quinta-feira, 19 de abril de 2018

PRIMEIRAS POESIAS DE EUCLIDES DA CUNHA, AOS 17 ANOS DE IDADE



Por Euclides da Cunha



— Ondas
primeiras poesias
de
Euclydes Cunha
— Rio de Janeiro  
—1883
 

14 annos de edade

Anotado por Euclydes em 1906: "Observação fundamental para explicar a serie de absurdos que ha nestas paginas. 
1906 - Euclydes"

Marat...

Foi a alma cruel das barricadas!...
Mixto de luz e lama!... se elle ria
As purpuras gelavam-se e rangia
Mais de um throno se dava gargalhadas!...

Fanatico da luz... porem seguia
Do crime as torvas, lívidas pisadas
Armava, à noute, aos corações ciladas —,
Batia o despotismo à luz do dia...

No seu cerebro tremendo negrejavam
Os planos mais crueis e scintillavam
As idéas mais bravas e brilhantes

Ha muito que um punhal gelou-lhe o seio...
Passou... deixou na historia um rastro cheio
De lagrimas e luzes offuscantes...

28 Novembro
Ass. Euclydes

Dantão...

Parece-me que o vejo — illuminado
Erguendo delirante a grande fronte
— De um povo inteiro o fúlgido horizonte
Cheio de luz, de idéas constellado!...

De seu craneo — vulcão — a rubra lava
Foi que gerou essa sublime aurora
— Noventa e trez e a levantou sonora
Na fronte audaz da populaça brava!...

Olhando para a historia — um sec'lo é a lente
Que mostra-me o seu craneo resplandente
Do passado atravez o véo profundo...
               . . . . . . .

Ha muito que tombou — mas, inquebravel
De sua voz o echo formidavel
Estruge ainda na razão do mundo!...

Ass. Euclydes
28 Novembro  

Robespierre...

Alma inquebravel — bravo sonhador
De um fim brilhante, de um poder ingente
De seu cerebro audaz a luz ardente
É que gerava a treva do terror... 

Embuçada n'um lívido fulgor
Su'alma collosal — cruel — potente
Rompe as edades, lugubre tremente —
Cheia de glorias, maldições e dor!...
        . . . . . . .

Ha muito ja que ella — soberba ardida 
Afogou-se — cruenta e destemida
N'um diluvio de luz — Noventa e trez...

Ha muito ja que emmudeceu na historia
Mas, ainda hoje a sua atroz memoria
É o pesadêlo mais cruel dos reis...

28 Novembro
Ass. Euclydes   

Rebate
— Aos padres  

Sonnez, sonnez toujours, clairons de la pensée.
— V. Hugo
 
Ó pallidos heroes!... ó pallidos athletas
Que co'a razão sondais a profundez dos Ceus
Emquanto do existir no vasto Sahara enorme,
Embalde procurais — essa miragem — Deus!...

À postos!... é chegado o dia do combate...
— As frontes levantai do seio das so'idões
E as nossas armas vede — os cantos e as idéas,
E vede os arsenaes — os cer'bros, corações.  

De pé... a hora sôa... explendida a Sciencia 
Com esse elo — a idéa — as mentes prende à luz
E ateia já, fatal, a rubra lavareda
Que vai de pé heroes! — queimar a vossa Cruz...

Vos peza sobre a fronte um passado de sangue.
— A vossa veste negra à muit'alma envolveu!...
E tendes que pagar — ah!... dívidas tremendas!
Ao mundo — João Huss — e à Sciencia — Galileu.
            . . . . . . .

Vós sois demais na terra!.. e peza, peza muito
O lívido bordel das almas, das razões
Sobre o dorso do globo — sabeis — é o Vaticano,
Do qual a sombra faz a noute das nações!...

Depois... o sec'lo expira e... padres! precisamos
Da Sciencia c'o archote — intérmino, fatal
A vós incendiar — aos báculos e às mitras
Afim de illuminar-lhe o grande funeral!...

Já é, já vai mui longa a vossa fria noute,
Que em frente à Consciencia, soubestes, vis, tecer!...  
Oh treva collossal — parte-te-ha a luz...
Ó noute, arreda-te ante o novo alvorecer...
            . . . . . . .

Ó vós que a flor da Crença — esquálidos, regais
Co'as lagrimas crueis — dos martyres lethaes
Vós — que tentaes abrir — um sanctuario a Cruz,
Da multidão no seio, à golpe de punhaes...

O passado trazeis de rastro à vossos pés!...
Pois bem — vai se mudar o gemer em rugir
E a lagrima em lava!... ó pallidos heroes
De pé! que conquistar-vos vamos o porvir!... 

Dezembro 1883
Ass. Euclydes Cunha  


Saint-Just

Un discours de Saint-Just donnait tout de suite un caractère terrible au débat...
Raffy: Procès de Louis XVI  

Quando à tribuna elle se ergueu, rugindo,
— Ao forte impulso das paixões audazes    
Ardente o labio de terriveis phrases
E a luz do genio em seu olhar fulgindo,

A tyrannia estremeceu nas bases
De um rei na fronte ressumou — pungindo  
Um suor de morte e um terror infindo
Gelou o seio aos cortezãos sequazes.

Uma alma nova ergueu-se em cada peito,
Brotou em cada peito uma esperança
Do seu sonno acordou — firme — o Direito.

E Europa o mundo, mais que o mundo — a França
Sentio n'uma hora, sob o verbo seu,
As commoções que em sec'los não sofreo!...

28 Novembro 1883
Ass. Euclydes 


Gonçalves Dias
ao pé do mar  

Se eu pudesse cantar a grande historia
Que envolve ardente o teu viver bilhante!...
Filho dos trópicos que — audaz gigante  
Desceste ao tumulo subindo a Gloria!...

Teu túmulo collossal — nest'hora eu fito  
Altivo, rugidor, sonoro, extenso
O mar!... o mar!... Oh sim teu craneo immenso
Só podia conter-se no infinito!...

E eu sou louco talvez — mas quando forte,
Em seu dorso resvala ardente o Norte
E elle espumante estruge, brada, grita

E em cada vaga uma canção estoura...
Eu creio ser tu'alma que, sonora,
Em seu seio sem fim brava — palpita!...
          . . . . . . .

29 Novembro
Ass. Euclydes

Fonte: O hebdomadário carioca, DOM CASMURRO, publicou em maio de 1946, Ano X, nº 439-440, pp. 31-2, em fac simile, essa seleção de poemas, fazendo constar em nota de rodapé:
"Autógrafos de Euclides, tirados diretamente de um caderno de 1883 "Ondas". Mais tarde revia ele esse caderno e, se nada inutilizou nele, sem embargo nas poesias que achava fracas escrevera — "medíocre" — "horrível" — etc."