segunda-feira, 19 de março de 2018

SAUDADE DE JOSÉ MARIA NEVES


Por Vasco Mariz

José Maria Neves foi o presidente da Academia Brasileira de Música que menos tempo exerceu o seu mandato, apenas alguns meses. Depois teve de licenciar-se para fazer intenso tratamento que infelizmente não surtiu o efeito esperado. Faleceu a 27 de novembro de 2002, aos 59 aos de idade, cercado pelo afeto de seus muitos amigos, colegas e admiradores. 

José Maria era musicólogo, pesquisador, regente e compositor, embora poucos conheçam a sua obra de criador. Nascido em São João del Rei, Minas Gerais, estudou na cidade natal e no Rio de Janeiro. Conheci-o em Paris, em casa de Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, que o tinha em alta conta. Acabava ele de fazer o mestrado e o doutorado no Instituto de Musicologia de Paris, onde também frequentou o Conservatório Superior de Música em cursos de especialização. 

Ele teria depois no Brasil brilhante carreira no magistério da música, chegando ao mais alto escalão universitário. Ao falecer já estava aposentado, embora continuasse a dar classes na UNIRIO. Certa vez, convidou-me a proferir uma palestra para seus alunos em comentário aos meus livros sobre música brasileira. Sua atuação como pesquisador foi intensa e profícua, obtendo o reconhecimento da classe e das autoridades culturais. Ensinou, ainda, no Conservatório Brasileiro de Música por mais de dez anos (1971-82), onde também coordenou programas de pós-graduação. Em 1997 recebeu a consagração de ser eleito o musicólogo do ano pela FUNARTE. 

Dentre sua obra bastante numerosa e importante, saliento seu livro editado pela Ricordi em 1982, intitulado Música Brasileira Contemporânea, que foi a ampliação de sua tese de doutorado na França. Nele podem ser lidas algumas das melhores páginas de apreciação das obras de nossos compositores modernos. José Maria estava planejando atualizar esse livro tão meritório e eu tive o prazer de passar-lhe todos os dados e depoimentos de músicos contemporâneos que utilizara para preparar a 5ª edição da minha História da Música no Brasil. Aliás, nesta fase, em 1999, submeti a José Maria o longo capítulo sobre música colonial, recebendo dele valiosas sugestões. Curiosamente, em carta ao editor, escrevi que, após a minha morte, somente José Maria estava autorizado a revisar o meu livro. Quis o destino que ele partisse antes de mim. 

Entre suas obras lembro também seu primeiro livro, publicado em 1981, O Choro e os Choros, que figura dignamente na bibliografia de Villa-Lobos. Contém excelente análise, talvez a melhor feita até agora, dessa importante série musical do mestre. Outra obra significativa e vistosa foi Música sacra mineira, resultado de um excelente trabalho de equipe, que tardou um pouco a ser publicado pela FUNARTE por falta de verbas. 

Mas, José Maria foi, ao longo dos anos, um bom amigo, além de um bom colega. Em meados dos anos noventa viajamos juntos à Terra do Ouro e ele teve a paciência de mostrar-me todos os segredos artísticos de São João del-Rei, Tiradentes e Prados. Assisti um concerto por ele dirigido com a Orquestra Ribeiro Bastos, na igreja de São Francisco de sua cidade natal, no qual apresentou o belo Te Deum, de Francisco Manuel. 

Pouco tempo depois, a Secretaria de Cultura do Paraná desejou fazer uma homenagem a Brasílio Itiberê e pediram-me sugestões para a organização da obra. Indiquei então José Maria Neves para redigir a análise da obra e Maria Augusta Machado para coligir dados para a biografia do compositor. Escrevi o prefácio do livro, que foi publicado em bonita edição em 1996. Do mesmo modo, durante a minha gestão na presidência da Academia Brasileira de Música (1992-93), encomendamos à Dra. Maria Cecília Ribas Carneiro a biografia de seu ilustre tio-avô Glauco Velásquez e escolhi José Maria para fazer a análise de sua obra. Após longa gestação, o livro finalmente foi publicado em 2001 e pode ser adquirido através da secretaria da ABM ou de seu portal http://www.abmusica.org.br/

Esse relacionamento cultural com nosso finado presidente culminou com a publicação pela Academia da 6ª edição atualizada e ampliada de A Canção Brasileira de Câmara. Em meados de 2002, conversava com José Maria sobre a dificuldade de encontrar editor para essa obra tão especializada, quando ele alvitrou submeter à diretoria da ABM a conveniência de editar a minha obra, que foi lançada no Rio de Janeiro pela editora Francisco Alves. Recordo ainda que, em 1998, quando José Maria Neves foi eleito membro titular do PEN Club do Brasil, ele me distinguiu com o convite para fazer a saudação oficial na sessão de posse nessa entidade. Aliás, serei sempre grato a José Maria pela sua generosidade de recordar com elogios a minha penosa gestão à frente da ABM. 

José Maria Neves, musicólogo que ocupou a Cadeiranº 12 da 
Academia Brasileira de Música patroneada por José Maria Xavier, tendo sido seu presidente entre 2001 e 2002, até seu falecimento; presidente da ANPPOM-Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Gradução em Música por duas gestões, de 1995 a 1999
José Maria Neves não será esquecido, pois as suas obras aí estão para perpetuar sua exitosa carreira de pesquisador e musicólogo. A Academia Brasileira de Música, a sua diretoria, cada um de seus membros titulares e nosso secretariado lhe prestaram homenagem, agradecidos pelo seu convívio inteligente e sempre tão cordial que encantava a todos - colegas, alunos, amigos e subordinados. Deixou imensa saudade e sua memória estará sempre presente. 

Finalmente, não posso deixar de informar aos interessados que o primoroso livro de José Maria Neves Música Brasileira Contemporânea teve uma bela 2ª edição revista e ampliada pela professora Salomea Gandelman e publicada pela editora Contracapa, em 2008, cuja leitura recomendo sem reservas. 

Fonte: MARIZ, Vasco: Vida Musical IV - Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Música 



REFERÊNCIA  BIBLIOGRÁFICA


MARIZ, Vasco: Saudade de José Maria Neves, artigo originalmente publicado na revista Brasiliana nº 13, da Academia Brasileira de Música, em janeiro de 2003.

Colaborador: VASCO MARIZ


Por Gyovana Carneiro
Jornalista da coluna Ludovica do jornal O Popular

 

VASCO MARIZ (⭐︎ Rio de Janeiro, 22/01/1921 - ✞ Rio de Janeiro, 16/06/2017) foi um historiador, musicólogo, escritor e diplomata brasileiro. Foi membro da Academia Brasileira de Música (cadeira 40, patrono Mário de Andrade).

Mariz estudou no Conservatório Brasileiro de Música, graduou-se em direito, iniciando logo em seguida a sua carreira diplomática. Assim que concluiu um curso de aperfeiçoamento em História Diplomática em 1947, foi logo indicado vice-cônsul na cidade do Porto em Portugal, servindo depois em diversas funções e cargos em Rosário, Nápoles, Washington, Nova Iorque e Roma, até alcançar o posto de ministro em 1967, promovido por merecimento a embaixador em 1971, designado para representar o Brasil no Equador e sucessivamente em Israel, Peru e na Alemanha Oriental, aposentando-se em 1987. Em sua carreira como diplomata, antes de ser embaixador, desempenhou o papel de delegado brasileiro junto a vários organismos internacionais de grande importância, e, em diversas ocasiões, tais representações tinham claros propósitos culturais, desenvolvendo-se na área de história, folclore, arte e música. 

Em entrevista para o compositor Ricardo Tacuchian, assim se pronunciou Mariz a respeito de suas principais iniciativas, como diplomata, em prol da música e do músico brasileiro: 
"Na Argentina, no início dos anos 50, promovi vários concertos de música brasileira e lá publiquei um livro em espanhol, um de autoria coletiva sobre a música clássica brasileira. Fiquei amigo de Alberto Ginastera, o grande rival de Villa-Lobos, sobre quem depois escrevi um opúsculo. Na Itália, graças a minha amizade com o diretor do Teatro di San Carlo, de Nápoles, consegui que vários cantores brasileiros de passagem cantassem papéis em algumas óperas de diferentes temporadas. Nos Estados Unidos da América, organizei o já referido Festival de Música Interamericana e ajudei muitos intérpretes brasileiros a darem recitais em várias cidades. No Peru, consegui, na rádio principal de Lima, um programa semanal de música brasileira que existe ainda. Obtive do Itamaraty que o saudoso Mário Tavares passasse três meses em Lima para reorganizar a orquestra sinfônica de lá, no que teve muito sucesso, e depois consegui do presidente Gaisel uma condecoração para ele. Em Israel ajudei bastante as apresentações de Arthur Moreira Lima e os conjuntos de Gilberto Gil e Sérgio Mendes. Em Berlim, meu último posto diplomático como embaixador, consegui convencer o maestro Kurt Masur, então diretor do Gewandthaus de Leipzig, que a cidade de Bach fizesse uma homenagem a Villa-Lobos, autor das Bachianas Brasileiras, no ano do seu centenário, 1987." 

Segundo Tacuchian, nenhum autor brasileiro publicou mais livros sobre música brasileira do que Mariz. São 56, entre títulos novos e reeedições, destacando-se a primeira biografia escrita sobre Villa-Lobos, atualmente na 12ª edição, incluindo as edições estrangeiras lançadas nos Estados Unidos, Francça, Rússia, México, Colômbia e Itália (a 1ª edição é de 1949). A respeito dessa obra, Mariz diz que 
"a fonte da pesquisa era o próprio Villa-Lobos, a quem entrevistei mais de vinte vezes para escrever a biografia." 

Portanto, a música brasileira se curva ao seu grande promotor Vasco Mariz! Cabe-me acrescentar que sua atuação na área cultural é imensa; desde a publicação em 1948 do livro Figuras da Música Brasileira Contemporânea não cessou de dar importantes contribuições no campo da musicologia e da história do Brasil.

Foi sócio-emérito do IHGB, do PEN CLUB do Brasil e da Academia Brasileira de Música (cadeira 40, presidente em 1991-3), membro do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio, conselheiro do Museu Nacional de Belas Artes e de outras instituições nacionais e estrangeiras, como do Conselho Interamericano de Música (ex-presidente).

Fonte: VASCO MARIZ: O incansável promotor da música brasileira, matéria publicada em 25/03/2016, cerca de um ano antes de seu falecimento
https://ludovica.opopular.com.br/blogs/papo-musical/papo-musical-1.862967/vasco-mariz-o-incans%C3%A1vel-promotor-da-m%C3%BAsica-brasileira-1.1057205


 
 

sábado, 17 de março de 2018

OBRA POÉTICA DE JOÃO CARLOS RAMOS > > > PARTE 2

Pelo poeta João Carlos Ramos




Dr. ROQUE CAMÊLLO 

O vi apenas uma vez e não precisei vê-lo mais... 
Basta ver uma montanha 
no entardecer e ficar admirado 
se sentindo pequeno 
como a flor do cerrado. 
Quanto aos elogios, 
altamente necessários, 
deixo por conta do Francisco dos Santos Braga, 
amigo fiel na hora extrema. 
A morte não muda nada 
para quem mudou tudo em vida. 
Aguardemos a ressurreição 
do CAMÊLLO na alvorada! 

Divinópolis, 18/03/2017 


SONHO 

Comecei pelos pés. 
À altura dos joelhos 
me afogava em amor... 
Continuei a subida, 
passando ao lado 
da mina do ouro vaginal. 
Parei 
diante dos montes, 
nunca vistos
para escalá-los. 
Boquiaberto, 
contemplei o pescoço, 
a bela torre de marfim. 
Exausto e feliz, 
um pouco acima 
pude saltar nos lábios: 
Dois vermelhos lagos 
ferventes... inigualáveis... 
Mais acima 
residia a alma 
(na famosa região dos olhos). 
Os fixei extasiado... 
Os cabelos caíam como a neve 
nos ombros da alvorada... 
Ao nascer do sol 
fiquei triste: 
Essa mulher não existe! 


QUANDO 

Quando a alma 
cair aos pés da planta, 
estercando-a 
na certeza dos frutos... 
Quando o corpo 
ouvir a frase antiga, 
banhado de esperanças 
sem medida... 
Tudo poderá acontecer, 
como 
a correspondência efervescente 
do amor, 
outrora inerte. 


COTAÇÃO DA FLOR 

A flor 
está cotada 
para voltar 
a semente. 
A festa não a quer 
e ordens já foram dadas a primavera! 
Sempre foi 
e sempre será assim: 
A lição paradoxal 
surpreende a todos 
e inclusive ao jardim. 


MARITA

Em meio 
ao bombardeio 
de seduções, 
permaneci fiel. 
Incólume 
como a flor 
do deserto 
e a 
tranquilidade da brisa. 
Desafiei a mim, 
prometendo ao vento 
ser 
como a vela: 
Ainda que eu chore 
e me derreta, 
iluminarei sempre 
minha querida 
MARITA! 


GLOBAL TEACHER PRIZE-2018 

A fundação VARKEY, sediada no Reino Unido, oferece anualmente um prêmio de 1(um) milhão de dólares para cada um dos 10 professores selecionados pela instituição, através de especialistas. Os galardoados, obviamente se destacaram de forma excepcional em seus referidos países durante o ano, tornando-se modelos para educadores de todo o mundo. O referido prêmio do ano corrente será entregue no FÓRUM GLOBAL DE EDUCAÇÃO E HABILIDADES em Dubai (Emirados Árabes) em 18/03/2018. Honrosamente, um professor brasileiro, chamado DIEGO MAHFOUZ FARIA LIMA, Diretor da E.M. "Darcy Ribeiro" da cidade de São José do Rio Preto (SP), foi selecionado entre concorrentes do mundo inteiro. O prêmio equivale a um "Nobel da Educação". 

Em 2014 ele aceitou o desafio de transformar uma escola depredada, sem prestígio, alunos se evadindo... e pais e professores, totalmente desmotivados em uma escola-modelo. Rapidamente, com a sabedoria que lhe é peculiar, conseguiu unir pais, alunos e professores, bem como toda a sociedade civil organizada em torno do ideal de socialização e ensino de alta qualidade em prol da referida escola. Extinguiu-se o tráfico e o caos, dando lugar a evolução no aprendizado e a beleza física da escola. O êxito foi total e ele conseguiu ganhar o PRÊMIO EDUCADOR NOTA 10 de nível nacional e agora o GLOBAL TEACHER PRIZE de nível mundial. O ilustre Diego serve de exemplo para o Brasil, apontando o caminho para a salvação nacional que é a educação. 

Paulo Freire, com sua visão transformadora, foi além dos muros da escola, atingindo a família e toda a sociedade como componentes do processo educacional. Outros educadores, que estão acima de seu tempo, batalham por um ensino de qualidade que está aliado a necessidades básicas e diálogos intensos com alunos, familiares e também com possíveis cooperadores da iniciativa privada. O maior problema de nosso país é o educacional, acima de atitudes de repressão. Divinópolis não fica atrás em sua problemática: outrora premiada em seu processo educacional, agora contemplamos escolas com extrema violência, professores desmotivados e vários afastados, vítimas da realidade citada. Salários aquém do merecimento e em alguns casos ditaduras isoladas... 

Sabemos da responsabilidade dos professores e alertamos sobre a responsabilidade da classe política, dos familiares e de toda a sociedade, acerca de projetos e ações frutíferas no campo da educação. 

Parabéns ao professor Diego! Que surjam outros Diegos no Brasil e principalmente em Divinópolis! 

(Texto publicado em 20/02/2018 no jornal “Agora” de Divinópolis-MG)

domingo, 4 de março de 2018

DISCURSO COMEMORATIVO DO 48º ANIVERSÁRIO DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE SÃO JOÃO DEL-REI

Por Francisco José dos Santos Braga 



Escritor Paulo Roberto de Sousa Lima, DD. Presidente do IHG de São João del-Rei, 
Profª Adriana Leitão, DD. Diretora Educacional da Superintendência Regional de Ensino do Estado de MG, 
Poetisa Zélia Terrell, DD. Presidente da Academia de Letras de São João del-Rei, 
Prof. Abgar Campos Tirado, sócio honorário do IHG de São João del-Rei, 
Maestro Paulo Miranda, DD. regente do Coral da ASAP e coordenador do Festival Canta Del-Rei, 
Jornalista José Passos de Carvalho, representando o IHG de Minas Gerais, 

Prezados convidados, autoridades e visitantes, 
Confrades e confreiras, 

Depois de minha admissão neste IHG em 03/06/2007, destaco dois momentos importantes em que estive presente e quando foi comemorada com muita pompa a data de sua fundação (1º de março de 1970): primeiro, a solenidade de aniversário de 40 anos do Instituto e 172 anos de elevação de SJDR à categoria de cidade no Salão Nobre da Prefeitura em 07/03/2010, que contou com a presença ilustre, dentre outras, do sócio-fundador Tiago Adão Lara e com palestra de Ana Maria de Oliveira Cintra que versou sobre o C.A.C. - Centro Artístico e Cultural, germe para o surgimento tanto deste Instituto quanto da Academia de Letras e que teve duração de 10 anos (08/03/1959-1969). Sobre a fundação do IHG, vale lembrar que o nosso Instituto foi o 5º fundado em Minas Gerais, em ordem cronológica. 

Outra comemoração memorável foi a que celebrou os 46 anos de existência deste IHG e os 178 anos da elevação de SJDR à cidade, em nossa sede, em 06/03/2016. Naquela ocasião, fiquei encarregado de discursar, a pedido do presidente José Cláudio Henriques, quando rememorei a fundação do IHG em 1º de março de 1970. A nossa Casa contou com a presença notável, dentre outras, do presidente da ALL-Academia Lavrense de Letras, jornalista José Passos de Carvalho, o qual compareceu, em sua primeira visita de cortesia ao nosso Sodalício, para a entrega oficial do Diploma ao Mérito Cultural "Professor Firmino Costa", outorgado ao nosso Instituto pela Academia Lavrense de Letras e que exibimos com muito orgulho em nossa sede, à direita de quem entra na Sala Fábio Nelson Guimarães. Por oportuno, lembro que o nosso ilustre sócio correspondente de Lavras está completando seu primeiro ano em nosso meio, motivo de júbilo para nós e muito orgulho para ele, como tem se manifestado em todas as ocasiões possível. Portanto, nas duas oportunidades mencionadas, foram lembrados, em momentos distintos, grandes fastos e feitos gloriosos desta Casa, principalmente por ocasião da sua fundação, e as superações de dificuldades iniciais conduzidas por sócios-fundadores lúcidos e competentes. 

Antes, porém, de passar ao objeto de minha preleção, peço vênia, Sr. Presidente, para ler mensagem de nosso sócio correspondente, Dr. Adirson Vasconcelos, que assim se expressa em relação a esta nossa data festiva em mensagem de 25/02: 
"Estimado confrade Francisco Braga,
Receba e transmita ao caro Presidente e a todos quantos fazem a grandeza do Instituto a minha melhor mensagem de fé, de esperança e de confiança no grande destino de nossa Casa. Com os parabéns ao grande trabalho e incentivo que o seu passado representa na construção e na evolução civilizatória de São João del-Rei.
Parabéns e a amizade fraterna do Adirson Vasconcelos." 
Inspirado nessas palavras do ilustre historiador de Brasília e nosso sócio correspondente, devo dizer que, nesta comemoração do 48º aniversário de nosso Instituto, vou ocupar-me não mais do passado, mas do presente e do futuro de nosso Sodalício. 

Inicialmente, permitam-me fazer uma rápida digressão histórica e recordar um fato comparável ao que aqui vivenciamos hoje, embora entre os dois fatos haja uma escala diferente de proporção e magnitude. Refiro-me, senhores confrades, a uma época de ouro ocorrida na história de Roma entre os anos de 27 a.C. até 180 d.C., ou seja, do reinado do princeps Otávio Augusto até a morte do imperador filósofo Marco Aurélio. Portanto, vamos retroagir 2.045 anos para apreciarmos os exemplos do passado que sirvam de norte aos nossos tempos atuais. Todo esse período nasceu sob os auspícios da paz. Conhecida como "Pax Romana", aquele longo período de paz e prosperidade só foi possível, graças a um conjunto de medidas político-administrativas aplicadas por Roma sobre suas conquistas. Foi Augusto, o qual governou o Império de 27 a.C. até sua morte em 14 d.C., quem estabeleceu as bases para esse período de concórdia, que se estendeu ao norte da África e à Pérsia. É bem verdade que Augusto e Marco Antônio, ainda como membros do Segundo Triunvirato, em 42 a.C., comandavam tropas que travaram apenas uma batalha, a de Filipos, em dois combates, na Macedônia romana, para vingar a morte de Júlio César, tio-avô de Augusto, ocorrida em 44 a.C. A morte de Bruto e Cássio, assassinos de César, e a destruição completa de seus exércitos significaram a passagem da República Romana para as mãos do Segundo Triunvirato, formado pelos principais herdeiros de César. Vários escritores trataram desses acontecimentos, cabendo destacar Plutarco, Suetônio e Shakespeare. Em linhas gerais, sob o principado de Augusto, o Império protegia e governava as províncias individuais, permitindo que cada uma delas fizesse e administrasse suas próprias leis, desde que aceitassem cobrança de tributos e o controle militar da parte de Roma. 

Mas o que nos interessa principalmente hoje, é que Augusto tenha utilizado também um sistema cultural capaz de auxiliar na construção de sua imagem e na consolidação de seu poder, quando criou várias oportunidades para a produção literária: Virgílio, Horácio, Ovídio, Propércio e Tibulo, todos poetas, escreveram sob o regime de Augusto, razão por que esse período clássico ou áureo da literatura latina ficou conhecido como "Era de Augusto". Sem alongar-me na produção literária dos outros poetas mencionados, vou deter-me um pouco em um só deles, Virgílio. O mais célebre de todos e colaborador entusiasmado da política de Otávio Augusto, Virgílio compôs as seguintes obras primas: Bucólicas (ou Éclogas, um conjunto de 10 bucólicas ou poemas de feição pastoril, escritos entre 41-37 a.C.), a epopeia Eneida (30-19 a.C.) e Geórgicas (um conjunto de 4 livros dedicados a Augusto e Mecenas, finalizado em 29 a.C., louvando temas campestres, como a lavoura, avicultura e apicultura). Da primeira bucólica os Inconfidentes extraíram trecho do verso 27 ("Libertas, quae sera tamen"), frase proposta para a sua bandeira, e mais tarde estampada oficialmente na bandeira mineira (1963), cuja tradução oficial é "Liberdade ainda que tardia". A quarta bucólica é considerada o ponto alto de todo o livro das Bucólicas, dando a Virgílio o epíteto de "profeta". Lactâncio, Santo Agostinho e o imperador Constantino diziam que Virgílio, neste texto, previu a vinda de Cristo à terra. Efetivamente, Virgílio canta a vinda de um garoto ao mundo que traria consigo a Idade do Ouro (período em que os deuses e os heróis se aproximariam da humanidade), findando a Idade do Ferro e, por conseguinte, trazendo paz e calmaria. 

Certamente alguns confrades devem estar-se perguntando o porquê de eu tratar de fatos tão remotos neste dia de festa para o nosso IHG. Respondo-lhes que são idênticas as expectativas de uma nova era (de paz e calmaria), anunciadas na Roma antiga e ainda hoje presentes na atual gestão de nosso Instituto, guardadas naturalmente as devidas proporções. 

Inicialmente e falando em nome do Instituto diretamente ao coração dos confrades, conclamo todos a nos orgulharmos do nosso Sodalício e dos feitos que o glorificaram nesses 48 anos de existência. Em nossas manifestações públicas, procuremos divulgar o bom nome do nosso Sodalício e sua causa a que todos aderimos, quando fomos admitidos como confrades. O nosso pertencimento deve ser enunciado e manifesto, em respeito ao conjunto de confrades do qual fazemos parte. Temos muito a aprender com nossos sócios-fundadores: com que orgulho mencionavam após seus nomes: "membro do IHG de São João del-Rei"! Portanto, identifiquemo-nos como membros desse Instituto quando escrevemos ou utilizamos os meios de comunicação. 

Para realizar seus múltiplos objetivos da nossa Casa, a atual Diretoria vai precisar de nosso apoio incondicional: 
• para atingimento desses objetivos, cabe aos confrades do IHG abraçarmos a missão do Sodalício e acolhermos a indicação para tarefas específicas, como participar de comissões permanentes junto a Conselhos Municipais, de comissões internas de análise de currículo de candidatos a membros do Sodalício e outras; 
outrossim, a atual Diretoria espera que sejamos membros partícipes de uma confraria, guiados pelo sentimento da solidariedade e amabilidade em nossas relações "inter pares" e sem disputas e desavenças, devendo ser o bem comum uma busca constante em nosso convívio; 
oxalá possam nossas reuniões constituir ocasião de autodesenvolvimento e confronto cordial de ideias! 

Em suma, a atual Diretoria conta com nossa participação e apoio para concretizar seus projetos visando ao engrandecimento do IHG, mencionados a seguir de forma exemplificativa, não exaustiva: 
na atual gestão do IHG, será valorizada e apoiada a produção literária, em suas diversas modalidades (publicação de antologia, revista anual, defesa de patronos, desenvolvimento de pesquisa histórica e geográfica, redação de crônicas, de artigos e de produtos jornalísticos, produção independente em revistas, jornais e blogs, portais e sites gerenciados por confrades); 
serão priorizados o desenvolvimento do projeto "Café com Prosa", para congraçamento e troca de ideias entre os confrades, com apresentação prevista de músicos e músicas de raiz são-joanenses, literatura popular e outras manifestações folclóricas; 
o desenvolvimento do projeto de revitalização da arborização de São João del-Rei; 
o desenvolvimento de um projeto abrangente de T.I.-Técnicas de Informática que possibilite uma melhor interação entre o Instituto e os seus vários usuários, tais como internautas, parceiros, órgãos da Prefeitura Municipal, pesquisadores e a própria comunidade são-joanense, podendo se tornar um instrumento mais responsivo e aberto às necessidades dos usuários e da comunidade; 
será incrementada a prestação de numerosos serviços especializados à Municipalidade, mormente no que tange a realização de estudos de História, Geografia, Meio Ambiente, Etnografia, Genealogia, Folclore, Artes e ciências correlatas, como órgão consultivo do poder público municipal, credenciado pela Lei Municipal 1.558 de 02/05/1977 (trata-se naturalmente de exercitar essas prerrogativas inscritas em lei e ainda não utilizadas em sua plenitude pelo IHG); 
visando estreitar a parceria com entes públicos, serão feitas visitas regulares aos órgãos públicos, especialmente à Câmara Municipal de SJDR, a Secretarias Municipais de Cultura e de Educação e à Superintendência Regional de Ensino, para avaliar as suas necessidades e propor o assessoramento do IHG para a solução de eventuais problemas; 
serão mantidas as visitas a instituições coirmãs para estreitamento de relações institucionais e para o IHG manter o seu elevado nome no concerto desses Institutos, especialmente os do Sul e Oeste de Minas; 
considerando que neste ano a nossa Cidade está comemorando 304 anos de sua elevação à categoria de Vila, é preciso dispor de instrumentos pedagógicos que permitam aos alunos conhecê-la, tratá-la e amá-la conscientemente e de forma diferenciada em relação a qualquer outra cidade mineira, devido ao fato de ter atravessado diferentes períodos (colonial, imperial, republicano), participando ativamente da história do País e contribuindo para o seu desenvolvimento; para isso, nosso Instituto está capacitado a prestar colaboração para que o 1º ciclo do ensino básico são-joanense adote a disciplina denominada "Educação Comunitária / Patrimonial", a fim de que os alunos se conscientizem da importância de residirem numa terra plena de história e de tradições e de preservá-las; 
será buscada a promoção de concursos com temática regional, principalmente visando à valorização de nossos patronos, de nosso Instituto e de nossa cidade, possibilitando também que a comunidade, e particularmente nossa juventude, conheça e venere nossos grandes vultos. 

Todas essas considerações traduzem e justificam nossa alegria de fazermos essa comemoração do 48º aniversário de nosso querido Sodalício. 

Muito obrigado!