quinta-feira, 19 de julho de 2018

FAZER JORNALISMO


Por Evandro de Almeida Coelho

Professor aposentado, 
ex-presidente da Academia de Letras de São João del-Rei 

Originalmente publicado na Tribuna Sanjoanense, edição de 20 de fevereiro a 6 de março de 2018, p. 3
 

Em princípios de 1967, tarde de domingo, apareceram lá em casa alguns amigos. Comentamos sobre a cidade, município recente, desmembrado de Rio Piracicaba, quinta renda do Estado, perdendo para a Capital, Juiz de Fora, Uberlândia e Ipatinga. E continuávamos com a vidinha de Monlevade perto da usina siderúrgica, Areia Preta, Vila Tanque, Baú, Pirineus, Posto, Loanda, Jacuí de Cima, Santa Bárbara e Lourdes. Carneirinhos já estava com boas lojas e pequenas indústrias. 

A Associação Comercial e a Prefeitura se ressentiam da falta de comunicação com os habitantes. E ajudariam o aparecimento de um noticiário fora do jornal “Pioneiro” e da Rádio Cultura, ambos da Belgo-Mineira. Depois dessa introdução, como sabiam que dirigi um jornal e revista na Faculdade, fui convidado a organizar um jornal independente. Aceitei o convite com a condição de me informarem os assuntos a serem divulgados. Que me passassem as notícias e redigiríamos o jornal para um texto mais homogêneo. 

Os fatos apareceram em páginas de caderno, blocos de anotações, pelo telefone e em encontros de rua. Fizemos uma pasta bem cheia. Prandini e eu tivemos trabalho em selecionar anotações. Isto feito, datilografei o que escolhemos. Ficou mais legível. Em uma folga do Colégio fomos a Belo Horizonte, e procuramos orientações mais seguras e técnicas do Adival Araújo, professor de redação no curso de jornalismo da minha Faculdade de Filosofia. Estava como redator-chefe do “Diário Católico”. Deu preciosos conselhos e, na parte de imprimir o jornal, ofereceu as oficinas do periódico. Um problema foi conseguir linotipos prontos. Procuramos o deputado Wilson Alvarenga. Foi conosco à Imprensa Oficial e conseguimos que fizessem os linotipos. Voltamos ao “Diário” e avisamos sobre o andamento das atividades. Faziam a paginação, mas faltava o cabeçalho. Conversamos e combinamos: Evandro, Diretor; Prandini, Redator; Randolfo, Gerente; Milton, Publicidade e Álvaro, Reportagens. 

Levamos as páginas datilografadas para a Imprensa Oficial e dois dias depois fomos buscar os pesados linotipos que deixamos com o chefe das oficinas do jornal. Mais alguns dias e fomos buscar o jornal impresso “O Eco” e o distribuímos aos amigos. Ganhamos o papel dos 500 exemplares. Houve sobra de assuntos nos linotipos já prontos. Deu para fazermos o segundo e quase o terceiro número. 

Evandro de Almeida Coelho com o 1º número do jornal "O Éco", de Carneirinhos-João Monlevade, MG







Soubemos que o Deputado Aníbal Teixeira estava vendendo sua tipografia. Tipos e máquinas impressoras. Era meu conhecido entre os “plinianos” que se reuniam na casa do industrial Salustiano Pureza, fabricante de banha, para ler obras do “Chefe Nacional”. Com algum esforço o Prandini comprou a tipografia e tivemos sorte de encontrar o “Capixaba”, mecânico da Belgo e ex-tipógrafo. Passamos a imprimir o jornal: página um; depois de secar, página quatro; depois de secar, página três; depois de secar, página dois. As caixas de tipos tinham pedaços de cartolina indicando as letras. O “b”, “p”, “d” e “q” eram com pinças depois dos compositores. Nossos tipógrafos foram calouros da arte. 

O jornal durou quarenta números e foi a fonte e incentivo para outros jornais e revistas na cidade. 


Esta crônica é pequena homenagem aos nossos alunos do curso de jornalismo, aos redatores atuais do ótimo periódico “O Tempo” e aos infelizes que fazem agora o antigo “melhor das Minas Gerais”. 
(Crédito pelas imagens: Rute Pardini Braga)