segunda-feira, 27 de novembro de 2017

JOÃO DA MATTA, O COMPOSITOR SÃO-JOANENSE MAIS PUBLICADO PELAS EDITORAS BRASILEIRAS DE MÚSICA


Por Francisco José dos Santos Braga



“Eu sou o João da Matta.” 


Objetiva este breve artigo informar o leitor sobre novos “achados” que tenho feito sobre o mestre e compositor são-joanense João Francisco da Matta.



O musicólogo, historiador e pesquisador Aluízio José Viegas dizia ter quase certeza de ter localizado o batistério, contendo uma lacuna, do meu homenageado no arquivo paroquial da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, segundo o qual ele seria filho legítimo de João da Mata e Antonia Maria de São Pio, foi batizado e recebeu os santos óleos aos 28 de maio de 1832 na Matriz de Nossa Senhora do Pilar de São João del-Rei. Quanto à data de seu falecimento, parece haver um consenso de que ocorreu em 4 ou 5 de junho de 1909, no distrito de Serranos, município de Aiuruoca. Da sua certidão de óbito exarada em 28/08/2017 pela tabeliã de Serranos, a pedido do confrade do nosso IHG e presidente da Academia Lavrense de Letras, José Passos de Carvalho, consta a informação de que seu corpo se acha sepultado no adro da Igreja Matriz daquela localidade, ou como mais poeticamente descreve Alvino Ferrari, no jornal O Correio, São João del-Rei, Ano XIII, nº 619, edição de 07/09/1938:
O que me leva a lançar estas linhas é o fato de, dias atrás, em atividades cinegéticas em Serranos, o 'paraíso dos caçadores', haver deparado com o jazigo de João da Mata, ao lado da Igreja Matriz dessa localidade, túmulo raso e modesto, ‘sub umbra palmarum’, pois lhe monta guarda uma palmeira solitária batida pelo vento, esguia e agitada como a imaginação do artista que ela relembra...”. 
Outra informação importante é dada pela mesma certidão de óbito: o finado João da Matta era casado com Ambrosina Silva da Matta. Além disso, o saudoso Aluízio Viegas contou-me ainda que um filho do maestro, Targino da Matta, violoncelista e trompetista, brilhou na Orquestra Ribeiro Bastos no final do século XIX e início do XX, notabilizando-se em Belo Horizonte para onde se transferiu posteriormente.

É conhecido que Martiniano Ribeiro Bastos – mestre na sua escola de música na Rua da Prata, onde residia – transmitiu um vasto cabedal de conhecimentos musicais ao discípulo João da Matta, este, autor de variada produção musical que deixou espalhada não só pelo Sul e Oeste de Minas, mas também na Corte (Rio de Janeiro). Consta ainda que “Almirante”, em sua notável “História do Rio pela Música”, cita João Francisco da Matta como companheiro dos precursores do samba no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro.



Grande parte da sua obra foi impressa em editoras brasileiras de música, podendo-se afirmar que ele foi o compositor são-joanense mais divulgado em todos os tempos, no sentido de que foi quem teve mais obras musicais publicadas em vida.  Fala-se muito da música sacra produzida por João da Matta; de fato, ele se superou no esmero de algumas peças sacras. Algumas delas são ouvidas frequentemente em São João del-Rei, destacando-se as seguintes: Tota Pulchra es Maria (peça de devoção mariana tocada com frequência, mas especialmente dedicada à festa da Imaculada Conceição no dia 8 de dezembro) e Stabat Mater (na Sexta-feira Santa). Em Prados, a Marcha Fúnebre “João da Matta” é executada  anualmente na Quarta-feira Santa e na Procissão do Enterro. Além dessas obras sacras de inegável valor artístico, de fato ele compôs muita música profana igualmente preciosa. Segundo o pradense Luiz Fonseca, in Expressão Cultural: João da Matta, jornal Pérolas do Samba, São João del-Rei, Ano 0, nº 6, dez 2008, p. 8, o acervo da Biblioteca Nacional dispõe de inúmeras peças profanas deste autor, infelizmente sem especificar se todas se achavam impressas ou quais estavam impressas e quais manuscritas, desde poesias musicadas, marchas festivas, quadrilhas para banda, tango brasileiro, etc. Mencionou claramente que uma Marcha Fúnebre tinha sido impressa em 1870 na Casa Narciso & Arthur Napoleão, no Rio de Janeiro. O mesmo articulista consultou edições do jornal A Gazeta Mineira de 1891, nas quais era anunciada para venda a música “Tango das Moças”, de João da Matta, impressa em Juiz de Fora na tipografia dos Drs. Leite Ribeiro & Cia. O conceituado historiador Luiz Gonzaga da Fonseca, autor de História de Oliveira, publicada em1961, atribui a João da Matta um Hino da Liberdade, comemorando a Abolição da Escravatura, e um Hino à República, comemorando o 15 de novembro de 1889. Além dessas partituras, o próprio João da Matta publicou um anúncio, no jornal são-joanense A Pátria Mineira de 26/9, reiterado nas edições de 3, 17 e 24/10/1889, onde se lê que estava colocando à venda a “seus bons conterrâneos” músicas de sua autoria constando de dobrados, polkas, valsas, modinhas, hinos da Princeza e do Tiradentes, sem também especificar infelizmente se todas se achavam impressas ou quais se achavam impressas e quais manuscritas.


A 6 de março de 1938, foi comemorado o 1º centenário de elevação de São João del-Rei à categoria de cidade, cem anos depois da promulgação da Lei Provincial nº 93 de 6/3/1838. Praticamente durante quase todo aquele ano de 1938, quando era Prefeito Municipal Antônio das Chagas Viegas, O CORREIO prestou homenagem àquela data cívica, bem como rememorou os seus preeminentes vultos políticos e artísticos naquele século da história municipal que se findava. O DIÁRIO DO COMÉRCIO, lançado como órgão oficial da Associação Comercial em 06/03/1938 (Ano I edição nº 1), deixou para mais tarde fazer uma excelente cobertura dos acontecimentos comemorativos do centenário na sua edição de 17/08/1938, dando maior ênfase à visita do governador Benedito Valadares a São João del-Rei a fim de inaugurar o obelisco ("pirulito") na Av. Rui Barbosa, a ponte que leva o seu nome sobre o Córrego do Lenheiro ("cortou a fita simbólica") e um cruzeiro no Bonfim, com mudança em algumas denominações de ruas. Em artigo assinado por Asterack Germano de Lima, intitulado “A nossa Música e o seu Passado”, publicado em O Correio, São João del-Rei, edição de 28 de julho de 1938, lê-se:

No grande acervo da arte que palpita scintillante e immorredoura nos annaes desta historica cidade que pomposamente festeja o seu centenario, a 28 do corrente, a grandeza do seu passado artistico mais se accentúa, quando se manuseam as paginas que registam os fastos da arte musical, tão soberbamente cultuada pelos nossos maiores, nas partituras que nos legaram. (...) No domínio da música sacra (...) João da Mata – o preto tropeiro – que daqui sahia acompanhando cargas destinadas ao interior do oeste mineiro, por vezes, em interessantes peripecias, deixava à mostra o seu grande talento artistico.
Em certa occasião aportara à cidade de Pitanguy, descalço e com uma indumentaria mais que humilde. Assentara-se à porta de uma casa de abastado senhor, afim de ouvir a execução de uma sua partitura. O violino cantava o texto, tendo por acompanhamento um piano.
Tal era a deturpação do que estava escripto, que João da Matta não se conteve – bateu à porta, pediu licença às senhoritas executantes e disse-lhes: “Ha um engano, as senhoras não estão acertando no compasso”.
– Que! Você tem coragem de dar opinião sobre musicas de João da Matta?!...
Tanto insistiu, que lhe deram o violino; ficaram então scientes de que o tropeiro era um grande musico, e mais ainda, que era o João da Matta. (...)

A 31 de março de 1889 procedeu-se à bênção solene do Estandarte da Sociedade Lira Sanjoanense, trabalho de Luiz Batista Lopes. Constam do mesmo os nomes dos diretores da entidade e de alguns compositores mineiros, entre os quais o de João Francisco da Matta.

Estandarte original da Sociedade Lyra S. Joanense, trabalho de Luiz Batista Lopes, benzido solenemente a 31/03/1889.
Mesmo estandarte refeito em 1976 a partir do original. O nome de João F. da Matta aparece à direita do ramo verde superior. Crédito pelas imagens: Rute Pardini.


No Histórico feito por Roberto Múcio da Silva em 30/10/1995, em homenagem ao primeiro centenário da Corporação Musical “Lira do Oriente Santa Cecília”, ele observou que esse grupo musical atuava tanto como Banda de Música quanto como Orquestra Sacra, estava sediado no distrito de Rio das Mortes Pequeno e fora fundado em 22/11/1895 por dois Mestres-fundadores, a saber: Srs. Pedro “Sapo” e João da Matta, ambos negros e membros integrantes da Orquestra Lira Sanjoanense. Segundo o Histórico, os dois Mestres-fundadores teriam dito que estavam fundando a “Lira do Oriente”, por não serem aceitos na “Lira Sanjoanense”, com a qual ficaram descontentes diante de restrições sofridas à sua participação musical nas principais festividades onde a presença da Lira Sanjoanense era solicitada, mencionando que sofriam duas discriminações: sua cor negra e o fato de se exaltarem em bebidas. Quanto a João da Matta, o autor do Histórico esclarece que ele “exercia a profissão de tocador de porcos, desta região para a Zona da Mata”. Em minha visita aos arquivos daquela corporação musical, localizei pelo menos duas marchas festivas da autoria de João da Matta, intituladas “Belleza” e “João da Matta”, cujas cópias me foram gentilmente cedidas por seu atual dirigente e instrutor Márcio dos Reis.



Consta ainda que João da Matta tocava todos os instrumentos de sopro que possuem três chaves (válvulas ou pistões), tendo sido virtuose no oficleide, e alguns instrumentos de corda, além de pianista, tendo se apresentado em concertos em todo o Oeste e Sul de Minas, atuando também como insigne professor de música, hábil afinador de pianos e compositor ativo e fértil, com forte influência da ópera italiana, como a maioria dos seus contemporâneos. 
Oficleide antigo
As suas proezas nas várias localidades que visitou (entre as já conhecidas, pode-se citar as de Oliveira, Lavras, Pitangui, Juiz de Fora, Rio de Janeiro, distrito de Aventureiro pertencente à Vila Mar de Hespanha e distrito de Serranos do município de Aiuruoca) acabaram por transformá-lo em lenda viva, projetando o nome de sua cidade natal por todo o Sul e Oeste de Minas Gerais e principalmente na Corte.



Queria encerrar esta síntese com uma última informação: a opinião de Carlos Gomes a respeito do grande talento do músico tropeiro João da Matta. A esse respeito, tomo o depoimento de Gustavo Pena na primeira página do periódico O Pharol, de 12/10/1890 (reproduzido por [GUERRA, 1968: 72]), comentando uma apresentação do músico são-joanense no Teatro Novelli, de Juiz de Fora:
Há talvez 17 anos ouviu o escritor destas linhas este juízo a respeito do maestro mineiro pronunciado pelo imortal autor do ‘Guarany’: ‘Que esplêndido talento tão desaproveitado!... Se vocês querem, eu vou pedir ao Imperador que lhe conceda uma pensão para ir seguir o curso no conservatório de Milão.’ 
Observe que, se Pena escreveu isso em 1890, referindo-se a 17 anos antes, o fato se deu por volta de 1873.


Tomo ainda outro depoimento do poeta, escritor e músico Bento Ernesto Júnior que, no artigo de A Tribuna, de 07/04/1935, também destaca o encontro de João da Matta com Carlos Gomes, bem como a admiração deste pela qualidade da obra que passou a conhecer:

(...) O pobre negro, na noite de sua desgraça, teve um raio de luz a iluminar-lhe a personalidade humilde na grande admiração que por toda a parte se lhe dedicava e a consagração invulgar do aplauso da mais rutilante glória da música brasileira – o grande, o imortal Carlos Gomes que proclamou João da Matta uma das mais admiráveis organizações musicais que lhe fora dado a conhecer. 
O que se comenta em São João del-Rei é que João da Matta teria recusado a ajuda de Carlos Gomes para estudar na Itália por causa de seu casamento recente. Seja como for, uns seis anos depois, outro são-joanense, desta vez Presciliano José da Silva (18/02/1854-1910), igualmente negro, discípulo de Martiniano Ribeiro Bastos e músico talentoso, como o meu homenageado, é quem embarca em 19/04/1879 para a Itália, de posse de uma bolsa de estudos obtida junto ao imperador D. Pedro II, e matricula-se na Real Escola de Milão, onde se gradua. De volta ao Brasil, desenvolveu atividades musicais em Cantagalo, Nova Friburgo e Campinas.
Crédito: Conservatório Pe. José Maria Xavier
Crédito: Aluízio José Viegas



















Conforme se vê, a vida e obra de João da Matta estão sujeitas a uma permanente atualização, porque o que se encontra ainda envolto em “mysterio” demanda outros achados esclarecedores.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

CÃO, NOSSO MELHOR AMIGO


Por Léa Sayão


Alegria geral.
Risadas e surpresa.
"Que inteligente", disse Bernardo. 

Abriram a porta.
Entraram em casa.
E o cãozinho ganhou um bife mal passado e carícias.

Pic-nic em família.
Ao amanhecer, Bernardo, seus pais e o cachorrinho foram para o campo. Um céu azul, um sol lindo. Passariam um dia alegre, pescando de barco e à tardinha voltariam para casa.

O banho do Snoopy foi na pia.
Bernardo conversava com ele como dois amigos...

Jogo de bola...
A mãe levou seu cavalete para fazer uma pintura...

Bernardo foi nadar, mas de repente, deu um grito...
Seu amigo fiel pulou dentro do rio, nadando até ele...
Era uma cobra d'água... que vinha à tona para esquentar-se ao sol...

Bernardo tentou nadar até a margem rasa, do acampamento, enquanto o cãozinho assustava a cobra que tentou enrolar o coitadinho, não deixando ele nadar...

Os pais de Bernardo correram com uma toalha e fizeram-lhe aquela fricção!...

Depois... um leite quentinho, esquentado no fogareiro.

Graças a Deus, o cachorrinho estava salvo.
Mas quase que se afogava.
Foi uma tragédia.

Seis horas da tarde.
Hora de voltarem para casa.
Foi um dia cheio de surpresas e o susto foi dos maiores.
O amor e carinho pelo cãozinho aumentou.
Cresceu muito mais e agora também pelos pais de Bernardo que o reconheceram como amigo fiel. 

♧              ♧               ♧

"Quero passear um pouco...
Preciso de uma companheira..."

"Deixe de ser pão duro: uma vez por semana quero roer um osso e saborear uma gema cozida."

Quando Bernardo sarou, foi treinar o cãozinho, que crescia dia a dia: jogava uma bola e ele a trazia na boca.

Mais tarde...
"Casamento na família".
Mamãe, Snoopy precisa casar.
Já tem dois anos, diz Bernardo.
Sua namorada é uma cadelinha, sapeca, do vizinho! 

No clube foi a recepção.
Bolo e ossos...
A noiva de véu e grinalda e com o buquê nas patinhas. 

O noivo de colete e calça listrada, gravata borboleta e cartola.

Bernardo, alegre, convida os cachorrinhos dos amigos.

Ganharam muitos presentes: uma grande casa de madeira, uma grande toalha, coleira de pedrinhas coloridas, escova de cabelo, sabonete e shampoo, perfumes, fitas coloridas, brinquedos de borracha e um freezer.


(Trecho extraído de "Nosso Melhor Amigo", por Léa Sayão, [s.n.], Brasília, 1992, pp. 19-23)


CÃO PROCURA CASA COM QUINTAL
Veludo escapou da morte e quer ser adotado 

Se você mora em casa que tem quintal, a carta "escrita" por um cachorro "dócil e prestativo, amigo de verdade" e enviada ao GLOBO poderá lhe interessar. "Sou Veludo, um cachorro grande e velho. Só tenho uma orelha; a outra, os bichos comeram." Começa assim o "Recado de um cão", escrito por Lucy de Castro Barreto, moradora da Penha. Ela conta que, passando pelo posto Jóia do Viseu, encontrou Veludo doente e abandonado. Impressionada com o estado do cachorro, mais tarde Lucy voltou ao local, levando medicamentos. Ficou sabendo que o cão era do dono do estabelecimento, que dispensara sua ajuda. Ela passou a visitar o cão diariamente, pois o dono ameaçava sacrificar o bicho.

"Com o pelo grudado de graxa e óleo, fui envelhecendo. Tornei-me frágil. E quando adoeci, meu dono descobriu um remédio para mim: a morte", conta Veludo na "sua" carta.

Lucy então procurou um veterinário e, com a sua ajuda, levou o cão para uma clínica. Lá ele foi salvo. Segundo a mulher, mais de 200 bichos foram retirados de seu ouvido e pescoço. Agora Veludo está bom, mas Lucy não pode levá-lo pra casa porque já tem vários outros cachorros.

"Meu sonho é tomar conta de um quintal. Passo o dia numa área, preso pela corrente. Preciso de um dono. Quem me quiser, telefone para 351-8898. Fale com o meu amigo Dr. Juarez (o veterinário). Ele me levará até a sua casa e me dará assistência médica" completa o cão. 

VELUDO JÁ É DISPUTADO POR 33 FAMÍLIAS

Velho e sem uma orelha, o cachorro Veludo jamais poderia imaginar que, no fim de sua vida, seria tão disputado, graças à moradora da Penha Lucy de Castro Barreto e ao veterinário Juarez Dias Pedreiro. O cachorro está sendo disputado por nada menos do que 33 famílias. Através do "Recado de um Cão" carta escrita por Lucy e publicada ontem no GLOBO, inúmeras pessoas tomaram conhecimento do drama de Veludo e ligaram para o veterinário dispostas a realizar o sonho do velho cão: tomar conta de um quintal. Muitos também procuraram Juarez interessados em saber apenas como poderiam ajudar Veludo. Hoje, Lucy e o veterinário vão escolher, dentre os interessados, aquele que receberá Veludo em casa.

Recebemos mais de 50 telefonemas sobre o cão. Veludo já está velho, mas seu pelo está crescendo novamente e ele está se recuperando. Um cachorro vive em média 15 anos, mas tudo depende do tratamento que ele recebe. Veludo, que tem de 12 a 14 anos, vai continuar recebendo assistência médica, onde estiver   garante Juarez. 

O veterinário conta que até moradores de outras cidades, como Juiz de Fora, Friburgo e Areal, estão interessados no cachorro. O critério para a escolha será simples. Juarez e Lucy escolherão a família que puder cuidar melhor de Veludo. Para isso, serão levados em consideração os espaços que a família dispõe para deixar o cachorro e o número de animais da casa. Mas o veterinário também quer saber se o escolhido dará a Veludo "todo o carinho que ele merece".

A vida do cachorro começou a mudar quando Lucy o encontrou em um posto de gasolina da Penha, amarrado a uma corrente. Velho, com o pelo grudado de graxa e óleo, Veludo já perdera uma orelha. Após vencer a resistência do dono do animal, que queria sacrificar Veludo, Lucy conseguiu levá-lo para a clínica de Juarez. Lá, mais de 200 bichos foram retirados do ouvido e pescoço do cachorro. Mas Lucy não pôde levar Veludo para casa por já possuir outros animais.

Ela resolveu então escrever uma carta ao GLOBO, relatando o drama do animal e se oferecendo para entregar Veludo na casa da pessoa que pudesse cuidar dele. O telefone do veterinário Juarez (351-8898) foi publicado e Veludo agora está sendo disputado por 33 famílias. Após mais de dez anos de maus tratos, o cachorro terá, com certeza, uma velhice tranquila.

FINAL FELIZ PARA VELUDO. ELE TEM NOVO DONO.
Ramon promete tratar do cão com carinho.

Veludo, o velho cachorro doente e sem uma orelha que não tinha onde morar, terá um final de vida feliz. A professora Lucy de Castro Barreto, que conseguiu evitar a morte do animal, escolheu um lar para ele em Brás de Pina, próximo à clínica veterinária onde estava sendo tratado. Ramon Alvarez de Moura, 21 anos, também apaixonado por animais, é agora o dono de Veludo.

A nova família de Veludo não é rica, mas foi escolhida entre 33 outras por morar perto do veterinário Juarez Dias Pereira, que continuará a cuidar da saúde do cão. Na casa não há um quintal grande, que, no entender de Lucy, seria ideal para o cachorro brincar, mas uma área pequena. A maior vantagem para Veludo, no entanto, é o carinho com que será tratado pelo novo dono, que, como Lucy, tem um gato, também abandonado nas ruas.

Ontem, Veludo tomou banho de água e óleo Johnson. Achando que o cachorro estava com um ar meio triste, Ramon levou-o a passear.

Só que ele não pode ainda ir muito longe, porque está velhinho e fraco, disse Ramon.

Os pais de Ramon também gostam de animais. Tanto que na casa já vivem, além de dois passarinhos, um gatinho recém-nascido que o rapaz pegou na rua há poucas semanas. Ramon está na 7ª Série do Primeiro Grau e, apesar do atraso nos estudos, trabalha para ajudar o pai que é motorista. Sonha um dia ser veterinário.

Lucy Barreto não levou Veludo para sua casa, na Ilha do Governador, porque já tem oito cachorros. Sua luta para salvar o animal começou há dois meses e meio, quando ela o viu amarrado a um poste num posto de gasolina da Penha. Quase que diariamente, Lucy levava comida para o cão, que, segundo o dono do posto, teria de ser sacrificado, pois estava muito doente. Temendo que Veludo sofresse para morrer, Lucy chamou uma veterinária para sacrificar o cachorro. Mas quando a moça viu Veludo, recusou-se a dar-lhe uma injeção de veneno, afirmando que ele tinha condições de sobreviver. 

Consegui comprá-lo do dono do posto e levei-o para a clínica de Juarez, tudo escondido de meu marido, José, que nem podia mais pensar em cachorros dentro de casa, conta Lucy.

O drama de Veludo comoveu o marido de Lucy, que só soube de toda a história no domingo, ao ler a carta "Recado de um Cão", no GLOBO.

O José não se irritou, compreendeu, porque também gosta muito de animais. Já combinei que visitarei Veludo pelo menos uma vez por mês,   disse Lucy.

(Textos extraídos de "Nosso Melhor Amigo", por Léa Sayão, [s.n.], Brasília, 1992, pp. 25-27)
  



 

Colaboradora: LÉA SAYÃO


Por Francisco José dos Santos Braga


LÉA SAYÃO (Carvalho Araújo) era natural de Belo Horizonte, onde nasceu em 23 de novembro de 1927, segunda filha de Bernardo Sayão Carvalho Araújo e Lygia Mendes Pimentel Carvalho Araújo (filha de Francisco Mendes Pimentel e Áurea), cujo casamento ocorreu em 16/10/1925. Sua irmã mais velha: Laís. Órfãs de mãe, Bernardo Sayão criou suas filhas para amar e conhecer as fronteiras de seu País e trabalhar a seu lado nas selvas, enquanto ele se dedicava à abertura de novas rotas através das ínvias matas da "Marcha para o Oeste". Enquanto suas amigas "debutavam no Rio, Léa se aventurava nas selvas, banhando-se nas águas frias do rio das Almas, indo a uma roça buscar mamão e algumas vezes uma abóbora, para a refeição da família. Eu me lembro muito bem de Léa sentada num tronco seco debaixo de uma barraca coberta de capim, ensinando os cansados trabalhadores a ler e a escrever, sob a luz de uma lamparina de querosene", escreveu Joan Lowell no prefácio do livro de Léa, "Bernardo Sayão em Quadrinhos".

Após a morte de Lygia, sua primeira esposa, Bernardo Sayão casou a segunda vez com a amazonense Hilda Fontenele Cabral em 25/10/1941. Desse casamento, nasceram Fernando Carvalho Araújo, Bernardo, Lia e Lílian. Em 1952 Laís casou com um diplomata e se mudou para Nova Iorque, enquanto Léa escolheu acompanhar o pai que sempre viajava na frente para novas missões: delinear o mapa da colônia agrícola de Ceres-GO (onde Léa ensinava a crianças e colonos) e desbravar a estrada Belém-Brasília (enquanto Léa seguiu para a Nova Capital com o objetivo de sedimentar as sementes do saber e fundar diversas entidades filantrópicas). Ela, ao acompanhar seu pai em suas missões, viveu em acampamentos construídos às pressas, ensinou peões a ler e a escrever, viajou em canoa, passou fome e frio e foi uma das poucas brasileiras que podiam proclamar com orgulho: "Vi nascer a estrada Belém-Brasília, a principal rodovia do País", "Vi nascer e crescer Brasília", cidade que ela amava com todo seu coração. Inteligente, trabalhadora, corajosa, simples, educada, culta e patriótica, pode-se dizer que Léa era uma autêntica pioneira da Nova Capital. Foi muito verdadeira quando escreveu um livro bilíngue ilustrado, intitulado "Brasília, eu te amo, Brasília, I love you" .

Ainda em 1952, Léa teve a sua primeira atuação "política", ao fundar em Anápolis a Liga Social Feminina, entidade filantrópica de amparo à infância desvalida. É extensa a lista das entidades filantrópicas que ou fundou ou ajudou a fundar. Por exemplo, ajudou a fundar vários partidos políticos do DF, contribuiu para a fundação da Associação dos Seresteiros do DF, Associação de Imprensa de Brasília, ANE-Associação Nacional de Escritores, Sindicato de Jornalistas do Estado do Rio de Janeiro, International Women' s Club Rio de Janeiro, APE (Brasília-DF), Pestallozzi (Brasília-DF), Casa da Mãe Preta, Liga Social de Brasília, Associação Cristã Feminina de Brasília, quando fundou e trabalhou durante cinco anos com creche e cursos. Dizia-se magoada com determinada diretora que a sucedeu, por ter abandonado um terreno no setor de grandes áreas que ela (Léa) havia conseguido. Junto, de cambulhada, perderam-se barracos, bibliotecas, máquinas de costura e de datilografia. Também foi Assistente Social do Projeto Terceira Idade.

Foi admitida no Senado Federal em 1961. Secretariou os seguintes Senadores: Juscelino Kubitschek (MG), Gilberto Marinho (RJ), Benedito Valadares (MG), Domício Gondim (PB), Osires Teixeira (GO), Eurico Rezende (ES), Moacyr Dalla (ES), Marcondes Gadelha (PB) e Olavo Pires (RO). Em 1989, aposentou-se e passou a trabalhar com serviços sociais, fundando com o apoio do Governo a Escola Agrícola Bernardo Sayão em São Sebastião do Distrito Federal. 

Foi casada com Milton Propício de Pina, que faleceu cedo deixando-a responsável pela educação de seus dois filhos, Milton de Pina Júnior (economista residente no Rio de Janeiro) e Bernardo de Pina (excepcional), que fazia questão de ser chamado por "Dr. Brama". Júnior, como costumava chamar o primeiro, deu-lhe duas netas (Júlia e Alice Matos de Pina) que lhe deram muita alegria. Também criou Léa um filho adotivo que aparecia, principalmente, no seu aniversário, no apartamento 206 do Bloco F da SQS 107, em Brasília, onde ela residia. 

Léa fez questão de fazer a seguinte dedicatória a mim, em seu livro "Nosso Melhor Amigo" (o cão, "o único que não faz cachorradas na vida!", costumava dizer), para crianças, com o qual conquistou o 1º prêmio como livro documentário sobre o cão na Academia Internacional de Ciências e Letras de MG. Assim escreveu na dedicatória a mim: "Ao grande pianista Francisco Braga, esperando que algum dia você tenha um amigo inigualável, um 'au-au' na sua vida. Com um abraço afetuoso, Léa Sayão. Brasília, 28/08/1999."

Mas Léa Sayão considerava mesmo sua grande obra o seu livro "Meu pai, Bernardo Sayão", onde ela se revela boa historiadora. Convém lembrar que ela era membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal.  O exemplar de "Meu pai, Bernardo Sayão" que possuo é o da 6ª edição, de 2004, publicado pelo Centro Gráfico do Senado, reconhecendo a importância dos trabalhos realizados por Bernardo Sayão e colaborando, com essa iniciativa, para a sua divulgação para as futuras gerações. Dirigindo-se aos caros leitores, na introdução, Léa Sayão deixou claro que tinha a pretensão de que esse livro "levasse aos jovens de alta têmpera, do amanhã, a palavra de fé, de um grande exemplo em vida real." E finalizou sua mensagem de forma lapidar: "Papai não nos deixou fortuna, mas sim a maior de todas as heranças: UM NOME HONRADO."

Como amante da cultura popular e destacada carnavalesca que era, tinha um compromisso marcado e improrrogável, que consistia no seu desfile na ala das Baianas da Estação Primeira da Mangueira, no Rio de Janeiro. Até o Natal, Léa precisava ter colocado seus compromissos de Brasília em dia, porque no Ano Novo sua atenção se voltava inteiramente para o Carnaval e sua adorada Mangueira. E ninguém a segurava mais em Brasília. Era divertido vê-la despedindo-se das amigas, entrando em seu "carrão" com seus cãezinhos e Dr. Brama. Seguia ela para a sua residência no Rio: rua Gustavo Sampaio, nº 358, aptº 304, Leme. A cerca de 1.200 km de distância.

Léa foi também uma grande organizadora e perfeita animadora de festas. Algumas delas se realizavam em sua residência (apartamento 206 do Bloco F da SQS 107), especialmente as que comemoravam as datas natalícias de Léa e Dr. Brama. Também dignas de rememorarmos aqui foram: 
• festa em homenagem à compositora brasileira Chiquinha Gonzaga,  na Churrascaria do Lago, em Brasília, inicialmente prevista para realizar-se em 16 de outubro, foi remarcada para o dia 29 de outubro de 1999, com minha participação ao piano digital da "Casa do Poeta Brasileiro-Poébras-Seção Brasília", adquirido "ad hoc", sob a minha orientação, pelos membros do sodalício, fruto de uma "ação entre amigos" sob a presidência da saudosa e inesquecível poetisa Maria de Lourdes Reis, autora de "Neco primeiro e único".






















• comemoração do 40º aniversário da Rodovia Bernardo Sayão (nova denominação dada  à Rodovia Transbrasiliana ou Belém-Brasília pelo Decreto nº 47.763, de 02/02/1960, do Presidente JK, publicado no D.O. de 05/02/1960), nas instalações do Senado Federal.

• solenidade realizada no Catetinho em 14/09/2002 para entrega de Medalhas do Primeiro Centenário de Nascimento de Bernardo Sayão.

Em todas as festas, Léa Sayão primava pelo bom gosto, sendo excelente anfitriã, estando sempre rodeada de muitos amigos.

Fui convidado por minha amiga a animar algumas dessas festas, tocando no piano digital acima referido. Eis o registro de uma das festas, ocorrida em 08/04/2000, comemorando o 44º aniversário do Dr. Brama, no salão de festas do Bloco C da SQS 109 (onde residia a presidente da Casa do Poeta Brasileiro, seção DF), que animei naquele magnífico instrumento, comprovado por programa que guardo com carinho:





















Os livros publicados por Léa Sayão foram, pelo menos, os seguintes, que possuo: 
Meu pai, Bernardo Sayão, Brasília: Conselho Editorial do Senado Federal, 2006, 591 p.

 Bernardo Sayão em Quadrinhos, Brasília: Conselho Editorial do Senado Federal, 2004, 96p.

 Nosso Melhor Amigo, [s.n.], Brasília, 1992, 76 p.

 Mãe Preta: Casa da Mãe Preta-Núcleo Bandeirante-DF, [s.n.], Brasília, 1992, 69 p.

Léa Sayão se despediu da sua vida terrena aos 8 de outubro de 2011. Viveu uma existência muito digna e fez inúmeros amigos fiéis, entre os quais nos incluímos minha esposa Rute Pardini e eu.

Crédito pelas imagens: Rute Pardini.

(Texto da autoria de Francisco José dos Santos Braga, publicado em 01/08/2015 no Blog do Braga com o título de VIVAS A LÉA SAYÃO!, link: http://bragamusician.blogspot.com.br/2015/08/vivas-lea-sayao.html, levemente modificado para ser utilizado como biografia da nova colaboradora póstuma)