terça-feira, 7 de janeiro de 2020

A PORFIA DAS FLORES, OPERETA DE ANTÔNIO AMÉRICO DA COSTA


Por Francisco José dos Santos Braga

Dedico este ensaio aos seguintes colaboradores: Luiz Fonseca, conterrâneo do compositor Antônio Américo da Costa, que me emprestou um dossiê de Porfia das Flores que foi encaminhado à Biblioteca Nacional pela família do autor com o intuito de obter o registro e garantir os respectivos direitos autorais em 1958, portanto 14 anos após seu falecimento; Marta Maria Teixeira Vale que me presenteou com uma cópia digitada por Aureliano Magela de Rezende e que reproduz uma cópia manuscrita que pertenceu à filha do compositor, Martha Costa; poetisa e professora Nídia Maria Costa Reis, que me deu inúmeras informações sobre a obra e a vida de seu avô, e enriqueceu meu trabalho com fotografia de época; e Angélica Alves de Abreu Lima, mãe de Átila Alves e Costa, autor do livro “Reminiscências: Antônio Américo da Costa aos 50 anos depois de sua morte”, datado de 1995.

Da esq. p/ dir.: sentados: à frente, sentados: Cecília Costa, profª do Ginásio Santo Antônio de SJDR, Jupira, Antônio Américo da Costa ("Tonico", autor da opereta Porfia das Flores), Martha Costa e Floripes Reis; 2ª fila: sentado Adhemar Campos ("Bebêim"); em pé, Mário S. Carvalho, "Chiquito" Campos (irmão de Bebêim), Dr. Rômulo , engº Paulo Américo da Costa e Getúlio Silva, prefeito de Prados no Estado Novo; 3ª fila: em pé, João Américo da Costa, Ricardo, José Leão, "Soreca", José Galdino, José Paulino, ???, barbacenense Lamounier Campos, ???, Simeão.


I.  A RESPEITO DE UMA FOTOGRAFIA ANTIGA DA ORQUESTRA LIRA CECILIANA

Coube a Dona Nídia Maria Costa Reis ser a informante dos integrantes da Orquestra Lira Ceciliana da foto em questão e fornecer as informações que transcrevo. Não são mencionados dois dos vinte e um membros por lapso de memória da informante. 
D. Nídia assistiu a três versões da Porfia das Flores, todas repletas de boas impressões. Entretanto, a que mais a marcou foi aquela em que Maura, a sua irmã, foi a personagem Rosa; Célia Maria Vale, irmã de Paulo de Carvalho Vale, representou o Cravo; Edna de Paula figurou como Sempre Viva; Raquel Campos, irmã de Adhemar Campos Filho, foi o Lírio; e, por fim, Helena Cardoso Vale, prima de Dario Cardoso Vale, autor de Memória Histórica de Prados, foi a Flor de Laranja. Infelizmente, não pôde precisar a data dessa versão mais marcante.

II. INTRODUÇÃO

No ano de 1995, o genial regente e meu amigo Adhemar Campos Filho, o “Adhemarzinho” (1926-1997), neto do meu biografado Antônio Américo da Costa, o “Tonico” (1867-1944), me convidou para assistir A Porfia das Flores, da autoria de seu avô, igualmente natural de Prados-MG, uma opereta composta para o tempo natalino, cuja encenação acredito tenha sido a última levada a efeito no pequeno teatro local. Tive, portanto, a sorte de assistir à provavelmente última histórica apresentação, levada ao palco em Prados-MG, sob a batuta do inesquecível Adhemarzinho. Encantei-me com a singeleza da peça, que, em linhas gerais, apresentava um elenco de flores que disputavam a preferência do Menino Deus que acabava de nascer em Belém, à guisa de competição.
Capa do texto digitado que me chegou 
às mãos através de Marta Maria Teixeira Vale

A partir dessa época, sempre acalentei a intenção de escrever algo a respeito, mesmo diante das dificuldades de acesso e da pesquisa in loco. Recentemente, este trabalho ficou levemente facilitado quando o Sr. Luiz Fonseca, conterrâneo do compositor pradense, me facilitou o acesso a um dossiê, em que a família do falecido Antônio Américo da Costa delegava ao procurador José Carvalho Silva, brasileiro, residente na cidade de Prados, na rua Magalhães Gomes, 23, fazer o registro da referida obra na Biblioteca Nacional, a fim de garantir os respectivos direitos autorais. 

Assinavam a procuração em 03/06/1960, dando plenos poderes ao Sr. José Carvalho Silva, os seguintes filhos do falecido Antônio Américo da Costa com seus respectivos cônjuges: José Américo da Costa e Celina Fonseca da Costa; Maria José da Costa Campos e Adhemar Campos; Paulo Américo da Costa e Floripes Reis da Costa; Celina da Costa Campos e Lamounier Campos; Maria Estefânia da Costa Pinheiro e Adolfo Pinheiro; João Américo da Costa e Eunice Matos da Costa; além desses casais, também assinavam as seguintes filhas solteiras: Marta Costa e Cecília Costa. 

Há ainda, dentro do referido dossiê, dois documentos que vale destacar: 
1) o dito registro da partitura da opereta feito pela Universidade do Brasil “Escola Nacional de Música” (nº 1.309), datado de 20/09/1960 e 
2) o resultado da tentativa de gravação e edição discográfica da partitura da opereta natalina solicitadas em 14/10/1960 junto à Gerência da Cia. Brasileira de Discos, que, por sua vez, consultou a Filial Philips de Belo Horizonte. Segundo a Comunicação Interna nº 730-15/146-60, o Sr. Ruy Carvalho foi informado em 09/11/1960 por Sr. R. Millington das seguintes decisões internas da Philips Records: 
À at.: Sr. Ruy Carvalho 
Estamos devolvendo, anexo, a partitura “Porfia das Flores”, que V. Sa. nos remeteu para estudos e apreciação nossa. Enviei ao Sr. Luiz Bittencourt, Diretor Artístico, para julgar das possibilidades da peça. Julgada pela equipe, a mesma foi indicada sem interesse para o disco, visto ser escrita para o palco. Assim sendo, agradecendo o seu interesse pelo assunto, subscrevemo-nos, 
Atenciosamente, 
Ass. R. Millington 

A partitura que se encontra no referido dossiê traz a seguinte informação após o título “Porfia das Flôres”: “Letra e música de Antônio Américo da Costa (Orquestração de João Américo da Costa)”. A partitura consiste das seguintes partes dispostas ao longo de 49 páginas da grade da orquestra (parte do regente): 
1) Abertura (orquestral)
2) Entrada da personagem Rosa
Entrada da Rosa


1ª página (introdução orquestral da Rosa)
2ª página: entrada da Rosa cantando

3) Entrada da personagem Flor de Laranjeira 
Entrada da Flor de Laranjeira
4) Entrada da personagem Sempre-Viva (Movº Mazurka)
Entrada da Sempre-Viva
5) Entrada da personagem Lírio (Allegretto)
Entrada do Lírio
6) Entrada da personagem Cravo (Marcial)
Entrada do Cravo
7) Personagens: Cravo, Flor de Laranjeira e Sempre-Viva 
8) Oh! noite cheia de encanto! 
9) Estas flores reunidas... 
10 e 11) Confiamos, Deus Menino... 
12, 13 e 14) A Rosa graciosa... 
15) Côro Final: O mundo não sabe... até E hosanas sem fim!


É importante assinalar ainda que, na opereta Porfia das Flores, como de resto em todas as operetas, grande parte é entoada, mas existe também espaço para diálogos e falas entre os diversos personagens no palco.

Constam ainda do dossiê todas as partes cavadas para os diversos instrumentos do conjunto orquestral, a saber: violinos I, II e III, flauta, clarineta, oboé, piston em si, 2 trompas em fá, trombone, violoncelo e contrabaixo. 

Vestes das personagens: a Rosa trajando saia verde e corpinho cor de rosa; o Cravo, calções verdes e blusa encarnada; o Lírio, calções verdes e casaquinho branco; a Sempreviva, saia verde e corpinho amarelo; a Flor de Laranja, saia verde e corpinho branco. Cada uma deve trazer, na mão, a flor que representa. 

Finalmente, o que se pode dizer do musicista Antônio Américo da Costa? Lemos em O Correio, de São João del-Rei, edição de 10/12/1944 em célebre elogio fúnebre:  
“(...) Musicista notável Antônio Américo não foi só o exímio violinista sobejamente conhecido em Minas, sagrou-se também inspirado compositor, que deixa várias músicas sacras apreciadas por sua correção e beleza, e foi ainda o chefe acatado e querido que, através de longos anos com devotado carinho, regeu a esplêndida orquestra de que, com razão, se orgulha Prados. (...)”
Fonte: ALVES E COSTA, Átila: Reminiscências: Antônio Américo da Costa - 50 Anos depois da sua Morte, Belo Horizonte: [s.n.], 1995, p. 213. 


III. PRINCIPAIS REFERÊNCIAS AOS AUTOS PASTORIS E SEUS ELEMENTOS CONSTITUINTES

Inicialmente, é importante uniformizar a nomenclatura na abordagem que será feita da “Porfia das Flores”. Buscando classificar essa opereta natalina, verificamos tratar-se de obra do gênero de Autos Pastoris ou, simplesmente, Pastoris. Pastoril é um folguedo popular dramático de origem europeia, representado entre o Natal (25 de dezembro) e a Festa de Reis (06 de janeiro), especialmente em vários Estados do Nordeste brasileiro, particularmente em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas. São cordões com diversos personagens, entre os quais as pastoras ou pastorinhas, que cantam e tocam maracá. De origem religiosa, também é denominado Presépio.

Outro reconhecimento que precisa ser feito é que não há propriamente um padrão: há muitas variantes de Pastoris e nem todas apresentam toda a riqueza de suas possibilidades de encenação. Daí a dificuldade de generalizar ou uniformizar a partir de todas as suas possibilidades. O que convém é apreciar a manifestação artística sem buscar um denominador comum, que certamente não existirá.

Para a pesquisadora Rúbia Lóssio, o ciclo natalino inicia-se na véspera do Natal, 24 de dezembro, e vai até o dia de Reis, 6 de janeiro. Para acompanhar esse período, é preciso manter a ingenuidade de uma criancinha, a esperança de um amanhecer ensolarado, a ternura de um botão de rosas e a leveza de uma linda borboleta no ar. A emoção do povo é revelada nos folguedos natalinos através de sua ação dramática. Temos vários folguedos natalinos, como o pastoril, o bumba-meu-boi, a cavalhada, a chegança, que fazem referências à Noite de Festas e ao grande dia em que Jesus nasceu. Desses folguedos, o mais tipicamente natalino é o pastoril religioso, que tem em sua essência a temática da visitação dos pastores ao estábulo de Belém onde Jesus nasceu.

Ela acredita que a chegada dessa versão do Pastoril ao Brasil tenha vindo do poeta espanhol, dramaturgo e compositor, Juan Del Encina. Também é possível que tenha havido a influência do mestre de cerimônias, trovador e poeta Gil Vicente pelas suas obras a serviço de Portugal.

Os estudiosos consideram a primeira fase de Gil Vicente marcada pela herança medieval, pela influência espa­nhola de Juan Del Encina e pela predominância dos au­tos pastoris e outras peças de assunto religioso. A popu­lação do palco é constituída de pastores, e a língua é o dialeto saiaguês, falar típico de Saiago, região da pro­víncia de Zamorra, na Espanha, fronteiriça das serras da Beira Lusitana. A ação dramática é rudimentar, expres­sando com candura e simplicidade os temas bíblicos e bucólicos. São desta fase: o Monólogo do Vaqueiro, o Auto Pastoril Castelhano, o Auto dos Reis Magos, entre outros.

Segundo Pereira da Costa (1851-1923), o maior pesquisador da história pernambucana e autor de Folk-Lore Pernambucano, o uso de Presépios em Portugal teve início no Convento das Freiras do Salvador, em Lisboa, em 1391, levantando-se no meio do templo uma armação representando o Estábulo de Belém, com figuras que representavam a cena do nascimento de Jesus. Segundo o mesmo autor, a introdução do Presépio em Pernambuco vem, provavelmente, de fins do século XVI "iniciada no Convento dos Franciscanos de Olinda, por Frei Gaspar de Santo Antônio, primeiro religioso que tomou o hábito no Brasil, naquele mesmo convento, em 1585".

No seu Dicionário do Folclore Brasileiro, Luís da Câmara Cascudo assim define o Pastoril: cantos, louvações, loas, entoadas diante do presépio na noite do Natal, aguardando-se a missa da meia-noite. Representavam a visita dos pastores ao estábulo de Belém, ofertas, louvores, pedidos de bênção. Os grupos que cantavam vestiam de pastores, e ocorria a presença de elementos para uma nota de comicidade, o velho, o vilão, o saloio, o soldado, o marujo, etc. Os pastoris foram evoluindo para os autos, pequeninas peças de sentido apologético, com enredo próprio, divididos em episódios que tomavam a denominação quinhentista de "jornadas" e ainda as mantêm no Nordeste do Brasil. Nas jornadas, que eram um grande atrativo do pastoril, realçava-se o estilo dramático, fazendo com que os partidários atirassem flores, lenços de seda e até chapéus.

O Pastoril tem como corpo principal o grupo de pastoras, subdividido em dois cordões (azul e encarnado). A Mestra dirige o cordão encarnado, e a Contramestra, o cordão azul. Há também o Anjo, o Pastor, o Velho - personagem cômico, originário provavelmente do pastor -; a Diana, que é a intermediária entre os dois cordões; a Borboleta, personagem faceira; a Jardineira, que canta e dança uma jornada em solo, referente às atividades da jardinagem; a Libertina, que é, em algumas variantes, a pastora tentada pelo Demônio; o Demônio ou Diabo, que vem tentar as pastoras; a Cigana, que representa o povo cigano que vem dizer o destino, a sorte de Jesus e que "às vezes, lê a sorte das pastoras e das pessoas da plateia, lendo a mão na tradição da buena dicha para recolher o dinheiro. Trajando saias curtas e rodadas, e corpetes ou blusas brancas, e usando um diadema enfeitado com fitas, as pastoras, com toda a graciosidade, trazem na mão pandeirinhos ou maracás, adornados da mesma forma. O Anjo apresenta-se como um anjo de procissão, com asas de papel; a Cigana veste saia comprida e usa brincos, lenços, colares de moedas douradas; a Borboleta usa asas transparentes e antenas de papel colorido; e o Pastor utiliza um cajado.

Em estudo recente, Antônio Lopes Neto (2018) conclui: 
"Os estudos realizados nos levaram a descobrir que As Pastorinhas de Pirenópolis não se diferenciam em sua estrutura básica do Presépio das Alagoas. Percebemos que tanto na obra espetáculo como na obra literária, ambas mantêm certo equilíbrio entre o diálogo, o canto, a dança e o drama. Para nós, o nome Presépio designa o folguedo, manifestação da tradição popular, no qual está inserido um conjunto dançante de meninas que são chamadas ‘pastorinhas’. Já As Pastorinhas designa o auto popular que, naturalmente, conta com a participação de meninas também chamadas pastorinhas.
O Presépio chegou a Pirenópolis com toda a influência alagoana. No decorrer dos anos, sofreu variações em sua estrutura primitiva, que foi se transformando com o tempo, adaptando-se ao meio. Sem perder sua forma religiosa, foi sendo absorvido segundo o gosto de quem organiza e que dele participa. (...) (p. 103)
Théo Brandão, no Presépio das Alagoas, nomeia como Personagens: Pastoras em número de sete, em cada cordão, em filas à direita o cordão encarnado chefiado pela Mestra e à esquerda o cordão azul pela Contra-Mestra, mais Diana, Pastorinha, Caçadora, Velho Simão e Pastorzinho Benjamim. Figuras: Anjo Gabriel, Lusbel (Fúria), Religião e Cira (Cigana). Embora ele faça menção à existência de pastores, estes não aparecem no decorrer da ação, ou então os pastores a quem ele se refere são o velho Simão e o Pastorzinho Benjamim.
Lênia Márcia Mongelli & Neide Rodrigues Gomes, em As Pastorinhas de Pirenópolis, apresenta como Personagens: Pastoras em número de doze, em cada cordão, Diana e Simão, Benjamim, Cigana, Anjo Gabriel e Lusbel; Personagens Alegóricas: Fé, Esperança, Caridade e Religião. As autoras não dão nome à Cigana, como Théo Brandão faz, nomeando-a de Cira. Tanto na obra do alagoano como das escritoras de Pirenópolis, as Pastoras recebem nomes de pedras preciosas e de flores: Ametista, Rosa, Safira, Violeta, Angelica, Esmeralda, Bonina, Diamantina, Acácia, Turquesa, Opala, Dália, Cravina, entre tantos outros." (p. 151)
Roberto Benjamin (1989) evidencia que para gente do povo, o Natal é conhecido como a Noite de Festas em referência ao grande dia do nascimento de Jesus Cristo. Talvez seja a época em que tenhamos uma consciência coletiva em relação ao novo ano que se inicia. Novas promessas, novas atitudes, novas vontades, entre outros sonhos. (...) Entretanto, o folguedo mais tipicamente natalino é o Pastoril religioso como afirma Roberto Benjamin, porque continua preso à temática de visitação dos pastores até a gruta de Belém. A beleza do folguedo está na sinergia de sua dramatização com a plateia. Há de se considerar que o Pastoril é a teatralização do presépio, por isso, sua popularidade consiste numa ligação com a igreja católica. (...) No Brasil, os autos pastoris foram introduzidos como manifestações paralitúrgicas, de fundo catequético e assim tem conservado na maioria de suas variantes. Entre o cordão encarnado ligado ao manto de Jesus Cristo e o cordão azul relacionado ao manto de Nossa Senhora, as pastoras contagiam a todos com a delicadeza de seus bailados. (...) O Anjo que anunciou aos pastores o nascimento de Cristo tem uma função importante durante o espetáculo em ressuscitar a pastora que é assassinada. Existe o Pastor, que fala aos espectadores que o grupo chegou ao lugar que Jesus nasceu. (...) O momento da apresentação da Borboleta é realmente espetacular, ela passeia entre as pastoras revelando sua fineza. (...) Aparece o indesejado Diabo que tenta desviar o grupo da visitação com sua sedução. Surge também a chistosa Cigana para lançar a sorte e o destino do menino Jesus. «Às vezes diz a sorte das Pastoras e de pessoas da plateia, na tradição de buena-dicha, para recolher dinheiro. Na versão coletada por Gustavo Barroso, no Ceará era a cigana a assassina da pastora Açucena Ele faz uma análise a partir de informações eruditas rastreando o personagem desde a tradição grega (lenda de Lâmia), rabínica e oriental, referido a tradição popular nordestina de que a cigana seria uma enviada do Rei Herodes, disfarçada, para raptar e matar o menino Jesus». (Benjamin, 1989, p. 53).

Também há uma bela descrição na obra “Terra do Sol: natureza e costumes do Norte” (1912) do cearense Gustavo Barroso, para quem o auto de Natal é na verdade fragmentos dos Pastoris Fortalezenses. Parece que originalmente era um espetáculo que consistia numa montagem e na representação coletiva de cinco autos tradicionais populares do ciclo do Natal cearense. Vejamos um dos principais trechos, em que o autor cearense trata dos autos pastoris dentro da seção dedicada à Arte, quando aborda Os Divertimentos (Musica e Dansa)
“Os divertimentos do sertão, exceptuando-se os sambas, festas de anniversarios e casamentos, têm sempre um pretexto religioso. As suas mais concorridas festas realizam-se nas grandes datas da Egreja. Mas, quer numas quer noutras, é nellas que o matuto manifesta os seus sentimentos musicáes e choreográphicos. (...)
Quasi todos os divertimentos do povo sertanêjo se realizam nas festas de Natal, nos dias que decorrem de 24 de Dezembro a 6 de Janeiro. O mais tradicional de todos e o mais compativel com a indole da população e com a feição do meio é o “Boi”, o “Boi Suruby”.
É uma farça, em que se apresentam muitos personagens, que cantam, acompanhados de um côro e de uma orchestra composta de uma vióla, de um accordéon, de um tambor e de um pandeiro. Apparecem dois trabalhadores da fazenda. Matheus e Gregorio, vestidos de algodão grosso, chapéos de couro, armados com váras de ferrão e bexigas de boi cheias de vento, para poderem dar pancadas inoffensivas. (...)
Todos os personagens ao surgirem e ao desapparecêrem são surrados pelos dois acostados do Capitão, com as grandes bexigas cheias de vento (...)
O boi é o divertimento mais tradicional e mais antigo do sertão. Soffre modificações, às vezes bem profundas, de localidade para localidade. Mas no fundo é sempre o mesmo divertimento sertanêjo, ridiculizando certos typos e costumes, enfeixando reminiscencias dos velhos cultos dos animáes, dos dialectos africanos, das crenças catholicas no burrinho e no boi que S. José trazia, quando no estabulo humilde da estrada de Belém Christo nasceu.
Outr’ora, o sertão tinha pelo Natal uma dansa completamente indigena que já desappareceu – a dansa dos Pagés, cuja ultima representação, com suas scenas de combates e caças teve logar no Icó, mais ou menos em 1837. ¹
No Natal, ha tambem as Pastorinhas, a Dansa de S. Gonçalo, divertimentos de fastidiosa musica e tôscos versos à semelhança do “Boi”, menos interessantes, porém, legados pelo colono, quasi sem modificações do contacto das outras duas raças.
Em todos esses divertimentos, em todas as dansas, nas cóplas que as acompanham e na sua musica, ha uma morbidez, um vagar, uma nostalgia, uma repetição constante de movimentos e sons, que bem pintam a funda tristeza da alma rude da gente do Norte, gente que parece ter infiltrado no seu imo toda a grande desolação das sêccas, das planuras crestadas que o vento varre, escarnando; gente que parece retratar na alma a feição morbida, uniforme e doentia do meio physico que a cérca, que a molda e esculpe assim tão triste, tão dôce, tão humilde e tão heroica!...
¹  J. Brigido: O Ceará.
Fonte: BARROSO, Gustavo ("João do Norte"): TERRA DE SOL – Natureza e Costumes do Norte, 3ª edição, 1930, Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, p. 208-217 (obra que teve sua primeira edição em 1912 e foi dedicada a Coelho Netto e Eurico Cruz)


IV.  AGRADECIMENTO


Agradeço carinhosamente à minha esposa Rute Pardini suas fotos bem como a sua edição e formatação que tanto ajudam o leitor a ter uma ideia da extensão da obra literomusical que se estende por 49 páginas da grade do regente ou 24 páginas de texto digitado.




V. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


ALVES E COSTA, Átila: Reminiscências: Antônio Américo da Costa - 50 Anos depois da sua Morte, Belo Horizonte: [s.n.], 1995, 247 p.

BARROSO, Gustavo ("João do Norte"): TERRA DE SOL – Natureza e Costumes do Norte, 3ª edição, 1930, Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 272 p.

BENJAMIN, Roberto Emerson Câmara. Folguedos e danças de Pernambuco – Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 1989. (Coleção Recife, LV) 2ª edição.

COSTA, Antônio Américo: PORFIA DAS FLORES, s/d, música e letra.

LOPES NETO, Antônio: Uma análise comparativa: do texto à representação - do Presépio de Alagoas às Pastorinhas de Pirenópolis, Universidade Federal de Alagoas/Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes - Setor de Artes -Teatro/Licenciatura, Maceió, 2018 - Tese na área de Artes Cênicas do referido Instituto, submetida à banca examinadora, formada conforme exigências legais, para obtenção do grau de Professor Titular Classe E
Link: http://www.repositorio.ufal.br/handle/riufal/3277

LÓSSIO, Rúbia: O ciclo natalino, 2004, Fundação Universia.  
Link: https://noticias.universia.com.br/publicacoes/noticia/2004/12/24/492709/ciclo-natalino.html

                       O Natal no século XXI-O pastoril na noite de Festas!, 21/12/2018, W Cultura.
Link: https://wsimag.com/pt/cultura/47492-natal-do-seculo-xxi

VALENTE, Valdemar: O ciclo natalino, Fundação Joaquim Nabuco.