sábado, 13 de janeiro de 2018

TODAS AS MONTANHAS SÃO AZUIS


Por  PADRE  GODINHO

Padre Antônio de Oliveira Godinho (1920-1992)
Livro de Pe. Godinho com prefácio do jornalista Luiz Fernando Mercadante e desenho de capa de Maria Luiza Campelo


(…) 1936 foi um ano de agravamento das tensões internacionais. A guerra civil espanhola e a invasão da Etiópia propiciavam o cenário ideal para a confrontação das forças que, em pouco, iriam convulsionar o mundo. Do lado das potências totalitárias, tudo estava sendo predisposto com meticulosa e criminosa determinação, enquanto nas democracias liberais a política se abastardara, enleada nas próprias contradições. Muitos, ao pressentir a aproximação da tormenta, procuravam viver dionisiacamente os derradeiros serões de Pompeia. Outros viam, na vertiginosa escalada do autoritarismo demagógico, encarnados nos chefes providenciais, a única forma de sobrevivência e de proteção contra a ameaça comunista: sacrificava-se a liberdade no pretenso altar da segurança. Escravos, porém vivos. Os tiranos, com frequência, se arvoram em filólogos e enriquecem o vocabulário da tirania com eufemismos que, imaginam, lhes sirvam de atenuante, ao soar a hora da verdade. Se é que, em algum momento, acreditaram na verdade. Os que fiam seu destino ao arbítrio da tirania não tardam a cair sob sua “custódia protetora”, – a Schutzhaft – que tanto pode ser o arame eletrificado de Büchenwald, sobre a neve solitária da Sibéria ou em qualquer masmorra instituída pelas “leis” que, a pretexto de garantir a segurança do Estado, destroem a segurança e a liberdade da pessoa e da Nação. Espantosa massa de propaganda, cientificamente concebida e tecnicamente conduzida, antecipou-se à lavagem de cérebro com que o satanismo das polícias políticas reduziria a farrapos a consciência das vítimas de sua sanha. Os totalitarismos têm encontro marcado na esquina da degradação, onde há sempre um pelourinho para a flagelação da justiça. Aos recalcitrantes e inconformados, em vez dos Vernichtungslager, os gulag ¹, os hospitais psiquiátricos e as câmaras de tortura. (...) 

Os anos anteriores à Guerra foram marcados por uma luta, às vezes surda, às vezes aberta, entre o Vaticano e os regimes totalitários da Alemanha, da Itália e da Rússia. O terror stalinista facilitava a difusão de várias formas de fascismo, que se apresentavam como defensores da civilização cristã e ocidental. Mas, contemporaneamente, recrudescia, na Alemanha, a perseguição a judeus, católicos e protestantes. A Itália acompanhava, timidamente, o poderoso aliado nazista. Pio XI, em quatro graves documentos, condenou aquelas formas de totalitarismo: o nacional-socialismo alemão, o fascismo italiano, o comunismo russo e as perseguições que afligiam a Igreja do México ². (...) 

Naqueles meses, Roma se transformou em importante centro de decisão política. O assassínio de Dolfuss, chanceler austríaco, como, na outra guerra, o do arquiduque, em Sarajevo, era o prenúncio de que a tempestade se avizinhava. Em seguida, veio o Anschluss, anexação da Áustria ao III Reich, com tímidos e platônicos protestos das grandes potências e o assentimento da Itália. Foi a primeira e clara tomada de posição do país que, por coincidência, hospedava, no instante, os filhos menores de Dolfuss. O velho primeiro-ministro inglês, Sir Neville Chamberlain, apoiado sempre em um elegantíssimo guarda-chuva, e seu Ministro do Exterior, Lord Hallifax, com um ar inteiramente enfastiado, na visita a Roma e, depois, a Munique, praticamente selaram a sorte da Polônia semper fidelis. Veio, em seguida, Matsuoka, Ministro do Exterior do Japão. Uma ponte, passando sobre a Rússia, ligava a Europa ao Extremo-Oriente. Eram os pródromos do “Pacto de Aço”. A Rússia despiu-se dos escrúpulos ideológicos para assinar um tratado de assistência militar com a Alemanha nazista. O cerco se fechava em torno da França e da Inglaterra – “as democracias podres”, como então se dizia – enquanto os Estados Unidos viam suas posições ameaçadas no Extremo-Oriente pelo Império japonês. O branco urso de Berlim – Ribbentrop – trocava brindes com o cinzento urso de Moscou – Molotof. A Europa e o mundo, em breve, haveriam de pagar o preço trágico. A Espanha achava-se esgotada pela guerra civil. Franco era, então, um espantalho em meio a nobres ruínas. Salazar, austero professor coimbrão, defendido pelo escudo forte e abençoado pelos eruditos discursos da admirável figura do Cardeal Cerejeira, não parecia disposto a romper os laços com a Grã-Bretanha, a mais antiga aliada. A Itália pusera o pé na África com a conquista da Etiópia. Belas canções, entoadas meio a contragosto, celebravam a triste e covarde empresa fascista. Isso custou-lhe caro. Não, porém, em prestígio mundial, acrescido pela estupidez das ineficazes sanções econômicas decretadas pelo ridículo espantalho da Liga das Nações. Os escandinavos conservavam uma fria neutralidade. A Inglaterra continuava empunhando o guarda-chuva. A França, retalhada pelas contradições internas, perdia-se nas sofisticadas discussões cheias de esprit de finesse, mas vazias de esprit de géométrie. Apoiava-se no Front Populaire que não era um muro, mas uma cerca de caniços, tanto quanto a Linha Maginot, em cuja invencibilidade toda a Europa confiava e que, meses mais tarde, os alemães destroçariam em horas. A Bélgica, dessa vez, não teria um Rei Alberto capaz de “perder tudo, menos a honra”. 

A visita de Hitler a Roma, no fim da primavera, fez reviver a pompa da acolhida triunfal aos imperadores e generais vitoriosos. Nossa Universidade cerrou as portas e, nos “colégios”, recebemos ordem de não por os pés fora de casa. (...) Pio XI, cujas ideias liberais eram conhecidas, determinou o fechamento das basílicas, museus, palácios e galerias de arte pertencentes à Santa Sé. Deixou, inesperadamente, a Cidade do Vaticano e se recolheu ao Palácio de Verão, em Castel Gandolfo, o que só costumava fazer nos rigores do estio, quando Roma se transforma numa quase insuportável fornalha. 

Era o dia 3 de maio, festa do descobrimento da Santa Cruz em Jerusalém, no início do século IV, pela imperatriz Santa Helena, mãe de Constantino Magno. Nos monumentos e nos palácios, as bandeiras com a cruz swástica agitavam-se às derradeiras brisas da primavera. Os perfumadores de bronze colocados ao longo da Via dell’Impero, entre as ruínas do Senado e as do Palatino, ainda fumegavam, desenxabidas testemunhas do imperial e noturno triunfo. O velho Papa, naquela manhã, não tinha ouvintes para as belas e curtas saudações aos peregrinos que, das mais remotas partes do mundo, iam vê-lo. Roma era toda para o onipotente hóspede. O velho Papa não se deu por achado nem perdido. Convocou umas humildes freirinhas do convento situado às bordas do Lago de Albano, as quais abandonaram o tricô, a polenta, a roupa no coradouro e acorreram, azafamadas, ao Palácio, à sala do Trono forrada por tapeçarias flamengas, imaginando, quem sabe, o inesperado anúncio da beatificação ou canonização da Madre Fundadora! O velho Papa, entretanto, falou-lhes de sua amargura e indignação por saber que, no dia da Santa Cruz, uma bandeira com uma estranha cruz – não, certamente, a de Cristo – tivesse sido desfraldada, tal um desafio, agressão ou sacrilégio, sob o céu da Cidade Eterna. Pobres freirinhas, não entenderam nada. Quem devia entender entendeu. Mas fingiu não ter entendido. Os jornais, à exceção do Osservatore Romano, ignoraram as ousadas palavras do Papa. Suas páginas estavam inteiramente ocupadas por fotografias triunfalistas, pomposos ditirambos ao ressabiado anfitrião e ao poderoso hóspede, e pelos insultos “aos povos fracos, roídos pelos repugnantes vermes da Democracia”. 

Das janelas do nosso edifício, guarnecidas por metralhadoras fascistas, pudemos entrever o cortejo do Grande Ditador passando, em alta velocidade, no rumo de Ostia Antiga. Quem sabe eram as primeiras ruínas que os olhos do abutre de Obersalzberg iriam contemplar. Essas ruínas ainda hoje são belas e valem o preço pago às intempéries e aos terremotos, ao longo dos séculos. Outras, em breve, haveriam de cobrir de luto a Europa e o mundo. O Grande Ditador, no dia seguinte, das ameias de Castel Sant’Angelo, contemplou o Vaticano e a cúpula de Michelangelo. Ninguém sabe o que terá pensado naquele instante. 

Falei dos anos de 1936, 1937 e 1938. O tempo escorria, entre esperanças e sobressaltos, e a ideia da guerra por vir tornava-se familiar a todos. A retórica é terrível. Embriaga, anestesia, excita. Manipula ódios. Exacerba os sentimentos nacionais. Cria um falso clima de heroísmo. Tudo ao mesmo tempo. Grandes espetáculos, que iam das paradas militares aos aterradores triunfos wagnerianos, açulavam paixões e preparavam o povo para o pior. 

Assim chegou 1939. O velho Papa apagou-se, de repente e de maneira misteriosa. Sucedeu-lhe, sem nenhuma surpresa, mas contrariando antiga praxe, o Secretário de Estado ³, figura de forte projeção internacional. O ano seria decisivo para as sortes da paz enquanto, para o novo Pontífice, ia ter início um Calvário que ainda não terminou, passados anos de sua morte. 

O Conclave de março de 1939, destinado à eleição do sucessor de Pio XI, teve, pela primeira vez, a participação da Igreja do Brasil, na pessoa do Cardeal Sebastião Leme da Silveira Cintra, arcebispo do Rio de Janeiro. Tal era o clima bélico reinante na Europa que uma reunião, já de si importante, assumiu insuspeitadas dimensões. Em um dos dias seguintes à eleição, o simpático, feio, amulatado e inteligente prelado convocou-nos para transmitir-nos, em confidência, as graves apreensões do novo Papa sobre os presságios de uma hecatombe que parecia avizinhar-se, a galope, da Europa e do mundo. Em muitos, subsistia ainda a vaga esperança de que, na temida hipótese de guerra, a Itália conservaria uma prudente neutralidade, até quando, ao menos, sua posição geográfica e seus compromissos ideológicos com a Alemanha lho permitissem. 

O Marechal Pietro Badoglio, cuja amizade o Cardeal conservava, desde os tempos da Embaixada da Itália no Rio, e com quem jantara, de véspera, transmitira-lhe prognósticos sombrios: Mussolini não passava de um mestre-escola primário; ignorava a geografia do mundo; não tinha a mínima ideia da capacidade americana de converter, rapidamente, a indústria de paz em indústria de guerra; apostava no isolacionismo dos Estados Unidos (a doutrina de Monroe); obnubilado pela embriaguez do poder pessoal, não via o despreparo da Itália para um conflito do porte do que se avizinhava; confiava na Blitzkrieg e julgava, por vaidade e cálculo, não poder abandonar a vitória, com que contava certo, nas mãos de um alucinado como Hitler ou, na melhor das hipóteses, à mercê da sanha revanchista dos generais prussianos. “A guerra será deflagrada no fim do verão”, – disse Badoglio ao Cardeal – “pois Hitler espera, com uma ação fulminante, vencê-la antes do inverno. Isso, é claro, não vai ocorrer, mas a Itália, apesar do sentimento popular hostil aos alemães, formará ao lado deles. A guerra será vencida pelos Aliados e ninguém está em condições de prever a sua duração”. 

Eu acabara de completar dezenove anos ao ouvir essas sombrias previsões e informações de um grande chefe militar, por meio de um austero Príncipe da Igreja. 

Essas não eram, positivamente, perspectivas agradáveis para os nossos planos de estudos e de permanência na Europa. Muitos dos meus colegas começaram a afivelar malas. Tinham, praticamente, concluído os cursos e nenhuma razão lhes aconselhava candidatarem-se a inocente carne de canhão. Outros poucos decidimos, desde então, enfrentar eventuais riscos para que o nosso belo Colégio, inaugurado havia tão pouco tempo, não tivesse as portas fechadas por uma guerra hipotética, em relação à qual possivelmente o Brasil permanecesse neutro. Essa decisão, parece, foi recebida com simpatia pelos altos escalões, como se diria hoje, pois foi-nos assegurado que teríamos, tanto quanto possível, proteção e assistência da parte do Vaticano. O Marechal Badoglio, cinco anos depois, exerceria papel decisivo na ação da Monarquia contra o Fascismo e no armistício com os Aliados. 

Nesse entrementes, o clima de guerra tomou conta da Europa. Opiniones praeliorum, bella commissa – diziam os latinos. Quando toda gente começa a falar em guerra, a harpia horrenda acaba por aparecer. Especulava-se muito sobre as revelações que teriam sido feitas por Nossa Senhora a uns pequenos pastores na aldeia de Fátima, cerca de Leiria, em Portugal. Dizia-se que parte dessas revelações – o chamado segredo de Fátima – seria do conhecimento somente do Papa. Segundo os cronistas dos fatos ocorridos então – e o mais autorizado dentre eles era um eminente jesuíta português, nosso confessor – grande multidão presenciou ali, em 1917, uma estranha visão cósmica: o sol como que girando sobre si mesmo, em velocidade alucinante. Novo sinal do céu seria, segundo dissera a branca Senhora aos pastorinhos, a última advertência de que a segunda grande tempestade do século estava para desencadear-se. No verão de 1939, Roma assistiu, entre maravilhada e estarrecida, a uma aurora boreal, fenômeno jamais ocorrido naquela latitude. Pouco antes do outono, a Europa foi colhida nas malhas da maior hecatombe jamais registrada pela História. 

1º de setembro. Os esforços para preservar o instável equilíbrio da paz tinham chegado ao termo. A notícia terrível, mas esperada, alcançou-nos em Florença, onde passávamos os últimos dias de férias. Hitler, em brados estentóreos e histéricos, anunciava ao mundo a invasão da Polônia, através do Corredor de Dantzig. Os dados estavam lançados. A besta do Apocalipse atravessara o Rubicão. A partir daquele instante, o mundo seria outro. 

Eu terminara muito bem a Faculdade de Filosofia e recebera os graus acadêmicos com um estudo sobre “O Pensamento de Deus na Teodiceia de Pascal”. Obtive a nota máxima. Completara dezenove anos. Que seria feito de nós, agora? Os prognósticos eram de que a guerra duraria pouco: seis meses, no máximo. Os alemães falavam na Blitzkrieg, a guerra-relâmpago. Sobraria alguém para contar a história? Todos achavam que sim, pois era de tal ordem o poder ofensivo das potências totalitárias que os fracos Aliados sequer conseguiriam esboçar uma resistência eficaz. O Governo brasileiro enviou um velho navio, meio de guerra, meio de carga, para nosso pacífico resgate. Procurei, com êxito, convencer nossos agentes diplomáticos de que a guerra seria breve e bem podiam concordar com a minha permanência na Itália. Fizeram-no, com a condição de eu assinar um documento em que exonerava o Governo de qualquer responsabilidade pelo que viesse, porventura, a acontecer-me. Os seis meses prolongaram-se por seis longos e intermináveis anos. Espero, no que me reste de vida, jamais ter de presenciar um novo despertar dos instintos da besta adormida no Homem. Apesar de ter passado esse tempo em um dos países atingidos pela catástrofe em medida menor que os demais da Europa, jamais hei de esquecer aqueles anos de pavor. O medo, o desespero, os perigos de todos os instantes, a voracidade do mercado negro, a fome, os egoísmos desencadeados, os familiares dos amigos combatendo em várias frentes ou destroçados pelas bombas indiscriminadas, os milhões de prófugos desabrigados, as cidades arrasadas, fábricas, usinas, pontes, ferrovias destruídas, monumentos e obras de arte reduzidos a escombros ou pilhados, tudo levava à perda dos sentimentos de piedade e do mais elementar senso moral. Em seguida, viria a invasão humilhante, entretanto desejada, àquela altura. A Itália não se preparara para a guerra. Foi derrotada na África, na Albânia, na Grécia, na Rússia e no seu próprio território. A ocupação nazista desencadeara uma série de atos de violência e de crimes praticados sob os mais indignos pretextos. Os amigos postiços transformaram-se em encarniçados inimigos. Já não se respeitavam as normas do Direito Internacional, nem se dava a menor importância à dignidade da pessoa. No fundo, os que libertam praticam os mesmos crimes praticados pelos que, antes, escravizavam. Um povo vencido e aviltado perde o respeito para consigo mesmo. A nação é logo dividida em vítimas inocentes e em facinorosos bandidos. Aí tem início a caça às bruxas, quando tudo se mistura e se confunde. A vitória adquire logo muito pais, mas a derrota fica órfã . De resto, “... são os vencedores que escrevem a História, e, fatalmente, aos vencidos, que resistem, tem-se a tentação de abatê-los como a uma besta-fera, para que não gritem à consciência dos que sobreviveram que todos são iguais em suas taras”

(...) No início, a guerra causara-nos um grande medo. Depois, a inconsciência levava-nos a arrostar toda sorte de riscos. No fundo, impelia-nos o gosto da aventura e o desejo de participar, de algum modo, daquele cataclismo cósmico. Enquanto a maioria dos colegas combatia nas várias frentes, dezenas ou centenas mortos ou feitos prisioneiros, nós, sem maiores atropelos, estudávamos Teologia, e, depois Direito, e Arte, essa mesma Teologia, esse mesmo Direito e essa mesma Arte, cujos preceitos e normas ninguém mais respeitava, e cujos monumentos as bombas estavam reduzindo a escombros e a cinzas em quase todos os cantos da Europa, da Ásia e da África. A certa altura, ninguém mais duvidava do desenlace da tragédia. Não era necessário ser o cego Tirésias para antecipá-lo com seus dons divinatórios. Por parte dos nazistas, houve, primeiro, a velada, depois a clara ameaça do uso de armas capazes de varrer toda forma de vida sobre a face da Terra. As bombas voadoras V1 e V2, sobre Londres, diziam que a ameaça era para valer. O terror passou, novamente, a povoar-nos os dias e as noites. Como nos tempos bíblicos, já recorríamos ao que nos parecia a justiça divina, para que Deus abreviasse a vitória dos Aliados, fosse qual fosse o preço. Os ódios tinham atingido o ponto de saturação e estava para soar a hora da terrível vingança. 

O dia era de grande calor e passeávamos, despreocupados, pelas alamedas da Villa Borghese. A condição de inimigos confinou-nos em Roma, embora, a bem da verdade, nunca nos tivesse sido imposta qualquer limitação à vida universitária ou à liberdade de movimento intra muros. Creio não ter passado pela cabeça de ninguém que aqueles doze estudantes brasileiros fossem capazes de alterar o curso da guerra! 

Seriam 11 horas da manhã. Não havia no belo céu de verão um farrapo de nuvem. De repente, as sereias lançaram o uivo lúgubre de hienas no cio, seguido pelo pavoroso ronco das bombas. Nuvens de fumo subiam da periferia e as esquadrilhas das fortalezas-voadoras projetavam revérberos contra o rubro sol do estio. À vista do povo que corria, desatinado, em busca de um abrigo antiaéreo, entendi o claro enigma da palavra pânico. A chuva de bombas durou até às três horas da tarde, fez uma alucinante colheita de morte e multiplicou nobres e heráldicas ruínas por onde passou. O scirocco invadiu a cidade com o bafo abrasador vindo do Saara e o cheiro das carnes apodrecidas empestou as margens do Tibre. 

No dia seguinte, Roma foi declarada Cidade Aberta. Um mês depois, repetiu-se a cena dantesca. Mas o primeiro bombardeio fora suficiente para destronar o Duce onipotente, a essa altura prisioneiro de tudo e de todos, principalmente de uma teimosa e destorcida visão da História. O tempo e a perspectiva, que distanciam os acontecimentos das paixões que os geraram ou dos ressentimentos que produziram, hão de emitir, um dia, juízo sereno e imparcial sobre homens e fatos daqueles seis anos trágicos e dos que os precederam e seguiram. É ainda cedo para isso. Muitas feridas ainda sangram. Muitas paixões ainda não se apagaram. Quando um famoso Papa abriu os Arquivos secretos do Vaticano aos estudiosos do mundo, e de todas as crenças, advertiu-os: “Não se diga nada que seja mentira, não se oculte nada que seja verdade.” Muita mentira tem sido dita, até agora, sobre a guerra, segundo as paixões que guiam certas penas. E muita verdade tem sido ocultada. Muitos afirmam por terem ouvido dizer. E muitos dizem porque lhes convém dizer, ainda que não possam provar o que dizem. 

O Pontificado romano é, das instituições religiosas e políticas, a mais antiga. Duas apenas lhe contestam a precedência: o Império japonês, cujo titular se gloria de ser filho do Sol, e, até há pouco, o Negus abissínio – Negus Negusti, Rei dos Reis, Leão de Judá – suposto descendente da escura Rainha de Sabá que, da visita ao Rei Salomão, teria levado aos altiplanos da África o fruto de um amor passageiro, fundador de uma quase imperecível dinastia. O Imperador do Japão é cantado em milenares hai-kais. A Rainha de Sabá foi celebrada, de forma imorredoura, no Cântico dos Cânticos, de autoria do imperial e bíblico amante. Mas o Pontífice romano surgiu à beira do Lago de Genezaré. Pescador pobre e rude, como os de sua profissão, pescava à noite e, ao lusco-fusco da madrugada, lavava e sabia de cor os responsos que esconjuravam a má sorte e os dias aziagos. Aquela, entretanto, não era positivamente uma noite para a pesca. Seu pai, Jonas, nativo da aldeia de Cafarnaum, ao circuncidá-lo, chamara-lhe Simão. Na pálida manhã, à beira do Lago, Jesus deu-lhe a alcunha de pedra – Kefas – em aramaico. Pedra angular. Sobre a pedra angular levanta-se o edifício. Petra, Petrus, Kefas. Depois, Pontífex, isto é, o que constrói e guarda a ponte. Tudo, na Igreja, gira em torno de mar, rio, rede, peixe, barco, ponte. A ponte, que grande invenção! Sua tarefa é conduzir de uma a outra margem. Ligação e passagem. Ninguém constrói sobre ela a casa permanente. O Pescador, de poucas ou nenhumas letras, foi designado prefeito da ponte invisível, destinada a unir as margens do Tempo às do Eterno. Isso parece retórica. Mas é História. Todos caminhamos sobre essa ponte. Ainda os que pensam dispensar-lhe a serventia. A mitologia grega inventou o barqueiro. Caronte para transportar as almas dos mortos à pousada definitiva, através das águas borbulhantes, amargas e lodosas, do rio Aqueronte. O nosso barqueiro associou o barco à ponte. 

Durante anos, tive a oportunidade de viver ao lado dessa estranha personagem. À beira de um rio famoso, e com pontes, igualmente famosas e belas. Foram anos de fascinante experiência. Não havia os crisântemos do Filho do Sol, nem o nardo da escura Amada dos Cantares. Mas dois mil anos de história verdadeira. 

A pessoa do Papa é sagrada. Seu nome é Santo Padre. Seu tratamento é Santidade. Sua história milenar tem vastas áreas obscuras e momentos nada edificantes. Mas quem pode julgá-lo, a não ser situando-o no contexto do tempo em que viveu? No giro de vinte séculos, seu número dinástico não chega a três centenas. O de número um, prisioneiro de Nero, saiu do Cárcere Mamertino, uma gruta escavada nas faldas da colina do Capitólio, para a crucifixão ao pé da Colina Vaticana. Preferiria sepultado nas águas do Mar da Galileia, envolto nas velhas redes da mocidade. Mas deram-lhe um túmulo no centro do Circo de Nero, entre o Tibre e a Colina dos Vaticínios. O Tibre é um rio onusto de história. Os etruscos navegaram nas suas águas barrentas e deuses sem conta e heróis inumeráveis acamparam-lhe às margens. Roma nasceu nessas margens e os etruscos deram-lhe o nome de Rúmon, a Cidade do Rio. Na colina do Vaticano os arúspices pronunciavam vaticínios. Bom sítio para a pedra fundamental. Hoje, como então, o Papa continua no mesmo lugar, principal protagonista dessa história de dois milênios. Sem ele, o Ocidente cristão talvez tivesse uma outra história. 

Houve, de tudo, entre eles: santos e guerreiros, mecenas e mártires. Alguns iluminaram épocas pela inteligência e pela cultura. Não faltou um ou outro a transformar o poder das Chaves em poder da Glória, a servir-se da sagrada realeza para desafogo de paixões humanas e para satisfação de ambiciosos desígnios familiais. Mas, na grande maioria, o Sacerdócio prevaleceu sobre o Império, a humildade interior sobre as pompas transitórias. Houve tempos em que a grande preocupação da Igreja foi a de ocultar certo lado humano e penoso da gloriosa Dinastia. Isto serviu para substituir a história pela lenda, sem nenhuma vantagem para esta e com grande prejuízo para aquela. Eu me referi antes a um dos maiores homens que já ocuparam o trono pontifício e pôs termo a esses escrúpulos, autorizando o manuseio e a consulta dos famosos arquivos secretos do Vaticano. Coube a um historiador germânico a primeira tarefa. O resultado de anos de paciente e séria pesquisa foi a obra monumental, que oferece do Papado, desde o fim da Idade Média, o que se poderia chamar um retrato sem retoques. Toda uma vasta literatura, eivada de sectarismo, de preconceitos e distorções tanto do lado da Igreja quanto do lado de seus adversários, teve a contradita de argumentos e de documentos irretorquíveis. 

Enquanto o mundo for mundo, sua história não se fará sem o Papa. Desde pequeno aprendi a amá-lo e a respeitá-lo como ao próprio Cristo . Ele era para nós quase um mito. Todos sonhávamos poder vê-lo, um dia, nos esplendores da Corte distante, entre as obras de arte que acumulara, durante séculos, em lendários palácios. Nossos brios religiosos sentiam-se feridos, quando os raros não-católicos existentes pelas nossas bandas falavam nas fabulosas riquezas do Vaticano, no telefone de ouro e em tolices desse gênero. De fato, nós o tínhamos na conta de prisioneiro dos que lhe haviam usurpado o território e o poder temporal. Prisioneiro é sempre prisioneiro. Sofríamos sua solidão em meio a tanto esplendor de arte. Aprendíamos, no catecismo, ser ele infalível Quando expõe doutrina respeitante à fé e à moral, e revestir-se, em outros assuntos, de supina autoridade. Já falei da emoção, quando o vi pela primeira vez. Nos muitos anos que se seguiram, pude acompanha-lo de perto e a reverência não fez senão aumentar. Tornei-me frequentador assíduo dos famosos tesouros de arte, de que é guardião, e vi serem patrimônio da cultura de todos os povos. Passava horas sem conta nos museus e nas galerias de arte, nos intermináveis salões do Palácio Apostólico, forrados de tapeçarias flamengas, na Basílica de São Pedro, nas Salas de Rafael, nas Capelas de Michelangelo e de Fra Angelico, nos pátios e nos jardins, a contemplar, deslumbrado, tanta soma de beleza. Entrevia sombras violáceas e purpúreas, deslizando como nos séculos da Renascença, e etéreas figuras saudadas pela continências das alabardas da Guarda Suíça e das lucilantes espadas da Guarda Nobre. (...) 

Durante os anos da guerra, fui designado tradutor do Papa para português do Brasil. Vinham-me às mãos documentos protegidos pelo segredo de Estado (chamado também segredo do Santo Ofício). Lembro a emoção ao receber o primeiro grande envelope lacrado com o brasão do Papa. Eu e um colega, bela e fascinante inteligência, hoje perdido por aí, lecionando filosofia lá pelas bandas do Distrito Diamantino, éramos periodicamente dispensados das aulas, por dois ou três dias, a fim de nos dedicarmos à tarefa de verter para nossa língua textos pontifícios da maior importância. Tínhamos plena consciência da responsabilidade e a confiança do Papa enchia-nos de orgulho. Eram, em geral, mensagens destinadas ao mundo, lidas pelo Pontífice, através do rádio, naqueles amargos anos de guerra. Sua autoridade moral impunha-lhe o dever de ir fazendo apelo, desde então, aos princípios que haveriam de dar embasamento à futura e almejada paz. Enquanto trabalhávamos, era frequente a visita de um mensageiro da Secretaria de Estado, portador de inesperadas alterações. Às vezes, tratava-se de um simples adjetivo a ser acrescentado, substituído ou suprimido, na letra fina e miúda do Papa. Nem sempre conseguíamos atinar com o sentido da correção ou da alteração. A verdade é que, na guerra, até os adjetivos tornavam-se importantes. Pio XII era conhecido poliglota e dono de prodigiosa memória. Pouco antes de morrer, estudava árabe. Em 1934, quando Cardeal-Secretário de Estado, tomou aulas de português, durante a travessia do Atlântico, a bordo do Conte Grande, que o conduzia a Buenos Aires aonde ia, legado de Pio XI, a um Congresso Eucarístico Internacional. No retorno, fez escala no Rio, hospedou-se no Palácio do Catete e falou, em língua do Brasil, no Congresso e no Supremo Tribunal. Nas grandes audiências, chegava a expressar-se em oito idiomas. Acompanhei-lhe, muitas vezes, os discursos: parecia envaidecido com o dom da glossolalia. A vaidade do humilde! No encerramento do Congresso Eucarístico de São Paulo, durante a Segunda Guerra, falou, de Roma, por meio da Rádio Vaticana, à multidão reunida no Vale do Anhangabaú. Os alunos do Colégio Brasileiro foram convidados a ouvi-lo de uma das salas contíguas à sua biblioteca. Terminada a transmissão, o Maestro di Camera conduziu-nos à augusta presença, juntamente com um redator de L’ Osservatore Romano que, no dia seguinte, deveria publicar o discurso em português e, “na nossa tradução”, como escrevia o jornal. Entreteve-se conosco por alguns minutos, interessando-se pela situação de cada um e pelos nossos estudos. Ao termo da curta audiência, determinou a mim e ao meu colega que revíssemos as provas e, em seguida, voltássemos a ele. Era uma tépida tarde de outono. Em uma das salas da Secretaria de Estado, junto aos imensos pórticos (logge) decorados por Rafael, revimos o texto com cuidado e esmero corrigindo, aqui e acolá, os erros do linotipista. Voltamos à biblioteca. Era quase noite. O Pontífice, diáfano, como uma figura de El Greco, começou a ler as provas e foi descobrindo erros que nos passaram desapercebidos. “Avete preso qualche granchio”, disse sorrindo, quase com malícia. Granchio, caranguejo, no jargão tipográfico italiano quer dizer erro. Depois, voltando-se para o redator de seu jornal, comentou: “Veja, doutor, que língua curiosa, o português! É bela, mas difícil. A mudança de um acento, às vezes modifica completamente o sentido da palavra. Por exemplo: “sábia”, com acentuação na primeira sílaba, quer dizer saggia; na segunda, “sabia”, é o imperfeito do verbo sapere; na terceira, “sabiá” è un ucello di canto un pò triste, ma celebratissimo dai poeti brasiliani. Não sei onde teria descoberto o nosso sabiá e suas virtudes canoras. Sobre a mesa, dois dicionários portugueses, os três volumes da História da Colonização Portuguesa do Brasil e um dos Sermões de Vieira. No discurso, citara a carta de Pero Vaz de Caminha e uma ou duas passagens do maior orador sacro da língua portuguesa. Grande e nobre figura, a desse papa injustiçado! (...) 

Durante a guerra, Roma se transformou em praça d’armas e o Vaticano passou a ser o único refúgio contra toda espécie de violência, a começar pela racial. Os romanos são alegres e possuem um cáustico e adorável senso de humor. Mas a cidade ficou triste. Todo mundo tinha pelo menos uma pessoa da família nas várias frentes de uma guerra que já se pressentia vencida. O Trastevere perdeu o bulício noturno e o charme apimentado daquela linguagem cantada no pitoresco e malicioso dialeto. As noites, envoltas no oscuramento, eram interrompidas pelo uivo lancinante das sereias de alarme, pelos canhões atirando contra aviões invisíveis e pelas metralhadoras que assassinavam homens, mulheres, velhos e crianças, a pretexto de cruéis e estúpidas represálias. Os judeus foram as primeiras vítimas num país cordial e que adora a discussão na praça e à porta da taverna, mas detesta ir além disso. Todos os institutos eclesiásticos da Itália, seculares e religiosos, masculinos e femininos, receberam ordens do Vaticano para acolher e ocultar judeus e toda classe de pessoas em busca de asilo político. 

Era grande o risco, pois os réus desses “crimes”, se descobertos, segundo as “leis” de ocupação nazista, seriam fuzilados sumariamente, juntamente com os ousados hospedeiros. Havia penúria de tudo. As magras rações, a que cada um tinha direito, eram repartidas, fraternalmente, com os refugiados que a perseguição acuara como feras. Repartíamos a fome com a generosidade de quem reparte a fartura. Alguns anos depois da guerra, um jovem escritor escreveu (ou escreveram por ele) uma peça de teatro – O Vigário (Der Stellvertreter) – com o evidente propósito de expor junto ao pelourinho desta recente e trágica história o pontificado e a pessoa de Pio XII, a quem acusa de não ter impedido os massacres realizados pelos nazistas nos campos de extermínio da Alemanha e da Polônia. Tal acusação foi reiterada ultimamente, em um filme de famoso diretor italiano de cinema. Hoje, parece assentado que vários países latino-americanos, dentre eles o Brasil, recusaram-se a receber refugiados judeus, encaminhados pela Cruz Vermelha, e que vagavam, de porto em porto, em navio fantasma. Ocorre que o Sr. Rolph Hochhuth, o jovem e já esquecido “autor” alemão, de religião protestante, nasceu em 1931, tendo, portanto, oito anos no início da guerra e quinze, a seu termo. Que autoridade invocará para assacar contra o chefe da Igreja Católica, por via de um gênero literário, que permite licenças próprias da ficção, acusações de tal monta e gravidade, sem mais provas do que as suas levianas assertivas? 

Essa acusação a Pio XII de favorecimento aos nazistas, ainda que por omissão, nos crimes de genocídio, chegou, em determinado momento, a perturbar, no mundo inteiro, o espírito de pessoas mal informadas. Por outro lado, as esquerdas, de variados matizes, se apoderaram da mansa e doce buon anima de João XXIII e, logo, da angustiada e hamletiana figura de Paulo VI, com o sórdido propósito de denegrir a reputação e a imagem de Pio XII, último grande pontífice da Renascença. Aristocrata, mecenas, diplomata e humanista, a etérea figura dava a impressão de ter saído de um quadro de El Greco, no Escorial ou na Sacristia da Catedral de Toledo. João XXIII orgulhava-se das origens camponesas. Tinha a bonomia do avô condescendente e, segundo dizem, certa ingenuidade que nem o exercício da diplomacia vaticana conseguira dissimular. Paulo VI herdou a carga terrível de um mundo destroçado pela guerra. Seu pontificado viu aproximar-se o látego da satânica tormenta ora com a força demolidora das potências hostis, ora com a blandícia doméstica dos que, de dentro, pela enésima vez, soturnamente minavam os alicerces da casa, para eles mal-assombrada, certos de que uma primavera vermelha brotaria da noite bimilenar e os mitos longamente cultuados seriam mergulhados no crepúsculo dos deuses. Pois, ainda dessa vez, os fariseus e os sicofantas erraram o cálculo que parecia urdido com requintada sagácia e diabólica sabedoria. 

Curiosa a acusação de o Papa não ter impedido os massacres dos campos de morte nazistas. Os Aliados, com todo o poderio bélico, só conseguiram por termo ao genocídio, após seis anos de luta feroz, a preço do sacrifício de milhões de vidas, de ambos os lados, da destruição de dois terços da Europa, e do uso, pela primeira vez, da bomba atômica no Japão. Que poderia o Papa, com a Guarda Suíça e os gendarmes napoleônicos, ante o desencadeamento de tanta insânia, de tanta volúpia de sangue e morte? E a sua autoridade moral? – clamam escandalizados, os retardatários defensores dos direitos humanos, que nunca respeitaram. Era o caso de se fazer a pergunta à torva e sinistra sombra de Stálin. Quando Roosevelt lhe propôs, em Ialta, a presença de um representante do Papa na iminente Conferência de Paz, o sarcástico lobo mongol perguntou ao quase moribundo Presidente americano, com um pérfido sorriso entre os dentes tisnados pela nicotina: “De quantas divisões blindadas dispõe esse senhor?” 

Como poderia um homem, sem “divisões”, enfrentar as Panzerdivisionen? “Mas poderia enfrentar o martírio, à semelhança de tantos dos seus antecessores”, insistem os salvos do incêndio do stalinismo. “Ai Deus!” – diria um velho e astuto político mineiro: “como é fácil ser Tiradentes com o pescoço dos outros!” Se Stálin recusava ao Papa o direito de participar da Conferência da Paz por ser titular de um poder inerme, com que direito seus pupilos, co-réus do genocídio de milhões de russos, judeus, lituanos, estonianos, letões, armênios, ucranianos, poloneses, cobram, hoje, ao Romano Pontífice a participação em uma guerra, por via apenas da autoridade moral? Um dia, há de se fazer justiça ao grande Papa e ficará patente como usou dessa autoridade, ostensiva e não ostensivamente, com o fim de tentar, primeiro, impedir a catástrofe, depois, minorar-lhe as agruras, os dias, meses e anos trágicos. Dispunha para isso unicamente dos canais diplomáticos e do rádio, para chegar aos governos e aos povos envolvidos no conflito.

Nossas casas estavam repletas de refugiados, militares, civis, judeus, fascistas, antifascistas, socialistas, comunistas, anticomunistas, democratas-cristãos, republicanos, católicos, ateus – toda a farândola levada de roldão pela imane catástrofe, ignara do destino que lhe estaria reservado no após-guerra. Mais uma vez, o Vaticano resgatou prisioneiros, judeus ou não, pois, àquela altura, o homem também transformara-se em mercadoria. Testemunha insuspeita da ação do Papa, em favor dos judeus perseguidos, foi o então Grande Rabino de Roma, Israel Zolli, eminente professor de línguas orientais, privado pelo fascismo de sua cátedra no Studium Urbis, a Universidade Romana. Após a guerra, tornou pública sua adesão à Igreja Católica, juntamente com a mulher. Mantivera, em segredo, essa decisão para que ninguém a levasse à conta de traição à sua gente perseguida e martirizada. Ao receber o batismo, acrescentou ao seu o nome de Eugênio, em reconhecimento à ação de Pacelli na defesa do povo hebreu. Fui seu aluno-ouvinte num curso de aramaico sobre o Sermão da Montanha. Guardo do velho Gamaliel, naqueles dias terríveis, uma inapagada recordação. Repito: não sei se o supramentionado Sr. Hochhuth terá mais autoridade para, através de uma peça de teatro, com as licenças literárias que o gênero comporta, acusar um Papa de participação no crime nefando de genocídio. A morte dos mitos ou a aceleração do crepúsculo dos deuses é o esporte favorito de certos jovens escribas que, não tendo vivido a guerra, decidiram, em nome de uma estúpida contestação, julgar homens e acontecimentos com a leviandade própria dos verdes anos ou porque transformados em melancólicas marionetes movidas por inconfessáveis e invisíveis cordéis. 

Entre os refugiados em nossa casa, havia um velho judeu de origem tcheca, antigo diretor de um banco triestino e foragido de um campo de concentração fascista do norte da Itália. Muitos de nossos “hóspedes” passavam o tempo lamentando a má sorte e procurando atribuir a todo mundo, menos a si, a responsabilidade pela situação em que eles e o país se encontravam. O velho judeu, ao contrário, parecia viver em um outro tempo – o tempo dos Patriarcas e dos Profetas – e fazia planos para a recuperação econômica da Itália. Ocorreu-me conseguir-lhe, em nossa embaixada na Santa Sé, um exemplar do Plano Beveridge. Passávamos manhãs inteiras, em meio às margaridas e aos oleandros, lendo-o e anotando-o. Em 1946, De Gasperi haveria de leva-lo como conselheiro econômico à Conferência de Londres. Chegara inesperadamente à nossa casa, no quarto ano de guerra. Sua mulher refugiou-se em um convento de freiras, na Via Nomentana. Era pessoa muito importante, certamente procurada pelos nazistas. Por isso, devíamos redobrar de cuidados em relação a ele. Dormia completamente vestido e uma porta do subsolo fora cuidadosamente escolhida para a emergência de uma fuga, em caso de invasão do edifício. Essa porta era protegida por moitas de espirradeiras cercadas de um roseiral em flor. Em quente e estrelada noite do penúltimo verão de guerra, nosso velho porteiro foi despertado pela campainha de um dos portões que davam para a Via Aurelia. Levantou, inadvertidamente, a persiana e, ao divisar soldados alemães, ao clarão da lua, cerrou-a de novo, tomado de pânico, e saiu, tateando, pelos longos corredores, esquecido do alarme convencionado para a hipótese temida. Alguns de nós estávamos ainda acordados, estudando à luz de velas. Alertados, acorremos ao pequeno apartamento de nosso Mr. P. Não se achava lá. Encontramo-lo, em segundos, no terraço banhado de lua, fumando o péssimo cigarro na gasta piteira e contemplando, absorto, o céu absurdamente estrelado. Levamo-lo, aos saltos, escadas abaixo, pelos quatro andares que nos separavam da saída convencionada. Tínhamos a nítida consciência de que aquele era um momento decisivo de nossa vida. Um segundo de indecisão poderia ser a tragédia. Mas, ao abrimos a porta, trêmulos e ofegantes, demos de topo com um oficial da Wehrmacht cercado de soldados que apontavam pistolas e metralhadoras contra nós. Os alemães tinham galgado o muro e passado ao jardim, destacando exatamente diante da saída que imagináramos a mais segura, por ser mais discreta. Nós nada entendíamos de segurança! O oficial, de dedo em riste e com urros histéricos, parecia agredir-nos fisicamente, exigindo que lhe abríssemos o portão principal, para que pudesse abrigar seus tanques contra os ataques da aviação inimiga que varria as estradas na chamada Operação Ciscagem. Diante dessa insistência, não sei porquê, cada um de nós percebeu que eles é que tinham medo. Isso nos comunicou uma inesperada serenidade. No entrementes, Mr. P. desaparecera como por encanto, em meio a umas lindas touceiras de oleandro rosa e branco. Um de nossos colegas, gaúcho das colônias, habitualmente quase mudo, armou-se de inesperada eloquência e passou a explicar, com a nossa ajuda e, muito diplomaticamente, aos indesejados visitantes que o edifício gozava do privilégio de extraterritorialidade, por ser o Vaticano um Estado soberano e, por isso, a invasão de nosso terreno constituir-se em uma grave violação de território estrangeiro não-beligerante. Imaginem isso dito entre os tremeliques do medo e o perfume dos jasmins, em noite de lua cheia, a meia dúzia de personagens emergidas, inesperadamente, do pesadelo dos Nibelungen! Aí o alemão acalmou-se e pareceu entender, mas insistiu para que solicitássemos permissão a quem de direito, pois seus soldados estavam correndo risco de vida, empoleirados nos tanques indefesos (!) sobre as estradas banhadas de luar. A ópera ia ficando bufa. Risco de vida, na realidade, corria o velho judeu, encolhido como uma rã e mudo como uma pedra, em meio à moita de espirradeira. Risco de vida, corríamos nós por ocultar judeus em casa e, last but not least, por sermos cidadãos de um país em guerra contra o II Reich, o que, certamente, graças a Deus, eles ignoravam, por ignorar-nos. Em resumo: acabamos por convencer o oficial a desistir de suas pretensões, pois, àquela hora da noite, qualquer comunicação com nossa embaixada no Vaticano seria impossível. Foi a nossa desculpa esfarrapada. Ele não entendia de diplomacia! Sem disfarçar o desapontamento, mas conservando o impecável aplomb do Exército prussiano, pediu-nos autorização para sair pela porta por onde “não lhes fora permitido entrar”. “Somos cavalheiros, não somos bárbaros ou salteadores”, disse-nos. Aliviados, nós o fomos guiando, e aos companheiros, ao longo dos lívidos corredores iluminados apenas pelos raios da afogueada lua de verão. Seus passos de ganso ressoavam, soturnos, sobre o pavimento de bela cerâmica florentina. À entrada principal, viram a tabuleta: “Eigentum des Heiligen Stuhles”, “Propriedade da Santa Sé”. O diálogo e a inscrição, em alemão, devem ter produzido efeito sedativo. O oficial mirou-nos com os frios olhos azuis e interrogou-nos como quem tivesse esquecido a pergunta mais importante: “Que fazem vocês aqui?” – Estudamos para ser padres.” Olhou-nos com ar de espanto e comiseração, franziu as sobrancelhas e disse, voltando-se para os outros: “Engraçado, não acham?” Perfilaram-se, batendo os calcanhares. O oficial reiterou o pedido de desculpas. A guerra, apesar de tudo, não eliminara os restos de cortesia da belle époque. Desapareceram na escuridão da noite povoada pelos fantasmas aéreos aliados. Aguardamos um pouco, temendo a volta, e fomos à procura do velho judeu. Praticamente tivemos de carregá-lo. Tremia, como se a febre o devorasse, e tinha o pavor da morte estampado nos olhos. Parece-me que delirava, pois dizia coisas numa língua ininteligível até que o depusemos, vestido, sobre o pequeno leito de ferro, e adormeceu como um cadáver. Nos dias seguintes, prosseguiu na elaboração de seus planos, como se nada houvesse ocorrido. Naquela noite, senti na carne a sensação do terror pânico que baixara sobre a Europa e cujas garras assassinas deixariam marcas indeléveis no corpo prostituído da chamada Civilização Cristã. (...) 

Em 1943, a situação na Itália atingira o clímax do desespero. O Exército fora destroçado em todas as frentes. A aviação abatida, o resto da frota posto a pique no porto de Bari, já nada restava para justificar o suicídio de uma resistência impossível. As privações alcançavam todos os extratos da população. O Fascismo via aproximar-se, a galope, o fim de vinte anos de maneira inexplicável, em um povo cioso da longa tradição de sabedoria política e do agudo senso de ridículo. O Duce passou a titular de quase todos os Ministérios. Na realidade, eram poderes apenas nominais, mas, com isso, acumulava carvões acesos sobre a cabeça. Os sucessivos fracassos na condução da guerra, as humilhações por parte do antes poderoso e agora decadente aliado, despertavam no Exército e nos jerarcas do Partido a ideia de recorrer à Monarquia como à única saída honrosa para uma luta desonrosa e desonrada. O bombardeio de Roma por quatrocentas fortalezas-voadoras, a que já me referi, desencadeou o processo. Todo o quarteirão de São Lourenço-fora-dos-Muros, pelo lado da Porta Maggiore, foi reduzido a escombros. A esplêndida basílica românica, o cemitério de Campo Verano, a estação de entroncamento norte-sul, o quarteirão operário e seus edifícios de três e quatro pavimentos, voaram pelos ares. Milhares de mortos, de feridos e desabrigados foram o balanço daquela trágica manhã. Pio XII, acompanhado apenas de um secretário, saiu do Vaticano, enquanto os bombardeiros ainda cumpriam sua tarefa de morte, e foi ajoelhar-se sobre as ruínas, fumegantes, entre as vítimas das bombas, habitantes de um dos mais pobres quarteirões de Roma. O povo cercou-o, em lágrimas, pois via no Papa, romano di Roma, a derradeira esperança ante o caos iminente. Ele era o Defensor Civitatis, a certeza de que, ainda uma vez, os bárbaros não levariam a melhor. No pórtico da reconstruída Basílica de São Lourenço, quem quiser pode ver a bomba não explodida, sobre a qual, oculta pelas ruínas da igreja, dos edifícios arrasados e dos bondes destroçados, o Papa se ajoelhara naquela manhã trágica. Essas coisas, talvez, não tenham sido meras coincidências. No mesmo dia, o velho e pequenino rei foi à zona bombardeada. A multidão de curiosos e de desesperados parentes das vítimas sepultadas sob os escombros recebeu-o com apupos, apedrejou-lhe o carro e cuspiu-lhe no rosto, marcado por dolorosas rugas. Naquele momento, foi selado o destino da monarquia dos Savóias. Altas horas da noite, a área foi evacuada, poderosos refletores iluminaram-na e Mussolini, solitário com um velho e cansado abutre, pôde contemplar, sem apupos, mas sem aplausos, o derradeiro balanço de vinte anos de uma farsa trágica. Era o fim de um longo consulado. Quão distantes estavam o ano de 1870 e a brecha da Porta Pia! Dias depois, jogávamos uma disputada partida de futebol na Universidade De Propaganda Fide, contra africanos e asiáticos. No intervalo, entre os dois tempos, alcançou-nos a notícia de que o Grande Conselho Fascista destituíra o Duce do Comando Supremo da Guerra. O leão cansado, e já sem garras, esboçou uma tímida reação, mas apercebeu-se do fim. Era um homem inteligente. Já não repetiria: “Vale piú um giorno da leone che cent’anni da pecora”. O dia do leão mergulhava no crepúsculo. E agora? O rei o atrairia, em seguida, a uma esperta cilada, com a cobertura dos generais rebelados. Mussolini saiu preso da Villa Savoia, no fundo de uma ambulância militar. Os romanos, ao ouvir o uivo da sereia, não podiam imaginar que a “Marcha sobre Roma” chegara a seu termo. Mas a notícia espalhou-se, em segundos, e a população partiu para a desforra da passeata dos camisas-pretas, a qual, vinte anos antes, lançara a Itália nos braços do Fascismo. O mesmo povo, que aplaudia freneticamente as tragicomédias da Piazza Venezia, passou a destruir as sedes dos Fasci e a arrastar, pelas ruas, numa autêntica folia carnavalesca, os bustos de bronze do, até há pouco, onipotente Duce. Como aquela é a pátria do latim, muita gente, entre recompensada e atônita, suspirou: Sic transit gloria mundi

O rei confinou-o nas neves do Gran Sasso d’Itália, sobre as montanhas apeninas amadas e cantadas por Ignazio Silone. Hitler enviou seus pára-quedistas para libertá-lo. Mussolini já não era a figura cuja onisciência os muros da Itália proclamavam: Il Duce ha sempre ragione. Era, agora, um farrapo humano e político. Vieram, em seguida, a República do Faz-de-Conta, o fuzilamento do genro Ciano, e de vários jerarcas fascistas, a destruição do exército nazista pelos Aliados, a humilhante e frustrada tentativa de fuga para a Suíça, o fuzilamento pelos partigiani comunistas, a macabra exposição num posto de gasolina em Milão. Enfim, o fim. 

Quem contará, um dia, sem paixão e com uma fria avaliação dos acontecimentos, essa história de absurdos? Uma justiça de punhais envenenados, bem ao estilo da Renascença italiana, povoou de íncubos aqueles dias trágicos. A fascinante personalidade de Mussolini, transformado em títere de Hitler, roído por uma úlcera que lhe era tormento e martírio, passará, quem sabe, à História, apenas como uma das muitas personagens de ópera bufa, arremedo histriônico do Príncipe de Maquiavel, sobre quem, de resto, escreveu o excelente verbete da Enciclopedia Trecanni. Os italianos, fervorosos adoradores de suas virtudes e implacáveis juízes de seus defeitos, não lhe têm perdoado os erros e lhe recusaram, até agora, o reconhecimento por ter devolvido a Itália ao mapa das grandes potências. A um alto preço, sem dúvida. Mas quem não pagou algum preço por alguma alta empresa? Não foi assim com a França de Napoleão? Mussolini acabou miseramente, tendo ao lado apenas o corpo da amante que ainda tentou protegê-lo, frágil escudo de derradeira ternura. Caíram, ambos, sob as balas assassinas de criminosos temporariamente exalçados à categoria de heróis nacionais, cujos crimes foram tão asquerosos quanto os que pretendiam punir, fazendo justiça com as próprias mãos. Faltou-lhes o que jamais faltou à vendetta da Sardenha e da Sicília – a marca da grandeza. Uma época, também, estava morrendo, naquele posto de gasolina de Milão. (...) 

Fonte: TODAS AS MONTANHAS SÃO AZUIS: REMINISCÊNCIAS, Brasília: Editora Alhambra Ltda., 1991, excertos do 3º capítulo intitulado "Roma", pp. 96-131.




NOTAS EXPLICATIVAS 



¹ Campos de extermínio nazistas e campos de trabalhos forçados soviéticos, com suas sucursais, até mesmo entre nós, em aparelhos chamados DOI-CODI.

² As encíclicas Non abbiamo bisogno, contra o fascismo, 29 de julho de 1931; Divini Redemptoris, contra o comunismo, 19 de março de 1937; Mit brennender Sorge, contra o nazismo, 14 de março de 1937; Nos es muy conocida, sobre a situação da Igreja mexicana, 28 de março de 1937.

³   Cardeal Eugenio Pacelli.  

Luís Gonzaga da Fonseca, professor do Instituto Bíblico de Roma.

Inquissima haec bellorum conditio est, prospera omnes sib vindicant, adversa uni imputatur. (Tácito, Vida de Agrícola, 27)
  De um editorial de O Estado de São Paulo.

  Leão XIII (1878-1903): Ne quid falsi dicere audeat, ne quid veri non audeat historia. (Cícero, De Oratore, 2, c. 63)

  Ludwig Freiherrn Von Pastor, Geschichte der Päpste, 1885 e ss.

  Santa Catarina de Sena chamava-o Dolce Cristo in Terra


AGRADECIMENTO


Agradeço à minha amada esposa, Rute Pardini, a tirada de fotos e sua formatação  para a presente publicação no Blog de São João del-Rei.