domingo, 12 de agosto de 2018

MOTIVO


Por Elizabeth dos Santos Braga

Roque da Fonseca Braga e Elizabeth dos Santos Braga


Quando meu pai posou

para este que foi nosso único retrato,

a vida já ia por um fio.

Fumou anos a fio

contando nota a nota

filho a filho

e os pulmões não suportaram.



Mas a última faria quinze anos.

Então, era preciso vestir o único terno que a traça não levou

abotoar meticulosamente o casaco

com cuidado amarrar a gravata azul

encher o peito com dificuldade

pousar uma mão na outra

            gesto que se perpetuou

e até esboçar um leve sorriso

            coisa rara em suas fotos.



Rara foi a sua vida.


Dia dos Pais,  em 12 de agosto de 2018

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

SABER ENVELHECER



Por Prof. Antônio de Oliveira


 

Introdução



Envelhecer, verbo incoativo: começa, irrompendo de dentro da mocidade, sem a gente perceber. Fazendo uma incursão pela seara insondável da poesia, numa homenagem com recorte junguiano à terceira idade, só me resta, por conta e inspiração próprias:

 

ENVELHECER COM POESIA

 

            


É próprio da roda rodar.

Impulsionada,

roda, roda, até... parar.

 

Assim esta vida:

seminal,

gira, gira... até parar.

 

Para uns,

em largos anos...

e, na velhice,

cabelos grisalhos

pele flácida,

rosto enrugado,

um sentimento,

um sonho,

um olhar distante,

uma recordação...

tenazmente guardada:

o sal da juventude.

 

É que,

sem piedade,

o tempo,

qual fogo avassalador,

engoliu outro fogo,

seu vassalo:

o viço da mocidade.

Antes também ardente,

“amor – chama, e, depois, fumaça”,

de um Manuel que foi Bandeira,

agora arriada, prostrada,

de chamas apagadas.

 

Obturando, finalmente,

com suas cinzas, em borralho,

ao som de estalos desoladores,

os poros já sem suor,

e apagando as paixões,

que não mais crepitam...

num campo,

que fora de batalha,

agora incendiado

e já em rescaldo de fúria impotente.

 

O veneno do tempo,

arma química denominada decrepitude,

irreversível,

em fase terminal,

deslizou em silêncio,

escorreu,

infiltrou-se sorrateiramente,

inoculou lentamente,

contaminou,

poluiu o regaço da vida.

 

Como antídoto,

contraveneno regressivo,

apenas a memória,

enquanto resta,

lúcida. 

Invocando Olavo Bilac,

quando não se sabe se os homens, 

mais que Os Rios,

desejam regressar...




Esclerosado, neurótico,

nem assim,

fugindo da vida,

esquecendo-se de viver,

ou se subtraindo à contingência do viver,

o decrépito escapa do envelhecer

e... do morrer.

 

Mas tudo tem sua hora.

No se antecipar a velhice,

à catástrofe se junta o sentimento de culpa,

cruel se torna a existência,

vazia,

sem conteúdo,

sem sentido:

tolhe-se e se recolhe a libido,

emperra-se a existência progressiva,

foge-se aos obstáculos e desafios, e,

por antecipação,

cava-se a ruína final

e se afunda na própria profundeza.

 

Enquanto isso,

alheios ao destino,

como crianças que dormem,

os deuses ressonam tranquilos.

É que – convenhamos,

dando razão ao poeta Hölderlin:

apanágio dos deuses, tal privilégio,

o de gozar eternamente sua infância,

ou juventude eterna,

o summum da felicidade,

felicidade suprema,

é inacessível aos humanos...

 

Não sendo deuses,

somos vulneráveis, e,

sem o elixir da eternidade aqui na terra,

fechadas lentamente as portas para a vida,

envelhecemos, e,

no leito,

já não dormimos:

morremos.

Portanto:

– Dá-me curtir o envelhecer, meu Deus!

Sem medo de curtir o entardecer...

quinta-feira, 19 de julho de 2018

FAZER JORNALISMO


Por Evandro de Almeida Coelho

Professor aposentado, 
ex-presidente da Academia de Letras de São João del-Rei 

Originalmente publicado na Tribuna Sanjoanense, edição de 20 de fevereiro a 6 de março de 2018, p. 3
 

Em princípios de 1967, tarde de domingo, apareceram lá em casa alguns amigos. Comentamos sobre a cidade, município recente, desmembrado de Rio Piracicaba, quinta renda do Estado, perdendo para a Capital, Juiz de Fora, Uberlândia e Ipatinga. E continuávamos com a vidinha de Monlevade perto da usina siderúrgica, Areia Preta, Vila Tanque, Baú, Pirineus, Posto, Loanda, Jacuí de Cima, Santa Bárbara e Lourdes. Carneirinhos já estava com boas lojas e pequenas indústrias. 

A Associação Comercial e a Prefeitura se ressentiam da falta de comunicação com os habitantes. E ajudariam o aparecimento de um noticiário fora do jornal “Pioneiro” e da Rádio Cultura, ambos da Belgo-Mineira. Depois dessa introdução, como sabiam que dirigi um jornal e revista na Faculdade, fui convidado a organizar um jornal independente. Aceitei o convite com a condição de me informarem os assuntos a serem divulgados. Que me passassem as notícias e redigiríamos o jornal para um texto mais homogêneo. 

Os fatos apareceram em páginas de caderno, blocos de anotações, pelo telefone e em encontros de rua. Fizemos uma pasta bem cheia. Prandini e eu tivemos trabalho em selecionar anotações. Isto feito, datilografei o que escolhemos. Ficou mais legível. Em uma folga do Colégio fomos a Belo Horizonte, e procuramos orientações mais seguras e técnicas do Adival Araújo, professor de redação no curso de jornalismo da minha Faculdade de Filosofia. Estava como redator-chefe do “Diário Católico”. Deu preciosos conselhos e, na parte de imprimir o jornal, ofereceu as oficinas do periódico. Um problema foi conseguir linotipos prontos. Procuramos o deputado Wilson Alvarenga. Foi conosco à Imprensa Oficial e conseguimos que fizessem os linotipos. Voltamos ao “Diário” e avisamos sobre o andamento das atividades. Faziam a paginação, mas faltava o cabeçalho. Conversamos e combinamos: Evandro, Diretor; Prandini, Redator; Randolfo, Gerente; Milton, Publicidade e Álvaro, Reportagens. 

Levamos as páginas datilografadas para a Imprensa Oficial e dois dias depois fomos buscar os pesados linotipos que deixamos com o chefe das oficinas do jornal. Mais alguns dias e fomos buscar o jornal impresso “O Eco” e o distribuímos aos amigos. Ganhamos o papel dos 500 exemplares. Houve sobra de assuntos nos linotipos já prontos. Deu para fazermos o segundo e quase o terceiro número. 

Evandro de Almeida Coelho com o 1º número do jornal "O Éco", de Carneirinhos-João Monlevade, MG







Soubemos que o Deputado Aníbal Teixeira estava vendendo sua tipografia. Tipos e máquinas impressoras. Era meu conhecido entre os “plinianos” que se reuniam na casa do industrial Salustiano Pureza, fabricante de banha, para ler obras do “Chefe Nacional”. Com algum esforço o Prandini comprou a tipografia e tivemos sorte de encontrar o “Capixaba”, mecânico da Belgo e ex-tipógrafo. Passamos a imprimir o jornal: página um; depois de secar, página quatro; depois de secar, página três; depois de secar, página dois. As caixas de tipos tinham pedaços de cartolina indicando as letras. O “b”, “p”, “d” e “q” eram com pinças depois dos compositores. Nossos tipógrafos foram calouros da arte. 

O jornal durou quarenta números e foi a fonte e incentivo para outros jornais e revistas na cidade. 


Esta crônica é pequena homenagem aos nossos alunos do curso de jornalismo, aos redatores atuais do ótimo periódico “O Tempo” e aos infelizes que fazem agora o antigo “melhor das Minas Gerais”. 
(Crédito pelas imagens: Rute Pardini Braga)

terça-feira, 17 de julho de 2018

BORGES, O MAGO PORTENHO


Por Rogério Medeiros Garcia de Lima
Desembargador do TJMG
"Ensaio publicado originalmente na revista MagisCultura, Associação dos Magistrados Mineiros, Belo Horizonte, nº 18, setembro de 2017, pp. 36-42"


Fui introduzido ao notável escritor argentino Jorge Luis Borges em 1980, quando ele concedeu entrevista à revista Veja (São Paulo, Editora Abril, 17.09.1980).
Fiquei fascinado pela exótica figura cosmopolita, homem culto, vivaz, sarcástico e dono de prodigiosa memória.
Borges contava, então, 81 anos de idade. Era cego desde os 50, mas produzira fabulosa obra literária.
Ele não disfarçava a frustração por não haver sido laureado com o Prêmio Nobel de Literatura. De fato, é uma enorme injustiça histórica.
Somente conheci a Argentina em 2004, quando visitei Buenos Aires pela primeira vez. Foi amor à primeira vista. Retornei diversas vezes à capital portenha. Digo sempre a familiares e amigos:

- Esqueçam as rixas do futebol e aprendam o caminho de Buenos Aires. É o caminho dos sonhos.

Quando vou à capital argentina, não deixo de visitar as ricas livrarias locais. Trago na bagagem, entre outras valiosas aquisições, livros escritos por Borges e livros sobre Borges.
Não se assimila o mágico universo borgeano sem ter conhecido Buenos Aires.

Buenos Aires, cidade encantada
Fundada em 1516, às margens do Rio da Prata, Buenos Aires é a capital e maior cidade da Argentina.
O nome atual deriva da antiga denominação Ciudad de Nuestra Señora Santa Maria del Buen Ayre.
A presidência de Domingo Faustino Sarmiento, no final do século 19, foi um marco na história da Argentina.
O governo acolheu imigrantes europeus, investiu na educação – sobretudo na educação primária – e promoveu o desenvolvimento econômico (construção de ferrovias, urbanização da capital etc.).
Buenos Aires foi a principal beneficiária desse impulso econômico. A cidade se europeizou nos gostos e modismos. O Teatro Colón – então localizado na Plaza de Mayo - era o centro das atividades sociais de uma elite que começava a viajar frequentemente a Paris.
A capital se tornou o maior empório de riquezas da nação. Com população cosmopolita, arquitetura renovadora, minorias cultas e porto movimentado, exibia os traços das mudanças que ocorriam no país (ROMERO, 2006:107-108).
Ao escrever sobre o cinquentenário do romance Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel García Márquez, a jornalista Sylvia Colombo assinalou (Folha de S. Paulo, 03.05.2017):

“Quando o jovem Gabriel García Márquez (1927-2014) ia à livraria Nacional, uma de suas preferidas de Barranquilla, cidade da costa colombiana onde morou um tempo, voltava carregado de títulos de seus autores favoritos, como William Faulkner, Albert Camus e Franz Kafka.
“Todos tinham algo em comum: eram traduzidos e lançados em Buenos Aires, então principal centro editorial da América Hispânica.
“‘Aqui estavam a Emecé, a Losada e a Sudamericana, que editavam escritores da região, além de traduzir autores clássicos internacionais para o espanhol para a América Latina’, conta à Folha Ezequiel Martínez, filho do escritor argentino Tomás Eloy Martínez (1934-2010), hoje diretor cultural da Biblioteca Nacional de Buenos Aires”.

Nascimento de Borges
Jorge Luís Borges nasceu em Buenos Aires, no dia 24 de agosto de 1899, filho de Jorge Guillermo Borges e Leonor Acevedo de Borges.

A mãe
Leonor Acevedo Suárez (nome de solteira) descendia de uma família tradicional uruguaia.
No livro Cuaderno San Martín (1929), Borges incluiu o poema Isidoro Acevedo, em homenagem ao avô materno.
Isidoro foi um militar do Exército de Buenos Aires e opositor do ditador Juan Manuel de Rosas. Lutou nas batalhas de Cepeda (1859), Pavón (1861) e Los Corrales (1880). Faleceu de congestão pulmonar, na casa onde o neto Jorge Luis Borges nasceu.
Em Isidoro Acevedo, Borges descreve a desolação do menino diante da morte, que lhe fora ocultada (KODAMA, 2016:35-36):

“En metáfora de viaje me dijeron su muerte; no la creí.
Yo era Chico, yo no sabía entonces de muerte, yo era inmortal;
yo lo busqué por muchos dias por los cuartos sin luz”.

O escritor argentino Alan Pauls assinalou (O pai de Borges, Folha de S. Paulo, 11.07.2009):

“Como todo mundo, Jorge Luis Borges (1899-1986) teve um pai e uma mãe. Dos dois, entretanto, apenas um -a mãe- ocupa um lugar na mitologia borgeana. Descendente de espanhóis e militares, Leonor Acevedo de Borges foi uma mãe de tomar em armas, afiada e despótica. Vigiou a carreira literária de seu filho com rigor higienista, um pouco como os pais dos precoces prodígios dos esportes ou da televisão hoje moldam as trajetórias de seus rebentos. Proibiu Borges de ler ‘Martín Fierro’ (‘um livro que só é apropriado para sem-vergonhas’), promoveu a carreira dele ‘silenciosa e eficientemente’, afugentou namoradas ameaçadoras, foi sua secretária, sua leitora em voz alta (quando Borges ficou cego), sua companheira de viagem. E, basicamente, foi longeva. Viveu quase cem anos, o que a permitiu chegar do escuro século 19, no qual nasceu, até meados dos anos 70 do século 20, a aurora de uma civilização midiática que contribuiu para celebrizá-la”.

O pai
Jorge Guillermo Borges era advogado e professor de psicologia. Tinha uma sortida biblioteca. Compartilhava os livros e a vocação de escritor com o filho. Aos onze anos de idade, o menino traduziu um conto de Oscar Wilde (KODAMA, 2016:40).
Alan Pauls observou (art. cit.):

“O apagado Jorge Guillermo Borges não teve a mesma sorte. Morreu em 1938, quando seu filho nem sequer intuía a fama que o aguardava. Advogado, anarquista com veleidades de filósofo e professor de psicologia, Borges, pai, fez por seu filho muito mais do que a posteridade sensacionalista se dispõe a reconhecer, ela que, no fundo, o reduziu a uma anedota lasciva: a prostituta que ele contratou em Genebra para que seu filho, então no final da adolescência, se iniciasse nos ardores do sexo. (...)
“O mais importante que Borges, pai, deu a seu filho, deu já morto, sob a forma pudorosa mas influente do legado. Legou a seu filho sua biblioteca (‘o feito capital de minha vida’), a amizade magistral de Macedônio Fernández, dois males inexoráveis (a timidez e a cegueira) e um mandato difícil de resistir: o de escrever. Isso porque, além de plagiar William James nas aulas de psicologia que dava na Escola Normal de Línguas Vivas, Jorge Guillermo Borges era escritor, e do tipo mais perigoso: um escritor fracassado. Tinha escrito poemas, textos, exercícios de prosa que mantinha em segredo, a meio caminho entre o hobby e o fetichismo, e que só se atreveu a mostrar a seu filho quando ganharam forma em um gênero dotado de autoridade: um romance. Borges, pai, publicou ‘El Caudillo’ em 1921, quando seu filho tinha pouco mais de 20 anos, era vanguardista e só tinha dado a conhecer um punhado de versos de incendiado espírito bolchevique. O romance –‘interceptado’ por algumas metáforas audazes que Borges, filho, conseguiu incorporar a ele- passou despercebido, mas funcionou como elo crucial na cadeia de transmissão entre pai e filho. Até o final de sua vida, o autor de ‘Ficções’ confessava que um de seus projetos mais caros, que nunca realizou, era ‘revisar e talvez reescrever o romance de meu pai, ‘El Caudillo’, como ele me pediu há anos’. Talvez nessa reescritura se encontrasse a única possibilidade de assistir a um milagre que a obra de Borges sempre nos negou: o milagre de um Borges romancista”.

Temporada na Europa
Em 1914, quase totalmente cego, Jorge Guillermo Borges decidiu passar uma temporada com a família na Europa.
Em Genebra, o filho Jorge escreveu alguns poemas em francês, enquanto estudava o bacharelado (1914-1918).
Publicou resenha de três livros espanhóis para um jornal genebrino.
Em 1919, Jorge Luís mudou-se para a Espanha, onde publicou poemas e manifestos na imprensa.

Regresso a Buenos Aires
Em 1921, Jorge Luis retornou a Buenos Aires.
Redescobriu a capital portenha na efervescência dos anos 20.
Escreveu seu primeiro livro de poemas, Fervor de Buenos Aires (1923).
No poema Arrabal, referiu-se à terra natal (KODAMA, 2016:14-15):

“Esta ciudad que yo creí mi pasado
es mi porvenir, mi presente;
los anos que he vivido en Europa son ilusorios,
yo estaba siempre (y estaré) en Buenos Aires”.

Diretor de biblioteca
Em 1937, Borges foi nomeado diretor da Biblioteca Pública Nacional.
Deixaria o cargo nove anos depois.

À beira da morte
Borges sofreu grave acidente, no Ano Novo de 1938, quando caminhava pela caital argentina. Por causa da deficiência visual, bateu a cabeça em uma janela, sofreu um corte e perdeu muito sangue (Quem foi Jorge Luis Borges? Revista Estante, 2017).
Esteve à beira da morte.  A septicemia e uma febre altíssima o levaram a ter pesadelos, que se mesclavam com a realidade (KODAMA, 2016:35).

Perseguido pelo peronismo
O ditador Juan Domingo Perón entrou em conflito com a imprensa e intelectuais argentinos (ORTIZ, 1996:277):

“A escassez de papel era real; Perón a utilizou para asfixiar os jornais de seus adversários.
“Mas não se limitou à imprensa escrita. Em maio de 1946, determinou que todas as estações de rádio reproduzissem no horário das 20:35 as informações da rádio estatal. Os programas radiofônicos – estava escrito com todas as letras – deviam ‘abster-se de toda crítica’. Os jornalistas que infringissem a regra, sujeitavam-se a processos por atentado à ordem pública. Outros intelectuais foram punidos com mais humor: Borges, empregado numa biblioteca municipal, foi nomeado inspetor de aves e ovos nos mercados de Buenos Aires. Preferiu privar-se de tamanha honra, ficando desempregado durante todo o regime peronista”.

Em 1955, Borges foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional, na Calle México (KODAMA, 2016:57).

Paixão pelos livros
Para Borges, nada era mais importante do que ter um livro em mãos. Dizia que o livro era o mais assombroso objeto criado pelo homem. Enquanto caleidoscópios, máquinas e outros aparelhos são instrumentos do corpo, o livro é instrumento da memória e da imaginação. Através dos livros, o  homem pode guardar a memória da humanidade (KODAMA, 2016:57).
Era grande leitor de dicionários e enciclopédias - que lia horizontalmente e não como instrumento de consulta. “Ninguém deu o status de literatura às enciclopédias e dicionários como Borges”, afirma o escritor Jorge Schwartz (MEIRELES, Folha de S. Paulo, 22.07.2017).
Mesmo depois de ficar cego, Borges continuava a comprar livros (KODAMA, 2016:60-61). Adquiria novas edições e traduções, para confrontá-las com as de que já dispunha.
Uma das suas paixões era reler os livros. Assinalava nos exemplares as datas da aquisição e das releituras.
Fazia anotações no rodapé das páginas. Apontava contradições e remetia à página onde havia alguma afirmação contraditória.
A visão da biblioteca de Borges impressiona. Mais da metade dela é formada por livros de Filosofia, Matemática, Lógica e Religião:

“Para Borges una forma de felicidad en estado puro – como me decía – era la lectura, otra menor era la creación”.

A biblioteca era a maior riqueza desse homem que desprezava o luxo.
Em Borges oral, afirmou (KODAMA, 2016:66):

“... el libro, ese instrumento sin el cual no puedo imaginar mi vida, y que no es menos íntimo para mí que las manos o que los ojos”.

Livros, memória e imaginação
Borges publicou o texto El libro (KODAMA, 2016:67-68). Valorizava o livro como instrumento que estende a memória e a imaginação.
Sem embargo, afirmava que, na antiguidade, a palavra escrita não era tão apreciada, porque trazia uma mensagem morta, fechada e imutável. Muito distante da palavra poética, leve, sagrada e alada, como a considerou Platão.
Recorda que Pitágoras e Cristo não recorreram à mensagem escrita. Seus ensinamentos foram transmitidos oralmente. Daí a riqueza dos diálogos diretos com Sócrates, mediante os quais Platão quis reproduzir a palavra do mestre.
Borges assim se expressou, nos versos do poema Mis libros (KODAMA, 2016:75):

“Mis libros (que no saben que yo existo)
son tan parte de mí como este rostro
de sienes grises e de grises ojos
que vanamente busco en los cristales
y que recorro con la mano cóncava.
No sin alguna lógica amargura
pienso que las palavras esenciales
que me expresan están en essas hojas
que no saben quién soy, no en las que he escrito.
Mejor así. Las voces de los muertos
Me dirán para siempre”.

Carreira de escritor
O reconhecimento literário de Borges somente se consolidou em 1961, quando recebeu o prêmio concedido pelo Congresso Internacional de Editores, dividido com Samuel Beckett.
A seguir, recebeu premiações dos governos da Itália, França, Inglaterra e Espanha (Jorge Luís Borges, portal Uol Educação, 2017).

Literatura e ética
Para Borges, Cristo ensinou que o homem se salva pela fé e pela ética. Swedenborg acrescentou a inteligência. Blake nos indicou três caminhos de salvação: o moral, o intelectual e o estético. Afirmou que o terceiro foi pregado por Cristo, já que cada parábola é um poema.
A poesia é ética. A pessoa humana tem o dom de traçar seu próprio quadro de valores e cumprir com a sua essência.
Ao longo de sua vida, Borges deu provas de valor, ao enfrentar situações às vezes complicadas, sem abandonar os valores que defendia.
Desde a infância, sabia que o seu destino era ser escritor. Somente ao cumprir tal essência – entendia - poderia se salvar. A salvação seria estética. Para ele, a estética encerra a ética (KODAMA, 2016:103).

Realismo mágico
O livro Labyrinths, de Borges, é considerado a “pedra de toque” da literatura latino-americana na década de 1960.
A obra fez sucesso e foi a referência da escola chamada “realismo mágico”, formada por obras de ficção sobre a história turbulenta e fantástica da América Latina.
Para os europeus, essa literatura rompia as fronteiras do realismo e criava uma nova visão da realidade.
O movimento encontrou sua autêntica produção com o livro Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel García Márquez (WOODALL, 1999:31).

A cegueira
Na época em que foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires (1955), Borges perdeu a visão. Referiu-se a isso como “la ironía de Dios” (Poema de los dones).
A literatura tornou-se para ele a palavra oral, alada e sagrada, como dizia Platão. Todavia, continuou a cultuar os livros.
Borges retomou a tradição oral e passou a ditar sua obra. Voltou às formas da poesia clássica, ao soneto e aos recursos mnemotécnicos (KODAMA, 2016:59).
Considerava a sua cegueira “um lento crepúsculo que durou mais de um século” (Borges oral, p. 91).
Na célebre entrevista à revista Veja, divagou:

“Nada de coragem e nada de drama. Minha cegueira não foi repentina. Comecei a perder a vista aos poucos, e não houve nenhum momento patético ou trágico. Comecei a me acostumar com minhas sombras, as coisas começaram a desaparecer lentamente – e na verdade não me faziam falta. Conheço pessoas ameaçadas poruma cegueira brusca que pensaram no suicídio. Eu tive a sorte de saborear aos poucos a chegada da noite, e agora convivo com ela perfeitamente, como um doente acostuma-se a viver com sua moléstia crônica, naturalmente. (...)
“Acho que (a cegueira influenciou a minha maneira de escrever). Antes eu saía bastante, via imagens, coisas, algo ficava. Algo se acrescentava ao pensamento. Hoje não, nem a rua atravesso sozinho, e passo quase sempre meus dias em casa, com minhas ideias, e as imagens são mais minhas e mais esmeradas, porque completamente criadas no exercício da solidão. Por outro lado, nunca precisei da realidade. Eu nunca construí personagens, eu não sou Dickens ou Eça de Queirós, nem faço como Gustave Flaubert, que descrevia minuciosamente até os móveis da casa onde morava. A poesia é um hábito eterno que não precisa inspirar-se na realidade externa. É por isso que não faço uma tragédia de minha cegueira. Aceito-a, convivo com ela, e até desfruto suas poucas inimagináveis dádivas. Uma delas, por exemplo, é impedir-me de assistir a coisas terríveis. Uma vez, nos anos 40, eu passei dez dias no Brasil, em Santana do Livramento. E lá vi um homem matar outro” (ALTMAN e GAMA, 2017:111-112).

E versejou no poema Elogio de la sombra, de 1968 (KODAMA, 2016:73-74):

“El hombre que está ciego,
sabe que ya no podrá descifrar
los hermosos volúmenes que maneja
y que no le ayudarán a escribir
el libro que lo justificará ante los otros,
pero la tarde que es acaso de oro
sonríe ante el curioso destino
y siente esa felicidad peculiar
de las viejas cosas queridas”.

Casamentos
Em 1967, Borges se casou com Elsa Astete, amiga de infância. A união durou três anos. Terminou quando Borges fugiu de casa, sem coragem para discutir a separação.
Borges perdeu a mãe, Leonor, em 1975.
Casou-se, pela segunda vez, com a ex-aluna María Kodama, sua secretária particular desde 1981.
Kodama é de origem japonesa e herdou os direitos autorais do esposo.
Em 2016, Kodama publicou o livro Homenaje a Borges.

Felicidade não deve exigir esforço
Para Borges, “um livro não deve requerer um esforço, a felicidade não deve exigir esforço”:

“Emerson afirma que uma biblioteca é uma espécie de câmara mágica. Nesse gabinete estão sob o efeito de um encantamento os melhores espíritos da humanidade, que esperam a nossa palavra para sair da sua mudez. Temos que abrir o livro, e eles então despertam. Diz que podemos contar com a companhia dos melhores homens que a humanidade produziu. (...)
“Fui professor de literatura inglesa, durante vinte anos, na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires. Sempre recomendei aos meus alunos que tivessem pouca bibliografia, que não lessem críticas, que lessem diretamente os livros; talvez compreendam pouca coisa, mas sempre sentirão prazer e estarão ouvindo a voz de alguém. Diria que o mais importante de um autor é a sua entonação; o mais importante de um livro é a voz do autor, essa voz que chega até nós.
“Dediquei parte da minha vida às letras, e creio que a leitura representa uma forma de felicidade; outra forma de felicidade menor é a criação poética, ou o que chamamos criação, que é uma mistura de esquecimento e de recordação do que lemos.
“Emerson coincide com Montaigne no reconhecimento de que devemos unicamente o que nos agrada, de que um livro tem que ser uma forma de felicidade. Devemos tanto às letras! Procurei mais reler do que ler; creio que reler é mais importante do que ler, mas para se reler é preciso ter lido antes” (Borges oral, p. 27-28).

Imortalidade
 Borges muito escreveu sobre  a imortalidade (Borges oral, p. 38-43).
Havia a conjectura da transmigração da alma, encontrada em Pitágoras e Platão.

“Se somos felizes ou desventurados nesta vida, isso deve-se a uma vida anterior; estamos recebendo castigos ou recompensas. Há uma coisa que pode ser difícil: se a nossa vida individual, como o creem o hinduísmo e o budismo, depende da nossa vida anterior, essa vida anterior depende, por sua vez, de outra vida anterior, e assim sucessivamente, até ao infinito na direção do passado. (...)
“Temos o poema The Progress of the Soul (O Progresso da Alma) de John Donne, ligeiramente posterior a Shakespeare. Donne principia dizendo: Canto o progresso da alma infinita, e essa alma vai passando de corpo em corpo”.

Há também a imortalidade literária:

“De cada vez que repetimos um verso de Dante ou de Shakespeare, somos, de alguma maneira, aquele instante em Shakespeare ou Dante criaram esse verso. Ao fim e ao cabo, a imortalidade está na memória dos outros e na obra que deixamos. (...)
“Sei de memória muitos poemas anglo-saxônicos. A única coisa que não sei é o nome dos poetas. Mas o que é que isso importa? Que importa isso se eu, ao repetir poemas do século IX, estou sentindo algo que alguém sentiu nesse século? Esse alguém vive em mim nesse momento, embora eu não seja esse morto. Cada um de nós é, de algum modo, todos os homens que morreram antes. Não apenas os do nosso sangue. (...)
“O mesmo poderá dizer-se da música e da linguagem. A língua é uma criação, acaba por ser uma espécie de imortalidade. Estou utilizando a língua castelhana. Quantos mortos castelhanos estão vivendo em mim? (...)
 “Creio na imortalidade: não na imortalidade pessoal, mas na imortalidade cósmica. Continuaremos a ser imortais; para além da nossa morte corporal fica a nossa memória, ficam os nossos atos, as nossas obras, as nossas atitudes, toda essa maravilhosa parte da história universal, ainda que não o saibamos, e é melhor que o não saibamos”.

Política
Borges criticou, em revistas, o nazismo e o antissemitismo.
Na Argentina, sempre foi muito claro com relação à política do país. Suas criticas ao peronismo – já assinalamos - causaram sua demissão do cargo de diretor de biblioteca municipal.
Não vacilou em admitir erros, quando se convencia de que errou.
Muitos anos depois, confiou no regime militar, mas, quando ouviu relatos sobre torturas e pessoas desaparecidas, manifestou reprovação e críticou publicamente nos jornais:

“Cuando otros no pueden hacerlo yo tengo la obligación de hablar”.

Sabia que o terror e as prisões inibem a luta, mas sua fama internacional lhe assegurava uma espécie de salvo-conduto, que utilizava para representar os cidadãos comuns e compatriotas condenados ao silêncio (KODAMA, 2016:52-54).

O Prêmio Nobel
O jornalista Alexandre Porro, da revista Veja, ao introduzir a entrevista com Jorge Luis Borges (1980), discorreu sobre o Prêmio Nobel de Literatura:

“Desde 1960, Borges – para muitos, o maior escritor vivo do planeta – aparece entre os candidatos, mas inutilmente. Após Gabriela Mistral, a poetisa chilena que ganhou o prêmio em 1945, muitos pensaram que Borges viria a ser o Segundo latino-americano a merecer o Nobel: mas em 1967 o júri escolheu o guatemalteco Miguel Ángel Asturias, e em 1973 outro chileno, Neftali Ricaro Reyes, mais conhecido como Pablo Neruda. (…)
“Até o ano passado, Borges dizia que o prêmio não o interessava. (…)
“Borges disse a VEJA: ‘Afinal, minha obra não precisa de prêmios. Talvez tenha sido justo premiar um jovem. Lá em Estocolmo fazem política, eu não ganhei porque sou argentino, e os esquerdistas acham que todos os argentinos seguem a política dos governantes militares. Eu não tenho mais nada a dizer: o tempo é curto, e eu sou um poeta velho e cego, como Homero, que tampouco ganhou prêmios em sua vida’.
“Desta vez, o tom é diferente. Com quarenta obras publicadas, em 38 idiomas, o gênio argentino confessa finalmente que o prêmio o interessa, e muito, e que não quer morrer sem recebê-lo” (ALTMAN e GAMA, 2017:106-107).

A borboleta
Jorge Luis Borges faleceu em Genebra, Suíça, no dia 14 de julho de 1986.
Se me fosse permitido escolher uma passagem borgeana como seu testamento, eu escolheria a seguinte passagem ditada ao jornalista brasileiro Alessandro Porro:

“Quero ditar-lhe um trecho, escreva exatamente o que digo. (...) ‘Estou pensando naquele Chuang-Tzu, vírgula, que sonhava ser uma borboleta e que agora, vírgula, acordando, vírgula, não sabia se havia sonhado ser uma borboleta ou se era uma borboleta que agora sonhava ser um homem. Ponto’. Sabe, é para uma página que intitularei ‘A bengala de laca chinesa’. Bonito, não?” (ALTMAN e GAMA, 2017:112).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALTMAN, Fábio e GAMA, Rinaldo (editores). VEJA: A história é amarela. São Paulo: Editora Abril, 2017. Entrevista de Jorge Luis Borges a Alessandro Porro, páginas amarelas da revista Veja, edição de 17.09.1980.
Borges oral. Lisboa: Vega, trad. Rafael Gomes Filipe, sem data.
Buenos Aires – História, disponível em http://www.amautaspanish.com/portuguese/destinos/aprender-espanhol-na-argentina/argentina-visao/historia-da-argentina/buenos-aires-historia-204.html, acesso em 21.07.2017.
Buenos Aires – QuickGuide, nº 31, agosto-novembro 2008.
COLOMBO, Sylvia. Clássico de García Márquez, ‘Cem Anos de Solidão’ completa meio século, jornal Folha de S. Paulo, edição de 03.05.2017, caderno Ilustrada.
Jorge Luís Borges, Portal Uol Educação, Biografias, disponível em http://educacao.uol.com.br/biografias/jorge-luis-borges.htm, acesso em 21.07.2017.
KODAMA, María. Homenaje a Borges. Buenos Aires: Sudamericana, 2016.
MEIRELES, Maurício. Jorge Schwartz apresenta mapa para vasto labirinto de Jorge Luis Borges, jornal Folha de S. Paulo, 22.07.2017, caderno Ilustrada.
ORTIZ, Alicia Dujovne. Eva Perón: a madona dos descamisados. Rio de Janeiro: Record, trad. Clóvis Marques, 1996.
PAULS, Alan. O pai de Borges, jornal Folha de S. Paulo, edição de 11.07.2009, caderno Ilustrada.
Quem foi Jorge Luis Borges? Revista Estante, FNAC, disponível em http://www.revistaestante.fnac.pt/quem-foi-jorge-luis-borges/, acesso em 31.07.2017.
ROMERO, José Luis. Breve historia de la Argentina. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 5ª ed., 2006.
WOODALL, James. La vida de Jorge Luis Borges. Barcelona: Editorial Gedisa, trad. Alberto L. Bixio, 1999.