quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Colaborador: PADRE RAIMUNDO NONATO PINHEIRO

RAIMUNDO NONATO PINHEIRO (Manaus, 1922 - 1994), também conhecido como Padre Nonato Pinheiro, foi um sacerdote, poeta, filólogo, latinólogo, jornalista, professor e escritor brasileiro. Membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, exerceu, no IGHA, a função de orador. É um dos principais representantes do Parnasianismo amazonense.

O Pe. Nonato Pinheiro, erudito católico que se dedicou, em profundidade, aos estudos filológicos e à crítica literária, foi um cultor da língua portuguesa. Dedicou-se também a estudos relacionados à história religiosa da Região Norte do Brasil. Contribuiu com regularidade para os jornais de Manaus, tendo sido recebido na Academia Amazonense de Letras pelo médico e escritor Djalma Batista. O mais conhecido dos livros que publicou é uma biografia do terceiro bispo do Amazonas, Dom João da Matta (1956), obra republicada em 2008 pela Editora Valer, de Manaus, conforme imagem abaixo. 


Em 1954, a Editora Vozes havia publicado seu livro intitulado "Dom José Pereira Alves: fulgores do Episcopado". 


Raimundo Nonato Pinheiro prefaciou, entre outras obras, o "Vocabulário Etimológico Tupi do Folclore Amazônico", de Anisio Mello (Manaus: Editora da Universidade do Amazonas / Suframa, 1983). 



Em grande quantidade de artigos, ensaios e discursos, o Pe. Nonato Pinheiro divulgou seus estudos sobre obras clássicas das literaturas portuguesa e brasileira, que considerava como modelos perfeitos de boa linguagem. 
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Raimundo_Nonato_Pinheiro 

NATAL


Padre Nonato Pinheiro


A MENSAGEM DO NATAL 

Por Padre Raimundo Nonato Pinheiro 

O Natal traz à humanidade, todos os anos, uma mensagem venturosa de luz, de amor e de paz. Estrela dos Magos, que há quase dois mil anos refulgiu sobre o humilde presépio do Salvador, em borbotões de intensa claridade, parece que uma vez por ano, na quadra natalina retornar à terra com o mesmo faiscante esplendor, para repetir aos homens, na eloquência do seu clarão, que só Jesus é o Salvador, que só Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, que só Ele é a Luz que ilumina todo homem que vem a este mundo, na frase cintilante do evangelista São João. 

Sem o fulgor daquele célebre astro, os Magos não teriam encontrado o caminho de Belém. Também a humanidade, mormente nesta encruzilhada tremenda de caminhos do século XX, em que já se sondam novos caminhos para as viagens interplanetárias, e em que a energia nuclear é uma ameaça constante, geradora de pesadelos sinistros, necessita de brilho de um astro, para não perder o roteiro dos seus excelsos destinos. 

O Natal, com a sua sublime poesia e a sua divina claridade, como se fosse a radiação de uma Estrela Magnífica, desperta os homens do letargo da sua indiferença, e do crime das suas negações e apostasias, recapitulando-lhes as verdades eternas que transbordam do Evangelho, o mais alto código de santidade que já se escreveu sobre a terra, cujas palavras brotaram da fonte inestancável daqueles lábios divinos, que um dia se descerraram para a proclamação desta verdade inatingível: “Eu sou a Luz do mundo; quem me segue não anda nas trevas”. 

Fonte: Manaus Magazine, dez. 1958 

NATAL de 1958! Neste Natal já iremos sentir uma grande ausência: a ausência de Pio XII, que todos os anos nos trazia uma mensagem radiosa, que arrebatava os corações para o alto. Em dezenove anos já nos acostumáramos aos acordes e aos acentos daquela palavra augusta, toda feita de beleza e claridade, que nos fazia sentir a quase apalpar o mistério profundo do Natal de Jesus. 

Neste ano, outra figura, vestida de branco, habita a colina do Vaticano: o Papa João XXIII, o qual também nos transmitirá sua palavra de salvação e de vida, de luz e de sabedoria, insistindo na mesma necessidade da justiça como condição para usufruirmos os benéficos supremos da Paz, que os anjos anunciam na noite fulgurante e santa do nascimento de Jesus: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra aos homens de boa vontade”! (...) 

 “Lux fulgebit hodie super nos! Uma luz brilhará hoje sobre nós – reza a Igreja no intróito da segunda missa de Natal, celebrada ao romper da aurora. Todo o Natal se impregna do clarão dessa luz divina, que nos ilumina e nos arranca das trevas das iniquidades terrenas, elevando os nossos corações para as alturas da vida crista e sobrenatural, lembrando-nos que há uma vida celeste onde a felicidade não se acaba, e onde ouviremos as vozes harmoniosas daqueles mesmos anjos que na venturosa noite do nascimento de Jesus cantaram o mais belo cântico que já se ouviu sobre a terra: Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade!”.

Crédito pela cessão de textos para prestarmos esta homenagem: http://www.portalentretextos.com.br/download/livros-online/padre_nonato_pinheiro.pdf

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

MINHA MÃE



Por Martins Fontes



Beijo-te a mão, que sobre mim se espalma
Para me abençoar e proteger,
Teu puro amor o coração me acalma;
Provo a doçura do teu bem-querer.

Porque a mão te beijei, a minha palma
Olho, analiso, linha a linha, a ver
Se em mim descubro um traço de tua alma,
Se existe em mim a graça do teu ser.

E o M, gravado sobre a mão aberta,
Pela sua clareza, me desperta
Um grato enlevo, que jamais senti:

Quer dizer — Mãe! este M tão perfeito,
E, com certeza, em minha mão foi feito
Para, quando eu for bom, pensar em ti.

Colaborador: MARTINS FONTES


Biografia de Martins Fontes

Por Dilva Frazão 

MARTINS FONTES (1884-1937) foi um poeta e médico brasileiro. Foi considerado um dos mais importantes poetas de seu tempo. Deixou uma extensa obra e exaltou as coisas de sua terra.

José Martins Fontes (1884-1937) nasceu em Santos, São Paulo, no dia 23 de junho de 1884. Filho do médico Silveiro Fontes, que foi inspetor de saúde pública do Porto de Santos e um dos colaboradores da Santa Casa de Misericórdia, e de Isabel Martins Fontes. Com quatro anos declamou um belo discurso escrito pelo pai, sobre a Abolição da Escravatura, do peitoril da janela de sua casa.

Logo que aprendeu a ler e escrever, começou a compor versos. Em 1896 lançou seu pequeno jornal manuscrito chamado “A Metralha”, onde publicava suas poesias. Foi aluno interno do Colégio Nogueira da Gama em Jacareí, São Paulo, depois retornou para Santos onde completou seus estudos. Em 1900, na comemoração do quarto centenário do descobrimento do Brasil, o poeta leu uma ode de sua autoria.

Em 1901, Martins Fontes foi para o Rio de Janeiro, para estudar Medicina, como desejava seu pai. Na então capital do Brasil, na Confeitaria Colombo, conheceu Olavo Bilac e Coelho Neto. Passou a conviver com vários escritores. Ingressando na Faculdade de Medicina, logo se destacou e foi chamado para trabalhar em diversos setores, inclusive ao lado do sanitarista Oswaldo Cruz, na profilaxia suburbana. Enquanto estudante produzia belos textos e colaborava com os jornais “Gazeta de Notícias” e “O País” e com as revistas, “Careta” e “Kosmos”. Foi ainda diretor da “Revista do Hospital Nacional”, com o apoio de Bilac.

Martins Fontes concluiu o curso em 1908 e defendeu com grande sucesso sua tese de doutorado, com o título “Da Imitação em Síntese”. Começou a trabalhar no Hospital dos Alienados e em logo foi convidado pelo engenheiro Bueno de Andrade para integrar a Comissão de Obras do Alto Acre, onde permaneceu durante dois anos, mas não parou de escrever seus poemas.

Em 1910, foi nomeado chefe da Assistência Escolar da Prefeitura. Trabalhou ao lado de Oswaldo Cruz, na campanha de saneamento do Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano, retornou para Santos e começou a trabalhar na Santa Casa de Misericórdia, como diretor da Enfermaria de Tuberculose.

Passou a frequentar o Clube XV, e junto com outros intelectuais fundou o jornal “A Luva”. Durante algum tempo, participou da Agência Americana, empresa fundada por Olavo Bilac. Em 1913 passa a fazer parte da equipe médica do Hospital do Isolamento. Em 1914, viaja para a Europa, como médico particular de um casal de pacientes. Casa-se com a filha do casal. Em 2015 retorna para Santos e logo é nomeado diretor do Serviço Sanitário. Em 1916, viaja para Europa e pede desquite da mulher. Nesse mesmo ano casa-se com Rosa Marquez de Morais, filha de espanhóis, ela com 14 anos e ele com 32.

Em 1917, Martins Fontes publica seu primeiro livro, “Verão”. Em 1922, quando surgiu o Movimento Modernista, ele foi totalmente contra, pois não admitia uma poesia com verso livre. Em 1924, foi correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Após a morte de seu pai, em 1928, ele doa a biblioteca dele para a Sociedade Humanitária dos Empregados do Comércio de Santos. É Patrono da cadeira nº 26 da Academia Paulista de Letras.

Martins Fontes publicou diversos livros, entre eles: “Verão” (1917), “A Dança” (1919), “A Alegria” (1921), “Marabá” (1922), “Arlequinada” (1922), “As Cidades Eternas” (1926), “Volúpia” (1925), “Rosicler” (1926), “O Colar Partido” (1927), “Escarlate” (1928), “O Mar, A Terra e o Céu” (1929), “A Flauta Encantada” (1931), “Paulistânia” (1934), “Sol das Almas” (1936) e “Canções do Meu Vergel” (1937).

Martins Fontes faleceu em Santos, São Paulo, no dia 25 de junho de 1937.

Fonte: https://www.ebiografia.com/martins_fontes/

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

EXCERTOS DO LIVRO "CRÔNICAS DE ABGAR"


I. Prefácio

Capa do livro/Crédito da foto: Rute Pardini Braga
Contracapa do livro
































Magister Abgar 

Por Luiz Antônio Teixeira Rodrigues
 

Dele "ouvia falar", desde o início de minha juventude, lá pelas então realidades desta cidade, ainda pequena, ao som da primeira cascata do Córrego do Lenheiro, entre a Ponte do Rosário, onde era mão dupla e se tinha cortesia e educação para esperar o oposto passar, e a ponte frente ao Grupo João dos Santos. Nessa época, quando muitos menos ocupavam esta terra, era fácil sempre ouvirmos algo sobre membros destacados de nossa cidade. 

"Pessoa de grande capacidade e muito respeitável professor e musicista.

E, por uma dessas oportunidades que a vida nos oferece, tenho o privilégio de conviver com ele, sendo seu colega em estudos. E pude então constatar todo aquele burburinho. 

Em época correlata a essa convivência, sempre interessado em ler sobre nossa história e sociedade são-joanense, foi-me apresentado, e passei a ler assiduamente, o "Jornal da ASAP", que publica crônicas excelentes de escritores do quilate de Antônio Gaio Sobrinho, Helio da Conceição Silva, Tarcísio José de Souza e do mestre Abgar. 

Nessas leituras, surgiam tantas histórias, revelações, homenagens, constatações sobre nossa São João del-Rei, que eu passei a guardar os jornais, pois considerava um pecado que tal cultura se perdesse com o passar do tempo. Mas guardar era pouco. Passei a considerar que era necessário disponibilizá-la para que outros são-joanenses a elas pudessem ter acesso. Tenho certeza que nossos filhos e seus filhos só terão enriquecimento ao terem ao seu alcance estas saborosas crônicas que só catapultam nossa cultura e abrem espaço para tomarmos ciência de tanto e tantos que estruturaram nossos caminhos. Por isto tive a audácia de propor-lhe ser tão importante reuni-las em livro. 

Aceito nossa finitude e por certo não "votaria" para uma "suprapermanência" nesta vida, mas sinto profunda impotência em não podermos conservar mentes brilhantes, com tantos conhecimentos desenvolvidos. Mas a verdade é que "nada se perde, tudo se transforma." Pois não é patente o quanto os esforços, atos e pensamentos construtivos alicerçam ambientes e pessoas à volta daqueles que atingem um grau mais elevado de ciência, inteligência, conhecimentos e gestos bons? 

Ouvi algumas vezes a pergunta: qual o sentido da vida? Penso podermos encontrar a resposta medindo o que fazemos, o quanto contribuímos para a sociedade, a natureza, os homens, para a vida.

Permitam-me "pensar" as contribuições do professor Abgar. 

A dimensão do que se ganha com sua afinada elaboração musical. O seu trabalho por muitos anos desenvolvido no Conservatório de Música. A dedicação e conhecimento nas liturgias: Semana Santa, Ofício de Trevas, músicas sacras, nossas orquestras, músicos. Seu incomparável testemunho do que foi e nos enriqueceu o Colégio Santo Antônio e os freis. Seu depoimento sobre muitos dos são-joanenses que contribuíram firmemente para nosso amadurecimento e desenvolvimento. Sua capacidade de manter vivo o Latim, praticando-o e ensinando-o. Sua empatia com nossas crianças. Seu profundo conhecimento da história do homem e da Bíblia. Sua defesa intransigente do professor, da educação e, se me permitem o deslize, de não concordar com o tal "dever para casa muito extenso". 

Ah, sim! Não é difícil ver qual o sentido da vida. Pelo menos no que concerne ao professor Abgar. Em contraponto ao que muitos deixam de fazer ou destroem, ele tanto faz que nos deixa no crédito. É ele dessas pessoas que, com a vida e o testemunho, dão magnificência ao nome e à profissão. Minhas mais sincera reverência a este que dignifica "ser homem, músico e professor."

Boa leitura e deleite-se com suas sapientes crônicas.  


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II. Duas crônicas do livro
 

Padre Frei Geraldo de Reuver 

Por Abgar Campos Tirado


Esta coluna, primordialmente voltada para a música, focaliza hoje um notável musicista que viveu em nossa cidade e que foi antes de tudo piedoso e virtuoso sacerdote franciscano, além de abnegado educador e mestre de extraordinária cultura. 

Frei Geraldo de Reuver, que deixou este mundo no último dia 31 de janeiro, em Santos Dumont, onde ainda ensinava Latim no seminário, nasceu a 26 de setembro de 1920, em Wassenaar, Holanda. Ingressou na Ordem Franciscana a 07 de setembro de 1938, fez sua profissão solene a 08 de setembro de 1942, ordenando-se sacerdote a 11 de março de 1945. Antes de vir para o Brasil em 1948, morou na Bélgica, onde foi professor de Inglês. Chegou a São João del-Rei em 1949, trabalhando no saudoso Colégio Santo Antônio, como competente e dedicadíssimo professor de Francês, Matemática e Canto Orfeônico, chegando a diretor do referido educandário, de 1968 a 1972, ano do encerramento definitivo das atividades do renomado colégio. Frei Geraldo é autor de respeitada Gramática Francesa, publicada pela Edições Melhoramentos. Até o final de sua vida, estava sempre produzindo livros didáticos, tanto de teoria como de exercícios, os quais, além de redigir, ainda os datilografava e encadernava um a um, com supremo capricho, livros esses distribuídos aos alunos, sem ônus para os mesmos. Dignas de destaque suas séries de Música e Latim, aliás sempre renovadas, para que não caíssem em prejudicial rotina. Em todas as aulas, igualmente distribuía folhas mimeografadas de exercícios (posteriormente em xerox), sempre recolhendo os cadernos, corrigindo-os um a um e devolvendo-os na aula seguinte. Que exemplo de dedicação! 

Frei Geraldo era geralmente muito tímido e calmo, mas dotado de grande personalidade e imensa determinação. Dava a impressão de não ter pressa em suas ações; todavia, seu dia parecia ter no mínimo 48 horas, pois é difícil conceber como conseguia fazer tanta coisa, incluindo trabalhos manuais, com extraordinária perfeição, além de manter atualizada sua impressionante cultura, tendo ainda tempo de receber carinhosamente seus amigos visitantes e de dedicar-se à silenciosa ação caritativa, sobretudo voltada para os alunos pobres. 

Falemos de Frei Geraldo, músico. Era pianista e organista de mérito e competentíssimo regente de coro. Durante todo o meu período de aluno de ginásio, fiz parte do belo coral por ele dirigido e que muito me estimulou musicalmente. Tive a ventura, graças a Deus, de dedicar-lhe, poucos meses antes de seu falecimento, uma composição minha para coral a capella. Trata-se de uma Tota Pulchra, que, segundo fui informado, será apresentada também pelo excelente coral da ASAP. 

Como disse no início deste artigo, Frei Geraldo veio para São João del-Rei em 1949 e, com exceção de pequenos períodos em que trabalhou em Santos Dumont, Pará de Minas e Belo Horizonte, viveu em nossa cidade até 1974, quando foi definitivamente para Santos Dumont, onde dirigiu o colégio estadual anexo ao Seminário Seráfico Santo Antônio, neste último trabalhando, embora já muito doente, até seus últimos dias, como professor de Latim, conforme foi dito. Aliás, foi saindo da biblioteca do Seminário, onde preparava material didático da citada matéria, que sofreu a queda que precederia de poucas horas a sua morte. 

Não resta dúvida de que marcante foi a passagem de Frei Geraldo por São João del-Rei, bem como nossa cidade terá sido importante para ele, o qual, mesmo depois da extinção do Colégio Santo Antônio, ainda se manteve ligado à Escola Estadual "Cônego Osvaldo Lustosa", onde também foi professor, como o fora do Conservatório Estadual de Música "Padre José Maria Xavier".
Colégio Santo Antônio de São João del-Rei, tendo à sua frente, 
à esquerda, a capela de Nossa Senhora de Lourdes

Posso afirmar que Frei Geraldo de Reuver foi uma das pessoas que mais significaram em minha vida e pretendo eu, com o presente registro, prestar-lhe carinhoso preito de amizade, gratidão e de saudade. 

Deus o tenha em sua Glória! 

(Jornal da ASAP, 01/2000) 


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Frei Geraldo de Reuver 

Por Abgar Campos Tirado
 

Seria muito difícil encontrar uma pessoa com tantas qualidades, como frei Geraldo de Reuver. Conheci-o tão logo ingressei no velho Ginásio Santo Antônio. No início, era meu professor de Canto Orfeônico. Com ele aprendíamos interessantes e pitorescas canções. Mal começado o ano letivo, passei a fazer parte do coro por ele dirigido e confesso que foi aquela época um dos mais felizes períodos de minha vida: ensaios na parte da tarde, participação na missa dominical para os externos, na capela, hoje Matriz de Nossa Senhora de Lourdes, e nas missas solenes na igreja de São Francisco, cinema no ginásio nas noites de quarta-feira, piqueniques variados em dias de lazer e outros bons momentos de sadia alegria. 

Pouco depois de eu conhecê-lo, passou a frequentar nossa casa, levado por frei Leobino. Frei Geraldo era então, e pouco mudou depois, uma pessoa muito tímida. 
Da esq. p/ dir.: frei Geraldo, Rubens de Barros e Tancredo de Almeida Neves tomando posse como ministro da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis - Crédito: CPDOC/FGV

Nas séries subsequentes do curso ginasial, frei Geraldo veio a ser meu professor de Francês. Grande autoridade na matéria, o mestre, em aula, era bem diferente daquele frade nos momentos de descontração. Completamente sério, exigente e detentor de absoluta disciplina. Além do Francês, autor de consagrada gramática dessa língua, conhecia bem outras línguas, obviamente incluindo o Latim; lecionou também Matemática e era também uma pessoa de notável habilidade em trabalhos manuais e possuía caligrafia de causar inveja. Mas, a meu ver, mais que tudo, era um músico do mais alto nível, quer como regente, quer como especialista em canto gregoriano, organista e pianista. Lembro-me bem de sua execução, ao harmônio, da Toccata e Fuga em ré menor de Bach. Aliás, era ele seu compositor predileto e foi através do frade amigo que conheci na íntegra a Paixão Segundo São Mateus, do compositor alemão. 

Embora desde jovem apresentasse algum problema de saúde, especialmente de estômago, e fosse fumante grande parte de sua vida, possuía em idade menos avançada uma enorme agilidade e resistência física, superando em suas proezas nos piqueniques os jovens alunos, mesmo aqueles considerados bons atletas. Senhor de incrível memória, nunca esquecia os nomes dos alunos e ex-alunos, bem como de todos os familiares de pessoas amigas, como no nosso caso. Na verdade, era tão perfeito em tudo o que fazia que parecia um especialista em cada setor. Realizava tudo lentamente, sem pressa, incluindo a celebração de suas missas, sempre tendo tempo para todas as coisas inclusive para receber, calmamente, suas visitas. Seu dia parecia ter, no mínimo, 48 horas! Como exemplo de seu zelo e capricho, mesmo em seus últimos anos de vida, como professor de Latim em Santos Dumont, ele próprio elaborava as apostilas, digitava-as, imprimia, encadernava e distribuía, tudo sozinho. E mais: de dois em dois anos refazia todos os volumes de exercícios, para evitar que fossem mal utilizados. Isso sem contar outras apostilas por ele preparadas, notadamente de música. 

Seminário Seráfico Santo Antônio localizado 
no km 1 da BR 499 em Santos Dumont-MG
Seu nome de batismo era Petrus Johannes de Reuver. Nasceu em Wassenaar, Holanda, a 26 de setembro de 1920, recebeu o hábito franciscano a 07/09/1938, sendo ordenado sacerdote a 11/03/1945. Logo após ordenado, trabalhou como professor na Bélgica, vindo para o Brasil e para nossa cidade em 1948. Aqui trabalhou como sacerdote e professor e, exceto por algum tempo, quando teve passagem por Santos Dumont e Pará de Minas, permaneceu em São João del-Rei até o final de 1973. Nesse período também lecionou música, por indicação de nossa parte, no Conservatório Estadual de Música "Padre José Maria Xavier". No ano de 1968, além de professor, assumiu a direção de nosso Colégio Santo Antônio, sendo ele o diretor por ocasião do funesto incêndio de 31 de maio do ano citado, continuando a dirigir o estabelecimento até seu fechamento definitivo em 1972. A partir de 1974, foi transferido para Santos Dumont, trabalhando no seminário como professor e diretor do colégio, onde exerceu com sumo zelo seu apostolado como sacerdote e educador. Em 1998 pude estar presente naquela cidade, onde frei Geraldo, já adoentado e suportando heroicamente dores nas vértebras e falta de ar, comemorou seus 60 anos de entrada na Ordem Franciscana. Poucos meses depois tive o prazer de dedicar a ele, meu primeiro mestre de coro, minha composição para coral a capella, Tota Pulchra, peça essa que muito lhe agradou e que vem sendo apresentada por diversos corais, desta e de outras cidades, incluindo o coral de nossa ASAP. 

Frei Geraldo deixou-nos para dar entrada na Eternidade, a 31 de janeiro de 2000, no seminário de Santos Dumont, onde hoje se instala um memorial em sua honra. 

Requiescat in pace.

(Jornal da ASAP, 09/2009) 


Fonte: TIRADO, Abgar Antonio Campos: Crônicas de Abgar, editor Luiz Antonio Teixeira Rodrigues, 2018, 367 p.