em 1867 recebeu nova homenagem do imperador, desta feita com o título de Visconde do Rio Preto.

É importante ressaltar que "Domingos Custódio Guimarães jamais lançou mão de dinheiro público ou envolveu-se em negociatas que malversassem o bem da nação. Muito pelo contrário, deu o melhor de si em benefício do povo, tirando do próprio bolso para melhorar as condições de vida da cidade e dos habitantes de Valença. Mais do que sua riqueza, construída com labuta, Domingos Custódio notabilizou-se por sua firmeza de caráter, sua probidade, seriedade...".

O Visconde do Rio Preto veio a falecer no dia 7 de setembro de 1868, na sua Fazenda Flores do Paraíso, no exercício dos cargos de Presidente da Câmara Municipal e Provedor da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Valença. Naquela ocasião a sua morte foi copiosamente chorada pelos valencianos, principalmente. O corpo dele foi sepultado no Cemitério Riachuelo, em mausoléu artisticamente concebido.

Vale dizer que em memória do dito Visconde, por sugestão da presidência do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto, a Câmara Municipal de Valença criou a medalha que leva seu nome, a maior honraria que aquele Município concede a personalidades que se destacam e fazem jus ao agraciamento. Recentemente, através da ação da presidência do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, especialmente do confrade Adenor Luiz Simões Coelho, um modesto preito de reconhecimento foi prestado por São João del-Rei à vida e obra de Domingos Custódio Guimarães: uma via urbana foi denominada oficialmente com o nome de Avenida Visconde do Rio Preto.

Assim está delineada, ainda que muito brevemente, a grande contribuição do são-joanense Domingos Custódio Guimarães ao desenvolvimento da cidade de Valença e região fluminense. Para quem se interessar em conhecer mais profundamente a vida e obra dele, recomendo a leitura do livro "Visconde do Rio Preto – Sua vida, sua obra. O esplendor de Valença", publicado pelo professor, historiador, escritor e pesquisador Rogério da Silva Tjader (Valença:Gráfica PC Duboc Ltda., 2004, 248 p.), onde me nutri da maioria das informações para escrever este modesto artigo. Também me utilizei dos preciosos registros contidos no relatório "Principais Atividades do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto – Idealismo, Pioneirismo e Ação em defesa da Cultura e da Preservação da Memória – Vol. 1, 1990-2007", peça muito bem elaborada pelos doutos dirigentes do ICVRP.

As relações de amizade dos valencianos com São João del-Rei foram outrora iniciadas através de contatos com o notável genealogista Sebastião de Oliveira Cintra e ora vêm sendo mantidas com intensos vigor e reciprocidade. Eu e a minha esposa (Vânia Roseli Vilela de Ávila) nos orgulhamos de ser sócios efetivos do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto e membros correspondentes da Academia Valenciana de Letras. O casal drs. Mario e Elizabeth honra com seus nomes os quadros sociais da Academia de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, na qualidade de correspondentes, sempre participam de eventos da nossa vida cultural e mantém permanente contato com a terra são-joanense. Outras personalidades são-joanenses também fazem parte da AVL e do ICVRP.

Estes intercâmbios poderiam propiciar o início de um processo oficial de geminação entre os dois municípios (este é um ato de irmanação muito comum nas comunidades européias); o ato possibilitaria que os municípios envolvidos reforçassem as suas identidades históricas, culturais e até mesmo econômicas. Com a ratificação da sonhada geminação, os poderes executivo e legislativo, em nome do povo de ambas as cidades, dariam início à detecção de identidades comuns entre os municípios e estabeleceriam acordos de parcerias em diversas áreas.

A vontade que se expressa é a de que nós e também as gerações vindouras saibamos bem interpretar e reconhecer o simbolismo destes preciosos atos bilaterais que já vêm acontecendo e que cuidemos com o maior carinho destas formidáveis relações intermunicipais e interestaduais.

A intenção principal deste articulista é a de que, através da publicação deste modesto artigo no BLOG DE SÃO JOÃO DEL-REI, fosse iniciado o fomento de uma geminação protocolar entre os poderes constituídos da cidade mineira e fluminense (e vice-versa). Assim, através deste ato, buscaríamos uma ainda maior e melhor reaproximação e um contínuo estreitamento de laços históricos, culturais, sociais, educacionais, esportivos e turísticos, fato que ora já acontece de maneira espetacular e sob a forma de uma recíproca irmandade entre pessoas e entidades do Município de Valença e de São João del-Rei.

Que assim seja!


Fotos:

1. Dr. Mario Pellegrini Cupello, presidente do ICVRP, faz a entrega de quadro com a efígie do dr. Domingos Custódio Guimarães - Visconde do Rio Preto, para o acervo do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei - MG (ano de 2006); na parede aparece o retrato do saudoso historiador Sebastião de Oliveira Cintra, um dos primeiros incentivadores da relação cultural do Município de São João del-Rei e Valença.

2. Em 2007, o casal Mario Pellegrini Cupello e Elizabeth Santos Cupello, tendo ao centro o ex-prefeito de São João del-Rei Sidney Antônio de Souza, em evento militar no 11º BI Mth (Regimento Tiradentes) de São João del-Rei.

3. Na sede do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, numa de suas costumeiras visitas, o dr. Mario Pellegrini Cupello (presidente do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto) e a dra Elizabeth Santos Cupello (presidente da Academia Valenciana de Letras). O casal está acompanhado do autor deste artigo, à época (2007) presidente do IHG.

(Fotos: arquivo José Antônio de Ávila Sacramento)


* José Antônio de Ávila Sacramento nasceu em São João del-Rei/MG (distrito de São Miguel do Cajuru). É sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, membro efetivo da Academia de Letras de São João del-Rei, conselheiro titular do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural. Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (Belo Horizonte/MG). Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (João Pessoa/PB). Sócio Correspondente da Academia Bauruense de Letras (Bauru/SP). Sócio Correspondente da Academia Mageense de Letras (Magé/RJ). Mais...

segunda-feira, 11 de maio de 2009

São João del-Rei, por que desprezada?


Por Abgar Campos Tirado *

Este artigo é um grito de protesto. Vejamos o motivo: São João del- Rei ocupa, sem dúvida, lugar de destaque no cenário mineiro e brasileiro. Importante Vila de 1713, já em 1714 era constituída sede da imensa Comarca do Rio das Mortes. Essa vasta região, centrada juridicamente em São João del-Rei, abrigaria hoje cidades tão distantes entre si, como Bambuí, Pouso alegre, Itajubá, Conselheiro Lafaiete e Juiz de Fora! Aqui nasceram homens ilustres como Tiradentes, Tancredo Neves, D. Lucas Moreira Neves e tantos outros que se destacaram no Império e na República, nos mais diversos campos.

Sede de instituições mais que bicentenárias, como as Orquestras Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos, a Santa Casa da Misericórdia, as Ordens Religiosas, Confrarias e Irmandades, bem como a quase bicentenária Biblioteca Municipal Batista Caetano de Almeida e as já mais que centenárias instituições, que são a Estrada de Ferro Oeste de Minas e o Regimento Tiradentes, São João del-Rei impressiona vivamente por tão rico acervo. Nosso Teatro Municipal, de 1893, é mais antigo que o do Rio de Janeiro e o de São Paulo. Nossa Sociedade de Concertos Sinfônicos (1930) é mais antiga que a Orquestra Sinfônica Brasileira (1940). A única Unidade militar de Montanha, do Brasil, reside em nosso 11º Batalhão de Infantaria de Montanha. Também enriquecem esta urbe o Conservatório Estadual de Música "Padre José Maria Xavier", outras orquestras além das citadas e também excelentes bandas de música. Além de bons colégios, temos a Universidade Federal de São João del-Rei, a UFSJ , em franco progresso, abrigando inclusive curso superior de Música. Nossa Semana Santa tradicional é ímpar, mesmo em termos mundiais, e o nosso Carnaval, por muitos anos, gozou de imenso prestígio. Tudo isso sem falar de nossas formosas igrejas, pontes e casario colonial. Possuímos entidades respeitáveis, além das referidas, como a Academia de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico, o Centro de Referência Musicológica Dr. José Maria Neves, o CEREM, bem como preciosos museus, não nos esquecendo de nossos jornais, rádios e de nossa televisão, lembrando-nos também de nossa tradição literária e teatral, além da musical.

Todos esse méritos nos fizeram, com muito orgulho, a Capital Brasileira da Cultura 2007.

Temos ou não temos razão de nos orgulharmos desta velha urbe de D. João V?

Pois bem, em geral, a grande mídia, em âmbito nacional, ignora o mais possível nossa São João del-Rei. Até mesmo quando seria impossível deixar de citar a cidade, mesmo assim, conseguem omitir, como, por exemplo, em uma grande reportagem de importante emissora de TV, sobre o Presidente Tancredo Neves, pouco depois de sua morte, na qual o nome de São João del-Rei só foi citado na referência sobre o trem entre esta cidade e Tiradentes. Nem mesmo como berço natal do falecido presidente São João del-Rei foi mencionada, o que gerou um protesto nosso à Emissora, juntamente com a Secretaria da Cultura e Turismo local. Não sei da resposta.

Sinceramente, é de partir o coração são-joanense ver em importantes jornais e emissoras de TV amplas referências sobre o carnaval de outras tradicionais cidades mineiras e nada sobre o nosso. Mesmo na Semana Santa, pouca referência há sobre nossas cerimônias, preferindo-se privilegiar alegorias banais presentes em outras cidades, a focalizar, por exemplo, a imensa riqueza cultural e religiosa de nosso Ofício de Trevas, atualmente reconhecido como único no mundo, na autenticidade de suas características.

Contemplando outra falta, examinemos a Lista Telefônica da Guiatel: embora São João del-Rei esteja citada no quadro de distâncias de Belo Horizonte a algumas cidades da Estrada Real, seu nome não faz parte do quadro da distância de Belo Horizonte às principais cidades de Minas Gerais, quando são apontadas 56 cidades, mesmo algumas já citadas no quadro da Estrada Real, sendo que muitas das outras mencionadas não se podem comparar, em expressão, a São João del-Rei.

Para não me alongar, deixo de citar publicações diversas que, quando não omitem totalmente o nome de nossa cidade, colocam-na em posição injustamente subalterna.

A que atribuir esse desprezo para com nossa São João del-Rei? Seria falta nossa essa pobreza de divulgação? Não sei responder; gostaria imensamente de que essa resposta me fosse dada.

Artigo originalmente publicado no Jornal da ASAP, janeiro/fevereiro 2008


* Abgar Antônio Campos Tirado é natural de São João del-Rei, MG. Com formação na área das Letras e da Música, é professor, palestrante, comentarista cultural, escritor, pianista e compositor, com obras já executadas no exterior. Foi diretor por vários anos do Conservatório Estadual de Música “Padre José Maria Xavier” de São João del-Rei, onde se aposentou. É sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei e membro efetivo da Academia de Letras da mesma cidade, bem como da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais. Mais...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

São Miguel do Cajuru


Por José Antônio de Ávila Sacramento *


São Miguel do Cajuru é um dos cinco distritos de São João del-Rei (MG). A sede do sub-burgo fica encravada no leito de uma das variantes da antiga Estrada Real (limite sul da Trilha dos Inconfidentes). As origens do local remontam à segunda década do séc. XVIII, quando em 1719, lá na antiga Fazenda do Engenho de São Miguel, afazendou e aquartelou-se o rixento padre Manoel Cabral Camelo à espera de ações da Justiça Eclesiástica e/ou Civil, devido às suas graves censuras direcionadas ao então Ouvidor da Comarca do Rio das Mortes.

A origem do topônimo São Miguel do Cajuru está ligada à devoção migueliana dos proprietários da referida fazenda (já demolida, infelizmente) e ao vocabulário Tupi, onde Caá (mata) e yuru (boca) são indicatórios de que aquele local seria a boca ou entrada da mata, isto é, a altura em que, vindo das matas do sul, o Caminho Velho atingia os campos limpos, deixando para trás, fechada, portanto, a boca-do-mato, ou seja, o Cajuru.

O histórico distrito fica distante 36 km de São João del-Rei (26 km de asfalto e 10 km em estrada de terra) e abriga a Igreja de São Miguel Arcanjo, na qual as estão as abóbadas de uma capela original (de antes de 1745) com belíssimas pinturas ilusionistas sacras, todas de imenso valor artístico; aquele acervo, uma valiosa obra de arte praticamente desconhecida, tem suas principais características no modelo artístico trazido pelos portugueses: erguem-se num quadro ricamente emoldurado à guisa de teto e de um novo andar, com bela trama arquitetônica sustentante, simétrica, muro para-peito retilíneo e grupamento de pilastras e colunas formando arcadas. Nos cantos da abóbada da nave central estão os doutores da Igreja (Santo Ambrósio, São Gregório, Santo Agostinho e São Jerônimo), pintados em atitudes variadas e com os seus respectivos símbolos. Existem pinturas de flores, todas muito coloridas. No medalhão central, oval, existem muitas nuvens e querubins. No centro está o São Miguel, modesta e humildemente sem as armas, que são vistas lançadas ao piso, em respeito à Trindade Onipotente. No altar-mor está representado o Arcanjo Miguel em meio a concheados, com um pé apoiado à frente do outro, sugerindo estar caminhando entre as nuvens e proclamando o mistério da Santíssima Trindade, cujo símbolo está pintado no estandarte que ele carrega. Na abóbada do antigo coro, atualmente zona de transição entre a nave antiga e a parte mais recente da igreja, há uma caprichosa composição de instrumentos musicais pintados, com dois pendentes de flores e outros instrumentos pintados nos painéis laterais, certamente um indicativo do gosto musical da gente cajuruense. O estilo das pinturas é o mesmo do mestre Manoel da Costa Ataíde, se bem que poderia ser de um talentoso discípulo dele. Estudos mais recentes, no entanto, atribuem a obra ao pincel de Joaquim José da Natividade, pintor são-joanense nascido na segunda metade do séc. XVIII. É o que ora se acredita, embora estudos técnicos mais apurados se façam necessários para determinar definitivamente a autoria daquelas pinturas.

As pinturas das abóbadas da Igreja do distrito de São Miguel do Cajuru merecem estar incluídas no rol das mais importantes pinturas religiosas de Minas Gerais e do Brasil. Atualmente aquele acervo encontra-se protegido apenas em nível municipal (foi tombado através do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de S. João del-Rei); o IPHAN, através dos técnicos da 13ª SR/MG, está descrevendo e inventariando o acervo, para fins de tombamento em nível federal, o que acreditamos ser uma necessidade e esperamos que aconteça em breve. Aquele acervo necessita ainda ser mais estudado e pesquisado, mais conhecido e admirado; é preciso saber explorar os detalhes daquelas pinturas, verificar o que elas ainda poderão nos "dizer".

Terminada a breve descrição das pinturas da igreja local, passo a relatar um acontecimento marcante que ocorreu na história do Distrito: a mudança do topônimo do distrito de Arcângelo, que voltou a ser oficialmente denominado São Miguel do Cajuru. No ano de 2000, sob a nossa provocação, foi aprovado pela Câmara Municipal, por unanimidade, o projeto de lei número 4505, posteriormente transformado na Lei Municipal nº. 3.536 de 27 de junho de 2000 que, em seu primeiro artigo, determinou que "passará a denominar-se distrito de São Miguel do Cajuru o atual distrito de Arcângelo".

O fato foi e ainda é muito comemorado. O nome recuperado era tradicional desde o início do século XVIII. São Miguel é uma denominação de grande valor religioso, haja vista ser ele o Grande Anjo, agraciado com o título de "Príncipe das Milícias Celestes" e, por isto mesmo, dito Arcanjo. Miguel é o santo padroeiro e a devoção maior do povo daquela localidade. O antigo nome, agora em vigor, é expressão de sentido cultural e religioso que foi criminosamente alterado em 1943, quando no Poder, algum materialista de plantão nos agrediu e humilhou com a troca do topônimo para Arcângelo. Há de se considerar que a adoção do topônimo Arcângelo em detrimento do de São Miguel do Cajuru foi um empobrecimento...

A referida alteração foi conseguida com base no princípio constitucional de proteção aos bens de valor histórico-cultural e atendendo à grafia correta da linguagem, a que todos os bons cidadãos devem obedecer. Seguimos o exemplo de Conceição da Barra de Minas (ex-Cassiterita) e do distrito são-joanense de São Gonçalo do Amarante (ex-Caburu) que, na verdade, se tivesse sido respeitada a tradição, deveria ter o seu topônimo resgatado para "São Gonçalo do Brumado".

Recentemente conseguimos reaver para o Distrito do Rio das Mortes o seu nome original: Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno! Falta-nos ainda conseguir a volta do topônimo original do distrito de Emboabas para "São Francisco do Onça" e do vizinho município de Ritápolis para "Santa Rita do Rio Abaixo". Quanto a Ritápolis, alguma coisa já foi feita: o ex-prefeito Higino Zacarias de Souza denominou oficialmente uma obra sobre o Rio das Mortes de "Ponte Santa Rita do Rio Abaixo", demonstrando sensibilidade histórica; o ato poderá ser o primeiro passo para um plebiscito acerca do resgate do nome tradicional daquele Município.

Sabemos que a filosofia existencial de hoje é a Filosofia da Cultura, dos Valores, dos bens criados pela civilização e impregnados de sentido vital e racional. Essa racionalidade da cultura deve se constituir um caminho a seguir, um rumo para as gerações e os diversos povos. É necessário, então, que se conheça o acervo pictórico ilusionista sacro e se comemore a volta do topônimo original de São Miguel do Cajuru como fato histórico, o que nos dá sempre a sensação de que estamos procurando, ainda que timidamente, desfazer aquela impressão de que não temos o devido cuidado com a nossa história e de que ainda somos um povo sem memória.

Nesta região de São João del-Rei, Tiradentes, Prados, Resende Costa, Coronel Xavier Chaves, nas margens dos antigos caminhos da Estrada Real, ainda existe muita cultura a ser garimpada e resgatada. Tudo ainda está praticamente esquecido sob a poeira do tempo, depositado na memória dos nossos sub-burgos. Essa cultura quer se manifestar e não pode ser negligenciada. Na nossa vida, assim como na arte e cultura, deve existir sempre o tempo necessário para se revelar alguma coisa, mas nunca para se ficar em silêncio. Desta forma segue aqui, através deste modesto artigo para o BLOG de SÃO JOÃO DEL-REI, o meu retumbante brado em favor de riquezas praticamente esquecidas e inexploradas às margens destes nossos silicosos caminhos, e, como não poderia deixar de ser, especialmente em favor da história, arte e cultura que repousam no distrito são-joanense de São Miguel do Cajuru, terra abençoada que me viu nascer.

Notas:
1. As fotos das pinturas de Santo Agostinho, São Jerônimo, São Gregório e Santo Ambrósio (quatro doutores da Igreja) estão dispostas uma em cada canto da nave central.
2. A foto da pintura do medalhão central, no centro da nave principal, mostra São Miguel humildemente com as armas postas ao chão, em respeito à Santíssima Trindade.
3. Esta foto da pintura de São Miguel fica no teto do altar-mor.
4. As fotos dos quatro Doutores da Igreja foram feitas antes da restauração. Atualmente todo o acervo pictórico encontra-se restaurado!
5. Todas as fotos são de autoria do autor deste artigo, exceto as duas imagens externas da Igreja de São Miguel, ambas de autoria de Ana Maria de Ávila e Melo, registradas na década dos anos 1970.


* José Antônio de Ávila Sacramento nasceu em São João del-Rei/MG (distrito de São Miguel do Cajuru). É sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, membro efetivo da Academia de Letras de São João del-Rei, conselheiro titular do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural. Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (Belo Horizonte/MG). Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (João Pessoa/PB). Sócio Correspondente da Academia Bauruense de Letras (Bauru/SP). Sócio Correspondente da Academia Mageense de Letras (Magé/RJ). Mais...

domingo, 19 de abril de 2009

300 anos da Guerra dos Emboabas e do "Capão da Traição"


Por José Antônio de Ávila Sacramento *

Houve em Minas Gerais, no início dos anos setecentos, sérios desentendimentos entre os descobridores do ouro e os forasteiros que desejavam usufruir o minério. Descobertas as minas de ouro nesta região, uma forte corrente humana que aqui se aportou, com gente de todas as classes, etnias e de todas as origens geográficas. No livro Cultura e Opulência do Brasil, do padre João Antônio Andreoni (Antonil), encontramos a seguinte referência do afluxo de pessoas a Minas Gerais: "a sede do ouro estimulou tantos a deixarem suas terras e a meterem-se por caminhos tão ásperos como são os das minas, que dificultosamente se poderá dar conta do número de pessoas que atualmente lá estão...".

Aquele afluxo de forasteiros desagradou aos paulistas. Por terem descoberto as minas e por elas se encontrarem em sua capitania, os paulistas reivindicaram direito exclusivo de explorá-las. Assim, entre 1708 e 1709, ocorreram vários conflitos armados na zona aurífera. Os paulistas referiam-se aos recém-chegados com os apelidos pejorativos de Emboabas. Os emboabas aclamaram o riquíssimo português Manuel Nunes Viana como Governador das Minas. Nunes Viana, que enriquecera com o contrabando de gado para a zona mineira, foi hostilizado por Manuel de Borba Gato, um dos mais respeitados paulistas da região. Nos conflitos que se seguiram, os paulistas sofreram várias derrotas e foram obrigados a abandonar boa parte das suas minas.

Com a derrota e a conseqüente expulsão, vários paulistas pararam na região situada entre os Arraiais da Ponta do Morro (atual Tiradentes) e Novo de Nossa Senhora do Pilar (atual São João del-Rei), provavelmente na região da Fazenda do Córrego. Sabedores que lhes vinha em perseguição uma coluna de cerca de 200 homens comandada por Bento do Amaral Coutinho, dali fugiram rumo a São Paulo, embrenhando-se no mato, sendo sitiados e exterminados cruelmente, após se renderem. Coutinho prometera aos paulistas que lhes pouparia a vida, caso se rendessem. Entretanto, quando eles entregaram suas armas, foram impiedosamente massacrados num local que passou para a história com o nome de "Capão da Traição".

A questão de um episódio como este - recheado de traição e sangue - mexe com o imaginário popular. Já chegaram até a erigir um marco em granito e com placa de bronze, sugerindo que o dito Capão ficaria nas imediações de onde hoje está o Bairro de Matosinhos. Há outros dois lugares que são apontados como o possível local onde ficava o Capão da Traição. Basílio de Magalhães também indicava o Bairro de Matosinhos, enquanto Eduardo Canabrava Barreiro indicou a localidade de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, rumo a São Paulo.

No entanto, há um relato importantíssimo do sargento-mor português Joseph Álvares de Oliveira, contemporâneo do acontecimento, posto que fora comandante de uma das companhias que defenderam as fortificações do Arraial Novo. Creio ser este o relato mais confiável a respeito da localização do Capão da Traição. Ele afirma que o local estava a "coisa de légua e meia ao rumo do Norte, em um Capão". Assim, seguindo as orientações do sargento-mor, é possível localizar o local em questão nas imediações da margem direita do Rio das Mortes, nas proximidades da Fazenda do Pombal, Município de Coronel Xavier Chaves, entre os Rios Santo Antônio e Carandaí. É importante ressaltar que Joseph Álvares de Oliveira encontrava-se no Arraial Novo (atual São João del-Rei) e, então, a distância de cerca de aproximadamente 10 km (cerca de uma légua e meia) deve ser calculada a partir de onde ele estava posicionado.

Não existe a pretensão e nem seria possível com este simples artigo determinar a localização exata do Capão da Traição. O que há, isto sim, é a simples e necessária intenção de se provocar ações que possam culminar nessa exata localização, pensando nos 300 anos do final da Guerra dos Emboabas. Na verdade estas provocações já surgiram no Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, e, também, de maneira formidável, através de um relato do produtor rural e empresário Cipriano Chaves de Resende sobre a existência de vestígios de um antigo e quase que desconhecido cemitério no município de Coronel Xavier Chaves. O dito cemitério está localizado no "Pasto da Lagoa", parte integrante da atual Fazenda Ouro Fino (já denominada Fazenda do Areão, Fazenda do Rio das Mortes e Fazenda Venda Nova). Aquelas covas poderão nos mostrar códigos históricos que as justifiquem como depósitos das vítimas do massacre ocorrido no Capão da Traição.

Este escriba sempre achou que seria interessante e necessário estabelecer parcerias entre as prefeituras e as entidades histórico-culturais-educacionais de São João del-Rei e de Coronel Xavier Chaves (o atual prefeito desta última cidade, Helder Sávio, está bastante interessado no assunto). Tudo isto poderia ser realizado com o apoio do Instituto Estrada Real, para solicitar à 13ª Superintendência Regional do IPHAN-MG e ao IEPHA-MG auxílio no sentido de efetuar prospecções arqueológicas no local, investigar a origem daquele cemitério e a datação de restos mortais porventura ali encontrados, bem como de promover estudos que fundamentem a exata localização do Capão da Traição, palco de um dos mais tristes e sangrentos episódios da Guerra dos Emboabas. Na verdade, estas provocações foram enviadas formalmente, pelo IHG de São João del-Rei, ao IEPHA e ao IPHAN, desde o ano de 2007, estando a questão sem atendimento até o momento.

A hipótese de se efetuar pesquisas arqueológicas no sítio do antigo campo santo chamou a atenção do jornalista Gustavo Werneck. Ele veio até São João del-Rei, foi até o local do suposto cemitério e publicou boa matéria no jornal Estado de Minas, o que não surtiu os efeitos e nem despertou as atenções esperadas. Em outubro de 2008, a Revista de História, editada pela Biblioteca Nacional, voltou a tocar no assunto sob o título A Guerra da Memória - Na região dos Emboabas, poucos marcos remetem hoje ao episódio histórico ocorrido há 300 anos. No imaginário popular, persistem as lendas, em matéria assinada por Lorenzo Aldé, que finalizou escrevendo: "A Guerra (dos Emboabas) pode estar meio esquecida. Mas ainda não acabou".

Os órgãos que seriam os responsáveis pelas pesquisas solicitadas não responderam aos clamores do IHG de São João del-Rei. Pensou-se até em tirar a dúvida por conta própria, escavando o local. Mas, para não serem acusados de profanar um possível patrimônio arqueológico, de fundamental importância para Minas Gerais e para o Brasil, os interessados na questão preferiram não se arriscarem, até porque também não possuem recursos técnicos e financeiros para realizar as escavações de forma apropriada e proceder a datação do material que porventura for encontrado.

Mas, a despeito de já ser um pouco tarde, se ainda houver interesse, há tempo para agirmos com boa vontade e firmeza históricas neste sentido. Creio que se estas ações forem agilizadas e colocadas em prática, terminaremos este ano do tricentenário do final da Guerra dos Emboabas e do massacre do Capão da Traição em plenas condições de dissipar algumas dúvidas e, conseqüentemente, de apresentar belíssimas e reais contribuições para a nossa História!

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* José Antônio de Ávila Sacramento nasceu em São João del-Rei/MG (distrito de São Miguel do Cajuru). É sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, membro efetivo da Academia de Letras de São João del-Rei, conselheiro titular do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural. Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (Belo Horizonte/MG). Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (João Pessoa/PB). Sócio Correspondente da Academia Bauruense de Letras (Bauru/SP). Sócio Correspondente da Academia Mageense de Letras (Magé/RJ). Mais...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O Projeto da Liberdade na Fazenda Berço da Pátria


Por Wainer Ávila *


"E sendo perguntado como se chamava, de quem era filho, donde era natural, se tinha algumas ordens, se era casado ou solteiro e que ocupação tinha. Respondeu que se chamava Joaquim José da Silva Xavier, filho de Domingos da Silva Santos e de sua mulher Antônia da Encarnação Xavier, natural do Pombal, termo da Vila de São João d'el Rey, Capitania de Minas Geraes; que tinha quarenta e hum annos de edade e que era solteiro; que não tinha ordens algumas e, com efeito, vendo-lhe eu o alto da cabeça, vi que não tinha tonsura alguma e que era Alferes da Cavalaria Paga de Minas Gerais" - 1º interrogatório, 22/05/1789, na Fortaleza de Ilha das Cobras, Rio de Janeiro.

"...Porquanto estava próximo a fazer-se nestas minas um levante para se erigirem em república, e que havia de haver nela sete parlamentos, sendo a capital em São João d'El Rey". Depoimento de José de Resende Costa, filho de outro do mesmo nome-autos da devassa da Inconfidência Mineira.

"O primeiro compromisso de Minas é com a Liberdade" - Tancredo Neves, discurso de posse, palácio da liberdade, 25/03/1983. Belo Horizonte/MG.

A tragédia (do grego tragoldia, pelo latim tragoedia) era, na Grécia antiga, acontecimento que despertava lástima ou horror, piedade e terror, ensina mestre Aurélio, ainda sucesso funesto e trágico. Pois Minas, que peleja e faz, de Guimarães Rosa, viu abater-se sobre suas montanhas auríferas e diamantíferas, todas as tragédias, desde que seu útero foi profanado pelo conquistador ibérico faminto de riquezas fáceis. O Alferes de Cavalaria foi supliciado mais que todos os que a história noticia, a ponto de sua cabeça ter sido arrancada do corpo, simbolizando a decapitação de uma idéia e de uma vontade política. Espetada foi, à guisa de empalação, na aguçada ponta de estaca fincada em nosso sagrado chão.

Não tivesse lugar tal suplício e não haveria o forte símbolo sobre o qual queremos erigir, aqui e agora, o monumento e memorial à Liberdade, fato que até hoje não mereceu a atenção de nossos homens públicos que ignoram os poetas e trovadores das Gerais, o que nos envergonha frente a nações que não se pejam em homenagear em mármore cinzelado seus filhos ilustres. Não obstante esse esquecimento, que brada aos céus e exige reparação, esses acontecimentos tão trágicos nos ensinam muito, pois é sobre símbolos que se constroem Pátrias, a exemplo de uma cruz, uma forca, um pelotão de fuzilamento, no dizer de Keneth Clark. Sejam quais forem, portanto, as analogias que venham a se estabelecer, em Tiradentes podemos falar em "Paixão e Morte", visto ser muito forte morrer por uma idéia, conferindo a si a grandeza que só a morte pode dar.

Foi isso que ele soube fazer e o fez com a grandeza que somente os heróis e os santos podem fazer. Grandeza que o Brasil nunca reconheceu, que Minas ainda não proclamou e que nossa cidade continua ignorando com obstinação e teimosia. São João del-Rei era cogitada, mesmo decidido estava, para ser capital da nova república americana. O Resende Costa, filho, que revelou o segredo da escolha da capital republicana (outra vez, em 1893, Várzea do Marçal, apêndice de São João, seria a capital de Minas, elegida por Aarão Reis. Não o foi, perdeu para Curral d'El-Rey, por traição política e, outra vez, ficamos de boca tampada), foi desterrado para Cabo Verde, onde ficou dez anos. Regressou ao Brasil e participou das constituintes portuguesa (1821) e brasileira (1823). Como eram valorosos nossos sublevados de 1789!

Outro luzeiro da Liberdade, Tancredo Neves, imolou-se em seu nome e deu, não a vida, mas a morte pelo único direito inato que é a Liberdade, cujo amplo conceito interpreta-se como sinal premonitório, o signum prognosticum do progresso moral da humanidade.

Para justificar e explicar a necessidade de nos redimirmos transcrevo, constrangido, pois é difícil crer, o que aconteceu - está escrito pelo historiador Sebastião de Oliveira Cintra - a respeito da condenação de Tiradentes: "em 08 de junho de 1792 realiza-se em São João del-Rei, terra natal do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, festividades em Ação de Graças a Deus Nosso Senhor por se haver descoberto e destruído a conjuração que maus homens e indignos portugueses temerariamente assumiram sublevar os povos desta Capitania contra a legítima soberana Rainha Nossa Senhora. Todos os moradores da vila iluminaram suas casas três noites sucessivas (dias 6, 7 e 8). No último dia oficiou-se na Matriz do Pilar Te Deum Laudamus por dois coros, um de música, outro de cantochão. À porta da igreja o destacamento de infantaria paga e os terços auxiliares deram as descargas usuais autoridades convidadas, 'para ficar o ato mais plausível'. Compareceram o Doutor Ouvidor Geral, Manoel Caetano Monteiro Guedes; Doutor Intendente Francisco de Morais Castro; Cap. do Destacamento Francisco Xavier Inácio, Cel. Francisco Araujo Magalhaes; Sargento Mor Manoel dos Reis; Vigário Colado Dr. Antônio Caetano Almeida Vilas Boas e Vigário da Vara Dr. José Pereira de Castro".

No dia 26 de março de 2009 uma comissão formada por Auro Aparecido Maia Andrade, Juiz de Direito, José de Carvalho Teixeira em nome do Instituto Histórico e Geográfico, arquiteto Celso Leão e Wainer Ávila, presidente da Academia de Letras de São João del-Rei, foi recebida por Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares Filho, catedral da arquitetura universal, em seu escritório - santuário, na Av. Atlântica, no Rio de Janeiro. Não obstante a pouca estatura física, aferiu-se para nós um gigante, um Colosso mesmo, Poseidon e Netuno no "trom e o silvo da procela", transcendendo em gentilezas e palavras de afago fraternal. Era a sobrevivência perene da esperança na própria essência do ideal mais alto de nossa ambição em construir memorial em pedra e aço em nome da Liberdade, na Fazenda do Pombal, sítio sagrado de nascimento do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, em 12 de novembro de 1746, até este momento em total descaso por parte dos poderes públicos constituídos, que existem porque Tiradentes existiu.

Naquele momento quase solene, em que mestre Oscar nos deixava inteiramente à vontade, nos emocionamos e compreendemos que aquele pequeno grande homem é maior que os desafios que o acompanharam em sua brilhante trajetória pelo mundo da arte em concreto, ferro, ideal e fé em sua obra. Sentimos que nele cabe todo o esplendor da cultura greco-romana de muitos séculos, com a transição para a Idade Média, desta para o Renascimento, daí para a Moderna e para a contemporaneidade, com ou sem as rupturas atuais, prolongando-se até o futuro.

Niemeyer, com desprendimento e humildade, vendo nosso pleito e certamente deduzindo que ali não estavam homens ricos em busca de projetos para luxo e satisfação de uns poucos privilegiados deste país, disse mansamente, como é de seu estilo: "vocês que aqui vieram conseguirão o que desejam e não terão que pagar nada...". Ele acabava de dizer que sua obra, procurada pelos quatro cantos do planeta, não nos custaria um real, que não ia receber honorários pelo valioso projeto, projeto da Fazenda do Pombal, projeto de Minas e sobretudo projeto de Brasil, o Projeto da Liberdade na Fazenda Berço da Pátria, do abastado e honrado pai do menino José, o futuro Tiradentes. Niemeyer estava tão grande quanto Tiradentes. Era o Brasil correto e escorreito, pobre e miserável, rico e poderoso que ali estava e que nos marcou para a eternidade, se ela existe. Não estou sendo fiel em reproduzir suas palavras pois um homem comum não pode reproduzir o que fala Oscar Niemeyer, do alto de sua imensa sabedoria e franciscana modéstia, exemplo para este país que precisa "criar juízo" em seus Três Poderes, em sua majestosa saga imperial e republicana, mirando-se no homem que avançou no tempo, que tornou-se contemporâneo do futuro.

Agora, brasileiro, agora mineiro, agora conterrâneo dos campos das vertentes, não tenha acanhamento em ofertar seu apoio, sem tergiversações e com objetividade, apoio que não se mede em moedas mas em ideais, não em barras de ouro mas em atitudes construtivas, pois o ouro decapitou nosso irmão e o ideal é que nos levará a revivê-lo em monumento que deveria ter sido feito há muito tempo. Memorial símbolo da Liberdade, Panteão da Pátria, na Fazenda do Pombal, berço de Tiradentes, cidadão sem outra qualificação, apenas cidadão brasileiro.

Empreitada que só logrará êxito se tiver o espírito de uma nova Conjuração, outra Inconfidência, com apoio dos governos de Portugal e França, onde esteve o Alferes, de codinome Vendek, com os estudantes universitários de mineralogia e medicina, José da Maia e Álvares Maciel, avistando-se com o embaixador Thomas Jefferson, da libertada colônia britânica, a república do norte de 1776.

É possível ser igual a Tiradentes, basta apenas despir-se de interesses pessoais e carregar o mesmo ânimo dos rebeldes do "Quinto de Ouro" de 1789.


* Wainer Ávila, graduado em direito pela Universidade Católica de Minas Gerais, é o atual Presidente da Academia de Letras de São João del-Rei, ocupante da cadeira Embaixador Gastão da Cunha. É Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, ocupante da cadeira Alferes Tiradentes. Membro Definidor da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis da Diocese de São João del-Rei. Sócio Benemérito e Conselheiro do Athetic Clube de São João del-Rei. Sócio Honorário do Rotary Club. Sócio Correspondente do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto. Sócio Correspondente da Academia Valenciana de Letras. Conselheiro do Centro Cultural Feminino de São João del-Rei. Membro do Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico de São João del-Rei. Mais...

- Veja mais fotos das ruínas da Fazenda do Pombal aqui.

Colaborador: Wainer Ávila

Wainer Ávila, graduado em direito pela Universidade Católica de Minas Gerais, é o atual Presidente da Academia de Letras de São João del-Rei, ocupante da cadeira Embaixador Gastão da Cunha. É Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, ocupante da cadeira Alferes Tiradentes. Membro Definidor da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis da Diocese de São João del-Rei. Sócio Benemérito e Conselheiro do Athetic Clube de São João del-Rei. Sócio Honorário do Rotary Club. Sócio Correspondente do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto. Sócio Correspondente da Academia Valenciana de Letras. Conselheiro do Centro Cultural Feminino de São João del-Rei. Membro do Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico de São João del-Rei. Sócio Correspondente da Academia Divinopolitana de Letras. Sócio Correspondente da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete. Sócio Correspondente da Academia de Letras de Caxias do Sul (RS). Sócio Correspondente do Instituto Histórico de Prados. Curador da Fundação Oscar Araripe.

Foi Vereador em São João del-Rei, de 1º de janeiro de 1970 a 1º de janeiro de 1973. Presidente da 37ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de Minas Gerais, por dois mandatos: de 1973-1975 e 1975-1977. Deputado Estadual eleito em 1982. Suplente de Deputado Federal na Legislatura 1991-1995. Diretor Jurídico do Departamento de Estradas de Rodagem do Estado de Minas Gerais de 1986 a 1992. Chefe da Procuradoria Jurídica do Município de São João del-Rei de 1977 a julho de 1978. Vice-presidente do Social Futebol Clube.

É Cidadão Honorário dos Municípios de:

- Conceição da Barra de Minas
- Nazareno
- Coronel Xavier Chaves
- Tiradentes
- Dores de Campos
- Prados

Foi agraciado com as Medalhas:

- Inconfidência
- Mérito Legislativo de Minas Gerais
- Poder Legislativo de Rio Casca
- Comenda Santos Dumont
- Medalha Honorífica Antônio Carlos Fernandes Leão concedida pela loja Maçônica Charitas II
- Comenda Resistência Democrática

Textos de Wainer Ávila neste Blog:

- O Projeto da Liberdade na Fazenda Berço da Pátria

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O Cântico de Zacarias no Ofício de Trevas

Por Abgar Antônio Campos Tirado *

As Horas Litúrgicas ou Horas Canônicas primitivamente dividiam o dia em oito partes, assim constituídas: 1) Matinas: da meia-noite às 3h da madrugada; 2)Laudes: das 3h às 6h da manhã; 3) Prima: das 6h às 9h; 4)Tertia: das 9h ao meio-dia; 5) Sexta: do meio-dia às 3h da tarde; 6)Nona: das 3h às 6h; 7)Vésperas: das 6h às 9h da noite; 8) Completas: das 9h à meia-noite.

As Matinas, Laudes, Vésperas e Completas são chamadas horas maiores, e as demais, horas menores.

Na Semana Santa, correspondendo à Quinta-feira, Sexta-feira e Sábado Santo, realizavam-se em toda a Igreja e ainda se realizam em São João del-Rei, na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, integralmente, os denominados Ofícios de Trevas, que se constituem dos ofícios de Matinas e Laudes. O nome Ofício de Trevas advém da referência às trevas da morte e do sepulcro de Cristo, sendo que, no final do ofício, o próprio templo se reveste de escuridão, com o apagar das luzes.

As Matinas se dividem em 3 noturnos, com um total de 9 salmos, com suas antífonas, 3 versículos, 9 leituras e 9 responsórios. As Laudes são formadas de 5 salmos, 1 versículo e 1 hino, com suas respectivas antífonas. Nessa segunda parte do Ofício de Trevas, antes das orações finais, entoa-se o Cântico de Zacarias. O texto desse piedoso cântico encontra-se em Lc 1, 68-79. Zacarias, pai de João Batista, era sacerdote; enquanto oferecia incenso no templo, o anjo Gabriel anunciou a ele e à esposa, Isabel, o nascimento de um filho. Como Zacarias duvidasse da comunicação, ficou mudo, como sinal de promessa, até o nascimento do menino. Quando deram o nome ao filho, Zacarias recuperou a fala. O cântico a ele atribuído é o "Benedictus", o qual, como foi dito, é cantado no final das Laudes em cada um dos três Ofícios de Trevas, diferenciando-se as antífonas. Em São João del-Rei, esse cântico se faz alternado entre o coro gregoriano dos coroinhas da Catedral e o coro e orquestra Ribeiro Bastos, com música do compositor são-joanense, Padre José Maria Xavier. Assim, o coro gregoriano introduz: "Benedictus Dominus Deus Israel", prosseguindo o coro e orquestra: "Quia visitavit et fecit redemptionem plebis tuae" – e continua a alternância até o final do piedoso cântico, que constitui um dos mais emocionantes momentos do medieval ofício.


Vídeo: Cântico de Zacarias



Gravado durante o Ofício de Trevas do Sábado da Semana Santa de 2007, na Catedral Basílica Nossa Senhora do Pilar (Arquivo Cris Carezzato).



* Abgar Antônio Campos Tirado é natural de São João del-Rei, MG. Com formação na área das Letras e da Música, é professor, palestrante, comentarista cultural, escritor, pianista e compositor, com obras já executadas no exterior. Foi diretor por vários anos do Conservatório Estadual de Música “Padre José Maria Xavier” de São João del-Rei, onde se aposentou. É sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei e membro efetivo da Academia de Letras da mesma cidade, bem como da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais. Mais...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Padre José Maria Xavier, sua vida e sua obra, no contexto de sua época >>> Parte 1


Por Abgar Antônio Campos Tirado *

Reconhece-se no Padre José Maria Xavier um dos filhos de São João del-Rei que mais dignificaram sua cidade natal, por seus admiráveis méritos, tanto no campo das virtudes apostólicas como na vastidão de sua cultura e, de modo especial, por suas qualidades de extraordinário musicista, criador, antes de tudo.

Aspectos Biográficos

A vila de São João del-Rei, em princípios do século XIX, já não era mais o esplendoroso centro de mineração que tanto a projetara no século anterior, mas mantinha sua importância como movimentado pólo social e comercial, tendo conseguido diversificar sua economia de tal forma que pôde garantir sua sobrevivência e assegurar seu progresso. No campo religioso era total a proeminência da Igreja Católica, com grande prestígio do clero e das ordens e irmandades religiosas, pertencendo à então Diocese de Mariana, criada em 1745.

Nesse contexto sócio-econômico, no dia 23 de agosto de 1819, nasceu o futuro sacerdote-compositor na já centenária Rua de Santo Antônio, na casa de número 112, filho do casal João Xavier da Silva Ferrão e D. Maria Benedita de Miranda, esta da ilustre estirpe dos Miranda, família de renomados musicistas são-joanenses à qual pertenceu José Joaquim de Miranda, pai da mencionada senhora, o qual no ano de 1776 fundara a velha Companhia de Música, depois Sociedade Musical Lira Sanjoanense, hoje Orquestra Lira Sanjoanense.

Além de José Maria, integravam a prole do casal as irmãs Teresa, Mariana, Maria Lina e Bernarda Luíza. O menino foi levado à pia batismal pelos viúvos, Capitão Jerônimo José Rodrigues e D. Maria Custódia, onde o sacramento lhe foi ministrado pelo padre coadjutor, Alexandre Joaquim do Amaral.

Desde cedo revelando invulgar inteligência, iniciou-se nas Letras com o renomado mestre Guilherme José da Costa e, na música, com seu tio, Francisco de Paula Miranda, que dirigiu a hoje orquestra Lira Sanjoanense, de 1827 a 1846. Nessa mesma orquestra, José Maria atuou como menino-cantor (tiple) e como clarinetista e violinista. Sabe-se que também tocava viola, violão e piano (como clarinetista, em contrato firmado pela Ordem do Carmo com o dirigente da Orquestra, a 09/12/1837, o jovem musicista deveria receber quatorze mil réis anuais). Paralelamente às suas atividades musicais, inicia-se nos segredos da Gramática Latina, que tanto lhe valeriam em sua futura carreira.

Em 1838 conclui seus estudos preparatórios, após cursar brilhantemente a escola pública, sob a orientação dos mestres Reginaldo Pereira de Barros, Dr. Domingos da Cunha e do Cônego José Antônio Marinho, quando freqüentou as chamadas aulas públicas de Latim, Francês, História, Geografia e Filosofia. A 23 de dezembro de 1839 recebe do Delegado Imperial da Instrução Secundária o Diploma de Mérito.

Sem prejuízo de suas atividades escolares, ajudava seus pais no orçamento doméstico, lecionando música, particularmente, nas casas e atuando como escriturário no escritório do advogado José Maria da Câmara, seu cunhado.

Impelido todavia por uma vocação que já dormitava em sua alma e que crescia no contacto direto com as orações e cerimônias da Igreja, parte em 1845 para o Seminário de Mariana, decidido a tornar-se sacerdote. Possuidor de sólida formação humanística, faltava-lhe apenas o estudo da Teologia e aprofundamento na Liturgia. A propósito, convém lembrar que o mui conceituado e respeitado Seminário de Mariana, fundado por seu primeiro bispo, D. Frei Manoel da Cruz, sob o pontificado do notável Bento XIV, com a devida licença de Sua Majestade D. João V passada a 12 de setembro de 1748, vinha sofrendo grandes crises, tendo sido fechado e reaberto por três vezes, ocorrendo o último fechamento em 1842, tendo até mesmo sido transformado em quartel para tropas, durante a Revolução Liberal. Nessa ocasião, residia no seminário apenas um aluno, sem aulas para freqüentar. Parece que funcionava apenas uma aula de Moral, destinada a alunos externos. Quando D. Antônio Ferreira Viçoso tomou posse da Diocese, a 16 de junho de 1844, esta estava vacante já havia 9 anos! Imediatamente procedeu esse grande e santo bispo à reabertura do seminário, providenciando a reforma do edifício e a organização das aulas com os mestres que pôde obter, recebendo os alunos que chegavam, sendo que já em janeiro de 1845 começava a funcionar, sob a direção do padre, depois bispo, João Antônio dos Santos, após ter ficado por breve período, como reitor, o padre Francisco Soares de Faria. Justamente nesse mesmo ano de 1845 ingressa José Maria Xavier no Seminário de Mariana, que, praticamente, estava renascendo para suas atividades. Talvez seja esse o principal motivo de, lá permanecendo apenas por 1 ano, ter José Maria recebido sua ordenação sacerdotal, evidentemente tendo sido considerada a já referida sólida formação humanística e, sem dúvida, religiosa, apresentada pelo seminarista em questão. Assim, já no dia 19 de abril de 1846 é ordenado presbítero por D. Antônio Ferreira Viçoso nos derradeiros dias do pontificado de Gregório XVI. A 23 de maio do mesmo ano, na Matriz de Nossa Senhora do Pilar de São João del-Rei, canta sua primeira Missa.

No ano seguinte, é nomeado Vigário do Rio Preto, cargo esse exercido com grande devotamento, obtendo, contudo, permissão para retornar a sua cidade natal, por motivo de saúde. Nesse mister permanecera de 21/02/1847 a 29/05/1848.

Continua...



* Abgar Antônio Campos Tirado é natural de São João del-Rei, MG. Com formação na área das Letras e da Música, é professor, palestrante, comentarista cultural, escritor, pianista e compositor, com obras já executadas no exterior. Foi diretor por vários anos do Conservatório Estadual de Música “Padre José Maria Xavier” de São João del-Rei, onde se aposentou. É sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei e membro efetivo da Academia de Letras da mesma cidade, bem como da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais. Mais...


Fotos:

1 - Busto do Padre José Maria Xavier e Igreja Nossa Senhora do Rosário ao fundo (2008). Crédito: Cris Carezzato
2 -
Casa onde nasceu o Padre José Maria Xavier (2009). Crédito: Cris Carezzato

Padre José Maria Xavier, sua vida e sua obra, no contexto de sua época >>> Parte 2


Por Abgar Antônio Campos Tirado *


Em São João del-Rei, exerceu cargos e funções diversas, a saber: Capelania no Colégio Duval, magistério no mesmo colégio e, mais tarde, em outras escolas; Vigário da vara de São João del-Rei, em 1854, cargo que exerceu por pouco mais de dois anos com extrema dedicação e devido rigor, o que lhe valeu aborrecimentos, mesmo com irmãos no sacerdócio, de quem exigia o integral cumprimento do dever; Definidor da Ordem Terceira de São Francisco, estando seu nome inscrito no Quadro de Benfeitores; Definidor, de 1855 a 1856, da Confraria de São Francisco de Assis e São Gonçalo Garcia, da qual foi extraordinário colaborador; Comissário da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, à qual se dedicou com sumo zelo (Eleição confirmada a 12 de outubro de 1859, pelo Revmo. Provincial Frei Luiz de Santa Bárbara Pereira); eleito em 1879 e 1880 Provedor da Santa Casa da Misericórdia, nesse encargo trabalhando incansavelmente, tanto na assistência espiritual e material aos doentes como, segundo ilustre médico, antecipando de cem anos métodos de administração hospitalar, além de promover a humanização no tratamento dos doentes mentais, levados a efeito nesse pioneiro nosocômio; membro da Conferência de São Vicente de Paulo, à qual tudo fazia para servir, não medindo os maiores sacrifícios; membro da Irmandade de N. S.ª da Boa Morte; Capelão, nos últimos tempos, da Irmandade dos Passos e da Confraria de Nossa Senhora do Rosário, entidades às quais deu o melhor de si, distribuindo, entre os pobres, parte dos pequenos proventos recebidos, realizando igualmente diversos atos litúrgicos, principalmente funerais, sem remuneração alguma. A propósito, vale lembrar o aborrecimento sofrido, quando Capelão da Irmandade dos Passos, no dia 23/03/1879: Advertindo o Padre José Maria os responsáveis pelo abuso no toque de sinos ao ensejo das comemorações de Passos, foi ele aparentemente obedecido na véspera da festa; todavia, no dia seguinte, os sineiros, num desafio ao respeitado sacerdote, fizeram as campanas soar como bem lhes ditou o alvedrio (cumpre ressaltar que, na época, era forte, sobretudo na Europa, a onda do anticlericalismo ou de indiferentismo religioso, fruto de filosofias estribadas unicamente na razão e que já se vinham insinuando desde séculos anteriores, culminando no século XIX com filosofias antimetafísicas como o Positivismo e o Materialismo, juntamente com a revolução científica e industrial. Todavia, o ambiente em São João del-Rei e em cidades congêneres, era, por assim dizer, acentuadamente teocêntrico, sendo grande a autoridade da Igreja; nesse tipo de realidade, não era incomum, ao lado da extrema submissão às normas eclesiásticas, movimentos, isolados e esporádicos, de grande rebeldia). Em ofício datado de 29/04/1879 o Padre José Maria se dirige à Irmandade, relatando a Lamentável ocorrência, dizendo textualmente: "...........foram as torres d’improviso assaltadas (na Matriz até com arrombamento) por aqueles heróis de campanário, invictos atletas de ........... (empinar sinos) e que se julgam sobranceiros a qualquer coibição legal, máxime da Igreja".

Na política, chegou o Ilustre sacerdote a militar por algum tempo no Partido Conservador, abandonando-o motivado por algumas divergências, mas conservando os princípios.

Possuía o Padre José Maria um caráter irrepreensível e um grande amor à virtude, que o fazia levar uma vida austera, de rigorosa observância dos deveres de estado e de privação de prazeres, exceção feita ao cultivo da música, quando em determinados dias da semana se reunia com alguns amigos, para fazer música de câmera.

Sua sabedoria e prudência faziam-no sempre procurado para a solução dos mais diversos problemas, notadamente em delicados casos de consciência e em questões conjugais. Foram muitos também os que o quiseram como testamenteiro. Segundo seu amigo e biógrafo, Severiano Nunes Cardoso de Resende (08/11/1847 – 13/05/1920), caracterizava-o também certo pessimismo no que tangia a assuntos seculares, sendo comum, em questões secundárias, assumir posição antagônica a seus interlocutores, muito embora, nas causas realmente graves, fosse um eterno conciliador. Principalmente em seus últimos anos, quando levava a vida de simples sacerdote, dedicava-se com afinco ao estudo de línguas e de ciências, também lecionando, gratuitamente, para meninos pobres. Sua grande caridade fez com que, na terrível epidemia de varíola que assolou São João del-Rei em 1878, visitasse com freqüência os doentes, mesmo com alto risco de contágio. Seu amigo e também biógrafo Aureliano Correia Pereira Pimentel (20/11/1830 – 31/12/1908) nos conta que era o Padre José Maria o sacerdote que assistia espiritualmente os condenados à forca, nos instantes que precediam a consumação da pena capital.

Continua...



* Abgar Antônio Campos Tirado é natural de São João del-Rei, MG. Com formação na área das Letras e da Música, é professor, palestrante, comentarista cultural, escritor, pianista e compositor, com obras já executadas no exterior. Foi diretor por vários anos do Conservatório Estadual de Música “Padre José Maria Xavier” de São João del-Rei, onde se aposentou. É sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei e membro efetivo da Academia de Letras da mesma cidade, bem como da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais. Mais...