sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

OUVINDO ESTRELAS


Por Anderson Braga Horta


Palestra pronunciada originalmente na ANE-Associação Nacional de Escritores de Brasília, em 22 de novembro de 2018, no evento Quinta Literária.



Nascido em 16 de dezembro de 1865 e falecido em 28 de dezembro de 1918 (há um século), viveu, portanto, 53 anos. Vida breve, para as expectativas de nossos dias; mas nem tanto, para a época. Comparado aos grandes antecessores do período romântico, foi quase um macróbio. Gonçalves Dias, que tanto admirava, talvez ajudado por alguma pajelança de seus íntimos piagas, ainda alcançou a marca dos 41 — resgatado pelo “oceano terrível” da agonia em que já se afundava, no naufrágio do Bois de Boulogne, em 1864 (foi o único a morrer). Aos outros deu Fortuna menor tempo:
Laurindo Rabelo (1826-1864): aos 38, já do batel da vida sentiu tomar-lhe o leme a mão da morte.
Álvares de Azevedo (1831-1852): “Já da morte o palor me cobre o rosto”. “Vinte anos!... Não vivi um só momento!”
Junqueira Freire (1832-1855) invocava: “Pensamento gentil de paz eterna, amiga morte, vem.” Foi atendido aos 22 aninhos.
Casimiro de Abreu (1839-1860): “Se eu tenho de morrer na flor dos anos, meu Deus, não seja já!” Colhido menino, ainda correndo atrás de borboletas azuis, aos 21.
Fagundes Varela (1839-1860) viveu em cânticos um calvário de 33 anos.
Castro Alves (1847-1871) tinha 17 quando escreveu, em pleno “borbulhar do gênio”: “Adeus, vida! Adeus, glória! amor! anelos!” Restavam-lhe sete. Ao menos curtiu intensamente a vita brevis.

É corriqueiro lembrar que o nome Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac é um perfeito alexandrino francês, a sugerir mestria nesse tipo de verso, conseqüentemente um visível domínio versífico, uma tendência ao perfeccionismo, uma filiação literária que implicaria vínculos estreitos com a cultura gaulesa, e por aí afora. Por seu conteúdo repetitivo, de chavão, deveria esquecê-lo; mas, ao invés, o acolho, já pelo curioso da observação, já pela condição seminal de nos prevenir para qualidades efetivamente encontráveis no poeta.
Também aprendemos nos manuais que Bilac foi um poeta parnasiano, vale dizer — vinculado a uma escola marcada pela impessoalidade, pela frieza emocional. Sua vida, entretanto, não foi essa pasmaceira que se poderia imaginar, em se tratando de um suposto adepto da torre de marfim, da objetividade realista, do não-envolvimento, da literatura de gabinete, como deixou claro José Jeronymo Rivera, no primoroso painel que desenrolou para nós, no Auditório Cyro dos Anjos, da ANE, em março de 2014 (De Vias Lácteas e de Flautas Rústicas, Kelps, Goiânia, 2014). Sua arte também não o foi, consoante a Apresentação de Alceu Amoroso Lima, um dos que melhor o compreenderam, no vol. 2 da série Nossos Clássicos, da Agir (Rio de Janeiro, 1957).
Sobre o cidadão Bilac, lembra Antonio Carlos Secchin em “Presença do Parnaso”, que, longe de um comportamento glacial diante da vida, “desenvolvia intensa atividade pública, metendo-se em política, lutando pela obrigatoriedade de prestação do serviço militar, e opinando sobre as reformas urbanísticas do Rio belle époque”. E Ledo Ivo, em “Os Navios Parnasianos”, fala de sua “alegria de viver”. (Ambos em Escolas Literárias no Brasil, organização de Ivan Junqueira; edição da Academia Brasileira de Letras, Rio, 2004, pp. 497 e 523, respectivamente.)

Quanto às características do nosso Parnasianismo amenizado, particularmente no exemplo bilaquiano e pelo menos ante os termos da ortodoxia, como se depreende da boa crítica, recomendo uma vista d’olhos no magnífico estudo O Parnasianismo na Poesia Brasileira, de Sânzio de Azevedo (Editora UFC / Edições UVA, Fortaleza, 2004).
As diferenças entre os estilos de época são muitas vezes tênues. Traços característicos de uns podem achar-se em botão nos anteriores, ou como reminiscência nos seguintes. Há casos bem típicos, sim, como as claridades e vaguidões da “Antífona” do simbolista Cruz e Sousa, de um lado, e doutro o dissertativo de “A Gonçalves Dias”, bem como a rigidez escultórica de “A Sesta de Nero” e “O Incêndio de Roma”, de um parnasianíssimo Bilac. Mas não diria que a nitidez dos contrastes é prevalente.
Quando escreveu, aplicadamente, de acordo com as prescrições da escola, Bilac foi poeta de boa envergadura. Quando, porém —ainda que sem perder jamais a ponderação da boa forma— se deixou levar pelo borbulhar interno, aí levantou voo, e aí compôs poemas que, sem deixar de servir de modelo em seu embasamento e em seu travejamento, nos trazem alma adentro o frêmito da paixão e da beleza, a que não faltam o sal de alguma dúvida metafísica nem o ímpeto superior de uma transcendente esperança.
Logo após o rigor propriamente parnasiano de Panóplias, exibem-se em suas Poesias os trinta e cinco sonetos de Via Láctea, em que Sânzio de Azevedo, citando Alberto de Oliveira, vê com clareza “uma combinação de rigor clássico e emoção romântica”, que vamos rever na perfeição do n.° XIII:

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”


Consta que o próprio poeta o desmerecia, exigente, apontando uma homofonia (tão leve que mal se percebe) no primeiro terceto.
O soneto, originalmente intitulado “Ouvir Estrelas”, e conhecido popularmente também como “Ora (direis)”, nos dá de mão beijada, como quem não quer nada, uma fértil contradição: de um lado, uma dicção escandida, estudada, com uma certa nonchalance, uma aparente frieza no andamento, frieza conceitual, professoral, frieza de quem professa uma lição, não de quem vive uma paixão; de outro, um refreado mas ardente sentir, numa expressão que vai ganhando força até o perfeito final. Emoção contida: o poeta não quer se derreter diante do interlocutor, diante do público; mas bastante para entremostrar os frêmitos que podiam vagar por aquela alma. O que prevalece —e fica na mente do leitor— é esse clímax, esse caldo de sonho, essa música suave-ardente, esse deslumbramento de ouvir e de entender estrelas. E ficamos sabendo, sentindo, que isso é, sim, poesia, bela e grande poesia, independentemente de tudo o que digam —contra ou a favor— os teóricos do verso.
Bilac foi um grande poeta romântico (ouso dizê-lo) constrangido, num bom número de poemas, pela equivocada intenção de ser parnasiano (mas é bom lembrar que o próprio poeta chegou a negar a existência de parnasianismo no Brasil). Dessa escola tem e exibe, contudo, em toda a linha de sua produção poética, a perfeição do verso e a extrema correção e elegância vernacular.

Há quem aponte e verbere em Bilac (assim como em Castro Alves, outro poeta de verbo inflamado) o vezo da eloqüência. Ora, a eloqüência é virtude da oratória, do discurso feito para convencer — já pela justeza do pensamento, já pela empolgação emocional; em poesia, é considerada defeito. Tenho para mim que quem chama de eloqüente a um grande poeta está, em verdade, querendo dizer que suas palavras voam e ardem como estrelas. O mot juste para isso é entusiasmo.  A eloqüência pode visitar o grande poeta —hélas! ninguém é gênio vinte e quatro horas por dia—, mas em poema como o I-Juca-Pirama, O Navio Negreiro, Vozes d’África, O Caçador de Esmeraldas, o arrebatamento verbal visa a algo em si mesmo, visa ao fogo, visa ao vento, visa ao belo.
Permitam-me aqui o meu próprio arrebatamentozinho romântico: o poeta é um deus que influi do que pensa e, sobretudo, do que sente — desse amálgama — as artérias do poema, sua criatura.

Como aqueles notáveis épicos, impressiona O Caçador de Esmeraldas pela fornalha verbal em que se enforma. (“Sagres” em certa medida o antecipa — sendo-lhe poeticamente inferior, e sendo que, enquanto o sonho do Infante ao fim se projeta em Conquista e Glória, o sonho do Bandeirante se esfará em irrisão.)
Começa e mantém-se o Caçador num patamar elevado (com rompantes de lava em picos estratégicos):

Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada
Do outono, quando a terra, em sede requeimada,
Bebera longamente as águas da estação,
— Que, em bandeira, buscando esmeraldas e prata,
À frente dos peões filhos da rude mata,
Fernão Dias Paes Leme entrou pelo sertão.


Já nesses inícios a cor esmeraldina se insinua, primeira antecipação de um dos pontos máximos do poema. São as “angras verdes”, o “verde sorriso”, o “verde coração” da “bruta Pátria”; logo depois, “a serra misteriosa” de “verdes faldas”, o “verde sonho”, o “verde arcano”, o faiscante verdor da “grande serra, mãe das esmeraldas raras”, as “pedras verdes” finalmente nas mãos do Bandeirante, que, vencido pela febre, “trôpego e envelhecido, roto, e sem forças, cai junto do Guaicuí...”. É uma espécie de leit-motiv, que faz uma pausa na parte terceira, para, em prodigiosa mudança de clima, dar espaço à agonia do Herói:

Fernão Dias Paes Leme agoniza. Um lamento
Chora longo, a rolar na longa voz do vento.


Agonia em largo magnífico, a culminar no momento em que Fernão Dias, acreditando estar na posse das esmeraldas, exibe uma face fulgurante, “como se a asa ideal de um arcanjo a roçasse”. É a hora do delírio verde, quando o leit-motiv se completa e explode miraculosamente no quadro total. Uma obra-prima de ton-sur-ton plástico-musical. Jóia incrustada no corpo áureo do poema. Vejamo-la nas duas estrofes iniciais da parte IV:

Adoça-se-lhe o olhar, num fulgor indeciso;
Leve, na boca aflante, esvoaça-lhe um sorriso...
— E adelgaça-se o véu das sombras. O luar
Abre no horror da noite uma verde clareira.
Como para abraçar a natureza inteira,
Fernão Dias Paes Leme estira os braços no ar...

Verdes, os astros no alto abrem-se em verdes chamas;
Verdes, na verde mata, embalançam-se as ramas;
E flores verdes no ar brandamente se movem;
Chispam verdes fuzis riscando o céu sombrio;
Em esmeraldas flui a água verde do rio,
E do céu, todo verde, as esmeraldas chovem...


Neste passo, explode o “alto clangor” sinfônico do esplêndido finale. Concentro-me na “voz, que na soidão só ele escuta, — só”, excluindo, na leitura, com vistas a uma condensação impressiva, duas ou três estrofes; essa Voz que lhe deu, mudamente, a missão que ele cumpriu sem o saber:

“Morre! morrem-te às mãos as pedras desejadas,
Desfeitas como um sonho, e em lodo desmanchadas...
Que importa? dorme em paz, que o teu labor é findo!
Nos campos, no pendor das montanhas fragosas,
Como um grande colar de esmeraldas gloriosas,
As tuas povoações se estenderão fulgindo!


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Morre! tu viverás nas estradas que abriste!
Teu nome rolará no largo choro triste
Da água do Guaicuí... Morre, Conquistador!
Viverás quando, feito em seiva o sangue, aos ares
Subires, e, nutrindo uma árvore, cantares
Numa ramada verde entre um ninho e uma flor!

Morre! germinarão as sagradas sementes
Das gotas de suor, das lágrimas ardentes!
Hão de frutificar as fomes e as vigílias!
E um dia, povoada a terra em que te deitas,
Quando, aos beijos do sol, sobrarem as colheitas,
Quando, aos beijos do amor, crescerem as famílias,

Tu cantarás na voz dos sinos, nas charruas,
No esto da multidão, no tumultuar das ruas,
No clamor do trabalho e nos hinos da paz!

E, subjugando o olvido, através das idades,
Violador de sertões, plantador de cidades,
Dentro do coração da Pátria viverás!”


Neste ponto o narrador (o eu narrador, ou eu épico, para se justapor ao eu lírico...) faz uma pausa, indicada por uma linha pontilhada, recupera o fôlego e retoma a própria voz, para colocar ponto final no poema (note-se o belo “enjambement interno” no terceiro verso):

Cala-se a estranha voz. Dorme de novo tudo.
Agora, a deslizar pelo arvoredo mudo,
Como um choro de prata algente o luar escorre.
E sereno, feliz, no maternal regaço
Da terra, sob a paz estrelada do espaço,
Fernão Dias Paes Leme os olhos cerra. E morre.


Mas o que vem a ser isto — o poema? Como discernir entre a versalhada rica em idéias, em tropos, em imagens, em rimas... e em boas intenções — do vero, do belo, do grande poema, da obra-prima poética?
É possível — e é fácil — medir a intensidade luminosa de uma estrela; mas que instrumento havemos para medir a intensidade da luz que emana do poema?
O poema é ou pode ser feito de qualquer coisa. “Tudo cabe no poema.” Mas o que importa não é a soma das partes que compõem esse todo. O que importa é o fruto da relação entre elas, é o equilíbrio — ou desequilíbrio! como na música entram harmonia e dissonância —, a fulguração áurea que as partes, isoladas, podem até não prefigurar, é esse quid, esse impalpável, essa fugidia razão, essa tensão alquímica que as transmuta em algo mais que uma operação aritmétrica, um objeto de beleza (a thing of beauty). O ser do poema implica tudo que se possa pôr nele, mas é, em verdade, de natureza estética. Entram nele ingredientes talvez indispensáveis, como o bom, o verdadeiro, quem sabe o que mais, mas a luz-síntese é estética, ou poema não há. (Em verdade, até o feio pode entrar na composição do Belo.) Mede-se isso? Como?
Elejo como princípio poético a máxima popular: “O que não mata engorda.” Isto é, o que não sobra no poema (ou do poema) o engrandece; ou pelo menos contribui para “engrossar o caldo”, para o seu arredondamento, para o seu aperfeiçoamento. E o que não sobra é o que se transforma em Beleza — naquilo que entendemos por Belo, e que é sempre elevado. A ressalva é necessária porque é esse um conceito muito subjetivo, e porque há quem ponha em suas alturas o simplesmente bonito. O bonito é o rés-do-chão da Beleza.

Bilac, assim como Coelho Neto, foi duramente criticado pelo Modernismo nascente. Pudera, celebrados como eram, formavam perfeitos alvos para a contestação, a insurgência. O primeiro não resistiu às investidas. Sua reputação jamais se recuperou totalmente. Bilac, arrasado por Mário de Andrade (nos termos que veremos adiante), era-lhe ao mesmo tempo objeto de veneração... Bilac sobreviveu no gosto popular, o que se reflete nas inúmeras reedições. Nos dias de hoje, não sei o que dizer. Os avanços de uma tecnologia universal, invasiva, afastam o homem da meditação, do silêncio — da poesia.
Sobre sua importância para nós, recolho palavras de um depoimento recente, de Fabio de Sousa Coutinho, em palestra no PEN Clube do Brasil, intitulada Muito Além do Parnaso: foi ele “.... um dos mais verdadeiramente imortais entre todos os poetas e escritores brasileiros. Bilac não foi só um poeta de seu tempo. Foi um poeta de todos os tempos.”
Num país de grandes poetas, foi grande, em que pese a mentalidade colonial de pensadores nossos incapazes de ver o que temos de original e de magnificamente realizado; a crítica superou a condenação modernista, mas assumiu, freqüentemente, um viés de condescendência que não faz jus ao seu porte; antes e depois da Semana, quase sempre esteve aquém de sua grandeza.
Opiniões menos calorosas encontramos em Sílvio Romero, José Veríssimo, Nelson Werneck Sodré (incompreensão extrema), Sérgio Milliet, Alfredo Bosi. Nestor Vítor, que, juntamente com João do Rio, Mário de Andrade, Humberto de Campos, Agripino Grieco, Manuel Bandeira e Ivan Junqueira, é transcrito na edição da Obra Reunida da Nova Aguilar (Rio, 1996; organização e introdução do poeta e ensaísta Alexei Bueno), chega a aparentar um tom de benevolência... De Grieco, tão ardente admirador de Castro Alves, com cuja cornucópia verbal se aparenta o Bilac dO Caçador de Esmeraldas, esperaríamos comentário menos comedido.
Mesquinhas opiniões. Prefiro a dos admiradores de mente e coração abertos:

Jackson de Figueiredo — “A figura de Olavo Bilac surge, em meio de nossa ansiedade poética, como a mais completa que, até hoje, temos tido, depois de Castro Alves... É o gênio da plasticidade, que já nos pertence integralmente. Impõe-se aos nossos ouvidos, à nossa memória, ao nosso coração, ao nosso espírito.” (Afirmações, Centro Dom Vital, Rio, 1924, pp. 45-68.)

Alceu Amoroso Lima — “Ficara muito atrás, na aurora da sua vida literária, o espoucar dos seus primeiros e sensacionais sonetos, que fizeram delirar a sua geração, com a ardente e paradoxal fusão do tropicalismo e do helenismo parnasiano. Com o correr dos anos, a musa se foi interiorizando, tornando-se menos chama e mais pensamento, menos forma exterior e mais fundo, menos brilho e mais interiorização. .... Bilac, desde 1907, previu esse novo destino do homem de letras, de descer de sua torre de marfim, para vir pugnar entre os homens, na luta perene entre o Bem e o Mal, entre o espírito de fé e o espírito de negação. .... homem que nos legou, sem dúvida, a mais bela lição de amor à Beleza e de culto ao Dever, conjugados em sua obra e em sua vida.” (Cit.)

Afrânio Peixoto — “Nunca, em nossa língua, em mais belos versos foram ditas e proclamadas expressões de amor, não amor subjetivo, mas amor real, amado, do que em Bilac.” (Apud Amoroso Lima, ob. cit.)

Ivan Junqueira — Das melhores coisas que se escreveram sobre o Poeta é o ensaio “Bilac: Versemaker” (O Encantador de Serpentes, Alhambra, Rio, 1987). Falando sobre o “nunca assaz louvado, conquanto não de todo compreendido, ‘O Caçador de esmeraldas’”, diz que, na cena do delírio, consegue o Poeta “um verdadeiro sacre du vert, e os alexandrinos que o sustentam talvez só não sejam modernos por serem alexandrinos”. E pontifica, seguro: “Que importa? São versos. Versos esplêndidos como apenas ele e mais uns poucos souberam fazer. Ele, o fabbro, o fabricateur, o versemaker.” Noutra passagem, diz ter sido ele “o criador de alguns dos mais plásticos e coloridos versos jamais escritos em língua portuguesa”.

Mário de Andrade — Excluídas as restrições, ditadas, diria, pela posição de liderança de um movimento renovador das letras, nosso extraordinário polígrafo escreveu o maior, o mais abrangente (e correto) panegírico de Bilac.
A página de Mário sobre o Poeta é um misto de extremado amor e impulso iconoclasta que beira a insânia. Sua crítica entremeia um discurso laudatório de numerosos alanceamentos desprezivos. Transita do mais alto e bem fundamentado elogio à mais desrefinada objeção — como uma empresa de guerra, pela obrigação de destruir o ídolo, atrevo-me a sugerir. Tarefa razoavelmente fácil, já que na humana seara não há trigal sem joio. Comparo essa página, ela mesma, a um campo de trigo infestado da praga. Arrancada esta, resta uma celebração extremosa, de tudo o quê dou um apanhado.
Começa dizendo que Bilac é “um dos bons poetas brasileiros”, mas não “dos maiores”. E segue: “Bilac entusiasmou-me; atrai-me ainda... Não me prende, porque raro me comove. Mas não sei bem por que não me comove. Talvez a excessiva perfeição. Talvez. Acho mesmo que é isso.” Vem depois uma gangorra sistólico-diastólica de exaltados elogios e ásperas censuras. Elejo para transcrição, apenas, alguns dentre os primeiros, considerando-os bastantes para postar o Poeta nos pináculos do Panteon da Poesia:
“.... que técnica formidável! Não é preciso buscar mais o século XVIII italiano para se compreender o prestígio que exerce sobre as turbas e mesmo sobre a ‘gente boa’ um ‘virtuose’ perfeitamente habilitado. Inteligentíssimo, estudioso, paciente, o tapeceiro de ‘As viagens’ adquiriu uma facilidade, uma segurança, uma perfeição tal no manejo do alexandrino, e mesmo de outros metros, que confina com a genialidade. Se quiserem: Bilac é o malabarista mais genial do verso português. Outro nenhum existe que se lhe compare na língua; e mesmo fora desta, poucos emparelhariam com ele nas línguas que sei. Um há que o supera, um apenas: Victor Hugo. Note-se que falo da perfeição técnica no manejo de metros conhecidos. ....
“‘O caçador de esmeraldas’ é sob esse aspecto o esplendor dos esplendores. Que realização integral da Beleza! Fascina e deslumbra. Mas seria injustiça consagrar o poemeto só como realização do Belo. Na fala sobrenatural que consola a morte de Fernão Dias, há mesmo uma comoção ondulante, uma frescura impetuosa de mar ....
Sinto que o sonetista admirável da ‘Via Láctea’ devia ter amado, e muito, para escrever esses fortes e comoventes decassílabos. E há no poemeto uma grande originalidade. É todo perfumado por uma alegria sã, por uma jovialidade transparente, natural, comunicativa. ....
Há no livro que analisei [Tarde] alguns poemas admiráveis. Fora injustiça passar em silêncio essa verdade. Não só pela perfeição técnica, valem eles; mas pela idéia também. Assim ‘Ciclo’, ‘Língua portuguesa’, ‘Dualismo’, ‘Respostas na sombra’ (talvez pela maneira com que o ouvia recitar numas reuniões dominicais de que me não esqueço), ‘A um poeta’ e o formidável ‘O cometa’.
Quando devorei Tarde pela primeira vez, o meu pensamento parou estarrecido (não sei se me compreendem) diante destes versos:

Um cometa passava... Em luz, na penedia,
Na erva, no inseto, em tudo uma alma rebrilhava;
Entregava-se ao sol a terra, como escrava;
Ferviam sangue e seiva. E o cometa fugia...

Assolavam a terra o terremoto, a lava,
A água, o ciclone, a guerra, a fome, a epidemia;
Mas renascia o amor, o orgulho revivia,
Passavam religiões... e o cometa passava,

E fugia, riçando a ígnea cauda flava...
Fenecia uma raça; a solidão bravia
Povoava-se outra vez. E o cometa voltava...

Escoava-se o tropel das eras, dia a dia:
E tudo, desde a pedra ao homem, proclamava
A sua eternidade! E o cometa sorria...


Reli. Tornei a ler. Creio mesmo que treli. Qual! não compreendia! Que diabo! Olavo fizera simbolismo! ou coisa que o valha? Não podia ser! Reli. Qual! não entendia! Senti que me pesava a minha alma parnasiana! Joguei-a fora. Eureca! Esplendor! Fecundação! As palavras brilhavam como vidas. As idéias palpitavam como profecias.”
(Excertos de “Mestres do Passado – IV: Olavo Bilac”, in Obra Reunida cit., pp. 37-46.)

A beleza que percorre a obra poética bilaquiana já foi convincentemente exemplificada. Mas ainda com uma composição gostaria de ilustrá-la, o soneto “Nel Mezzo del Camin...”, das Sarças de Fogo, com o título dantesco, a construção quiásmica do quarteto inicial, o enjambement em que o autor era mestre, no segundo, a superação de um lugar-comum nos tercetos de fecho de ouro, o conjunto aureamente impactante de musicalidade e lirismo. Era também da especial predileção de nosso saudoso Miketen, Antônio Roberval Miketen, que em torno dele construiu o ensaio crítico “Bilac — o Poeta da Estruturação” (Enigma e Realidade, Thesaurus, Brasília, 1983, pp. 21-35):

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que o teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.


Não faltam observadores que enxergam na poesia de Bilac uma planície em que não sobressai sequer uma colina erguida por preocupações de natureza filosófica, lato sensu. Não veem bem. Na fase anterior a Tarde, sim, predominam largamente o narrativo, o descritivo, o épico, o lírico, o erótico; nesse livro, entretanto, principalmente nos poemas derradeiros, o relevo ganha elevações desse tipo. E são exemplares magníficos. Não vamos fazer o levantamento orográfico, mas gostaria de exemplificar a dúvida e a esperança metafísicas com dois desses sonetos.
A dúvida, vejo-a embutida na ironia que perpassa os versos de “O Cometa”, lido há pouco, na citação de Mário de Andrade. Um de seus mais gloriosos píncaros. Para a esperança, hesito entre o heróico de “Os Sinos” ou de “Sinfonia” e o também vibrante “Introibo!”, pelo qual acabo me inclinando, por me parecer que, afinal, transita da aspiração para a fé:

Sinto às vezes, à noite, o invisível cortejo
De outras vidas, num caos de clarões e gemidos:
Vago tropel, voejar confuso, hálito e beijo
De cousas sem figura e seres escondidos...

Miserável, percebo, em tortura e desejo,
Um perfume, um sabor, um tato incompreendidos,
E vozes que não ouço, e cores que não vejo,
Um mundo superior aos meus cinco sentidos.

Ardo, aspiro, por ver, por saber, longe, acima,
Fora de mim, além da dúvida e do espanto!
E na sideração, que, um dia, me redima,

Liberto flutuarei, feliz, no seio etéreo,
E, ó Morte, rolarei no teu piedoso manto,
Para o deslumbramento augusto do mistério!

E seja esse o ponto final de minha evocação do venerando mestre.

                                                              Brasília, outubro-novembro de 2018