sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

HOMENAGEM À PIANISTA LÍGIA CARDOSO DE ASSIS


Por Abgar Antônio Campos Tirado


Falo hoje sobre uma pessoa cujo valor enobrece nossa cidade, que a recebeu desde muito jovem, quando de seu casamento. Falo de Lígia Cardoso de Assis, modelar esposa, mãe e avó, cujas virtudes ainda se veem enriquecidas por notáveis dotes musicais, sobretudo como pianista e professora.

Nossa homenageada é natural de Mogi das Cruzes, SP, tendo-se mudado para São João del-Rei pelo fato de ter-se consorciado com nosso conterrâneo Sílvio de Assis, funcionário do Banco do Brasil, talentoso musicista, que veio a ser o proprietário do hoje extinto Palácio da Música, renomada loja de discos, reconhecida como uma das melhores do País.

O matrimônio enriqueceu o casal com oito filhos, a saber: Sílvio, meu prezado amigo, Maria Lígia (Marily), Dora, Carlos Edmundo, Teresa Cristina, Rosane, Flávio e Marcus Vinicius, este já falecido. Ressalte-se que todos eles apresentam notável aptidão musical, alguns, como no caso de Marily, dedicando-se à música profissionalmente. Acrescento também que, com exceção de Sílvio (Silvinho), todos foram meus alunos na Escola Estadual “Cônego Osvaldo Lustosa”.

Voltemos à nossa querida Lígia: Em 1956, eu, estudante do Curso Científico em Belo Horizonte, ainda não a conhecia, quando fiquei sabendo que ela tocaria com nossa “Sinfônica” o consagrado Concerto em lá menor op. 16, de Grieg. Soube que sua atuação foi brilhante, primeiramente em Caxambu e depois em São João del-Rei. Como gostaria de ter estado presente! Todavia, em janeiro de 1957, estando eu de férias, meu saudoso colega Alfredo Amaral de Carvalho, também ardoroso musicista, conseguiu que Lígia nos recebesse em sua casa, então no Largo do Carmo, para uma audição particular. Muito bem recebidos, presente também minha irmã Aline, igualmente musicista, encantou-nos a arte da consagrada pianista. Apresentou-nos sobretudo obras de Chopin, como o Prelúdio nº 24, a Fantasia-Improviso op. 66 e o Estudo op. 25 nº 11, peças de grande dificuldade, vencida com facilidade pela artista, que as executou, note-se, totalmente de cor e com elevada musicalidade. Lembro-me de que toquei também alguma coisa, tendo a pianista encerrado sua atuação de maneira leve, com o tango “Aventureiro”, em versão própria. Ressalte-se sua impressionante capacidade de decorar peças musicais e sua segurança em executá-las. 

No ano de 1957, continuava eu a estudar em Belo Horizonte, perdendo mais uma vez outra brilhante atuação da pianista com nossa “Sinfônica”, em nosso Teatro Municipal, quando tocou, de Chopin, o Andante Spianato e Grande Polonaise Brilhante op. 22

Os anos se passaram. Em 1977, tendo eu assumido a direção do Conservatório Estadual de Música Padre José Maria Xavier, convidei a pianista e amiga Lígia para integrar o quadro de professores de piano da referida escola. Para minha alegria, o convite foi aceito, tornando-se imediatamente uma das mais destacadas e queridas professoras da casa. E, sempre surpreendendo por seu devotamento à música e a seu magistério, embora já muitíssimo preparada em seu mister, com a formação, primeiramente em sua terra natal com o prof. Marmora e, posteriormente, em nossa cidade em reciclagem com o pianista e professor André Pires, Lígia, já em idade madura, resolve graduar-se em piano pela Universidade Federal de Minas Gerais, o que fez com brilhantismo, tendo como principal professor o respeitado concertista Eduardo Hazan, sendo que, na conclusão do curso, apresentou, acompanhada pela orquestra da Universidade, as complexas Variações Sinfônicas de César Franck, sob a regência do importante maestro David Machado. Quanta vitória! Diga-se ainda que foi a primeira professora de nosso Conservatório a obter o diploma universitário em piano! Lembramos também que, em sua busca constante de aperfeiçoamento, ia regularmente a Belo Horizonte, para aulas particulares de reciclagem com o professor e concertista Miguel Rosselini

Outro evento sobre o qual me apraz falar: Em 1993, no concerto oficial comemorativo do centenário de falecimento do grande compositor russo Peter Ilich Tchaikowsky, organizado pelo saudoso musicista professor Tarcísio do Nascimento Teixeira, tive a honra de apresentar-me ao piano, a quatro mãos, com a estimada Lígia, em nosso Teatro Municipal, em obras do compositor homenageado. Alternamos os solos e acompanhamentos. Fui solista na Valsa da Serenata para cordas e Lígia o foi em dois números da Suíte Quebra-Nozes. Pude então pensar: como os fatos evoluem na vida; antes, eu, rapazinho, era apenas um fiel admirador da eminente artista e, agora, ali estava eu como seu parceiro em concerto! 

Hoje, lamentavelmente, Lígia se acha acometida de uma das mais frequentes moléstias da atualidade: o mal de Alzheimer. Recolhida a seu lar, viúva, recebe total assistência e carinho de toda a sua família e, mesmo à distância de todos aqueles que a trazem perenemente em seus pensamentos e corações, esperando em Deus, quem sabe, sua plena recuperação, para júbilo e felicidade de todos nós. 

 (Jornal da ASAP, 01/2015) 


Fonte: TIRADO, Abgar Antonio Campos: Crônicas de Abgar, editor Luiz Antonio Teixeira Rodrigues, 2018, 367 p.