quinta-feira, 19 de julho de 2018

FAZER JORNALISMO


Por Evandro de Almeida Coelho

Professor aposentado, 
ex-presidente da Academia de Letras de São João del-Rei 

Originalmente publicado na Tribuna Sanjoanense, edição de 20 de fevereiro a 6 de março de 2018, p. 3
 

Em princípios de 1967, tarde de domingo, apareceram lá em casa alguns amigos. Comentamos sobre a cidade, município recente, desmembrado de Rio Piracicaba, quinta renda do Estado, perdendo para a Capital, Juiz de Fora, Uberlândia e Ipatinga. E continuávamos com a vidinha de Monlevade perto da usina siderúrgica, Areia Preta, Vila Tanque, Baú, Pirineus, Posto, Loanda, Jacuí de Cima, Santa Bárbara e Lourdes. Carneirinhos já estava com boas lojas e pequenas indústrias. 

A Associação Comercial e a Prefeitura se ressentiam da falta de comunicação com os habitantes. E ajudariam o aparecimento de um noticiário fora do jornal “Pioneiro” e da Rádio Cultura, ambos da Belgo-Mineira. Depois dessa introdução, como sabiam que dirigi um jornal e revista na Faculdade, fui convidado a organizar um jornal independente. Aceitei o convite com a condição de me informarem os assuntos a serem divulgados. Que me passassem as notícias e redigiríamos o jornal para um texto mais homogêneo. 

Os fatos apareceram em páginas de caderno, blocos de anotações, pelo telefone e em encontros de rua. Fizemos uma pasta bem cheia. Prandini e eu tivemos trabalho em selecionar anotações. Isto feito, datilografei o que escolhemos. Ficou mais legível. Em uma folga do Colégio fomos a Belo Horizonte, e procuramos orientações mais seguras e técnicas do Adival Araújo, professor de redação no curso de jornalismo da minha Faculdade de Filosofia. Estava como redator-chefe do “Diário Católico”. Deu preciosos conselhos e, na parte de imprimir o jornal, ofereceu as oficinas do periódico. Um problema foi conseguir linotipos prontos. Procuramos o deputado Wilson Alvarenga. Foi conosco à Imprensa Oficial e conseguimos que fizessem os linotipos. Voltamos ao “Diário” e avisamos sobre o andamento das atividades. Faziam a paginação, mas faltava o cabeçalho. Conversamos e combinamos: Evandro, Diretor; Prandini, Redator; Randolfo, Gerente; Milton, Publicidade e Álvaro, Reportagens. 

Levamos as páginas datilografadas para a Imprensa Oficial e dois dias depois fomos buscar os pesados linotipos que deixamos com o chefe das oficinas do jornal. Mais alguns dias e fomos buscar o jornal impresso “O Eco” e o distribuímos aos amigos. Ganhamos o papel dos 500 exemplares. Houve sobra de assuntos nos linotipos já prontos. Deu para fazermos o segundo e quase o terceiro número. 

Evandro de Almeida Coelho com o 1º número do jornal "O Éco", de Carneirinhos-João Monlevade, MG







Soubemos que o Deputado Aníbal Teixeira estava vendendo sua tipografia. Tipos e máquinas impressoras. Era meu conhecido entre os “plinianos” que se reuniam na casa do industrial Salustiano Pureza, fabricante de banha, para ler obras do “Chefe Nacional”. Com algum esforço o Prandini comprou a tipografia e tivemos sorte de encontrar o “Capixaba”, mecânico da Belgo e ex-tipógrafo. Passamos a imprimir o jornal: página um; depois de secar, página quatro; depois de secar, página três; depois de secar, página dois. As caixas de tipos tinham pedaços de cartolina indicando as letras. O “b”, “p”, “d” e “q” eram com pinças depois dos compositores. Nossos tipógrafos foram calouros da arte. 

O jornal durou quarenta números e foi a fonte e incentivo para outros jornais e revistas na cidade. 


Esta crônica é pequena homenagem aos nossos alunos do curso de jornalismo, aos redatores atuais do ótimo periódico “O Tempo” e aos infelizes que fazem agora o antigo “melhor das Minas Gerais”. 
(Crédito pelas imagens: Rute Pardini Braga)

terça-feira, 17 de julho de 2018

BORGES, O MAGO PORTENHO


Por Rogério Medeiros Garcia de Lima
Desembargador do TJMG
"Ensaio publicado originalmente na revista MagisCultura, Associação dos Magistrados Mineiros, Belo Horizonte, nº 18, setembro de 2017, pp. 36-42"


Fui introduzido ao notável escritor argentino Jorge Luis Borges em 1980, quando ele concedeu entrevista à revista Veja (São Paulo, Editora Abril, 17.09.1980).
Fiquei fascinado pela exótica figura cosmopolita, homem culto, vivaz, sarcástico e dono de prodigiosa memória.
Borges contava, então, 81 anos de idade. Era cego desde os 50, mas produzira fabulosa obra literária.
Ele não disfarçava a frustração por não haver sido laureado com o Prêmio Nobel de Literatura. De fato, é uma enorme injustiça histórica.
Somente conheci a Argentina em 2004, quando visitei Buenos Aires pela primeira vez. Foi amor à primeira vista. Retornei diversas vezes à capital portenha. Digo sempre a familiares e amigos:

- Esqueçam as rixas do futebol e aprendam o caminho de Buenos Aires. É o caminho dos sonhos.

Quando vou à capital argentina, não deixo de visitar as ricas livrarias locais. Trago na bagagem, entre outras valiosas aquisições, livros escritos por Borges e livros sobre Borges.
Não se assimila o mágico universo borgeano sem ter conhecido Buenos Aires.

Buenos Aires, cidade encantada
Fundada em 1516, às margens do Rio da Prata, Buenos Aires é a capital e maior cidade da Argentina.
O nome atual deriva da antiga denominação Ciudad de Nuestra Señora Santa Maria del Buen Ayre.
A presidência de Domingo Faustino Sarmiento, no final do século 19, foi um marco na história da Argentina.
O governo acolheu imigrantes europeus, investiu na educação – sobretudo na educação primária – e promoveu o desenvolvimento econômico (construção de ferrovias, urbanização da capital etc.).
Buenos Aires foi a principal beneficiária desse impulso econômico. A cidade se europeizou nos gostos e modismos. O Teatro Colón – então localizado na Plaza de Mayo - era o centro das atividades sociais de uma elite que começava a viajar frequentemente a Paris.
A capital se tornou o maior empório de riquezas da nação. Com população cosmopolita, arquitetura renovadora, minorias cultas e porto movimentado, exibia os traços das mudanças que ocorriam no país (ROMERO, 2006:107-108).
Ao escrever sobre o cinquentenário do romance Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel García Márquez, a jornalista Sylvia Colombo assinalou (Folha de S. Paulo, 03.05.2017):

“Quando o jovem Gabriel García Márquez (1927-2014) ia à livraria Nacional, uma de suas preferidas de Barranquilla, cidade da costa colombiana onde morou um tempo, voltava carregado de títulos de seus autores favoritos, como William Faulkner, Albert Camus e Franz Kafka.
“Todos tinham algo em comum: eram traduzidos e lançados em Buenos Aires, então principal centro editorial da América Hispânica.
“‘Aqui estavam a Emecé, a Losada e a Sudamericana, que editavam escritores da região, além de traduzir autores clássicos internacionais para o espanhol para a América Latina’, conta à Folha Ezequiel Martínez, filho do escritor argentino Tomás Eloy Martínez (1934-2010), hoje diretor cultural da Biblioteca Nacional de Buenos Aires”.

Nascimento de Borges
Jorge Luís Borges nasceu em Buenos Aires, no dia 24 de agosto de 1899, filho de Jorge Guillermo Borges e Leonor Acevedo de Borges.

A mãe
Leonor Acevedo Suárez (nome de solteira) descendia de uma família tradicional uruguaia.
No livro Cuaderno San Martín (1929), Borges incluiu o poema Isidoro Acevedo, em homenagem ao avô materno.
Isidoro foi um militar do Exército de Buenos Aires e opositor do ditador Juan Manuel de Rosas. Lutou nas batalhas de Cepeda (1859), Pavón (1861) e Los Corrales (1880). Faleceu de congestão pulmonar, na casa onde o neto Jorge Luis Borges nasceu.
Em Isidoro Acevedo, Borges descreve a desolação do menino diante da morte, que lhe fora ocultada (KODAMA, 2016:35-36):

“En metáfora de viaje me dijeron su muerte; no la creí.
Yo era Chico, yo no sabía entonces de muerte, yo era inmortal;
yo lo busqué por muchos dias por los cuartos sin luz”.

O escritor argentino Alan Pauls assinalou (O pai de Borges, Folha de S. Paulo, 11.07.2009):

“Como todo mundo, Jorge Luis Borges (1899-1986) teve um pai e uma mãe. Dos dois, entretanto, apenas um -a mãe- ocupa um lugar na mitologia borgeana. Descendente de espanhóis e militares, Leonor Acevedo de Borges foi uma mãe de tomar em armas, afiada e despótica. Vigiou a carreira literária de seu filho com rigor higienista, um pouco como os pais dos precoces prodígios dos esportes ou da televisão hoje moldam as trajetórias de seus rebentos. Proibiu Borges de ler ‘Martín Fierro’ (‘um livro que só é apropriado para sem-vergonhas’), promoveu a carreira dele ‘silenciosa e eficientemente’, afugentou namoradas ameaçadoras, foi sua secretária, sua leitora em voz alta (quando Borges ficou cego), sua companheira de viagem. E, basicamente, foi longeva. Viveu quase cem anos, o que a permitiu chegar do escuro século 19, no qual nasceu, até meados dos anos 70 do século 20, a aurora de uma civilização midiática que contribuiu para celebrizá-la”.

O pai
Jorge Guillermo Borges era advogado e professor de psicologia. Tinha uma sortida biblioteca. Compartilhava os livros e a vocação de escritor com o filho. Aos onze anos de idade, o menino traduziu um conto de Oscar Wilde (KODAMA, 2016:40).
Alan Pauls observou (art. cit.):

“O apagado Jorge Guillermo Borges não teve a mesma sorte. Morreu em 1938, quando seu filho nem sequer intuía a fama que o aguardava. Advogado, anarquista com veleidades de filósofo e professor de psicologia, Borges, pai, fez por seu filho muito mais do que a posteridade sensacionalista se dispõe a reconhecer, ela que, no fundo, o reduziu a uma anedota lasciva: a prostituta que ele contratou em Genebra para que seu filho, então no final da adolescência, se iniciasse nos ardores do sexo. (...)
“O mais importante que Borges, pai, deu a seu filho, deu já morto, sob a forma pudorosa mas influente do legado. Legou a seu filho sua biblioteca (‘o feito capital de minha vida’), a amizade magistral de Macedônio Fernández, dois males inexoráveis (a timidez e a cegueira) e um mandato difícil de resistir: o de escrever. Isso porque, além de plagiar William James nas aulas de psicologia que dava na Escola Normal de Línguas Vivas, Jorge Guillermo Borges era escritor, e do tipo mais perigoso: um escritor fracassado. Tinha escrito poemas, textos, exercícios de prosa que mantinha em segredo, a meio caminho entre o hobby e o fetichismo, e que só se atreveu a mostrar a seu filho quando ganharam forma em um gênero dotado de autoridade: um romance. Borges, pai, publicou ‘El Caudillo’ em 1921, quando seu filho tinha pouco mais de 20 anos, era vanguardista e só tinha dado a conhecer um punhado de versos de incendiado espírito bolchevique. O romance –‘interceptado’ por algumas metáforas audazes que Borges, filho, conseguiu incorporar a ele- passou despercebido, mas funcionou como elo crucial na cadeia de transmissão entre pai e filho. Até o final de sua vida, o autor de ‘Ficções’ confessava que um de seus projetos mais caros, que nunca realizou, era ‘revisar e talvez reescrever o romance de meu pai, ‘El Caudillo’, como ele me pediu há anos’. Talvez nessa reescritura se encontrasse a única possibilidade de assistir a um milagre que a obra de Borges sempre nos negou: o milagre de um Borges romancista”.

Temporada na Europa
Em 1914, quase totalmente cego, Jorge Guillermo Borges decidiu passar uma temporada com a família na Europa.
Em Genebra, o filho Jorge escreveu alguns poemas em francês, enquanto estudava o bacharelado (1914-1918).
Publicou resenha de três livros espanhóis para um jornal genebrino.
Em 1919, Jorge Luís mudou-se para a Espanha, onde publicou poemas e manifestos na imprensa.

Regresso a Buenos Aires
Em 1921, Jorge Luis retornou a Buenos Aires.
Redescobriu a capital portenha na efervescência dos anos 20.
Escreveu seu primeiro livro de poemas, Fervor de Buenos Aires (1923).
No poema Arrabal, referiu-se à terra natal (KODAMA, 2016:14-15):

“Esta ciudad que yo creí mi pasado
es mi porvenir, mi presente;
los anos que he vivido en Europa son ilusorios,
yo estaba siempre (y estaré) en Buenos Aires”.

Diretor de biblioteca
Em 1937, Borges foi nomeado diretor da Biblioteca Pública Nacional.
Deixaria o cargo nove anos depois.

À beira da morte
Borges sofreu grave acidente, no Ano Novo de 1938, quando caminhava pela caital argentina. Por causa da deficiência visual, bateu a cabeça em uma janela, sofreu um corte e perdeu muito sangue (Quem foi Jorge Luis Borges? Revista Estante, 2017).
Esteve à beira da morte.  A septicemia e uma febre altíssima o levaram a ter pesadelos, que se mesclavam com a realidade (KODAMA, 2016:35).

Perseguido pelo peronismo
O ditador Juan Domingo Perón entrou em conflito com a imprensa e intelectuais argentinos (ORTIZ, 1996:277):

“A escassez de papel era real; Perón a utilizou para asfixiar os jornais de seus adversários.
“Mas não se limitou à imprensa escrita. Em maio de 1946, determinou que todas as estações de rádio reproduzissem no horário das 20:35 as informações da rádio estatal. Os programas radiofônicos – estava escrito com todas as letras – deviam ‘abster-se de toda crítica’. Os jornalistas que infringissem a regra, sujeitavam-se a processos por atentado à ordem pública. Outros intelectuais foram punidos com mais humor: Borges, empregado numa biblioteca municipal, foi nomeado inspetor de aves e ovos nos mercados de Buenos Aires. Preferiu privar-se de tamanha honra, ficando desempregado durante todo o regime peronista”.

Em 1955, Borges foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional, na Calle México (KODAMA, 2016:57).

Paixão pelos livros
Para Borges, nada era mais importante do que ter um livro em mãos. Dizia que o livro era o mais assombroso objeto criado pelo homem. Enquanto caleidoscópios, máquinas e outros aparelhos são instrumentos do corpo, o livro é instrumento da memória e da imaginação. Através dos livros, o  homem pode guardar a memória da humanidade (KODAMA, 2016:57).
Era grande leitor de dicionários e enciclopédias - que lia horizontalmente e não como instrumento de consulta. “Ninguém deu o status de literatura às enciclopédias e dicionários como Borges”, afirma o escritor Jorge Schwartz (MEIRELES, Folha de S. Paulo, 22.07.2017).
Mesmo depois de ficar cego, Borges continuava a comprar livros (KODAMA, 2016:60-61). Adquiria novas edições e traduções, para confrontá-las com as de que já dispunha.
Uma das suas paixões era reler os livros. Assinalava nos exemplares as datas da aquisição e das releituras.
Fazia anotações no rodapé das páginas. Apontava contradições e remetia à página onde havia alguma afirmação contraditória.
A visão da biblioteca de Borges impressiona. Mais da metade dela é formada por livros de Filosofia, Matemática, Lógica e Religião:

“Para Borges una forma de felicidad en estado puro – como me decía – era la lectura, otra menor era la creación”.

A biblioteca era a maior riqueza desse homem que desprezava o luxo.
Em Borges oral, afirmou (KODAMA, 2016:66):

“... el libro, ese instrumento sin el cual no puedo imaginar mi vida, y que no es menos íntimo para mí que las manos o que los ojos”.

Livros, memória e imaginação
Borges publicou o texto El libro (KODAMA, 2016:67-68). Valorizava o livro como instrumento que estende a memória e a imaginação.
Sem embargo, afirmava que, na antiguidade, a palavra escrita não era tão apreciada, porque trazia uma mensagem morta, fechada e imutável. Muito distante da palavra poética, leve, sagrada e alada, como a considerou Platão.
Recorda que Pitágoras e Cristo não recorreram à mensagem escrita. Seus ensinamentos foram transmitidos oralmente. Daí a riqueza dos diálogos diretos com Sócrates, mediante os quais Platão quis reproduzir a palavra do mestre.
Borges assim se expressou, nos versos do poema Mis libros (KODAMA, 2016:75):

“Mis libros (que no saben que yo existo)
son tan parte de mí como este rostro
de sienes grises e de grises ojos
que vanamente busco en los cristales
y que recorro con la mano cóncava.
No sin alguna lógica amargura
pienso que las palavras esenciales
que me expresan están en essas hojas
que no saben quién soy, no en las que he escrito.
Mejor así. Las voces de los muertos
Me dirán para siempre”.

Carreira de escritor
O reconhecimento literário de Borges somente se consolidou em 1961, quando recebeu o prêmio concedido pelo Congresso Internacional de Editores, dividido com Samuel Beckett.
A seguir, recebeu premiações dos governos da Itália, França, Inglaterra e Espanha (Jorge Luís Borges, portal Uol Educação, 2017).

Literatura e ética
Para Borges, Cristo ensinou que o homem se salva pela fé e pela ética. Swedenborg acrescentou a inteligência. Blake nos indicou três caminhos de salvação: o moral, o intelectual e o estético. Afirmou que o terceiro foi pregado por Cristo, já que cada parábola é um poema.
A poesia é ética. A pessoa humana tem o dom de traçar seu próprio quadro de valores e cumprir com a sua essência.
Ao longo de sua vida, Borges deu provas de valor, ao enfrentar situações às vezes complicadas, sem abandonar os valores que defendia.
Desde a infância, sabia que o seu destino era ser escritor. Somente ao cumprir tal essência – entendia - poderia se salvar. A salvação seria estética. Para ele, a estética encerra a ética (KODAMA, 2016:103).

Realismo mágico
O livro Labyrinths, de Borges, é considerado a “pedra de toque” da literatura latino-americana na década de 1960.
A obra fez sucesso e foi a referência da escola chamada “realismo mágico”, formada por obras de ficção sobre a história turbulenta e fantástica da América Latina.
Para os europeus, essa literatura rompia as fronteiras do realismo e criava uma nova visão da realidade.
O movimento encontrou sua autêntica produção com o livro Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel García Márquez (WOODALL, 1999:31).

A cegueira
Na época em que foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires (1955), Borges perdeu a visão. Referiu-se a isso como “la ironía de Dios” (Poema de los dones).
A literatura tornou-se para ele a palavra oral, alada e sagrada, como dizia Platão. Todavia, continuou a cultuar os livros.
Borges retomou a tradição oral e passou a ditar sua obra. Voltou às formas da poesia clássica, ao soneto e aos recursos mnemotécnicos (KODAMA, 2016:59).
Considerava a sua cegueira “um lento crepúsculo que durou mais de um século” (Borges oral, p. 91).
Na célebre entrevista à revista Veja, divagou:

“Nada de coragem e nada de drama. Minha cegueira não foi repentina. Comecei a perder a vista aos poucos, e não houve nenhum momento patético ou trágico. Comecei a me acostumar com minhas sombras, as coisas começaram a desaparecer lentamente – e na verdade não me faziam falta. Conheço pessoas ameaçadas poruma cegueira brusca que pensaram no suicídio. Eu tive a sorte de saborear aos poucos a chegada da noite, e agora convivo com ela perfeitamente, como um doente acostuma-se a viver com sua moléstia crônica, naturalmente. (...)
“Acho que (a cegueira influenciou a minha maneira de escrever). Antes eu saía bastante, via imagens, coisas, algo ficava. Algo se acrescentava ao pensamento. Hoje não, nem a rua atravesso sozinho, e passo quase sempre meus dias em casa, com minhas ideias, e as imagens são mais minhas e mais esmeradas, porque completamente criadas no exercício da solidão. Por outro lado, nunca precisei da realidade. Eu nunca construí personagens, eu não sou Dickens ou Eça de Queirós, nem faço como Gustave Flaubert, que descrevia minuciosamente até os móveis da casa onde morava. A poesia é um hábito eterno que não precisa inspirar-se na realidade externa. É por isso que não faço uma tragédia de minha cegueira. Aceito-a, convivo com ela, e até desfruto suas poucas inimagináveis dádivas. Uma delas, por exemplo, é impedir-me de assistir a coisas terríveis. Uma vez, nos anos 40, eu passei dez dias no Brasil, em Santana do Livramento. E lá vi um homem matar outro” (ALTMAN e GAMA, 2017:111-112).

E versejou no poema Elogio de la sombra, de 1968 (KODAMA, 2016:73-74):

“El hombre que está ciego,
sabe que ya no podrá descifrar
los hermosos volúmenes que maneja
y que no le ayudarán a escribir
el libro que lo justificará ante los otros,
pero la tarde que es acaso de oro
sonríe ante el curioso destino
y siente esa felicidad peculiar
de las viejas cosas queridas”.

Casamentos
Em 1967, Borges se casou com Elsa Astete, amiga de infância. A união durou três anos. Terminou quando Borges fugiu de casa, sem coragem para discutir a separação.
Borges perdeu a mãe, Leonor, em 1975.
Casou-se, pela segunda vez, com a ex-aluna María Kodama, sua secretária particular desde 1981.
Kodama é de origem japonesa e herdou os direitos autorais do esposo.
Em 2016, Kodama publicou o livro Homenaje a Borges.

Felicidade não deve exigir esforço
Para Borges, “um livro não deve requerer um esforço, a felicidade não deve exigir esforço”:

“Emerson afirma que uma biblioteca é uma espécie de câmara mágica. Nesse gabinete estão sob o efeito de um encantamento os melhores espíritos da humanidade, que esperam a nossa palavra para sair da sua mudez. Temos que abrir o livro, e eles então despertam. Diz que podemos contar com a companhia dos melhores homens que a humanidade produziu. (...)
“Fui professor de literatura inglesa, durante vinte anos, na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires. Sempre recomendei aos meus alunos que tivessem pouca bibliografia, que não lessem críticas, que lessem diretamente os livros; talvez compreendam pouca coisa, mas sempre sentirão prazer e estarão ouvindo a voz de alguém. Diria que o mais importante de um autor é a sua entonação; o mais importante de um livro é a voz do autor, essa voz que chega até nós.
“Dediquei parte da minha vida às letras, e creio que a leitura representa uma forma de felicidade; outra forma de felicidade menor é a criação poética, ou o que chamamos criação, que é uma mistura de esquecimento e de recordação do que lemos.
“Emerson coincide com Montaigne no reconhecimento de que devemos unicamente o que nos agrada, de que um livro tem que ser uma forma de felicidade. Devemos tanto às letras! Procurei mais reler do que ler; creio que reler é mais importante do que ler, mas para se reler é preciso ter lido antes” (Borges oral, p. 27-28).

Imortalidade
 Borges muito escreveu sobre  a imortalidade (Borges oral, p. 38-43).
Havia a conjectura da transmigração da alma, encontrada em Pitágoras e Platão.

“Se somos felizes ou desventurados nesta vida, isso deve-se a uma vida anterior; estamos recebendo castigos ou recompensas. Há uma coisa que pode ser difícil: se a nossa vida individual, como o creem o hinduísmo e o budismo, depende da nossa vida anterior, essa vida anterior depende, por sua vez, de outra vida anterior, e assim sucessivamente, até ao infinito na direção do passado. (...)
“Temos o poema The Progress of the Soul (O Progresso da Alma) de John Donne, ligeiramente posterior a Shakespeare. Donne principia dizendo: Canto o progresso da alma infinita, e essa alma vai passando de corpo em corpo”.

Há também a imortalidade literária:

“De cada vez que repetimos um verso de Dante ou de Shakespeare, somos, de alguma maneira, aquele instante em Shakespeare ou Dante criaram esse verso. Ao fim e ao cabo, a imortalidade está na memória dos outros e na obra que deixamos. (...)
“Sei de memória muitos poemas anglo-saxônicos. A única coisa que não sei é o nome dos poetas. Mas o que é que isso importa? Que importa isso se eu, ao repetir poemas do século IX, estou sentindo algo que alguém sentiu nesse século? Esse alguém vive em mim nesse momento, embora eu não seja esse morto. Cada um de nós é, de algum modo, todos os homens que morreram antes. Não apenas os do nosso sangue. (...)
“O mesmo poderá dizer-se da música e da linguagem. A língua é uma criação, acaba por ser uma espécie de imortalidade. Estou utilizando a língua castelhana. Quantos mortos castelhanos estão vivendo em mim? (...)
 “Creio na imortalidade: não na imortalidade pessoal, mas na imortalidade cósmica. Continuaremos a ser imortais; para além da nossa morte corporal fica a nossa memória, ficam os nossos atos, as nossas obras, as nossas atitudes, toda essa maravilhosa parte da história universal, ainda que não o saibamos, e é melhor que o não saibamos”.

Política
Borges criticou, em revistas, o nazismo e o antissemitismo.
Na Argentina, sempre foi muito claro com relação à política do país. Suas criticas ao peronismo – já assinalamos - causaram sua demissão do cargo de diretor de biblioteca municipal.
Não vacilou em admitir erros, quando se convencia de que errou.
Muitos anos depois, confiou no regime militar, mas, quando ouviu relatos sobre torturas e pessoas desaparecidas, manifestou reprovação e críticou publicamente nos jornais:

“Cuando otros no pueden hacerlo yo tengo la obligación de hablar”.

Sabia que o terror e as prisões inibem a luta, mas sua fama internacional lhe assegurava uma espécie de salvo-conduto, que utilizava para representar os cidadãos comuns e compatriotas condenados ao silêncio (KODAMA, 2016:52-54).

O Prêmio Nobel
O jornalista Alexandre Porro, da revista Veja, ao introduzir a entrevista com Jorge Luis Borges (1980), discorreu sobre o Prêmio Nobel de Literatura:

“Desde 1960, Borges – para muitos, o maior escritor vivo do planeta – aparece entre os candidatos, mas inutilmente. Após Gabriela Mistral, a poetisa chilena que ganhou o prêmio em 1945, muitos pensaram que Borges viria a ser o Segundo latino-americano a merecer o Nobel: mas em 1967 o júri escolheu o guatemalteco Miguel Ángel Asturias, e em 1973 outro chileno, Neftali Ricaro Reyes, mais conhecido como Pablo Neruda. (…)
“Até o ano passado, Borges dizia que o prêmio não o interessava. (…)
“Borges disse a VEJA: ‘Afinal, minha obra não precisa de prêmios. Talvez tenha sido justo premiar um jovem. Lá em Estocolmo fazem política, eu não ganhei porque sou argentino, e os esquerdistas acham que todos os argentinos seguem a política dos governantes militares. Eu não tenho mais nada a dizer: o tempo é curto, e eu sou um poeta velho e cego, como Homero, que tampouco ganhou prêmios em sua vida’.
“Desta vez, o tom é diferente. Com quarenta obras publicadas, em 38 idiomas, o gênio argentino confessa finalmente que o prêmio o interessa, e muito, e que não quer morrer sem recebê-lo” (ALTMAN e GAMA, 2017:106-107).

A borboleta
Jorge Luis Borges faleceu em Genebra, Suíça, no dia 14 de julho de 1986.
Se me fosse permitido escolher uma passagem borgeana como seu testamento, eu escolheria a seguinte passagem ditada ao jornalista brasileiro Alessandro Porro:

“Quero ditar-lhe um trecho, escreva exatamente o que digo. (...) ‘Estou pensando naquele Chuang-Tzu, vírgula, que sonhava ser uma borboleta e que agora, vírgula, acordando, vírgula, não sabia se havia sonhado ser uma borboleta ou se era uma borboleta que agora sonhava ser um homem. Ponto’. Sabe, é para uma página que intitularei ‘A bengala de laca chinesa’. Bonito, não?” (ALTMAN e GAMA, 2017:112).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALTMAN, Fábio e GAMA, Rinaldo (editores). VEJA: A história é amarela. São Paulo: Editora Abril, 2017. Entrevista de Jorge Luis Borges a Alessandro Porro, páginas amarelas da revista Veja, edição de 17.09.1980.
Borges oral. Lisboa: Vega, trad. Rafael Gomes Filipe, sem data.
Buenos Aires – História, disponível em http://www.amautaspanish.com/portuguese/destinos/aprender-espanhol-na-argentina/argentina-visao/historia-da-argentina/buenos-aires-historia-204.html, acesso em 21.07.2017.
Buenos Aires – QuickGuide, nº 31, agosto-novembro 2008.
COLOMBO, Sylvia. Clássico de García Márquez, ‘Cem Anos de Solidão’ completa meio século, jornal Folha de S. Paulo, edição de 03.05.2017, caderno Ilustrada.
Jorge Luís Borges, Portal Uol Educação, Biografias, disponível em http://educacao.uol.com.br/biografias/jorge-luis-borges.htm, acesso em 21.07.2017.
KODAMA, María. Homenaje a Borges. Buenos Aires: Sudamericana, 2016.
MEIRELES, Maurício. Jorge Schwartz apresenta mapa para vasto labirinto de Jorge Luis Borges, jornal Folha de S. Paulo, 22.07.2017, caderno Ilustrada.
ORTIZ, Alicia Dujovne. Eva Perón: a madona dos descamisados. Rio de Janeiro: Record, trad. Clóvis Marques, 1996.
PAULS, Alan. O pai de Borges, jornal Folha de S. Paulo, edição de 11.07.2009, caderno Ilustrada.
Quem foi Jorge Luis Borges? Revista Estante, FNAC, disponível em http://www.revistaestante.fnac.pt/quem-foi-jorge-luis-borges/, acesso em 31.07.2017.
ROMERO, José Luis. Breve historia de la Argentina. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 5ª ed., 2006.
WOODALL, James. La vida de Jorge Luis Borges. Barcelona: Editorial Gedisa, trad. Alberto L. Bixio, 1999.


sábado, 14 de julho de 2018

DOM ANTÔNIO DE ALMEIDA LUSTOSA


Por Elpídio Antônio Ramalho
Da Academia de Letras de São João del-Rei
 
Crédito: Rute Pardini Braga

A vida, que acaba de extinguir-se na boa cidade de Carpina, no Estado de Pernambuco, entre a dor dos que a conheceram de perto e a consternação de todo o povo do Ceará, revela bem o que lembrou há pouco o Padre Francisco Landim, a respeito de Dom Lustosa, "o mineiro que se fez um brasileiro sem naturalidade específica, um cristão que transformou o céu de Deus na pátria de sua verdadeira cidadania". 

Dom Antônio de Almeida Lustosa, porém, o saudoso Arcebispo de Fortaleza, que soube honrar como poucos a sua batina de sacerdote, pondo-se sempre a cavaleiro das paixões e à margem das correntes mundanas, representa egregiamente a têmpera da gente mineira, em cujo seio nasceu e se criou. 

Humanista dos mais excelsos, não lhe eram apenas familiares as letras sagradas, através da lição quotidiana dos doutores da Igreja, mas conhecia a preceito as letras profanas, em cujo convívio formou o seu apurado gosto de escritor. Latinista dos melhores dons era bem um sobrevivente da velha cultura mineira, plasmada na leitura e na meditação dos pensadores e dos poetas da antiguidade. 

Teólogo, que buscava nas fontes diretas a solução acertada para os casos sutis que se lhe deparavam, era uma fonte sempre aberta em que iam beber ensinamentos, não só os que viviam debaixo de sua jurisdição, mas todo o Brasil. De fato, a sua espiritualidade não se restringia aos que o conheciam nos Estados do norte e do nordeste, e acreditamos que com o fechamento do seu túmulo venham à luz faces recônditas dessa criatura sobremaneira sábia e humilde. 

Escritor, a sua obra aí está, vibrante de fé e brasilidade, a ressumar, entre a pureza vernácula de seus vocábulos e de suas construções, a defesa de sua fé e o afeto ao Brasil, as duas molas reais de sua vida fatigada e fecunda. 

Mas, sobretudo, o homem, 
E que santo desaparece! 

Toda a modéstia, toda a simplicidade, toda a humildade, toda a alegria, toda a bondade possível envolviam aquela criatura doce e generosa que, por mais que o quisesse esconder, sempre deixava ver o raro valor que possuía. 

Dom Lustosa cultivava as mais sólidas virtudes e, o que é mais, um admirável equilíbrio, que o fazia guia seguro e judicioso de um enorme rebanho. 

Casava bem a austeridade com a doçura, a cultura com a modéstia, a intolerância quanto aos princípios, com a suma tolerância quanto às pessoas. 

Não foi homem para aparecer, preferindo conquistar o seu rebanho, amando e cativando. 

Viveu, assim, uma vida suavíssima, fazendo o bem que lhe estava nas mãos, o qual foi infinito, não deixando entre os homens a menor pegada rude de sua passagem, antes iluminadora e amorável. 

A sua última lição em Fortaleza, em 1963, fugindo às homenagens de sua Arquidiocese, foi um gesto de humildade, que nunca há de ser esquecido pelo povo cearense. 

Doente, pobre, quis ficar em Carpina; paralítico e numa cadeira de rodas, ainda ensinava latim e religião, colaborava no semanário "A Fortaleza", lia, escrevia em prosa e em verso e fazia traduções, para depois desse sacrifício voltar para dormir o seu derradeiro sono na antiga sede de sua Arquidiocese. 
Dom Lustosa com os noviços de 1964, na Casa Salesiana de Carpina-PE - 
Crédito: Arquivo da Inspetoria Salesiana do Nordeste

































Sempre a Religião e o seu Brasil! 

É esse o último aceno para o seu povo e é essa a magnífica atitude com que há de ficar na memória do seu rebanho: curvado e encanecido, as suas últimas palavras constituem uma voz de estímulo para os que ficam, a todos que falam ou escrevem, a todos os que predicam e doutrinam, a fim de trabalharem com mais ardor no aperfeiçoamento próprio e no mais ardente amor à Igreja e à Pátria. 

Dom Antônio de Almeida Lustosa, que acaba de desaparecer, nasceu nesta cidade de São João del-Rei, a 11 de fevereiro de 1886 e ordenou-se a 28 de janeiro de 1912, na cidade de Taubaté. Foram seus pais o Dr. João Pimentel Lustosa e Dona Delfina de Almeida Lustosa. 

Lecionou nos Colégios Salesianos de Lorena, Recife e Bagé, auxiliando também os vigários daquelas paróquias. 

Em 10 de junho de 1924, foi nomeado Bispo de Uberaba. A sua sagração efetuou-se a 11 de fevereiro de 1925, na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em São João del-Rei, ao lado de Dom José Pereira Lara, Bispo de Santos. O sagrante da cerimônia foi o Arcebispo de Mariana, D. Helvécio Gomes de Oliveira e consagrantes D. Emanuel Gomes de Oliveira e D. Benedito Alves de Souza. 

A 10 de janeiro de 1929, tomou posse como Bispo de Corumbá, e pouco tempo depois foi transferido para Belém, fazendo a sua entrada solene na capital do Pará, a 11 de novembro de 1931. 

Desde os primeiros anos da juventude que as maravilhosas aptidões de seu espírito se vinham revelando, em toda uma série de trabalhos notáveis, cada qual mais bem lançado e erudito. 

Nesse número, para não citar outros, estão incluídos: "Dom Macedo Costa", Rio, 1933; "Solilóquios Infantis aos Pés do Tabernáculo", S. Paulo, 1933; "Abraçando a Cruz" em 1944; "A Prece ao Pôr do Sol", Niterói, 1949; "Meu Livro Inseparável"; "Terra Martirizada" e "Respingando". Entre as suas cartas pastorais, enumeramos: "Saudando os meus diocesanos", "A Seca de 1942", "A Igreja, grande protetora dos operários", "O jogo", "O Alcoolismo", "O Fumo", "A Contrição". Compôs a letra do Hino à Nossa Senhora de Fátima. 
3ª edição (1952) de "Solilóquios Infantis Ao Pé do Tabernáculo" - 
Crédito: Rute Pardini Braga

Dom Antônio de Almeida Lustosa era membro do Instituto Histórico do Ceará e sócio correspondente da Academia de Letras de São João del-Rei. 

A sua investidura no Arcebispado de Fortaleza durante 22 anos foi assinalada por reais e constantes serviços: fundou, além da Congregação das Josefinas, 44 paróquias, ordenou 89 sacerdotes, solicitou ao Papa a criação das Dioceses de Itapipoca e Quixadá, instalou a Rádio Assunção Cearense, o Pré-Seminário Dura D'Ars, o Instituto Cardeal Frinp, o Hospital São José (para tuberculosos). Construiu o Santuário de Fátima, escolas e postos médicos nos subúrbios de Fortaleza e deu grande impulso ao movimento circuita do operariado. Em outros empreendimentos que incentivou, mostrou a sua capacidade de trabalho e zelo permanente pelo desenvolvimento da Arquidiocese de Fortaleza. 

Dom Antônio de Almeida Lustosa, cujos funerais foram acompanhados por uma imensa massa popular e pelas mais altas autoridades eclesiásticas, civis e militares do Estado do Ceará e de outros Estados, era irmão do Dr. Paulo de Almeida Lustosa, ilustre representante da nobre Família Lustosa, que honra São João del-Rei, com sua presença austera e querida. É ele o único irmão que sobrevive o pranteado prelado, que há pouco nos deixou, rumo ao Reino Eterno da Glória.


Fonte: jornal Ponte da Cadeia, São João del-Rei, Ano IX, edição de nº 340, datada de 29/09/1974, p. 4.

domingo, 8 de julho de 2018

NOSSA VIDA EM MOSCOU (SOB UM OLHAR FEMININO) > > > PARTE 1


Por Rute Pardini

O rapto da princesa (lenda folclórica russa)
 
O texto de meu marido Francisco, intitulado “Nossa Vida em Moscou”, me fez de verdade voltar àquela época em que vivemos intensamente nossa vida de moscovitas. 

Bem; passo agora a comentar o texto dele, sob um olhar feminino. 

Em meados do ano 2001, fomos nós dois para a Rússia com a cara e a coragem, ele mais preparado do que eu. De fato, cerca de trinta anos atrás, ele tinha feito um Curso Básico de Língua Russa na então União Cultural Brasil-URSS, que funcionava na Rua Frei Caneca, 390, na cidade de São Paulo, quando ele ali residia, sobre o que já escreveu um texto intitulado “Doces Recordações da FGV nos Anos 70 (Parte 3)”, no Blog do Braga. 

Ao chegar ao nosso apartamento em Brasília, já de férias escolares, vi-o já com as malinhas prontas e comecei a ficar angustiada de ter que ficar aqui no Brasil, esperando por ele por causa do reinício do segundo semestre de minha Faculdade Mozarteum em São Paulo.

Então pensei: “Não estou gostando nada disso, pois nas suas aulas particulares de conversação no Instituto Rio Branco com aquele professor de russo, Roberto, este deixou claro, em tom de brincadeira entre os dois, sobre as mulheres russas e como eram lindas e fogosas. Hahaha... eu casadinha de pouco com meu marido solto por toda a Moscou... não permitiria deixá-lo nunca sozinho.”

Disse logo de cara, vou também para Moscou. E ele quase caiu de susto, quando lhe comuniquei minha decisão. Colocando a mão na testa, disse: “Adorei! Era isso que eu queria, minha amada.” E então logo começou a correr atrás da papelada para eu seguir junto naquela aventura. 

Quase toda a parte burocrática estava pronta em menos de 5 dias. No último dia, quando nos dirigíamos para buscar meu passaporte com o visto da Embaixada russa, já na véspera de sairmos de Brasília, em plena Avenida W-3, próximo ao Brasília Shopping, um carro freou diante do semáforo no asfalto molhado e o carro que vinha atrás não conseguiu evitar a colisão com a traseira deste, bem à sua frente, o qual, num desvio brusco para a direita, voou para a pista onde nós estávamos já parando no semáforo, então provocando nova colisão com a parte traseira do nosso Escort. 

Pensei: “Agora não vou mais para Rússia... Acabou meu sonho... Vamos ficar aqui resolvendo problemas que terceiros nos envolveram.” 

Quase naquele mesmo instante, chegou um veículo com a polícia volante do DETRAN (apta a resolver qualquer problema de trânsito mediante acordo entre as partes envolvidas, no caso, três veículos), estacionou uma van ali no canteiro central, todos nós entramos lá dentro e começou assim as tratativas. Eu nunca tinha visto tamanha rapidez para resolver uma encrenca no trânsito. Imediatamente, o acordo foi concluído com os dois causadores do acidente querendo pagar o reparo imediato de nosso veículo.

Também, pensei: “Francisco, de paletó, gravata, crachá do Senado no peito e pasta na mão, parecia um Senador”. Naquele momento fechei os olhos e pensei: “Francisco é meu herói, então não devo temer esta viagem longa e inesperada para mim.” 

Deixamos tudo encaminhado para nosso amigo Robson resolver na nossa ausência e isso foi feito. Para nossa surpresa, no dia que retornamos de Moscou, lá estava, no estacionamento externo do nosso prédio na Quadra 310 Norte, o pobre do nosso carro reparado. Contei este caso, porque eu estava muito insegura de ir para outo país, com medo mesmo, mas, ao vivermos juntos aquele momento de apuro, criei forças para encarar o novo desafio no Leste Europeu. 

Estava indo resignada, partindo do aeroporto de Brasília numa aeronave brasileira, mas, já na baldeação em São Paulo, comecei de novo a passar mal, quando vi aquele avião gigantesco da KLM e nunca tinha entrado dentro de algo tão grande como aquilo, só mesmo em aeronaves menores. Despachamos as nossas malas diretamente para Moscou e só as veríamos novamente na chegada, embora tivéssemos mais uma baldeação em Amsterdam, sem nos preocuparmos mais com a bagagem. 

Entrei ali apavorada chorando e as aeromoças tiveram que me abraçar, me acalmando. Assim fiquei amiga delas lá dentro. Tudo fizeram para eu sorrir, inclusive me ofereceram até para entrar na cabine do comandante, que seria legal eu ver lá da frente, mas recusei, já me sentindo mais tranquila por estar bem na companhia das comissárias de voo.

Enquanto a viagem seguia, eu comecei a ficar calma, pois parecia que um filme se desenrolava debaixo de nosso avião, tudo muito lindo, sol brilhante a nos clarear o caminho pelos ares, rumo à tão sonhada Moscou. 

Então, seguimos numa viagem bem tranquila. Fizemos a conexão, com troca de aeronaves em Amsterdã até Moscou. 

Finalmente em Moscou, eu, já sentindo o fuso horário, fiquei mais para barata tonta do que para detetive. 

Passamos pela alfândega e pegamos nossas bagagens sem problemas, mas, quando fomos tomar o táxi, aconteceu aquela confusão de conversa em russo (entre a máfia de táxis do aeroporto e os motoristas particulares) e repito aqui que não sabia falar nenhuma palavra em russo. Percebi que estava havendo um desentendimento, mas nem liguei: entrei dentro de um táxi preto que parou, apesar da oposição daquele outro grupo de taxistas enraivecidos. Um tipo estranho saiu, pegou nossas malas, apressando-se a deixar aquele ponto o mais rápido possível. Seguimos para o destino fornecido por Francisco. Eu estava toda amarrotada de tantas horas de viagem. A corrida durou quase uma hora, pois o nosso destino era o Instituto Pushkin, uns 30 km a sul do aeroporto de Sheremetyevo. 


Aqui começa minha história de verdade. 

Descemos do táxi em frente ao prédio do Instituto Pushkin. Francisco pagou ao motorista, que ajudou a descarregar as malas antes de partir. Fui contá-las. “Êpa, está faltando uma.” Comecei a ficar preocupada. Queria ir atrás do taxista, mas não tinha nem sentido por onde e como ir. 
Instituto Estatal A. S. Pushkin de Língua Russa em Moscou

Larguei para lá. Mas lastimando muito porque, dentro da daquela malinha faltante, havia deixado meu álbum de partituras, que pretendia cantar em Moscou para divulgar a música brasileira.

Chegamos à recepção do Instituto Pushkin. Local sombrio, gente estranha, luz fraca. “Meu Deus! Será que vou dormir hoje e amanhã o dia vai ser claro?”

Mas, no outro dia, tudo claro, comecei a observar aquele gigantesco complexo, sem os alunos regulares circulando lá, muitas fotos, muitos vestígios de gente, mas, para o tamanho da escola, aquilo estava completamente vazio. Senti-me deslocada, porque sempre estudei em externato, nunca interna em colégios. Os tais alunos regulares, que moravam a maior parte do ano, agora estavam de férias e eu ocuparia um de seus alojamentos, durante suas férias de verão. 

Comecei no prézinho, quase mesmo só conversação, pois eu não falava nada e os professores terminantemente não falavam inglês, somente um pouco de francês e espanhol. Aí eu me virei. Já começamos na pauleira, aula em cima de aula, e Francisco com aquela fome de estudar... 

Tudo que passei lá ficou gravado em minha memória. Levei um caderninho em branco, em cuja primeira página escrevi “Minha Vida em Moscou”. 




Quem disse que escrevi uma linha? Não consegui tempo para isso. 


Tínhamos que treinar o russo dia e noite, além de termos de nos preparar para a apresentação de um recital de música, em que o nosso duo estava programado para representar o Brasil numa festa de comemoração da Amizade entre as Nações.
Rute estudando russo
Dicionário que muito me ajudou

Acho importante recordar esse fato, porque esta foi a primeira apresentação do duo Rute Pardini e Francisco Braga, respectivamente soprano lírica e pianista.

Duo Rute Pardini-Francisco Braga representam o Brasil no teatro do 
Instituto Pushkin num recital comemorativo da Amizade entre as Nações
 
Colegas Jenny e Rute no palco do teatro do Instituto Pushkin

Uma mulher levava as roupas de cama, mas eu combinei com ela que não era preciso arrumar meu quarto, já que eu mesma arrumaria, pois, aqui entre nós, tinha medo de que algo meu sumisse. E o tempo foi passando, enquanto me acostumava com aquilo. 

Na sala de aula, eu brilhava. Pensava que entendia tudo, mas quando chegava ao nosso alojamento, Francisco dizia: “Querida, está tudo errado.” O problema é que a língua eslava é meio complicada; tem diversos casos para substantivos e adjetivos que não acabam mais. Eis um exemplo de transliteração de um substantivo russo para nosso alfabeto: dom, a casa ou uma casa; damá, as casas; para casa, domói; dóma, em casa, e assim por diante. Observe no exemplo dado que a palavra DOM vem seguida de terminações, prescindindo de artigos e preposições. Assim é a língua russa, o polonês, o tcheco, etc. Ainda bem que a nossa língua portuguesa é bem diferente. 

Fui ver a comida que eles ofereciam no restaurante universitário do Instituto. Vi alguma semelhança entre a culinária russa e a brasileira, mas era o modo de fazer que não me agradava; mesmo assim passamos a comer todos os dias no R.U. Lembro-me que, certo dia, discuti com uma das serventes do restaurante. A gente comprava uma ficha já destinada a determinado prato, que consistia na “mistura” de ovo e purê de batata; ou de arroz e frango (ou galinha); etc. 

Mas a coisa horrível mesmo é que o arroz era retirado com uma escumadeira de dentro de um caldeirão de água fervendo para ser servido. Parece que ele era cozido assim, tipo “sopão”. Ela pegava aquela papa e colocava no meu prato com um pedaço imenso de frango bem pálido, se não optasse pelo purê com ovo frito. Senti saudades da nossa comida brasileira. 

Enjoada do cardápio uniforme, certo dia eu quis mudar a “mistura” do cardápio: arroz com ovo frito. Havia os dois como opção daquele mencionado conjunto. Só que o arroz (ris, que se pronuncia com o mesmo “r” de cara) ia com a galinha (kúritsa), enquanto o ovo frito (eitsó) ia com outro acompanhamento, purê (piuré). 

Foram quase uns dez minutos eu discutindo com ela: “Eu quero arroz com ovo frito” (em russo: Yá ratchú ris i eitsó.) 

Ela me corrigia: “Niet. O arroz só podia ser servido com kúritsa”. E eu: “Niet, yá ratchú ris i eitsó” (Não, eu quero arroz e ovo.) 

E a fila parada. Finalmente, veio um homem e disse a ela que me servisse o arroz com ovo. 

Depois desse entrevero, disse a Francisco que nunca mais comeria ali, porque, se não fosse para comer do jeito que eu queria, eu não aceitaria a comida deles. 

É claro que tinha muitos outros pratos diferentes, mas desconhecidos para mim até então. 

Bem, com o passar do tempo, vi que havia outras formas de me alimentar em Moscou, mas nunca similar à nossa comida. Se quisesse comer coisas diferentes, teria que sair de dentro daquele Instituto ou eu mesma preparar minha propia comida, mas, com o tempo escasso, não pensamos em procurar restaurantes fora da escola. 

Na sala de aula, ao relatar para meu amigo espanhol, Joseph, ele me disse que eu teria que sair dali e procurar nas redondezas do Instituto, porque ali, fora do Instituto, havia umas vendas que negociavam de tudo. Então, fui eu mesma ver “in loco” o que era aquilo de que ele falava. 

Descobri que era coisa pequena, mas que dava para satisfazer as nossas necessidades diárias. 

Lembro também que no Instituto havia uma cozinha em cada andar do alojamento onde vivíamos, e aí foi a minha glória, pois comecei a comprar os ingredientes que eu queria naquelas mercearias pela redondeza e, vendo os itens que os russos compravam, comprei-os também para fazer a minha própria comida. Francisco recordou essa experiência com linda passagem do seu texto, que aqui reproduzo: Para chegarmos a esses pontos de venda, costumávamos tomar o caminho existente no meio de um bosque florido, muito bem preservado, de rosas silvestres delicadíssimas (não existentes no Brasil) e de árvores muito elevadas (plátanos e vidoeiros prateados ou bétulas). Atrás do bosque, costumava haver um comércio ativo de cidadãos russos que descobrimos com o passar do tempo e com nossa experiência. Ali se vendiam arenques secos na neve, pães de limão, de beterraba, com castanha, pão preto, etc. Também se vendiam roupas íntimas, casacos, etc.

Eu elaborava os pratos todos os dias, pois não havia geladeira. Estudávamos de manhã e, depois do estudo, ia para a cozinha com meus ingredientes numa sacola e duas panelas e ali começava a fazer minha refeição, enquanto conhecia muita gente legal. 

Engraçado! As meninas pareciam idiotas, nunca as vi cozinhar, embora vivessem agarradas a seu namorados. Alguns deles eram bons cozinheiros, às vezes. Tinha um francês, que era um espetáculo! Eu preparava minha comida e levava para o meu quarto, o mais rápido possível, porque, se demorasse para chegar à cozinha, dali a pouco teria que entrar na fila e aguardar a minha vez para cozinhar. Registro aqui minha primeira experiência com fogão elétrico, daqueles que, se você não tiver cuidado, queimam até a panela. 

Nosso quarto tinha duas janelas duplas, a saber, eram janelas convencionais na Rússia, uma de dentro e outra de fora uns 15 cm distante uma da outra, que fechavam tipo a vácuo, coisa maravilhosa! Tais janelas eram feitas assim para proteção do frio e da neve, certamente. Quando ambas estavam fechadas, não se ouvia quase nada do lado de dentro. Lá, no Instituto, as nossas estavam voltadas para um pátio muito grande e eu via muitas coisas estranhas acontecerem ali. 

Parece que, na época que estivemos em Moscou (2001), era comum os pais europeus se desfazerem, durante as férias escolares, de filhos já maduros mas problemáticos, procurando encaminhá-los para algum curso em outro país vizinho. Quando anoitecia, uns malucos que estudavam lá faziam a maior urgia e a coisa não tinha limites, perturbando os estudantes sérios. Aqueles enchiam com água os galões de bebidas alcoólicas vazios e os arremessavam dos andares superiores naquele pátio e era aquela algazarra quando os galões se espatifavam pelo chão do pátio em verdadeira explosão. O barulho insuportável parecia de vidro quebrado. Coisa horrorosa! 

Episódio marcante foi o que contarei agora. Toda noite algo me levava a olhar aquele pátio da bagunça. Tinha um portão grande, através do qual entravam e saíam imensos caminhões de entregas de mercadorias. Ali entrava e saía de tudo. Cada dia presenciava uma cena das minhas janelas voltadas para o pátio. Um dia, olhei para baixo e vi um homem fumando. Do quarto andar, onde me encontrava, observei-o durante vários dias a fumar junto a uma porta bem embaixo das minhas janelas. 

Uma noite, no meio dessa bagunça no pátio, visto da janela, vi o homem fumando e, do seu lado, uma mala. Me lembrei imediatamente da minha mala perdida na chegada. Fiquei intrigada, mas fui dormir, porque não havia o que fazer naquela hora da noite. Quase toda noite havia urgia no pátio com o arremesso de galões vazios, e a mala continuava lá imóvel. 

O homem não punha a mão nela. Pensei: “Deve estar secando, mas era dele? Mas um dia choveu bastante e a mala continuava no mesmo local. Eu refletia: “Que coisa!” De dia, era um entra-e-sai de caminhões, descarregando mercadoria e a mala continuava lá. Então, a certa altura, já tinha mudado de ideia: “Vou ver que mala é esta.” 

Devo confessar que era coisa de louco, pois eu contava as janelas e ia lá no rumo da mala, chegando ao piso térreo, mas infelizmente não via nem cheiro da mala. Labirinto. Missão para detetive. Coisa de Rússia, viu? 

Eu subia de novo e via a mala imóvel, continuando encucada. “Será que vão levar a mala embora?”, pensei com certa tristeza, pois agora já queria aquela mala para mim. 

Cheguei a pensar em dar a volta e chegar pelo portão dos caminhões, mas era longe e temia a grande quantidade de arvoredo. Temi morrer ali atrás. 

Caladinha, arquitetei um plano; vou fisgar essa mala na hora da bagunça dos malucos nas cozinhas. 

Sem que ninguém percebesse, eu daria um jeito de pescá-la. Agora ela tomava completamente meu pensamento. Chegou o sábado e cedinho fomos a uma feira ali perto e comprei um monte de coisas para mim, me entupindo mais ainda de coisas, mas adquiri também um rolo de fita de nylon pensando no seu uso a distância. 

Depois do almoço comecei a preparar meu gancho para a pesca. Como fazer o gancho? Peguei um cabide, entortei-o no formato de um gancho e amarrei-o bem forte com a fita, como se fosse um anzol, e comecei a treinar. Tudo isso só podia ser executado à noite, pois tinha medo do homem que fumava. Ele ficava ali o dia todo; só ia embora ao anoitecer e eu queria aproveitar a barulhada, para que não percebessem meu barulho também, ao arremessar o meu “anzol” na direção da mala. Comecei a treinar minha pontaria, no fim de semana, mas não imaginava como era difícil pescar a mala. 

Levei bem uns dois dias tentando. Às vezes, até o gancho encostava na mala, mas precisava conseguir encaixar o gancho na alça da mala. Ainda não imaginava se a mala era pequena e nem o seu peso, pois era essencial que o gancho suportasse o peso da mala até o quarto andar, onde me encontrava. Não é que comecei a ter plateia?! Quando descobriram minhas tentativas, os malucos começaram a gritar em coro, assim: Yes, Da (Sim), No, Niet (Não). Sliéva, net, správa, priáma (Para a esquerda, não, para a direita, para a frente)... Nossa, me descobriram. Por fim, depois de muitas tentativas e erros, eu acertei a alça da mala e consegui arrastá-la um pouco de lado e a vi. Linda, brihando até, preta de vinil, imensa. Era uma mala muito grande (balchói tchimadán). Não imaginava que pesasse tanto. Ao tentar erguê-la até o quarto andar, o gancho não foi suficiente firme para aguentar tanto peso e ela caiu de borco. Deixei estar. Dormi aquela noite com um enorme sentimento de frustração. Mas não dei o meu braço a torcer. 

No dia seguinte, depois da aula cheguei correndo curiosa junto à janela e ela me esperava, já de pé no mesmo local de antes. O tal fumante a recolocara no lugar original. Chamei o Francisco para ir até lá comigo e ele se dispôs a acompanhar-me. “Desta vez, vamos pegar a minha mala”, pensei. 

Nada! Nem cheiro da porta onde ela estava. Estava ficando nervosa com a situação. 

Mais um dia; de manhã observo chegar o caminhão do lixo para recolher aquele lixo nojento que se acumulava, inclusive o que os empregados haviam retirado do pátio. Eu corri para a janela, de olho na mala, para verificar se eles iam jogá-la dentro do caminhão do lixo. Então, vi sair do ponto onde se achava a mala um carrinho imenso de lixo das cozinhas dos andares, e aquele carrinho passou pela porta, deixando um rastro de chorume. Pensei: “Agora sim, vou descobrir o caminho deixado pelo carrinho que desaparece toda vez que eu desço.” Desta vez implorei com ao Francisco e então ele desceu comigo os quatro andares de elevador, xingando-me e pedindo para eu parar com aquela insistência, pois não teríamos êxito. Então, eu corri e vi perfeitamente aquele rastro de chorume entrando em uma porta. Nem pensei, abri a porta sem bater, pensando que era o pátio. Entretanto, dei de cara com o fumante. Quase desmaiei. Ele olhou para mim com um olhão verde de gato e sorriu. E escancarando a boca com uma falha de dente, disse: 
- Zdrástvuytie! (Salve!) 
O jeito foi eu praticar meu russo castiço, transliterado: 
- Zdrástvuytie! Kak d’ilá? (Como vai?) 
- Kharashó! (Bem.) 
- Mniá zavút Rut. (Chamo-me Rute.) 
E fui andando, já vendo, agora sim, o pátio ali à minha frente, depois de uma porta aberta. E chego perto da mala, sem lhe dar tempo.
- Pajal'sta. Tchei éta tchimadán? (Por favor, de quem é a mala?)  
- Nie znáiu. (Não tenho ideia.)
Ele deu de ombros. Não acreditei. Correndo, peguei-a e vi que parecia perfeita. Sem dar-lhe tempo para raciocinar bem, continuei: - Ya ratchú. Mójna? (Eu quero. Posso?) 
Ele olhou de novo para mim e disse, dando de ombros, indiferente: 
- Kaniéshna. (Claro.)
- Bal'shóie spassiba. Da svidánia! (Muito obrigado. Até a vista!)
- Da svidánia!
Duas curtas conversações mantidas entre Rute
 e o fumante, com caracteres cirílicos



Nem acreditei. Peguei correndo aquela imensa mala de vinil maravilhosa com rodinhas. E Francisco? Ficou timidamente aguardando para ver o que daria o meu atrevimento e não teve a coragem de ir até à oficina comigo. Mas, ao me ver saindo sorridente de dentro da oficina com a mala, pegou-a das minhas mãos e não mais quis me dar, pois viu a possibilidade de enchê-la com seus livros. 

Ficamos namorando-a durante uma semana, sem podermos abri-la, por não termos o segredo da fechadura, mas observamos que seu antigo dono lhe desferira um rasgo com um instrumento cortante na parte central, por onde certamente retirou seus pertences, descartando-a em seguida. Também como a mala era muito chique, concluímos que seus antigos donos deviam ser uns japoneses que chegaram na mesma noite da nossa chegada e que tinham algum acordo com o Instituto para usar o alojamento como hóspedes, como se fosse um hotel (bem mais barato, evidentemente). Concluímos que teriam perdido o segredo da fechadura, razão por que a descartaram, após dar-lhe um rasgo de uns 30 cm para retirar de seu interior suas roupas e outros pertences. Coisa mínima para mim! Saíra vitoriosa de mais um teste. 

Às vezes, Francisco e eu íamos passear para conhecer novos locais, onde automaticamente começamos a adquirir coisas. É impressionante como ajuntamos objetos! Em curto espaço de tempo, já estávamos com uma grande quantidade de livros, uns comprados e outros descartados pelos estudantes, e muito contentes em ter onde pesquisar. Mas não só livros: compramos panelas, frigideira e talheres italianos, toalhas de banho, etc.

Calendário "No mundo do belo" para 2002
Como eu tinha muito menos aula que Francisco, comecei, nas minhas folgas de aula, a investigar o Instituto todo. Achei a sala de esporte um espetáculo, que ficava numa ala que era supermoderna. Percebi que aquele Instituto passava por reformas, mas era coisa que duraria anos, até que ficasse moderno, como convinha. Essa sala de ginástica era gigantesca. Vi que aquele povo seria mesmo um dos primeiros em ginástica olímpica e em todas as modalidades esportivas, pois nunca na minha vida tinha visto coisa de tamanha estrutura e tudo muito contemporâneo e novo. Tinha piscina com tudo para o usuário. Só que eu não tinha acesso a essas instalações, porque estavam sendo projetadas para uso dos alunos regulares. 

Um dia eu vi um monte de entulho, um verdadeiro lixão, num canto em um determinado cômodo próximo ao teatro onde ensaiávamos  e, no meio deste entulho todo, umas folhas encharcadas e outras rasgadas e outras tantas, enroladas como canudos. Peguei-as com o maior medo. Desenrolando-as, percebi gravuras lindas, verdadeiras obras de arte ali jogadas, mas muito prejudicadas de tão estragadas que já estavam. Umas não consegui aproveitar, pois estavam muito rasgadas, mas umas 3 eu amei, abracei e deixei-as secar na sombra e, tornando a enrolá-las, trouxe comigo. 


De volta ao Brasil, mandei fazer molduras para aquelas verdadeiras obras de arte, que hoje ornamentam as paredes da escadaria que dá para o mezanino da minha casa. Ninguém pode imaginar a alegria de tê-las recuperado do lixo russo, ali prontas para a caçamba do lixão. 
O rapto da princesa (lenda folclórica russa)

Disputa na linha de demarcação - Gravura de 
Konstantín Savítsky (Taganrog, 1844-Penza, 1905)
Fomos juntando coisas. Falei para o Francisco: “Não podemos juntar muita coisa, não, porque não poderemos levar conosco para o Brasil. Desse jeito, teríamos que pagar um excesso de carga.” Ele me respondeu: “Tudo bem.” Mas cada dia vinha um com alguma coisa nova que comprou ou achou por aí. Não entendíamos porque aquele povo tinha a mania de pegar seus livros, verdadeiras raridades, arrancar a capa e jogá-los fora inteiros mas às vezes sem a capa. Esses novos livros eram introduzidos pelo buraco daquela mala descartada pelos hóspedes japoneses. 

 
Chinelinhos comprados das feirantes na entrada do metrô
















Lembro que em Moscou, no tempo todo que lá estive, não encontrei sacolinhas de plástico. Quando se vai às compras, a gente tem que levar as próprias sacolas ou carrinhos, etc. Eu tinha levado comigo nesta viagem à Rússia aqueles carrinhos de bagagem, e tive a sorte de achar uma caixa de papelão. Desfilava com orgulho por toda a redondeza do Instituto com aquele carrinho e a caixa em cima, amarrada. Dava para perceber que morriam de inveja os outros estudantes, pois eu vinha com o meu carrinho (maiá machína) abarrotado de víveres, enquanto eles carregavam suas compras desconfortavelmente nas mãos. 

Meus chinelinhos de Moscou
 

 













Bem, meus amados amigos: acho que por hoje já está de bom tamanho o texto por mim escrito. É claro que estou deixando de registrar outras coisas muito interessantes ainda antes de sairmos do Instituto Pushkin e seguirmos para a MGU. Mas tínhamos que sair do Instituto, porque ali dentro meu esposo e eu ficávamos muito presos, só estudando sem podermos aproveitar a maravilha que era a cidade e sua população. 

Infelizmente eu não me lembro de nenhuma amizade com nenhum cidadão moscovita enquanto vivíamos dentro do Instituto. 

Mas, ao entrar na MGU, eu me soltei completamente e Francisco também. 

Em continuação, no próximo relato começarei já pela mudança de endereço e mais aventuras vividas por mim em Moscou. 

E a cerimônia ortodoxa na Catedral de São Basílio, hein?