domingo, 28 de janeiro de 2024

Centenário da morte de TEÓFILO BRAGA: o homem, o erudito e o político


Por ANTÓNIO VALDEMAR *
 
Foi um dos fundadores do Partido Republicano, depois Presidente da República, escrevia compulsivamente, investigou Camões — que elegeu como símbolo da nacionalidade —, nunca atravessou a fronteira. Teófilo Braga visto por si e pelos contemporâneos — admiradores e críticos —, no centenário da sua morte. (Publicado originalmente na revista do Expresso, edição de 27 de Janeiro de 2024, pp. 50-52)
 
Teófilo Braga (1915) - Fotografia Vasques, Lisboa (Museu da Presidência da República)

 

Passou a vida a escrever. Foi encontrado morto na sua mesa de trabalho. Tinha 80 anos. Faleceram os três filhos e, anos depois, a mulher. Teófilo Braga morava só. Rodeado de livros, asfixiado por ressentimentos e sempre empenhado em completar e concluir os temas que o absorveram a vida inteira. Deixou uma obra de investigação e de crítica com mais de 200 títulos. Ele próprio assim se definiu: Dentro de um poço, desde que lá tivesse os meus livros, uma resma de papel e um lápis, conseguiria viver.  
Por sua vez, Ramalho Ortigão, que o conheceu com proximidade, afirmou: “Simples, sóbrio, duro, com hábitos de uma austeridade de espartano, sabendo reduzir as suas necessidades a toda a restrição a que lhe reduzam os meios, vivendo no seu isolamento como Robinson na sua ilha. (...) Não publica um volume por semana, pela razão única de que não há prelos, em Portugal, que acompanhem a velocidade vertiginosa da sua pena. Escreve de graça, desinteressadamente, em satisfação do seu prazer supremo, o prazer de espalhar ideias.” 
Na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, Teófilo Braga (1843-1924) foi um dos autores com maior número de obras publicadas sobre a história da literatura portuguesa, desde os primórdios até João de Deus e Antero de Quental. Assinalam-se, neste contexto, as investigações sobre Camões, nos múltiplos aspetos da obra épica, lírica e teatral; “Gil Vicente e as Origens do Teatro Português”; “Bernardim Ribeiro e o Bucolismo”; Cristóvão Falcão, autor da “Écloga Cristal”; Bocage, sua vida e  Época; “Filinto Elísio e os Dissidentes da Arcádia”; a “História do Romantismo em Portugal”; e “Garrett e a sua Obra”. 
A curiosidade de Teófilo estendeu-se a outros temas: o povo português, nos seus costumes, crenças e tradições; o cancioneiro e o romanceiro popular; os contos tradicionais. Também se consagrou à política. Encontra-se ligado à fundação, ao desenvolvimento e à projeção do Partido Republicano Português. Desempenhou as funções de presidente do governo provisório e de Presidente da República. 
Acrescente-se o percurso na Universidade de Coimbra, a propósito das opções pedagógicas que se refletiram na cultura e na sociedade portuguesas: Sistema de Sociologia (para alargar as previsões, comprová-las e acelerá-las pela intervenção política e governativa); Soluções Políticas da Política Portuguesa, para demonstrar que o povo estava preparado para receber a República. 
 
DE ESTUDANTE A PROFESSOR 
 
Nasceu em Ponta Delgada a 24 de fevereiro de 1843. Enquanto aluno do liceu, principiou a atividade literária em jornais e revistas em São Miguel. Aprendeu, ainda, rudimentos da tipografia. Dirigiu-se, aos 18 anos, para Coimbra. Tinha a ambição de ser professor na universidade. 
Arrostando com os maiores sacrifícios, sem quaisquer apoios financeiros, vivendo apenas de explicações, tirou, entre 1862 a 1867, o curso de Direito, com elevadas classificações. Um ano depois fez provas de doutoramento com uma tese acerca da história do direito português — os forais. Reconheceram-lhe os méritos. Contudo, para ascender à cátedra, foi preterido por um candidato que possuía relações privilegiadas com o júri. Tentou, em seguida, lecionar Direito Comercial na Academia Politécnica do Porto. Voltou a ser rejeitado. Finalmente, concorreu, em 1872, a uma cátedra sobre Literaturas Modernas no Curso Superior de Letras, um concurso público muito renhido. Entre os candidatos encontravam-se Pinheiro Chagas e Luciano Cordeiro. Eram os outros candidatos e tinham as maiores proteções no corpo docente. Teófilo conseguiu, finalmente, vencer. Teófilo Braga radicou-se, a partir de então, em Lisboa, até falecer a 28 de janeiro de 1924. Nunca atravessou a fronteira. A sua vida, de enorme sobriedade, circunscreveu-se entre a intimidade e os contactos quotidianos: o Curso Superior de Letras; instalado no edifício da Academia das Ciências, da qual foi vice-presidente. (O rei, por razões estatutárias, era o presidente de honra). Deslocava-se, ainda, para fazer pesquisas documentais à Torre do Tombo que funcionava no Palácio de São Bento, e à Biblioteca Nacional, estabelecida no antigo Convento de São Francisco, na área do Chiado. Pertenceu a uma tertúlia na rua do Arsenal, na livraria Carrilho Videira, que reunia e editava obras de republicanos. Andava a pé ou nos transportes públicos, mesmo quando foi Presidente da República. 
Ramalho Ortigão procurou, ainda, defini-lo nestes termos: “Este débil de aspeto um pouco valetudinário, dorso curvo, ventre chato, estômago escavado, deixando descair as calças em pregas sobre os sapatos, é o mais forte, o mais rijo, o mais enérgico temperamento que tenho conhecido.” Os caricaturistas retrataram-no com ironia. Joshua Benoliel fixou-o em dezenas de fotografias. Tornara-se uma figura típica de Lisboa. 
 
AS POLÉMICAS 
 
A atividade literária, histórica, filosófica e política de Teófilo Braga desencadeou sucessivas controvérsias: Castilho atacou a sua participação na Questão Coimbrã; Camilo, pelos mais diversos motivos, constituiu um dos seus mais acérrimos adversários; Ricardo Jorge, a propósito de um estudo acerca de Rodrigues Lobo, denunciou-o como plagiário. 
Todavia, entre os críticos mais severos, avulta Antero de Quental: “Os primeiros passos no estudo da história literária portuguesa — escreveu — foram dados pelo sr. Teófilo Braga, essa glória ninguém lhe tira. Tem defeitos: a impaciência que o leva muitas vezes a conclusões prematuras; e o espírito sistemático que o leva também a conclusões falsas. (...) O lado inferior e frágil — acentua Antero de Quental — são as teorias gerais, a parte filosófica; sente-se que não é essa a vocação do sr. Teófilo Braga. Ao mesmo tempo quimérico e sistemático, dá às suas doutrinas gerais uma feição dogmática que lhes tira aquele poder de ductilidade e compreensão, sem o qual uma teoria, para acomodar os factos ao seu rigor inflexível, tem de os forçar, umas vezes e outras vezes, de pôr de lado. Isto é — adverte Antero de Quental — o que torna abstrusas certas obras, como a ‘Poesia do Direito’.” (inConsiderações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa”, Porto 1872) 
 
CAMÕES, O SÍMBOLO NACIONAL 
 
Camões foi um dos temas que, durante meio século, mais entusiasmou Teófilo. Interessaram-lhe todos — ou quase todos — os aspetos da vida e a obra do poeta. Fez uma reflexão e estudo dos textos mais antigos de biógrafos e comentadores, o chantre Severino de Faria, o licenciado Manuel Correia, o historiador e filólogo Manuel Faria de Sousa e o memorialista João Soares de Brito. 
Formulou hipóteses e extraiu conclusões, muitas das quais se revelaram precárias, em torno das circunstâncias relativas à conceção, publicação e divulgação de “Os Lusíadas”; e a outros assuntos como a tença, a morte e a sepultura de Camões; e, ainda, a permanência em África e no Oriente. Sejam quais forem as reservas, os estudos de Teófilo proporcionam pistas para investigação do tempo histórico e da amplitude da obra do poeta, que não ficou alheio ao desconcerto do mundo e às vulnerabilidades da condição humana. 
Procedeu a uma campanha de opinião pública para celebrar, em todo o país, o terceiro centenário da morte de Camões. A informação existente indicava o dia 10 de junho. Foi exatamente nesse dia que se realizaram, em 1880, as comemorações, com a participação de intelectuais, políticos e elevado número de populares. Destinavam-se a promover a coesão do Partido Republicano, unindo as várias tendências e grupos dispersos, no pensamento e na ação. Recorde-se que, pouco antes de falecer, concedeu uma entrevista ao “Diário de Notícias”, na qual insistiu que a data do nascimento de Camões era 5 de fevereiro de 1584. O Governo, presidido por Álvaro de Castro e tendo António Sérgio como ministro da Instrução, determinou que o dia 5 de fevereiro passasse a ser feriado nacional. A data foi aprovada pelo Congresso da República e promulgada pelo chefe de Estado, Manuel Teixeira Gomes. Concretizava-se assim, a título póstumo, a aspiração cívica de Teófilo: o sentimento nacional é um dos pilares fundamentais para a unificação dos portugueses. “Pelo amor do seu território, pela necessidade de manter a independência”, escreveu, “é possível alcançar uma ação comum, um sentimento coletivo que fortifica o sentimento da pátria e da nacionalidade.” (...) “Camões”, sintetizou, “deu expressão a esse sentimento, que transformou uma pátria numa nacionalidade”. 
 
PRESIDENTE DA REPÚBLICA 
 
Proclamada a República, Teófilo Braga foi escolhido para chefe do governo provisório (5 de outubro de 1910 a 4 de setembro de 1911). Acompanhou a apresentação, o debate e a votação da legislação que estruturou o novo regime. A ditadura de Pimenta de Castro (28 de janeiro de 1915 a 14 de maio de 1915) que encerrou o Parlamento e conduziu à demissão do Presidente da República Manuel de Arriaga (eleito a 24 de agosto de 1911 e a desempenhar funções até 26 de maio de 1915). Perante esta crise, que provocou uma das mais sangrentas e devastadoras revoluções, solicitaram a Teófilo Braga para ocupar o cargo, porque reconheciam nele uma reserva moral e cívica. Eleito em sessão do Congresso a 29 de maio de 1915, obteve 98 votos a favor, contra 1 voto para Duarte Leite e três votos em branco. Durante quatro meses assegurou a chefia do Estado, em circunstâncias particularmente complexas, a nível nacional e internacional. A defesa dos territórios portugueses de África, em especial Angola e Moçambique, perante ameaças da Alemanha, determinou a expedição de contingentes do Exército e da Marinha. A 5 de agosto de 1915 a Europa eclodiu o que viria a ser a Grande Guerra. 
Os efeitos do conflito acentuaram-se com muito impacto nas lutas partidárias e na subida dos preços dos bens de consumo diário. Gerou-se a corrida aos bancos para levantar os depósitos. Havia uma profunda instabilidade política e social. Contudo, a entrada de Portugal na guerra, em solidariedade com a Inglaterra — e devido à secular aliança subscrita entre os dois países — só se verificaria a 7 de agosto de 1916. Deu lugar a mais outra controvérsia entre as forças militares e os principais partidos políticos. 
 
EUROPA E ATLÂNTICO 
 
Teófilo Braga, ao tomar posse, referiu que a sua orientação visava “a harmonia de todos os poderes do Estado, o reconhecimento de que o poder soberano da nação reside essencialmente no Congresso, de que o presidente não é senão um mandatário. O contrário seria eu a exercer um imperialismo presidencialista”. 
Fez questão de salientar que, perante “esta espécie de solidariedade humana, que corrige os excessos do egoísmo nacional (...), um outro equilíbrio europeu tem de fundar-se.” Assim, “a política externa de Portugal deriva completamente da sua situação geográfica; ela solidarizou-se com a Europa, quando combatia o imperialismo da Espanha no século XVII e quando no século XIX desmoronava o imperialismo napoleónico, ela nos fará cooperar na atividade mundial dos grandes Estados, com o apoio no Atlântico”. Noutro passo, Teófilo Braga concluiu: “Apresentando estes dois aspetos de política, interna e externa, da nação portuguesa, dela se deduz um plano do Governo. E ao proferir as palavras de compromisso de honra, desta hora em diante só aspiro que, ao regressar dignamente ao lar, se possa dizer: cumpriu o que prometeu; guiou-se pelo bom senso e pelo desinteresse.” 
 
CONSAGRAÇÃO NACIONAL  
 
Teófilo Braga, tal como João de Deus e Guerra Junqueiro, após o seu falecimento teve honras nacionais e foi sepultado nos Jerónimos — à data o Panteão Nacional. Em 1925, Alfredo Guisado, poeta da “Orpheu” e vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, inscreveu-o na toponímia. A rua onde residia, a Travessa de Santa Gertrudes, passou a denominar-se Rua Teófilo Braga. Também Alfredo Guisado deu o nome de Teófilo Braga ao Jardim da Parada, no centro do bairro de Campo de Ourique. Pouco depois, a 16 de outubro de 1926, inaugurava-se, no Jardim da Estrela, um monumento dedicado a Teófilo Braga, da autoria do escultor Teixeira Lopes. Em pleno salazarismo, o monumento saiu do Jardim da Estrela e foi enviado para Ponta Delgada, por ocasião do centenário do seu nascimento. Ficou junto ao Forte de São Brás, a curta distância da casa onde nasceu. 
Embora muito combatido por intelectuais de várias tendências, também contou com a fidelidade e dedicação de amigos como Francisco Maria Supico e de discípulos como Teixeira Bastos, Reis Dâmaso, Fran Paxeco, A. do Prado Coelho. Um dos seus admiradores, Álvaro Neves, inventariou a sua interminável bibliografia e organizou o “In Memoriam”. 
Ao dissiparem-se as incompatibilidades pessoais e aversões políticas, chegou a hora da reabilitação da vida e da obra em trabalhos de investigação e crítica de Joaquim de Carvalho, Luís da Câmara Reys, Mário Soares e, presentemente, Amadeu Carvalho Homem. Um facto é evidente: o homem, o erudito, o cidadão e o político merecem ser evocados no ano do centenário da sua morte. Destaca-se, quaisquer que sejam as reservas, o pioneiro da história da literatura que elegeu Camões como o símbolo da nacionalidade. Foi um dos fundadores do Partido Republicano que contribuiu para a transformação da sociedade portuguesa, para a mudança do regime e para a solução de algumas crises institucionais. 
 
O “orgulho de ser açoriano” 
 
Saiu de Ponta Delgada aos 18 anos e nunca mais voltou à ilha de São Miguel. Guardava memórias amargas da infância e da adolescência. Manteve um contacto epistolar assíduo com Francisco Maria Supico, diretor do jornal “A Persuasão”, que lhe acompanhou os primeiros passos e o incentivou a fazer carreira universitária. Entre as numerosas obras que publicou, faz referências a autores açorianos como Gaspar Frutuoso, propôs o camonianista José do Canto para sócio da Academia das Ciências e ocupou-se de temas açorianos. É o caso de “Cantos Populares do Arquipélago Açoreano” (1869). Este trabalho baseia-se na recolha feita por João Teixeira Soares de Sousa (1827-1882), a pedido de Garrett. Acerca da poesia popular — escreveu Teófilo — existem duas modalidades: “uma atual, móvel, continuamente em elaboração porque é um eco da vida, uma linguagem das paixões e dos sentimentos de hoje; a outra é tradicional, histórica, em desarmonia com os costumes presentes, mas repetida ainda religiosamente como lembrança de costumes e sucessos que já passaram.” Constitui: “o rapsodo de todas as alegrias e tristezas do poema da vida. A poesia — para o povo — é o ritmo do esforço no trabalho, o esquecimento da miséria, a expressão dos desejos, o tesouro da sua moral e tradições antigas, a linguagem do amor, o gemido, enfim, a verdade simples da sua alma.” Compreende, por conseguinte, “fados e canções da rua, orações, profecias nacionais e aforismos poéticos da lavoura”. Ao ser entrevistado por Albino Forjaz de Sampaio, declara que “nunca tivera a doença do açoriano, o apego ferrenho às suas ilhas, a nostalgia que sentimos quando delas nos afastamos. No entanto, através da minha longa vida, sempre me interessou tudo o que pudesse interessar aos Açores, especialmente à minha terra”. Afirmou, ainda com veemência: “Tenho orgulho de ser açoriano. As nossas ilhas são o foco da melhor tradição nacional. Nunca reneguei a minha terra. Sou ilhéu, nasci nesses rochedos donde irradiou o espírito das autonomias.” 

* Jornalista, investigador, sócio efetivo da Academia das Ciências.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

A GUERRA E A LITERATURA


Por TEMÍSTOCLES LINHARES *
 
Crônica de 1941 extraída do livro Interrogações , Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1959, pp. 258-63.
Tapeçaria de "GUERNICA" de Pablo Picasso (1955), réplica da pintura a óleo de 1937, pendurada do lado de fora da Câmara do Conselho das Nações Unidas - Link: https://www.cbsnews.com/news/guernica-tapestry-returns-united-nations/  👈

 

Teremos nova literatura de guerra, uma vez cessada a atroz aventura em que se empenha a velha Europa? 

A pergunta pode parecer prematura, mas não é preciso aplicar-lhe aquela faculdade bovina de que falava Nietzsche. A faculdade de ruminar, hoje muito esquecida, certamente nos faria ver mais claro e nos levaria a responder com mais facilidade. Mas fiquemos com os recursos que ainda nos restam, bastante minguados, do primado grego da inteligência, que colocava a dignidade da pessoa humana no magistério da razão e da disciplina da alma, recursos que estão longe de alcançar o esforço contínuo, tenaz, ousado, subterrâneo, preconizado pelo filósofo e reservado a muito poucos. A guerra, já se disse, mecanizou o homem. Tornou-o um autômato. O Estado totalitário, exclusivo e ciumento, arrastou-o à guerra, pela política da força, para conduzi-lo a um ideal de comunidade organizada e niveladora. A vida antiga de sociabilidade, de ilustração, de glória, vida de fórum, de teatro, que fazia nascer a curiosidade de saber, esse espanto diante das coisas em que Aristóteles via o começo da sabedoria, perde terreno e tende a ser substituído por outra coisa que sirva às necessidades inelutáveis dos dias que correm e reclamam sangue, ondas de sangue, para impor os seus novos modelos padronizados. 
 
Ao que se passa no mundo os homens de letras não poderão permanecer indiferentes. Terão de tomar partido, estudando as razões intelectuais, sociais, políticas e econômicas que tornam esta fase angustiosa em que vivemos inassimilável aos espíritos de alta linhagem. Muitos deles fatalmente se deixarão sugestionar pela nova e aparatosa mitologia. 
 
Mas, apesar de tudo, da influência que sobre o escritor possam exercer a vitória da força, a soberania do espírito militar, a valorização da máquina, há muito que esperar dele. 
 
A despeito de suas falhas, a profissão do homem de letras é que reúne ainda a maioria dos espíritos independentes. Ele possui o sentimento do seu lugar na sociedade e de sua independência, muito mais desenvolvido do que o médico, por exemplo. Quem o diz é a autoridade incontestável de Léon Daudet, doublé de médico e escritor. O médico é colhido por uma trama de circunstâncias, professorado, faculdade, concursos, etc. E em dado momento ele só julga segundo as palavras dos mestres que o fazem ir perdendo pouco a pouco a personalidade. 
 
O homem de letras  é claro que se fala daquele que tem alguma coisa a dizer  não perde a sua originalidade ou se a perde, é muito mais tarde que outro qualquer. 
 
Muitos escritores  é a sorte que podemos desejar-lhes, exclama o mesmo Daudet  morrem, sobretudo se se tratar de polemistas, combatendo de pena na mão. O homem de letras não tolera os mandarins, mormente na profissão. O espírito de justiça literário, o próprio espírito de justiça simplesmente, está mais severamente desenvolvido, em geral, no escritor digno desse nome, no poeta e no prosador, do que no comum dos mortais. Ele, mais do que ninguém, sente a necessidade instintiva de se aventurar em todas as direções do espírito e associar os poderes mais contrários, objetivando em si mesmo a justiça, a beleza subsistente e a inteligência essencial. Quem melhor do que ele para nos levar aos exames peremptórios de consciência, despertando os nossos escrúpulos, as nossas exigências, as nossas linhas de conduta, as nossas particularidades irredutíveis? 
 
A serviço, pois, da realidade e da história, com as qualidades que o distinguem, o homem de letras tem imensa tarefa a cumprir. Por seu intermédio é que o homem pode defender algumas de suas mais dignas prerrogativas. 
 
Entre os escritores, sem dúvida, é que o espírito, em fuga diante da pressão cada vez mais urgente das forças utilitárias, se refugia, conservando a parte de não conformismo e de inadequação a elas. 
 
Está visto que a literatura de guerra por vir ou que já está chegando não poderá se preocupar com o homem. A imagem deste surge da implacável tenacidade dos acontecimentos muito diluída. A mecânica social fá-lo receber as ideias do tempo, os sentimentos do grupo e realizar os gestos de sua função, sem nada que lhe lembre a existência passada, a realidade profunda encarnada nele. 
 
Que poderá então revelar essa literatura nova? Se até o dom da compreensão, próprio do homem, está obliterado pelo mais cruel antipersonalismo? 
 
Até aqui a Literatura era um dos meios mais puros para nos aproximar de nós mesmos. Em suas relações com o homem é que estava o seu poder de sedução. A próxima literatura de guerra que nova ordem procurará então? Que horizontes novos ela desvendará? 
 
Da guerra nada é lícito esperar, sendo dor e ruína. Aproveitam-se dela os falsos profetas da violência, para dar satisfação aos seus sonhos de hegemonia mundial. As dificuldades do dia seguinte à vitória, porém, demonstrarão, como o têm demonstrado no decurso da história, que dias mais negros se sucederão, aumentando os desequilíbrios e a gravidade dos problemas entre os povos. As impurezas dos ressentimentos da luta, as tendências contrárias dos estilos políticos, acirrados então, fomentarão um estado de guerra permanente. No momento da paz, na sua lua de mel, um só ganho positivo se perceberá  a libertação do indivíduo, em consequência da destruição do principal foco real e doutrinário do despotismo. Mas mesmo essa áurea conquista durará pouco, porque a perduração dos males restabelecerá o estatismo e o homem voltará a ser cativo. Serão dificuldades insuperáveis, pois, com que o mundo de novo se defrontará: o desarmamento moral dos adversários, a supressão da mentalidade de represália, o encerramento da conta-corrente dos ódios e das vinganças. O poder do Estado, por maior que seja o círculo que abarque, tem quando muito ação sobre os gestos, os atos, as palavras, mas não sobre os estados de consciência, de pensamento, de sentimento da humanidade. 
 
A Literatura, em face da guerra, pode ter uma sucessão de dramas e tragédias a analisar. Tem-no por certo, não podendo fugir à influência dos acontecimentos, mas a sua posição se restringirá aos quadros geográficos e sociais da guerra. Estes, é claro, não deixarão de lhe oferecer margem para testemunhos, impressões, retratos do que aconteceu. O campo mais vasto, porém, sobre o qual ela estenderá a sua curiosidade e o seu interesse, será evidentemente o do pós-guerra, quando terão maior relevo os motivos de inquietação, de dúvida e negação espirituais, quando o revisionismo terá invadido as inteligências, para dar corpo a novos mitos. 
 
Do gênio da guerra nada há a esperar para as letras. O próprio pós-guerra, enquanto perdurar a influência desta, será antes uma época de inquietação, de depressão, do que de reconstrução. A reconstrução só virá quando se esquecer a guerra, essa guerra que dissolve e elimina os sentimentos humanos, reduzindo à impotência e ao espanto o trabalho intelectual. 
 
O exemplo vem da guerra passada e está patente no colapso que está sofrendo no mundo inteiro a produção literária. Há pouco se comentou o fenômeno em França, antes de sua derrota: a Grande Guerra o melhor que produziu foram os depoimentos, os retratos, a visão arguta e sóbria do que sucedeu, isso porque é preciso levar em conta que a literatura se dirigia a um público que havia tomado parte na luta, que a havia sentido, a uma multidão de atores portanto. É o caso de La Croix de Bois, de Roland Dorgelès
 
Dorgelès, como Morand, como Giraudoux, como Duhamel, porém, não encontraram na guerra senão um ponto de partida. O tom heróico, a consciência épica provocaram neles pouco eco. A guerra não deu um contista como Maupassant, nem um grande poeta como Baudelaire. A geração do pós-guerra preferiu ler Proust, Valéry ou Gide, em cujos livros a passagem da tormenta é pouco perceptível. Tivemos de Barbusse Le Feu e L'enfer, é certo, mas para dar a interpretação da guerra a cada momento, para assinalar todo o seu horror e violência, para demonstrar que ela não foi mais do que uma etapa do processo histórico com assento no maquinismo, transformado em instrumento assassino, gerando o pessimismo derrotista do século XX, dentro dos próprios países que alcançaram a vitória. 
 
Pela sua falta de conteúdo humano, a guerra atual está fadada a não ocupar espaço na Literatura. 
 
À Literatura, todavia, cabe o importante papel de nos ajudar a ter conhecimento mais extenso e profundo da guerra, de suas determinantes, de suas realidades, de que apenas distinguimos confusamente pequeno número de aspectos. 
 
O gosto das coisas "atuais" ou "modernas" precisa ser combatido. Os nossos hábitos de espírito não podem virar as costas ao universal e ao eterno, para permanecer no transitório, aceitando realidades confusas como essa chamada de racismo. 
 
Só a Literatura, só os escritores é que nos farão volver às preocupações essenciais, não porque estejam eles imbuídos de tendências moralizadoras. Aos escritores não devemos pedir moralismos ou profecias, mas cremos, com Marcel Arland, que podemos exigir-lhes, se a intenção deles for pintar os homens, que essa pintura seja exata, que eles apareçam tais quais são, que não sejam silenciadas nem as suas taras, nem as suas aspirações e, ao estudá-los, sejam impulsionados os seus sentimentos, não por simples curiosidade, mas por clarividente ternura. Se a intenção for produzir sínteses histórico-filosóficas, que o façam, quando se referirem à guerra, fixando a esterilidade da violência, interessando-se pelos valores mais estreitamente ligados às necessidades da vida, à procura da unidade humana, entre passado e presente, repelindo os atrozes conflitos entre classes e nacionalidades, conflitos de ódio e animosidade, que nada têm a ver com o sentimento nacional e a vocação de cada qual, ou com a unidade concreta da humanidade. 
 
Não podemos mais desprezar a Literatura. Já passou o tempo em que era de bom-tom fazê-lo. O gênio maravilhoso que existe nela está, como bem acentua o romancista de L'Ordre, em consideração-la mais como meio do que como fim. Não queremos ver nela simples passatempo, por mais nobre, por mais sutil que seja, passatempo de palavras e criação. O que primeiramente procuramos na Literatura é um maior conhecimento e uma maior realização de nós mesmos. É a ela que cada um de nós vai buscar inspiração para resolver o seu destino, abrindo os olhos diante da vida. 
 
Os homens de letras se clarificam nela, obedecendo a essa grande necessidade que impele os homens a confessar os seus sofrimentos e as suas alegrias, transportando para o mundo ideal problemas que poderiam ser perturbados ou falseados pelas contingências cotidianas. 
 
E por isso é que, repetindo palavras já usadas, a Literatura não deixa de ser ainda grande esforço para a verdade. 
1941

Colaborador: TEMÍSTOCLES LINHARES


Por Francisco José dos Santos Braga
 
Para redigir este texto, servi-me em parte da contribuição dada por Aramis Millarch à homenagem que prestou pelo transcurso dos 80 anos do mestre Temístocles Linhares.

Ao lado de Wilson Martins, TEMÍSTOCLES LINHARES (✰ Curitiba, 1905 - ✞ Montevidéu, 1993) é o maior nome da crítica literária no Paraná, com mais de vinte obras editadas e reconhecimento internacional. Por mais de 50 anos produziu textos críticos divulgados nos mais importantes jornais e revistas do Brasil. Ainda durante o curso de humanidades e mesmo depois de formado, Temístocles Linhares sofreu a decisiva influência do ambiente cultural de Buenos Aires, cidade em que esteve muitas vezes e em cuja Faculdade de Letras, na época sob a direção de Ricardo Rojas, fez estudos especializados de literatura. O contato com esse grande centro intelectual, onde convivia com escritores, jornalistas, professores e estudantes, concorreu decisivamente para levar Temístocles Linhares à carreira de Letras, proporcionando-lhe inclusive conhecimento em profundidade da literatura hispano-americana, de que afinal viria a ser, mais tarde, professor catedrático na Universidade do Paraná. 

Professor da UFPR a partir de 1938, sua estreia em livro ocorreu em 1949 com uma obra marcante: "Eça de Queiroz, um caso de ressentimento". 

Em 1953, a José Olympio Editora editou seu livro "Paraná Vivo - Sua Vida, Sua Gente, Sua Cultura", republicado muitos anos depois em convênio da editora com o Instituto Nacional do Livro (1985). 

Em 1953 ainda, lançou pela José Olympio Editora "Introdução ao mundo do romance", longo estudo sobre o novelístico ocidental amplamente utilizado pelos estudantes dos cursos de letras. 

Pela mesma editora, publicou "Interrogações" (1962 a 1966, três séries). 

Convidado para lecionar na Universidade de Coimbra, segue em 1965 para lá, permanecendo até 1966. 

Quando dirigia o Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da UFPR, Temístocles se empenhou para edição de "Novo Caminho no Brasil meridional: a província do Paraná (3 anos em suas florestas e campos)", um relato do viajante inglês Thomas P. Bigg-Wither sobre sua viagem de três anos (1872-1875), importante testemunho sobre o espaço paranaense, publicado originalmente em Londres com o título Pioneering in South Brazil: three years of forest and prairie life in the province of Paraná ¹ e traduzido para o português em 1974. Consta que foi de sua leitura que o romancista Thomas Hardy, ao escrever "Tess of the d'Ubervilles" (1891), decidiu fazer com que um dos personagens de sua estória emigrasse para o Brasil, especificamente para "os arredores de Curitiba", onde se desenvolveu a frustada tentativa de colonização inglesa do Assunguy.

Temístocles Linhares se empenhou para edição de "Novo Caminho no Brasil meridional: a província do Paraná (3 anos em suas florestas e campos)" pelo viajante inglês Thomas P. Bigg-Wither
 
Ligado familiarmente à indústria do mate, convivendo inclusive em algumas atividades empresariais, foi autor, inclusive, de uma "História Econômica do Mate" pela José Olympio Editora em 1969. 
 
Em 1976 publica pela Imprensa Oficial "Primado do Nacional: a problemática das literaturas hispano-americanas", fruto de anos de dedicação à área de sua especialidade na UFPR. 
 
Finalmente para fins de apresentação do grande autor, cabe mencionar que, a exemplo dos mestres franceses, o “Diário de um crítico de 1976 a 1979” propôs a figura do intelectual na cidade dos homens, no mundo ideal do espírito, na condição humana.
 
 
 
II. NOTA EXPLICATIVA
 
¹  O original inglês em 2 volumes está disponível em arquivo PDF, podendo ser acessado o seu download em https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/518708  👈
 
III. BIBLIOGRAFIA
 
 
LINHARES, Temístocles: Interrogações (1ª série), Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1959, 357 p.
 
MILLARCH, Aramis: Os 80 anos do mestre Temístocles Linhares 
 
WIKIPEDIA: verbete "Temístocles Linhares"

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

A MESTRA DA VIDA


Por JOSÉ VAN DEN BESSELAAR (1916-1991) *
 
Texto retirado do capítulo VI do livro Introdução aos Estudos Históricos, 4ª edição revista e ampliada, São Paulo: E.P.U.-EDUSP-Editora da Universidade de São Paulo, 1974, pp. 103-114.

  § 31. O PRESTÍGIO DA HISTÓRIA 

Quase todas as civilizações de que temos conhecimento, buscaram nas lições do passado normas de agir, e exemplos inspiradores, ou então, motivos de consolo nos seus pesares. Com efeito, o prestígio da história foi sempre muito grande, apesar de não lhe faltarem, de vez em quando, adversários. 
 
I. Na Antiguidade 
Os gregos, em geral, estimavam bastante a história, confiando-a à proteção especial de uma das nove musas: Clio ¹. Apreciavam-na também vários filósofos. É verdade, para Platão o mundo histórico, sujeito que está à lei da eterna mudança, não podia ser o objeto de um conhecimento genuíno, e até o realista Aristóteles julgava a história menos filosófica e séria do que a poesia, porque esta é mais universal e aquela tem por objeto o singular ². Não obstante, aproveitava-se muitas vezes dos resultados da história, e não desdenhava fazer ele próprio pesquisas históricas ³. Entre os seus discípulos achavam-se historiadores ilustres . Cícero elogiou a história com estas palavras: testis temporum, lux veritatis, vita memoriae, magistra vitae, nuntia vetustatis . Tornou-se célebre a sentença do príncipe da eloquência romana, principalmente a expressão feliz: magistra vitae. Os cristãos avaliavam bem o caráter histórico da Encarnação, já indicado por São Paulo: "Se Cristo não ressuscitou, é pois vã a nossa pregação, é também vã a nossa fé" , e serviam-se, desde os tempos primitivos da Igreja, de dados históricos para confirmar os acontecimentos da Bíblia e para refutar as objeções dos adversários
 
II. Os ataques do Racionalismo 
Foi só na época do Racionalismo nascente, nos fins do século XVII , que se manifestou uma desconfiança mais ou menos sistemática acerca do valor do conhecimento histórico. Nem é de estranhar: o conhecimento histórico está longe das idées claires et distinctes, apregoadas por Descartes como as únicas legítimas. Desde que se considera o espírito humano como tabula rasa, e se nega a unidade substancial da alma o corpo, o homem tende a ser um animal "a-histórico". Malebranche diz que os historiadores nos comunicam os pensamentos de outros sem eles próprios pensarem: Adão, no Paraíso Terrestre, possuía a ciência perfeita sem saber nada da história. Os racionalistas perseguiam os historiadores com os seus sarcasmos, dizendo que o maior especialista sabia menos da história romana do que a empregada de Cícero  e assinalando, com um deleite mal rebuçado, as numerosas incoerências da tradição, os contra-sensos, os absurdos. Só especulações metafísicas, aliás bem cedo abandonadas pelo Racionalismo, só demonstrações geométricas e experiências físicas são capazes de nos darem a verdadeira sabedoria. 
Evolução paradoxal! O próprio Racionalismo, que começara por negar o valor ou até a possibilidade da história, acabou por consolidar-lhe as bases científicas. Nas suas lutas contra a tradição, que julgava arbitrária e tirânica, via-se obrigado a indagar e a examinar a mesma tradição. E, passados os primeiros combates, evidenciou-se que nela nem tudo era falso. Selecionando, criticando e ponderando, abriram caminho para uma tradição esclarecida e baseada em alicerces científicos. Desde os meados do século XVIII, a história começou novamente a exercer uma grande influência no pensamento das pessoas cultas, e o século passado foi a época áurea da historiografia. O "senso histórico" foi-se apoderando de todas as ciências. 
 
III. Alguns protestos mais recentes 
Em nome das forças vitais protestou Frederico Nietzsche contra a tirania da história, voltada que estava para o passado em vez de se dirigir para o futuro: tudo o que possui vida, deixa de viver, logo que é submetido a uma operação histórica, por ser cortado em pedaços: um exame justiceiro de coisas vivas acaba por diluí-las em conhecimentos puros e abstratos ¹. Mas sua voz foi a de um solitário: a história seguiu constantemente o seu caminho. No século atual insurgiu-se Paul Valéry contra a ciência histórica, dizendo: L' histoire est le produit le plus dangereux que la chimie de l'intellect ait élaboré... Il fait rêver, il énivre les peuples, leur engendre de faux souvenirs, exagère leurs réflexes, entretient leurs vieilles plaies, les tourmente dans leur repos, les conduit au délire des grandeurs ou à celui de la persécution, et rend les nations amères, superbes, insupportables et vaines. L' historie justifie ce que l'on veut. Elle n'enseigne rigoureusement rien, car elle contient tout, et donne exemples de tout ¹¹
Neste capítulo pretendemos examinar algumas das questões suscitadas por aqueles que elogiaram e censuraram a nossa ciência, procurando estabelecer a importância da história, e descrever os perigos que a põem em perigo. 
 
§ 32. A IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA 
 
O estudo dos acontecimentos do passado parece-nos importante, porque:
 
 I. As raízes do presente 
A história faz-nos conhecer a nossa própria origem, revelando-nos assim uma parte considerável da nossa existência no tempo. O homem quer compreender-se a si mesmo: é o esforço constante do espírito humano. Quer saber quem é, de onde vem, e para onde vai. Ninguém pode escapar por completo a perguntas dessa natureza. Mas o homem culto tem a obrigação de aprofundar-lhes o conteúdo e de estudá-las metodicamente. Ora, a filosofia, guiada ou não pela teologia, dá a esse respeito a última resposta ao alcance do homem. A história, porém, encara o homem na sua situação concreta no tempo, num plano inferior, ainda que muito real, mostrando-nos as numerosas raízes que nos prendem ao passado, deixando-nos entrever o caráter próprio da nossa situação atual. Com efeito, o mundo em que vivemos é o resultado de vários fatores históricos. Pois não morreu o passado junto com os momentos fugitivos que o constituíam, mas continua a viver em nós, quer o aceitemos e veneremos, quer o combatamos e rejeitemos. E' uma força que não se deixa eliminar da nossa existência. Compreendeu-o muito bem a escola de todos os tempos: para formar cidadãos, para iniciar as crescentes gerações na tradição pátria, para integrá-las no conjunto social, político e religioso, tem-se valido, não só da literatura nacional, como também da história. Le passé, le passé vivant, le passé tradition, le passé expérience, le passé qui engendre le présent, le passé patrimoine d'une nation, le passé racine du patriotisme et de l'unité, qui donc le transmet, sinon l'enseignement historique? ¹² Evidentemente, são bem diferentes as preocupações das crianças e dos adultos, dos leigos e dos especialistas, ao se dirigirem à história: mas todos procuram nela melhor compreensão do presente, cada um de acordo com o seu grau de desenvolvimento. Talvez não haja outra ciência tão apropriada a popularizar, no sentido bom da palavra, os seus resultados. 
 
 II. O passado por causa do passado
Não estudamos a história com o fim exclusivo de melhor compreendermos o presente: dedicamo-nos ao passado também por causa do próprio passado. Interessa-nos aí, principalmente a nós, os adultos, não só o factum, mas igualmente o fieri. Os conhecimentos históricos possuem valor intrínseco, podendo-nos livrar, até certo ponto, de uma mentalidade egocêntrica. O homem "a-histórico", encarcerado que está na atualidade, tende a tornar absolutas as normas que encontra no seu ambiente. E' homem pouco "experimentado". Os melhores entre nós tentam, porém, escapar às limitações que lhes são impostas pelo espaço e pelo tempo. Já o sabia Homero: elogiava a Ulisses, porque este visitara muitas gentes, chegando a conhecer-lhes a mentalidade ¹³. A "esperteza" do herói homérico baseia-se na sua "experiência". Uma viagem por terras desconhecidas faz-nos perder certas prevenções e alarga-nos o horizonte intelectual, contanto que sejamos abertos e sinceros. Poderíamos qualificar o estudo da história de uma viagem vertical: o espírito humano, viajando através dos séculos, pode ter as mesmas consequências salutares. O próprio Descartes, de modo algum apreciador da história, observava: c'est quasi le même de converser avec les livres des autres siècles que de voyager.  Il est bon de savoir quelque chose des moeurs de divers peuples, afin de juger des nôtres plus sainement, et que nous ne pensions plus que tout ce qui est contre nos modes soit ridicule e contre raison, ainsi qu'ont coutume de faire ceux qui n'ont rien vu ¹. Com efeito, pelo fato de nos descortinar a vida humana em tempos remotos, a história nos pode curar de certas tendências egocêntricas, proporcionando-nos um certo relativismo salutar, um bom antídoto contra os dogmas e os preconceitos da atualidade.
 
III. E o futuro? 
A história esclarece, pois, as raízes do presente no passado. Mas, conhecendo-se bem o presente, que contém os germes do futuro, não será possível predizer-se o futuro, pelo menos nas linhas gerais? Assim a história, por abranger as três partes do tempo, ganharia importância superior a todas as outras ciências. Mas exortam-nos à modéstia as palavras do Padre Vieira, apesar de ser ele autor de um livro que traz o título paradoxal: "História do Futuro", em que diz: O homem, filho do tempo, reparte com o mesmo a sua ciência ou a sua ignorância: do presente sabe pouco, do passado menos, e do futuro nada ¹. E' uma verdade óbvia, entretanto, muitas vezes esquecida por aqueles historiadores e filósofos que sobrecarregam Clio com um ônus que lhe ultrapassa as forças. O político Bismarck, homem pragmático, motejava com as lucubrações dos historiadores-adivinhos, dizendo: Querendo saber com certeza o que não acontecerá, faço-me informar pelo sr. Mommsen do que deve acontecer. O historiador não pode predizer o que há de acontecer daqui a cinco minutos: não é profeta. Quando muito, é mais capacitado do que outros, — ceteris paribus, — para fazer um prognóstico, não categórico, mas hipotético ¹. Conhece bem, suponhamos, as tendências vivas do tempo atual em busca de efetividade; conhece muito bem numerosas analogias históricas que lhe mostram soluções possíveis de problemas semelhantes; em suma, entende bem o rumo geral do tempo. Mas aí para irrevogavelmente a sua ciência do futuro. Pois das tendências atuais conhece forçosamente só uma parte mínima, sempre exposto a enganar-se na avaliação do seu valor existencial. Outrossim, o acaso e as livres decisões humanas, imprevistas e incalculáveis, podem sempre frustrar as tendências mais promissoras e fazer vencedoras as que neste momento se subtraem aos nossos olhos. A história é contrária a cálculos exatos sobre o futuro, porque não admite repetições mecânicas de casos idênticos, mas apenas conhece situações análogas, sempre suscetíveis de desfechos diferentes. 
 
IV. A historiografia pragmática
Os laços, que prendem o historiador à moral, já datam da Antiguidade: lembremo-nos das palavras ciceronianas: magistra vitae. A historiografia "pragmática", inaugurada por Tucídides e prosseguida até nos tempos modernos, pretendia extrair dos fatos históricos exemplos inspiradores ou horrendos, para uso dos príncipes, estadistas, governadores e militares. 
Os modernos já não acreditam, com os antigos, no caráter imperioso dos exemplos tirados da história, porque ela, como diz muito bem Paul Valéry, nos ensina de tudo; estão mesmo compenetrados de que a história, por relatar acontecimentos únicos do passado, é incapaz de nos proporcionar regras de conduta, diretamente aplicáveis às circunstâncias concretas do momento atual. 
Mas a história faz muito melhor. Não nos torna prudentes para certa ocasião determinada, ensinando-nos a repetir um ato prudente do passado: nos torna sábios para sempre. A história é a experiência coletiva da humanidade: alarga-nos o terreno forçosamente limitado das experiências pessoais da vida e do homem. E' uma escola de humanismo; nada mais interessante para o homem do que o homem. E a história, no fundo, não fala senão das formas variadas de que se tem revestido o Homem Eterno através dos tempos. Faz-nos assistir às peripécias dramáticas do homem que luta e sofre, vence e sucumbe, mas que, apesar das suas derrotas e decepções, sempre se obstina em nutrir esperanças e construir seu futuro. Na história desenrola-se o drama do eterno Lutador e eterno Sofredor, ao qual não podemos assistir sem experimentar em nós sentimentos e emoções semelhantes àqueles que Aristóteles designou com a palavra" catarse", isto é, "purificação" ¹⁷. O júbilo e a miséria de outrora, as esperanças e os temores dos antepassados, as vitórias e as derrotas de gerações há muito falecidas, transformam-se para nós,  observadores das vicissitudes humanas, em conhecimentos e reflexão. Reflexão sobre o quê? Sobre a riqueza e a pobreza da condição humana. Concluamos com uma palavra de Paul Hazard: J'aime la belle rigueur d'un esprit mathématique; mais un esprit tourné vers l'hisloire me paraît, je I'avoue, plus humain ¹⁸
Se já não podemos aceitar a história como a  pedante, tal como a imaginaram nossos antepassados, ela continua para nós "a mestra da vida", num sentido talvez mais sublime ainda; alarga as nossas experiências e ocasiona nossa reflexão sobre a condição humana. Mas, infelizmente, a magistra vitae, também na sua forma moderna, nem sempre tem alunos dóceis. 
 
§ 33. VIRTUDES E VÍCIOS 
A Crítica Histórica, nos séculos anteriores à Era das Luzes, resumia-se, por assim dizer, nestas palavras de Cícero ¹Quem não sabe que a primeira coisa a exigir-se do historiador é que ele não tenha a coragem de falar mentiras e, depois, que tenha a coragem de falar sempre a verdade? e que não dê lugar a suspeitas de se deixar levar por sentimentos de simpatia ou antipatia? Todos os autores  desde Cícero até Fénelon ²  concordam nestes pontos: o historiador não pode mentir, mas deve ousar dizer a verdade, por mais desagradável que ela seja, e deve ser imparcial na exposição dos fatos. Mas, depois de terem proclamado essas verdades ²¹, entram com um zelo geralmente bem maior em questões de natureza literária, dando regras mais ou menos pormenorizadas sobre a composição "oratória" da obra histórica ²². A historiografia daqueles tempos ainda não se emancipara da literatura, nem da moral. Apesar de se ter efetuado nos dois últimos séculos o processo de emancipação, continuam a ser requeridos ao historiador certas qualidades éticas e estéticas. É desses assuntos que pretendemos falar neste parágrafo final da primeira parte do nosso livro. 
 
I. Coragem e honestidade 
E' um fato inegável: tem-se mentido muito na historiografia. As paixões partidárias, o fanatismo religioso, o medo de melindrar os poderosos, a esperança de obter prêmios, o orgulho individual e coletivo,  tudo isso pode despistar o historiador, como o tem despistado na realidade. A essas mentiras propositadas e intencionais acresce uma série de mentiras, por assim dizer, quase inconscientes, originadas por preconceitos, que chegam a restringir a liberdade do historiador, impedindo-o de encarar as coisas com a devida abertura mental e serenidade. 
O caráter concreto da matéria histórica não se compadece com uma atitude completamente objetiva do lado do historiador. A história não trata de abstrações, mas de fatos concretos e de pessoas concretas. Instituições religiosas e sociais, transformações políticas, movimentos revolucionários, guerras nacionais, ideologias encarnadas nas grandes figuras da história pátria,  tudo isso não deixa indiferente o historiador, porque não o deixa indiferente no presente. Suas convicções e sua visão de mundo, e também seus preconceitos, suas simpatias e antipatias refletem-se facilmente no seu estudo do passado. Tais coisas não acontecem ao estudioso da matemática, pois ela tem por objeto verdades abstratas, que se subtraem à "esfera existencial" do homem. Mas, quando um princípio abstrato, por assim dizer, desce dos céus para tomar corpo na realidade concreta, parece que se torna um tanto confuso o nosso espírito sob o impacto das nossas paixões, instintos e interesses. Segundo Leibniz, o mesmo se daria com as verdades geométricas, se chegassem a intervir na nossa existência: também elas seriam impugnadas e negadas ²³
A objetividade absoluta no terreno da historiografia ²⁴ é uma ilusão racionalista, como o é também a ideia de uma "ciência sem pressuposições" ²⁵. Ninguém é capaz de raciocinar, e muito menos de sistematizar, sem partir de certos pressupostos: axiomas ou postulados. As "convicções pré-científicas" intervêm frequentemente, bem o sei, na interpretação dos fatos históricos (mais do que, por exemplo, na interpretação de um processo químico), mas a matéria histórica por si mesma não me obriga a livrar-me delas. Aliás, convicções são bem diversas de preconceitos. Preconceitos são pontos de vista, a que uma pessoa adere sem madura reflexão e sem exame crítico e ponderado; são muitas vezes devidos à existência de uma coação social ou de uma inibição psicológica. Mas uma convicção é uma adesão essencialmente livre, pela qual uma pessoa optou após ter refletido e inquirido. O historiador, sem perder o direito de ter suas convicções pessoais, tem a obrigação de ser "despreconcebido" na medida do possível. Luciano escreveu esta bela frase: O historiador deve sacrificar a uma única deusa: a Verdade ². Se não lhe foi dada a posse da verdade integral ou absoluta, jamais pode deixar de venerá-la como norma absoluta, tornando-se-lhe fatal o mínimo desvio consciente neste ponto. 
Por outras palavras, a impossibilidade de haver uma atitude inteiramente objetiva não dispensa o historiador da grave obrigação de ser absolutamente honesto e sincero; em alguns casos pode ser que dele se exija uma coragem fora do comum. Ninguém insistirá em que o matemático encare honestamente o teorema de Pitágoras; ninguém exigirá que o físico seja sincero ou corajoso ao estudar a eletrodinâmica. É que os resultados dessas ciências são universais, abstratos, exatos e unívocos, ao passo que o historiador estuda os atos humanos, que são concretos, únicos, complexos e equívocos (no sentido de se prestarem a mais de uma interpretação). Está em jogo a nossa concepção do mundo, ao interpretarmos os fins que a humanidade se propôs, durante sua marcha através dos séculos. 
Honestidade: jamais podemos desviar-nos de fatos bem averiguados. Serenidade: jamais podemos deixar-nos influenciar, conscientemente, por nossas simpatias ou antipatias. Sinceridade e coragem: jamais podemos deixar de externar a verdade, por mais embaraçosa ou incômoda que ela seja para nós próprios ou para o grupo social a que pertencemos. 
 
II. Não é perigosa a abertura mental? 
O historiador, empenhado em ter essa abertura mental e acostumado a reviver experiências alheias e a colocar-se mentalmente em outras situações históricas, não está exposto ao perigo de acabar por ser um relativista? Nossa resposta é: nem todo o relativismo é um perigo; existe também um relativismo salutar. 
Sem dúvida, há várias espécies de relativismo pouco sadio. Existe o relativismo radical, talvez melhor denominado "ceticismo", que não admite certezas absolutas na vida intelectual nem normas absolutas na vida moral. Para o intelecto, tal ceticismo pode ser um esporte interessante ou uma sedução tentadora, mas, levado ao extremo, destrói-se a si próprio, tanto no plano teórico ²como na vida prática ². Poderíamos chamar de "cético", numa forma mais mitigadas, ao imediatista, ao cínico, ao oportunista, ao profiteur: quando uma mente vem a ser repelida a si própria: segue o caminho do menor esforço, onde espera poder encontrar seus interesses egoístas sem se incomodar com os outros. Julgamos nós, com Huizinga e Marrou ², que o perigo de "ceticismo" desta natureza só existe para quem já anteriormente, por motivos alheios aos estudos históricos, perdeu a confiança na existência de normas absolutas. 
No mais das vezes, porém, o "ceticismo" não passa de uma reação psicológica contra um complexo de preconceitos (durante muito tempo, identificados com "convicções" e de imposições  identificadas com normas morais), em que se perdeu a confiança; a uma fase de confiança absoluta e ingênua segue-se frequentemente uma fase de desconfiança radical ³. Isso acontece na crise de puberdade de muitos adolescentes ³¹. É geralmente uma fase transitória, perigosa só no caso de se perpetuar. Sendo normal o desenvolvimento da pessoa em apreço, esta fase vem sucedida de uma fase característica do estado adulto: nem confiança absoluta (infância), nem desconfiança radical (puberdade), mas confiança crítica (maturidade). 
Nesta fase se nos apresenta a possibilidade de um relativismo salutar. É um relativismo que se opõe ao falso absolutismo de outrora. Um relativismo isento de fanatismo e intransigência, mas não destituído de firmes convicções e do "senso normativo". Um relativismo que reconhece a existência da Verdade Absoluta, mas que sabe que ela não é deste mundo relativo, em que o homem tem que conquistar a sua verdade no tempo, ao longo da sua existência histórica, sucessivamente, progressivamente ³², relativamente. O homem não é dono da Verdade; como criatura, apropria-se dela em parcelas, e como animal histórico, através do tempo. Relativismo é uma espécie de realismo e um ato de humildade: o relativista reconhece as delimitações inerentes à condição humana e tem respeito pela parcela da verdade que se encontra em outras pessoas. 
 
 III. E a criação artística? 
Quase todos os grandes historiadores dos séculos passados foram grandes literatos: Heródoto, Tucídides, Tácito, Fernão Lopes, Voltaire, Gibbon, etc. Também no século XIX, quando já nascera o novo conceito da história, vários historiadores mostraram-se grandes artistas: Macaulay, Guizot, Burckhardt, Renan, Alexandre Herculano, Oliveira Martins, etc. Ao grande público esses autores são geralmente conhecidos não por causa das suas investigações históricas, também feitas por eles, mas como autores da literatura nacional ³³
Não falamos aqui apenas nos méritos meramente estilísticos dos grandes historiadores; uma criação artística abrange muito mais: a composição, a dramatização, a faculdade evocatória, a intuição psicológica, a visão sintética de um conjunto, a mensagem humana de uma interpretação, etc. Apesar de se terem aperfeiçoado os métodos científicos da investigação histórica, todos esses fatores continuam a desempenhar um papel importante para uma obra histórica se tornar uma síntese de interesse verdadeiramente humano. A reconstrução técnica do passado pode ser interessante para alguns especialistas, uma visão pessoal do passado tem muito mais valor. Isso não quer dizer que a historiografia seja uma espécie de beletrística. Na literatura, o autor tem a liberdade de seguir o caminho da sua imaginação, limitada apenas pelas exigências da sua criação artística; na historiografia, a imaginação deve ser disciplinada por uma vontade incondicional de obedecer aos fatos. Na literatura, trata-se de criar uma nova realidade com a sua autonomia própria; na historiografia, trata-se de dar uma visão de dados objetivos e pré-existentes. Na literatura, a magia das palavras, por mais discreta que ela seja, é um fator essencial; na historiografia, é um elemento acessório, embora não sem importância. 
Pode-se formar um investigador, mas é impossível formar um artista criador. A combinação dos dois seria o caso ideal. Mas a quem as Musas não concederam o voo aos cumes do Parnasso recomenda-se uma atitude de realismo: ele não deve tomar seu Rocinante por um Pégaso; se não puder voar, não deve tomar emprestadas asas postiças; como outro Ícaro, há de cair fatalmente no mar da mediocridade. Seria uma traição tanto à arte como à verdade, e também neste particular, exige-se honestidade da parte do historiador. 
Ainda duas palavras sobre o estilo histórico, o qual, segundo os preceitos da retórica tradicional, deve ser simples, claro e natural ³⁴. Esta regra ainda hoje não perdeu nada do seu valor. O historiador, mesmo que não seja um estilista no sentido artístico da palavra, tem a obrigação de empregar sua língua com correção,  uma coisa que se pode aprender pela leitura de bons exemplos e mediante exercícios práticos. Não faz muito tempo que, na nossa cultura, o prestígio de uma formação literária (ou, talvez melhor: verbalista) era muito grande: naquele tempo era urgente advertir os historiadores dos perigos de declamações retóricas e de frases sonoras. Hoje nos ameaça o perigo de uma retórica "cientista", que consiste em estropiar a linguagem histórica com uma terminologia pedante, cheia de neologismos supérfluos, estrangeirismos de mau gosto e eruditismos ridículos. Falar "difícil" não é prova de cultura histórica, nem mesmo de erudição ou de alto saber. O historiador, como aliás todo e qualquer intelectual, tem uma grande responsabilidade para com a língua vernácula. 
 
* Autor de livros em diferentes áreas: Estudos Clássicos, Língua Latina, Filologia, Linguística, História e Literatura. Suas principais publicações, quando de sua permanência no Brasil, foram Introdução aos estudos históricos (1958) e Propylaeum Latinum: sintaxe latina superior (1960). Entre outros assuntos pesquisados por ele, é notável seu grande interesse pela vida e obra do Padre Vieira, a quem dedicou um livro em dois volumes: António Vieira. História do futuro (Livro Anteprimeiro) (1976), publicados pela editora Aschendorffsche Verlagsbuchhandlung, de Münster, Westfalen, considerado seu opus Magnum. O segundo volume dessa obra consiste em uma edição do célebre livro de Vieira, acompanhada de uma bibliografia, uma introdução e um aparato crítico. Também, digno de nota é um de seus últimos livros sobre Vieira: Antônio Vieira: profecia e polêmica, foi publicado no Brasil pela Eduerj em 2002.
 
II. NOTAS EXPLICATIVAS 
 
¹ Clio saeclo retro memorat sermone soluto, e Clio gesta canens transactis tempora reddit: assim começam dois poemetos, consagrados aos ofícios das nove Musas e muito populares na Idade Média: este, de um poeta anônimo, aquele, de Florus (século II d. C.) . — Cf. E. BAEHRENS, Poetae Latini Minores (Lipsiae 1871 e 1882), vol. III p. 243, e vol. IV p. 279. — Os nomes das nove Musas são enumeradas, pela primeira vez, por HESIODUS, Theogonia, pp. 77-79. 
 
² ARISTÓTELES, Poetica, 9. — O moralista Sêneca observa (Quaestiones Naturales III Praef. 5): Consumpsere se quidam, dum acta regum externorum componunt quaeque passi invicem ausique sunt populi. Quanto satius est sua mala exstinguere quam aliena posteris tradere? 
 
³  Por exemplo na sua obra histórica: De Republica Atheniensium
 
Por exemplo Dicearco (± 300 a. C.) que escreveu a primeira história da civilização grega (Vida da Hélade), e Aristóxeno de Tarento (século III) que passa pelo pai da biografia literária. 
 
Cícero, De Oratore, II 9, 36; De Divinatione, 24, 50: Plena exemplorum est historia; cf. PLUTARCHUS (§ 24, I) e Titus Livius (§4, III); SICULUS, Diodorus, Bibliotheca, I 2, 2: "Se a mitologia relativa ao Hades, por mais fictícia que seja, muito contribui para que os homens sejam piedosos e justos, quanto mais devemos estimar a história, a sacerdotisa da verdade, a fonte de toda a filosofia: ela, deveras, educa os homens para uma vida honesta e decente". E POLÍBIO (Historiae I 1, 1): "Os homens não possuem corretivo melhor do que o conhecimento dos fatos do passado". Cf. o opúsculo interessante de A. J. TOYNBEE, Greek Historical Thought, New York, in "Mentor Books", 1952. 
 
I Cor 15, 14 
 
Mencionamos apenas S. Augustinus, De Doctrina Christiana, II 28, 42-44, e De Vera Religione VII 13: "Em nossa religião, o ponto essencial que se deve admitir, é a história e a profecia para se ver como a Divina Providência efetua, no tempo, a salvação do gênero humano". 
 
Já Francis Bacon (1561-1626) depreciara a história, dizendo que ela pertence ao "reino da memória". - Cf. R. G. COLLINGWOOD, The Idea of History, Oxford, 1951. 
 
Com efeito, a empregada de Cícero sabia infinitamente mais coisas concretas da vida romana do que o historiador mais erudito dos tempos modernos; mas tinha ela uma ideia das conexões e da sua situação no tempo, ou tinha ela uma visão panorâmica e uma experiência refletida das coisas? 
 
¹Paráfrase de um texto de Nietzsche: Reflexões intempestivas, II 7 (em alemão: "Unzeitgemãsse Betrachtungen"), de 1873-1876. - Para a. tomada de posição de Nietzsche ante a história, cf. M.-A. Bloch, apud L'Homme et l'Histoire, pp. 165-169. 
 
¹¹ P. VALÉRY, Regards sur le Monde actuel (Paris, Gallimard), 1945, p. 44. - Cf. do mesmo autor, Variété IV (Paris, Gallimard), 1939, pp. 129-142. - As palavras de Valéry provocaram protestos violentos de vários lados, cf. La Via Intellectuelle LXIV (1936) e Revue des deux Mondes CIII (1933). 
 
¹² F. CHARMOT, S. J., La Teste bien faicte, Paris, 1945, p. 177. 
 
¹³ HOMERUS, Odyssea, I 3. — O texto já foi citado por Diodorus SICULUS, Bibliotheca, I 1, 2. 
 
¹R. DESCARTES, Discours de la Méthode (Paris, Flammarion), 1935, p. 6. 
 
¹Pe. António VIEIRA, História do Futuro, Ed. e Publ. Brasil, São Paulo, 1937, p. 32. 
 
¹Em alguns países europeus e americanos, fala-se hoje muito na "futurologia", a qual, acompanhando minuciosamente as tendências existentes na atualidade, procura formular prognósticos cientificamente fundamentados, sobretudo com o fim de "planejar" o futuro. 
 
¹⁷ ARISTÓTELES, Poetica, 6. — Lembremos a palavra sublime de Virgílio: Sunt lacrimae rerum et mentem mortalia tangunt (Aen. 1 462). 
 
¹⁸ P. HAZARD (Revue des deux Mondes, CIII, 1933, 15 sept., p. 189). 
 
¹Cf. CÍCERO, De Oratore, II 15, 62: "Nam quis nescit primam esse historiae legem ne quid falsi dicere audeat? deinde ne quid veri non audeat? ne qua suspicio gratiae sit in scribendo? ne qua simultatis?"
 
²Fénelon escreveu em 1714 Lettre sur les Occupations de l'Académie française (publicada em 1716), cujo capítulo VIII é intitulado: Projet d'un Traité sur l'Histoire. O autor adere, como é muito natural no seu tempo, à história "pragmática". Cf. logo no início: "L'Histoire est néanmoins très importante: c'est elle qui nous montre les grands exemples, qui fait servir les vices mêmes des méchants à l'instruction des bons, qui débrouille les origines et qui explique par quel chemin les peuples ont passés d'une forme de gouvernement à une autre". 
 
²¹ Muitas vezes frisam também a necessidade de ser erudito o historiador (conhecimentos da vida militar e política, da geografia, e da cronologia, etc.) 
 
²²  Cf. CÍCERO, De Legibus, I 2, 5: "... quippe cum sit opus (historicum) unum hoc oratorium maxime; cf. De Oratore, II 12, 51: historicum scribere... summi (oratoris est)"; PLINIUS, Epistulae, V 8; etc. 
 
²³  G. W. LEIBNIZ, Nouveaux Essais, etc., I, cap. 2: "Si la géométrie s'opposait autant à nos passions et à nos interêts présents que la morale, nous ne la contesterions et nous ne la violerions guère moins, malgré toutes les démonstrations d'Euclides et d'Archimèdes, qu'on traiterait de rêveries et croirait pleines de paralogismes.
 
²⁴ Aliás, evidencia-se, cada vez mais, que a objetividade absoluta também não existe nas ciências naturais. 
 
²⁵ Em alemão: "voraussetzungslose Wissenschaft", termo introduzido pelo historiador H. von Treitschke (1834-1896) e tornado conhecido por seu "correligionário" Th. Mommsen, que em 1901, numa carta pública, protestava contra a nomeação de um professor católico na Universidade de Estrasburgo. 
 
²LUCIANUS, Quomodo historia conscribenda, 39; cf. § 3, VI g. 
 
²O relativismo "absoluto" é uma contradição in adjecto: o relativista, por não admitir verdades absolutas e considerar tudo como absoluto, chega a contradizer-se: sustenta como uma verdade absoluta o seu relativismo. Com ele não é possível discutir: não se discute com uma planta, como diz Aristóteles (Metaphysica, III 4, 24). 
 
²Muitos relativistas pretensamente radicais são incoerentes: não se cansam de refutar velhos erros e de apresentar verdades novas. É o caso de um Spengler e tantos outros relativistas. 
 
²J. HUIZINGA, Sobre el estado actual de la Ciencia Histórica, Tucuman, s.d., cap. III, p. 137.  
H.-I. MARROU, De la connaissance historique, Paris, Aux Éditions du Seuil, 1954, p. 265. 
 
³Sócrates, no diálogo Phaedon (89D) de Platão, já falou na reviravolta de uma excessiva "philo-logia" e "phil-anthropia" no sentido de uma "miso-logia" e "mi-anthropia" radical. 
 
³¹ Papai Noel não existe; consequentemente, também Deus não existe! Essas "extrapolações" ocorrem não apenas na vida de adolescentes, mas também na de adultos, quando se vêem, de repente, desiludidos. 
 
³² Isto não quer dizer que o progresso na apropriação da verdade seja uma linha ascendente sem interrupções: há períodos não só de estagnação, mas também de retrocesso. 
 
³³ Cf. Fidelino de FIGUEIREDO, em Revista de História, nº 20 (1954). 
 
³⁴Assim falam Aristóteles, Cícero, Quintiliano e muitos outros. 
 
 
III. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
 
BESSELAAR, José van den: Introdução aos Estudos Históricos, 4ª edição revista e ampliada, São Paulo: E.P.U.-EDUSP-Editora da Universidade de São Paulo, 1974, 340 p.

FREIRE, José Geraldes: In memoriam de José van den Besselaar (1916-1991), Universidade de Coimbra: revista Humanitas (1991), no boletim de Notícias e Comentários (pp. 225-9). 

WIKIPEDIA: Joseph Jacobus van den Besselaar 

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

OS ÚLTIMOS DIAS DE FREI FELICÍSSIMO MATTENS o.f.m.


Por frei Seráfico Schluter o.f.m.
 

Este obituário, originalmente publicado pela Revista da Província Franciscana de Santa Cruz no Brasil, Ano XLIII, nº 2, 1978, faz parte do acervo do saudoso Gil Amaral Campos, ex-aluno do Ginásio Santo Antônio de São João del-Rei, que me foi cedido por seu filho, Bruno Braga Campos, residente em São Paulo-SP.

 

I. Frei Luiz Carlos, aliás frei Felicíssimo Mattens (✰ Amsterdam, 9/8/1912 ✞ 10/5/1978)
 
... é assim que ele ficou conhecido entre nós em São João del-Rei, ultimamente visto nas ruas, vestido à paisana, de chapéu de palha e de botinas... indo à fazenda. 
Nasceu em Amsterdam, capital da Holanda, a 9/8/1912. Entrou no seminário menor da Província holandesa, em Sittard, em 1925. Entrou na Ordem Franciscana a 7/9/1931. Fez o curso de Filosofia e o primeiro ano de Teologia na Holanda, e veio para o Brasil a 14/10/1935 para completar o resto em Divinópolis, onde Dom Antônio dos Santos Cabral o ordenou sacerdote na festa de Cristo Rei no dia 24/10/1937. Munido de muitos conhecimentos filosóficos e teológicos, dotado de dons linguísticos e musicais, frei Luiz Carlos começou a sua peregrinação, acompanhado sempre por seu violino. 
Atrás destas datas está oculta uma vida humana que se dedicou a várias atividades em benefício da Província de Santa Cruz ou seja, em prol do povo de Deus. No início da sua vida sacerdotal dedicou-se ao trabalho pastoral no Norte de Minas como coadjutor em Araçuaí e Jequitinhonha. Lá ficou conhecendo o duro trabalho pastoral, devido aos meios de condução daquela época: o táxi rural, isto é, "pedes apostolorum" ou o dorso de burro. 
Em 1941 foi transferido para São João del-Rei, onde exerceu várias funções como ecônomo do Colégio Santo Antônio, diretor, professor de francês e de religião, regente, guardião, fundador e administrador da Fazenda "Santo Antônio". Sob o seu mandato foi reaberto o curso científico em 1959, de que foi o primeiro diretor, e instalou no Colégio o sistema de pensionato. 
 
Pequena Gramática da Língua Francêsa adaptada por Felicíssimo Mattens

 
Salvo engano, em 1964, transferiu-se para Belo Horizonte, onde foi trabalhar no Hospital "Felício Rocho". Em 1966 foi como vigário para Cabo Verde, denominado por ele de "vice-capital". Dali foi para o Rio de Janeiro como capelão do Sanatório N. S. das Dores (onde submeteu-se a uma operação do estômago com bom resultado). Foi lá que ele se exercitou muito na arte do violino, de novo, após muito anos de não ter podido saborear pessoalmente essa arte divina. 
Com a transferência de frei Geraldo de Reuver e frei Salvador Tonino de São João del-Rei respectivamente para Santos Dumont e Belo Horizonte, ficou a fazenda praticamente sem administrador competente. Aí o coração de frei Luiz Carlos começou a sentir dó e paixão. Ofereceu-se para tomar conta da fazenda, pretendendo visitar São João mensalmente. Essa oferta foi aceita pela comunidade de São João. Desde então frei Luiz Carlos começou suas viagens cansativas. Através de suas conversas ficou transparente o seu desejo de ficar em São João del-Rei. Havia razão para isto. Primeiro que o calor do Rio o torturava, as viagens eram cansativas, alimentava-se mal e havia as dificuldades da fazenda que estava envolvida em dois litígios jurídicos. Estes litígios exigiam, de fato, a sua permanência mais prolongada. No início de 1976 frei Luiz Carlos resolveu ficar em São João del-Rei por uma boa temporada. Embora nunca fosse oficialmente incorporado na comunidade de São João, ficou ele conosco até o dia em que a sua doença o obrigou a procurar Belo Horizonte para se tratar. 
Frei Luiz Carlos encontrou a fazenda numa situação pouco favorável, apesar dos esforços sinceros dos administradores anteriores. A tarefa de frei Luiz Carlos era recuperar a fazenda financeiramente e mais tarde, eventualmente, vendê-la. Ele calculava precisar de uns quatro anos. Frei Luiz recuperou, de fato, a fazenda e salvou para a Província um grande patrimônio. Vender? Todo mundo sabe que, no dia de hoje, não se vendem terras. Terras não se vendem atualmente. É o melhor investimento que se possa fazer. O que frei Luiz ganhou na recuperação da fazenda, perdeu na sua saúde. Ele se cansava demais com suas idas à fazenda e vindas de lá. Não havia sempre condução na volta para casa. Então voltava a pé. Depois resolveu pernoitar na fazenda, um dia sim, outro dia não. Mas ele emagrecia consideravelmente. Ele culpava a comida do convento, querendo manteiga de primeira e banha de porco, mais sal e mais pimenta na comida. Seus desejos eram para nós um ponto de interrogação. Mas mesmo assim, ele foi atendido, salvo quanto ao sal e pimenta. Ele mesmo tinha de por tais ingredientes no seu próprio prato. Suas queixas, porém, continuavam... "Estou morrendo de fome", disse-me um dia. Ele não tinha apetite de forma alguma. Aconselhamos-lhe consultar seu médico no Rio de Janeiro. Nega! Aceitou, mais ou menos, uma sugestão de mandar ao seu médico uma descrição de tudo o que ele sentia. Acho que ele nunca mandou tal descrição. 
Mas havia mais coisas que nos preocupavam: seus desmaios. Faz uns dez anos ele teve o primeiro, na fazenda de Araticum, distrito de Emboabas. Ficou uns quarenta minutos sem sentidos e foi encontrado assim pelo empregado. No Rio lhe aconteceu também a mesma coisa. Aqui, em São João, teve vários ataques em 1977. Os sintomas eram de epilepsia. No dia primeiro de dezembro daquele ano o Luiz Carlos foi a Belo Horizonte, com frei Diogo, para consultar um médico. Voltou dia seis de dezembro, dizendo que agora sabia por que não tinha apetite e pediu desculpas por ter criticado a comida do convento: ele teria tuberculose! 
Foi de um lado um alívio para ele e para nós também, pois nós temíamos algo pior. O seu médico queria que nós todos tirássemos uma radiografia dos pulmões, inclusive todas as pessoas que tiveram contato direto com ele: o sr. Nilton e as empregadas. Devíamos mandar as chapas para Belo Horizonte... Também em consequência disso, nós todos tínhamos de ingerir uma certa dose de comprimidos por precaução, durante uns seis meses. Frei Luiz Carlos, porém, após ter ingerido uma porção de remédios durante várias semanas, ou melhor, durante quase dois meses e ter-se esforçado por comer mais, não conseguiu ficar firme quanto ao comer bem, retornando a alimentar-se mal. 
No dia três de fevereiro do ano corrente de 1978, depois do almoço, na presença de frei Diogo, Joel, Olavo, Dario e confrades da comunidade, frei Luiz teve um ataque forte. Seguindo o conselho do médico local, Dr. Diomedes, frei Luiz viajou a Belo Horizonte no dia quatro de fevereiro, acompanhado pelo sr. Nilton. Depois de ter feito alguns exames, voltou para São João, acompanhado pelo frei Nicolau e frei Abel. 
No dia quinze de fevereiro houve uma audiência com o Juiz Odilon a respeito do litígio, em que a fazenda estava envolvida desde 1967. Frei Rogério F. dos Santos também estava presente como encarregado da Fazenda "Santo Antônio". O que nós dois, frei Rogério e eu presenciamos não se pode descrever em palavras. Frei Luiz teve inicialmente três ataques de grau leve, e depois um ataque bem forte. Tudo isso durante a audiência. Jurei comigo mesmo que frei Luiz não voltaria mais ao fórum. E planejamos remover o frei Luiz para Belo Horizonte, no dia seguinte. Frei Luiz concordou inicialmente, mas depois do jantar ele me pediu mais uns dias para aprontar-se, para por certas coisas em ordem, e para despedir-se de alguns amigos. Deixei e ficou combinado que no dia vinte ele seguiria para Belo Horizonte. 
Nós queríamos evitar que Luiz fosse de novo a outra audiência no dia 23. Pois, sentindo-se bem, seria capaz de ir ao fórum. Neste ponto ele era teimoso. Mas o que aconteceu? Recebi, na tarde do dia 16, um telefonema de Belo Horizonte, comunicando que frei Nicolau e frei Lauro estavam a caminho para São João del-Rei, para buscarem o frei Luiz! Que fazer? Luiz já estava deitado; era mais ou menos 19h45min. Resolvi deixá-lo em paz e conversar com ele no outro dia. 
No dia 17, subi ao quarto dele, dizendo que o médico queria interná-lo imediatamente. Decididamente ele respondeu: "Não, não vou agora, mas no dia 20." Expliquei que os resultados tinham sido entregues ontem, na parte da tarde, e que os frei tinham chegado ontem à noite. Silêncio...! Depois ele desceu para tomar café. Novamente fizemos uma tentativa para convencê-lo, mas nem frei Nicolau obteve resultado. Novamente, silêncio...! por uns quinze minutos. Frei Luiz subiu ao quarto, sem falar nada. Quanto a nós, aguardávamos na esperança de que ele cedesse. Frei Luiz recuou. Frei Metelo estava descendo e conversou com ele. Ouvindo a palavra "junta médica", Luiz Carlos mudou de atitude. Um pouco mais tarde, frei Orlando me comunicou que Luiz Carlos estava colocando malas no corredor. Subi de novo. De fato, lá estavam algumas malas. Ele começou a falar comigo, dando algumas instruções, ou seja, recomendações quanto à fazenda, manifestando o desejo de querer despedir-se de alguns amigos, dizendo ainda que estaria pronto talvez antes do almoço. Que alívio para nós! Pois ficamos sabendo que o estado dele era grave. Depois do almoço eles partiram rumo a Belo Horizonte, onde foi internado mais ou menos às 18h30min. 
No dia 24 de fevereiro ele foi operado, mas após algumas horas de intenso estudo da situação, os médicos o consideraram inoperável. Desde então frei Luiz Carlos começou a sua longa espera, pensando inicialmente que sofria de tuberculose mesmo e cultivando ainda o desejo de viajar à Holanda. Mas na medida que o tempo passava, ele se conscientizou que não havia mais saída. Teve ainda o enorme prazer de ter a presença de sua única irmã e de sua única cunhada.
O frei Luiz Carlos se entregou à vontade de Deus e fez da sua morte um sacrifício por uma certa intenção que não posso revelar. Manifestou o desejo de morrer no Domingo da Ressurreição do Senhor. Aos visitantes pedia rezar, não por sua cura, mas para estar junto de Cristo, o mais depressa possível. No dia em que sua irmã e sua cunhada iriam embarcar para a Holanda, frei Luiz Carlos embarcou para a Pátria Celeste, terminando a sua peregrinação. Era o dia dez de maio de 1978. 
Frei Luiz Carlos... um homem, um frade menor  sacerdote amador e apreciador de música de violino, extremamente crítico a este respeito, persistente no duro estudo e exercício da arte de violino, ele, inclusive, sendo um grande apreciador e conhecedor da literatura francesa, tentava sinceramente compor uma sinfonia nas cordas de sua alma. Sob uma casca dura tentava ocultar a sua grande sensibilidade. No seu comportamento, nas suas atitudes e conversas cintilava do fundo da sua alma uma mentalidade profundamente religiosa para a superfície da vida de todos os dias. 
Era um tipo conservador, sensivelmente para o passado, e considerando a situação atual, os panoramas religioso, moral, político, socioeconômico, parecia ele, aos olhos de muitos, um homem pessimista. Era um homem com saudades. Saudades de quê? Saudades dos bons tempos? Saudades dos tempos das grandes comunidades de frades? Saudades de justiça, amor e fraternidade entre os homens? Saudades daquilo que a humanidade perdeu na queda dos primeiros homens? Era um homem de saudades... como nós todos somos no fundo da nossa alma... Agora ele descansa em paz... Que ele interceda por nós junto de Deus! 
 
25/05/1978 - São João del-Rei 
 
 
II. Frei Luiz Carlos entrelaçou todos nós com o Pai 
 
Por frei Basílio  de Resende o.f.m.
 
O final de uma existência humana é um momento decisivo que revela o segredo, o mistério que moveu a pessoa por toda a sua vida. 
O final da vida de Frei Luiz Carlos foi para nós, que o acompanhamos de perto, uma autêntica revelação. Eu, particularmente considerei uma graça especial ter vivido com ele estes seus últimos dias.
Este homem calado, este homem que nos parecia austero e duro, quase seco e frio no relacionamento, era animado por dentro de uma alma sensível, humana, evangélica, religiosa, fraterna. Os seus últimos dias no nosso meio revelaram as duas direções fundamentais que marcaram a sua vida: a direção do Pai e a direção do mundo e dos homens. 
 
1. "ESTOU INDO PARA A CASA DO PAI" 
 
Sua vontade, inicialmente, era de curar-se, era de viver. Ele foi informado que estava com tuberculose e que um pulmão estava todo tomado, precisava ser retirado cirurgicamente. 
Então pensou em voltar para a Holanda: "Já que não posso mais trabalhar no Brasil, deixe-me desfrutar um pouco de convivência dos meus familiares." Queria voltar para a sua Terra, sua gente. Voltar para a pátria e os seus. 
Pouco a pouco  com a evolução da enfermidade, com o enfraquecimento do corpo  ele foi descobrindo que a sua terra para onde estava indo era a Terra dos vivos, sua casa era a casa do Pai, sua gente para a qual caminhava para encontrar, eram os Eleitos do Cordeiro. 
E ele aceitou e assumiu esta mudança de direção. Preparou-se para ir para a casa do Pai. Pediu a celebração da eucaristia no seu quarto, e a unção. Pedia sempre a bênção e a oração. Refletia (em latim ¹) : "Terminei a minha carreira e guardei a fé. Já não me resta senão receber a coroa de justiça, que naquele dia me dará o Senhor, justo Juiz, e não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor a sua vinda". Pedia: "Reze para que Deus venha me buscar." 
 
2. "AQUELES QUE EU AMEI NA TERRA" 
 
Seu pensamento constante eram as pessoas que faziam parte mais significativa de sua vida: seus familiares, seus irmãos de vida religiosa, o povo de Deus, o Reino do Evangelho no mundo. Quanto a seus familiares, julgava ter uma missão ainda a cumprir. A reconciliação no seio da família de seu irmão. Quanto à nossa Província e nossa Ordem, fazia considerações de que me admirava. Falava sobre a pobreza: que nosso estilo de vida não é pobre; nosso estilo de vida não representa um desafio aos jovens. Os que vêm a nós são aburguesados pelo nosso estilo de viver. Perdem o elã. 
Em nossa vida fraterna, dizia que muitas vezes interpretamos erradamente a recomendação de Francisco: "non solum sibi vivere, sed aliis proficere ²." Dizia que nós nos matamos e desgastamos só atendendo a segunda parte da recomendação "aliis proficere". Esquecemos o "sibi vivere". Mas este polo da nossa vida não deve ser entendido como um fechamento individual ou grupal sobre si mesmo. Mas sim, como o cultivo da vida fraterna, da vida de oração, da vida de estudo e reflexão. 
Pedia-me para continuar dedicando as minhas energias ao bem da nossa Província, da nossa Ordem e do Reino de Deus. Eu percebia nisto a sua dedicação e o seu amor ao Mistério, ao qual nos consagramos.
Um dia eu lhe disse: "Frei, tudo o que o senhor está sofrendo, a dor, o incômodo do corpo, 'a vida que se extingue' como o sr. disse, viva tudo isso junto com Cristo na Cruz. Ofereça por todas as pessoas que o sr. conheceu e amou; por todas as pessoas que existem". Ele respondeu com emoção: "Obrigado! Assim eu vivo!" 
Frei Luiz Carlos viveu seus últimos meses de vida numa atitude interior de oferenda e de holocausto, junto com Cristo na Cruz. Ele nos entrelaçou com o Pai. 
(Reflexões na missa de corpo presente)

III. AGRADECIMENTO

 
O gerente do Blog de São João del-Rei agradece à sua amada esposa Rute Pardini Braga a formatação e edição da foto utilizada neste texto.
 
 
IV. NOTAS EXPLICATIVAS DO GERENTE DO BLOG

¹  Bonum certamen certavi, cursum consummavi, fidem servavi. In reliquo reposita est mihi corona iustitiae, quam reddet mihi Dominus in illa die iustus iudex: non solum autem mihi, sed et iis, qui diligunt adventum eius. (extraído de São Paulo: 2 Timóteo 4:7)
 
²  Viver não apenas para si, mas também para servir aos outros. (extraído das Laudes do Ofício de São Francisco de Assis).