quarta-feira, 28 de novembro de 2018

BIOBIBLIOGRAFIA DE OLAVO BILAC



Por Francisco José dos Santos Braga


OLAVO Brás Martins dos Guimarães BILAC (Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865 — 28 de dezembro de 1918) foi um jornalista, tradutor, contista, cronista e poeta brasileiro. Foi como poeta que Bilac se imortalizou. Juntamente com Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, – constituindo a chamada Tríade Parnasiana, – foi a maior liderança e expressão do Parnasianismo no Brasil. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 15 da instituição, cujo patrono é Gonçalves Dias. 

Em 1888, a publicação de Poesias rendeu-lhe a consagração. Eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros pela revista Fon-Fon em 1913, no concurso lançado em 1º de março de 1913, sua popularidade aumentou e seus poemas foram cada vez mais apreciados entre seus leitores. Alguns anos mais tarde, os poetas parnasianos seriam o principal alvo do Modernismo. Apesar da reação modernista contra a sua poesia, Olavo Bilac tem lugar de destaque na literatura brasileira, como dos mais típicos e perfeitos dentro do Parnasianismo brasileiro. Foi notável conferencista, numa época de moda das conferências no Rio de Janeiro, e produziu também contos e crônicas.

Bilac foi autor de diversos livros 
1) individuais
Poesias, dividido em três partes: Panóplias, Via Láctea e Sarças de Fogo (1888), Crônicas e Novelas (prosa, 1894), Contos para Velhos (1897, sob o pseudônimo de Bob), Alma Inquieta (poesias, 1902), As Viagens (poesias, 1902), Crítica e Fantasia (prosa, 1904), Poesias Infantis (1904), Juca e Chico (tradutor das famosas travessuras de “Max und Moritz” de Wilhelm Busch, do alemão para o português, 1906), Conferências Literárias (1906), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade (crônicas, 1916), A Defesa Nacional (1917), Tarde (poesias, 1919, publicação póstuma organizada por Alceu Amoroso Lima), Últimas Conferências e Discursos (1924, publicação póstuma);

2) em colaboração
Pimentões (1897, com Guimarães Passos), A Terra Fluminense (1898, com Coelho Neto), Lira Acaciana (1900, com Alberto de Oliveira e Pedro Tavares Jr.), Livro de Leitura (1901, com Manuel Bonfim), Contos Pátrios (1894, com Coelho Neto), Livro de Composição (1899, com Manuel Bomfim), Guide des États Unis du Brésil (1904, com Guimarães Passos e Souza Bandeira), Tratado de Versificação (1910, com Guimarães Passos), Teatro Infantil (1905, com Coelho Neto), A Pátria Brasileira (1909, com Coelho Neto), Através do Brasil (1910, com Manuel Bonfim), Lições de História do Brasil (1918, com Macedo), para mencionar apenas os mais conhecidos. O sr. Eloy Pontes organizou e publicou (Rio de Janeiro: Casa Mandarino, 1940) “Olavo Bilac, Bom Humor”, uma coletânea de trabalhos humorísticos do grande poeta, recolhidos de suas numerosas colaborações em folhas do Rio e de São Paulo. 

Prestou colaboração em várias publicações periódicas. Cabe aqui mencionar pelo menos as seguintes revistas: A Imprensa (1885-1891), A Leitura (1894-1896), Branco e Negro (1896-1898), Brasil-Portugal (1899-1914), Kosmos (1904-1909), Azulejos (1907-1909) e Atlântida (1915-1920). 

Com referência a viagens feitas ao exterior por Bilac, [DIMAS, 1999, 174-189] ¹ começa assim seu artigo intitulado "Bilac em Lisboa": “Ainda está por ser feito um trabalho minucioso sobre as viagens constantes de Bilac (1865-1918) à Europa e a Portugal, em particular”. Segundo o articulista, em 1890, ao atravessar o Atlântico pela primeira vez, Bilac gozou da ventura de apertar a mão de Eça de Queirós, numa fria noite de dezembro de 1890. Sobre a segunda viagem à Europa (cuja data o autor não especifica),  informa que Raymundo de Magalhães Júnior, biógrafo de Bilac, destaca apenas, no que se refere à escala em Lisboa, o interesse do parnasiano em negociar a publicação de seu terceiro livro de prosa, Crítica e Fantasia, cuja primeira edição acabou saindo pela Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, de Lisboa, ainda em 1904. Mais de dez anos depois, em plena Primeira Grande Guerra, Bilac ainda volta ao continente europeu, duas vezes: em 1914 e 1916. Com referência a esta última viagem, entre tantas entrevistas concedidas a periódicos lisboetas, assim que desembarca na capital portuguesa, proveniente de Paris, destaca trechos de uma delas, concedida ao jornal A Capital, em 26 de março de 1916, nos quais ficam patentes sua latinofilia e a defesa da nacionalidade brasileira, sobretudo a dos nossos estados meridionais, posta em questão por causa de sua farta população de imigrantes de origem germânica. [DIMAS, 1999, 183] registra que "armado dessa argumentação pedagógico-castrense, Bilac entra numa Lisboa que, cerca de vinte dias antes, havia declarado guerra ao adversário alemão e que, portanto, estava ávida para ser confirmada, legitimada e reconhecida em sua beligerância, sobretudo se esse reconhecimento viesse de um intelectual, de um poeta da mesma língua e da mesma extração cultural. A fusão do político e do ideológico com o poético não poderia ter ocorrido em momento mais que adequado. No congraçamento dessas esferas, intercambiavam-se prestígios específicos, em benefício de ambos os lados, como bem se pode avaliar a partir desta nota da redação da revista Atlântida
“Durante a sua recente permanência em Lisboa, Olavo Bilac foi alvo das mais significativas homenagens de admiração e carinho por parte de todas as classes sociais. O chefe do Estado quis ter a honra de o sentar à sua mesa, oferecendo-lhe um jantar íntimo em que foram igualmente convivas algumas ilustres personalidades literárias e o diretor da Atlântida, dr. João de Barros. Domingo, 26 de março, realizou-se em honra do presidente da República uma grandiosa manifestação popular, a propósito da entrada de Portugal na guerra europeia. O cortejo, composto de muitos milhares de pessoas, foi desfilar perante o edifício da câmara municipal, em cuja varanda estava o dr. Bernardino Machado, os membros do go- verno e os ministros das nações aliadas. Pouco antes, passara em frente do Avenida Palace e como a multidão descortinasse a uma das janelas Olavo Bilac, que presenciava o desfile, ergueram-se de todas as bocas, frementes de entusiasmo, vivas calorosos ao Brasil, à República irmã e ao seu grande poeta. Foram alguns minutos de inolvidável comoção. As salvas de palmas estrugiram, os chapéus e os lenços agitaram-se no ar, todos pararam voltados para Bilac surpreendido com aquela admirável demonstração de afeto à sua gloriosa pátria. O eminente lírico agradeceu profundamente sensibilizado, erguendo um Viva a Portugal. No dia 28, três do jornais noturnos de Lisboa, A Capital, O Século e A Opinião, inseriam interessantes entrevistas com Olavo Bilac acerca da atitude do Brasil em face da presente situação internacional.” [Atlântida (Lisboa), nº 6, 15 abr. 1916, p. 569-570]. 

Como se vê, a notoriedade de Bilac entre os portugueses foi muito semelhante à de um popstar. O Jardim Olavo Bilac, também conhecido por Jardim do Largo das Necessidades, é um jardim da cidade de Lisboa. Foi construído em 1747 e seu projeto atribuído ao arquiteto Manuel Caetano de Souza. O Jardim possui um parque infantil e um chafariz (Chafariz das Necessidades) e está situado em frente ao Palácio das Necessidades.



NOTAS  EXPLICATIVAS


¹ DIMAS, Antonio: Bilac em Lisboa, São Paulo: revista Via Atlântica (USP), nº 2, jun/1999, p. 174-189 

FLORENÇA



Por Olavo Bilac



Não foi a Florença de agora que eu vi e amei, em uma certa noite tepida e silenciosa de junho, a deshoras, quando já a treva e o somno tinham dominado os palacios e os casebres da velha cidade toscana: foi, sim, a Florença veneranda dos tres seculos sagrados, durante os quaes a alma humana resuscitou do tumulo da idade-media, — cyclo prodigioso, que começou com o nascimento de Dante e acabou com a morte de Miguel Angelo, em 1563, precisamente no anno em que Shakespeare nascia.


Havia seis dias que eu andava, num arroubo encantado, com todos os nervos vibrando, correndo Florença, fartando os olhos na contemplação dos thesouros de arte d'essa cidade maravilhosa, que tem, para a minha alma de homem moderno, um encanto incomparavelmente maior do que o de Roma.


Berço e sacrario da Renascença, nucleo gerador de onde irradiou para toda a Europa a salvação do espirito latino depois da longa syncope, Florença tinha captivado o meu coração pela sua triste magestade de deusa decahida, mas adorada por toda a humanidade, encerrada com os seus palácios e os seus museus numa atmosphera de soberano respeito e de supremo culto.


Nessa noite, à hora em que, na praça Vittorio-Emanuele, depois da serata de musica, se fechavam os cafés, eu quiz, antes de dormir, rever ao luar o Persêo de Benevenuto Cellini. Cheguei, pela via degli Speziali, à via dei Calzajoli, passei à pressa pela igreja de Or San Michele e pelo oratorio de S. Carlo Borromeu, e fui ter à Piazza della Signoria, banhada no clarão suave do plenilunio, deserta e muda, fechada ao fundo pelo vulto immenso do Palazzo-Vecchio.


A torre altissima do Paço dos Medicis nadava em plena luz, projectando no chão uma larga toalha de sombra, que se estendia, como um tapete negro, à entrada da Loggia dei Lanzi. Na grande fonte de pedra, no centro da praça, a agua cantava de manso; ao luar, Neptuno e os tritões offegavam, no silencio da noite; e, mais longe, o grande Cosme, modelado e fundido por João de Bolonha, parecia agitar-se sobre o seu cavallo de bronze.


Na Loggia dei Lanzi, — naquelle assombroso museu ao ar livre, — dois mendigos dormiam sobre as lages, ao abrigo das altas arcarias rendadas. Na arcaria da esquerda, quasi encostado ao Persêo, estava ainda o grande quadro, cheio de algarismos, em que se annunciára o resultado do loto d'aquelle dia. E no chão, sobre os degráos, havia os residuos do mercado volante, — vestigios da passagem dos vendedores de frutas e refrescos, que alli se recolhem à tarde, do calor do sol.


Mas nem de leve me irritou ou magoou essa profanação. Havia até um certo encanto no espectaculo da pobreza, do vicio, da vida de hoje, no meio daquelle scenario de 1500, — no logar em que os fidalgos da côrte de Lourenço de Medicis iam esperar todas as manhãs a honra de ser chamados à presença d' O Magnifico.


E que importavam esses signaes da vida de hoje? O luar, com o seu prestigio feiticeiro, acordava alli as epochas mortas; e a Florença, que eu estava admirando e amando, era a Florença rica e artista, alegre e bellicosa, peccadora e atrevida, cuja fama o grande Dante, seu divino filho, até foi encontrar no Inferno, depois de a ter encontrado na terra e no mar:


Godi, Firenze, poi che sei si grande,

Che per mar e per terra batti l’ali,

E per lo inferno il tuo nome si spande...» ¹


Dentro da Loggia dei Lanzi, havia faixas do clarão da lua, prateando a juba dos dois leões da escadaria, lambendo o collo de marmore da Polyxena de Pio Fedi, acariciando a face de bronze da Judith do Donatello.


O Persêo de Cellini, — esse, plantado à frente da Loggia, recebia em chapa todo o banho de prata fluida; e nunca me pareceu tão bello o jovem deus victorioso, com o corpo esbelto empinado ao céo, retesando os musculos bronzeos em resalto, erguendo no punho esquerdo a cabeça da Meduza vencida; — sob a pressão do pé de Persêo, o corpo da gorgona arfava no estertor da agonia; e, no ar, numa revolta impotente, emmaranhavam-se e remordiam-se, rabeando, as serpentes da cabelleira do monstro... 

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Persêo de Benevenuto Cellini, em Florença
Foi de junto do grupo do Persêo, que, abrangendo com o olhar a Piazza della Signoria, evoquei a grandeza material e moral da Florença antiga. 
"Loggia dei Lanzi" na "Piazza della Signoria", em Florença
Esta praça, coração da republica, coração da antiga Signoria, e coração da autocracia dos Medicis, foi o scenario em que se concentrou, de 1200 a 1600, todo o drama da Renascença: aqui se encontravam, em pelejas sangrentas, os guelfos e os gibelinos, «os brancos e os negros»; por aqui passeou Dante, taciturno e sonhador, o seu orgulho de deus exilado na terra; aqui foi queimado Savonarola; este chão foi calcado pelos pés de Miguel Angelo, de Boccacio, de Machiavel, de Giotto, de Fra Angelico, de Benevenuto Cellini...


A poucos passos d'aqui, no fim da escura via Magazzini, ainda se levanta a fina e alta casa dos Alighieri, onde nasceu o sombrio florentino, o creador immortal da lingua italiana. Este era o caminho inevitavel para as margens do Arno, onde Dante, ainda menino, ia folgar. Foi talvez aqui, nesta praça, onde se reuniam os comicios da republica, onde se travavam batalhas e torneios poeticos, onde se combinavam negocios e amores, — que o divino poeta, infante de nove annos, viu pela primeira vez a sua pequenina Bice, «envolvida numa leve tunica vermelha»; foi ainda aqui, talvez, que, mais tarde, ella, — d'esta vez toda vestida de branco, — lhe dirigiu a primeira saudação, «erguendo a sua alma ao limite mais alto da beatitude»; e foi de certo aqui que o melancolico devassador do Inferno imaginou e compôz, antes de ir chorar no exilio as desgraças de Florença, o ingenuo romance da Vita Nuova, em que os commentadores (quasi sempre tão traidores como os traductores) teem querido ver tantas complicações de symbolismo politico...


O que deve ter soffrido, aqui, aquella nobre alma altiva e grave, tão pouco dada aos prazeres do mundo! Florença, no tempo de Dante, era uma cidade de commercio e de prazer. A sua riqueza era collossal; davam-lhe o titulo de «Fonte de Ouro»: e era nas suas arcas que os príncipes christãos e mahometanos iam procurar, por emprestimo, os florins, com  que sustentavam as suas guerras. Esses commerciantes eram letrados e artistas: não raro, nos seus livros de escripturação mercantil, havia, ao lado dos algarismos, trechos de Tito Livio e Sallustio. 0 povo, nos intervallos das guerras, vivia, pelas ruas, cantando e dançando. Essa riqueza, essa futilidade, essa alegria irritavam a melancolia de Dante: certa vez, no meio do tumulto de uma festa popular, viram aquelle adolescente sem mocidade passar doze horas estudando, entre a algazarra e o tropel do povo, sem levantar os olhos do livro.


Mas, quando a derrota dos guelfos o obrigou a partir de Florença, — Dante ficou aqui, em espirito, vagando entre estes palacios, amando a sua cidade de flores. Elle mesmo o disse: «florentino, não nos costumes, mas no coração...» E eil-o ainda aqui está, depois de seis seculos, povoando com a sua grande gloria a Piazza della Signoria: não será o seu espirito errante, — aquelle vulto que alli vae, escuro e indeciso na alvura do luar, beirando o muro do Palazzo Vecchio, entrando o apertado becco que leva ao Palazzo degli Uffizi ... 
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David de Miguel Angelo, em Florença
Mais de um seculo depois, andava por aqui Miguel Angelo, ainda moço, amado e protegido pelo Magnifico. Por aquella baixa porta do Palazzo Vecchio, como esmagada pelo peso da alta móle de pedra, — entrou e sahiu muita vez, ainda modesto, ainda quasi inconsciente do seu genio, o maior artista que jamais trabalhou sobre a terra. Miguel Angelo era ainda uma creança, quando Lourenço, o Magnifico, lhe deu a mão protectora. E Florença veio a ter a gloria de possuir o primeiro trabalho definitivo do estatuario prodigioso, — esse incomparavel David, que esteve até 1873 erguido à porta do Paço dos Medicis, a dois passos da Loggia dei Lanzi, e que hoje, na Sala da Cupola da Academia de Florença, como na abside de um templo, irradia e deslumbra, symbolo palpitante da Força, da Mocidade e da Belleza...


O David foi tirado de um immenso blóco irregular de marmore, que nenhum esculptor ousára ainda atacar. Buonarotti, que devia morrer com oitenta e nove annos de idade em plena pujança de talento, contava apenas vinte e seis annos, quando communicou à frieza d'essa pedra bruta o ardor do seu genio, para a transformar na figura do jovem pastor de Bethlém, rei e propheta, Hercules hebreu, vencedor de gigantes.


Mas essa estatua não é sòmente David: é a representação viva do poder criador de Miguel Angelo. Moysés é Miguel Angelo, na virilidade, austero e grandioso, repousando do trabalho prodigioso da creação de mundos de arte; mas David é Miguel Angelo moço, na primavera do genio, turgido de seiva fecunda.


Robusto e leve, dando à luz o corpo desnudado, em cujas formas canta e sorri a graça forte da juventude; aprumando a cabeça formosa, em cuja expressão a fé e o desafio se misturam; pisando a terra com a firmeza e a serenidade de um deus, — o David é Buonarotti partindo para a conquista da gloria e da Immortalidade.

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Aqui, na Piazza della Signoria, Miguel Angelo reatou, no seculo XV, o grande sonho estrellado de Dante, no seculo XIII. Essas duas almas, de extensão infinita e de infinita força, aqui se entenderam e completaram, atravez de duzentos annos de distancia. Os pés de Buonarotti encontraram, neste chão venerando, os vestígios dos pés de Alighieri. Ambos arrastaram por aqui as suas esperanças, os seus amores da primeira idade.


E, ao miral-a, serenamente adormecida à caricia do luar, de sob o portico toscano da Loggia, de junto do Persêo de Cellini,— cuido ver a Piazza acordar pouco a pouco, e pouco a pouco povoar-se de fantasmas.


Alli vão os gonfaloneiros da Republica, com as insignias levantadas, a caminho da guerra; alli vae o carroccio monumental, alcatifado de purpura, conduzindo as armas da communa; e eis ahi veem os guerreiros em triumpho, debaixo dos baldaquinos de ouro; e homens e mulheres dançam e cantam, celebrando o amor e a paz.


Depois, vejo Dante parado, em extase, petrificado pela admiração devota, contemplando Bice, que passa ao longe, entre as suas aias solicitas.


E alli está Giotto, concebendo, a um tempo, a imagem de "S. Francisco de Assis recebendo os estygmas" e o plano das fortificações de Florença.


Depois, vejo arder a fogueira de Savonarola; e vejo a praça encher-se de cadaveres, e a multidão que chora, e a peste devastando a cidade; e, entre lagrimas e vociferações, Boccacio, risonho e bello, imaginando o proemio do Decameron

Depois, à frente dos cortezãos, alli vem o Magnifico, naquella attitude de "pensieroso", que Miguel Angelo lhe deu, sobre o seu tumulo da Sagrestia Nuova. E, adiante, aponta Benevenuto Cellini, entre os seus companheiros de briga e aventura, espadachim e artista, immoral e seductor, como o symbolo de uma epocha em que as guerras se faziam em risos, e em que a Arte, flôr divina, brotava do sangue e da lama... 

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DUOMO, um dos ícones de Florença, constituído da Catedral de Santa Maria del Fiore, do Batistério, do Museu dell'Opera, do campanário de Giotto e da cúpula de Brunelleschi

Mas, ao longe, o grande sino do Duomo badala dois abafados lamentos... 

Os meus olhos beijam ainda uma vez o scenario da Renascença, — e, atravessando a claridade do luar, vou, levando commigo, para a vida real, para a triste agitação da minha vida de homem de hoje, o suave consolo de ter podido comprehender e amar, em uma hora de sonho, toda a grandeza d'este cemitério de glorias, que é Florença... 


Rio, 16 — Dezembro — 1904.



Observação: Estas belas páginas florentinas de Olavo Bilac foram publicadas no periódico Kosmos, no número de dezembro de 1904, donde as retomaram, doze anos após, seu livro de crônicas "Ironia e Piedade" (Rio de Janeiro: Francisco Alves) e, trinta anos depois, a Revista da Academia Brasileira de Letras (Ano XX, nº 148, pp. 462-468. Rio de Janeiro, 1934). Aqui foi mantida a grafia original do texto de Olavo Bilac da forma como apareceu no periódico Kosmos.



NOTA  EXPLICATIVA



¹  Reprimenda a Florença – versos 1-3

Aproveita, Florença, já que és tão grande

que por mar e por terra bates as asas,

e pelo inferno teu nome se expande!

O canto começa com uma acusação contra Florença que se une tematicamente ao canto anterior (VII), onde Dante havia encontrado cinco ladrões justamente florentinos: com ironia, nota como Florença é conhecida em toda a terra (metaforicamente, "bate as asas", citando uma inscrição no Palácio de Bargello de 1255). De fato, Francesco Buti comentou a propósito: "foram então os florentinos que estavam muito dispersos fora de Florença por diversas partes do mundo, e estavam no mar e em terra, dos quais talvez os florentinos não se orgulhassem". Também no Inferno o nome de Florença se expande, tendo Dante se envergonhado por ter encontrado cinco concidadãos entre os ladrões, que obviamente não levam honra à sua cidade. (tradução livre por Francisco José dos Santos Braga, gerente do blog)



quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Colaborador: JOSÉ LOURENÇO PARREIRA













O livro “Forte de Coimbra: uma Fortaleza no Pantanal”, editado pelo CMO-Comando Militar do Oeste, contendo 10 capítulos, sendo o Capítulo 10 da autoria do Capitão José Lourenço Parreira (ex-integrante do Forte 1974/1978 e provedor da bissecular Irmandade de N. S. do Carmo) com o título Nossa Senhora do Carmo e os Militares (p. 104-121). O autor, nesse capítulo, aborda os seguintes subtítulos: 
1) Imagem Histórica 
2) Como surgiu a devoção à Virgem de Carmo 
3) O escapulário de N. S. do Carmo na Vila Militar do Rio de Janeiro 
4) O escapulário e Ricardo Franco 
5) A história que edifica: Nossa Senhora é a saúde dos enfermos, consoladora dos aflitos, a rainha da paz 
6) Primeira Jornada cultural no Forte de Coimbra e a mão poderosa e invisível de N. S. do Carmo. 

A obra é importantíssima porque resgata a história do Forte de Coimbra, o qual exerceu posição militar relevante na manutenção do território brasileiro. Esse livro trata da tradição que envolve essa singular fortaleza, com diversos capítulos abordando aspectos históricos, geográficos, econômicos, culturais, religiosos e militares relacionados ao Forte de Coimbra e tem como autores o Coronel Francisco José Mineiro Júnior, professor do Colégio Militar, o professor e historiador Hildebrando Campestrini, a professora Maria Teresa Garritano Dourado, o advogado e historiador Luiz Eduardo Silva Parreira, o atual comandante da 3ª Companhia de Fronteira, sediada no Forte de Coimbra, major de Infantaria Airton Hilberto Corrêa, o próprio Coronel Valdenir de Freitas, o Capitão José Lourenço Parreira, além dos historiadores Natália Leal da Silva e Divaldo Rocha Sampaio. 

O Dr. Luiz Eduardo Silva Parreira, advogado, pesquisador de polemologia, responsável pelo site http://www.polemologia.blogspot.com, é filho do Capitão José Lourenço Parreira e autor do Capítulo 5 (p. 56-61) do livro supracitado. 

DIA DE SANTA CECÍLIA


Por José Lourenço Parreira


O dia 22 de novembro é dia do músico, da música, de sua Padroeira: Santa Cecília. Cecília viveu em Roma, nos primórdios do cristianismo. Bela jovem católica foi entregue, contra sua vontade, em matrimônio ao pagão Valeriano. No entanto, Cecília o converteu. Ambos foram martirizados. Cecília foi decapitada; no entanto, seu corpo está incorrupto num sarcófago nas catacumbas de São Calixto. 

Nos anos 1982, no Rio de Janeiro, Vila Militar, ocorria bela cerimônia em honra da mártir Santa Cecília e em homenagem aos músicos. 

À frente da Banda de Música do Regimento Sampaio estava o Capitão Músico Benigno Parreira, meu querido irmão. 

Com apoio de seus superiores, no dia de hoje, havia a celebração da Santa Missa, abrilhantada pelo Coral do Regimento Sampaio que fora criado pelo Capitão Parreira. Após a Santa Missa, na Avenida diante da Divisão de Exército, a tradicional Divisão Mascarenhas de Moraes, havia apresentação artística por cada uma das Bandas de Música convidadas para o evento: Bandas de Músicas do Exército, da Marinha, da Polícia Militar, da Força Aérea, dos Bombeiros. 

A cerimônia tinha o seu clímax com o desfile monumental. Tendo à frente o Capitão Parreira, desfilavam em honra à Padroeira dos Músicos e em continência ao General Comandante da Divisão de Exército, 700 músicos militares! 

Fantástico espetáculo artístico-castrense, único na História do Brasil! 

Benigno Parreira, atualmente, é o Maestro Honorário da Orquestra Lira Sanjoanense, fundada em 1776. 

Sala de Ensaios Maestro Benigno Parreira, na sede da Orquestra Lira Sanjoanense

A Lira Sanjoanense é a mais antiga orquestra das Américas e segunda mais antiga do mundo, conforme a UNESCO. Seu atual Regente é o Maestro Modesto Fonseca, doutor em Regência, e o jovem violinista Leandro. 

Domingo, dia 18 de novembro, do corrente ano, a Lira apresentou belíssimo Concerto no Teatro Municipal de São João del-Rei. 

Este autor tem a honra de ser violinista-solista da Orquestra Lira Sanjoanense. 

José Lourenço Parreira solando diversas canções comemorativas no Dia da Artilharia com festa regional  do CMO

O General de Exército Raul Silveira de Mello, maior autoridade em Historiografia no século XX, escolheu José Lourenço Parreira para ser o autor da melodia de seu belo poema, a "Canção do Bom Soldado". Referida Canção foi brilhantemente cantada pelo Batalhão Laguna, o 44º Batalhão de Infantaria Motorizado, com sua magistral Banda de Música, com sede em Cuiabá-MT. Atualmente, seu Comandante é o Coronel Nilberti Viana Gramosa.

 MARCHA FÚNEBRE SAUDADES

Há mais de 50 anos, nos anos 50, o jovem Sargento Benigno Parreira compôs a Marcha Fúnebre Saudades, tendo ofertado cópias de sua obra às Bandas de São João del-Rei (Banda do Batalhão, Banda Teodoro de Faria) e às Orquestras Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos. Benigno Parreira também deu cópia de "Saudades" para a Banda da Prefeitura que a tem executado todos os anos.

Da esq. p/ dir.: pianista e compositor Francisco Braga; compositor, regente, clarinetista e dotado de voz privilegiada de baixo profundo, Benigno Parreira; e este autor, violinista José Lourenço Parreira
Sua primeira apresentação universal deu-se num sábado da Quaresma, aquele em que a Irmandade dos Passos realiza o Depósito das Dores, quando a Imagem de Nossa Senhora das Dores é conduzida no andor, velada, da Matriz do Pilar para a Igreja da Venerável Ordem do Carmo. 

Conforme antiga tradição, em procissão, o Depósito das Dores é acompanhado pela Banda de Música Teodoro de Faria que "invariavelmente" executa, nesse traslado, a Marcha das Dores. Não sabemos o porquê, mas nesse ano o Maestro Teófilo Inácio Rodrigues (Sô Tiofo) decidiu quebrar tradição e acompanhou a Imagem de Nossa Senhora das Dores, tocando a Marcha Saudades de autoria de Benigno Parreira! 

Naquele ano, também, ocorreu de a Banda do Batalhão ser convidada para tocar no Depósito das Dores! A Banda do Batalhão tinha à frente o Ten Alberto Wilson de Castro. A Banda ficou na confluência da rua Resende Costa com a Rua Direita, defronte ao belo templo de Nossa Senhora do Carmo. Os sinos do Carmo tocam mais celeremente anunciando que a Procissão do Depósito se aproxima e os irmãos do Carmo saem da Igreja para se encontrarem com a Procissão dos Irmãos dos Passos e, assim, receberem a Imagem que pernoitará na Igreja do Carmo... 

Pois bem, a Rua Direita está tocada pelos acordes da novel Marcha Saudades que ninguém ouvira e, no entanto, tocava a sensibilidade de todos! Eis que, nesse clímax do encontro das duas Irmandades, a Banda do Batalhão estremece o solo, as paredes do casarão, atinge os corações e começa a vibrar, também, a Marcha Saudades de autoria do Sargento Parreira que, emocionado, está tocando a sua clarineta... 

Foi assim, a primeira audição mundial, a primeira vez que Saudades foi executada: no Depósito das Dores, pela Banda Teodoro de Faria que quebrou a tradição e a Banda do Batalhão que, excepcionalmente, naquele ano, foi convidada a tocar no referido Depósito! 

O tempo passou, e, paulatinamente, "Saudades" caiu no gosto dos artistas e do povo fiel! Na quaresma, tanto a Lira como a Ribeiro Bastos tocam Saudades em várias solenidades sacras... Neste ano de 2018, a Ribeiro Bastos tocou "Saudades" em vários dias do Setenário das Dores! A Lira, orquestra do compositor, sempre a toca na Quaresma... 

Observe que Saudades foi executada nos funerais do querido e saudoso Monsenhor Sebastião Raimundo de Paiva e Aluízio José Viegas. Nas exéquias do Aluízio eu estava presente. O féretro saiu da sede da Lira e entrou na Catedral. Quando Modesto Fonseca começou a reger Saudades, eu toquei molhando em lágrimas o meu violino! 

No Domingo do Encontro, virou tradição a Banda do Batalhão tocar na Rasoura do Senhor dos Passos, na Igreja de São Francisco. 

O ilustre historiador e escritor Antônio Gaio Sobrinho escreveu, num seu artigo publicado na GAZETA que a Marcha Saudades de Benigno Parreira equivale a uma bela homilia... *

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Certa vez, estávamos Aluízio Viegas, Benigno Parreira e eu ali atrás da Catedral Basílica de N. S. do Pilar conversando, quando chegou um moço muito educado. Dirigiu-se a Benigno Parreira dizendo-lhe: "Maestro estou fazendo minha Tese de Doutorado e elegi como Tema as Marchas Fúnebres. Poucos são os compositores que compuseram duas Marchas Fúnebres. O senhor é um desses poucos. Descobri, também, que Saudades é a Marcha Fúnebre mais tocada em todo o Estado de Minas Gerais, ao lado da Marcha da Paixão. Como a da Paixão é só na Sexta-Feira, Saudades é a mais tocada..." 

Aluízio José Viegas (⭐︎São João del-Rei, 26/03/1941-✞Nova Lima, 27/07/2015)
Meu irmão, meio surdo, depois me perguntou o que aquele senhor dissera. Falei-lhe e Benigno, a humildade em pessoa, disse: "Engraçado, obra tão simples. Quem será que mandou cópias para outras cidades?" 

O nome do pesquisador, hoje doutor, é Edésio de Lara Melo. Seu trabalho está em pdf na internet. 


* Cf. Divina Música, por Antônio Gaio Sobrinho in https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2018/02/divina-musica.html

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Colaborador: Francisco GUSTAVO de Castro DOURADO


Francisco GUSTAVO de Castro DOURADO é baiano mas vive em Brasília há 43 anos. Foi fundador e diretor do Centro Acadêmico de Letras da UnB. É professor de Língua Portuguesa e de Literatura da Secretaria de Estado de Educação do Governo do Distrito Federal. Como poeta e escritor publicou, entre outros, os livros Phalabora, Linguátomo, Tupinambarbárie, ABC de Vladimir Carvalho, Antologia de Cordel, Educação em Brasília e mais de cem folhetos de cordel. Suas obras foram reconhecidas pela Unesco, pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e objeto de estudo dos pesquisadores Silvie Raynal, professora das universidades Sorbonne e Poitiers; e Mark Curran, da Universidade do Arizona. 

O escritor é membro pesquisador da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Em setembro, o Cordel foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan e Ministério da Cultura. Dourado é também presidente da Academia Taguatinguense de Letras, reconhecida como Patrimônio Cultural, Material e Imaterial do DF. 

Dourado recebeu forte influência dos cantadores repentistas e dos poetas cordelistas desde a primeira infância. A cultura oral e a poesia popular, as histórias, contos e causos fizeram parte de sua formação inicial. Recentemente, lançou Cordelos (Dourado Editores), obra patrocinada pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), a qual traz 57 cordéis biográficos de grandes nomes da literatura, em homenagem à Língua Portuguesa. O escritor, crítico literário e diplomata Márcio Catunda, um dos prefaciadores do livro, afirma que “Cordelos homenageia os grandes escritores e escritoras que ofereceram a dádiva de seus talentos no altar da santa arte da palavra”. E destaca: “Com os instrumentos da métrica e da rima, o menestrel iluminado pela generosa verve do humanismo, canta para nos dizer que o exemplo dos grandes é o nosso júbilo”. 

Entre os laureados estão Camões, Fernando Pessoa e José Saramago (portugueses), Leandro Gomes de Barros, Patativa do Assaré e Gonçalo Ferreira da Silva (cordelistas populares) e Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Cora Coralina, Oswald de Andrade, Rachel de Queiroz e Ariano Suassuna. E têm raridades como Maria Firmina dos Reis, primeira romancista negra brasileira; e Samuel Rawet, engenheiro que calculou os principais prédios de Brasília. A capa do livro é do artista plástico Toninho de Souza.

João Ferreira, escritor, professor e jornalista; professor titular aposentado da Universidade de Brasília(UnB), autor de vários livros, ensaios e artigos publicados, fez a seguinte apreciação do poeta no artigo "Brasília 50 Anos Vestida de Cordel", quando da comemoração dos 50 anos da fundação de Brasília com a publicação de textos da autoria de Dourado visando celebrar e homenagear uma cinquentena de figuras brasilienses dedicadas à arte, à educação e à literatura na sua obra "Brasília 5.0 Antologia de Cordel": "(...) A biografia de Gustavo nos relata que ele viveu o clima do cordel popular baiano da região de Recife dos Cardosos, Ibititá/Irecê, onde nasceu, assim como do sertão setentrional da Chapada Diamantina, Baixo-Médio São Francisco, Bahia, terra de Castro Alves. Desde o berço, dizem-no vozes biográficas fidedignas, acalentou-o o aboio dos vaqueiros, a cantilena dos martelos agalopados, as pelejas e o repentedos cantadores de feira. Sua infância foi ambientada no cordel popular. Ao entrar na Universidade essa inspiração popular foi desenvolvida em moldes próprios.
Gustavo notabilizou-se na composição da arte de cordel desde o tempo em que era estudante do curso superior de Letras da Universi
dade de Brasília quando aproveitava para declamar suas composições cordelistas junto de colegas e professores em quem tinha mais confiança. Gustavo ainda conheceu na UnB o prestígio que o cordel brasileiro ganhou na Universidade da Sorbonne graças ao trabalho de Raymond Cantel, que chamou a atenção dos franceses e da crítica internacional para a literatura de folhetos do Brasil, ou “littérature de colportage”. Interessado na literatura que cantava o mítico rei do cangaço Virgulino Lampião, e outros heróis, Cantel percorreu o Cariri cearense, a Paraíba e o Recife, e passou a vir anualmente desde 1950 para conferir no Brasil as novidades das gráficas de cordel e das feiras com a vontade de encontrar novos textos, novos autores e novas histórias de cordel.
Com a experiência cordelista da terra baiana, com o talento que tem e com as boas oportunidades que lhe deu a Academia, Gustavo tornou-se um criador de texto e um especialista em cordel. Com a insistência de quem conhece a arte pela raiz, tornou-se a figura número um do cordel erudito em Brasília
(...)."


O escritor Gustavo Dourado acaba de vencer o Prêmio Nacional Culturas Populares - Edição Selma do Coco, do Ministério da Cultura (MinC) pelo conjunto de sua obra, com o tema “O Cordel e a Literatura na Comunidade”. Foram divulgadas, nesta segunda-feira (22/10/2018), as 500 iniciativas populares vencedoras do referido Prêmio. Dourado recebeu nota 9,8, sendo reconhecido como "Mestre da Cultura Popular". A premiação visa fortalecer as expressões culturais populares brasileiras, tais como o cordel, a quadrilha, o maracatu e o bumba-meu-boi, entre outros. Dourado ficou entre os três mais bem colocados da região Centro-Oeste, liderou no DF e figura entre os principais do país.

CORDEL DO LIVRO E DA LEITURA


Por Gustavo Dourado 

Cordel do Livro e da Leitura

O livro liberta o Ser: 
Revoluciona o pensamento... 
Floresce a Sabedoria: 
Desperta o conhecimento... 
Revolta a calmaria: 
Faz tempestade no vento... 

Leitura ferve a alma: 
Queima a ignorância... 
Vulcaniza o coração: 
Desvela a nossa infância... 
Revela o movimento: 
Dá asas à militância... 

Quem lê voa sem correntes: 
Afronta a burrocracia... 
Despetala a sapiência: 
Germina a flor da poesia... 
Enxerga mais adiante: 
Vê os céus da fantasia... 

Livro, Leitura, Arte: 
A voz da cidadania... 
Consciência Social: 
Dialética da alegria... 
Ave do Espaço-Tempo: 
Faz a noite virar dia... 

Acordemos da dormência: 
O Livro nos faz pulsar... 
Semente que frutifica: 
Num galope a beira mar... 
Com o livro se navega: 
Nas profundezas do ar... 

Cecília, Cora, Patativa: 
Clarice...Graciliano... 
Rosa que perfuma a vida: 
Dos sertões ao oceano... 
Livros à flor da pele: 
Leitura em primeiro plano... 

Voemos além do agora: 
Em direção ao futuro... 
Que a liberdade prevaleça: 
Por cima de todo muro.... 
Navegantes da palavra: 
Entre o claro e o escuro... 

Ler, sonhar, sentir, viver: 
No cultivo da linguagem... 
Caminhar com equilíbrio: 
Além da terceira margem... 
Com o livro e a leitura: 
Em permanente viagem...

Maio de 2013

domingo, 4 de novembro de 2018

HOMENAGEM AOS SÓCIOS FALECIDOS NO IHG DE SÃO JOÃO DEL-REI


 
Por Francisco José dos Santos Braga


Neste domingo, dia 04/11/2018, a 541ª Assembleia Ordinária do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, sob a presidência de Paulo Roberto Sousa Lima e a vice-presidência de Maria Lúcia Monteiro Guimarães, retomou, numa das seções da pauta dos trabalhos, uma singela e merecida homenagem a confrades falecidos, distinguindo os seguintes nomes: Álvaro Bosco Lopes de Oliveira, Astrogildo de Assis, Benito Mussolini Grassi; José de Alencar Ávila Carvalho e Maria José Dutra de Carvalho ("Mara Ávila"); José Augusto Moreira, José Roberto Vitral e Laís Medeiros Garcia de Lima.

Além do belo panegírico proferido por Wainer de Carvalho Ávila, em discurso oficial, homenageando todos os confrades falecidos acima citados, achei por bem acrescentar, na seção Palavra Livre, algumas palavras sobre meu saudoso benfeitor e primo 



ÁLVARO BOSCO LOPES DE OLIVEIRA (1937-2009), filho de Anna Braga Lopes e Miguel Lopes de Oliveira, advogado e pessoa digna, foi um dedicado membro efetivo desta Casa e aqui foi admitido por seus conhecimentos na área da Geografia e suas elevadas qualidades pessoais, reconhecidas por todos os seus confrades: lealdade, capacidade de ouvir, generosidade, amizade e, em especial, por ser possuidor de um dom especial para conciliar e reconciliar na busca da concórdia entre seus pares. Dono de invejável bom senso e uma cultura geral ampla e diversificada, pôde muito contribuir para as discussões e aprofundamento das matérias em estudo, especialmente quando membro da Comissão de Geografia deste IHG. Orgulhava-se de pertencer ao Quadro de Sócios Efetivos, exaltando, quanto pôde, o nome do seu querido Sodalício. Seu nome já constava como Sócio Efetivo deste IHG na Revista nº 3, de junho de 1985. Na Revista nº 5, de 1987, na qual o IHG aparecia distribuído por Comissões, pela primeira vez, ali seu nome já figurava ao lado de Geraldo Guimarães, de quem era dileto amigo, e Aderbal Malta, como os três integrantes da Comissão de Geografia. Ocupou a Cadeira nº 17, patroneada por Severiano Nunes Cardoso de Rezende. 

Era forte o seu senso de pertencimento a este Sodalício, tendo permanecido fiel à sua vocação de historiador até 22 de maio de 2009, data de seu falecimento em Belo Horizonte. Casou-se com Emma Parentoni Lanna de Oliveira, aqui presente nesta singela homenagem a seu marido, cujo enlace matrimonial se deu em 30 de dezembro de 2000 e ao lado de quem foi feliz por nove anos. Seu nome é também lembrado como exímio jogador de damas e contador de “causos” e piadas, sempre recheadas com seu toque inconfundível de bom humor. 

Álvaro Bosco foi meu "padrinho" nesta Casa, indicando meu nome ao presidente José Antônio de Ávila Sacramento, o qual, a 3 de junho de 2007, me deu posse como Sócio Correspondente; da mesma forma agiu, indicando meu nome para a Academia são-joanense de Letras, presidida por Wainer de Carvalho Ávila, que me admitiu como Sócio Correspondente em 29 de julho de 2007. 

Outrossim, em 18 de fevereiro de 2014, no Blog de São João del-Rei, publiquei um elogio fúnebre em homenagem ao meu primo e amigo Álvaro Bosco Lopes de Oliveira, onde figura um texto de suas memórias intitulado “O fim da guerra”, recuperando as sensações que vivenciou no seu 8º aniversário, ou seja, em 6 de maio de 1945.

O FIM DA GUERRA 

Por Álvaro Bosco Lopes de Oliveira

Os convocados tinham o apelido de ARIGÓS ¹ , porque eram na sua maioria gente simples da roça. Naquele dia 6 de maio de 1945 eles chegaram à pensão de meu pai, eufóricos, transbordando de alegria.
Pensão de Miguel Lopes de Oliveira (a mesma casa retratada no conto "O Segredo", de Lincoln de Souza, na  6ª edição do seu livro "Contam que...", de 1957, segundo desenho de Armando Pacheco, com base em fotografia fornecida pelo autor)
Chegaram me jogando para cima, fazendo festa. O clima de alegria contageou a todos. Meu pai trouxe guaraná e cerveja e a festa foi se avolumando, pipocando por toda a cidade. Fiquei perplexo com aquela grande festa, na pensão de meu pai, no Segredo e no resto da cidade... No pouco entendimento dos meus oito anos, eu achei que aquilo era uma grande festa do meu aniversário. Só mais tarde vim a saber que toda aquela festa contagiante era porque tinham se livrado da Guerra, tinham se livrado da perspectiva da morte nos campos de batalha da Itália, para onde muitos já haviam ido; aquele 6 de maio de 1945 foi o dia da rendição alemã, o fim da II GRANDE GUERRA.

Mas a festa não ficou só na cerveja e guaraná. Teve outros lances. E um, digno de registro: um soldado do glorioso 11º Regimento Tiradentes, junto com o piloto Messias, sobrevoou, deu voos rasantes sobre o Regimento e imediações, jogando cal, purificando e embranquecendo as pessoas, pacificando o mundo!

E o soldado? E aquele soldado que jogava cal de um teco-teco? Quem era?

O soldado que teve participação tão original nas comemorações do fim da Segunda Guerra era FERNANDO SABINO. Também ele aguardava com ansiedade o desenrolar da Guerra na expectativa de ir para a frente de combate.

Não conheço nenhuma crônica de Fernando Sabino que faça alusão ao fato, mas em "O Grande Mentecapto" ele faz o herói do livro, Viramundo, viver parte de sua vida aventurosa e picaresca em São João del-Rei. Nesta passagem por São João del-Rei, Viramundo acaba participando de uma orquestra local, e aí, como em todos os lances do romance, faz as suas trapalhadas, de forma saborosa para o leitor.

Mas deixemos de divagações, voltemos ao dia 6 de maio de 1945. A rendição alemã tirou um peso do mundo. A humanidade voltou a respirar aliviada, cheia de entusiasmo para reconstruir dos escombros os edifícios e cidades que a loucura de HITLER havia atingido. 



NOTAS EXPLICATIVAS



¹ Nos Estados do Amazonas e Pará, principalmente, arigó é a designação dada aos nordestinos, em especial cearenses, que para lá migraram a fim de participar, como "soldados da borracha", da extração do látex das seringueiras no esforço de guerra durante a II Guerra Mundial. Foram, ao todo, 55.000 brasileiros recrutados pelo governo Getúlio Vargas para produzir, nos seringais da Amazônia, 100.000 toneladas de borracha por ano para os países aliados. Fugindo da seca de 1942, os nordestinos se alistaram como voluntários, dos quais pelo menos 31.000 morreram, vítimas de malária e outras enfermidades, além dos problemas decorrentes da dura jornada de trabalho.