sábado, 19 de maio de 2018

DISCURSO DE RECEPÇÃO ACADÊMICA A ALAOR BARBOSA NO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO DISTRITO FEDERAL


Por Anderson Braga Horta


Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal,
em 1º de setembro de 2010
 


O conto, o romance, o ensaio, a biografia, a história literária, eis os amplos territórios do país das letras dominados por Alaor Barbosa. Sua obra é vasta, não teria como analisá-la, aqui e agora — ainda que me socorresse envergadura para tanto —, em toda a sua extensão e profundidade. Jungido por limitações pessoais e circunstanciais, tentarei, todavia, dar de seus méritos uma ideia, e ficarei feliz de lhe conseguir traçar, ao menos, um adequado panorama. Antes, porém, vejamos alguns pontos da trajetória de vida desse brilhante jornalista e advogado goiano, com vivência carioca, petropolitana e, há quase três decênios, para alegria nossa, brasiliense. 

Alaor Barbosa dos Santos nasceu em Morrinhos, em 13 de março de 1940, de ascendência mineira, por parte do pai, Aristides Ferreira Barbosa, também nascido naquela cidade goiana, e paulista, de Igarapava, pelo lado da mãe, Eliza Maria de Oliveira. Casou-se em 1965 com Maria Gonçalves Ribeiro, que lhe deu os filhos Noêmia, Luciano e Hermano. Seus dois irmãos vivos, Eurico e Geraldo Barbosa dos Santos, têm fortes ligações com Brasília. Geraldo veio para a nova capital na primeira hora, em 1960, e aqui reside; é funcionário aposentado da Câmara dos Deputados. Eurico Barbosa é escritor, e como o irmão mais novo, que ora é o foco de nossas atenções, membro da Academia Goiana de Letras e sócio da ANE — Associação Nacional de Escritores, aqui sediada. 

Advogado desde 1964, tornou-se Alaor, vinte anos mais tarde, por concurso, procurador do Incra em Brasília, e, em seguida, consultor legislativo do Senado Federal, cargo em que se aposentou em 1993. É membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores, de São Paulo, e de nossa ANE. Em 23 de agosto último recebeu da Câmara Municipal de Goiânia o título honorífico de Cidadão Goianiense. E no próximo dia 9 será recebido por Danilo Gomes na Academia de Letras do Brasil, dos saudosos Almeida Fischer e José Geraldo Pires de Mello. 

Começou a escrever precocemente, como jornalista, desde os 13 anos de idade, na terra natal e depois em Goiânia e no Rio de Janeiro. Seu primeiro conto data dos 15 anos. 

A propósito de conto e de jornal, registro coincidência que tem um aspecto lastimável, marcadamente para nós que vivemos a época dos grandes jornais do Rio de Janeiro e, profissionalmente e como colaboradores literários, participamos de sua vida. Alaor Barbosa, colaborador que foi do prestigioso Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, nele estreou, em 1959, com um conto neoconcretista. O dia de hoje, 1º de setembro de 2010, em que nos ocupa este breve levantamento de sua carreira literária, é a data anunciada da morte do JB... 

É opulenta a bibliografia de Alaor Barbosa, quase toda vinda a público em Goiânia, mas com alguns títulos lançados no Rio e em Brasília. Seu primeiro livro, Monteiro Lobato das Crianças, editou-se no então Distrito Federal, em 1960, tendo tido reedições, em 1969 e 1975, na capital goiana. Em 1964 vêm os contos de Cidade do Tempo, cujo título mudou, sucessivamente, para Caminhos de Rafael (1965) e A Espantosa Realidade. Seguem-se Picumãs (contos, 1966), reeditado trinta anos depois no Rio de Janeiro; Confissões de Goiás (ensaios, 1968); Campo e Noite (contos, 1971); Rui Barbosa, Pensamento em Ação (1975). O primeiro romance, O Exílio e a Glória, virá em 1980. No ano seguinte edita-se A Epopeia Brasileira ou: Para Ler Guimarães Rosa. Em 1983 publica dois livros: Os Rios da Coragem (contos) e Saci e Romãozinho (texto para crianças). Em 1984 é a vez de Pequena História da Literatura Goiana (para a Infância e a Juventude). Novos contos em 1985: Praça da Liberdade. De 1991 é Meu Diário da Constituinte (Brasília), de 1994 O Ficcionista Monteiro Lobato (São Paulo). A Morte de Cornélio Tabajara, romance distinguido em 1997 com o Prêmio Cora Coralina, da Fundação Cultural Pedro Ludovico Teixeira, de Goiás, é editado um ano após. Outro romance em 1999, as Memórias do Nego-Dado Bertolino d’Abadia. O ensaio volta a sua bibliografia em 2002, com Um Cenáculo na Pauliceia (Um Estudo sobre Monteiro Lobato, Godofredo Rangel, José Antônio Nogueira, Ricardo Gonçalves, Raul de Freitas e Albino de Camargo). Publica em Brasília, em 2004, o romance Uma Lenda; em 2006, Contos e Novelas Reunidos; e, pela LGE, Sinfonia Minas Gerais: A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa. Fecha o conjunto (por enquanto) seu romance Eu, Peter Porfírio, o Maioral, finalista do Prêmio Leya, com o selo Dom Quixote (Portugal, 2009). 

Sua fortuna crítica inclui nomes conhecidos e reconhecidos como Adelto Gonçalves, Antônio Olinto, Assis Brasil, Brasigóis Felício, Carmo Bernardes, Emanuel Medeiros Vieira, Fernando Py, Francisco Miguel de Moura, Gabriel Nascente, Gilberto Mendonça Teles, Hélio Pólvora, João Carlos Taveira, José Edson Gomes, Manoel Hygino dos Santos, Manoel Lobato, Nelly Novaes Coelho, Ronaldo Cagiano, Wilson Martins. Está nos dicionários de Bariani Ortêncio, Luiz Carlos Guimarães da Costa, Napoleão Valadares e Raimundo de Meneses, e na enciclopédia da Oficina Literária Afrânio Coutinho. 

O Ensaísta 

A vertente ensaística é de notória importância na obra de Alaor Barbosa, não só por assinalar o gênero de sua estreia (pois como ensaio biográfico podemos classificar o Monteiro Lobato das Crianças), como pelo mérito intrínseco dos livros que a representam. Essa vertente nos mostra um escritor interessado de preferência — não exclusivamente! — em autores e aspectos da literatura de seu país, notadamente aqueles mais umbilicalmente ligados à realidade pátria — social, telúrica ou linguística. Não por acaso escolheu a figura de Monteiro Lobato, de caráter vincadamente nacional e rasgos nacionalistas, para foco primeiro de sua privilegiada visão crítica. Sua admiração pelo genial construtor do Sítio do Picapau Amarelo e gerador de seus maravilhosos habitantes (a par de contista, autor pioneiro de science-fiction no Brasil e homem de ação), não lhe rendeu apenas o trabalho inicial, mas prossegue frutuosa: num ensaio (que ele, despretensiosamente, chama de “nota”) incluído em Confissões de Goiás, num volume todo dedicado ao ficcionista Monteiro Lobato e em Um Cenáculo na Pauliceia, cujo primeiríssimo conviva era o “pai” de Narizinho, da boneca Emília e do Visconde de Sabugosa, entre muitas criações igualmente encantadoras. Outra de suas devoções maiores é o mestre brasileiríssimo e universalíssimo de Sagarana e Grande Sertão: Veredas, personagem dos estudos — feitos, como sempre, com a mente e o coração — Para Ler Guimarães Rosa e Sinfonia Minas Gerais. O mineiro está também presente nas Confissões: “Conversando com Guimarães Rosa”. 

Para exemplificar esse lado da literatura de Alaor, escolho um trecho da “Nota sobre Monteiro Lobato Contista”, das mencionadas Confissões de Goiás
Regionalista? Lobato era muito artista para ser um escritor regionalista ou regional. Não vejo nos contos dele os sinais identificadores de uma obra regionalista. Reduzi-lo à condição e estatura de um escritor paulista do vale do Paraíba é descabido, injusto, errôneo. A chamada “cor local” existe nos seus contos — a cor local do vale do rio Paraíba do Sul. Porém, e daí? Toda obra literária tem cor local. Aliás: rara a obra literária que a não tem. Nem é regionalista Lobato, nem a cor local é essencial ao regionalismo. O escritor regionalista é um escritor menor. Não existe essa dicotomia regionalismo-universalismo. Uma obra literária verdadeira é universal em essência, ainda que contenha elementos regionais. A obra que se puder ou dever classificar como regional é obra documental, de valor extraliterário. A arte é de natureza universal: se uma obra é de arte, ela é universal, não tem jeito de não ser. Mesmo que a área compreendida por uma obra de arte não seja senão a área de um quintal de uma casa qualquer, numa fazenda qualquer em qualquer cafundó, se essa obra é artística ela é universal.

A escolha dessas breves linhas não é casual. É, aliás, interesseira, porque me poupa o trabalho de desenvolver considerações — que haveriam de ser semelhantes — à obra ficcional de Alaor, por lhe serem, penso eu, aplicáveis. 

O Contista 

A despeito do alto valor de sua ensaística, penso que os méritos de escritor de Alaor Barbosa têm sua melhor expressão nas formas do gênero narrativo — o conto, a novela, o romance. 

Como contista, sua produção é simples e elegante, variada e volumosa, destacando-se pelas qualidades de linguagem — seja a do narrador, culta, porém sabiamente “contaminada” pela das personagens, seja a dessas personagens, colhida do mundo real, mas sem subserviência naturalista —, pela vitalidade das histórias, da psicologia e da fala, próprios das terras centrais que são o mundo do autor (aspectos, estes últimos, configuradores de um certo regionalismo, é verdade, mas com as ressalvas do fragmento sacado às Confissões de Goiás), e — digo ao fim, mas com ênfase — pela habilidade na tessitura da trama, capaz de suscitar e manter a atenção e o interesse do leitor. 

Para exemplificar essas virtudes narrativas, leio um pouco de “Minha Pobre Gente” (de Picumãs, na transcrição de Contos e Novelas Reunidos), ressaltando o diálogo decisivo entre Olimpiano e Delcídia, sua enteada, ou melhor, sua “em-lugar-de-enteada”, na saborosa expressão do narrador: 
Um tição, quebrada a brasa, descai dentro do fogão: o fogo se realça por um instante. Olimpiano — tonto, a cabeça pesada — só percebeu o clarão maior. Ele sofre uma tristeza esquisita, que conhece bem: uma vontade de chorar. Bem que preferia não estar bebo. Agora não podia reclamar: a culpa era dele: quase esvaziou sozinho uma garrafa de pinga. O conhaque foi mais a mulher quem tomou. E até a Delcídia.
Sentados ali na cozinha, os três. O silêncio enche a casa.
....
Delcídia escutou um ruído de porta: Olimpiano veio do quarto, cerrou a porta, passou e foi ao quintal. Ela escuta: ele entrou na casinha da privada. Sem demorar ele torna a aparecer.
— Sem deitar até agora!... Sua mãe já pegou no sono — diz Olimpiano, muito atencioso.
— Eu até tô com sono, mas tô com uma preguiça de deitar...
Olimpiano senta no rabo do fogão.
— Ocê num vai dormir não? — pergunta Delcídia.
— Vou.
Olimpiano passa para uma cadeira mais perto, e se esquece olhando para o telhado com os olhos meio fechados como quem quase dorme. Um pouco de tempo se escoa. Um galo canta em algum quintal perto. Delcídia pensa vagamente que cantiga de galo fora de hora é sinal de... de: morte. Será quem morreu?, ela se indaga. Rumores de vozes vêm de longe — das portas das ruas. A luz fraca da lâmpada dói nos olhos de Olimpiano e Delcídia: os dois ali à toa, sem assunto, esperando nada.
Delcídia suspira fundo e exclama baixinho: “Êh, meu Deus!”
— Quê que foi? — Olimpiano indaga com uma intencional amizade na voz, uma bondade, um interesse, uma emoção diferente: uma ternura.
— Nada, sô. Tô triste, só isso — responde Delcídia.
Olimpiano passa a mão nos olhos, esfrega bem, sacode a cabeça, abre os olhos direito como se revisse o mundo: a cozinha, Delcídia, o fogão com pouco fogo.
Mais algum tempo se esvai. Olimpiano põe os cotovelos em riba da mesa e olha para Delcídia. Quando deu fé, já falara:
— Vamos fugir nós dois?
E Delcídia responde:
— Vamos.

O Romancista 

Com cinco romances publicados, pelo menos dois deles detentores de prêmios no Brasil e no exterior, podemos dizer que Alaor Barbosa conquistou mestria também nessa modalidade narrativa. 

Para dizer de sua qualificação como romancista, passo a palavra ao ilustre autor de História da Inteligência Brasileira, com isso acrescentando ao tributo rendido ao nosso escritor uma homenagem ao crítico e ensaísta literário há pouco desaparecido. Dentre os vários artigos em que Wilson Martins focaliza o trabalho de Alaor, seleciono o que apareceu em sua coluna em O Globo de 18 de novembro de 2000, com o título “Provinciais e Provincianos”: 
Na linha do romance provincial brasileiro, ignorado pela crítica metropolitana e pelos suplementos chamados de cultura, Alaor Barbosa é daqueles autores que ainda não receberam a atenção que merecem. O “provincial” distingue-se, ao mesmo tempo, do “provinciano” e do “regional”, um e outro limitados, no primeiro caso, pela estreiteza de horizontes, e, no outro, pelo pitoresco folclórico. Romancistas provinciais, ao contrário, escrevem o romance como obra de arte literária e estudo de psicologia, propondo, em cada caso, um testemunho do humano, podendo chamar-se Balzac ou Thomas Hardy, Eça de Queiroz ou Dostoievski, Graciliano Ramos ou Giovanni Verga.
Pertencendo a essa família, Alaor Barbosa é o romancista da província de Goiás, onde nada do que é humano lhe será estranho. É o autor de Caminhos de Rafael (1995), A morte de Cornélio Tabajara (1998) e agora de Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia (Goiânia: AB, 1999), “memórias do singularmente aventuroso e desventurado goiano de Imbaúbas anotadas pelo ilustre advogado Rafael Santoro Noronha”. Somente após a morte de Bertolino, esclarece o anotador, “vim a saber que Ivo Menezes era — por astúcia do narrador — fictício”.
O autor assegura que Bertolino não é personagem inventado:
"Ele existiu. Nascido, criado e vivido em Imbaúbas, pequena cidade situada na zona sul do estado de Goiás, fez-se muito conhecido dos seus conterrâneos. Ainda hoje muita gente lá se lembra daquele homem enorme, possuidor de várias singularidades e peculiaridades individuais extremamente marcantes e notáveis, e que, por causa disso, viveu uma vida bem diferente de quase todos os demais filhos de Imbaúbas."
Segundo a fórmula consagrada da picaresca, Bertolino é praticamente um enjeitado, criado de favor por parentes e amigos enquanto se encaminhava para uma existência em que os episódios se sucedem por aluvião, sem qualquer conexão orgânica entre eles. Que é um “nego-dado”? Eram coisas que aconteciam antigamente: “Pai, ou mãe, não podia sustentar direito, entregava o filho a uma família com mais recursos — rica ou remediada. Teve muitos aqui, antes e depois de mim [...]” Já adulto, dizia-se que ele “só gostava de rico”, vivendo “no meio das famílias mais abastadas, na Avenida, em redor da igreja, na Rua das Vendas. Anda muito com o Doutor Bonifácio Torres [...] Nas eleições de 1945 e de 1947 eu ouvi falar muito dele como uma espécie de jagunço dos chefes do PSD [...]
Essa vida de aventuras, espertezas e golpes variados (sem excluir o crime) terminará tragicamente:
"Ele foi assassinado quando estava sentado, na sua costumada cadeira, na banda de fora da sua casa [...] A polícia suspeitou primeiro de um tal Alonso Luís Carneiro, com cuja mulher Bertolino mantinha um caso notório havia alguns anos. Mas, sem muita demora, descobriu-se e prendeu-se o autor do homicídio, Flavo Fagundes, que confessou ter matado Bertolino a fim de vingar a morte de seu irmão mais velho [...]."
Alaor Barbosa escreveu com vivacidade e felicidade de estilo o que é também o romance da vida política numa pequena cidade do interior. Romance provincial, como fica dito...

É esse, em sucinto escorço, o perfil do ilustre intelectual que recebemos hoje, na cadeira de que é patrono o político e escritor goiano Domingos Velasco. A vaga que ocupa é a de Joanyr de Oliveira, ex-presidente da ANE — Associação Nacional de Escritores, admirável poeta e contista mineiro-brasiliense, que teve atuação literária e política também no Estado de Goiás. 

A presença de Alaor Barbosa em seus quadros constitui, doravante, um dos motivos de orgulho do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. 

Fonte: HORTA, Anderson Braga: Do que é feito o Poeta, Brasília: Thesaurus, pp. 151-160 (de um total de 412 páginas), 2016.