domingo, 10 de novembro de 2019

SEMANA SANTA DE SÃO JOÃO DEL-REI: O MAIS EMPOLGANTE ESPETÁCULO DE FÉ EM TODO O BRASIL


Por Francisco José dos Santos Braga 


 I.  INTRODUÇÃO por Francisco José dos Santos Braga

 
Inicialmente há algumas observações que merecem ser feitas nesta Introdução, antes da abordagem do texto do notável jornalista Lincoln de Souza.
A primeira delas refere-se ao texto que se lerá a seguir, intitulado "O MAIS EMPOLGANTE ESPETÁCULO DE FÉ EM TODO O BRASIL" com texto e fotos de Lincoln de Souza, o qual foi escolhido para fazer parte de uma edição especial de "A Noite Ilustrada", na ocasião em que se comemorava o 25º aniversário da revista carioca. A Redação da revista assim se pronunciou: 
Na data de ontem, 3 de maio, no ano de 1930, circulava o primeiro número desta publicação, quando o país inteiro vibrava de entusiasmo pela realização do primeiro grande concurso de beleza mundial realizado no Brasil, por iniciativa de "A NOITE". Ideada em moldes modernos, com o propósito maior de levar aos seus leitores uma divulgação fotográfica de extraordinário relêvo, em rotogravura, seu aparecimento constituiu um marco revolucionário na crônica da imprensa ilustrada do país. E desde então, no percurso de um quarto de século, "A NOITE ILUSTRADA" tem procurado servir ao seu imenso público, não apenas o suplemento de rotogravura que foi nos seus números iniciais, mas uma completa revista, cujos assuntos passaram a abranger todos os campos de atividade e merecendo, por isso, crescente preferência e estima de seus leitores. Soube, assim, tornar-se, de extremo a extremo do país, uma publicação eminentemente popular, amplamente documentária da vida do Brasil e do mundo nestes últimos vinte e cinco anos, pontilhados de tantos e tão magnos acontecimentos! No registro dessa data de alto significado estimativo para os que trabalham nesta casa e consequentemente para o leitor, ficam os nossos sinceros agradecimentos àqueles que continuam dispensando a "A NOITE ILUSTRADA" suas atenções e preferências.” (A NOITE ILUSTRADA, p. 3, edição de 4/5/1954) 
É possível imaginar a glória que representou para a carreira jornalística do são-joanense Lincoln de Souza ter sido convidado pela famosa revista para cobrir em sua terra natal a Semana Santa naquele longínquo ano comemorativo de 1954, há 65 anos atrás!

A segunda observação a ser feita é: o que veremos na matéria de Lincoln de Souza foi uma situação que, em linhas gerais, perdurou até 1977. Nesse ano, houve no repertório musical da Semana Santa são-joanense uma como que revolução estética às avessas, já que o musicólogo e regente José Maria Neves assumiu a direção da Orquestra Ribeiro Bastos, a partir de 1977, sentindo-se responsável por restaurar o repertório antigo que teve como ponto de partida a catalogação dos arquivos de manuscritos musicais, operação que ele chamava de "reinvenção da tradição de 200 anos". Cabe lembrar que também ocorreram algumas mudanças nas solenidades religiosas, podendo ser citada, como exemplo, a substituição da Missa dos Pressantificados na Sexta-feira Santa (mencionada no texto do Lincoln de Souza), pela Solene Ação Litúrgica. Sobre essa redefinição do repertório e mudanças litúrgicas, vejamos o que [GANDELMAN, 2003, 13] tem a nos informar sob a direção de José Maria Neves: 
(...) A redefinição do repertório provocou uma forte reação contrária. Compositores estrangeiros, Rossini, Perosi, Soma, comumente executados, foram substituídos por brasileiros e, preferencialmente, mineiros. Ao lado das mudanças introduzidas no repertório, as tradições nelas incluídas a religiosa, atendendo a novas exigências, foram adaptadas, atualizadas e mesmo reinventadas. A restauração do repertório antigo se deu a partir do trabalho de catalogação dos arquivos musicais locais e de cidades vizinhas, em torno dos quais foi gerado um grande número de pesquisas musicológicas. (...)
Atualmente se iniciam as solenidades da comemoração da entrada do Senhor em Jerusalém levemente diferentes das descritas por Lincoln de Souza para a Semana Santa de 1954. Assim dá início à sua descrição lacônica da comemoração da entrada de Nosso Senhor em Jerusalém: "Às 9 horas, iniciaram-se os Ofícios, pela Bênção das Palmas, seguindo-se a Procissão Litúrgica, em derredor da igreja-matriz e Missa Solene, com textos da Paixão, segundo São Mateus." Entendo que tenha havido uma exigência da redação no tocante ao tamanho do texto, porque são tão breves as palavras do grande jornalista Lincoln de Souza a respeito da abertura da Semana Santa em São João del-Rei que me permito estender-me um pouco mais.  Por tal descrição, entendo que em 1954 tenha havido a bênção das palmas dos fiéis antes de uma rasoura em redor da Catedral Basílica Nossa Senhora do Pilar (na ocasião Igreja-Matriz), na qual o cortejo adentrava. Todas as funções religiosas estavam concentradas na Igreja-Matriz.
No presente, vou fazer uma breve também descrição do que se passa antes de adentrar a Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar.
De fato, hoje transcorre de modo diverso a abertura da Semana Santa em São João del-Rei. Em alguma altura depois de 1954, decidiu-se dar início à solenidade na Igreja de Nossa Senhora do Rosário (primeiro rito litúrgico do Ofício de Ramos), formar-se a procissão de Ramos do lado de fora deste templo até atingir a Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, onde no seu interior se conclui a solenidade (Missa e Canto da Paixão, em latim e canto gregoriano). Acredito que a atual procissão de Ramos lembra melhor o cortejo triunfal que acompanhou Nosso Senhor ao entrar em Jerusalém.
Aqui apresento da Semana Santa de 2010 uma brevíssima descrição da cerimônia no interior da Igreja do Rosário e do cortejo triunfal em seu trajeto até a Igreja-Matriz numa distância aproximada de 200 metros. Já que o saudoso jornalista Lincoln de Souza é meu patrono no IHG de São João del-Rei, tomo a liberdade de embelezar o seu texto magistral, intocável em todos os aspectos, principalmente por ser o testemunho de uma época, com um pequeno trecho daquele meu trabalho. 
Enquanto o Bispo e os concelebrantes saem da sacristia e se dirigem ao altar (na Igreja de Nossa Senhora do Rosário), ouve-se o vibrante “Hosanna filio David” (Hosana ao filho de Davi), cuja execução se reitera pela orquestra e coro até que os oficiantes cheguem ao altar. Terminado o canto, os concelebrantes voltam-se para o povo e o convocam a repetir os passos de Jesus em sua entrada em Jerusalém. Em seguida, o Bispo faz o incenso, asperge os ramos com água benta e vai solenemente do altar até a porta principal do templo, aspergindo os fiéis que se persignam em sinal de devoção. Quando de sua volta ao altar, o Bispo incensa todos os fiéis. Durante essas ações, ouve-se a orquestra e coro executarem “Pueri Hebraeorum, portantes ramos olivarum, obviaverunt Domino, clamantes et dicentes: "Hosanna in excelsis”. / Pueri Hebraeorum vestimenta prosternebant in via, et clamabant dicentes: "Hosanna filio David; benedictus qui venit in nomine Domini". (Os filhos dos hebreus, portando ramos de oliveiras, correram ao encontro do Senhor, aclamando e dizendo: Hosana nas alturas. / Os filhos dos hebreus depunham suas vestes no caminho, e aclamavam dizendo: Hosana ao filho de Davi: bendito o que vem em nome do Senhor.)
Concluído esse canto, proclama-se solenemente o Evangelho que, neste ano de 2010 (Ano C), corresponde à leitura de Lucas 19, 28-40. Ainda dentro do templo, ouve-se o coro a capella intitulado “Cum appropinquaret Dominus Jerosolymam”, cuja letra corresponde basicamente ao Evangelho lido.
Fora da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, é disposta uma procissão, cujo principal destaque constitui a formação de dois coros a capella, sendo o primeiro deles um quarteto (soprano e contralto, tenor e baixo). Durante o trajeto entre os dois templos, é cantado o Hymnus ad Christum Regem (Hino a Cristo Rei). Enquanto o primeiro coro (quarteto) canta o refrão ou estribilho: "Gloria, laus et honor, tibi sit, / Rex Christe Redemptor. / Cui puerile decus prompsit / Hosanna pium.” (Glória, louvor e honra a ti, / ó Cristo Rei Redentor. / A quem a decência infantil manifestou / um piedoso Hosana.)
A que o segundo e grande coro responde cantando: "Israel es tu Rex, / Davidis et inclita proles, / Nomine qui in Domini, / Rex benedicte, venis." (De Israel és tu o Rei, / e filho ilustre de Davi, / que em nome do Senhor / vens, ó Rei bendito.)
A letra completa desse Hino é constituída por mais duas estrofes ou estâncias. (...)” ¹
A cerimônia conhecida pela denominação "Missa dos Pré-Santificados" aqui no Brasil era celebrada naquela época (1954) na Sexta-feira da Paixão (Feria VI in Passione Domini), que é o primeiro dia do Tríduo Pascal: a Páscoa de Cristo crucificado, como lhe chamou Santo Agostinho. Hoje é chamada apenas de Ação Litúrgica, pois de fato não é uma Missa, já que não inclui a consagração das espécies do pão e do vinho, porque comemoramos nesse dia a imolação do verdadeiro Corpo e verdadeiro Sangue de Jesus Cristo.
Vejamos então em que consiste a atual Ação Litúrgica que veio substituir a Missa dos Pressantificados mencionada por Lincoln de Souza.
A assim chamada Solene Ação Litúrgica, na Sexta-feira da Paixão, na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar de São João del-Rei, promovida pela Irmandade do Santíssimo Sacramento, inicia-se com a Liturgia da Palavra, consistindo de duas leituras bíblicas, cada uma delas seguida pelo canto de um Tractus e por uma oração. Segue-se o Canto solene da Paixão segundo São João, a cargo de três clérigos, que cantam em gregoriano, as partes do Evangelista, de Cristo e da Sinagoga, ocorrendo interferências de coro-orquestra cada vez que aparecem as exclamações e respostas do povo (trechos tradicionalmente chamados de "Bradados" ou de "Turba"). Em seguida, há uma série de orações pela Igreja, pelos governantes e pelo povo.
A segunda parte da cerimônia é a Adoração da cruz, que é trazida em procissão, coberta, até o canto direito do altar. Lentamente, o celebrante vai descobrindo-a, cantando por três vezes, em gregoriano e em transposições ascendentes, o "Ecce lignum crucis", ao que um quinteto vocal responde com o Venite adoremus. (Depois do Venite adoremus e antes do Popule meus, cantam-se os Motetos para a Procissão do Enterro, inclusive o Canto da Verônica.) Segue-se o canto dos Impropérios (Popule meus), do Ágios o Theós, do Adoramus te Christe e do Crux fidelis, além de outros hinos e antífonas relativos à Paixão, enquanto clérigos, irmãos e povo prosternam-se diante da cruz.
A terceira parte da cerimônia é a Comunhão, quando hóstias consagradas na véspera (e colocadas na capela própria, na solene "Procissão litúrgica" do final da missa de Quinta-feira Santa) são reconduzidas profissionalmente ao altar, ao som do hino Vexilla regis. Durante a comunhão são cantados outros hinos e antífonas relativos à Paixão: Stabat Mater, O vos omnes, Doleo super te, Judas mercator pessimus e outros.

Com a reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio Vaticano II, muitas paróquias que possuíam cerimônias semelhantes às são-joanenses fizeram uma adaptação automática, numa interpretação precipitada de que era preciso abandonar a língua "canônica" latina e favorecer as línguas nacionais em todas as circunstâncias (e não apenas na celebração eucarística). Fizeram, além disso, a opção de substituir o canto coral que prestigiava a música sacra polifônica com acompanhamento do harmônio/órgão/orquestra pela monofonia com acompanhamento de violão/percussão, apesar de o Concílio Vaticano II afirmar (na Constituição Sacrossanctum Concilium, n. 116): 
A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana, o canto gregoriano; portanto, na ação litúrgica, ocupa o primeiro lugar entre seus similares. Os outros gêneros de música sacra, especialmente a polifonia, não são absolutamente excluídos da celebração dos ofícios divinos, desde que se harmonizem com o espírito da ação litúrgica...
E quanto aos instrumentos musicais utilizados no canto litúrgico, a Constituição Sacrossanctum Concilium, n. 120 afirma: 
Tenha-se em grande apreço na Igreja latina o órgão de tubos, instrumento musical tradicional e cujo som é capaz de dar às cerimônias do culto um esplendor extraordinário e elevar poderosamente o espírito para Deus. Podem utilizar-se no culto divino outros instrumentos, segundo o parecer e com o consentimento da autoridade territorial competente, conforme o estabelecido...
Também, a partir da reforma litúrgica do Concílio, foi visada a participação da assembleia de fiéis em desfavor das scholae cantorum e grupos corais, de modo que o canto religioso popular ocupou o lugar vago e passou a ser usado com maior frequência nas missas, até porque toda a missa foi traduzida para o vernáculo e, por sua vez, o canto gregoriano e a polifonia sacra foram caindo em desuso. Considero que continua válida a seguinte "regra geral" que São Pio X enunciou sobre as composições musicais litúrgicas: 
Uma composição para a Igreja é tanto mais sacra e litúrgica quanto mais se aproximar, no andamento, na inspiração e no sabor, da melodia gregoriana, e tanto menos é digna do templo, quanto mais se reconhece disforme daquele modelo supremo.
Apesar de todas as disposições da Constituição Sacrossanctum Concilium, muitas paróquias se apressaram em decidir contrariamente a essa "regra geral", o que resultou em muitos grupos corais sendo definitivamente encerrados por uma visão imediatista alinhada com uma suposta modernidade. Em contraposição, São João del-Rei teve a sorte de ter à frente da Paróquia de N. Sra. do Pilar dois monsenhores competentes e esclarecidos que não admitiram um alinhamento automático à reforma litúrgica supostamente imposto pelo referido Concílio, ainda que, com essa atitude, estivessem sacrificando suas carreiras eclesiásticas e mantendo-se em seu cargo devido a seu prestígio pessoal até sua morte. Foram eles: Monsenhor Almir de Rezende Aquino (pároco de 04/04/1948 a 13/01/1967) e Monsenhor Sebastião Raimundo de Paiva (pároco a partir de 16/01/1967), ambos falecidos, em especial este segundo que se manteve por mais tempo como pároco. A esses dois devo ainda acrescentar o Revmº Padre Geraldo Magela da Silva (pároco atual), que tem desenvolvido um trabalho muito parecido com o do saudoso pároco emérito Monsenhor Paiva que o precedeu, todos os três cultores das "piedosas e solenes tradições de nossa terra", aí incluídas as festividades religiosas. Cada um a seu modo, todos perseveraram na preservação das riquezas dos rituais católicos, como os Ofícios de Trevas na Semana Santa com seus responsórios, lições, salmos e cânticos, todos em latim, acompanhados por orquestra bicentenária e coro principalmente nas antífonas ou cantados por uma schola cantorum composta de seminaristas, destacando-se entre as cidades do Brasil São João del-Rei, que ainda conserva praticamente intactos rituais litúrgicos e paralitúrgicos (procissões, rasouras, Vias-Sacras, encomendações de almas, etc.) do período barroco e colonial. Uma vez que a Irmandade do S.S. Sacramento é a mantenedora e patrocinadora das solenidades litúrgicas da Semana Santa na Catedral Basílica N. Sra. do Pilar, quero aqui registrar o meu louvor pela sua incansável missão de dar continuidade a essas antigas manifestações religiosas presentes em nosso meio, desde a época da ereção da Comarca do Rio das Mortes em 06/04/1714, cuja cabeça era exatamente a histórica Vila de São João del-Rei.

Outra observação é que, nesta matéria, o texto da autoria de Lincoln de Souza não se faz acompanhar das fotos históricas registradas em sua máquina fotográfica (por impossibilidade desse resgate), sendo necessário que os leitores cliquem sobre o link na Bibliografia, a fim de apreciarem o trabalho integral (texto e fotos) do jornalista são-joanense, que em 1922 granjeara enorme notoriedade com uma coletânea de doze lendas folclóricas são-joanenses, a que dera o título “Contam que...”. Independente das fotos, o texto de Lincoln de Souza é bastante esclarecedor, abordando com fidelidade histórica a forma como o tema religiosidade e música afetava a comunidade são-joanense e constituindo-se num depoimento fiel de uma época anterior ao Concílio Vaticano II.

Se Lincoln de Souza descreveu as solenidades do SÁBADO DA ALELUIA, infelizmente não constou da publicação sua esperada descrição. A edição da revista A Noite Ilustrada omitiu esse texto porventura existente. É pena que, desta forma, seus leitores ficamos privados de conhecer seu texto sobre a imponente cerimônia litúrgica conhecida por "VIGÍLIA PASCAL".

Por fim, assinalo que o que se deduz do texto de Lincoln de Souza é: os três Ofícios de Trevas (da Quinta, Sexta e Sábado) eram realizados, respectivamente, na Quarta, Quinta e Sexta-feira, todos à noite. A menção de um quarto Ofício de Trevas no Sábado Santo parece ter sido um erro tipográfico ou descuido do autor e, portanto, deve ser desconsiderado, salvo melhor juízo.
Atualmente o Ofício de Trevas (Laudes e Matinas) da Quinta-feira Santa tem lugar na Quarta-feira, à noite (como, aliás, parece ter sido em 1954 e desde então tal costume foi mantido); na Quinta-feira Santa não há o Ofício de Trevas, porque já foi apresentado na noite da Quarta-feira Santa. (Nos tempos atuais na Quinta-feira Santa, pela manhã é concelebrada Solene Missa e Bênção dos Santos Óleos dos enfermos, do sacro Crisma e dos catecúmenos e às 17 horas é celebrada Missa Solene da Ceia do Senhor.)
De acordo com o texto de Lincoln de Souza, é mencionado que, depois do Lava-Pés, na Quinta-feira Santa à noite, seguia o Ofício de Trevas (certamente o da Sexta-feira Santa). Atualmente, na Sexta-feira Santa o Ofício de Trevas respectivo tem lugar durante a manhã deste dia.
Lincoln de Souza menciona que, às 18 horas da Sexta-feira Santa, antes da cerimônia do Descendimento da Cruz, é que havia Ofício de Trevas (certamente o do Sábado Santo). Atualmente, no Sábado da Aleluia, durante a manhã, verifica-se o Ofício de Trevas respectivo.
Resumindo, é provável que, na época do texto em questão, os três Ofícios de Trevas (da Quinta, Sexta e Sábado) fossem realizados, respectivamente, na Quarta, Quinta e Sexta, todos à noite. Considerava-se então e de fato é irrelevante rezar e cantar as Laudes e Matinas na noite da véspera (do dia do Ofício) ou durante a manhã do dia do Ofício.



II.  TEXTO DE LINCOLN DE SOUZA: 2.1) O MAIS EMPOLGANTE ESPETÁCULO DE FÉ EM TODO O BRASIL

 
A famosa Semana Santa de São João del Rei Músicas sacras dos mais notáveis compositores nacionais e estrangeiros Revivendo o drama do Calvário, com personagens vestidos a caráter Réplica da procissão do Senhor Morto em Sevilha e Oberammergau Gente de tôda parte do Brasil na terra em que nasceu Tiradentes Cerca de vinte e cinco mil pessoas assistem em praça pública à solenidade do descendimento da cruz 

Tal como Bruges, no setentrião belga, que é conhecida sob várias denominações "Bruges, a Morta", "Bruges, a Bela", "Bruges, a Veneza do Norte" à cidade que foi o berço de Tiradentes, São João del Rei, também chamam "Princesa do Oeste", "Cidade dos Sinos" e "Cidade das Lendas".
De tôdas, porém, a denominação mais acertada a meu ver, é a de "Cidade dos Sinos". São João del Rei, com efeito, merece tal classificação, em virtude do grande número de suas igrejas, algumas famosas, como a de São Francisco de Assis um verdadeiro poema em pedra a do Carmo e da Matriz de N. S. do Pilar. Proporcionalmente à cifra dos seus habitantes (entre 32 e 35 mil) há ali mais igrejas do que na Bahia, que não as possui em número de 365 uma para cada dia do ano conforme se propala, mas cento e poucas, segundo estatística oficial daquele Estado.
O espírito de religiosidade do povo sanjoanense é outro fato bastante conhecido, não só em Minas, como em outros Estados. As festividades da Semana Santa, pela sua invulgar imponência e pela sua originalidade, atraem à terra do Proto-Mártir da Independência milhares de forasteiros, não apenas do Estado mas de tôdas as partes do país. A Semana Santa de São João del Rei é tão famosa quanto a de Sevilha, na Espanha,  ou a de Oberammergau, na Alemanha, já tendo sido filmada muitas vêzes e divulgada através de inúmeras estações de rádio, inclusive desta capital. Os mais renomados oradores sacros, contratados pelos organizadores dos festejos, pregam nos templos e em praça pública, sendo executadas, por verdadeiros mestres, peças de consagrados artistas, entre os quais se sobressai o padre José Maria Xavier, cujas composições são conhecidas até no estrangeiro.
Êste ano, as festividades transcorreram com o mesmo brilho dos anteriores, tendo a assistir-lhes, entre outros destacados sanjoanenses, os Srs. Tancredo Neves, titular da pasta da Justiça, e Gabriel de Resende Passos, ex-procurador geral da República e atualmente deputado federal. Impossível dar o número dos forasteiros. Foram aos milhares. Muitos dias antes do Domingo de Ramos, já os trens da Rêde Mineira de Viação, os ônibus, os automóveis particulares, os aviões da ONTA e outros veículos despejavam gente na cidade. Os hotéis, superlotados, tiveram de recusar os hóspedes que chegaram na última hora e estes, não tendo parentes ali, foram obrigados a retornar aos lugares de onde procediam.
Com o objetivo de fazer a cobertura das solenidades religiosas máximas, que se realizam no Brasil, para "A NOITE ILUSTRADA", rumamos para São João del Rei, viajando no "Vera Cruz" um modêlo de confôrto da Central do Brasil, até Barbacena, onde tomamos o tremendo e sujo trenzinho da antiga E. F. Oeste de Minas, que nos leva até aquela velha e tradicional cidade. É escusado dizer que, além de tudo, não havia mais lugares na composição, sendo grande número de passageiros obrigado a viajar de pé, durante quase quatro horas, tempo que gasta para o trenzinho percorrer menos de cem quilômetros! Maior descaso não pode haver, por parte da administração daquela ferrovia, para com o público.
Afinal, em São João del Rei, demos início à nossa tarefa. Antes, porém, de dizermos sôbre a Semana Santa, propriamente dita, convém explicar o seguinte: nas três primeiras sextas-feiras da Quaresma, que a antecedem, celebram-se à noite a "Via-Sacra" uma espécie de pequena procissão que, precedida pela cruz, percorre diversas ruas da cidade onde se encontram diminutas capelas denominadas "Passos". Aí para o desfile e rezam-se "motejos" alusivos aos passos de Jesus: queda, encontro, crucificação, etc. Também no interior das igrejas, à mesma hora, há "Via-Sacra".
Na quarta sexta-feira realiza-se o Depósito das Dores, em que a imagem de Nossa Senhora das dores sai da igreja matriz e vai para a do Carmo, em procissão. No sábado seguinte, há o Depósito dos Passos. Desta vez é Nosso Senhor dos Passos que é levado profissionalmente, à noite, da matriz para a igreja de S. Francisco de Assis. No domingo, à tarde, tem lugar a Procissão do Encontro. A imagem de N. S. das Dores sai do Carmo em direção à Praça Barão de Itambé (antiga das Mercês) e a de N. Senhor dos Passos, saindo do templo franciscano, é levado àquela praça, onde se dá o encontro, havendo sermão alusivo ao ato, feito, no geral, por um notável orador sacro, da localidade ou de fora. Depois do encontro, seguido do sermão, as imagens percorrem algumas ruas, detendo-se diante do "Passo" da Praça Dr. Paulo Teixeira e do da Rua Duque de Caxias, que lhe ficam no trajeto, recolhendo-se, por fim, o cortejo à igreja-matriz, onde um sacerdote prega o Sermão do Calvário.
Agora, entremos na Semana Santa.

DOMINGO DE RAMOS

No segundo domingo após as solenidades do encontro, já acima descrito, realizaram-se as do Domingo de Ramos.
Às 9 horas, iniciaram-se os Ofícios, pela Bênção das Palmas, seguindo-se a Procissão Litúrgica, em derredor da igreja-matriz e Missa Solene, com textos da Paixão, segundo São Mateus.
Às 17 horas, em ponto, saiu daquele templo a procissão do Senhor do Triunfo, que percorreu as ruas do costume, pregando na ocasião o padre Nelson Tafuri.
O Domingo de Ramos revive a entrada triunfal do Nazareno em Jerusalém, onde a população, empunhando palmas e atirando mantos sôbre o chão, procurava homenagear o Rei dos Reis, à sua passagem.
Em São João, o povo estende panos vistosos nas janelas e sacadas e os fiéis, carregando palmas, acompanham o préstito, de que participam tôdas as corporações religiosas da cidade.

SEGUNDA E TERÇA-FEIRA

Às 19 horas, "Via-Sacra" interna, na igreja-matriz do Pilar. Diante dos quadros que representam a "Via-Sacra" de Jesus, os fiéis em procissão se detinham e oravam.

QUARTA-FEIRA DE TREVAS

Às 7 horas, missa com música. Às 19 horas, teve lugar o Ofício de Trevas, que pode ser assim descrito: na igreja em penumbra, os altares coberto de pano roxo, iniciam-se os cânticos de salmos e lamentações de profetas, desponsórios e noturnos. À proporção que os cânticos se sucedem, as velas vão sendo apagadas, uma por uma. A última vela, que simboliza Jesus, é conservada acesa. Ao chegar à penúltima, a igreja fica às escuras, há um rumor de batida de pés, sôbre o assoalho, para dar a idéia, embora vaga, na convulsão da natureza no dia da morte do Crucificado. Mas a agitação dura apenas segundos, após o que voltam as luzes a se acenderem.

QUINTA-FEIRA SANTA

Comunhão aos fiéis, das 6 às 8,30 na Matriz do Pilar.
Às 10 horas, houve Missa Solene, com sermão ao Evangelho, sôbre a instituição do SS. Sacramento, pelo grande pregador sacro, monsenhor José Pedro Costa, da Arquidiocese de Diamantina.
Após a missa, foi o SS. Sacramento conduzido em solene procissão à sua capela, onde permaneceu encerrado até o dia imediato, no Santo Sepulcro. Seguiu-se a tocante cerimônia da Desnudação dos Altares (retirada dos panos roxos que os vedavam). Às 18 horas, realizou-se outra cerimônia a do Lava-Pés, orando depois monsenhor Pedro Costa.
No Lava-Pés, que repete o ato de humildade praticado por Jesus, lavando os pés de seus discípulos e lhes recomendando amarem-se uns aos outros, como Êle os amou tomam parte doze menores que fazem o papel de Apóstolos. O vigário, representando Jesus e acompanhado de dois acólitos, que conduzem bacia e toalha, lava os pés dos menores, auxiliado pelos mesários da Irmandade do S. S. Sacramento.
Depois do Lava-Pés, seguiu-se o Ofício de Trevas, de acôrdo com o ritual já descrito.
Na Quinta-feira Santa, os fiéis se dirigem aos templos, para a chamada "visitação".

SEXTA-FEIRA MAIOR

Às 8,30 horas, teve comêço o Ofício do dia - texto da Paixão, segundo S. João, seguido de orações por todo o mundo e, após, o comovente ato da Adoração da Cruz.
Realizou-se, depois, o encerramento da Exposição do S. S. Sacramento, que foi conduzido, em procissão, da capela para o altar em que se celebrou a Missa dos Pressantificados. Comemorando as Três Horas da Agonia, teve lugar, às 13 horas, o sermão das "Sete Palavras", ocupando o púlpito monsenhor José Pedro da Costa.
Às 18 horas, houve Ofício de Trevas, após o qual se realizou, na grande Praça Barão de Itambé, a emocionante cerimônia do Descendimento da Cruz. Foi orador, na ocasião, o cônego Trajano Barrôco, do clero de Guaxupé. A senhorita Lúcia de Oliveira, que representou a Verônica, com voz harmoniosa e segura, cantou o conhecido "O Vos Omnes", exibindo, no quadrado de alvo pano, a Imagem, em sangue do Salvador. Seguiu-se a Procissão do Entêrro, que percorreu as principais ruas, recolhendo-se à Matriz de N. S. do Pilar.
No cortejo sacro, que recorda algo do que, em tempos mais recuados, se realizava em São João del Rei, porém com muito maior pompa, tomam parte menores e adultos representando personagens bíblicos e históricos, vestidos a caráter, tais como Abraão e Isaac, Moisés carregando as tábuas da lei, São Jorge, Madalena, Judith levando num prato a cabeça de Holofernes, Samaritana, Adão e Eva (seguramente os personagens mais fracos do desfile), as Três Marias, os Doze Apóstolos, José de Arimateia e José de Nicodemus conduzindo, numa salva de prata, os cravos retirados das mãos e dos pés de Jesus, a Verônica, que cantou em vários locais, e, finalmente, a Guarda do Sepulcro, comandada por um centurião.
Calcula-se que, de detrás da igreja-matriz até as escadarias das Mercês, se tenham reunido para assistir à solenidade do Descendimento da Cruz, cêrca de 25 mil pessoas.

DOMINGO DA RESSURREIÇÃO

Às 10 horas, foi celebrada a Missa Solene da Ressurreição. Ao Evangelho, falou o cônego Trajano Barrôco.
Às 14 horas, saiu da igreja-matriz a procissão do S. S. Sacramento. Às 19 horas, realizou-se a Coroação de Nossa Senhora, encerrando-se as tradicionais festas da Semana Santa com solene Te-Deum Laudamus e sermão, pelo Revmº monsenhor José Pedro da Costa.


2.2) PARTE MUSICAL DAS SOLENIDADES 


Para que se faça idéia da qualidade das composições da Semana Santa de São João del Rei, basta reproduzir aqui a relação das peças musicais e respectivos autores, executadas pela magnífica e tradicional "Orquestra Ribeiro Bastos", constante do programa dos festejos. Ei-la:

DOMINGO DE RAMOS

Ofício, Bradados, Quarteto de vozes, Missa e Credo de autoria do inolvidável compositor sanjoanense Pe. José Maria Xavier, de saudosa memória.

QUARTA-FEIRA DE TREVAS 

Ofício (Matinas e Laudes) do mesmo laureado Pe. José Maria Xavier.

QUINTA-FEIRA SANTA

Ouverture: "Columbus", de A. Hartmann; Missa e Credo da Lapa, de Giorza; Introito e Gradual, "Christus Factus est", do grande compositor Pe. José Maria Xavier; O Salutaris, de Massenet; Ofertório, Communio do maestro Martininiano Ribeiro Bastos; Sanctus, Benedictus e Agnus Dei, de Luigi Felice Rossi. Ao Lava-Pés, "Domine, Tu Mihi", do inspirado compositor Pe. José Maria Xavier, e solo ao pregador de Stradella, atuando neste o professor Servulino Reis. Os Ofícios (Matinas e Laudes) são ainda do imortal Pe. José Maria Xavier.

SEXTA-FEIRA MAIOR

Tractus, Bradados e durante o ato solene e tocante da Adoração da Cruz, "Popule Meus" e Adoramus, do inimitável compositor Pe. José Maria Xavier; "Venite Adoremus", do consagrado compositor Martiniano Ribeiro Bastos; "Stabat Mater" e Côro da Caridade, de Rossini; "O Vos Omnes", de Presciliano Silva, compositor sanjoanense e ex-aluno do Conservatório de Milão; "As Sete Palavras", de Rosina de Mendonça. Ofícios (Matinas e Laudes) do Pe. José Maria Xavier.

SÁBADO DA ALELUIA 

Tractus, Missa, Matinas e Laudes, do Pe. José Maria Xavier. Antes das Matinas, à noite, Ouverture "Le Lac de Fée", de Auber.

DOMINGO DA RESSURREIÇÃO 

Ouverture: "Norma", de Bellini; Missa e Credo, de Luigi F. Rossi; Solo ao pregador e "Tantum Ergo", de Rossini.
À noite: Ouverture: "Une Présentation à la Cour", de L. Fossy; Solo ao pregador: Ave Maria, por Fauré; "Te-Deum Laudamus", de Justino da Conceição (compositor ouro-pretano). Nos atos externos tocou a excelente corporação musical "Santa Cecília", sob a direção do professor Joaquim Laurindo Reis.
A Rádio Inconfidência, de Belo Horizonte, irradiou tôdas as solenidades, em ondas médias, curtas e longas.

Fonte: A Noite Ilustrada, Rio de Janeiro, 1954, Ano XXIV, nº 1314, p. 6-9.
Texto e fotos de Lincoln de Souza na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.




III. NOTAS EXPLICATIVAS
 

¹ Sugiro que o leitor verifique como se processam essas solenidades modernamente, dirigindo-se ao texto que escrevi em 2010 no Blog do Braga, intitulado Semana Santa em São João del-Rei: Crônica do Domingo de Ramos (vide Bibliografia), sem restrições quanto ao tamanho do texto que a meu ver impediram Lincoln de Souza de descrever com exatidão a abertura da Semana Santa em São João del-Rei. Todas as músicas tratadas aqui são da autoria do compositor são-joanense Pe. José Maria Xavier (1819-1887), cujo bicentenário de nascimento comemoramos durante todo este ano de 2019.





IV. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA


 
BRAGA, Francisco José dos Santos: Semana Santa de São João del-Rei: Crônica do Domingo de Ramos
Link: http://bragamusician.blogspot.com/2010/03/semana-santa-de-sao-joao-del-rei-1.html 

                                      — Padre Godinho, pregador na comemoração da Semana Santa de 1960, na histórica São João del-Rei

                                      — Liturgia dos (Dons) Pré-santificados nas igrejas católica e ortodoxa russa


                                      — Impressões religiosas por occasião da Semana Santa em S. João d'El-Rei em 1860, por J.C.O.S in jornal A ACTUALIDADE (Rio de Janeiro)


                                      — Procissão do Entêrro em 1825, por Djalma Tarcísio de Assis in jornal A COMUNIDADE (São João del-Rei)

EQUIPE de Liturgia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar: A Quaresma e a Semana Santa em São João del-Rei-MG, Juiz de Fora: Esdeva Empresa Gráfica Ltda., 1982, 1º volume, 343 p.

GANDELMAN, Salomea: Homenagem a José Maria Neves - Sessão de abertura da ANPPOM (18 de agosto de 2003), Revista Eletrônica da ANPPOM, p. 7-20.
Link: http://www.anppom.com.br/revista/index.php/opus/article/view/83/0

SOUZA, Lincoln de: O mais empolgante espetáculo de fé em todo o Brasil, revista A NOITE ILUSTRADA, Rio de Janeiro, 1954, Ano XXIV, nº 1314, p. 6-9. Texto e fotos de Lincoln de Souza na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
Link: http://memoria.bn.br/pdf/120588/per120588_1954_01314.pdf