sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

OUVINDO ESTRELAS


Por Anderson Braga Horta


Palestra pronunciada originalmente na ANE-Associação Nacional de Escritores de Brasília, em 22 de novembro de 2018, no evento Quinta Literária.



Nascido em 16 de dezembro de 1865 e falecido em 28 de dezembro de 1918 (há um século), viveu, portanto, 53 anos. Vida breve, para as expectativas de nossos dias; mas nem tanto, para a época. Comparado aos grandes antecessores do período romântico, foi quase um macróbio. Gonçalves Dias, que tanto admirava, talvez ajudado por alguma pajelança de seus íntimos piagas, ainda alcançou a marca dos 41 — resgatado pelo “oceano terrível” da agonia em que já se afundava, no naufrágio do Bois de Boulogne, em 1864 (foi o único a morrer). Aos outros deu Fortuna menor tempo:
Laurindo Rabelo (1826-1864): aos 38, já do batel da vida sentiu tomar-lhe o leme a mão da morte.
Álvares de Azevedo (1831-1852): “Já da morte o palor me cobre o rosto”. “Vinte anos!... Não vivi um só momento!”
Junqueira Freire (1832-1855) invocava: “Pensamento gentil de paz eterna, amiga morte, vem.” Foi atendido aos 22 aninhos.
Casimiro de Abreu (1839-1860): “Se eu tenho de morrer na flor dos anos, meu Deus, não seja já!” Colhido menino, ainda correndo atrás de borboletas azuis, aos 21.
Fagundes Varela (1839-1860) viveu em cânticos um calvário de 33 anos.
Castro Alves (1847-1871) tinha 17 quando escreveu, em pleno “borbulhar do gênio”: “Adeus, vida! Adeus, glória! amor! anelos!” Restavam-lhe sete. Ao menos curtiu intensamente a vita brevis.

É corriqueiro lembrar que o nome Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac é um perfeito alexandrino francês, a sugerir mestria nesse tipo de verso, conseqüentemente um visível domínio versífico, uma tendência ao perfeccionismo, uma filiação literária que implicaria vínculos estreitos com a cultura gaulesa, e por aí afora. Por seu conteúdo repetitivo, de chavão, deveria esquecê-lo; mas, ao invés, o acolho, já pelo curioso da observação, já pela condição seminal de nos prevenir para qualidades efetivamente encontráveis no poeta.
Também aprendemos nos manuais que Bilac foi um poeta parnasiano, vale dizer — vinculado a uma escola marcada pela impessoalidade, pela frieza emocional. Sua vida, entretanto, não foi essa pasmaceira que se poderia imaginar, em se tratando de um suposto adepto da torre de marfim, da objetividade realista, do não-envolvimento, da literatura de gabinete, como deixou claro José Jeronymo Rivera, no primoroso painel que desenrolou para nós, no Auditório Cyro dos Anjos, da ANE, em março de 2014 (De Vias Lácteas e de Flautas Rústicas, Kelps, Goiânia, 2014). Sua arte também não o foi, consoante a Apresentação de Alceu Amoroso Lima, um dos que melhor o compreenderam, no vol. 2 da série Nossos Clássicos, da Agir (Rio de Janeiro, 1957).
Sobre o cidadão Bilac, lembra Antonio Carlos Secchin em “Presença do Parnaso”, que, longe de um comportamento glacial diante da vida, “desenvolvia intensa atividade pública, metendo-se em política, lutando pela obrigatoriedade de prestação do serviço militar, e opinando sobre as reformas urbanísticas do Rio belle époque”. E Ledo Ivo, em “Os Navios Parnasianos”, fala de sua “alegria de viver”. (Ambos em Escolas Literárias no Brasil, organização de Ivan Junqueira; edição da Academia Brasileira de Letras, Rio, 2004, pp. 497 e 523, respectivamente.)

Quanto às características do nosso Parnasianismo amenizado, particularmente no exemplo bilaquiano e pelo menos ante os termos da ortodoxia, como se depreende da boa crítica, recomendo uma vista d’olhos no magnífico estudo O Parnasianismo na Poesia Brasileira, de Sânzio de Azevedo (Editora UFC / Edições UVA, Fortaleza, 2004).
As diferenças entre os estilos de época são muitas vezes tênues. Traços característicos de uns podem achar-se em botão nos anteriores, ou como reminiscência nos seguintes. Há casos bem típicos, sim, como as claridades e vaguidões da “Antífona” do simbolista Cruz e Sousa, de um lado, e doutro o dissertativo de “A Gonçalves Dias”, bem como a rigidez escultórica de “A Sesta de Nero” e “O Incêndio de Roma”, de um parnasianíssimo Bilac. Mas não diria que a nitidez dos contrastes é prevalente.
Quando escreveu, aplicadamente, de acordo com as prescrições da escola, Bilac foi poeta de boa envergadura. Quando, porém —ainda que sem perder jamais a ponderação da boa forma— se deixou levar pelo borbulhar interno, aí levantou voo, e aí compôs poemas que, sem deixar de servir de modelo em seu embasamento e em seu travejamento, nos trazem alma adentro o frêmito da paixão e da beleza, a que não faltam o sal de alguma dúvida metafísica nem o ímpeto superior de uma transcendente esperança.
Logo após o rigor propriamente parnasiano de Panóplias, exibem-se em suas Poesias os trinta e cinco sonetos de Via Láctea, em que Sânzio de Azevedo, citando Alberto de Oliveira, vê com clareza “uma combinação de rigor clássico e emoção romântica”, que vamos rever na perfeição do n.° XIII:

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”


Consta que o próprio poeta o desmerecia, exigente, apontando uma homofonia (tão leve que mal se percebe) no primeiro terceto.
O soneto, originalmente intitulado “Ouvir Estrelas”, e conhecido popularmente também como “Ora (direis)”, nos dá de mão beijada, como quem não quer nada, uma fértil contradição: de um lado, uma dicção escandida, estudada, com uma certa nonchalance, uma aparente frieza no andamento, frieza conceitual, professoral, frieza de quem professa uma lição, não de quem vive uma paixão; de outro, um refreado mas ardente sentir, numa expressão que vai ganhando força até o perfeito final. Emoção contida: o poeta não quer se derreter diante do interlocutor, diante do público; mas bastante para entremostrar os frêmitos que podiam vagar por aquela alma. O que prevalece —e fica na mente do leitor— é esse clímax, esse caldo de sonho, essa música suave-ardente, esse deslumbramento de ouvir e de entender estrelas. E ficamos sabendo, sentindo, que isso é, sim, poesia, bela e grande poesia, independentemente de tudo o que digam —contra ou a favor— os teóricos do verso.
Bilac foi um grande poeta romântico (ouso dizê-lo) constrangido, num bom número de poemas, pela equivocada intenção de ser parnasiano (mas é bom lembrar que o próprio poeta chegou a negar a existência de parnasianismo no Brasil). Dessa escola tem e exibe, contudo, em toda a linha de sua produção poética, a perfeição do verso e a extrema correção e elegância vernacular.

Há quem aponte e verbere em Bilac (assim como em Castro Alves, outro poeta de verbo inflamado) o vezo da eloqüência. Ora, a eloqüência é virtude da oratória, do discurso feito para convencer — já pela justeza do pensamento, já pela empolgação emocional; em poesia, é considerada defeito. Tenho para mim que quem chama de eloqüente a um grande poeta está, em verdade, querendo dizer que suas palavras voam e ardem como estrelas. O mot juste para isso é entusiasmo.  A eloqüência pode visitar o grande poeta —hélas! ninguém é gênio vinte e quatro horas por dia—, mas em poema como o I-Juca-Pirama, O Navio Negreiro, Vozes d’África, O Caçador de Esmeraldas, o arrebatamento verbal visa a algo em si mesmo, visa ao fogo, visa ao vento, visa ao belo.
Permitam-me aqui o meu próprio arrebatamentozinho romântico: o poeta é um deus que influi do que pensa e, sobretudo, do que sente — desse amálgama — as artérias do poema, sua criatura.

Como aqueles notáveis épicos, impressiona O Caçador de Esmeraldas pela fornalha verbal em que se enforma. (“Sagres” em certa medida o antecipa — sendo-lhe poeticamente inferior, e sendo que, enquanto o sonho do Infante ao fim se projeta em Conquista e Glória, o sonho do Bandeirante se esfará em irrisão.)
Começa e mantém-se o Caçador num patamar elevado (com rompantes de lava em picos estratégicos):

Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada
Do outono, quando a terra, em sede requeimada,
Bebera longamente as águas da estação,
— Que, em bandeira, buscando esmeraldas e prata,
À frente dos peões filhos da rude mata,
Fernão Dias Paes Leme entrou pelo sertão.


Já nesses inícios a cor esmeraldina se insinua, primeira antecipação de um dos pontos máximos do poema. São as “angras verdes”, o “verde sorriso”, o “verde coração” da “bruta Pátria”; logo depois, “a serra misteriosa” de “verdes faldas”, o “verde sonho”, o “verde arcano”, o faiscante verdor da “grande serra, mãe das esmeraldas raras”, as “pedras verdes” finalmente nas mãos do Bandeirante, que, vencido pela febre, “trôpego e envelhecido, roto, e sem forças, cai junto do Guaicuí...”. É uma espécie de leit-motiv, que faz uma pausa na parte terceira, para, em prodigiosa mudança de clima, dar espaço à agonia do Herói:

Fernão Dias Paes Leme agoniza. Um lamento
Chora longo, a rolar na longa voz do vento.


Agonia em largo magnífico, a culminar no momento em que Fernão Dias, acreditando estar na posse das esmeraldas, exibe uma face fulgurante, “como se a asa ideal de um arcanjo a roçasse”. É a hora do delírio verde, quando o leit-motiv se completa e explode miraculosamente no quadro total. Uma obra-prima de ton-sur-ton plástico-musical. Jóia incrustada no corpo áureo do poema. Vejamo-la nas duas estrofes iniciais da parte IV:

Adoça-se-lhe o olhar, num fulgor indeciso;
Leve, na boca aflante, esvoaça-lhe um sorriso...
— E adelgaça-se o véu das sombras. O luar
Abre no horror da noite uma verde clareira.
Como para abraçar a natureza inteira,
Fernão Dias Paes Leme estira os braços no ar...

Verdes, os astros no alto abrem-se em verdes chamas;
Verdes, na verde mata, embalançam-se as ramas;
E flores verdes no ar brandamente se movem;
Chispam verdes fuzis riscando o céu sombrio;
Em esmeraldas flui a água verde do rio,
E do céu, todo verde, as esmeraldas chovem...


Neste passo, explode o “alto clangor” sinfônico do esplêndido finale. Concentro-me na “voz, que na soidão só ele escuta, — só”, excluindo, na leitura, com vistas a uma condensação impressiva, duas ou três estrofes; essa Voz que lhe deu, mudamente, a missão que ele cumpriu sem o saber:

“Morre! morrem-te às mãos as pedras desejadas,
Desfeitas como um sonho, e em lodo desmanchadas...
Que importa? dorme em paz, que o teu labor é findo!
Nos campos, no pendor das montanhas fragosas,
Como um grande colar de esmeraldas gloriosas,
As tuas povoações se estenderão fulgindo!


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Morre! tu viverás nas estradas que abriste!
Teu nome rolará no largo choro triste
Da água do Guaicuí... Morre, Conquistador!
Viverás quando, feito em seiva o sangue, aos ares
Subires, e, nutrindo uma árvore, cantares
Numa ramada verde entre um ninho e uma flor!

Morre! germinarão as sagradas sementes
Das gotas de suor, das lágrimas ardentes!
Hão de frutificar as fomes e as vigílias!
E um dia, povoada a terra em que te deitas,
Quando, aos beijos do sol, sobrarem as colheitas,
Quando, aos beijos do amor, crescerem as famílias,

Tu cantarás na voz dos sinos, nas charruas,
No esto da multidão, no tumultuar das ruas,
No clamor do trabalho e nos hinos da paz!

E, subjugando o olvido, através das idades,
Violador de sertões, plantador de cidades,
Dentro do coração da Pátria viverás!”


Neste ponto o narrador (o eu narrador, ou eu épico, para se justapor ao eu lírico...) faz uma pausa, indicada por uma linha pontilhada, recupera o fôlego e retoma a própria voz, para colocar ponto final no poema (note-se o belo “enjambement interno” no terceiro verso):

Cala-se a estranha voz. Dorme de novo tudo.
Agora, a deslizar pelo arvoredo mudo,
Como um choro de prata algente o luar escorre.
E sereno, feliz, no maternal regaço
Da terra, sob a paz estrelada do espaço,
Fernão Dias Paes Leme os olhos cerra. E morre.


Mas o que vem a ser isto — o poema? Como discernir entre a versalhada rica em idéias, em tropos, em imagens, em rimas... e em boas intenções — do vero, do belo, do grande poema, da obra-prima poética?
É possível — e é fácil — medir a intensidade luminosa de uma estrela; mas que instrumento havemos para medir a intensidade da luz que emana do poema?
O poema é ou pode ser feito de qualquer coisa. “Tudo cabe no poema.” Mas o que importa não é a soma das partes que compõem esse todo. O que importa é o fruto da relação entre elas, é o equilíbrio — ou desequilíbrio! como na música entram harmonia e dissonância —, a fulguração áurea que as partes, isoladas, podem até não prefigurar, é esse quid, esse impalpável, essa fugidia razão, essa tensão alquímica que as transmuta em algo mais que uma operação aritmétrica, um objeto de beleza (a thing of beauty). O ser do poema implica tudo que se possa pôr nele, mas é, em verdade, de natureza estética. Entram nele ingredientes talvez indispensáveis, como o bom, o verdadeiro, quem sabe o que mais, mas a luz-síntese é estética, ou poema não há. (Em verdade, até o feio pode entrar na composição do Belo.) Mede-se isso? Como?
Elejo como princípio poético a máxima popular: “O que não mata engorda.” Isto é, o que não sobra no poema (ou do poema) o engrandece; ou pelo menos contribui para “engrossar o caldo”, para o seu arredondamento, para o seu aperfeiçoamento. E o que não sobra é o que se transforma em Beleza — naquilo que entendemos por Belo, e que é sempre elevado. A ressalva é necessária porque é esse um conceito muito subjetivo, e porque há quem ponha em suas alturas o simplesmente bonito. O bonito é o rés-do-chão da Beleza.

Bilac, assim como Coelho Neto, foi duramente criticado pelo Modernismo nascente. Pudera, celebrados como eram, formavam perfeitos alvos para a contestação, a insurgência. O primeiro não resistiu às investidas. Sua reputação jamais se recuperou totalmente. Bilac, arrasado por Mário de Andrade (nos termos que veremos adiante), era-lhe ao mesmo tempo objeto de veneração... Bilac sobreviveu no gosto popular, o que se reflete nas inúmeras reedições. Nos dias de hoje, não sei o que dizer. Os avanços de uma tecnologia universal, invasiva, afastam o homem da meditação, do silêncio — da poesia.
Sobre sua importância para nós, recolho palavras de um depoimento recente, de Fabio de Sousa Coutinho, em palestra no PEN Clube do Brasil, intitulada Muito Além do Parnaso: foi ele “.... um dos mais verdadeiramente imortais entre todos os poetas e escritores brasileiros. Bilac não foi só um poeta de seu tempo. Foi um poeta de todos os tempos.”
Num país de grandes poetas, foi grande, em que pese a mentalidade colonial de pensadores nossos incapazes de ver o que temos de original e de magnificamente realizado; a crítica superou a condenação modernista, mas assumiu, freqüentemente, um viés de condescendência que não faz jus ao seu porte; antes e depois da Semana, quase sempre esteve aquém de sua grandeza.
Opiniões menos calorosas encontramos em Sílvio Romero, José Veríssimo, Nelson Werneck Sodré (incompreensão extrema), Sérgio Milliet, Alfredo Bosi. Nestor Vítor, que, juntamente com João do Rio, Mário de Andrade, Humberto de Campos, Agripino Grieco, Manuel Bandeira e Ivan Junqueira, é transcrito na edição da Obra Reunida da Nova Aguilar (Rio, 1996; organização e introdução do poeta e ensaísta Alexei Bueno), chega a aparentar um tom de benevolência... De Grieco, tão ardente admirador de Castro Alves, com cuja cornucópia verbal se aparenta o Bilac dO Caçador de Esmeraldas, esperaríamos comentário menos comedido.
Mesquinhas opiniões. Prefiro a dos admiradores de mente e coração abertos:

Jackson de Figueiredo — “A figura de Olavo Bilac surge, em meio de nossa ansiedade poética, como a mais completa que, até hoje, temos tido, depois de Castro Alves... É o gênio da plasticidade, que já nos pertence integralmente. Impõe-se aos nossos ouvidos, à nossa memória, ao nosso coração, ao nosso espírito.” (Afirmações, Centro Dom Vital, Rio, 1924, pp. 45-68.)

Alceu Amoroso Lima — “Ficara muito atrás, na aurora da sua vida literária, o espoucar dos seus primeiros e sensacionais sonetos, que fizeram delirar a sua geração, com a ardente e paradoxal fusão do tropicalismo e do helenismo parnasiano. Com o correr dos anos, a musa se foi interiorizando, tornando-se menos chama e mais pensamento, menos forma exterior e mais fundo, menos brilho e mais interiorização. .... Bilac, desde 1907, previu esse novo destino do homem de letras, de descer de sua torre de marfim, para vir pugnar entre os homens, na luta perene entre o Bem e o Mal, entre o espírito de fé e o espírito de negação. .... homem que nos legou, sem dúvida, a mais bela lição de amor à Beleza e de culto ao Dever, conjugados em sua obra e em sua vida.” (Cit.)

Afrânio Peixoto — “Nunca, em nossa língua, em mais belos versos foram ditas e proclamadas expressões de amor, não amor subjetivo, mas amor real, amado, do que em Bilac.” (Apud Amoroso Lima, ob. cit.)

Ivan Junqueira — Das melhores coisas que se escreveram sobre o Poeta é o ensaio “Bilac: Versemaker” (O Encantador de Serpentes, Alhambra, Rio, 1987). Falando sobre o “nunca assaz louvado, conquanto não de todo compreendido, ‘O Caçador de esmeraldas’”, diz que, na cena do delírio, consegue o Poeta “um verdadeiro sacre du vert, e os alexandrinos que o sustentam talvez só não sejam modernos por serem alexandrinos”. E pontifica, seguro: “Que importa? São versos. Versos esplêndidos como apenas ele e mais uns poucos souberam fazer. Ele, o fabbro, o fabricateur, o versemaker.” Noutra passagem, diz ter sido ele “o criador de alguns dos mais plásticos e coloridos versos jamais escritos em língua portuguesa”.

Mário de Andrade — Excluídas as restrições, ditadas, diria, pela posição de liderança de um movimento renovador das letras, nosso extraordinário polígrafo escreveu o maior, o mais abrangente (e correto) panegírico de Bilac.
A página de Mário sobre o Poeta é um misto de extremado amor e impulso iconoclasta que beira a insânia. Sua crítica entremeia um discurso laudatório de numerosos alanceamentos desprezivos. Transita do mais alto e bem fundamentado elogio à mais desrefinada objeção — como uma empresa de guerra, pela obrigação de destruir o ídolo, atrevo-me a sugerir. Tarefa razoavelmente fácil, já que na humana seara não há trigal sem joio. Comparo essa página, ela mesma, a um campo de trigo infestado da praga. Arrancada esta, resta uma celebração extremosa, de tudo o quê dou um apanhado.
Começa dizendo que Bilac é “um dos bons poetas brasileiros”, mas não “dos maiores”. E segue: “Bilac entusiasmou-me; atrai-me ainda... Não me prende, porque raro me comove. Mas não sei bem por que não me comove. Talvez a excessiva perfeição. Talvez. Acho mesmo que é isso.” Vem depois uma gangorra sistólico-diastólica de exaltados elogios e ásperas censuras. Elejo para transcrição, apenas, alguns dentre os primeiros, considerando-os bastantes para postar o Poeta nos pináculos do Panteon da Poesia:
“.... que técnica formidável! Não é preciso buscar mais o século XVIII italiano para se compreender o prestígio que exerce sobre as turbas e mesmo sobre a ‘gente boa’ um ‘virtuose’ perfeitamente habilitado. Inteligentíssimo, estudioso, paciente, o tapeceiro de ‘As viagens’ adquiriu uma facilidade, uma segurança, uma perfeição tal no manejo do alexandrino, e mesmo de outros metros, que confina com a genialidade. Se quiserem: Bilac é o malabarista mais genial do verso português. Outro nenhum existe que se lhe compare na língua; e mesmo fora desta, poucos emparelhariam com ele nas línguas que sei. Um há que o supera, um apenas: Victor Hugo. Note-se que falo da perfeição técnica no manejo de metros conhecidos. ....
“‘O caçador de esmeraldas’ é sob esse aspecto o esplendor dos esplendores. Que realização integral da Beleza! Fascina e deslumbra. Mas seria injustiça consagrar o poemeto só como realização do Belo. Na fala sobrenatural que consola a morte de Fernão Dias, há mesmo uma comoção ondulante, uma frescura impetuosa de mar ....
Sinto que o sonetista admirável da ‘Via Láctea’ devia ter amado, e muito, para escrever esses fortes e comoventes decassílabos. E há no poemeto uma grande originalidade. É todo perfumado por uma alegria sã, por uma jovialidade transparente, natural, comunicativa. ....
Há no livro que analisei [Tarde] alguns poemas admiráveis. Fora injustiça passar em silêncio essa verdade. Não só pela perfeição técnica, valem eles; mas pela idéia também. Assim ‘Ciclo’, ‘Língua portuguesa’, ‘Dualismo’, ‘Respostas na sombra’ (talvez pela maneira com que o ouvia recitar numas reuniões dominicais de que me não esqueço), ‘A um poeta’ e o formidável ‘O cometa’.
Quando devorei Tarde pela primeira vez, o meu pensamento parou estarrecido (não sei se me compreendem) diante destes versos:

Um cometa passava... Em luz, na penedia,
Na erva, no inseto, em tudo uma alma rebrilhava;
Entregava-se ao sol a terra, como escrava;
Ferviam sangue e seiva. E o cometa fugia...

Assolavam a terra o terremoto, a lava,
A água, o ciclone, a guerra, a fome, a epidemia;
Mas renascia o amor, o orgulho revivia,
Passavam religiões... e o cometa passava,

E fugia, riçando a ígnea cauda flava...
Fenecia uma raça; a solidão bravia
Povoava-se outra vez. E o cometa voltava...

Escoava-se o tropel das eras, dia a dia:
E tudo, desde a pedra ao homem, proclamava
A sua eternidade! E o cometa sorria...


Reli. Tornei a ler. Creio mesmo que treli. Qual! não compreendia! Que diabo! Olavo fizera simbolismo! ou coisa que o valha? Não podia ser! Reli. Qual! não entendia! Senti que me pesava a minha alma parnasiana! Joguei-a fora. Eureca! Esplendor! Fecundação! As palavras brilhavam como vidas. As idéias palpitavam como profecias.”
(Excertos de “Mestres do Passado – IV: Olavo Bilac”, in Obra Reunida cit., pp. 37-46.)

A beleza que percorre a obra poética bilaquiana já foi convincentemente exemplificada. Mas ainda com uma composição gostaria de ilustrá-la, o soneto “Nel Mezzo del Camin...”, das Sarças de Fogo, com o título dantesco, a construção quiásmica do quarteto inicial, o enjambement em que o autor era mestre, no segundo, a superação de um lugar-comum nos tercetos de fecho de ouro, o conjunto aureamente impactante de musicalidade e lirismo. Era também da especial predileção de nosso saudoso Miketen, Antônio Roberval Miketen, que em torno dele construiu o ensaio crítico “Bilac — o Poeta da Estruturação” (Enigma e Realidade, Thesaurus, Brasília, 1983, pp. 21-35):

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que o teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.


Não faltam observadores que enxergam na poesia de Bilac uma planície em que não sobressai sequer uma colina erguida por preocupações de natureza filosófica, lato sensu. Não veem bem. Na fase anterior a Tarde, sim, predominam largamente o narrativo, o descritivo, o épico, o lírico, o erótico; nesse livro, entretanto, principalmente nos poemas derradeiros, o relevo ganha elevações desse tipo. E são exemplares magníficos. Não vamos fazer o levantamento orográfico, mas gostaria de exemplificar a dúvida e a esperança metafísicas com dois desses sonetos.
A dúvida, vejo-a embutida na ironia que perpassa os versos de “O Cometa”, lido há pouco, na citação de Mário de Andrade. Um de seus mais gloriosos píncaros. Para a esperança, hesito entre o heróico de “Os Sinos” ou de “Sinfonia” e o também vibrante “Introibo!”, pelo qual acabo me inclinando, por me parecer que, afinal, transita da aspiração para a fé:

Sinto às vezes, à noite, o invisível cortejo
De outras vidas, num caos de clarões e gemidos:
Vago tropel, voejar confuso, hálito e beijo
De cousas sem figura e seres escondidos...

Miserável, percebo, em tortura e desejo,
Um perfume, um sabor, um tato incompreendidos,
E vozes que não ouço, e cores que não vejo,
Um mundo superior aos meus cinco sentidos.

Ardo, aspiro, por ver, por saber, longe, acima,
Fora de mim, além da dúvida e do espanto!
E na sideração, que, um dia, me redima,

Liberto flutuarei, feliz, no seio etéreo,
E, ó Morte, rolarei no teu piedoso manto,
Para o deslumbramento augusto do mistério!

E seja esse o ponto final de minha evocação do venerando mestre.

                                                              Brasília, outubro-novembro de 2018

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

BIOBIBLIOGRAFIA DE OLAVO BILAC



Por Francisco José dos Santos Braga


OLAVO Brás Martins dos Guimarães BILAC (Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865 — 28 de dezembro de 1918) foi um jornalista, tradutor, contista, cronista e poeta brasileiro. Foi como poeta que Bilac se imortalizou. Juntamente com Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, – constituindo a chamada Tríade Parnasiana, – foi a maior liderança e expressão do Parnasianismo no Brasil. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 15 da instituição, cujo patrono é Gonçalves Dias. 

Em 1888, a publicação de Poesias rendeu-lhe a consagração. Eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros pela revista Fon-Fon em 1913, no concurso lançado em 1º de março de 1913, sua popularidade aumentou e seus poemas foram cada vez mais apreciados entre seus leitores. Alguns anos mais tarde, os poetas parnasianos seriam o principal alvo do Modernismo. Apesar da reação modernista contra a sua poesia, Olavo Bilac tem lugar de destaque na literatura brasileira, como dos mais típicos e perfeitos dentro do Parnasianismo brasileiro. Foi notável conferencista, numa época de moda das conferências no Rio de Janeiro, e produziu também contos e crônicas.

Bilac foi autor de diversos livros 
1) individuais
Poesias, dividido em três partes: Panóplias, Via Láctea e Sarças de Fogo (1888), Crônicas e Novelas (prosa, 1894), Contos para Velhos (1897, sob o pseudônimo de Bob), Alma Inquieta (poesias, 1902), As Viagens (poesias, 1902), Crítica e Fantasia (prosa, 1904), Poesias Infantis (1904), Juca e Chico (tradutor das famosas travessuras de “Max und Moritz” de Wilhelm Busch, do alemão para o português, 1906), Conferências Literárias (1906), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade (crônicas, 1916), A Defesa Nacional (1917), Tarde (poesias, 1919, publicação póstuma organizada por Alceu Amoroso Lima), Últimas Conferências e Discursos (1924, publicação póstuma);

2) em colaboração
Pimentões (1897, com Guimarães Passos), A Terra Fluminense (1898, com Coelho Neto), Lira Acaciana (1900, com Alberto de Oliveira e Pedro Tavares Jr.), Livro de Leitura (1901, com Manuel Bonfim), Contos Pátrios (1894, com Coelho Neto), Livro de Composição (1899, com Manuel Bomfim), Guide des États Unis du Brésil (1904, com Guimarães Passos e Souza Bandeira), Tratado de Versificação (1910, com Guimarães Passos), Teatro Infantil (1905, com Coelho Neto), A Pátria Brasileira (1909, com Coelho Neto), Através do Brasil (1910, com Manuel Bonfim), Lições de História do Brasil (1918, com Macedo), para mencionar apenas os mais conhecidos. O sr. Eloy Pontes organizou e publicou (Rio de Janeiro: Casa Mandarino, 1940) “Olavo Bilac, Bom Humor”, uma coletânea de trabalhos humorísticos do grande poeta, recolhidos de suas numerosas colaborações em folhas do Rio e de São Paulo. 

Prestou colaboração em várias publicações periódicas. Cabe aqui mencionar pelo menos as seguintes revistas: A Imprensa (1885-1891), A Leitura (1894-1896), Branco e Negro (1896-1898), Brasil-Portugal (1899-1914), Kosmos (1904-1909), Azulejos (1907-1909) e Atlântida (1915-1920). 

Com referência a viagens feitas ao exterior por Bilac, [DIMAS, 1999, 174-189] ¹ começa assim seu artigo intitulado "Bilac em Lisboa": “Ainda está por ser feito um trabalho minucioso sobre as viagens constantes de Bilac (1865-1918) à Europa e a Portugal, em particular”. Segundo o articulista, em 1890, ao atravessar o Atlântico pela primeira vez, Bilac gozou da ventura de apertar a mão de Eça de Queirós, numa fria noite de dezembro de 1890. Sobre a segunda viagem à Europa (cuja data o autor não especifica),  informa que Raymundo de Magalhães Júnior, biógrafo de Bilac, destaca apenas, no que se refere à escala em Lisboa, o interesse do parnasiano em negociar a publicação de seu terceiro livro de prosa, Crítica e Fantasia, cuja primeira edição acabou saindo pela Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, de Lisboa, ainda em 1904. Mais de dez anos depois, em plena Primeira Grande Guerra, Bilac ainda volta ao continente europeu, duas vezes: em 1914 e 1916. Com referência a esta última viagem, entre tantas entrevistas concedidas a periódicos lisboetas, assim que desembarca na capital portuguesa, proveniente de Paris, destaca trechos de uma delas, concedida ao jornal A Capital, em 26 de março de 1916, nos quais ficam patentes sua latinofilia e a defesa da nacionalidade brasileira, sobretudo a dos nossos estados meridionais, posta em questão por causa de sua farta população de imigrantes de origem germânica. [DIMAS, 1999, 183] registra que "armado dessa argumentação pedagógico-castrense, Bilac entra numa Lisboa que, cerca de vinte dias antes, havia declarado guerra ao adversário alemão e que, portanto, estava ávida para ser confirmada, legitimada e reconhecida em sua beligerância, sobretudo se esse reconhecimento viesse de um intelectual, de um poeta da mesma língua e da mesma extração cultural. A fusão do político e do ideológico com o poético não poderia ter ocorrido em momento mais que adequado. No congraçamento dessas esferas, intercambiavam-se prestígios específicos, em benefício de ambos os lados, como bem se pode avaliar a partir desta nota da redação da revista Atlântida
“Durante a sua recente permanência em Lisboa, Olavo Bilac foi alvo das mais significativas homenagens de admiração e carinho por parte de todas as classes sociais. O chefe do Estado quis ter a honra de o sentar à sua mesa, oferecendo-lhe um jantar íntimo em que foram igualmente convivas algumas ilustres personalidades literárias e o diretor da Atlântida, dr. João de Barros. Domingo, 26 de março, realizou-se em honra do presidente da República uma grandiosa manifestação popular, a propósito da entrada de Portugal na guerra europeia. O cortejo, composto de muitos milhares de pessoas, foi desfilar perante o edifício da câmara municipal, em cuja varanda estava o dr. Bernardino Machado, os membros do go- verno e os ministros das nações aliadas. Pouco antes, passara em frente do Avenida Palace e como a multidão descortinasse a uma das janelas Olavo Bilac, que presenciava o desfile, ergueram-se de todas as bocas, frementes de entusiasmo, vivas calorosos ao Brasil, à República irmã e ao seu grande poeta. Foram alguns minutos de inolvidável comoção. As salvas de palmas estrugiram, os chapéus e os lenços agitaram-se no ar, todos pararam voltados para Bilac surpreendido com aquela admirável demonstração de afeto à sua gloriosa pátria. O eminente lírico agradeceu profundamente sensibilizado, erguendo um Viva a Portugal. No dia 28, três do jornais noturnos de Lisboa, A Capital, O Século e A Opinião, inseriam interessantes entrevistas com Olavo Bilac acerca da atitude do Brasil em face da presente situação internacional.” [Atlântida (Lisboa), no 6, 15 abr. 1916]. 

Como se vê, a notoriedade de Bilac entre os portugueses foi muito semelhante à de um popstar. O Jardim Olavo Bilac, também conhecido por Jardim do Largo das Necessidades, é um jardim da cidade de Lisboa. Foi construído em 1747 e seu projeto atribuído ao arquiteto Manuel Caetano de Souza. O Jardim possui um parque infantil e um chafariz (Chafariz das Necessidades) e está situado em frente ao Palácio das Necessidades.



NOTAS  EXPLICATIVAS


¹ DIMAS, Antonio: Bilac em Lisboa, São Paulo: revista Via Atlântica (USP), nº 2, jun/1999, p. 174-189 

FLORENÇA



Por Olavo Bilac



Não foi a Florença de agora que eu vi e amei, em uma certa noite tepida e silenciosa de junho, a deshoras, quando já a treva e o somno tinham dominado os palacios e os casebres da velha cidade toscana: foi, sim, a Florença veneranda dos tres seculos sagrados, durante os quaes a alma humana resuscitou do tumulo da idade-media, — cyclo prodigioso, que começou com o nascimento de Dante e acabou com a morte de Miguel Angelo, em 1563, precisamente no anno em que Shakespeare nascia.


Havia seis dias que eu andava, num arroubo encantado, com todos os nervos vibrando, correndo Florença, fartando os olhos na contemplação dos thesouros de arte d'essa cidade maravilhosa, que tem, para a minha alma de homem moderno, um encanto incomparavelmente maior do que o de Roma.


Berço e sacrario da Renascença, nucleo gerador de onde irradiou para toda a Europa a salvação do espirito latino depois da longa syncope, Florença tinha captivado o meu coração pela sua triste magestade de deusa decahida, mas adorada por toda a humanidade, encerrada com os seus palácios e os seus museus numa atmosphera de soberano respeito e de supremo culto.


Nessa noite, à hora em que, na praça Vittorio-Emanuele, depois da serata de musica, se fechavam os cafés, eu quiz, antes de dormir, rever ao luar o Persêo de Benevenuto Cellini. Cheguei, pela via degli Speziali, à via dei Calzajoli, passei à pressa pela igreja de Or San Michele e pelo oratorio de S. Carlo Borromeu, e fui ter à Piazza della Signoria, banhada no clarão suave do plenilunio, deserta e muda, fechada ao fundo pelo vulto immenso do Palazzo-Vecchio.


A torre altissima do Paço dos Medicis nadava em plena luz, projectando no chão uma larga toalha de sombra, que se estendia, como um tapete negro, à entrada da Loggia dei Lanzi. Na grande fonte de pedra, no centro da praça, a agua cantava de manso; ao luar, Neptuno e os tritões offegavam, no silencio da noite; e, mais longe, o grande Cosme, modelado e fundido por João de Bolonha, parecia agitar-se sobre o seu cavallo de bronze.


Na Loggia dei Lanzi, — naquelle assombroso museu ao ar livre, — dois mendigos dormiam sobre as lages, ao abrigo das altas arcarias rendadas. Na arcaria da esquerda, quasi encostado ao Persêo, estava ainda o grande quadro, cheio de algarismos, em que se annunciára o resultado do loto d'aquelle dia. E no chão, sobre os degráos, havia os residuos do mercado volante, — vestigios da passagem dos vendedores de frutas e refrescos, que alli se recolhem à tarde, do calor do sol.


Mas nem de leve me irritou ou magoou essa profanação. Havia até um certo encanto no espectaculo da pobreza, do vicio, da vida de hoje, no meio daquelle scenario de 1500, — no logar em que os fidalgos da côrte de Lourenço de Medicis iam esperar todas as manhãs a honra de ser chamados à presença d' O Magnifico.


E que importavam esses signaes da vida de hoje? O luar, com o seu prestigio feiticeiro, acordava alli as epochas mortas; e a Florença, que eu estava admirando e amando, era a Florença rica e artista, alegre e bellicosa, peccadora e atrevida, cuja fama o grande Dante, seu divino filho, até foi encontrar no Inferno, depois de a ter encontrado na terra e no mar:


Godi, Firenze, poi che sei si grande,

Che per mar e per terra batti l’ali,

E per lo inferno il tuo nome si spande...» ¹


Dentro da Loggia dei Lanzi, havia faixas do clarão da lua, prateando a juba dos dois leões da escadaria, lambendo o collo de marmore da Polyxena de Pio Fedi, acariciando a face de bronze da Judith do Donatello.


O Persêo de Cellini, — esse, plantado à frente da Loggia, recebia em chapa todo o banho de prata fluida; e nunca me pareceu tão bello o jovem deus victorioso, com o corpo esbelto empinado ao céo, retesando os musculos bronzeos em resalto, erguendo no punho esquerdo a cabeça da Meduza vencida; — sob a pressão do pé de Persêo, o corpo da gorgona arfava no estertor da agonia; e, no ar, numa revolta impotente, emmaranhavam-se e remordiam-se, rabeando, as serpentes da cabelleira do monstro... 

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Persêo de Benevenuto Cellini, em Florença
Foi de junto do grupo do Persêo, que, abrangendo com o olhar a Piazza della Signoria, evoquei a grandeza material e moral da Florença antiga. 
"Loggia dei Lanzi" na "Piazza della Signoria", em Florença
Esta praça, coração da republica, coração da antiga Signoria, e coração da autocracia dos Medicis, foi o scenario em que se concentrou, de 1200 a 1600, todo o drama da Renascença: aqui se encontravam, em pelejas sangrentas, os guelfos e os gibelinos, «os brancos e os negros»; por aqui passeou Dante, taciturno e sonhador, o seu orgulho de deus exilado na terra; aqui foi queimado Savonarola; este chão foi calcado pelos pés de Miguel Angelo, de Boccacio, de Machiavel, de Giotto, de Fra Angelico, de Benevenuto Cellini...


A poucos passos d'aqui, no fim da escura via Magazzini, ainda se levanta a fina e alta casa dos Alighieri, onde nasceu o sombrio florentino, o creador immortal da lingua italiana. Este era o caminho inevitavel para as margens do Arno, onde Dante, ainda menino, ia folgar. Foi talvez aqui, nesta praça, onde se reuniam os comicios da republica, onde se travavam batalhas e torneios poeticos, onde se combinavam negocios e amores, — que o divino poeta, infante de nove annos, viu pela primeira vez a sua pequenina Bice, «envolvida numa leve tunica vermelha»; foi ainda aqui, talvez, que, mais tarde, ella, — d'esta vez toda vestida de branco, — lhe dirigiu a primeira saudação, «erguendo a sua alma ao limite mais alto da beatitude»; e foi de certo aqui que o melancolico devassador do Inferno imaginou e compôz, antes de ir chorar no exilio as desgraças de Florença, o ingenuo romance da Vita Nuova, em que os commentadores (quasi sempre tão traidores como os traductores) teem querido ver tantas complicações de symbolismo politico...


O que deve ter soffrido, aqui, aquella nobre alma altiva e grave, tão pouco dada aos prazeres do mundo! Florença, no tempo de Dante, era uma cidade de commercio e de prazer. A sua riqueza era collossal; davam-lhe o titulo de «Fonte de Ouro»: e era nas suas arcas que os príncipes christãos e mahometanos iam procurar, por emprestimo, os florins, com  que sustentavam as suas guerras. Esses commerciantes eram letrados e artistas: não raro, nos seus livros de escripturação mercantil, havia, ao lado dos algarismos, trechos de Tito Livio e Sallustio. 0 povo, nos intervallos das guerras, vivia, pelas ruas, cantando e dançando. Essa riqueza, essa futilidade, essa alegria irritavam a melancolia de Dante: certa vez, no meio do tumulto de uma festa popular, viram aquelle adolescente sem mocidade passar doze horas estudando, entre a algazarra e o tropel do povo, sem levantar os olhos do livro.


Mas, quando a derrota dos guelfos o obrigou a partir de Florença, — Dante ficou aqui, em espirito, vagando entre estes palacios, amando a sua cidade de flores. Elle mesmo o disse: «florentino, não nos costumes, mas no coração...» E eil-o ainda aqui está, depois de seis seculos, povoando com a sua grande gloria a Piazza della Signoria: não será o seu espirito errante, — aquelle vulto que alli vae, escuro e indeciso na alvura do luar, beirando o muro do Palazzo Vecchio, entrando o apertado becco que leva ao Palazzo degli Uffizi ... 
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David de Miguel Angelo, em Florença
Mais de um seculo depois, andava por aqui Miguel Angelo, ainda moço, amado e protegido pelo Magnifico. Por aquella baixa porta do Palazzo Vecchio, como esmagada pelo peso da alta móle de pedra, — entrou e sahiu muita vez, ainda modesto, ainda quasi inconsciente do seu genio, o maior artista que jamais trabalhou sobre a terra. Miguel Angelo era ainda uma creança, quando Lourenço, o Magnifico, lhe deu a mão protectora. E Florença veio a ter a gloria de possuir o primeiro trabalho definitivo do estatuario prodigioso, — esse incomparavel David, que esteve até 1873 erguido à porta do Paço dos Medicis, a dois passos da Loggia dei Lanzi, e que hoje, na Sala da Cupola da Academia de Florença, como na abside de um templo, irradia e deslumbra, symbolo palpitante da Força, da Mocidade e da Belleza...


O David foi tirado de um immenso blóco irregular de marmore, que nenhum esculptor ousára ainda atacar. Buonarotti, que devia morrer com oitenta e nove annos de idade em plena pujança de talento, contava apenas vinte e seis annos, quando communicou à frieza d'essa pedra bruta o ardor do seu genio, para a transformar na figura do jovem pastor de Bethlém, rei e propheta, Hercules hebreu, vencedor de gigantes.


Mas essa estatua não é sòmente David: é a representação viva do poder criador de Miguel Angelo. Moysés é Miguel Angelo, na virilidade, austero e grandioso, repousando do trabalho prodigioso da creação de mundos de arte; mas David é Miguel Angelo moço, na primavera do genio, turgido de seiva fecunda.


Robusto e leve, dando à luz o corpo desnudado, em cujas formas canta e sorri a graça forte da juventude; aprumando a cabeça formosa, em cuja expressão a fé e o desafio se misturam; pisando a terra com a firmeza e a serenidade de um deus, — o David é Buonarotti partindo para a conquista da gloria e da Immortalidade.

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Aqui, na Piazza della Signoria, Miguel Angelo reatou, no seculo XV, o grande sonho estrellado de Dante, no seculo XIII. Essas duas almas, de extensão infinita e de infinita força, aqui se entenderam e completaram, atravez de duzentos annos de distancia. Os pés de Buonarotti encontraram, neste chão venerando, os vestígios dos pés de Alighieri. Ambos arrastaram por aqui as suas esperanças, os seus amores da primeira idade.


E, ao miral-a, serenamente adormecida à caricia do luar, de sob o portico toscano da Loggia, de junto do Persêo de Cellini,— cuido ver a Piazza acordar pouco a pouco, e pouco a pouco povoar-se de fantasmas.


Alli vão os gonfaloneiros da Republica, com as insignias levantadas, a caminho da guerra; alli vae o carroccio monumental, alcatifado de purpura, conduzindo as armas da communa; e eis ahi veem os guerreiros em triumpho, debaixo dos baldaquinos de ouro; e homens e mulheres dançam e cantam, celebrando o amor e a paz.


Depois, vejo Dante parado, em extase, petrificado pela admiração devota, contemplando Bice, que passa ao longe, entre as suas aias solicitas.


E alli está Giotto, concebendo, a um tempo, a imagem de "S. Francisco de Assis recebendo os estygmas" e o plano das fortificações de Florença.


Depois, vejo arder a fogueira de Savonarola; e vejo a praça encher-se de cadaveres, e a multidão que chora, e a peste devastando a cidade; e, entre lagrimas e vociferações, Boccacio, risonho e bello, imaginando o proemio do Decameron

Depois, à frente dos cortezãos, alli vem o Magnifico, naquella attitude de "pensieroso", que Miguel Angelo lhe deu, sobre o seu tumulo da Sagrestia Nuova. E, adiante, aponta Benevenuto Cellini, entre os seus companheiros de briga e aventura, espadachim e artista, immoral e seductor, como o symbolo de uma epocha em que as guerras se faziam em risos, e em que a Arte, flôr divina, brotava do sangue e da lama... 

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DUOMO, um dos ícones de Florença, constituído da Catedral de Santa Maria del Fiore, do Batistério, do Museu dell'Opera, do campanário de Giotto e da cúpula de Brunelleschi

Mas, ao longe, o grande sino do Duomo badala dois abafados lamentos... 

Os meus olhos beijam ainda uma vez o scenario da Renascença, — e, atravessando a claridade do luar, vou, levando commigo, para a vida real, para a triste agitação da minha vida de homem de hoje, o suave consolo de ter podido comprehender e amar, em uma hora de sonho, toda a grandeza d'este cemitério de glorias, que é Florença... 


Rio, 16 — Dezembro — 1904.



Observação: Estas belas páginas florentinas de Olavo Bilac foram publicadas no periódico Kosmos, no número de dezembro de 1904, donde as retomaram, doze anos após, seu livro de crônicas "Ironia e Piedade" (Rio de Janeiro: Francisco Alves) e, trinta anos depois, a Revista da Academia Brasileira de Letras (Ano XX, nº 148, pp. 462-468. Rio de Janeiro, 1934). Aqui foi mantida a grafia original do texto de Olavo Bilac da forma como apareceu no periódico Kosmos.



NOTA  EXPLICATIVA



¹  Reprimenda a Florença – versos 1-3

Aproveita, Florença, já que és tão grande

que por mar e por terra bates as asas,

e pelo inferno teu nome se expande!

O canto começa com uma acusação contra Florença que se une tematicamente ao canto anterior (VII), onde Dante havia encontrado cinco ladrões justamente florentinos: com ironia, nota como Florença é conhecida em toda a terra (metaforicamente, "bate as asas", citando uma inscrição no Palácio de Bargello de 1255). De fato, Francesco Buti comentou a propósito: "foram então os florentinos que estavam muito dispersos fora de Florença por diversas partes do mundo, e estavam no mar e em terra, dos quais talvez os florentinos não se orgulhassem". Também no Inferno o nome de Florença se expande, tendo Dante se envergonhado por ter encontrado cinco concidadãos entre os ladrões, que obviamente não levam honra à sua cidade. (tradução livre por Francisco José dos Santos Braga, gerente do blog)



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quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Colaborador: JOSÉ LOURENÇO PARREIRA













O livro “Forte de Coimbra: uma Fortaleza no Pantanal”, editado pelo CMO-Comando Militar do Oeste, contendo 10 capítulos, sendo o Capítulo 10 da autoria do Capitão José Lourenço Parreira (ex-integrante do Forte 1974/1978 e provedor da bissecular Irmandade de N. S. do Carmo) com o título Nossa Senhora do Carmo e os Militares (p. 104-121). O autor, nesse capítulo, aborda os seguintes subtítulos: 
1) Imagem Histórica 
2) Como surgiu a devoção à Virgem de Carmo 
3) O escapulário de N. S. do Carmo na Vila Militar do Rio de Janeiro 
4) O escapulário e Ricardo Franco 
5) A história que edifica: Nossa Senhora é a saúde dos enfermos, consoladora dos aflitos, a rainha da paz 
6) Primeira Jornada cultural no Forte de Coimbra e a mão poderosa e invisível de N. S. do Carmo. 

A obra é importantíssima porque resgata a história do Forte de Coimbra, o qual exerceu posição militar relevante na manutenção do território brasileiro. Esse livro trata da tradição que envolve essa singular fortaleza, com diversos capítulos abordando aspectos históricos, geográficos, econômicos, culturais, religiosos e militares relacionados ao Forte de Coimbra e tem como autores o Coronel Francisco José Mineiro Júnior, professor do Colégio Militar, o professor e historiador Hildebrando Campestrini, a professora Maria Teresa Garritano Dourado, o advogado e historiador Luiz Eduardo Silva Parreira, o atual comandante da 3ª Companhia de Fronteira, sediada no Forte de Coimbra, major de Infantaria Airton Hilberto Corrêa, o próprio Coronel Valdenir de Freitas, o Capitão José Lourenço Parreira, além dos historiadores Natália Leal da Silva e Divaldo Rocha Sampaio. 

O Dr. Luiz Eduardo Silva Parreira, advogado, pesquisador de polemologia, responsável pelo site http://www.polemologia.blogspot.com, é filho do Capitão José Lourenço Parreira e autor do Capítulo 5 (p. 56-61) do livro supracitado. 

DIA DE SANTA CECÍLIA


Por José Lourenço Parreira


O dia 22 de novembro é dia do músico, da música, de sua Padroeira: Santa Cecília. Cecília viveu em Roma, nos primórdios do cristianismo. Bela jovem católica foi entregue, contra sua vontade, em matrimônio ao pagão Valeriano. No entanto, Cecília o converteu. Ambos foram martirizados. Cecília foi decapitada; no entanto, seu corpo está incorrupto num sarcófago nas catacumbas de São Calixto. 

Nos anos 1982, no Rio de Janeiro, Vila Militar, ocorria bela cerimônia em honra da mártir Santa Cecília e em homenagem aos músicos. 

À frente da Banda de Música do Regimento Sampaio estava o Capitão Músico Benigno Parreira, meu querido irmão. 

Com apoio de seus superiores, no dia de hoje, havia a celebração da Santa Missa, abrilhantada pelo Coral do Regimento Sampaio que fora criado pelo Capitão Parreira. Após a Santa Missa, na Avenida diante da Divisão de Exército, a tradicional Divisão Mascarenhas de Moraes, havia apresentação artística por cada uma das Bandas de Música convidadas para o evento: Bandas de Músicas do Exército, da Marinha, da Polícia Militar, da Força Aérea, dos Bombeiros. 

A cerimônia tinha o seu clímax com o desfile monumental. Tendo à frente o Capitão Parreira, desfilavam em honra à Padroeira dos Músicos e em continência ao General Comandante da Divisão de Exército, 700 músicos militares! 

Fantástico espetáculo artístico-castrense, único na História do Brasil! 

Benigno Parreira, atualmente, é o Maestro Honorário da Orquestra Lira Sanjoanense, fundada em 1776. 

Sala de Ensaios Maestro Benigno Parreira, na sede da Orquestra Lira Sanjoanense

A Lira Sanjoanense é a mais antiga orquestra das Américas e segunda mais antiga do mundo, conforme a UNESCO. Seu atual Regente é o Maestro Modesto Fonseca, doutor em Regência, e o jovem violinista Leandro. 

Domingo, dia 18 de novembro, do corrente ano, a Lira apresentou belíssimo Concerto no Teatro Municipal de São João del-Rei. 

Este autor tem a honra de ser violinista-solista da Orquestra Lira Sanjoanense. 

José Lourenço Parreira solando diversas canções comemorativas no Dia da Artilharia com festa regional  do CMO

O General de Exército Raul Silveira de Mello, maior autoridade em Historiografia no século XX, escolheu José Lourenço Parreira para ser o autor da melodia de seu belo poema, a "Canção do Bom Soldado". Referida Canção foi brilhantemente cantada pelo Batalhão Laguna, o 44º Batalhão de Infantaria Motorizado, com sua magistral Banda de Música, com sede em Cuiabá-MT. Atualmente, seu Comandante é o Coronel Nilberti Viana Gramosa.

 MARCHA FÚNEBRE SAUDADES

Há mais de 50 anos, nos anos 50, o jovem Sargento Benigno Parreira compôs a Marcha Fúnebre Saudades, tendo ofertado cópias de sua obra às Bandas de São João del-Rei (Banda do Batalhão, Banda Teodoro de Faria) e às Orquestras Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos. Benigno Parreira também deu cópia de "Saudades" para a Banda da Prefeitura que a tem executado todos os anos.

Da esq. p/ dir.: pianista e compositor Francisco Braga; compositor, regente, clarinetista e dotado de voz privilegiada de baixo profundo, Benigno Parreira; e este autor, violinista José Lourenço Parreira
Sua primeira apresentação universal deu-se num sábado da Quaresma, aquele em que a Irmandade dos Passos realiza o Depósito das Dores, quando a Imagem de Nossa Senhora das Dores é conduzida no andor, velada, da Matriz do Pilar para a Igreja da Venerável Ordem do Carmo. 

Conforme antiga tradição, em procissão, o Depósito das Dores é acompanhado pela Banda de Música Teodoro de Faria que "invariavelmente" executa, nesse traslado, a Marcha das Dores. Não sabemos o porquê, mas nesse ano o Maestro Teófilo Inácio Rodrigues (Sô Tiofo) decidiu quebrar tradição e acompanhou a Imagem de Nossa Senhora das Dores, tocando a Marcha Saudades de autoria de Benigno Parreira! 

Naquele ano, também, ocorreu de a Banda do Batalhão ser convidada para tocar no Depósito das Dores! A Banda do Batalhão tinha à frente o Ten Alberto Wilson de Castro. A Banda ficou na confluência da rua Resende Costa com a Rua Direita, defronte ao belo templo de Nossa Senhora do Carmo. Os sinos do Carmo tocam mais celeremente anunciando que a Procissão do Depósito se aproxima e os irmãos do Carmo saem da Igreja para se encontrarem com a Procissão dos Irmãos dos Passos e, assim, receberem a Imagem que pernoitará na Igreja do Carmo... 

Pois bem, a Rua Direita está tocada pelos acordes da novel Marcha Saudades que ninguém ouvira e, no entanto, tocava a sensibilidade de todos! Eis que, nesse clímax do encontro das duas Irmandades, a Banda do Batalhão estremece o solo, as paredes do casarão, atinge os corações e começa a vibrar, também, a Marcha Saudades de autoria do Sargento Parreira que, emocionado, está tocando a sua clarineta... 

Foi assim, a primeira audição mundial, a primeira vez que Saudades foi executada: no Depósito das Dores, pela Banda Teodoro de Faria que quebrou a tradição e a Banda do Batalhão que, excepcionalmente, naquele ano, foi convidada a tocar no referido Depósito! 

O tempo passou, e, paulatinamente, "Saudades" caiu no gosto dos artistas e do povo fiel! Na quaresma, tanto a Lira como a Ribeiro Bastos tocam Saudades em várias solenidades sacras... Neste ano de 2018, a Ribeiro Bastos tocou "Saudades" em vários dias do Setenário das Dores! A Lira, orquestra do compositor, sempre a toca na Quaresma... 

Observe que Saudades foi executada nos funerais do querido e saudoso Monsenhor Sebastião Raimundo de Paiva e Aluízio José Viegas. Nas exéquias do Aluízio eu estava presente. O féretro saiu da sede da Lira e entrou na Catedral. Quando Modesto Fonseca começou a reger Saudades, eu toquei molhando em lágrimas o meu violino! 

No Domingo do Encontro, virou tradição a Banda do Batalhão tocar na Rasoura do Senhor dos Passos, na Igreja de São Francisco. 

O ilustre historiador e escritor Antônio Gaio Sobrinho escreveu, num seu artigo publicado na GAZETA que a Marcha Saudades de Benigno Parreira equivale a uma bela homilia... *

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Certa vez, estávamos Aluízio Viegas, Benigno Parreira e eu ali atrás da Catedral Basílica de N. S. do Pilar conversando, quando chegou um moço muito educado. Dirigiu-se a Benigno Parreira dizendo-lhe: "Maestro estou fazendo minha Tese de Doutorado e elegi como Tema as Marchas Fúnebres. Poucos são os compositores que compuseram duas Marchas Fúnebres. O senhor é um desses poucos. Descobri, também, que Saudades é a Marcha Fúnebre mais tocada em todo o Estado de Minas Gerais, ao lado da Marcha da Paixão. Como a da Paixão é só na Sexta-Feira, Saudades é a mais tocada..." 

Aluízio José Viegas (⭐︎São João del-Rei, 26/03/1941-✞Nova Lima, 27/07/2015)
Meu irmão, meio surdo, depois me perguntou o que aquele senhor dissera. Falei-lhe e Benigno, a humildade em pessoa, disse: "Engraçado, obra tão simples. Quem será que mandou cópias para outras cidades?" 

O nome do pesquisador, hoje doutor, é Edésio de Lara Melo. Seu trabalho está em pdf na internet. 


* Cf. Divina Música, por Antônio Gaio Sobrinho in https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2018/02/divina-musica.html