terça-feira, 24 de abril de 2018

O BENZEDOR DE COBRAS


Por Anderson Braga Horta

 
O Benzedor de Cobras

Sebastião das Cobras. Tião das Cobras. Tião Cobreiro não — não gostava. Arredio, fechado, misterioso, ninguém nunca soube como vivia, exceto que andarilhava, sem hora diurna ou noturna, por matas e escampos, por vales e montes. Morava apartado. Nunca o viram trabalhar, comprar, pedir, cozinhar, comer... De sua chaminé não subia fumaça; sua janela —única— não se abria jamais.

Chamado, não se fazia de difícil. Comprometia-se a retirar todas as cobras do local infestado, qualquer que fosse; desde, impunha apenas, que um lugar delimitado: quintal de casa, jardim público, terreiro de fazenda... Não concordaria em expulsar suas amadas cobrinhas do Planeta, nem para muito longe de seus passos andejos. Ah, sim, outra condição, rigorosa: não fazer o interessado violência contra elas.

O povo dizia que era bruxo, feiticeiro, adivinho, que tinha parte com o Demo. As beatas, persignando-se à simples menção do seu nome, diziam-no o próprio Capeta.

Não cobrava pelo serviço.

O povo o procurava e o cercava, quando o sabia em função, a curiosidade vencendo até os escrúpulos e o medo de carolas e de crianças.

Por isso, na sede da Fazenda Bonita, próxima da entrada do arraial, no dia anunciado por Seu Quincas da Mata como o da exorcização de seu pedaço de terra, já bem cedinho um povaréu ia se chegando, se acotovelando, parolando, assuntando.

Quincas tomara suas cautelas. Tinha longa experiência dessas concentrações de gente ociosa. Eram fatal oportunidade para namoricos e ciumadas, mexericos e politicalha, de repente brigas e mortes. “Facada e tiro não havemos de ter”, dizia. “Quem vier pode ir se achegando, que é bem-vindo. Cachaça e de-comer não faltam. Mas os instrumentos ficam na porteira, com o Tonhão.” E ficavam mesmo, que o sorriso lunar do fiel Tonhão, um preto dobrado em altura e largura, não enganava ninguém.

Tudo era um piquenique buliçoso, quando um peão gritou, fitando a estrada:

— Evém vindo!

Cessou a latomia, à aproximação encantada do Das Cobras. Tião pisava manso e mal falava. Com acenos de mão e de cabeça afastava e reunia a gentada, dispunha os grupos de modo a deixarem livres os trilhos.

A turba o apreciava embasbacada: baixinho, franzino, seco, a pele de uma cor negra bronzeada, indecisa entre o afro e o índio, bigodinho de caboclo, pachorra de capiau, súbito uma cantoria de cantador do sertão.

Tião convoca as cobras, grave e suave, conversa com elas, exorta-as a sair de suas tocas e moitas, explica-lhes por que lá não devem ficar — pro mor dessa gente boa que não faz mal a vivente. Às vezes estende os braços, com as mãos espalmadas, impostas em bênção.

A gentama, silenciosa, ouvia. E Tião esganiçava uma espantosa canção:

Cascavel cascavilheira
guizozinhos de papel
caravela em mar de poeira
vem brincar de passa-anel.

Um frio percorria as espinhas quando, às notas e às palavras da serpentina trova, monotonamente repetidas, os primeiros ofídios emergiam dos tufos de capim, deslizando em esses de uma dança do ventre sinistramente voluptuosa, no rumo do benzedor.

Tião, sem mudar de tom, cantareja outra quadrinha, avultando o contraste entre a voz rústica e os versos misteriosamente distantes do entendimento geral:

Jararaca trombeteira
dançarina de cordel
vem gingando marinheira
com teus oitos de arganel.

E à medida que repete a ladainha sui generis, aos olhos dos circunstantes transidos, o largo da fazenda se transforma num serpentário fantástico. O mundo a pulular de seres rastejantes que passam, ignorando-os, pelos homens, mulheres e crianças hirtos, hipnotizados! Rente às pernas das mulheres, ao alcance das pedradas dos meninos, sob os olhos dos marmanjos, escorregando no silêncio gelatinoso e imóvel, as serpes vão passando e detendo-se, como em anfiteatro, defronte ao benzedor, cabecinhas nutantes, línguas vibráteis, escutando-lhe a prédica.

O ritual prossegue, para cada família uma trova, uma canção:

Urutu mana cruzeira
cruz na testa de revel
vem alumiar esta feira
com tua estrela fiel.

Para a delicadeza das corais, varia um tanto a cantilena:

Vem corola coralina
coral linda de rubi
de topázio e turmalina
calor como nunca vi
colar de fogo e nebrina
vem colear por aqui.

Com o desfile das corais completam-se o quadro e os amavios.

E assobiando e cantando, ante o poviléu suspenso, Tião sai, acompanhado de um cortejo aquadrilhado de trinta cobras taludas e multidão de cobrinhas, corais de cores galantes, cascavéis marcando o passo com chocalhos requebrantes, cobras várias, venenosas, sem veneno —estas na cola das outras, sem ser chamadas—, graciosas todas elas, coleando dançarinas, colubrina procissão, cobras-verdes, caninanas, cobras-d’água, jararacas dulcificadas, amáveis, sucurizinhas festivas...

À frente as urutus de estrela na testa.


O Tesouro

Júlia lembra-se de tudo, lembra-se e vaga pelo casarão antigo, encostando-se às pessoas, apegando-se à luz. Aproxima-se a hora do sono, hora negra entre todas. Ah! que as noites de Júlia são choro e ranger de dentes.

— Júlia, vai dormir.

A voz áspera do pai a intimida. Dirige-se para o quarto, mas de novo se lembra. Repete-lhe mentalmente os gestos, as palavras. E volta de fininho, olhos arregalados.

— Humberto, essa menina anda esquisita. Tenho medo...

Júlia a escutar os cochichos, com os olhos muito grandes, a esquivar-se, a falar sozinha pelos cantos.

— Júlia, vai dormir!

E ei-la a galgar as escadas, trêmula, o corpinho comprido e magro mal se sustendo, olheiras roxas devorando o rosto.

— Eu sei que ela me espera! — diz de si para si mesma. — Deus, ajudai-me!

Faz dois meses que tem recebido sua visita, noite após noite. As horas escoando-se lentas, e o medo, e as lágrimas, e a certeza de que um dia a manhã nascerá mais cedo para mostrar a todos a sua loucura — ou a sua morte.

Deita-se. Quer rezar, mas as palavras mágicas estão presas. Não dorme; olhos no teto, nem se move, respira o menos possível.

Há um eflúvio no quarto. O coração bate violento, não poder silenciá-lo! A Senhora flutua ao pé do leito, pálida no vestido de luto.

— “Júlia, desenterra-o para mim, por que eu não mais precise assombrar tuas noites.”

— Isso é o que conta a minha filha — diz Humberto ao ferreiro Antônio. — Vem acontecendo há dois meses, e só ontem ela teve coragem para falar...

— Bem, Seu Humberto, pelo que sei, parece que nesses casos só há um jeito de acabar com a assombração: fazer o que ela pede.

— Por isso vim aqui. É corrente que o sobradão da Rua Velha é mal-assombrado, por isso mesmo está há anos desabitado. Não dei importância a essa fama; aliás, não pretendo mudar-me para lá, comprá-lo foi um negócio de ocasião. Soube que morou nele um coronel abastado, no tempo do Império. Segundo os mais velhos, por essa época era costume enterrar o dinheiro, como garantia...

— Dizem que as terras do Maranhão estão semeadas de tesouros...

— Mas o coronel era pródigo e estava sempre em andanças pelo mundo. Sua mulher enterrava no quintal jóias e valores. Andava sempre de luto fechado, não se sabe por quê. Deu-se que ela morreu primeiro, de repente, justo quando o velho voltava de uma viagem na qual empenhara as economias. O coronel ficou na miséria e nem pôde saldar todos os compromissos, vindo a morrer pouco depois, de desgosto e vergonha. Desde então a alma dessa mulher, condenada a vagar pelo mundo, rodeia o tesouro oculto, e assim será até que alguém o desenterre.

— Não sei como podem saber tanta coisa, nem por quê, sabendo, não procuram o tesouro.

— Mas eu preciso tentar, Antônio. Tu, que entendes dessas coisas, hás de ajudar. Se encontrarmos tesouro, metade será tua.

A noite se adensa. Munidos de pá e picareta, Humberto e o ferreiro seguem para a casa abandonada. Vai com eles o menino Pedrinho, irmão de Júlia. Cautelosos, evitam a rua. Pulando cercas, atravessando quintais, finalmente chegam.

— É esta a mungubeira grande — diz Humberto. — Podemos cavar.

O ferreiro arria as ferramentas e examina os arredores. Vê que Pedrinho treme, tira da cintura um facão e estende-o, meio-sorrindo:

— Se tiver medo, é fincar os dentes na lâmina. Do lado oposto ao gume, pra não se cortar...

Em seguida, segura rijo a picareta e põe-se a trabalhar com vontade. a cada golpe a mungubeira parece tremer. Minutos depois, o instrumento bate em algo mais sólido e emite um som diferente. Estranhas coisas começam a acontecer. A árvore rodopia, verga, sibila — mas não há vento. A terra treme, como abalada por um terremoto — mas todas as coisas permanecem no lugar. Uma saraivada de pedras cai sobre os três — e não os magoa.

Pedrinho empalidece, morde violentamente a faca.

Humberto olha em torno, atento.

O ferreiro continua cavando, alheio a tudo.

A mungubeira chia como um ninho de demônios, dobra-se de um lado para outro, redemoinha. De repente o ferreiro pára, cessando simultaneamente os fenômenos.

— Nada! — diz impassível — só pedra e mais pedra. Talvez não seja esta a árvore.

Pedrinho continua com os dentes cerrados na lâmina.

Humberto vai perguntar algo, mas o olhar do outro, concentrado num ponto do quintal, prende-lhe a atenção.

— Que foi?

— Ali! não vê?

— Não vejo nada.

— É ela! Está ali, perto daquela árvore, acenando. Parece que aponta outro lugar.

Vão para lá e começam a cavoucar ao pé de outra mungubeira. As horas escorrendo em suor nas frontes vincadas.

Nada!

A madrugada vem galopando, de olhos acesos. Por sugestão de Antônio, resolvem descansar, para retomar o trabalho na outra noite. Humberto e o filho vão para casa aturdidos, mas decepcionados, com a sensação de terem caído num logro.


Voltaram outras noites. Continuaram as escavações iniciadas, fizeram outras, revolveram tudo. Mas o tesouro não foi encontrado, nem se repetiram os fenômenos. Entretanto, em casa também cessaram as aparições, e Júlia reencontrou a perdida paz.

Pedrinho é que nunca esquecerá aquela noite...

Humberto às vezes fala no caso, pensativo, e dá de ombros.

— Diabo, como pude acreditar numa besteira dessas.

Mas nos seus olhos há uma ponta de névoa.

O ferreiro, esse nunca mais tocou no assunto. Meses depois, mudava-se para São Luís, onde se instalou luxuosamente, não se sabe com que súbita e misteriosa fortuna.

Joana

Os grandes olhos de Joana, de uma bela tonalidade verde, talvez tendente ao azul, parecem arder como uma estrela glauca, enquanto ela, com as faces em rosa, prodigaliza atenções às suas alunas, como a galinha em meio a seus pintainhos. Imagino que já terá visto o jovem oficial que se aproxima e hesita, claramente deslumbrado à visão do gracioso cromo doméstico. Chamo-lhe a atenção, discretamente: “Creio que um príncipe está vindo à procura da menina mais bonita.” Os olhos de Joana cintilam como estrelas recém-saídas da nebulosa. Encabulada, continua cuidando de suas meninas, não responde. Seus olhos evitam-me, da mesma maneira que evitam o belo oficial, agora mais próximo. Ele afinal se decide, pede licença e se apresenta, galante. Ela aparenta surpreender-se. Seus olhos concentram-se numa cor mais profunda, verde-sépia talvez, quando se erguem para os meus. Confusa, recebe os galanteios do jovem com um sorriso grave e, para espanto meu, recusa-lhe os convites com uma alegação quase militar: “Sou uma professora e estou em serviço.” Depois de algumas investidas a que não sorri a vitória, o soldado se despede, não sem lhe deixar, insistente, o nome e o telefone, decerto pensando em futura e mais bem-sucedida batalha. Quando me despeço, os olhos de Joana, belos olhos de indefinível cor, brilham como fogueira de São João em fim de noite, desarrumada, passada por pés despreocupados. Estão agora garços, como se os meus cabelos grisalhos, que eles fitam com juvenil ternura, se dissolvessem neles, dando-lhes novo tom. Despeço-me. Sigo à toa dentro da tarde. Não cesso de pensar em Joana.



REFERÊNCIA

Editor: Victor Alegria
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Thesaurus Editora de Brasília - 2006
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