sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

POEMAS SELETOS DE OLAVO BILAC


Seleção por Francisco José dos Santos Braga 


(⭐︎ Rio de Janeiro, 16/12/1865-✞ 28/12/1918)



NEL MEZZO DEL CAMIN... 












Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma povoada de sonhos eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Fonte: Poesias, Sarças de fogo, 1888


PLUTÃO 















Negro, com os olhos em brasa,
Bom, fiel e brincalhão,
Era a alegria da casa
O corajoso Plutão.

Fortíssimo, ágil no salto,
Era o terror dos caminhos,
E duas vezes mais alto
Do que seu dono Carlinhos.

Jamais à casa chegara
Nem a sombra de um ladrão;
Pois fazia medo a cara
Do destemido Plutão.

Dormia durante o dia,
Mas, quando a noite chegava,
Junto à porta se estendia,
Montando guarda ficava.

Porém Carlinhos, rolando
Com ele às tontas no chão,
Nunca saía chorando
Mordido pelo Plutão...

Plutão velava-lhe o sono,
Seguia-o quando acordado
O seu pequenino dono
Era todo o seu cuidado.

Um dia caiu doente Carlinhos...
Junto ao colchão
Vivia constantemente
Triste e abatido, o Plutão.

Vieram muitos doutores,
Em vão. Toda a casa aflita,
Era uma casa de dores,
Era uma casa maldita.

Morreu Carlinhos... A um canto,
Gania e ladrava o cão;
E tinha os olhos em pranto,
Como um homem, o Plutão.

Depois, seguiu o menino,
Segui-o calado e sério;
Quis ter o mesmo destino:
Não saiu do cemitério.

Foram um dia à procura
Dele. E, esticado no chão,
Junto de uma sepultura,
Acharam morto o Plutão.

Fonte: Poesias Infantis, 1889


VELHAS ÁRVORES 













Olha estas velhas árvores, — mais belas
Do que as árvores mais moças, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera e o inseto à sombra delas
Vivem livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E alegria das aves tagarelas...

Não choremos jamais a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

Fonte: Poesias Infantis, 1889


A UM POETA 











Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, no silêncio e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica, mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

Fonte: Tarde, 1919


HINO À BANDEIRA 












Salve lindo pendão da esperança!
Salve símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Em teu seio formoso retratas
Este céu de puríssimo azul,
A verdura sem par destas matas,
E o esplendor do Cruzeiro do Sul.

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever,
E o Brasil por seus filhos amado,
Poderoso e feliz há de ser!

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Sobre a imensa Nação Brasileira,
Nos momentos de festa ou de dor,
Paira sempre sagrada bandeira
Pavilhão da justiça e do amor!

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Fonte: Poesias Infantis, 1889


LÍNGUA PORTUGUESA 

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


SONETO XIII 













“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

 Fonte: Poesias, Via Láctea, 1888

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

NATAL!


Por Francisco José dos Santos Braga

Olavo Bilac (⭐︎Rio de Janeiro, 16/12/1865-✞28/12/1918)
 
Natal 

Jesus nasceu! Na abóbada infinita
Soam cânticos vivos de alegria;
E toda a vida universal palpita
Dentro daquela pobre estrebaria...

Não houve sedas, nem cetins, nem rendas,
No berço humilde onde nasceu Jesus...
Mas os pobres trouxeram oferendas
Para quem tinha de morrer na Cruz.

Sobre a palha, risonho e iluminado
Pelo luar dos olhos de Maria,
Vede o Menino Jesus, que está cercado
Dos animais de pobre estrebaria.

Não nasceu entre pompas reluzentes:
Na humildade e na paz desse luar,
Assim que abriu os olhos inocentes,
Foi para os pobres seu primeiro olhar.

No entanto, os reis da terra, pecadores,
Seguindo a estrela que ao presepe os guia,
Vêm cobrir de perfumes e de flores
O chão daquela pobre estrebaria.

Sobem hinos de amor ao céu profundo;
Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!
Sobre esta palha está quem salva o mundo,
Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal!

Natal! Natal! Em toda a Natureza
Há sorrisos e cantos, neste dia...
Salve, Deus da Humanidade e da Pobreza
Nascido numa pobre estrebaria.

Olavo Bilac
  
Fonte: Poesias Infantis, Francisco Alves & Cia., 1904, Rio de Janeiro.



A seguinte "Oração para a Ceia de Natal", cujo encanto fascinou minha mãe Celina dos Santos Braga (São João del-Rei, 23/01/1928-29/05/2015), foi descoberta numa revista católica e passou a ser uma tradição nos Natais que se seguiram até seus últimos dias, em sua casa em São João del-Rei. Ela fazia questão que eu fosse o leitor de tão sublime e singela prece: 

Oração para a Ceia de Natal 

Ó Deus que Vos fizestes criança para que na Vossa fragilidade melhor vos amássemos e mais facilmente pudéssemos adorar Vossa onipotência, abençoai esta família reunida em espírito de humildade e alegria ao redor da mesa festiva desta ceia natalícia, e fazei descer sobre cada um dos que aqui se encontram e sobre o mundo inteiro a Luz daquela Paz que nesta noite sacratíssima os anjos prometeram aos homens de boa vontade. Amém!

Comentário registrado por minha mãe após minha leitura



Poema constante da Programação Cultural da Biblioteca Ataliba Lago, de Divinópolis-MG, em dezembro de 2018





E, por fim, o inspirado Natal, por Padre Nonato Pinheiro:

Pe. RAIMUNDO NONATO PINHEIRO (Manaus, 1922 - 1994)































domingo, 23 de dezembro de 2018

MEDITAÇÃO PARA A VIGÍLIA DO NATAL



Por Antônio Gaio Sobrinho



Era o dia 25 de março, segundo uma antiga convenção. Ao entardecer, lá vão eles abraçados, enamorados, apaixonados. Ele com, talvez, 25 anos; ela com 17, se tanto. Ambos, portanto, jovens, no esplendor da existência, no apogeu de sua beleza. Cheios de futuro, multiplicados de ideais, desenhados de sonhos. Sonhos misturados de medos e interrogações. Pois que a vida não é nada fácil para ninguém, muito menos para um casal de noivos, pobres e analfabetos. Mesmo com Deus do lado, como se crê, a vida é luta, que se enfrenta com lágrimas, suspensão, dúvidas e incertezas. Mas, apesar de tudo, a ousadia é característica da juventude. E, naquela tarde, algo lhes dizia: coragem, tenham confiança! Talvez, apenas uma suspeita, senão mesmo um anúncio, vinda num rumor de asas, como descidas do céu, mensageiras de uma Boa Nova. As mulheres costumam ser mais perceptivas e sensitivas do que os homens. Enquanto ele cismava, sem muito entender daqueles presságios, ela sentia, num arrepio, como se ouvisse no murmúrio do vento, a voz de um Anjo a sussurrar-lhe: Alegra-te, ó graciosa, porque Deus está contigo; benditas são em ti, todas as mulheres! E, inteira, íntegra e plena na sua virgindade, ela se entregou totalmente àquele devaneio, disponível para tudo o que desse e viesse, dizendo baixinho: Que assim seja! 

Maria era como qualquer outra mocinha da Galileia, ou como qualquer adolescente brasileira, cheia de sonhos e fantasias. José, um moço, igual a tantos que, por aí, acalentam planos e desejos de uma família com muitos filhos e filhas. Entrementes, o dia se fora e já era noite; uma noite linda, cheia de estrelas e calma, quando eles entraram, de mãos dadas, na casinha que ele mesmo havia construído, em Nazaré, na espera desse dia. Lá dentro, na solidão daquele silêncio, na intimidade daquele quarto, que só lhes dizia respeito, José e Maria eram tudo de verdade, tudo de bom; tudo de belo, e de prazeroso. Para José, Deus era Maria; e, para Maria, Deus era José. No meio do curso daquela noite, cheia de encantos e de mistérios, quando um profundo silêncio envolvia todas as coisas, na paz daquele aposento, a onipotência do amor humano, que divino também era, se revelou no encontro de duas juventudes para reinventar a vida e renovar a esperança. Naquele idílio, o Verbo de Deus, a Palavra, com que Ele se define – Agapê/Cháritas|Amor – se fez carne no útero de Maria. Por isso, aqui, agora, em memória daquela hora, diante desse Magnum Mysterium, vale bem que façamos um minuto de silêncio e contemplemos, reverentes, aquela vida que ali principiava. 

Hoje são 25 de dezembro, também convencionado. Nove meses se passaram. Uma jovem grávida passa ancorada no braço de um homem, em busca de um lugar adequado. A barriguinha de Maria tornou-se saliente, para fora e para diante. Mal acomodada, segundo dizem numa gruta entre animais, o enjoo, o mal-estar, os desejos inusitados, tudo agora cede lugar às dores e às contrações. Dores fortes que, se não intermitentes, seriam insuportáveis. Porém são dores que prenunciam alegrias, dores carregadas de esperanças, grávidas de futuros. Dos seus gemidos brotam sorrisos, e a noite, lá fora, toda se ilumina. Enfim o choro, o choro tão desejado, o choro mais bem-vindo, o choro que fez dela uma mãe. José acolhe o nenenzinho nas mãos e lhe diz: Filhinho, você se chamará Jesus! E, afetuoso, com um beijo, o depõe junto ao seio de Maria, que, feliz, o aconchega para a primeira mamada: Beatus venter qui te portavit et ubera quae suxisti! 

Diante desse mistério, no portento desse milagre, que sempre se repete em tantas outras marias, só nos cabe, respeitosamente, pausar, calar e pasmar. Porque ali, naquele gesto de amor: benignitas et humanitas apparuit Salvatoris nostri Dei. Que espanto, que admiração desce sobre nós nessa cena, que embevece o universo! Quanta ternura nesse quadro que fascina poetas, que inspira compositores, que ilumina pintores, que deslumbra escultores! Regozijemo-nos, pois, desse acontecimento que dividiu o tempo da história, que mudou a história do mundo. Parece que descem anjos do céu a terra, brincando nas asas do vento, e cantando: Gloria in excelsis Deo! Acabaram-se as dores; sequem-se, pois, as lágrimas da tristeza; retirem-se as tarjas do luto; substitua-se o roxo dos altares pelas cores da festa; afugente-se o desencanto dos corações, porque abriu-se, nos ares, um arco-íris de esperanças. O inverno passou, já desponta a primavera: Jam enim hiems transiit, imber abiit et recessit, iam flores apparuerunt. Porque, afinal, uma criança nasceu, e uma mãe a amamenta. Minha Senhora Dona: um menino nasceu, o mundo tornou a começar. 

E a gente, aqui, pasmados nesta meditação, enternecidos neste encantamento, o que mais curtimos é que Maria não é, ou não é só, uma mulher de altares, mas, também, uma mulher da comunidade, da rua, da vida, da vida severina como tantas das nossas mães. Mulher engajada, participativa, comprometida, parceira, parteira de sonhos que conscientizem e humanizem o viver nosso de cada dia. Nem José não é nenhum velho impotente, protetor eunuco de virgindades perpétuas. É, sim, um jovem viril, um operário, que divide com a esposa os trabalhos e as canseiras, os intervalos e os prazeres, construindo, na carpintaria dos dias, uma família humana e, se humana, também divina: uma Sagrada Família. 

Ah, o Natal! Quanta deturpação e quanta desumanização, diante de uma coisa tão bonita e tão simples! Uma mãe que concebe, num ato de amor, que dá à luz, e que amamenta; mais que a virgindade, vale a maternidade; uma mãe que amamenta é mais sagrada que qualquer outra coisa; é uma coisa que traz lembranças, uma coisa que emociona, que enternece, que desperta ressurreições. Sacramento é que é, um memorial da saudade, uma profecia do amanhã: O admirabile sacramentum! 

Por que será que os teólogos complicam tanto? Por que não são todos como esse teólogo brasileiro, que há pouco nos deixou, Rubem Alves, de quem empresto, para nossa meditação, esta página de renovada teologia: 
O sonho começa com a imagem espantosa de uma virgem grávida, dando à luz uma criancinha. Pena que os intérpretes de sonhos tenham sido substituídos por repórteres de fatos, e aquilo que era um poema onírico a ser decifrado – nascimento virginal – passou a ser noticiado como impossibilidade ginecológica a ser acreditada, sob pena de inquisições. E assim quebraram o encanto: tiraram o Natal do mundo dos sonhos (que é onde moram os desejos) e o puseram no meio dos fatos acontecidos. A diferença? Um desejo esperado pode ser sonhado pela humanidade inteira, não conhece nem tempo nem espaço. Mas um fato está condenado a se perder na distância e no tempo. Claro que é impossível que uma virgem fique grávida. Isso é sonho, que anuncia que é preciso esperar mesmo quando não há esperança. Ou, talvez, um pouco mais: que é preciso viver como se os sonhos impossíveis fossem acontecer...
E, para terminar de forma mais ‘ortodoxa’, àquela menina adolescente, menina senhora, que deu à luz a Jesus, e que, também, Senhora da Luz se chama, com o padre António Vieira: 
Peçamos luz para nossas trevas, peçamos luz para nossas escuridades, peçamos luz para nossas cegueiras, luz com que conheçamos a Deus, luz com que conheçamos o mundo, e luz com que nos conheçamos a nós. Abramos as portas à luz, para que alumie nossas casas; abramos os olhos à luz, para que alumie nossos corações; abramos os corações à luz, para que more perpetuamente neles. Venhamos, venhamos a buscar luz a esta Fonte de Luz, e levemos daqui cheias de luz nossas almas. Com esta luz saberemos por onde havemos de ir; com esta luz conheceremos donde nos havemos de guardar; com esta luz, enfim, chegaremos àquela luz, onde mora Deus, a que o Apóstolo chamou Luz Inacessível: qui lucem inhabitat inaccessibilem (1 Tim. 6, 16), que só por meio da Luz que hoje nasce, se pode chegar à vista do Sol que dela nasceu: De qua natus est Iesus.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

O TARCÍSIO QUE EU CONHECI


Por Abgar Antônio Campos Tirado


A véspera do dia de Santa Cecília nos trouxe um acontecimento de triste impacto: falecera repentinamente nosso conterrâneo e amigo Tarcísio do Nascimento Teixeira. Que lamentável perda para todos que o amavam e admiravam e que tremenda lacuna para nossa vida musical. Pianista dotado de excelente leitura à primeira vista, consciente e seguro em suas atuações, vinha colaborando intensamente com as realizações musicais de nossa cidade, acompanhando e preparando cantores e instrumentistas, quando não era ele mesmo o cantor, além de ser entusiástico promotor de eventos relativos à Música. 

São-joanense, Tarcísio passou a maior parte de sua vida fora de sua terra natal, quer como seminarista salesiano, quer como funcionário do Banco do Brasil e músico militante, radicado na cidade de São Paulo, de onde retornou para São João del-Rei, no início da década de noventa. Com ele, veio seu imenso acervo de partituras, livros e discos. Realmente duvido que em todo o país haja um arquivo musical particular, mais amplo que o dele. Esse maravilhoso acervo esteve à disposição de quem dele necessitasse; todavia, Tarcísio se queixara de que esperava que fosse muito mais utilizado do que o estava sendo. 

Uma vez em São João del-Rei, Tarcísio promoveu cursos sobre compositores específicos, recitais e concertos, ao mesmo tempo que estava sempre disponível para ensaiar com cantores e instrumentistas. Sempre convidado por ele, pude participar ao piano, sozinho ou a quatro mãos, das apresentações dedicadas a Tchaikovsky (seu compositor predileto), a Grieg, a Dvorak, à música de cinema (esse concerto apresentado também em Curitiba, em 1995), a Carlos Gomes, a Schubert, a Lorenzo Fernandez, a Francisco Mignone, a George Gershwin e a Chausson. 

Por outro lado, quando fui encarregado de realizar um Concerto Nietzsche, tive o prazer de convidar o Tarcísio, que dele participou como cantor e também como pianista, concerto esse apresentado em São João del-Rei (Conservatório e FUNREI), em Belo Horizonte (PUC) e em Juiz de Fora (UFJF). 

Tarcísio era uma dessas pessoas que faziam milagre com o tempo: realizava mil e uma atividades, principalmente musicais, caminhava bastante, viajava com frequência e, no entanto, estava sempre disponível para quem o procurasse. Impressionava-me, a par da vastidão de seus conhecimentos, sua infalível memória. Sabia de cor tudo o que se relacionava a um compositor contemplado em um curso; e mais ainda, retinha tudo aquilo na memória de forma duradoura. 

Pessoa franca, sincera, era capaz de grandes atos de solidariedade humana e de silenciosa caridade. Também cooperava entusiasticamente com o Conservatório, com a Sociedade de Concertos Sinfônicos, bem como dirigia cursos bíblicos e orientava grupos religiosos, além de colaborar como organista na capela de São Caetano. 

Enfim, muito e muito mais poderia ser dito sobre o Tarcísio, o que seria impossível na limitação deste texto. Uma coisa, porém, não podemos deixar de dizer: 
- Tarcísio, você fará muita falta e tão grande como os méritos que acumulou é a saudade que nos legou. 
(Jornal da ASAP, 11/2001)

Fonte: TIRADO, Abgar Antonio Campos: Crônicas de Abgar, editor Luiz Antonio Teixeira Rodrigues, 2018, 367 p.

Crédito pela foto: Rute Pardini Braga, que recuperou as cores contidas na imagem disponibilizada no livro. 

ENCONTRO DE TRÊS ACADEMIAS EM MARIANA E OURO PRETO

  
Por Dra. Elizabeth Santos Cupello



Artigo publicado originalmente no Informativo AVL-Ano VI-nº 67, verso, junho/2009.




A tradicional Academia Mineira de Letras-AML, presidida pelo Dr. Murilo Badaró, completou neste ano de 2009, cem anos de existência. Dentro dos eventos comemorativos daquele centenário, a AML foi até a cidade de Mariana-MG, para reverenciar a memória do Poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens, Patrono não só da AML, como da Academia Marianense de Letras, à época presidida pelo Dr. Roque José de Oliveira Camêllo, então Prefeito de Mariana e Membro da Academia Valenciana de Letras. 
Casal Elizabeth e Mario Cupello; Sra. Merania, esposa do Dr. Roque; Dr. Ângelo Oswaldo, Prefeito de Ouro Preto; Dr. Murilo Badaró, Pres. da AML; Dr. Roque Camêllo, Prefeito de Mariana; e o Padre José Geraldo Vidigal de Carvalho. - Crédito: Acervo ICVRP

Afonso Henriques da Costa Guimarães (1870-1921), que usava o pseudônimo de Alphonsus de Guimaraens, nasceu em Ouro Preto-MG e viveu parte de sua vida em Mariana, onde se encontra o seu mausoléu. 

Essa foi a motivação da visita da Academia Mineira de Letras às cidades de Mariana e Ouro Preto, acompanhada de treze ilustres Acadêmicos, entre eles o ex-Governador de Minas, Dr. Francelino Pereira. 
Ex-Governador Francelino Pereira em seu discurso, lembrando
 Alphonsus na casa do Poeta, em Mariana. - Crédito: Acervo ICVRP
Atendendo a um convite pessoal do Dr. Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, Prefeito de Ouro Preto, e do Dr. Roque José de Oliveira Camêllo, Prefeito de Mariana, o casal Elizabeth Santos Cupello e Mario Pellegrini Cupello (presidentes da Academia Valenciana de Letras-AVL e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto-ICVRP, respectivamente) esteve presente aos eventos programados em Mariana e Ouro Preto, no dia 05 de junho de 2009. 
Dr. Roque Camêllo ao lado do Dr. Afonso Henriques (neto do Poeta) e do Dr. Ângelo Oswaldo, Membro da AVL, na inauguração de uma placa, na casa em que morou o Poeta Alphonsus, alusiva à visita da Acad. Mineira de Letras. - Crédito: Acervo ICVRP

Dr. Afonso Henriques Guimarães Neto, representando a família do Poeta Alphonsus de Guimaraens. - Crédito: Acervo ICVRP





















Após as solenidades na "Casa de Alphonsus", com a apresentação de música, canto e declamação por jovens membros da Academia Mirim Marianense de Letras, a comitiva cívico-cultural dirigiu-se à sede da Academia Marianense de Letras, onde ocorreu a terceira fase da visita. 
Profª Marly Moisés, Vice-Pres. da Acad. Marianense - Crédito: Acervo ICVRP

Na ocasião, a Presidente da AVL, Dra. Elizabeth, deu posse ao Dr. Roque José de Oliveira Camêllo, como Membro Correspondente da AVL. 
Dra. Elizabeth, Pres. da Academia Valenciana, em seu pronunciamento, ao dar posse ao Dr. Roque Camêllo. - Crédito: Acervo ICVRP












Dr. Roque ao assinar o Livro de Posse, como Membro Correspondente da Academia Valenciana de Letras, na presença do Dr. Murilo Badaró; da Pres. da AVL e do Dr. Mario Cupello, Acadêmico Secretário-Geral da AVL.
- Crédito: Acervo ICVRP
Discurso do Dr. Roque Camêllo, como Pres. da Academia Marianense de Letras, saudando a Academia Mineira de Letras e a Academia Valenciana de Letras. À Mesa, a Professora Hebe Rôla e o Dr. Murilo Badaró. - Crédito: Acervo ICVRP
Discurso do Dr. Murilo Badaró, Pres. da Acad. Mineira - Crédito: Acervo ICVRP
Presids. das três Acads: Valenciana, Marianense e Mineira - Crédito: Acervo ICVRP
Dr. Francelino Pereira; Dra. Elizabeth, Dr. Roque, Dr. José  Aleixo (filho de Pedro Aleixo), Dr. Danilo Gomes e Dr. Murilo Badaró. - Crédito: Acervo ICVRP
A comitiva visitou também o Mausoléu de Alphonsus. Em Ouro Preto o Dr. Ângelo Oswaldo ofereceu um almoço no Restaurante Chafariz, dos amigos Vicente e Rosa Trópia (casa onde nasceu Alphonsus), e seguiu para a Casa dos Contos e Museu da Inconfidência.
Parte da comitiva na Casa dos Contos em Ouro Preto-MG. - Crédito: Acervo ICVRP
Dr. Eugênio Ferraz, à época Diretor da Casa dos Contos, em conversa com o Dr. Mario Cupello, Presidente do ICVRP. Ao fundo, de gravata, o Sr. Raphael Simões, da então Administração da Casa dos Contos - Crédito: Acervo ICVRP
Elizabeth e Mario Cupello com o Dr. Rui Mourão, então Diretor do Museu da Inconfidência em Ouro Preto-MG. - Crédito: Acervo ICVRP
 

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

IMPRESSÕES RELIGIOSAS POR OCCASIÃO DA SEMANA SANTA EM S. JOÃO D' EL-REI EM 1860


Por  J.C.O.S.



I.  INTRODUÇÃO por Francisco José dos Santos Braga


A crônica Impressões Religiosas sobre a celebração da Semana Santa de 1860 chegou-me às mãos por especial colaboração do pesquisador e historiador Francisco de Oliveira, de Barbacena, que a localizou em arquivos públicos que frequenta. Sabedor do meu interesse em garimpar raridades históricas, presenteou-me com seu achado. A seguinte mensagem acompanhou o arquivo com a crônica: "Achei esta crônica num exemplar do jornal A ACTUALIDADE, de 1860, que era editado no Rio de Janeiro. Um dos redatores, Lafayette Rodrigues Pereira, tinha uma fazenda, que ainda existe, às margens da BR-040, próxima à cidade de Lafaiete. O nome da antiga Queluz foi mudado para homenageá-lo, o que provocou cisão na cidade e durou muitos anos. O artigo é um exemplo do estilo gongórico, mas as mensagens são atuais. O articulista colocou somente as iniciais: quem sabe é um conterrâneo?"

Parece que, ao dizer que a crônica comporta "mensagens atuais", meu amigo está a referir-se sobretudo ao último parágrafo, que denuncia inúmeras mazelas sociais até hoje presentes na sociedade brasileira. 

Igualmente, na página 1 da histórica edição de A ACTUALIDADE (cuja imagem está reproduzida no final da crônica), vemos uma matéria intitulada A camara dos patacões, já antevendo o que vai no seu interior: 
"A actual camara dos deputados quando se trata de negocios que dizem respeito aos interesses pecuniarios de seus membros, tem procedido de um modo digno de elogio.
Agora mesmo, segundo nos informam, a mesa acaba de tomar uma resolução, que faz muita honra ao seu desinteresse. Decidiu que o deputado que só comparece à sessão no ultimo dia do mez, tem direito ao subsidio do mez inteiro! Assim, um deputado que comparecer à sessão no ultimo dia do mez de maio pela primeira vez, tem direito a receber o mesmo subsidio que aquelle que frequentou a camara desde o principio do mez. (...)"  

Certamente que J.C.O.S. são as iniciais de alguém que era um correspondente do jornal em S. João del-Rei. Espero ainda descobrir de quem se trata.

Na época em questão os redatores do jornal são Fábio Farnese (da Paixão Junior), Lafayette Rodrigues Pereira e Bernardo Joaquim da Silva Guimarães, este último autor do romance "Maurício ou os paulistas em São João del-Rei" (1877), cuja sequência é considerado "O Bandido do Rio das Mortes" (1904), nos quais se manifesta seu pendor para a narrativa histórica ao visitar a história de Minas Gerais sob a forma de ficção, ambos ressaltando aspectos ligados a São João del-Rei e envolvendo personagens da história de Minas Gerais. O jornal A ACTUALIDADE, órgão do Partido Liberal, foi fundado pelos três em 10/05/1858 no Rio de Janeiro (corte do Império) e durou até 28/04/1864. Mais tarde, contou com a colaboração de Antônio Barbosa da Silva e Souza, Luiz Barbosa da Silva, Limpo de Abreu,  Pedro Luiz Pereira de Sousa, Salvador de Mendonça, Teófilo Otoni, entre outros. Considera-se que A ACTUALIDADE foi o primeiro jornal a ser vendido avulso. 
"O impresso semanal se apresentava como de oposição e discutia política, decisões do Império, literatura e legislação. Além de veicular notícias da Corte, publicava também informações de outras províncias, notadamente, da de Minas Gerais. 'A Actualidade' marcou época no jornalismo brasileiro. Segundo Coelho Neto, é daí por diante que a "feição do jornal foi perdendo a austeridade ferrenha, modelando-se pelos principais órgãos franceses, já na parte de informações, já nas seções doutrinárias e de literatura."
Fonte da citação: http://academiaserranadeletras.com.br/images/Perfil_Patronos/Fl%C3%A1vio_Farnese_da_Paix%C3%A3o_Junior.pdf
Lamento que o autor da crônica "Impressões Religiosas" não tenha feito uma descrição de como se desenrolava a solenidade litúrgica da Semana Santa em 1860, antes, portanto, de o Padre José Maria Xavier (1819-1887) ter composto sua obra musical sacra para a dita Semana Santa. Sabe-se que o compositor sacro são-joanense, pertencente ao barroco mineiro tardio e cuja música, ainda hoje, cobre praticamente toda a solenidade da Semana Santa de São João del-Rei, teria composto a parte final dos Laudes (Antífona do dia, Cântico de Zacarias e Antífona Solene do dia) em 1860; a música do Tractos, Missa e Vésperas de Sábado Santo em 1869; a música dos Responsórios dos Ofícios de Trevas para as Matinas de Quinta-feira, Sexta-feira e Sábado Santos em 1871; a música para o Ofício do Domingo de Ramos e Tractos e Bradados de Sexta-feira Santa em 1872. Ou seja, a música de Pe. José Maria Xavier não poderia ter sido executada durante a Semana Santa de 1860 da forma como atualmente se faz. A curiosidade continua: Como era a antiga Semana Santa na então Matriz de Nossa Senhora do Pilar de São João del-Rei?



II.  TEXTO DA CRÔNICA "IMPRESSÕES RELIGIOSAS"


Que mais poderoso e energico incentivo haverá que a musica religiosa para arrebatar às alturas incommensuraveis do infinito uma alma terna e sensivel, e que desde a infancia aspirou o sentimento do bello nas sublimes harmonias d'esses canticos plangentes e repassados de melancolia, que as auras do templo elevam ao throno do Altissimo, na ultima das semanas da penitencia?! Eu desejaria paramentar a minha palavra com as alvissimas vestes de poesia com que em minha imaginação traja-se o sentimento religioso, que n'esses luctuosos dias da igreja levanta-se de meu coração, como um éco profundo d'essas melodiosas e tristes lamentações, em que o propheta Jeremias chora as ermas praças de Sião, os seus sacerdotes gemendo, as suas virgens suspirando, envoltas na amargura; em que elle deplora todo esse sombrio e negro painel de dissolução, que desenrolou-se sobre a ingrata Jerusalem, para extinguir a luz de suas lampadas e annuviar eternamente os seus dias! Eu desejaria ainda dar à simples narração de uma semana santa em S. João del-Rei a regularidade, a devoção e a grandeza religiosa com que n'esta cidade celebram-se os mistérios da Paixão, e então eu offereceria ao leitor uma bella pagina, em que, como eu, elle tambem sentiria derramar-se nos seios de sua alma a torrente de emoções, que ressumbra da lithurgia santa dos Levitas, e que parece dar à fé do christão essa robustez secular dos cedros do Líbano! Eu faria brotar de seus olhos uma lagrima, como a que por mais de uma vez deslisou-se por minhas faces, no meio d'essas harmonias celestes, d'essas notas sentidas e profundas com que a musica, associada à religião, nos arrebata ao infinito, às immensidades, onde em maravilhas estupendas, expande-se toda a magestade do bello por excellencia - de Deus!... 

E quem ouvirá os lentos e melancolicos accordes do grande psalmo do rei penitente, que n'esta semana parecem ainda desprender-se de sua harpa envolta em pesado crepe, sem transportar aos pés da eterna misericordia a sua alma sentida e tremula sobre as asas do arrependimento, da esperança e do amor?! Quem, humilhado e contricto, não conhecerá as suas iniquidades, e não pedirá ao Deus de David que as destrua, para se purificar com o asperges do seu santo hysope, e exceder a mesma candidez da neve? 

Quem, ao ouvir na grande sexta feira esse sublime cantico do - Ecce lignum crucis - não experimentará em seu interior toda a força e a realidade d'esse solemne - sursum corda - que entoa o sacerdote no meio das nuvens de incenso, que passeiam vagarosas pelas abobadas do sanctuario, depois de haverem osculado a tela das aras, onde se consumma o incruento sacrificio:! 

Quem, ao descobrir-se esse precioso instrumento embebido no sangue da victima immaculada, que expirou sobre o Golgotha, não sentirá brotar de seu coração uma prece abrasada e vehemente como uma lagrima de Magdalena, bella e perfumada como a bonina desabrochada ao sereno alvorecer do dia?! Que de transportes, que de emoções, quando a cada uma das tres vezes em que se canta a duo, esse hymno de adoração no meio d'um profundo silencio, o côro responde com vozes abafadas, e nas mais ternas modulações a letra - venite adoremus - para seguir-se a magestosa ceremonia da adoração da cruz, em que os sacerdotes descalços prosternam-se, roçando a fronte pelo pavimento sagrado, até chegarem aos pés d'esse lenho, onde se passara uma morte, para d'ahi resurgir à vida!... 

N'essa edificante e augusta hora, que ainda ha tres dias decorreu absorvida por um tão sublime ministerio, a unção celestial, que se entornava em minha alma, parecia despertar em meu coração sinceras aspirações a uma vida mais calma e mais afastada desse violento turbilhão de iniquidades, em que arrojou-me o sopro impetuoso das paixões, desde que no seu frenetico e furioso ardor ellas devoraram a meiga flor de minha innocencia! Oh! que saudades tive eu d'ella n'esses momentos! quanto não me sorria ella na infancia! quanto não me approximava ella do Christo n'esses dias em que ainda orvalhada pelas fontes do baptismo, ella tinha a candura do lyrio e a timidez da violeta!

Quando a esposa de Jezus Christo chora e lamenta a maior das catastrophes que ha visto o mundo, suas palavras e seus canticos parecem exceder a vehemencia da mais profunda magoa. Haverá nos tesouros de uma imaginação poetica, ou nos gemidos de um coração depurado no crisol do mais intimo padecer, um pensamento ou um ai mais repassado de poesia, de dor, e de angustias, do que essa luctuosa elegia que o propheta, atravez das espessas trevas do futuro, ouviu cahir da boca da desolada filha de Jerusalem, em uma torrente de lagrimas e de soluços, que se perdiam nas ruínas de sua cidade aniquilada pelos tributos e pelas profanações de suas virgens?! 

 Que filho da terra jámais chorou a queda de sua pátria com dor mais acerba e pungente, que Jeremias em suas lamentações? Ainda ha dias esses suspiros da afflicta Sião, modulados pela voz pura e virginal d'uma donzella, vinham, em flexiveis e extensas melodias, offerecer-me uma lagrima diluida no calice de suas amarguras! 

O vos omnes qui transitis per viam, attendite, et videte si est dolor sicut dolor meus, - assim dizia esse canto de afflicção e soledade, que os ecossistemas da cidade santa repetiram lá no meio de suas agonias! Ao pranto do captiveiro unia-se o da orphandade e da viuvez, quando ainda vem a letra - Pupilli facti sumus absque patre, matres nostrae quasi viduae, etc, cuja musica sentimental empresta-lhe mais vehemencia. 

Quanto é grande e sublime, como a religião que elle representa, este culto catholico, que falla ao coração do homem por imagens e emoções tão vivas! Sim, tudo nelle brilha e commove por um poder sobrenatural, por essa união divina, que offusca e aniquilla nos seus sanctuarios os ouropeis dessa pompa ridicula, e frivola, que nos espectaculos profanos só traduz a vaidade insensata dos grandes da terra! Quanto não eleva-se ainda mais a magestade de seus symbolos evangelicos nessa tocante e pathetica scena, em que se representa aquelle perante quem tremem as potestades e as virtudes dos céos, prostrado e abatido por um excesso de amor, para lavar os pés do homem! 

Que immensa lição de humildade para o estupido orgulho desses grandes vermes, que esquecem-se do seu nada para se erguerem, com seus ridiculos brazões, acima dos seus semelhantes! 

Que exemplo de meiga benificencia! não essa benificencia acompanhada dos desdens e das insolencias com que a piedade hypocrita dos felizes da terra costuma esmagar o pudor dos miseraveis a quem ella atira as migalhas dos seus banquetes; mas sim a benificencia do justo, a benificencia que não degrada e avilta, e que só procura nas inspirações de uma moral pura e elevada, nos sentimentos de benevolencia e docilidade, o aperfeiçoamento e a exaltação da especie humana, que nunca se emancipará fóra desse espirito de fraternidade, que pregou o legislador divino, e que a soberba dos potentados repele como um pesadelo, ou um fantasma que lhes póde tomar severas contas das violencias, e do sangue derramado de seus irmãos. 

Se essa sublime doutrina, que a poeira de dezenove seculos não poude ainda apagar das paginas evangelicas, fosse a bussola que o legislador e o estadista sempre escolhessem para mais os esclarecer nos rumos do grande oceano social, nella teriam elles muitas vezes encontrado a chave para a solução dos muitos problemas que importam a felicidade e o aperfeiçoamento dos povos; porque essa mesma doutrina consagra as mais bellas maximas sociaes; porque foi nos seus braços que o berço das sociedades modernas poude escapar, e salvar-se dos medonhos vulcões da barbaria. 

Se o espirito de nossas leis fosse sempre depurado pela essencia desse codigo santo, a corrupção e a fraude não se converteriam em politica; as violencias e a oppressão em systhema de governo; a justiça não seria uma irrisão, ou antes uma cruel ironia em que o premio da virtude é quasi sempre a proscripção e o olvido, ao passo que a punição do crime é tantas vezes uma graça do poder, que vai polluir-se e marear-se nos vapores da orgia e da infamia; uma graça em que lá se vê essa cruz que tanto se exaltou sobre o Calvario, que ergue-se acima da fronte dos reis, pendendo de peitos cujo merito é o de muitas vezes encerrar uma conciencia vendida, ou esconder um punhal de assassino! 
S. João de El-Rei, 10 de abril de 1860. 



Fonte: jornal A ACTUALIDADE, Anno II, Rio de Janeiro, sabbado 5 de maio de 1860, numero 79, p. 4.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

HOMENAGEM À PIANISTA LÍGIA CARDOSO DE ASSIS


Por Abgar Antônio Campos Tirado


Falo hoje sobre uma pessoa cujo valor enobrece nossa cidade, que a recebeu desde muito jovem, quando de seu casamento. Falo de Lígia Cardoso de Assis, modelar esposa, mãe e avó, cujas virtudes ainda se veem enriquecidas por notáveis dotes musicais, sobretudo como pianista e professora.

Nossa homenageada é natural de Mogi das Cruzes, SP, tendo-se mudado para São João del-Rei pelo fato de ter-se consorciado com nosso conterrâneo Sílvio de Assis, funcionário do Banco do Brasil, talentoso musicista, que veio a ser o proprietário do hoje extinto Palácio da Música, renomada loja de discos, reconhecida como uma das melhores do País.

O matrimônio enriqueceu o casal com oito filhos, a saber: Sílvio, meu prezado amigo, Maria Lígia (Marily), Dora, Carlos Edmundo, Teresa Cristina, Rosane, Flávio e Marcus Vinicius, este já falecido. Ressalte-se que todos eles apresentam notável aptidão musical, alguns, como no caso de Marily, dedicando-se à música profissionalmente. Acrescento também que, com exceção de Sílvio (Silvinho), todos foram meus alunos na Escola Estadual “Cônego Osvaldo Lustosa”.

Voltemos à nossa querida Lígia: Em 1956, eu, estudante do Curso Científico em Belo Horizonte, ainda não a conhecia, quando fiquei sabendo que ela tocaria com nossa “Sinfônica” o consagrado Concerto em lá menor op. 16, de Grieg. Soube que sua atuação foi brilhante, primeiramente em Caxambu e depois em São João del-Rei. Como gostaria de ter estado presente! Todavia, em janeiro de 1957, estando eu de férias, meu saudoso colega Alfredo Amaral de Carvalho, também ardoroso musicista, conseguiu que Lígia nos recebesse em sua casa, então no Largo do Carmo, para uma audição particular. Muito bem recebidos, presente também minha irmã Aline, igualmente musicista, encantou-nos a arte da consagrada pianista. Apresentou-nos sobretudo obras de Chopin, como o Prelúdio nº 24, a Fantasia-Improviso op. 66 e o Estudo op. 25 nº 11, peças de grande dificuldade, vencida com facilidade pela artista, que as executou, note-se, totalmente de cor e com elevada musicalidade. Lembro-me de que toquei também alguma coisa, tendo a pianista encerrado sua atuação de maneira leve, com o tango “Aventureiro”, em versão própria. Ressalte-se sua impressionante capacidade de decorar peças musicais e sua segurança em executá-las. 

No ano de 1957, continuava eu a estudar em Belo Horizonte, perdendo mais uma vez outra brilhante atuação da pianista com nossa “Sinfônica”, em nosso Teatro Municipal, quando tocou, de Chopin, o Andante Spianato e Grande Polonaise Brilhante op. 22

Os anos se passaram. Em 1977, tendo eu assumido a direção do Conservatório Estadual de Música Padre José Maria Xavier, convidei a pianista e amiga Lígia para integrar o quadro de professores de piano da referida escola. Para minha alegria, o convite foi aceito, tornando-se imediatamente uma das mais destacadas e queridas professoras da casa. E, sempre surpreendendo por seu devotamento à música e a seu magistério, embora já muitíssimo preparada em seu mister, com a formação, primeiramente em sua terra natal com o prof. Marmora e, posteriormente, em nossa cidade em reciclagem com o pianista e professor André Pires, Lígia, já em idade madura, resolve graduar-se em piano pela Universidade Federal de Minas Gerais, o que fez com brilhantismo, tendo como principal professor o respeitado concertista Eduardo Hazan, sendo que, na conclusão do curso, apresentou, acompanhada pela orquestra da Universidade, as complexas Variações Sinfônicas de César Franck, sob a regência do importante maestro David Machado. Quanta vitória! Diga-se ainda que foi a primeira professora de nosso Conservatório a obter o diploma universitário em piano! Lembramos também que, em sua busca constante de aperfeiçoamento, ia regularmente a Belo Horizonte, para aulas particulares de reciclagem com o professor e concertista Miguel Rosselini

Outro evento sobre o qual me apraz falar: Em 1993, no concerto oficial comemorativo do centenário de falecimento do grande compositor russo Peter Ilich Tchaikowsky, organizado pelo saudoso musicista professor Tarcísio do Nascimento Teixeira, tive a honra de apresentar-me ao piano, a quatro mãos, com a estimada Lígia, em nosso Teatro Municipal, em obras do compositor homenageado. Alternamos os solos e acompanhamentos. Fui solista na Valsa da Serenata para cordas e Lígia o foi em dois números da Suíte Quebra-Nozes. Pude então pensar: como os fatos evoluem na vida; antes, eu, rapazinho, era apenas um fiel admirador da eminente artista e, agora, ali estava eu como seu parceiro em concerto! 

Hoje, lamentavelmente, Lígia se acha acometida de uma das mais frequentes moléstias da atualidade: o mal de Alzheimer. Recolhida a seu lar, viúva, recebe total assistência e carinho de toda a sua família e, mesmo à distância de todos aqueles que a trazem perenemente em seus pensamentos e corações, esperando em Deus, quem sabe, sua plena recuperação, para júbilo e felicidade de todos nós. 

 (Jornal da ASAP, 01/2015) 


Fonte: TIRADO, Abgar Antonio Campos: Crônicas de Abgar, editor Luiz Antonio Teixeira Rodrigues, 2018, 367 p.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

OUVINDO ESTRELAS


Por Anderson Braga Horta


Palestra pronunciada originalmente na ANE-Associação Nacional de Escritores de Brasília, em 22 de novembro de 2018, no evento Quinta Literária.



Nascido em 16 de dezembro de 1865 e falecido em 28 de dezembro de 1918 (há um século), viveu, portanto, 53 anos. Vida breve, para as expectativas de nossos dias; mas nem tanto, para a época. Comparado aos grandes antecessores do período romântico, foi quase um macróbio. Gonçalves Dias, que tanto admirava, talvez ajudado por alguma pajelança de seus íntimos piagas, ainda alcançou a marca dos 41 — resgatado pelo “oceano terrível” da agonia em que já se afundava, no naufrágio do Bois de Boulogne, em 1864 (foi o único a morrer). Aos outros deu Fortuna menor tempo:
Laurindo Rabelo (1826-1864): aos 38, já do batel da vida sentiu tomar-lhe o leme a mão da morte.
Álvares de Azevedo (1831-1852): “Já da morte o palor me cobre o rosto”. “Vinte anos!... Não vivi um só momento!”
Junqueira Freire (1832-1855) invocava: “Pensamento gentil de paz eterna, amiga morte, vem.” Foi atendido aos 22 aninhos.
Casimiro de Abreu (1839-1860): “Se eu tenho de morrer na flor dos anos, meu Deus, não seja já!” Colhido menino, ainda correndo atrás de borboletas azuis, aos 21.
Fagundes Varela (1839-1860) viveu em cânticos um calvário de 33 anos.
Castro Alves (1847-1871) tinha 17 quando escreveu, em pleno “borbulhar do gênio”: “Adeus, vida! Adeus, glória! amor! anelos!” Restavam-lhe sete. Ao menos curtiu intensamente a vita brevis.

É corriqueiro lembrar que o nome Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac é um perfeito alexandrino francês, a sugerir mestria nesse tipo de verso, conseqüentemente um visível domínio versífico, uma tendência ao perfeccionismo, uma filiação literária que implicaria vínculos estreitos com a cultura gaulesa, e por aí afora. Por seu conteúdo repetitivo, de chavão, deveria esquecê-lo; mas, ao invés, o acolho, já pelo curioso da observação, já pela condição seminal de nos prevenir para qualidades efetivamente encontráveis no poeta.
Também aprendemos nos manuais que Bilac foi um poeta parnasiano, vale dizer — vinculado a uma escola marcada pela impessoalidade, pela frieza emocional. Sua vida, entretanto, não foi essa pasmaceira que se poderia imaginar, em se tratando de um suposto adepto da torre de marfim, da objetividade realista, do não-envolvimento, da literatura de gabinete, como deixou claro José Jeronymo Rivera, no primoroso painel que desenrolou para nós, no Auditório Cyro dos Anjos, da ANE, em março de 2014 (De Vias Lácteas e de Flautas Rústicas, Kelps, Goiânia, 2014). Sua arte também não o foi, consoante a Apresentação de Alceu Amoroso Lima, um dos que melhor o compreenderam, no vol. 2 da série Nossos Clássicos, da Agir (Rio de Janeiro, 1957).
Sobre o cidadão Bilac, lembra Antonio Carlos Secchin em “Presença do Parnaso”, que, longe de um comportamento glacial diante da vida, “desenvolvia intensa atividade pública, metendo-se em política, lutando pela obrigatoriedade de prestação do serviço militar, e opinando sobre as reformas urbanísticas do Rio belle époque”. E Ledo Ivo, em “Os Navios Parnasianos”, fala de sua “alegria de viver”. (Ambos em Escolas Literárias no Brasil, organização de Ivan Junqueira; edição da Academia Brasileira de Letras, Rio, 2004, pp. 497 e 523, respectivamente.)

Quanto às características do nosso Parnasianismo amenizado, particularmente no exemplo bilaquiano e pelo menos ante os termos da ortodoxia, como se depreende da boa crítica, recomendo uma vista d’olhos no magnífico estudo O Parnasianismo na Poesia Brasileira, de Sânzio de Azevedo (Editora UFC / Edições UVA, Fortaleza, 2004).
As diferenças entre os estilos de época são muitas vezes tênues. Traços característicos de uns podem achar-se em botão nos anteriores, ou como reminiscência nos seguintes. Há casos bem típicos, sim, como as claridades e vaguidões da “Antífona” do simbolista Cruz e Sousa, de um lado, e doutro o dissertativo de “A Gonçalves Dias”, bem como a rigidez escultórica de “A Sesta de Nero” e “O Incêndio de Roma”, de um parnasianíssimo Bilac. Mas não diria que a nitidez dos contrastes é prevalente.
Quando escreveu, aplicadamente, de acordo com as prescrições da escola, Bilac foi poeta de boa envergadura. Quando, porém —ainda que sem perder jamais a ponderação da boa forma— se deixou levar pelo borbulhar interno, aí levantou voo, e aí compôs poemas que, sem deixar de servir de modelo em seu embasamento e em seu travejamento, nos trazem alma adentro o frêmito da paixão e da beleza, a que não faltam o sal de alguma dúvida metafísica nem o ímpeto superior de uma transcendente esperança.
Logo após o rigor propriamente parnasiano de Panóplias, exibem-se em suas Poesias os trinta e cinco sonetos de Via Láctea, em que Sânzio de Azevedo, citando Alberto de Oliveira, vê com clareza “uma combinação de rigor clássico e emoção romântica”, que vamos rever na perfeição do n.° XIII:

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”


Consta que o próprio poeta o desmerecia, exigente, apontando uma homofonia (tão leve que mal se percebe) no primeiro terceto.
O soneto, originalmente intitulado “Ouvir Estrelas”, e conhecido popularmente também como “Ora (direis)”, nos dá de mão beijada, como quem não quer nada, uma fértil contradição: de um lado, uma dicção escandida, estudada, com uma certa nonchalance, uma aparente frieza no andamento, frieza conceitual, professoral, frieza de quem professa uma lição, não de quem vive uma paixão; de outro, um refreado mas ardente sentir, numa expressão que vai ganhando força até o perfeito final. Emoção contida: o poeta não quer se derreter diante do interlocutor, diante do público; mas bastante para entremostrar os frêmitos que podiam vagar por aquela alma. O que prevalece —e fica na mente do leitor— é esse clímax, esse caldo de sonho, essa música suave-ardente, esse deslumbramento de ouvir e de entender estrelas. E ficamos sabendo, sentindo, que isso é, sim, poesia, bela e grande poesia, independentemente de tudo o que digam —contra ou a favor— os teóricos do verso.
Bilac foi um grande poeta romântico (ouso dizê-lo) constrangido, num bom número de poemas, pela equivocada intenção de ser parnasiano (mas é bom lembrar que o próprio poeta chegou a negar a existência de parnasianismo no Brasil). Dessa escola tem e exibe, contudo, em toda a linha de sua produção poética, a perfeição do verso e a extrema correção e elegância vernacular.

Há quem aponte e verbere em Bilac (assim como em Castro Alves, outro poeta de verbo inflamado) o vezo da eloqüência. Ora, a eloqüência é virtude da oratória, do discurso feito para convencer — já pela justeza do pensamento, já pela empolgação emocional; em poesia, é considerada defeito. Tenho para mim que quem chama de eloqüente a um grande poeta está, em verdade, querendo dizer que suas palavras voam e ardem como estrelas. O mot juste para isso é entusiasmo.  A eloqüência pode visitar o grande poeta —hélas! ninguém é gênio vinte e quatro horas por dia—, mas em poema como o I-Juca-Pirama, O Navio Negreiro, Vozes d’África, O Caçador de Esmeraldas, o arrebatamento verbal visa a algo em si mesmo, visa ao fogo, visa ao vento, visa ao belo.
Permitam-me aqui o meu próprio arrebatamentozinho romântico: o poeta é um deus que influi do que pensa e, sobretudo, do que sente — desse amálgama — as artérias do poema, sua criatura.

Como aqueles notáveis épicos, impressiona O Caçador de Esmeraldas pela fornalha verbal em que se enforma. (“Sagres” em certa medida o antecipa — sendo-lhe poeticamente inferior, e sendo que, enquanto o sonho do Infante ao fim se projeta em Conquista e Glória, o sonho do Bandeirante se esfará em irrisão.)
Começa e mantém-se o Caçador num patamar elevado (com rompantes de lava em picos estratégicos):

Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada
Do outono, quando a terra, em sede requeimada,
Bebera longamente as águas da estação,
— Que, em bandeira, buscando esmeraldas e prata,
À frente dos peões filhos da rude mata,
Fernão Dias Paes Leme entrou pelo sertão.


Já nesses inícios a cor esmeraldina se insinua, primeira antecipação de um dos pontos máximos do poema. São as “angras verdes”, o “verde sorriso”, o “verde coração” da “bruta Pátria”; logo depois, “a serra misteriosa” de “verdes faldas”, o “verde sonho”, o “verde arcano”, o faiscante verdor da “grande serra, mãe das esmeraldas raras”, as “pedras verdes” finalmente nas mãos do Bandeirante, que, vencido pela febre, “trôpego e envelhecido, roto, e sem forças, cai junto do Guaicuí...”. É uma espécie de leit-motiv, que faz uma pausa na parte terceira, para, em prodigiosa mudança de clima, dar espaço à agonia do Herói:

Fernão Dias Paes Leme agoniza. Um lamento
Chora longo, a rolar na longa voz do vento.


Agonia em largo magnífico, a culminar no momento em que Fernão Dias, acreditando estar na posse das esmeraldas, exibe uma face fulgurante, “como se a asa ideal de um arcanjo a roçasse”. É a hora do delírio verde, quando o leit-motiv se completa e explode miraculosamente no quadro total. Uma obra-prima de ton-sur-ton plástico-musical. Jóia incrustada no corpo áureo do poema. Vejamo-la nas duas estrofes iniciais da parte IV:

Adoça-se-lhe o olhar, num fulgor indeciso;
Leve, na boca aflante, esvoaça-lhe um sorriso...
— E adelgaça-se o véu das sombras. O luar
Abre no horror da noite uma verde clareira.
Como para abraçar a natureza inteira,
Fernão Dias Paes Leme estira os braços no ar...

Verdes, os astros no alto abrem-se em verdes chamas;
Verdes, na verde mata, embalançam-se as ramas;
E flores verdes no ar brandamente se movem;
Chispam verdes fuzis riscando o céu sombrio;
Em esmeraldas flui a água verde do rio,
E do céu, todo verde, as esmeraldas chovem...


Neste passo, explode o “alto clangor” sinfônico do esplêndido finale. Concentro-me na “voz, que na soidão só ele escuta, — só”, excluindo, na leitura, com vistas a uma condensação impressiva, duas ou três estrofes; essa Voz que lhe deu, mudamente, a missão que ele cumpriu sem o saber:

“Morre! morrem-te às mãos as pedras desejadas,
Desfeitas como um sonho, e em lodo desmanchadas...
Que importa? dorme em paz, que o teu labor é findo!
Nos campos, no pendor das montanhas fragosas,
Como um grande colar de esmeraldas gloriosas,
As tuas povoações se estenderão fulgindo!


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Morre! tu viverás nas estradas que abriste!
Teu nome rolará no largo choro triste
Da água do Guaicuí... Morre, Conquistador!
Viverás quando, feito em seiva o sangue, aos ares
Subires, e, nutrindo uma árvore, cantares
Numa ramada verde entre um ninho e uma flor!

Morre! germinarão as sagradas sementes
Das gotas de suor, das lágrimas ardentes!
Hão de frutificar as fomes e as vigílias!
E um dia, povoada a terra em que te deitas,
Quando, aos beijos do sol, sobrarem as colheitas,
Quando, aos beijos do amor, crescerem as famílias,

Tu cantarás na voz dos sinos, nas charruas,
No esto da multidão, no tumultuar das ruas,
No clamor do trabalho e nos hinos da paz!

E, subjugando o olvido, através das idades,
Violador de sertões, plantador de cidades,
Dentro do coração da Pátria viverás!”


Neste ponto o narrador (o eu narrador, ou eu épico, para se justapor ao eu lírico...) faz uma pausa, indicada por uma linha pontilhada, recupera o fôlego e retoma a própria voz, para colocar ponto final no poema (note-se o belo “enjambement interno” no terceiro verso):

Cala-se a estranha voz. Dorme de novo tudo.
Agora, a deslizar pelo arvoredo mudo,
Como um choro de prata algente o luar escorre.
E sereno, feliz, no maternal regaço
Da terra, sob a paz estrelada do espaço,
Fernão Dias Paes Leme os olhos cerra. E morre.


Mas o que vem a ser isto — o poema? Como discernir entre a versalhada rica em idéias, em tropos, em imagens, em rimas... e em boas intenções — do vero, do belo, do grande poema, da obra-prima poética?
É possível — e é fácil — medir a intensidade luminosa de uma estrela; mas que instrumento havemos para medir a intensidade da luz que emana do poema?
O poema é ou pode ser feito de qualquer coisa. “Tudo cabe no poema.” Mas o que importa não é a soma das partes que compõem esse todo. O que importa é o fruto da relação entre elas, é o equilíbrio — ou desequilíbrio! como na música entram harmonia e dissonância —, a fulguração áurea que as partes, isoladas, podem até não prefigurar, é esse quid, esse impalpável, essa fugidia razão, essa tensão alquímica que as transmuta em algo mais que uma operação aritmétrica, um objeto de beleza (a thing of beauty). O ser do poema implica tudo que se possa pôr nele, mas é, em verdade, de natureza estética. Entram nele ingredientes talvez indispensáveis, como o bom, o verdadeiro, quem sabe o que mais, mas a luz-síntese é estética, ou poema não há. (Em verdade, até o feio pode entrar na composição do Belo.) Mede-se isso? Como?
Elejo como princípio poético a máxima popular: “O que não mata engorda.” Isto é, o que não sobra no poema (ou do poema) o engrandece; ou pelo menos contribui para “engrossar o caldo”, para o seu arredondamento, para o seu aperfeiçoamento. E o que não sobra é o que se transforma em Beleza — naquilo que entendemos por Belo, e que é sempre elevado. A ressalva é necessária porque é esse um conceito muito subjetivo, e porque há quem ponha em suas alturas o simplesmente bonito. O bonito é o rés-do-chão da Beleza.

Bilac, assim como Coelho Neto, foi duramente criticado pelo Modernismo nascente. Pudera, celebrados como eram, formavam perfeitos alvos para a contestação, a insurgência. O primeiro não resistiu às investidas. Sua reputação jamais se recuperou totalmente. Bilac, arrasado por Mário de Andrade (nos termos que veremos adiante), era-lhe ao mesmo tempo objeto de veneração... Bilac sobreviveu no gosto popular, o que se reflete nas inúmeras reedições. Nos dias de hoje, não sei o que dizer. Os avanços de uma tecnologia universal, invasiva, afastam o homem da meditação, do silêncio — da poesia.
Sobre sua importância para nós, recolho palavras de um depoimento recente, de Fabio de Sousa Coutinho, em palestra no PEN Clube do Brasil, intitulada Muito Além do Parnaso: foi ele “.... um dos mais verdadeiramente imortais entre todos os poetas e escritores brasileiros. Bilac não foi só um poeta de seu tempo. Foi um poeta de todos os tempos.”
Num país de grandes poetas, foi grande, em que pese a mentalidade colonial de pensadores nossos incapazes de ver o que temos de original e de magnificamente realizado; a crítica superou a condenação modernista, mas assumiu, freqüentemente, um viés de condescendência que não faz jus ao seu porte; antes e depois da Semana, quase sempre esteve aquém de sua grandeza.
Opiniões menos calorosas encontramos em Sílvio Romero, José Veríssimo, Nelson Werneck Sodré (incompreensão extrema), Sérgio Milliet, Alfredo Bosi. Nestor Vítor, que, juntamente com João do Rio, Mário de Andrade, Humberto de Campos, Agripino Grieco, Manuel Bandeira e Ivan Junqueira, é transcrito na edição da Obra Reunida da Nova Aguilar (Rio, 1996; organização e introdução do poeta e ensaísta Alexei Bueno), chega a aparentar um tom de benevolência... De Grieco, tão ardente admirador de Castro Alves, com cuja cornucópia verbal se aparenta o Bilac dO Caçador de Esmeraldas, esperaríamos comentário menos comedido.
Mesquinhas opiniões. Prefiro a dos admiradores de mente e coração abertos:

Jackson de Figueiredo — “A figura de Olavo Bilac surge, em meio de nossa ansiedade poética, como a mais completa que, até hoje, temos tido, depois de Castro Alves... É o gênio da plasticidade, que já nos pertence integralmente. Impõe-se aos nossos ouvidos, à nossa memória, ao nosso coração, ao nosso espírito.” (Afirmações, Centro Dom Vital, Rio, 1924, pp. 45-68.)

Alceu Amoroso Lima — “Ficara muito atrás, na aurora da sua vida literária, o espoucar dos seus primeiros e sensacionais sonetos, que fizeram delirar a sua geração, com a ardente e paradoxal fusão do tropicalismo e do helenismo parnasiano. Com o correr dos anos, a musa se foi interiorizando, tornando-se menos chama e mais pensamento, menos forma exterior e mais fundo, menos brilho e mais interiorização. .... Bilac, desde 1907, previu esse novo destino do homem de letras, de descer de sua torre de marfim, para vir pugnar entre os homens, na luta perene entre o Bem e o Mal, entre o espírito de fé e o espírito de negação. .... homem que nos legou, sem dúvida, a mais bela lição de amor à Beleza e de culto ao Dever, conjugados em sua obra e em sua vida.” (Cit.)

Afrânio Peixoto — “Nunca, em nossa língua, em mais belos versos foram ditas e proclamadas expressões de amor, não amor subjetivo, mas amor real, amado, do que em Bilac.” (Apud Amoroso Lima, ob. cit.)

Ivan Junqueira — Das melhores coisas que se escreveram sobre o Poeta é o ensaio “Bilac: Versemaker” (O Encantador de Serpentes, Alhambra, Rio, 1987). Falando sobre o “nunca assaz louvado, conquanto não de todo compreendido, ‘O Caçador de esmeraldas’”, diz que, na cena do delírio, consegue o Poeta “um verdadeiro sacre du vert, e os alexandrinos que o sustentam talvez só não sejam modernos por serem alexandrinos”. E pontifica, seguro: “Que importa? São versos. Versos esplêndidos como apenas ele e mais uns poucos souberam fazer. Ele, o fabbro, o fabricateur, o versemaker.” Noutra passagem, diz ter sido ele “o criador de alguns dos mais plásticos e coloridos versos jamais escritos em língua portuguesa”.

Mário de Andrade — Excluídas as restrições, ditadas, diria, pela posição de liderança de um movimento renovador das letras, nosso extraordinário polígrafo escreveu o maior, o mais abrangente (e correto) panegírico de Bilac.
A página de Mário sobre o Poeta é um misto de extremado amor e impulso iconoclasta que beira a insânia. Sua crítica entremeia um discurso laudatório de numerosos alanceamentos desprezivos. Transita do mais alto e bem fundamentado elogio à mais desrefinada objeção — como uma empresa de guerra, pela obrigação de destruir o ídolo, atrevo-me a sugerir. Tarefa razoavelmente fácil, já que na humana seara não há trigal sem joio. Comparo essa página, ela mesma, a um campo de trigo infestado da praga. Arrancada esta, resta uma celebração extremosa, de tudo o quê dou um apanhado.
Começa dizendo que Bilac é “um dos bons poetas brasileiros”, mas não “dos maiores”. E segue: “Bilac entusiasmou-me; atrai-me ainda... Não me prende, porque raro me comove. Mas não sei bem por que não me comove. Talvez a excessiva perfeição. Talvez. Acho mesmo que é isso.” Vem depois uma gangorra sistólico-diastólica de exaltados elogios e ásperas censuras. Elejo para transcrição, apenas, alguns dentre os primeiros, considerando-os bastantes para postar o Poeta nos pináculos do Panteon da Poesia:
“.... que técnica formidável! Não é preciso buscar mais o século XVIII italiano para se compreender o prestígio que exerce sobre as turbas e mesmo sobre a ‘gente boa’ um ‘virtuose’ perfeitamente habilitado. Inteligentíssimo, estudioso, paciente, o tapeceiro de ‘As viagens’ adquiriu uma facilidade, uma segurança, uma perfeição tal no manejo do alexandrino, e mesmo de outros metros, que confina com a genialidade. Se quiserem: Bilac é o malabarista mais genial do verso português. Outro nenhum existe que se lhe compare na língua; e mesmo fora desta, poucos emparelhariam com ele nas línguas que sei. Um há que o supera, um apenas: Victor Hugo. Note-se que falo da perfeição técnica no manejo de metros conhecidos. ....
“‘O caçador de esmeraldas’ é sob esse aspecto o esplendor dos esplendores. Que realização integral da Beleza! Fascina e deslumbra. Mas seria injustiça consagrar o poemeto só como realização do Belo. Na fala sobrenatural que consola a morte de Fernão Dias, há mesmo uma comoção ondulante, uma frescura impetuosa de mar ....
Sinto que o sonetista admirável da ‘Via Láctea’ devia ter amado, e muito, para escrever esses fortes e comoventes decassílabos. E há no poemeto uma grande originalidade. É todo perfumado por uma alegria sã, por uma jovialidade transparente, natural, comunicativa. ....
Há no livro que analisei [Tarde] alguns poemas admiráveis. Fora injustiça passar em silêncio essa verdade. Não só pela perfeição técnica, valem eles; mas pela idéia também. Assim ‘Ciclo’, ‘Língua portuguesa’, ‘Dualismo’, ‘Respostas na sombra’ (talvez pela maneira com que o ouvia recitar numas reuniões dominicais de que me não esqueço), ‘A um poeta’ e o formidável ‘O cometa’.
Quando devorei Tarde pela primeira vez, o meu pensamento parou estarrecido (não sei se me compreendem) diante destes versos:

Um cometa passava... Em luz, na penedia,
Na erva, no inseto, em tudo uma alma rebrilhava;
Entregava-se ao sol a terra, como escrava;
Ferviam sangue e seiva. E o cometa fugia...

Assolavam a terra o terremoto, a lava,
A água, o ciclone, a guerra, a fome, a epidemia;
Mas renascia o amor, o orgulho revivia,
Passavam religiões... e o cometa passava,

E fugia, riçando a ígnea cauda flava...
Fenecia uma raça; a solidão bravia
Povoava-se outra vez. E o cometa voltava...

Escoava-se o tropel das eras, dia a dia:
E tudo, desde a pedra ao homem, proclamava
A sua eternidade! E o cometa sorria...


Reli. Tornei a ler. Creio mesmo que treli. Qual! não compreendia! Que diabo! Olavo fizera simbolismo! ou coisa que o valha? Não podia ser! Reli. Qual! não entendia! Senti que me pesava a minha alma parnasiana! Joguei-a fora. Eureca! Esplendor! Fecundação! As palavras brilhavam como vidas. As idéias palpitavam como profecias.”
(Excertos de “Mestres do Passado – IV: Olavo Bilac”, in Obra Reunida cit., pp. 37-46.)

A beleza que percorre a obra poética bilaquiana já foi convincentemente exemplificada. Mas ainda com uma composição gostaria de ilustrá-la, o soneto “Nel Mezzo del Camin...”, das Sarças de Fogo, com o título dantesco, a construção quiásmica do quarteto inicial, o enjambement em que o autor era mestre, no segundo, a superação de um lugar-comum nos tercetos de fecho de ouro, o conjunto aureamente impactante de musicalidade e lirismo. Era também da especial predileção de nosso saudoso Miketen, Antônio Roberval Miketen, que em torno dele construiu o ensaio crítico “Bilac — o Poeta da Estruturação” (Enigma e Realidade, Thesaurus, Brasília, 1983, pp. 21-35):

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que o teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.


Não faltam observadores que enxergam na poesia de Bilac uma planície em que não sobressai sequer uma colina erguida por preocupações de natureza filosófica, lato sensu. Não veem bem. Na fase anterior a Tarde, sim, predominam largamente o narrativo, o descritivo, o épico, o lírico, o erótico; nesse livro, entretanto, principalmente nos poemas derradeiros, o relevo ganha elevações desse tipo. E são exemplares magníficos. Não vamos fazer o levantamento orográfico, mas gostaria de exemplificar a dúvida e a esperança metafísicas com dois desses sonetos.
A dúvida, vejo-a embutida na ironia que perpassa os versos de “O Cometa”, lido há pouco, na citação de Mário de Andrade. Um de seus mais gloriosos píncaros. Para a esperança, hesito entre o heróico de “Os Sinos” ou de “Sinfonia” e o também vibrante “Introibo!”, pelo qual acabo me inclinando, por me parecer que, afinal, transita da aspiração para a fé:

Sinto às vezes, à noite, o invisível cortejo
De outras vidas, num caos de clarões e gemidos:
Vago tropel, voejar confuso, hálito e beijo
De cousas sem figura e seres escondidos...

Miserável, percebo, em tortura e desejo,
Um perfume, um sabor, um tato incompreendidos,
E vozes que não ouço, e cores que não vejo,
Um mundo superior aos meus cinco sentidos.

Ardo, aspiro, por ver, por saber, longe, acima,
Fora de mim, além da dúvida e do espanto!
E na sideração, que, um dia, me redima,

Liberto flutuarei, feliz, no seio etéreo,
E, ó Morte, rolarei no teu piedoso manto,
Para o deslumbramento augusto do mistério!

E seja esse o ponto final de minha evocação do venerando mestre.

                                                              Brasília, outubro-novembro de 2018