segunda-feira, 25 de março de 2019

HÁ 2 SÉCULOS NASCIA O BENEMÉRITO PADRE-MAESTRO JOSÉ MARIA XAVIER (☆ 1819-✞ 1887)


Por Francisco José dos Santos Braga

Foto oficial do Pe. José Maria Xavier restaurada pelo historiador Silvério Parada (de batina, em pé, com sua clarineta italiana nas mãos, no quintal de sua casa na Rua da Prata)


I.  INTRODUÇÃO

Para comemorar o jubileu da morte do sacerdote-maestro, em 22 de janeiro de 1937, o jornal são-joanense A TRIBUNA fez a cobertura das homenagens que lhe foram prestadas em S. João del-Rei, por ocasião do transcurso do 50º aniversário de sua morte (ocorrida em 22 de janeiro de 1887).

Isto posto, decidi reproduzir o mesmo texto em homenagem aos 200 anos de nascimento do sacerdote-Maestro José Maria Xavier (1819-2019).


II. Texto de A TRIBUNA, edição nº 1361, de 24 de janeiro de 1937.

Pe. José M. Xavier 

A 22 deste, fez 50 annos que falleceu, nesta cidade, o insigne compositor patricio Padre José Maria Xavier. 

Victima de uma queda, mezes antes, quando podava o arvoredo do seu jardim, os seus males foram se aggravando dia a dia, até o desenlace fatal, que se deu na tarde do dia 22 de Janeiro de 1887. 

O seu sepultamento foi uma apoteose; a cidade em peso, consternada, rendeu as mais tocantes e sinceras homenagens ao virtuoso sacerdote-maestro. 

São innumeras as composições do Pe. José Maria: diversas matinas, missas, ladainhas, novenas, sólos ao pregador, antiphonas e Tantum-Ergo, partituras completas da Semana Santa, que fallam ao coração e enternecem o espirito, como os Officios de Trevas, as suaves e expressivas melodias do Popule meus, Domine tu mihi lava pedes, Adoramus e outras musicas sublimes, que só um sacerdote servido por uma grande intelligencia e um sensibilissimo espirito de arte poderia compôr. 

Ainda hoje, meio século passado, as maravilhosas obras musicaes do grande compositor concorrem, de um modo singular e tocante, para o brilhantismo das commemorações da Semana da Paixão. 

"Quem nunca assistiu os Officios da Semana Santa em S. João del Rey, mal póde fazer ideia dos primores estheticos da musica sacra do Pe. José Maria. 
Para bem aquilatal-os é necessario alguma instrucção, não qualquer, mas de historia". 

O Padre José Maria Xavier éra filho do alferes João Xavier da Silva e de sua mulher, d. Maria Benedicta de Miranda. Nasceu nesta cidade, à rua de Santo Antonio, hoje nº 20, no dia 23 de Agosto de 1819. Foram seus professores Reginaldo Pereira de Barros, conego José Antonio Marinho e o dr. Domingos da Cunha. Ordenou-se em 19 de Abril de 1849 e cantou a sua primeira missa na Igreja Matriz desta cidade, a 23 de Maio, dia da Ascenção do Senhor. 

Em 1872, foi-lhe concedida, pela 5ª Exposição Industrial Mineira, medalha de prata "pelas mimosas composições sacras". Nomeado vigário de Rio Preto, onde esteve pouco tempo, para aqui regressou afim de leccionar no antigo Collegio Duval. Foi provedor da Santa Casa de Misericordia, no anno de 1879 a 1880. Presidiu ininterruptamente, durante 12 annos, a Conferencia Vicentina de N. Senhora do Pilar e, nesse cargo, prestou relevantes serviços à população, por occasião da epidemia de variola, que então grassava assustadoramente nesta cidade. 

O venerando e pranteado sacerdote foi inhumado na capella do cemiterio do Rosario, hoje demolida, onde ainda se lê, sobre simples e tôsca lápide, a seguinte inscripção: 
Restos mortaes do Reverendo
José Maria Xavier
22 de Janeiro de 1887
Requiescat in pace


Jornal A TRIBUNA, Anno XXIII, São João del-Rei, edição nº 1.361 de 24/01/1937

Transcrevemos abaixo o seu testamento que retratava, fielmente, as virtudes que ornavam um caracter sem jaça, a humildade e fé ardentes do sempre lembrado sacerdote, cuja memoria muito honra a terra sanjoannense: 
IN NOMINE DOMINI. AMEN. 
Aproveitando eu, abaixo assignado, o conhecimento consciencioso que ora tenho de meu estado normal de saude e de intelligencia regular, escrevo aqui reflectidamente o meu laconico Testamento civil. 
E começo, como Sacerdote orthodoxo, por fazer e confirmar a minha solemne Profissão de fé implicita e adherente a todos os Dogmas e ensinamentos da nossa Santa Madre Igreja Catholica e Apostolica Romana, abraçando, com Ella, toda a Verdade revelada e luz interpretada, e, com Ella, reprovando e anathematizando todo o erro opposto, heresia, impiedade, proposições, sociedades e systhemas condemnados. Assim... até o derradeiro suspiro. 
A todas as pessoas que tenhão por ventura qualquer ressentimento ou offensa de mim eu peço perdão; e como jamais guardei, nem guardo, semelhantes sentimentos contra ninguem, seria ocioso agora o meu perdão. São meus testamenteiros os meus Sobrinhos Daniel Antonio de Paiva, Antonio Gomes Pedroso e Antonio Justiniano de Paiva, successivamente: premio, a vintena legal: prazo para contas, um anno. Por minha pobre Alma dir-se-hão as Missas de corpo presente possíveis no lugar; depois, quero mais dez Missas segundo minha intenção, e outras dez para suffragar meus paes e irmãos fallecidos. 
À minha irmã Marianna Guilhermina da Camara eu faço Usufructuaria dos remanescentes de meus poucos bens: e a todos os meus nove Sobrinhos e Sobrinhas (ou os que existirem) eu instituo herdeiros iguaes dos meus bens por morte della. Proponho à Mesa da Santa Casa de Misericordia o seguinte contracto: se esta Casa se obrigar a fazer commemorar o meu anniversario, cada anno, com uma Missa perpetuamente, o meu testamenteiro fará transferir e averbar em nome da mesma Casa a unica Apolice que eu possúo de um conto de réis da Divida publica nº 39.897. Para algumas outras minudencias dirijo, nesta data, uma Carta de consciencia ao meu testamenteiro, de cuja prestação de contas, nesta parte, requeiro, seja elle dispensado. 
Quanto ao meu corpo, materia inerte e putrida, e que servio como instrumento de peccados por mais de sessenta annos, merecia (philosophicamente fallando) ser agora atirado para o esterquilinio publico, bem entaipado para não infeccionar aos transeuntes sobreviventes (simples questão de salubridade e hygiene publica); mas como, alem do dogma da futura resurreição da carne, o corpo servio igualmente de morada a um espirito intelligente, responsavel e incorruptivel, e com este recebeo conjunctamente Sacramentos e varias Uncções Sagradas, quer a Santa Igreja, com todo o fundamento e sabedoria, que este corpo seja acercado de respeitos, e sepultado em terreno benzido.
Eu, de bom grado obedecendo a Igreja sem restricções, recommendo, ainda assim, toda a ausencia de pompa e muita simplicidade: mortalha de padre lisa, caixão coberto em lã preta, sem galões, tendo a cruz branca sacerdotal: enterro diurno segundo o Ritual Romano, sem preceder convite algum de préstito, excepto o do Clero e a simples chamada do sino; e a sepultura, no Cemiterio do Rosario.

Em vez de corôas, marcha funebre, mausoléo, flores, poezias e necrológios eu prefiro e peço, pelo amor de Deos e por caridade, alguns Padre Nossos e outros suffragios constantes. 
Eis o meu Testamento legalisado que os Tribunaes farão executar. 
S. João d'El Rey, 13 de Junho de 1885. 
Pe. José Maria Xavier 

Esta ephemeride não passou despercebida. A orchestra "Lyra Sanjoannense", da qual o compositor conterraneo éra parte integrante, promoveu as seguintes homenagens: Missa solemne, com Libera me, visita ao seu tumulo, e à tarde, retreta pela banda do 11º Regimento, em frente à herma do grande musicista.


Testamento do Pe. José Maria Xavier lavrado em 13/06/1885


 III. AGRADECIMENTOS


Ao Escritório do IPHAN de São João del-Rei e à Biblioteca Municipal "Baptista Caetano de Almeida", que colocaram à minha disposição funcionários e o excelente acervo de testamentos e periódicos respectivamente para a realização desta pesquisa; à minha esposa Rute Pardini Braga, pelas fotos tiradas e editadas para os fins desta matéria, e ao confrade Silvério Parada pela cessão da única foto oficial de Pe. José Maria Xavier, restaurada por ele em 2012.