sábado, 19 de maio de 2018

DISCURSO DE RECEPÇÃO ACADÊMICA A ALAOR BARBOSA NO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO DISTRITO FEDERAL


Por Anderson Braga Horta


Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal,
em 1º de setembro de 2010
 


O conto, o romance, o ensaio, a biografia, a história literária, eis os amplos territórios do país das letras dominados por Alaor Barbosa. Sua obra é vasta, não teria como analisá-la, aqui e agora — ainda que me socorresse envergadura para tanto —, em toda a sua extensão e profundidade. Jungido por limitações pessoais e circunstanciais, tentarei, todavia, dar de seus méritos uma ideia, e ficarei feliz de lhe conseguir traçar, ao menos, um adequado panorama. Antes, porém, vejamos alguns pontos da trajetória de vida desse brilhante jornalista e advogado goiano, com vivência carioca, petropolitana e, há quase três decênios, para alegria nossa, brasiliense. 

Alaor Barbosa dos Santos nasceu em Morrinhos, em 13 de março de 1940, de ascendência mineira, por parte do pai, Aristides Ferreira Barbosa, também nascido naquela cidade goiana, e paulista, de Igarapava, pelo lado da mãe, Eliza Maria de Oliveira. Casou-se em 1965 com Maria Gonçalves Ribeiro, que lhe deu os filhos Noêmia, Luciano e Hermano. Seus dois irmãos vivos, Eurico e Geraldo Barbosa dos Santos, têm fortes ligações com Brasília. Geraldo veio para a nova capital na primeira hora, em 1960, e aqui reside; é funcionário aposentado da Câmara dos Deputados. Eurico Barbosa é escritor, e como o irmão mais novo, que ora é o foco de nossas atenções, membro da Academia Goiana de Letras e sócio da ANE — Associação Nacional de Escritores, aqui sediada. 

Advogado desde 1964, tornou-se Alaor, vinte anos mais tarde, por concurso, procurador do Incra em Brasília, e, em seguida, consultor legislativo do Senado Federal, cargo em que se aposentou em 1993. É membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores, de São Paulo, e de nossa ANE. Em 23 de agosto último recebeu da Câmara Municipal de Goiânia o título honorífico de Cidadão Goianiense. E no próximo dia 9 será recebido por Danilo Gomes na Academia de Letras do Brasil, dos saudosos Almeida Fischer e José Geraldo Pires de Mello. 

Começou a escrever precocemente, como jornalista, desde os 13 anos de idade, na terra natal e depois em Goiânia e no Rio de Janeiro. Seu primeiro conto data dos 15 anos. 

A propósito de conto e de jornal, registro coincidência que tem um aspecto lastimável, marcadamente para nós que vivemos a época dos grandes jornais do Rio de Janeiro e, profissionalmente e como colaboradores literários, participamos de sua vida. Alaor Barbosa, colaborador que foi do prestigioso Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, nele estreou, em 1959, com um conto neoconcretista. O dia de hoje, 1º de setembro de 2010, em que nos ocupa este breve levantamento de sua carreira literária, é a data anunciada da morte do JB... 

É opulenta a bibliografia de Alaor Barbosa, quase toda vinda a público em Goiânia, mas com alguns títulos lançados no Rio e em Brasília. Seu primeiro livro, Monteiro Lobato das Crianças, editou-se no então Distrito Federal, em 1960, tendo tido reedições, em 1969 e 1975, na capital goiana. Em 1964 vêm os contos de Cidade do Tempo, cujo título mudou, sucessivamente, para Caminhos de Rafael (1965) e A Espantosa Realidade. Seguem-se Picumãs (contos, 1966), reeditado trinta anos depois no Rio de Janeiro; Confissões de Goiás (ensaios, 1968); Campo e Noite (contos, 1971); Rui Barbosa, Pensamento em Ação (1975). O primeiro romance, O Exílio e a Glória, virá em 1980. No ano seguinte edita-se A Epopeia Brasileira ou: Para Ler Guimarães Rosa. Em 1983 publica dois livros: Os Rios da Coragem (contos) e Saci e Romãozinho (texto para crianças). Em 1984 é a vez de Pequena História da Literatura Goiana (para a Infância e a Juventude). Novos contos em 1985: Praça da Liberdade. De 1991 é Meu Diário da Constituinte (Brasília), de 1994 O Ficcionista Monteiro Lobato (São Paulo). A Morte de Cornélio Tabajara, romance distinguido em 1997 com o Prêmio Cora Coralina, da Fundação Cultural Pedro Ludovico Teixeira, de Goiás, é editado um ano após. Outro romance em 1999, as Memórias do Nego-Dado Bertolino d’Abadia. O ensaio volta a sua bibliografia em 2002, com Um Cenáculo na Pauliceia (Um Estudo sobre Monteiro Lobato, Godofredo Rangel, José Antônio Nogueira, Ricardo Gonçalves, Raul de Freitas e Albino de Camargo). Publica em Brasília, em 2004, o romance Uma Lenda; em 2006, Contos e Novelas Reunidos; e, pela LGE, Sinfonia Minas Gerais: A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa. Fecha o conjunto (por enquanto) seu romance Eu, Peter Porfírio, o Maioral, finalista do Prêmio Leya, com o selo Dom Quixote (Portugal, 2009). 

Sua fortuna crítica inclui nomes conhecidos e reconhecidos como Adelto Gonçalves, Antônio Olinto, Assis Brasil, Brasigóis Felício, Carmo Bernardes, Emanuel Medeiros Vieira, Fernando Py, Francisco Miguel de Moura, Gabriel Nascente, Gilberto Mendonça Teles, Hélio Pólvora, João Carlos Taveira, José Edson Gomes, Manoel Hygino dos Santos, Manoel Lobato, Nelly Novaes Coelho, Ronaldo Cagiano, Wilson Martins. Está nos dicionários de Bariani Ortêncio, Luiz Carlos Guimarães da Costa, Napoleão Valadares e Raimundo de Meneses, e na enciclopédia da Oficina Literária Afrânio Coutinho. 

O Ensaísta 

A vertente ensaística é de notória importância na obra de Alaor Barbosa, não só por assinalar o gênero de sua estreia (pois como ensaio biográfico podemos classificar o Monteiro Lobato das Crianças), como pelo mérito intrínseco dos livros que a representam. Essa vertente nos mostra um escritor interessado de preferência — não exclusivamente! — em autores e aspectos da literatura de seu país, notadamente aqueles mais umbilicalmente ligados à realidade pátria — social, telúrica ou linguística. Não por acaso escolheu a figura de Monteiro Lobato, de caráter vincadamente nacional e rasgos nacionalistas, para foco primeiro de sua privilegiada visão crítica. Sua admiração pelo genial construtor do Sítio do Picapau Amarelo e gerador de seus maravilhosos habitantes (a par de contista, autor pioneiro de science-fiction no Brasil e homem de ação), não lhe rendeu apenas o trabalho inicial, mas prossegue frutuosa: num ensaio (que ele, despretensiosamente, chama de “nota”) incluído em Confissões de Goiás, num volume todo dedicado ao ficcionista Monteiro Lobato e em Um Cenáculo na Pauliceia, cujo primeiríssimo conviva era o “pai” de Narizinho, da boneca Emília e do Visconde de Sabugosa, entre muitas criações igualmente encantadoras. Outra de suas devoções maiores é o mestre brasileiríssimo e universalíssimo de Sagarana e Grande Sertão: Veredas, personagem dos estudos — feitos, como sempre, com a mente e o coração — Para Ler Guimarães Rosa e Sinfonia Minas Gerais. O mineiro está também presente nas Confissões: “Conversando com Guimarães Rosa”. 

Para exemplificar esse lado da literatura de Alaor, escolho um trecho da “Nota sobre Monteiro Lobato Contista”, das mencionadas Confissões de Goiás
Regionalista? Lobato era muito artista para ser um escritor regionalista ou regional. Não vejo nos contos dele os sinais identificadores de uma obra regionalista. Reduzi-lo à condição e estatura de um escritor paulista do vale do Paraíba é descabido, injusto, errôneo. A chamada “cor local” existe nos seus contos — a cor local do vale do rio Paraíba do Sul. Porém, e daí? Toda obra literária tem cor local. Aliás: rara a obra literária que a não tem. Nem é regionalista Lobato, nem a cor local é essencial ao regionalismo. O escritor regionalista é um escritor menor. Não existe essa dicotomia regionalismo-universalismo. Uma obra literária verdadeira é universal em essência, ainda que contenha elementos regionais. A obra que se puder ou dever classificar como regional é obra documental, de valor extraliterário. A arte é de natureza universal: se uma obra é de arte, ela é universal, não tem jeito de não ser. Mesmo que a área compreendida por uma obra de arte não seja senão a área de um quintal de uma casa qualquer, numa fazenda qualquer em qualquer cafundó, se essa obra é artística ela é universal.

A escolha dessas breves linhas não é casual. É, aliás, interesseira, porque me poupa o trabalho de desenvolver considerações — que haveriam de ser semelhantes — à obra ficcional de Alaor, por lhe serem, penso eu, aplicáveis. 

O Contista 

A despeito do alto valor de sua ensaística, penso que os méritos de escritor de Alaor Barbosa têm sua melhor expressão nas formas do gênero narrativo — o conto, a novela, o romance. 

Como contista, sua produção é simples e elegante, variada e volumosa, destacando-se pelas qualidades de linguagem — seja a do narrador, culta, porém sabiamente “contaminada” pela das personagens, seja a dessas personagens, colhida do mundo real, mas sem subserviência naturalista —, pela vitalidade das histórias, da psicologia e da fala, próprios das terras centrais que são o mundo do autor (aspectos, estes últimos, configuradores de um certo regionalismo, é verdade, mas com as ressalvas do fragmento sacado às Confissões de Goiás), e — digo ao fim, mas com ênfase — pela habilidade na tessitura da trama, capaz de suscitar e manter a atenção e o interesse do leitor. 

Para exemplificar essas virtudes narrativas, leio um pouco de “Minha Pobre Gente” (de Picumãs, na transcrição de Contos e Novelas Reunidos), ressaltando o diálogo decisivo entre Olimpiano e Delcídia, sua enteada, ou melhor, sua “em-lugar-de-enteada”, na saborosa expressão do narrador: 
Um tição, quebrada a brasa, descai dentro do fogão: o fogo se realça por um instante. Olimpiano — tonto, a cabeça pesada — só percebeu o clarão maior. Ele sofre uma tristeza esquisita, que conhece bem: uma vontade de chorar. Bem que preferia não estar bebo. Agora não podia reclamar: a culpa era dele: quase esvaziou sozinho uma garrafa de pinga. O conhaque foi mais a mulher quem tomou. E até a Delcídia.
Sentados ali na cozinha, os três. O silêncio enche a casa.
....
Delcídia escutou um ruído de porta: Olimpiano veio do quarto, cerrou a porta, passou e foi ao quintal. Ela escuta: ele entrou na casinha da privada. Sem demorar ele torna a aparecer.
— Sem deitar até agora!... Sua mãe já pegou no sono — diz Olimpiano, muito atencioso.
— Eu até tô com sono, mas tô com uma preguiça de deitar...
Olimpiano senta no rabo do fogão.
— Ocê num vai dormir não? — pergunta Delcídia.
— Vou.
Olimpiano passa para uma cadeira mais perto, e se esquece olhando para o telhado com os olhos meio fechados como quem quase dorme. Um pouco de tempo se escoa. Um galo canta em algum quintal perto. Delcídia pensa vagamente que cantiga de galo fora de hora é sinal de... de: morte. Será quem morreu?, ela se indaga. Rumores de vozes vêm de longe — das portas das ruas. A luz fraca da lâmpada dói nos olhos de Olimpiano e Delcídia: os dois ali à toa, sem assunto, esperando nada.
Delcídia suspira fundo e exclama baixinho: “Êh, meu Deus!”
— Quê que foi? — Olimpiano indaga com uma intencional amizade na voz, uma bondade, um interesse, uma emoção diferente: uma ternura.
— Nada, sô. Tô triste, só isso — responde Delcídia.
Olimpiano passa a mão nos olhos, esfrega bem, sacode a cabeça, abre os olhos direito como se revisse o mundo: a cozinha, Delcídia, o fogão com pouco fogo.
Mais algum tempo se esvai. Olimpiano põe os cotovelos em riba da mesa e olha para Delcídia. Quando deu fé, já falara:
— Vamos fugir nós dois?
E Delcídia responde:
— Vamos.

O Romancista 

Com cinco romances publicados, pelo menos dois deles detentores de prêmios no Brasil e no exterior, podemos dizer que Alaor Barbosa conquistou mestria também nessa modalidade narrativa. 

Para dizer de sua qualificação como romancista, passo a palavra ao ilustre autor de História da Inteligência Brasileira, com isso acrescentando ao tributo rendido ao nosso escritor uma homenagem ao crítico e ensaísta literário há pouco desaparecido. Dentre os vários artigos em que Wilson Martins focaliza o trabalho de Alaor, seleciono o que apareceu em sua coluna em O Globo de 18 de novembro de 2000, com o título “Provinciais e Provincianos”: 
Na linha do romance provincial brasileiro, ignorado pela crítica metropolitana e pelos suplementos chamados de cultura, Alaor Barbosa é daqueles autores que ainda não receberam a atenção que merecem. O “provincial” distingue-se, ao mesmo tempo, do “provinciano” e do “regional”, um e outro limitados, no primeiro caso, pela estreiteza de horizontes, e, no outro, pelo pitoresco folclórico. Romancistas provinciais, ao contrário, escrevem o romance como obra de arte literária e estudo de psicologia, propondo, em cada caso, um testemunho do humano, podendo chamar-se Balzac ou Thomas Hardy, Eça de Queiroz ou Dostoievski, Graciliano Ramos ou Giovanni Verga.
Pertencendo a essa família, Alaor Barbosa é o romancista da província de Goiás, onde nada do que é humano lhe será estranho. É o autor de Caminhos de Rafael (1995), A morte de Cornélio Tabajara (1998) e agora de Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia (Goiânia: AB, 1999), “memórias do singularmente aventuroso e desventurado goiano de Imbaúbas anotadas pelo ilustre advogado Rafael Santoro Noronha”. Somente após a morte de Bertolino, esclarece o anotador, “vim a saber que Ivo Menezes era — por astúcia do narrador — fictício”.
O autor assegura que Bertolino não é personagem inventado:
"Ele existiu. Nascido, criado e vivido em Imbaúbas, pequena cidade situada na zona sul do estado de Goiás, fez-se muito conhecido dos seus conterrâneos. Ainda hoje muita gente lá se lembra daquele homem enorme, possuidor de várias singularidades e peculiaridades individuais extremamente marcantes e notáveis, e que, por causa disso, viveu uma vida bem diferente de quase todos os demais filhos de Imbaúbas."
Segundo a fórmula consagrada da picaresca, Bertolino é praticamente um enjeitado, criado de favor por parentes e amigos enquanto se encaminhava para uma existência em que os episódios se sucedem por aluvião, sem qualquer conexão orgânica entre eles. Que é um “nego-dado”? Eram coisas que aconteciam antigamente: “Pai, ou mãe, não podia sustentar direito, entregava o filho a uma família com mais recursos — rica ou remediada. Teve muitos aqui, antes e depois de mim [...]” Já adulto, dizia-se que ele “só gostava de rico”, vivendo “no meio das famílias mais abastadas, na Avenida, em redor da igreja, na Rua das Vendas. Anda muito com o Doutor Bonifácio Torres [...] Nas eleições de 1945 e de 1947 eu ouvi falar muito dele como uma espécie de jagunço dos chefes do PSD [...]
Essa vida de aventuras, espertezas e golpes variados (sem excluir o crime) terminará tragicamente:
"Ele foi assassinado quando estava sentado, na sua costumada cadeira, na banda de fora da sua casa [...] A polícia suspeitou primeiro de um tal Alonso Luís Carneiro, com cuja mulher Bertolino mantinha um caso notório havia alguns anos. Mas, sem muita demora, descobriu-se e prendeu-se o autor do homicídio, Flavo Fagundes, que confessou ter matado Bertolino a fim de vingar a morte de seu irmão mais velho [...]."
Alaor Barbosa escreveu com vivacidade e felicidade de estilo o que é também o romance da vida política numa pequena cidade do interior. Romance provincial, como fica dito...

É esse, em sucinto escorço, o perfil do ilustre intelectual que recebemos hoje, na cadeira de que é patrono o político e escritor goiano Domingos Velasco. A vaga que ocupa é a de Joanyr de Oliveira, ex-presidente da ANE — Associação Nacional de Escritores, admirável poeta e contista mineiro-brasiliense, que teve atuação literária e política também no Estado de Goiás. 

A presença de Alaor Barbosa em seus quadros constitui, doravante, um dos motivos de orgulho do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. 

Fonte: HORTA, Anderson Braga: Do que é feito o Poeta, Brasília: Thesaurus, pp. 151-160 (de um total de 412 páginas), 2016.

terça-feira, 15 de maio de 2018

A NOSSA VENDÊA


Por Euclides da Cunha
 


I. Introdução por Francisco José dos Santos Braga 

O ensaio conhecido por “A nossa Vendêa” foi originalmente publicado em O Estado de S. Paulo, em 14 de março de 1897, p. 1. Sua continuação aparece posteriormente, com outro título, ou seja, como “Canudos (Diário de uma expedição)”, escrito em 07/08/1897, publicado pelo mesmo jornal apenas em 23 de agosto de 1897, p. 1. 

Aqui será reproduzido todo o texto disposto nas duas partes, como saiu publicado com a grafia de época, de acordo com o acervo de O Estado de São Paulo.

Em primeiro lugar, por que Euclides usou um título tão incomum? Se Vendêa se inicia por letra maiúscula, supostamente deve tratar-se de um topônimo, talvez não no Brasil, mas em algum outro lugar. Vendée, usada como título do ensaio por Euclides, é uma região que se revoltou contra a Revolução francesa. É um episódio da história universal que durou de março de 1793 a fevereiro de 1795, e que constituiu uma ameaça à Revolução francesa.  Como bem se expressou [VENTURA, 1990, 130], o movimento rebelde da região de Vendée foi uma sublevação camponesa, de caráter realista e católico. De modo semelhante à Revolução Francesa, estaria a recém proclamada República brasileira em perigo, a partir da manipulação política do movimento de Canudos por uma conspiração monárquico-restauradora, de acordo com Euclides no seu ensaio "A nossa Vendêa": "Como na Vendêa o fanatismo religioso, que domina as suas almas ingênuas e simples, é habilmente aproveitado pelos propagandistas do Império". Daí, a expressão usada por Euclides, "a nossa Vendêa", para a guerra de Canudos.  

Fonte: http://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/70057

[LINTON, 1988], no artigo intitulado “Victor Hugo, Ninety-Three (Quatrevingt-treize)” explica como surgiu essa insurreição da Vendée, França, que aqui aborda resumidamente: 
“(...) A principal descrição desse movimento rebelde encontra-se na obra “Noventa e Três”, última novela de Victor Hugo, publicada em 1874, doze anos após “Les Misérables”. Embora ele tenha originalmente concebido a ideia para essa novela vários anos antes da Comuna de Paris de 1871, sem dúvida ele tinha a Comuna em mente quando escreveu a novela, sobretudo a terrível semana em maio de 1871 quando muitos milhares de insurretos foram mortos nas ruas de Paris. Hugo tinha visto as Revoluções de 1830 e 1848 em primeira mão; acreditava apaixonadamente que a causa revolucionária era justa, e que no final triunfaria. Em “Noventa e Três”, seu tema foi a primeira Revolução francesa. Sua tarefa podia ter sido mais agradável, caso tivesse ambientado sua novela em 1789, a época de franco otimismo em que, para invocar a frase frequentemente usada desde então, a França dava ao mundo “liberdade, igualdade, fraternidade e os direitos do homem”. Mas isso não foi o caminho trilhado por Hugo. Ele não fugiu do tempo, só que quatro anos mais tarde, quando a violência política, traição e terror passaram à frente do idealismo primitivo. Tomou como tema um dos momentos mais negros da Revolução: as guerras revolucionárias no departamento da Vendée e na vizinha Bretanha.
Surpreendem-se os pesquisadores com o fato de que, de longe, a maior perda de vida na Revolução francesa não aconteceu em Paris, onde, exceto para as angustiantes semanas de junho e julho de 1794, relativamente poucos contra-revolucionários foram enviados à guilhotina, mas sim na guerra civil na Vendée, que começou em 1793 como uma rebelião camponesa. A população local rejeitou as demandas da Revolução, numa reação furiosa e espontânea ao recrutamento de 300.000 homens à batalha contra os exércitos estrangeiros que tinham atravessado as fronteiras francesas. Tanto camponeses na Vendée quanto chouans na Bretanha se engajaram numa campanha tipo guerrilha contra os soldados da Revolução, usando quaisquer armas que viessem a suas mãos. (...)
A história pessoal de Hugo estava ligada à história traumática da Vendée, pois seus pais se envolveram no conflito, embora em lados opostos. Sua mãe provinha de uma família burguesa bretã, originalmente de Nantes, uma fervorosa monarquista e católica devota. O pai de Hugo era um soldado de carreira proveniente de uma família de militares; em 1793, com vinte anos de idade, conduziu um batalhão contra os insurretos na Vendée. Os pais de Hugo se encontraram em 1796 e se casaram no ano seguinte, embora cada um por seu lado mantivesse suas opiniões sobre política, diferindo muitas vezes, o que deve ter sido desconfortável para Hugo e seus irmãos. Aquelas perspectivas em choque continuaram a ressoar dentro do escritor. É este conflito interno que dá a “Noventa e Três” sua grande força: percepção de Hugo sobre os motivos dos protagonistas e sua capacidade de simpatizar com ambos os lados da divisão política: o velho mundo e o novo. (...)


[MINEIRO, 1988], em artigo intitulado “Brasil. Antônio Conselheiro: Canudos – A nossa Vendeia”, escreve, agora, sobre o contexto brasileiro da produção de “A nossa Vendêa”: 
“Antes de iniciar sua expedição pelo sertão baiano, como correspondente especial do jornal Estado de S. Paulo, Euclides da Cunha acompanhava o desenrolar dos acontecimentos da Guerra de Canudos.
Leitor atento, conhecedor arguto de inúmeros ramos da ciência, recebia as informações detalhadas dos grandes jornais do país. De acordo com o que lia, formou sólida convicção de que Antônio Conselheiro era um fanático religioso, que arregimentara as ignorantes massas sertanejas com o objetivo de restaurar a monarquia no Brasil.
O fato do Exército Republicano ter sido derrotado em duas expedições contra os revoltosos era mais uma comprovação que Conselheiro e seus sequazes estariam recebendo apoio estrangeiro de Portugal e, possivelmente, da Inglaterra.
A caminho de Canudos, Euclides da Cunha, primeiramente, travará conhecimento com o espetacular e assombroso ambiente sertanejo. Em um artigo intitulado "A nossa Vendeia", descreve em detalhes o terreno e as formações geológicas, embora ainda não conhecesse a genealogia do povo do sertão. Nas dificuldades do caminho, encontra explicações para os atrasos das forças republicanas: não poderiam ter avançado mais rápido.
Por fim compara a missão heroica do exército brasileiro, com a clássica revolução burguesa francesa. Canudos seria, portanto, "a nossa Vendeia", cidade francesa onde a população local com o apoio da Igreja Católica e da aristocracia prepara uma reação contra a revolução de 1789. Vendeia fora esmagada, Canudos deveria ter o mesmo destino. Assim como na França, seria na derrota de Canudos que a República se consolidaria no Brasil. (...)
Fonte: http://2014.kaosenlared.net/kaos-tv/42274-brasil-antonio-conselheiro-canudos-a-nossa-vendeia
40º Batalhão de Infantaria na trincheira em 1897 - Crédito: Flávio de Barros/Brasiliana Fotográfica Digital/Museu da República
 

[MOREIRA, 2007, 354 pp.], em sua tese de doutorado em História intitulada “A nossa Vendéia: o Imaginário social da Revolução francesa na Construção da Narrativa de Os Sertões”, discutiu os influências do imaginário social da Revolução francesa sobre o processo de construção da narrativa da Guerra de Canudos (1896-1897), em Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha. A partir desse escopo problematizam-se algumas das relações que vinculam as narrativas históricas e os relatos imaginários no corpo da obra citada, destacando a força das imagens relacionadas à Revolução de 1789 na tessitura do enredo euclidiano.  

[MOREIRA, idem, 96] considera que Euclides, ao postular as relações de identidade entre Canudos e a Vendée, desferiu um golpe fatal nos opositores da República:  
“(...) Ao mesmo tempo em que clamava pela defesa da legalidade, (o jornalista Euclides) desqualificava os adversários do florianismo, estigmatizando-os como ‘conspiradores’, ‘perturbadores’, ‘agitadores’, ‘criminosos políticos’, ‘sediciosos’, ‘delinquentes impalpáveis’ e outras adjetivações nada lisonjeiras. Esses raciocínios simbolizavam a lógica maniqueísta que se apossou do imaginário do jovem militar, segundo a qual a oposição não passava de ‘uma aglomeração fortuita de alguns indivíduos animados de despeitos comuns.’ Certamente, o mais potente ataque desferido por Euclides contra os inimigos foi a analogia que estabeleceu entre os adversários do governo (republicano) e os camponeses católicos e realistas da Vendéia (1793-1796), que se rebelaram contra a Revolução francesa. (...)
 
[MOREIRA, idem, 102] trata agora especificamente do ensaio intitulado “A nossa Vendêa”: 
“(...) Envolvido por essa atmosfera de comoção nacional e ecoando a campanha de manipulação da opinião pública pelos órgãos da imprensa (fatores que mereceram a sua impiedosa crítica nas páginas de Os Sertões), escreveu um ensaio intitulado “A Nossa Vendéia”, publicado em duas partes, nas edições de 14 de março e 17 de julho de O Estado de São Paulo. No corpo desse trabalho, estabeleceu analogias entre a revolta dos camponeses da região da Vendéia, no oeste da França, e o movimento de Canudos. Assegurava que o homem e o solo justificavam a aproximação histórica expressa no título escolhido. Assim como ocorrera com as massas rurais vendeianas, o fanatismo religioso que dominava as “almas ingênuas e simples” dos sertanejos era habilmente aproveitado pelos propagandistas da restauração monárquica. Destacava que a “coragem bárbara e singular” de chouans e de tabaréus se aliava com um terreno impraticável, desfavorável às tropas republicanas francesas e brasileiras. Apesar dos percalços, vaticinava: “A República, sairá triunfante desta última prova. A metáfora da Vendéia fazia sua segunda – e mais espetacular – aparição nos escritos euclidianos... Assim, sob a pena de Euclides, Canudos transformou-se numa usina produtora de ensaios, artigos, reportagens e telegramas. De março a julho de 1897, antecedendo ao seu envio à Bahia, escreveu, além de “A Nossa Vendéia”, seis artigos para O Estado de São Paulo. Como correspondente de guerra, fez publicar trinta e dois artigos e cinquenta e quatro telegramas, com breves notícias sobre o conflito. Ainda enviou três telegramas a Campos Sales, governador de São Paulo, reproduzidos pelo Estado. Ao todo, foram trinta e quatro artigos e cinquenta e sete telegramas sobre Canudos escritos para o periódico de Júlio Mesquita.
O ensaio “A Nossa Vendéia”, recheado de alusões e de citações referentes a cientistas, naturalistas e viajantes, tais como Karl von Martius (1794-1868), Augustin de Saint-Hilaire (1779-1853), Alexander von Humboldt (1769-1859), Joaquim Caminhoá (1836-1896) e David Levingstone (1813-1873), certamente foi decisiva para a contratação de Euclides como correspondente de guerra de O Estado de São Paulo. (...)” 
Fonte: http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/280400/1/Moreira_RaimundoNonatoPereira_D.pdf 

[DAIBERT, 2004, 77], apud José Murilo de Carvalho, in A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil, pontua que, embora não se possa falar, de fato, na existência de um único modelo francês de inspiração para a República, pois havia algumas derivações do modelo norte-americano, a verdade é que os países da América Latina apropriavam-se de elementos da Primeira e da Terceira Repúblicas francesas e empreendiam adaptações em função de interesses específicos. 

O estado de espírito de Euclides a bordo do vapor Espírito Santo, em direção à Bahia, escrevendo Canudos (Diário de uma Expedição) em 7 de agosto de 1897, segundo [DAIBERT, idem, 68], era o seguinte: 
deparava-se, de um lado, com uma insurreição que, a seu ver, assolava o país, de outro percebia um governo incapaz de combater os insubordinados. Há uma missão a ser cumprida. Como um guerreiro, dirige-se à batalha. Tem consigo mesmo o compromisso de levar a civilização até a barbárie. Em suas reportagens, defende a superioridade dos ideais republicanos diante das questões pessoais (...)
Naquele momento, na visão de Euclides, os perturbadores do novo regime precisavam ser exterminados a todo custo. Vindo de uma enchente de notícias divulgadas, das quais ele mesmo constituíra-se autor, Euclides encontrava-se entusiasmado e disposto a combater os males que afligiam o novo regime. As saudades seriam superadas quando o dever fosse cumprido. O sacrifício pelo ideal era visto como mais importante do que as questões pessoais. Era a luta do bem contra o mal, visão dicotômica que também aparece como motivação para a guerra da Vendeia. É curioso perceber a proximidade de tal compreensão, nas palavras de Victor Hugo, que emite o seguinte juízo sobre o movimento francês: 'as ideias gerais odiadas pelas ideias parciais, eis aí a síntese da luta pelo progresso. Terra natal, Pátria, palavras que resumem toda a guerra da Vendeia; luta da ideia local contra a ideia universal: camponeses contra patriotas.' (HUGO, Victor, s.d., p. 102)
* Trecho extraído de HUGO, Victor. Obras Completas. Vol XIII. Noventa e três. Tradução de Oscar Paes Leme. São Paulo: Editora das Américas, s.d. 

Fonte: https://locus.ufjf.emnuvens.com.br/locus/article/view/2497


O ponto de vista de Euclides, pelo menos antes da campanha, considerava semelhantes a guerra civil na Vendée de resistência à Revolução francesa, e o levante de jagunços comandados por Antônio Conselheiro contra a República recém-instalada no Brasil. Para finalizar essa Introdução, gostaria ainda de mencionar um trecho de [VENTURA, idem, 131], onde o autor explica a sua visão acerca das mudanças de perspectiva operadas no interior de Euclides, entre 1897, quando terminou a campanha militar, e 1902, data em que foi publicado o livro Os Sertões. (Cabe salientar que esse assunto que é rapidamente abordado neste ponto deverá ser retomado e ampliado num ensaio posterior pelas óbvias implicações que deverão ser melhor analisadas.):
(...) A metáfora da Vendéia incorpora Canudos a uma história, a Revolução Francesa, vivida ao nível imaginário pelos republicanos brasileiros, expurgando dúvidas e incertezas coletivas quanto ao futuro nacional. A história da Revolução Francesa apresenta no Brasil de fins do século XIX um efeito mítico-ideológico enquanto estrutura fechada de perguntas e respostas, que assimila acontecimentos adversos a um horizonte em que as perguntas e as respostas já estão dadas. (...)
Em 1902, cinco anos após a extinção militar do conflito com o massacre da comunidade, publica Euclides da Cunha Os Sertões: campanha de Canudos. Nessa obra, a história da campanha de Canudos é retomada segundo uma perspectiva ensaísta e historiográfica (...) Entretanto, mais notável do que a passagem do jornalismo ao ensaísmo historiográfico é a sua denúncia da campanha como "crime", que o faz distanciar-se da metáfora da Vendéia e da ideologia liberal-republicana. Entre os artigos de 1897 e o livro de 1902, interpõe-se, com a sua cobertura "ao vivo" dos momentos finais da guerra, o contato não mediatizado pela propaganda republicana com a realidade de Canudos. Produz-se uma 'reviravolta de opinião' (W. N. Galvão) através da reversão de seu horizonte prévio de expectativas e da consequente introdução, em seu discurso, de uma diferenciação crítica frente ao republicanismo. A partir de tal diferenciação, surge em Euclides a aguda, ainda que ambivalente, consciência da especificidade da formação social brasileira em relação aos modelos e temas da "história universal". A interação entre o acontecimento Canudos e o observador-narrador Euclides da Cunha representa caso paradigmático de constituição de consciência nacional e de identidade cultural no contexto brasileiro e latino-americano. (...)

400 jagunços prisioneiros em 1897 - Crédito: Flávio de Barros/Brasiliana Fotográfica Digital/Museu da República



II.  A nossa Vendêa  

Por Euclides da Cunha
 

O relatorio aprezentado em 1888 pelo sr. José C. de Carvalho sobre o transporte do meteorito de Bendegó, os trabalhos do ilustre professor Caminhoá e algumas observações de Martius e Saint-Hilaire fazem com que não seja de todo desconhecida a região do extremo norte da Bahia determinada pelo valle do Irapiranga ou Vasa Barris, rio em cuja margem se alevanta a povoação que os últimos acontecimentos tornaram historica — Canudos. 

Pertencente ao systema huroniano ou antes erigindo-se como um terreno primordial indefinido entre aquelle systema e o laurenciano, pela occurrencia simultanea de quartzitos e gneiss graniticos caracteristicos, o sólo daquelas paragens, arenoso e esteril, revestido, sobretudo nas epochas de secca, de vegetação escassa e deprimida, é, talvez mais do que a horda dos fanatisados sequazes de Antonio Conselheiro, o mais serio inimigo das forças republicanas. 

Embora com a regularidade que lhes é inherente passem sobre elle impregnadas de humidade adquirida em longa travessia do Atlantico, na direção de noroeste, os ventos alisios — a acção benefica destes é em grande parte destruida, simultaneamente, pela disposição topographica e pela estrutura geognostica da região. 

Assim é que falta a esta, talvez, correndo em direcção parallela à costa, uma alta cadeia de montanhas — destinadas na physica do globo a individualisar os climas, segundo a expressão sempre elegante de Humboldt — na qual reflectindo ascendam aquellas correntes às altas regiões aonde um brusco abaixamento de temperatura, determinado pela dilatação num meio rarefeito, origine a condensação dos vapores e a chuva. 

A observação do relevo da nossa costa justifica em grande parte esta hypothese despretenciosamente formulada. De facto, terminada a magestosa escarpa oriental do planalto central do Brasil, a serra do Mar, que desapparece na Bahia, differenciada em serras secundarias, accentua-se de modo notavel para o norte a depressão geral do sólo de ondulações suaves, patenteando num ou noutro ponto apenas, sem continuidade, as massas elevadas do interior. 

Por outro lado, a estructura geognostica daquela região composta em grande parte de rochas dotadas de alto poder absorvente para o calor, determina naturalmente a ascenção quasi persistente de grandes columnas de ar, ardentissimas, que dissipam os vapores ou afastam as nuvens que encontram. 

Da concurrencia de taes factos, acreditamol-o, resulta provavelmente a causa predominante das seccas que periodicamente assolam aquellas paragens. 

Dahi a aridez caracteristica, em certos mezes, dos sertões do norte. 

Nessas quadras a relva requeimada, atravéz da qual, como unica vegetação resistente, colleam cactos flagelliformes reptantes e asperos, dá aos campos, revestidos de uma côr parda intensa, a nota lugubre da maxima desolação; o sólo fende-se profundamente, como se supportasse a vibração interior de um terremoto; as arvores desnudam-se despidas das folhagens, com excepção do Joazeiro de folhas ellipticas e coriaceas, — e os galhos que morreram ficam por tal modo seccos que, em algumas especies, basta o attrito de um sobre outro para produzir-se o fogo e o incendio subsequente de grandes áreas. 

E sobre as chapadas desertas e desoladas alevantam-se quase que exclusivamente os mandacarús (cereus) silentes e magestosos; arvores providenciaes em cujos galhos e raizes armazenam-se os ultimos recursos para a satisfação da sêde e da fome ao viajante retardatario — cactaceas gigantes que revestidas de grandes fructos de um vermelho rutilante e subdividindo-se com admiravel symetria em galhos ascendentes, egualmente afastados, patenteam a conformação typica e bizarra de grandes candelabros firmados sobre o sólo... 

Então”, diz Saint-Hilaire, “um calor irritante acabrunha o viajante, uma poeira incommoda alevanta-se sob seus passos e algumas vezes mesmo não se encontra agua para mitigar a sêde. Ha toda a tristeza de nossos invernos com um céu brilhante e os calores do verão.

Sem transição apreciavel, entretanto, a estas seccas intensas e nefastas, succedem, bruscamente às vezes, as quadras chuvosas e beneficas: impetuosas correntes rolam sobre o leito de rios que dias antes ainda completamente seccos davam idéa de largas estradas tortuosas, lastradas de quartzo fragmentado e grez duríssimo, conduzindo a logares remotos do sertão. 

E sobre os campos, em cujo sólo depauperado vingavam apenas bromelias resistentes e cactos esguios e desnudos, florescem o imbuzeiro (spondias tuberosa) de saboroso fructo e folhas dispostas em palmas; a jurema (acácia) predileta dos caboclos e os murungús interessantíssimos em cujos ramos tostados e sem folhas desdobram-se como flâmulas festivas grandes flores de um escarlate vivissimo e deslumbrante. 

O ar que então se respira, diz o illustre professor Caminhoá, “tem um aroma dos mais agradaveis e esquisitos. Uma temperatura de 16° a 18° à noite e pela manhan obriga a procurar agasalho aos que poucos dias antes dormiam ao relento e com calor. As aves que tinham emigrado para as margens e lugares proximos dos rios e mananciais voltam a suas habitações. Foi ali que compreendemos quanto é bem dado aos papagaios o nome específico de festivus. Com efeito, quando chegam os bandos destas aves a gritarem alegremente, acompanhadas de um sem número de outras, começam logo a se animar aquelas paragens e como que a natureza desperta. 

Então, o sertanejo é feliz e não inveja nem mesmo os reis da terra!” 

Como se vê naquella região, intermitentemente, a natureza parece oscillar entre os dois extremos - da maravilhosa exuberancia à completa esterilidade. Este último aspecto, porém, infelizmente, parece predominar. 

A este inconveniente allia-se um outro, derivado da disposição geral do terreno. Assim é que de todo contraposta à topographia habitual dos nossos campos do sul —ligeiramente ondulados e descambando em suaves declives para os innumeros vales que os rendilham, caracterizam-se aquelles pelas linhas duras e incisivas das fundas depressões, terminando os taboleiros bruscamente em escarpas abruptas, separando-se os serros por desfiladeiros estreitos, flanqueados de grotas cavadas a pique... 

Com muito maior intensidade que no sul observa-se alli a acção modificadora dos elementos sobre a terra. 

Nos logares em que a acção mechanica das aguas determinando uma erosão mais energica faz despontar a rocha granitica subjacente, observa-se quasi sempre um phenomeno interessante. Esta ultima apruma-se, largamente fendida em direcções quasi perpendiculares dando a illusão de lanços collossaes e semi-derruidos de cyclopica muralha, nos quaes as lagens enormes dispõem-se as vezes umas sobre outras, com admiravel regularidade. Este facto, largamente observado por Levingstone nas baixas latitudes africanas, traduz a inclemencia do meio. 

Patentea a alternativa persistente do calor dos dias ardentissimos e o frio da erradiação nocturna de onde resulta a disjuncção da rocha em virtude deste jogo perenne de dilatações e contracções. 

Estes rudes monumentos, aos quaes não se equiparam talvez os dolmens da Bretanha, quebram em grande parte a monotonia da paizagem avultando, solemnes, sobre o plano das chapadas... 

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É sobre estes taboleiros recortados por innumeros vales de erosão, que se agitam nos tempos de paz e durante as estações das aguas, na azafama ruidosa e alacre das vaquejadas, os rudes sertanejos completamente vestidos de couro curtido — das amplas perneiras ao chapéo de abas largas — tendo a tiracolo o laço ligeiro a que não escapa o garrote mais arisco ou rez alevantada e pendente, à cinta, a comprida faca-de-arrasto, com que investe e rompe intrincados cipoaes. 

Identificados à propria aspereza do sólo em que nasceram, educados numa rude escola de difficuldades e perigos, esses nossos patricios do sertão, de typo ethnologicamente indeffinido ainda, reflectem naturalmente toda a inconstancia e toda a rudeza do meio em que se agitam. 

O homem e o sólo justificam assim de algum modo, sob um ponto de vista geral, a approximação historica expressa no titulo deste artigo. Como na Vendêa o fanatismo religioso, que domina as suas almas ingenuas e simples, é habilmente approveitado pelos propagandistas do Imperio. 

A mesma coragem barbara e singular e o mesmo terreno impraticavel alliam-se, completam-se. O chouan fervorosamente crente ou o tabaréo fanatico, precipitando-se impavido à bocca dos canhões que tomam a pulso, patenteam o mesmo heroismo morbido diffundido numa agitação desordenada e impulsiva de hypnotisados. 

A justeza do parallelo estende-se aos proprios revezes soffridos. A Revolução franceza que se apparelhava para luctar com a Europa, quasi sentiu-se impotente para combater os adversarios impalpaveis da Vendêa - heróes intangiveis que se escoando celeres atravez das charnecas prendiam as forças republicanas em inextrincavel rêde de ciladas... 

Entre nós o terreno, como vimos, sob um outro aspecto embora, presta-se aos mesmos fins. 

Este parallelo será, porém, levado às ultimas consequencias. A Republica sahirá triumphante desta ultima prova. 

 EUCLYDES DA CUNHA


Fonte: acervo de O ESTADO DE S. PAULO, edição de 14 de março de 1897, p. 1.


CANUDOS 
(Diario de uma expedição) 

Depois de quatro longos dias de verdadeira tortura subo pela ultima vez à tolda do vapor na entrada bellissima e arrebatadora da Bahia. 

Não descreverei os incidentes da viagem, vistos todos atravez do inconcebivel mal estar, desde o momento emocionante da partida em que Bueno de Andrada e Teixeira de Souza — um temperamento feliz, enérgico e bom, e uma alma austera de philosopho — representaram em dois abraços todos os meus amigos de S. Paulo e do Rio, até o seu termo final, nas aguas desta historica paragem. 

Escrevo rapidamente, direi mesmo vertiginosamente, acotovellado a todo o instante por passageiros que irradiam em todas as direcções sobre o tombadilho, na azafama ruidosa da chegada, atravez de um côro de interjeições festivas no qual meia duzia de linguas se amoldam ao mesmo enthusiasmo. É a admiração perenne e intensa pela nossa natureza olympica e fulgurante, prefigurando na extranha magestade a grandeza da nossa nacionalidade futura. 

E, realmente, o quadro é surprehendedor. 

Affeito ao aspecto imponente do littoral do sul onde as serras altissimas e denteadas de gneiss recortam vivamente o espaço investindo de um modo soberano as alturas, é singular que o observador encontre aqui a mesma magestade e a mesma perspectiva sob aspectos mais brandos as serras arredondando-se em linhas que recordam as voltas suavissimas das volutas e affogando-se, perdendo-se no espaço, sem transições bruscas numa diffusão longinqua de côres em que o verde-glauco das mattas se esvae lentamente no azul purissimo dos ceus... 

A ilha de Itaparica, à nossa esquerda e na frente, ridente e envolta na onda illuminada e tonificadora da manhan, desdobra-se pelo seio da Bahia, revestida de vegetação opulenta e indistincta pela distancia. 

O mar tranquillo como um lago banha, à direita, o aspero promontorio sobre o qual se alevanta o pharol da Barra, cingindo-o de um sendal de espumas. Em frente avulta a cidade, derramando-se, compacta sobre immensa collina, cujos pendores abruptos reveste, cobrindo a estreita cinta do littoral e desdobrando-se, immensa, do forte da Gambôa a Itapagipe, no fundo da enseada. 

Vendo-a, deste ponto com as suas casas ousadamente aprumadas, arrimando-se na montanha em certos pontos, vingando-a em outros e erguendo-se a extraordinaria altura, com as suas numerosas egrejas de torres esguias e altas ou amplos e pesados zimborios, que recordam basilicas de Bysancio — vendo-a deste ponto, sob a irradiação, clarissima do nascente que sobre ella se reflecte dispersando-se em scintillações offuscantes, tem-se a mais perfeita illusão de vasta e opulentissima cidade. 

O Espirito Santo scinde vagarosamente as ondas e novos quadros apparecem. O forte do Mar — velha testemunha historica de extraordinarios feitos — surge à direita, bruscamente, das aguas, imponente ainda mas inoffensivo, desartilhado quasi, mal recordando a quadra gloriosa em que rugiam nas suas canhoeiras, na repulsa ao hollandez, as longas colubrinas de bronze. 

Corro os olhos pelo vapor. 

Na proa os soldados que trazemos accumulam-se, saudando, enthusiastas, os companheiros de S. Paulo, vindos hontem, enchendo litteralmente o Itupeva, já ancorado. 

A um lado, alevanta-se, firmemente ligado ao reparo solido, um sinistro companheiro de viagem — o morteiro Canet, um bello specimen da artilheria moderna. Destina-se a contraminar as minas trahidoras que existem no sólo de Canudos. 

Embóra sem a pólvora apropriada e levando apenas sessenta e nove projecteis (granadas de duplo effeito e schrapnells), o effeito dos seus tiros será efficacissimo. Lança em alcance maximo util trinta e dois kilos de ferro, a seis kilometros de distancia. Acredito, entretanto, difficillimo o seu transporte pelas veredas quasi impraticaveis dos sertões. São duas toneladas de aço que só attingirão as cercanias da Méca dos jagunços atravez de esforços inconcebiveis. 

Maiores milagres, porém, tem realisado o exercito nacional e a fé republicana. 

A disposição entre os officiaes é a melhor possivel. 

A saudade, immensa e indefinivel saudade dos entes queridos ausentes, desce, às vezes, profunda, dolorosissima e esmagadora sobre os corações: as frontes annuviam-se; cessam bruscamente as palestras em que se procura afugentar tristezas numa guerrilha adoidada de anecdotas; um pesado silencio paira repentinamente sôbre os grupos esparsos; o coração batendo febrilmente nos peitos, perturba o rythmo isochrono da vida — e os olhares, velados de lagrymas, dirigem-se anciosamente para o Sul... Ao mesmo tempo, porém, como um antidoto energico, um reagente infallivel, alevanta-se, ao Norte, o nosso grande ideal — a Republica profundamente consolador e forte, amparando vigorosamente os que cedem às máguas, impellindo-os à linha recta nobilitadora do dever. 

E reagem. 

Eu nunca pensei que esta noção abstracta da Patria fôsse tão ampla que, traduzindo em synthese admiravel todas as nossas affeições, pudesse animar e consolar tanto aos que se afastam dos lares tranquillos demandando a agitação das luctas e dos perigos. Comprehendo-o, agóra. 

Em breve pisaremos o sólo onde a Republica vae dar com segurança o ultimo embate aos que a perturbam. 

Além, para as bandas do occidente, em contraste com o dia brilhante que nos rodeia, erguem-se, agóra, por uma coincidencia bizarra, cumulos pesados, como que traduzindo physicamente uma situação social tempestuosa. Surgem, erguem-se, precisamente neste momento, do lado do sertão, — pesados, lugubres, ameaçadores... 

Este facto occasional e suggestivo prende a attenção de todos. E observando, como toda a gente, as grandes nuvens silenciosas que se desenrolam longinquas, os que se destinam àquellas paragens perigosas sentem com maior vigor o peso da saudade e com maior vigor a imposição austera do dever. 

Nem uma fronte se perturba, porém. 

Que a nossa Vendêa se embuce num largo manto tenebroso de nuvens, avultando além como a sombra de uma emboscada entre os deslumbramentos do grande dia tropical que nos alenta. Rompel-o-á, breve, a fulguração da metralha, de envolta num scintillar vivissimo de espadas... 

A Republica é immortal! 

Bordo do Espirito Santo, 7 de agosto de 1897. 
EUCLYDES DA CUNHA


Fonte: acervo de O ESTADO DE S. PAULO, edição de 23 de agosto de 1897, p. 1.


 

BIBLIOGRAFIA 



DAIBERT JR, Robert: Canudos como a Vendéia brasileira? Ou os embates da consciência revolucionária republicana nas "leituras" euclidianas de Hugo e dos sertões baianos. Locus, Juiz de Fora, v. 10, nº 1, p. 65-77, 2004. 
 
LINTON, Marisa: Victor Hugo, Ninety-Three (Quatrevingt-treize), Kingston University, 1988, disponível na Internet. 
 
MINEIRO, R.: Brasil. Antônio Conselheiro: Canudos – A nossa Vendeia, 1988, disponível na Internet. 
 
MOREIRA, Raimundo Nonato Pereira: A nossa Vendéia: o Imaginário social da Revolução francesa na Construção da Narrativa de Os Sertões, tese de doutorado em História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, 2007, 354 p. 
 
VENTURA, Roberto: "A nossa Vendéia": Canudos, o mito da Revolução francesa e a formação de identidade cultural no Brasil (1897-1902), Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, SP, 31:129-145, 1990