quarta-feira, 29 de maio de 2019

POSSE DE ARNALDO MESQUITA SANTOS JÚNIOR NA ACADEMIA DIVINOPOLITANA DE LETRAS


Por Francisco José dos Santos Braga



A saudação do Acadêmico João Carlos Ramos ao novo Acadêmico Arnaldo Mesquita Santos Júnior foi originalmente publicada no jornal Agora de Divinópolis, edição de 29/05/2019, página 2.










































No dia 24 de maio de 2019, a Academia Divinopolitana de Letras-ADL e o público divinopolitano presenciaram uma cerimônia muito bonita, digna deste registro. Digna de nota foi a presença de várias personalidades, inclusive do ex-deputado Jaime Martins e do vereador Edson de Souza. 

O protagonista da festa, ARNALDO MESQUITA SANTOS JÚNIOR, tomou posse como Acadêmico na ADL, após a Missa em memória do saudoso Acadêmico Dom Belchior Joaquim da Silva Neto. A solenidade de posse na ADL, impecável em todos os aspectos sob a presidência do Presidente Flávio Ramos de Assis Pereira e do Vice-Presidente Augusto Fidelis, aconteceu no Centro Franciscano de Formação e Cultura, com a participação da banda Lira Vicentina Aterradense, que a abrilhantou. O empossando vem de ocupar a Cadeira 27, patroneada por Rubem Braga, que se encontrava vaga desde a morte da saudosa Acadêmica Yara Ferreira Etto.



Suas palavras foram de agradecimento: “Agradeço imensamente a minha querida amiga e primeira Rainha Geisa Greco, pelo impulso a candidatura. Aos confrades e confreiras, que me elegeram e me acolheram na ADL, ao Maestro Fabiano Botinha e à Lira Vicentina Aterradense por me honrar com sua participação, a Prefeitura Municipal de Luz, na pessoa do sr. Ailton, pelo apoio prestado, e também agradeço aos Franciscanos da Província de Santa Cruz, pela presteza em nos receber. Enfim, agradeço a todas e todos que me ajudam, e estão comigo, neste e em outros tantos momentos, estão e fazem parte do é-terno em mim!
Avante, xavante, cantemos, a paz, o bem e a alegria!!!” 

DISCURSO DE RECEPÇÃO AO ACADÊMICO ELEITO ARNALDO MESQUITA SANTOS JÚNIOR 



Exmo. Sr. Presidente da Academia Divinopolitana de Letras Flávio Ramos de Assis Pereira. Honrosos Confrades e honrosas Confreiras. 
Autoridades civis, militares e eclesiásticas. 
Senhoras e Senhores! 

Boa noite! 
Inicialmente, agradeço a Deus pela oportunidade concedida, nessa noite histórica. 

Também, quero agradecer ao ex-Presidente da ADL, Professor Fernando de Oliveira Teixeira, pelo honroso convite para recepcionar ao acadêmico empossando em nome de nossa entidade que tanto orgulha a cidade do Divino. 

Igualmente, agradeço ao atual Presidente Flávio Ramos de Assis Pereira por estender o “tapete vermelho” para o desfile de meu verbo. Ansiosamente aguardado. Sabemos que o herói ACADEMOS doou uma propriedade, contendo o famoso jardim, que oportunamente serviria como espaço para o Filósofo Platão se reunir com seus discípulos. Surge então a história das Academias de Letras... 

No ano de 1634 o Cardeal RICHELIEU, que era primeiro-ministro do Rei LUÍS III e arquiteto do ABSOLUTISMO francês, funda a famosa ACADEMIA FRANCESA DE LETRAS, que se tornaria modelo para as academias de todo o mundo que viriam surgir, inclusive a BRASILEIRA. 

Em 1961, os CAVALEIROS DO SABER DIVINOPOLITANO, JADIR VILELA DE SOUZA, SEBASTIÃO BEMFICA MILAGRE, JOSÉ MARIA CAMPOS E CARLOS ALTIVO, seguindo o nobre exemplo, fundam a gloriosa ACADEMIA DIVINOPOLITANA DE LETRAS. 

Com o falecimento da médica e acadêmica YARA FERREIRA ETTO, cujo patrono era o cronista Rubem Braga, se torna vaga a cadeira de número 27. O escritor ARNALDO MESQUITA SANTOS JÚNIOR, natural do Município de Luz (MG) e residente em Divinópolis, ouviu os tambores do destino, entrando na fila que felizmente culminou com sua eleição como membro efetivo para ocupar a referida cadeira. 

Fui designado pelo ex-Presidente Dr. Fernando de Oliveira Teixeira para ser o porta-voz da entrada triunfal do ilustre acadêmico nos jardins de Academos. Dizia o fundador da ABL, Machado de Assis: “Sejamos um braço do Amazonas. Guardemos em águas tranquilas e sadias o que ele acarretar na marcha do tempo”. Aproveito para citar um verso sublime do empossando ARNALDO JÚNIOR: “A borboleta possui um mistério tão sublime, tão singelo! Na borboleta vemos nosso destino e nosso flagelo”. Esse verso fala por si só da qualidade do espírito acadêmico que tivemos a honra de eleger. Devo acrescentar que o empossando é professor da rede estadual de ensino, psicólogo notável e paladino dos injustiçados na teoria e na prática. Devo assinalar que também é REI DO CONGADO no município de Luz e sua luz se irradiou em Divinópolis. 

A Academia Divinopolitana de Letras recebe, nessa noite memorável, o grande escritor que coroará ainda mais nosso crescimento cultural.” Vem, ó jardineiro da hora tardia! As flores precisam crescer com o corte da pena ajuizada! Alguns imortais se põem com o sol, devido à neve dos anos. Precisamente, acabas de chegar com a indomável força dos homens que fazem história, plantando novos ideais. A Academia Divinopolitana de Letras está em júbilo, nesta noite histórica, cheia de estrelas. Os cegos queriam ver esse momento, como diria BENJAMIM CONSTANT, se referindo a assinatura da lei áurea por Isabel, a Redentora. As algemas são quebradas! O impossível se faz pó! A Academia Divinopolitana de Letras abre as portas de ouro para recebê-lo, sabendo que todos o aplaudirão e a posteridade seguirá o seu exemplo. Parabéns, imortal ARNALDO MESQUITA SANTOS JUNIOR! 

Tenho dito.

Obrigado!





domingo, 12 de maio de 2019

PERFUME DE MÃE


Por Rute Pardini



Ao acordar, me deparo 
mais uma vez com as rosas do meu jardim. 
Admiro seu encanto à sombra do coqueiro. 
Me aproximo. Surpreendida por tanta beleza, 
sinto o perfume: jambo. 
Cá estou eu, me agacho, amparo as rosas 
que de tão lindas vou abraçá-las com muito carinho, 
lembrando da minha mãe. 
Hum... que delícia! 


É, gente... sem minha mãe. 
Esse perfume aqui cheira a jambo. 
Esse aroma deve ser uma gota de toda a fragrância
que tem minha mãe a seu dispor lá no céu. 
Hoje fui presenteada com essa rosa perfumada.

Desejo um bom dia das Mães a todas as amigas mamães
e as nossas mães que hoje estão no céu. 

E, cheirando mais uma vez as rosas do meu jardim, 
recomendo: Aproveitem o cheirinho de mãe,
enquanto podem!

quarta-feira, 8 de maio de 2019

ENTRONIZAÇÃO DO RETRATO DO PREFEITO FÁBIO NELSON GUIMARÃES NO SALÃO NOBRE DO PAÇO MUNICIPAL DE SÃO JOÃO DEL-REI


Discurso proferido por Francisco José dos Santos Braga
Membro do IHG de São João del-Rei 


Exmo. Sr. Prefeito de São João del-Rei, Sr. Nivaldo Andrade, 
Exmo. Sr. Vereador são-joanense, Sr. Jorginho Hannas, 
Ilmo. Dr. José Egídio de Carvalho, Presidente da ACI-Associação Comercial e Industrial de São João del-Rei, 
Ilmos. confrades de IHG, Antônio Gaio Sobrinho, Ana Maria Oliveira Cintra e Betânia Maria Monteiro Guimarães, 
Ilmo. Sr. João Bosco de Castro Teixeira, nesta oportunidade representando a Academia de Letras de São João del-Rei, 
Prezados são-joanenses que aqui comparecem a essa cerimônia, 


Permitam-me retroagir 60 anos atrás para verificarmos o que acontecia em fins da década de 1950 em São João del-Rei.

Fábio Nelson Guimarães (✰ São João del-Rei, 23/10/1932 ✞ 01/07/1996)

Uma criança portando uma sacola com vidros vazios adentra a Farmácia Guimarães do farmacêutico Onésimo Guimarães. Seu filho Fábio Nelson Guimarães pode ser visto atrás do balcão, ao lado de Aluízio José Viegas. Fábio tinha cursado Farmácia na UFJF, onde marcou presença na cultura acadêmica, tendo sido o orador na formatura de sua turma, em 1957. Tendo voltado a São João del-Rei, passa a ajudar seu pai na direção da farmácia. A criança tem sorte, porque tanto Aluízio quanto Fábio não são muito rígidos na hora de avaliar os vidros. Após a contagem dos vidros, vem a negociação. O preço é fixado. Diante do olhar triste da criança, eles costumam usar de certa brandura e clemência ao compensá-la pela venda. Aquela criança é este que vos fala. 

Fábio teve uma ascensão meteórica naquela década de 1960: tendo cursado Farmácia em 1957, como vimos, tornou-se bacharel em Filosofia em 1962, pela Faculdade Dom Bosco. (Mais tarde, em 1980 tornou-se bacharel em Direito, pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais de Barbacena.) Na FDB, teve uma marcante presença política estudantil, quando dirigiu o DASTA-Diretório Acadêmico São Tomás de Aquino e lançou o mensário Conquistas, órgão oficial do DASTA. Durante esta época, a convite de Pe. Luiz Zver, foi sócio-fundador do C.A.C.-Centro Artístico e Cultural, cujo primeiro Conselho Diretivo tomou posse em 26/07/1959; Fábio ficou responsável pelo Departamento de História. Ao mesmo tempo, Fábio foi o fundador do Museu Tomé Portes del-Rei, na casa onde nasceu Bárbara Eliodora, inaugurado em 17/07/1959. 

Encaminhando-nos à década de 1960, Fábio publicou Fundação Histórica de São João del-Rei (1961), O Município de São João del-Rei aos 250 anos de sua criação (1963), Antônio Garcia da Cunha, o fundador de São João del-Rei (1966), Roteiro turístico de São João del-Rei para a IV Convenção do Distrito L-11/1968, Informações turísticas sobre a cidade de Tiradentes (1968) e Padre José Maria Xavier (1969). 

Foi sócio fundador da Sociedade dos Amigos de São João del-Rei (23/6/1960) e seu primeiro presidente provisório. 

Em 1962 dirigiu e ministrou aulas no primeiro Curso de Turismo em São João del-Rei, promovido pelo SENAC. Naquele curso teve por aluna Betânia, aquela que viria a tornar-se sua esposa e mãe de seus filhos. 

Em junho de 1962 Fábio tornou-se presidente do C.A.C.-Centro Artístico e Cultural. Ainda em junho, logo no início de sua gestão como presidente do C.A.C., Fábio convidou e foi aceito o convite para Paulo Kruger Corrêa Mourão (irmão do General Olímpio Mourão Filho, ex-comandante do Regimento Tiradentes) vir a São João pronunciar duas conferências intituladas O Barroco e as Igrejas de São João del-Rei e Um Estudo sobre São João del-Rei antigo

Em 18/9/1962 Fábio foi eleito sócio correspondente por unanimidade pelos membros do IHG-MG. O que tinha garantido o seu ingresso foi a publicação do livro Fundação Histórica de São João del-Rei, um ano antes. 

Em 1963 foi autor da letra do Hino dos 250 anos da Vila de São João del-Rei. 

Acumulou os cargos de secretário e chefe de gabinete do prefeito Nelson José Lombardi (1963-1966), ocupando o cargo de prefeito interino de São João del-Rei (de 12/09/1966 a 24/09/1966).

Fábio Nelson Guimarães, secretário e chefe de gabinete, despacha com o Prefeito Nelson José Lombardi
Mas o mais importante ainda estava por vir: o seu casamento com Betânia Maria Monteiro Guimarães em 10/07/1965, na Matriz de Dom Bosco, em cerimônia oficiada por Pe. Luiz Zver. Esse passo importante em sua vida lhe trouxe a estabilidade e a despreocupação necessárias à realização de seus grandes ideais, tendo, a partir dali, em Betânia sua grande colaboradora e companheira de vida. Desse enlace nasceram Flávia, Afrânio Augusto, Andréa e Márcia. 

Fábio trabalhou durante muitos anos na Escola Estadual Cônego Osvaldo Lustosa e no Colégio Tiradentes. Convidei seu aluno Luiz Artur Fiche de Carvalho para esta solenidade para representar centenas de seus alunos e ele aqui está para reverenciar e enaltecer a memória de seu mestre Fábio, professor de Ciências Físicas, Químicas e Biológicas em 1975 na E.E. Cônego Osvaldo Lustosa. 

Fábio foi sócio fundador do Lions Clube de São João del-Rei e seu quarto presidente, no ano leonístico 67/68. 

Em 1968 foi graciosamente o primeiro diretor do Ginásio Dr. Kléber Vasques Filgueiras, da CNEG-Campanha Nacional dos Educandários Gratuitos. 

Tornou-se cavaleiro-comendador da Ordem dos Templários (armado, sagrado e investido em 7/12/1969) e da Ordem dos Bandeirantes. 

No final da década, revelou-se um indispensável idealizador das duas entidades que se seguiriam ao fechamento do C.A.C. em 1969: o Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei (01/03/1970), do qual foi tanto sócio-fundador quanto primeiro presidente, bem como a Academia de Letras de São João del-Rei, criada em 08/12/1970. 

Muitas outras realizações para a cidade de São João del-Rei são o apanágio do meu homenageado, mas essas podem ficar para outra ocasião. Por uma questão de tempo e espaço, vou limitar-me à referida década de 60. 

Fábio faleceu em 1º de julho de 1996 em São João del-Rei. 

Recentemente, pedi que fosse registrada em ata do IHG-SJDR minha fala sobre o professor Fábio Nelson Guimarães, cuja memória está sendo resgatada em todas as nossas reuniões ordinárias deste ano de 2019. Na minha referida fala mencionei pelo menos os seguintes fatos relevantes para o IHG: Fábio representou brilhantemente a nossa cidade em todas as Instituições culturais de que participou como sócio (por exemplo, IHG-MG, IHG-JF e AMULMIG-Academia Municipalista de Letras de MG). Também mencionei o seguinte episódio esquecido dos historiadores de São João del-Rei: é que Fábio Nelson Guimarães foi prefeito desta cidade por 13 dias (12 a 24/09/1966), quando o prefeito Nelson José Lombardi se desincompatibilizou do cargo para concorrer à Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Na ordem de preferência para ocupar o cargo vago, estava, primeiro, o vice-prefeito Dr. Cid de Souza Rangel, que abdicou do direito de ocupá-lo e, em segundo lugar, o presidente da Câmara dos Vereadores, Dr. Altamiro Braga, que também desistiu de assumi-lo. Minha interpretação é que já era conhecido, talvez até nomeado, o interventor para substituir o ex-prefeito até completar o final do mandato em 31/01/1967. Provavelmente os dois políticos são-joanenses tenham considerado a posse como prefeito em caráter de interinidade, até a chegada do interventor, um grande desgaste que poderia afetar sua futura carreira política. Para a Prefeitura não ficar acéfala, o secretário e chefe de gabinete do ex-prefeito, Fábio Nelson Guimarães, conhecedor de toda a burocracia da Prefeitura, tomou posse, permanecendo no cargo de prefeito interino por 13 dias, até que o General Antônio Carlos Mourão Ratton "nomeado pelo Exmo. Presidente da República interventor federal deste Município" tomasse posse para a conclusão do mandato do ex-prefeito Nelson José Lombardi até a posse do novo prefeito eleito, Milton de Resende Viegas, em 31/01/1967. De fato, nem Fábio Nelson Guimarães, nem o General Antônio Carlos Mourão Ratton tiveram seus mandatos referendados pelas urnas. O que não se pode concordar, a bem da justiça, é que apenas o retrato do General Mourão Ratton apareça na Galeria de ex-Prefeitos de São João del-Rei neste Salão Nobre "Basílio de Magalhães". O nome de Fábio Nelson Guimarães como prefeito interino consta do "Registro dos Termos de Posse dos Prefeitos de São João del-Rei de 1930 a 1992", razão por que este são-joanense tem reivindicado junto à Câmara de Vereadores que o retrato de Fábio também conste da Galeria de ex-Prefeitos de São João del-Rei entre os dos prefeitos Nelson José Lombardi e General Mourão Ratton, no Salão Nobre "Basílio de Magalhães".

Livro de Registro dos Termos de Posse dos Prefeitos de São João del-Rei de 1930 a 1992
Termo de entrega da Prefeitura Municipal de São João del-Rei pelo ex-Prefeito Nelson José Lombardi

Este são-joanense justificou o seu pedido pela elevada responsabilidade funcional de Fábio diante da ameaça de uma situação de anomia ou até mesmo de quebra da autoridade municipal, podendo desaguar na anarquia ou desorganização social, na época dos fatos aqui narrados. Fábio não hesitou e aceitou corajosamente assumir total responsabilidade diante da situação atípica aqui relatada. 

Exmo. Vereador Jorginho Hannas, 
Tive a sorte de encontrar em V. Excia. um ouvinte atencioso que, diante de minha exposição de motivos, se sensibilizou com a minha abnegada proposição e colocou à minha disposição o seu Gabinete para concretização do meu sonho: num flagrante desrespeito à verdade histórica prevaleceu a injustiça praticada contra um servidor público municipal, quando lhe foi retirado, por 53 anos, o direito de perfilar a Galeria de ex-Prefeitos neste espaço público. Imediatamente, convenceu-se V. Excia. de que o Prefeito Nivaldo Andrade jamais se furtaria a fazer valer a verdade histórica, cumpridor como é da legalidade, isto é, de todos os contratos, tratados, convênios, acordos, convenções e pactos, sendo, por isso mesmo, merecedor de nossa admiração e apreço. 

Tive o prazer de trabalhar sob o comando dele na Chancelaria da Comenda da Liberdade e Cidadania, em 2011, e testemunhei bem o seu estilo de trabalho proativo e propositivo, razão por que passei a estimá-lo e afirmo aqui publicamente minha admiração pelo seu trabalho à frente da Prefeitura Municipal de São João del-Rei. Estamos, pois, diante de uma injustiça que clama aos céus para ser reparada pelo Prefeito Nivaldo Andrade, a pedido de V. Excia. 

Exmo. Prefeito Nivaldo Andrade, 
Está nas mãos de V. Excia., prefeito sempre sensibilizado com os assuntos históricos da cidade e anseios sociais de nossa população, autorizar a colocação do retrato do Prefeito Fábio Nelson Guimarães, assim resgatando a verdade histórica e concedendo ao historiador homenageado o direito póstumo de ocupar o legítimo e merecido espaço nesta Galeria de Retratos de ex-Prefeitos de nossa Municipalidade, autorizando a imediata colocação de seu retrato no seu lugar mais do que merecido. 

Finalmente, tenho o prazer de representar aqui o IHG de São João del-Rei, onde exerço o cargo de Secretário de Relações Institucionais, que agradece ao Vereador Hannas e ao Prefeito Nivaldo a simpática receptividade a esta minha iniciativa que, efetivada pelas mãos dos dois políticos conterrâneos, engrandece a história são-joanense. 

Muito obrigado!

♧               ♧               ♧



AGRADECIMENTO 

    
A Rute Pardini Braga pelas fotos que formatou e editou para os fins desta matéria.


Estou discursando...


















Prefeito Nivaldo Andrade exibe
"Registro dos Termos de Posse dos Prefeitos de São João del-Rei de 1930 a 1992"

Prefeito Nivaldo Andrade discursa


















Vereador Jorginho Hannas discursa
Foto geral da assembleia presente à solenidade
Da esq. p/ dir.: Betânia com o "Registro dos Termos de Posse dos Prefeitos de São João del-Rei de 1930 a 1992", sua filha Flávia e sua cunhada Júnia
Retrato do Prefeito Fábio Nelson Guimarães "no seu lugar mais do que merecido"

Rute Pardini Braga, a fotógrafa deste evento

sexta-feira, 3 de maio de 2019

ARQUIVOS MUSICAIS MINEIROS


Por Aluízio José Viegas


I SIMPÓSIO LATINO-AMERICANO DE MUSICOLOGIA, Curitiba, 10-12 jan 1997. Anais. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1998, p. 110-130.

Aluízio José Viegas (✰ São João del-Rei, 26/03/1941-✞ Nova Lima, 27/07/2015)


INTRODUÇÃO 


Em Minas Gerais existe um expressivo número de acervos musicais, especialmente de música sacra e de obras para banda. Mesmo após as pesquisas de Curt Lange ¹ e divulgação de seus resultados, muitos desses acervos continuam ignorados, entregues ao esquecimento.

Até princípios do século XX, proliferavam, em Minas Gerais, grupos musicais encarregados de prover a música sacra nas cerimônias religiosas da Igreja Católica. Por menor que fosse a cidade, vila ou lugarejo, ali havia música para a Igreja e, junto desses grupos, a banda de música.

Com as modificações advindas do Motu Proprio de Pio X (1903) ², a grande maioria desses grupos caiu em declínio e muitos encerraram suas atividades, especialmente na utilização do coro e orquestra nas igrejas. Com isso, os acervos musicais sacros, geralmente anexos aos das bandas de músicas, foram relegados ao silêncio, cedendo lugar às músicas recomendadas pelo documento pontifício ³.

Entretanto, muitas localidades continuaram a cultivar o gênero sacro de coro e orquestra até o Concílio Vaticano II (1961-1965) ,  quando então esta prática foi praticamente suprimida. Somente São João del-Rei e as vizinhas Prados e Tiradentes, por um consenso entre as entidades musicais existentes e as autoridades eclesiásticas locais, baseadas na longa tradição e no grande amor à música sacra por suas populações, fez permanecer a prática de coro e orquestra nas igrejas.

Após as múltiplas interpretações – corretas e incorretas – das decisões conciliares, houve um ressurgimento da música sacra. Por um lado, posições radicais favoráveis à extinção de todas as manifestações que possuíssem os rótulos de tradição, latim, liturgia, etc. Por outro, grupos conscientes do grande tesouro da música sacra têm envidado esforços para preservar, restaurar e criar grupos que possam, novamente, cultivar a prática de coro e orquestra nas igrejas.


 LOCALIZAÇÃO 


Os acervos de música brasileira que conheço, especialmente de música sacra, estão localizados em cidades próximas a São João del-Rei, na região do Campos das Vertentes . Além desses, há o do Museu da Música da Arquidiocese de Mariana, a Coleção Curt Lange do Museu da Inconfidência (Casa do Pilar) de Ouro Preto, o da Sociedade Musical Santa Cecília e o acervo particular da Família Aniceto, ambos de Piranga.

Em Conceição da Barra de Minas existe o acervo da banda de música local e o de propriedade dos descendentes do Maestro Mileto José Ambrósio, que ainda conheci na década de 1960, extremamente pobre e quase cego, predominando, neste último, peças compostas, copiadas ou obtidas por esse mestre. Ainda não foi realizada a catalogação das obras ali existentes.

Em Nazareno existe um material de propriedade da banda de música local, que ainda se executa nas festas religiosas, predominando cópias de Cunha Viegas, Secundo Marinho de Paula e de outros músicos locais. Nele existem obras comuns aos acervos regionais, com poucas obras de autores locais. A maior parte do acervo é destinado à banda de música.

Na Vila do Rio das Mortes, distrito de São João del-Rei, existe o acervo da banda de Música "Lira do Oriente", que contém música sacra do repertório regional.

Em Barbacena existe um pequeno acervo da Igreja, que contém muitas obras da autoria de Jacinto Augusto de Almeida (segunda metade do século XIX). Este músico e compositor foi criado pelo seu mestre de música Ribeiro Bastos (1835-1912). Convidado a lecionar música em Barbacena, transferiu sua residência para lá, onde faleceu antes de 1920.

Em Prados, o acervo de propriedade da Lira Ceciliana, fundada em 1856, tem obras importantes de música sacra. Segundo nos consta, a parte mais antiga e importante do arquivo, por incúria de familiares do músico que era o responsável pela sua conservação e que faleceu de doença contagiosa, foi incinerada como uma forma de profilaxia, perdendo-se importantes manuscritos dos séculos XVIII e XIX, incluindo, provavelmente, a maioria dos originais existentes de Joaquim de Paula Souza (17807-1842). Toda a produção do compositor Antônio Américo da Costa está preservada nesse arquivo e são seus descendentes os responsáveis pela direção da entidade. O Maestro Adhemar Campos Filho, regente, compositor e instrumentista, neto de Antônio Américo da Costa, é seu atual regente e diretor musical.

Um dos mais importantes acervos mineiros de música sacra está hoje concentrado no Museu da Música da Arquidiocese de Mariana, do qual foi célula mater o material encontrado em um armário na tribuna do coro da Sé-Catedral. Dom Oscar de Oliveira, hoje Arcebispo Emérito, incentivou a criação do Museu e conseguiu que a maioria dos acervos musicais das cidades da Arquidiocese de Mariana, onde existiam bandas de música e corporações musicais, fossem doados para que assim fossem preservados. D. Oscar justificava a iniciativa informando que, de acordo com as normas do Concílio Vaticano II relativas à música sacra, o material encontrava-se obsoleto e, para não ser eventualmente queimado ou servir de pasto às traças, seria melhor ficar resguardado no Museu da Música.

De fato, o Museu da Música de Mariana tem procurado, ainda que sem um apoio sistemático de órgãos constituídos, preservar o material que ali se encontra, oriundo de cidades como Mariana, Furquim, Barra Longa, Monsenhor Horta, Barão de Cocais, etc. Um acervo que existia na cidade do Serro foi adquirido pela FUNARTE, que o doou ao Museu da Música para ali ser preservado.

No Museu da Música existem obras de grande importância histórica, muitos manuscritos autógrafos e obras únicas. Muitos são os pesquisadores que têm obtido licença da direção do Museu para suas pesquisas com a elaboração de partituras, resgatando muitas obras do passado musical brasileiro. Hoje, composições de Lobo de Mesquita (17467-1805), Manoel Dias de Oliveira (1735-1813), Jerônimo de Souza Lobo (17xx-1800?), Pe. João de Deus de Castro Lobo (1794-1832) e de muitos outros anónimos, passaram a integrar o repertório de coros e, na impossibilidade de sua integração à liturgia nas igrejas, têm sido apresentadas em salas de concerto.

Em Ouro Preto, outrora grande centro musical, como capital que foi da Capitania das Minas Gerais, estão depositados na Casa do Pilar, do Museu da Inconfidência o acervo que pertenceu à Família Pompeu, de Campanha, um outro proveniente de Pitangui e a importantíssima Coleção Curt Lange. Há, ainda, em Ouro Preto, o material que pertenceu a D. Zizinha Cruz que, até sua morte, manteve o coro que abrilhantava as cerimônias religiosas tradicionais ouropretanas, com obras de compositores locais, predominando Jerônimo de Souza e Pe. João de Deus de Castro Lobo.

Em São João del-Rei estão concentrados, nas duas orquestras sacras (Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos), os dois mais importantes acervos de música sacra brasileira.


MATERIAL EXISTENTE 


No acervo da Orquestra Lira Sanjoanense (fundada em 1776) existe ainda muito material a ser pesquisado o qual, pela falta de recursos, ainda não foi catalogado. Somente agora, com a utilização da informática, será iniciado o levantamento de dados, que já conta com a aquisição da aparelhagem necessária. Neste acervo, como na maioria dos acervos mineiros, predomina o material manuscrito. Entre eles há expressivo número de originais autógrafos, especialmente de autores sanjoanenses, como o Padre José Maria Xavier (1819-1887), João Feliciano de Souza (1865-1925), João Francisco da Matta, Luiz Baptista Lopes (1854-1907), Marcos dos Passos Pereira (18 -1879) e muitos outros, cuja listagem é extensa. Entre as cópias do século XIX, predominam as de Hermenegildo José de Souza Trindade (1801-1887) que, se não primam pela beleza estética, são excelentes em precisão e em informações históricas, tais como autor, data da composição, origem da fonte, instrumentação, etc. Do século XX, predominam cópias de Fernando de Souza Caldas, Agostinho Mateus de Assis e Pedro de Souza.

É, também, expressivo o número de obras de autores estrangeiros, especialmente italianos do século XIX. Foi muito comum a aquisição de obras para vozes e órgão e que foram orquestradas por regentes sanjoanenses. Encontra-se, nesse caso, músicas de autores italianos como Luigi Rossi, Giuseppe Cerruti, Saverio Mercadante, Francesco Canetti, B. Accioli, etc., além de composições de outros autores europeus, como L. Bordèse, J. L. Bathmann e outros.

Atualmente, o acervo está resguardado em sala própria, isenta de infiltrações, em armários, estantes e arquivos de aço. Parte importante dele foi restaurada, especialmente manuscritos originais. Partituras e partes foram encadernadas, procurando preservar os documentos históricos. O material para uso da corporação é sempre constituído de cópias atuais, evitando-se, assim, o manuseio de manuscritos antigos.

O acervo da Orquestra Ribeiro Bastos identifica-se muito com o da Orquestra Lira Sanjoanense, existindo entre eles grande quantidade de obras idênticas, mas copiadas por diferentes copistas. Predominam, neste acervo, cópias de Francisco José das Chagas (1814-1859) e Martiniano Ribeiro Bastos (1834-1912). Do século XX, os principais copistas são João Evangelista Pequeno e Telêmaco Victor Neves. Há um expressivo número de autógrafos, sendo um dos mais importantes documentos as partituras dos Ofícios de Trevas de 4ª, 5ª e 6ª feiras da Semana Santa, de Antônio dos Santos Cunha, com duas versões distintas: a primeira apenas para vozes, cordas e trompas e a segunda com a inclusão de flauta e duas clarinetas. De Martiniano Ribeiro Bastos, patrono da entidade, toda a produção conhecida, em manuscritos autógrafos, está lá preservada.

Substituindo o Mestre Chagas na direção da corporação, em 1859, Ribeiro Bastos organizou o acervo e ampliou-o sobremaneira. O sistema de organização de arquivo pelo qual Ribeiro Bastos mantinha o seu acervo foi excelente para a época e, se hoje ele se constitui em uma das ótimas fontes de documentos musicais brasileiros, isto se deve a esse sistema. Cada obra era catalogada por um número simples, colocado na margem superior. As obras maiores eram encadernadas e, nas capas, com grande capricho, eram escritos o nome da voz ou do instrumento, o título da obra, o nome do autor e, no canto inferior direito, a propriedade - Ribeiro Bastos, R. Bastos ou, simplesmente, Bastos.

Segundo nos consta, essas capas eram realizadas por duas senhoras, uma delas professora de caligrafia, que julgo ser a Professora e Escritora Alexina de Magalhães Pinto (1870-1921), que a história sanjoanense cultua com grande orgulho, por seus notáveis trabalhos voltados ao folclore e à educação infantil.

Pelo vultoso acervo, pode-se afirmar que o Maestro Ribeiro Bastos passou grande parte de sua vida copiando música e encadernando partes, tendo sido esse capricho o responsável pela preservação de muitas obras e manuscritos únicos que hoje se constituem em fontes importantes para a historiografia musical brasileira.

Juntamente com o material sacro, Ribeiro Bastos possuiu importante biblioteca de partituras de óperas, a maioria em edições princeps para canto e piano, óperas reduzidas para quarteto de cordas, música de câmera e música de salão (valsas, polcas, mazurcas, etc.) e aberturas de óperas para grande e pequena orquestra.

No período de atuação do Maestro Martiniano, sua corporação musical era conhecida e chamada de "Orquestra do Ribeiro Bastos" e, após sua morte, em 8 de dezembro de 1912, passou a ser denominada "Orquestra Ribeiro Bastos", transformando-se em sociedade civil, com estatuto elaborado em 1949.

O arquivo musical e alguns de seus instrumentos eram propriedade particular do Maestro e, após sua morte, o herdeiro universal de seus bens foi o músico Japhet Maria da Conceição, seu filho de criação e aluno predileto. A corporação, dependendo do arquivo e dos instrumentos para sua sobrevivência musical, passou a adquirir do herdeiro, parceladamente, as músicas e instrumentos musicais, utilizando, para tal finalidade, os pequenos recursos obtidos de suas atividades nas igrejas sanjoanenses até, aproximadamente, 1950.

Infelizmente, uma considerável parte do acervo original não foi adquirida e teve fins diversos: parte da música de câmara, especialmente os quartetos de cordas, foi adquirida pelo Maestro João Cavalcante e, hoje, está em poder de sua família, em Belo Horizonte; as óperas, todas encadernadas com certo requinte, foram adquiridas pela Profª Janice Mendonça de Almeida. Devido a uma reforma em sua residência e sem ter como abrigar o que restava do acervo, os herdeiros de Japhet Conceição começaram a queimar as músicas que estavam em piores condições de preservação, dando este triste fim a muitas obras importantes. Ao tomar conhecimento do que ocorria, propus a aquisição do que restava de música sacra em manuscritos e impressos, constituindo, assim, o início de meu acervo pessoal, hoje incorporado ao da Orquestra Lira Sanjoanense, pelo qual sou o responsável.

Em 1992, o Maestro Ernâni Aguiar, o Prof. Alex Assis Milagre e eu iniciamos atividades enquanto equipe de pesquisa, preocupada com arquivos mineiros. A equipe foi ampliada com a inclusão de dois alunos do Maestro Aguiar, Carlos Eduardo Fecher e Francisco Sá d'El Rey. Pelos mínimos recursos diante do vultoso trabalho que pretendíamos realizar, desenvolvemos pesquisas somente em quatro cidades: Piranga, Carandaí, Mercês do Pomba e Rio Pomba.

A pesquisa em Piranga, apesar de incompleta, foi a que apresentou melhores resultados. Na Corporação Musical Santa Cecília, hoje uma banda de música, conseguimos selecionar, em verdadeiro trabalho de garimpo, cerca de cem obras que estavam misturadas com o material de banda. Dessas peças, muitas são encontradas em outros acervos. Entretanto, fomos surpreendidos pelo encontro de obras inéditas de Manoel Dias de Oliveira, Jerônimo de Souza Lobo, José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, Joaquim de Paula Souza e de um autor do século XVIII totalmente desconhecido – José Gomes Domingues – com um Ofício de Defuntos, do qual, infelizmente, só existe a parte de soprano.

O maior número de obras, porém, é de autores anônimos, como um Oficio para Domingo de Ramos para coro e baixo que, pelo tipo de papel, caligrafia e outras características, pode se tratar de obra e material da primeira metade do século XVIII. De um Credo a 4 vozes, 2 oboés, 2 trompas e cordas, já foi realizada a montagem da partitura, apresentada em concerto no Rio de Janeiro pela orquestra e coro da UNI-RIO. De Manoel Dias de Oliveira, localizamos uma notável Ladainha em Ré Maior, para 4 vozes, 2 trompas, violinos e baixo, da qual também foi preparada uma partitura que, apresentada em concerto, revelou-se uma das excelentes obras do compositor tiradentino.

Foi deste acervo que se definiu a versão correta da Missa Pequena em Dó Maior, de Joaquim de Paula Souza, pois nos manuscritos do Museu da Música, de Mariana, onde há material de diversas origens, as versões são confusas e foram muito alteradas pelos copistas. Um Credo do século XVIII, de autor anônimo, para 4 vozes, trompas, violinos e baixo, está sendo revisado para posterior divulgação. Como os manuscritos estão em estado precário de conservação, proporcionando grande dificuldade na leitura, os trabalhos são lentos e cansativos. O mesmo pode-se dizer do já referido Ofício de Domingo de Ramos, cujos manuscritos foram de tal maneira infestados de traças, que não podem mais ser manuseados, sob o risco de se perderem fragmentos. Felizmente, existem cópias posteriores da obra, apesar de incompletas, que facilitarão o trabalho, servindo os manuscritos antigos para uma conferência final. Do Pe. João de Deus de Castro Lobo, foi montada a partitura do In festo Pentecostes, ad Matutinum, cuja estreia contemporânea se deu em S. João del-Rei, durante o Inverno Cultural, sob a regência do Maestro Ernâni Aguiar. Realizamos uma listagem das 141 obras completas e incompletas encontradas em Piranga, com possibilidade de serem restauradas. Há, ainda, um bom volume de folhas soltas para serem pesquisadas.

Ainda em Piranga, de propriedade da Família Aniceto, existe um acervo de música sacra, pequeno, mas de grande importância pelas obras que contém. Um dos mais antigos manuscritos de obra musical brasileira, do final do século XVII ou princípios do século XVIII, está preservado nesse arquivo.

Em Carandaí, na Corporação Musical Santa Cecília, há um acervo que pertenceu ao Maestro Christovam Gonçalves Pinto, com um total de 123 obras. Grande parte do material ali existente foi copiado pelo seu proprietário, em São João del-Rei. Destacamos, nesse acervo, a Missa de Freitas Braus (?) para grande orquestra e a partitura original de um Te Deum de Francisco Manuel da Silva.

Em Mercês do Pomba e Rio Pomba, tinha-se notícia de um expressivo movimento musical no século XIX. Infelizmente, as pesquisas realizadas mostraram-se infrutíferas. As pessoas envolvidas na vida musical dessas localidades, atualmente, nada sabem a respeito de tal movimento, desconhecendo, inclusive, o nome de um compositor natural de Rio Pomba: Francisco de Paula Trindade.


ACESSO 


O acesso aos arquivos citados depende de seus proprietários. O Museu da Música da Arquidiocese de Mariana está hoje sediado no andar térreo da residência arquiepiscopal. Duas funcionárias catalogam o material e orientam os pesquisadores. Para pesquisas, é necessária licença e autorização especial, já que está sendo evitado o uso de cópia xerox para reprodução de documentos originais.

A Coleção Curt Lange, do Museu da Inconfidência, resguardada na Casa do Pilar, em Ouro Preto, não estava aberta à pesquisa até há bem pouco tempo atrás. Segundo a direção do Museu, a coleção (adquirida em 1982) estava sendo catalogada e microfilmada, estando já publicados dois dos três volumes previstos do seu catálogo temático. Hoje, no entanto, já é possível consultar os documentos musicais dessa coleção e iniciar sua pesquisa no âmbito musicológico.

A consulta ao acervo da Orquestra Lira Sanjoanense depende da autorização da Direção da entidade e da disponibilidade do responsável pelo arquivo. Brevemente, o acervo entrará em fase de catalogação e, nesse período, serão suspensas as pesquisas. A consulta ao acervo da Orquestra Ribeiro Bastos depende da autorização da Direção da entidade para pesquisas. Os acervos estudados pela Equipe de Pesquisa "Professor Curt Lange" não estão abertos a visitas e pesquisas: como os trabalhos não foram concluídos, orientou-se os proprietários a não consentir o manuseio das obras, até que seja elaborada a catalogação definitiva, para evitar-se problemas de modificação do arquivamento, ainda provisório.


TRABALHOS REALIZADOS


Dos arquivos pesquisados, já foram apresentados muitos trabalhos de restauração. Anualmente, uma extensa listagem de novas obras dos acervos das Orquestras Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos são restauradas, passando a integrar novamente o repertório das entidades. No acervo da Orquestra Lira Sanjoanense os trabalhos de restauração e revisão de partituras e cópias têm sido feitos por Aluízio Viegas e Geraldo Barbosa de Souza.

A Equipe de Pesquisa "Professor Curt Lange", dentro de suas possibilidades ainda mínimas, pretende continuar seus trabalhos na localização e organização de acervos. Se houver um apoio institucional, existe a possibilidade de acelerarem-se os trabalhos sobre tais acervos e de se publicar seus catálogos temáticos, que terão grande valia para os que se dedicarem à pesquisa musicológica.

À guisa de informação, anexamos a este trabalho uma listagem sumária de pequena parte do acervo da Orquestra Lira Sanjoanense, nela constando somente obras de autores mineiros, particularmente os sanjoanenses. O código "C" indica obra completa (todas as partes vocais e instrumentais preservadas) e "I" obra incompleta. 


NOTAS EXPLICATIVAS 


¹ Francisco Curt Lange faleceu em 3 de maio de 1997. Sua última vinda ao Brasil ocorreu em janeiro de 1997, por iniciativa deste Simpósio (nota da Comissão de Publicação).
 
² Entre as principais determinações de Pio X estava o cuidado com o "funesto influxo que sobre a arte sacra exerce a arte profana e teatral", característica crescente do repertório sacro católico dos séculos XVIII-XIX. Existe edição em português do Motu Proprio de Pio X, entre outros, em: Lyra Sacra: Cânticos a Nossa Senhora: parte IV: Ladainhas. Braga, S. Fiel, 1904. p. 7-12. 

³ No Motu Proprio de 22 de novembro de 1903 existe uma Instrução sobre a música sacra em 29 artigos, no terceiro dos quais determina-se que "uma composição para a igreja tanto mais sacra e litúrgica será, quanto mais no andamento, inspiração e sabor se aproximar da melodia gregoriana; e tanto menos digna será do templo, quanto mais se afastar d'aquele supremo modelo". Cf. Lyra Sacra, op. cit, p. 9.

 Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II: constituições, decretos, declarações, documentos e discursos pontifícios. São Paulo, Edições Paulinas, 1967. 669 p.

 O primeiro catálogo de manuscritos musicais e documentos importantes para a pesquisa histórico-musical encontrados em acervos mineiros (Diamantina, Mariana, Prados, São João dei Rei e Tiradentes) foi publicada por: BARBOSA, Élmer Corrêa (org.). O ciclo do ouro: o tempo e a música do barroco católico; catálogo de um arquivo de microfilmes; elementos para uma história da arte no Brasil; pesquisa de Élmer C. Corrêa Barbosa; assessoria no trabalho de campo Adhemar Campos Filho, Aluízio José Viegas; Catalogação das músicas do séc. XVIII Cleofe Person de Mattos. Rio de Janeiro, PUC, FUNARTE, XEROX, 1978. 454 p. 
 O Maestro Adhemar Campos Filho, convidado a participar deste I Simpósio, não pôde comparecer por motivos de saúde. A Comissão Organizadora, no entanto, decidiu incluir seu nome na lista dos convidados para o II Simpósio (janeiro/98), mas o Maestro Adhemar faleceu em 19 de julho de 1997 (Nota da Comissão de Publicação).

 Cf. CASTAGNA, Paulo. 0 manuscrito de Piranga (MG). Revista Música, São Paulo, v. 2, n. 2, p. 116-133, nov. 1991.

 Estamos omitindo o Anexo apresentado pelo Prof. Aluízio José Viegas por fugir ao escopo informativo do presente trabalho e por questão de espaço da presente matéria, podendo, para tanto, ser usado o link fornecido como Fonte para a referida informação.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 


BARBOSA, Élmer Corrêa (org ). O ciclo do ouro: o tempo e a música do barroco católico; catálogo de um arquivo de microfilmes; elementos para uma história da arte no Brasil; pesquisa de Élmer C. Corrêa Barbosa; assessoria no trabalho de campo Adhemar Campos Filho, Aluízio José Viegas; Catalogação das músicas do séc. XVIII Cleofe Person de Mattos. Rio de Janeiro, PUC, FUNARTE, XEROX, 1978. 454 p.

CASTAGNA, Paulo. O manuscrito de Piranga (MG). Revista Música, São Paulo, v. 2, n. 2, p. 116-133, nov. 1991.

Concílio Ecumênico Vaticano II: constituições, decretos, declarações, documentos e discursos pontifícios. São Paulo, Edições Paulinas, 1967. 669 p.

Lyra Sacra: Cânticos a Nossa Senhora: parte IV: Ladainhas. Braga, S. Fiel, 1904. 160 p.

MUSEU DA INCONFIDÊNCIA (Ouro Preto, MG). Acervo de manuscritos musicais: Coleção Francisco Curt Lange: Coordenação geral: Régis Duprat; Coordenação técnica: Carlos Alberto Baltazar. Belo Horizonte, Universidade Federal de Minas Gerais. 1991-1994. 2 v. [v. 3: no prelo]

Fonte: https://archive.org/stream/AluizioJoseViegasArquivosMusicaisMineiros/2008-ArquivosMusicaisMineiros_djvu.txt

quarta-feira, 1 de maio de 2019

110 ANOS SEM O COMPOSITOR JOÃO F. DA MATTA


Por Francisco José dos Santos Braga



Em memória do Sr. Múcio Lo-Buono, Juiz de Paz de Oliveira-MG, professor do Ginásio Prof. Pinheiro Campos, fundador da Lira Municipal Oliveirense (05/05/1973), executante do harmônio e regente do Coral Múcio Lo-Buono, coordenador dos atos externos da Semana Santa e do Setenário das Dores e responsável pela organização de procissões e do Desfile de 7 de Setembro (✰ 1929 ✞ 30/04/2019).

João Francisco da Matta (foto restaurada pelo historiador 
Silvério Parada em 2009) a pedido de Aluízio José Viegas






“Eu sou o João da Matta.” 

Em artigo assinado por Asterack Germano de Lima, intitulado “A nossa Música e o seu Passado”, publicado em O Correio, São João del-Rei, edição de 28 de julho de 1938, lê-se:
“No grande acervo da arte que palpita scintillante e immorredoura nos annaes desta historica cidade que pomposamente festeja o seu centenario, a 28 do corrente, a grandeza do seu passado artistico mais se accentúa, quando se manuseam as paginas que registam os fastos da arte musical, tão soberbamente cultuada pelos nossos maiores, nas partituras que nos legaram. (...) No domínio da música sacra (...) João da Mata – o preto tropeiro – que daqui sahia acompanhando cargas destinadas ao interior do oeste mineiro, por vezes, em interessantes peripecias, deixava à mostra o seu grande talento artistico.
Em certa occasião aportara à cidade de Pitanguy, descalço e com uma indumentaria mais que humilde. Assentara-se à porta de uma casa de abastado senhor, afim de ouvir a execução de uma sua partitura. O violino cantava o texto, tendo por acompanhamento um piano. Tal era a deturpação do que estava escripto, que João da Matta não se conteve – bateu à porta, pediu licença às senhoritas executantes e disse-lhes:
“Ha um engano, as senhoras não estão acertando no compasso”.
– Que! Você tem coragem de dar opinião sobre musicas de João da Matta?!... Tanto insistiu, que lhe deram o violino; ficaram então scientes de que o tropeiro era um grande musico, e mais ainda, que era o João da Matta. (...)” 
Esse episódio envolvendo João Francisco da Matta tornou-se muito conhecido por ter sido citado por diversos biógrafos. A última frase é uma de minhas favoritas, pois evidencia um artista que estava consciente do seu valor e da contribuição que estava trazendo para a música sacra e popular brasileira. Já tenho dedicado alguns anos a desvendar João da Matta, o são-joanense descendente de escravos que descobriu seus maiores talentos como discípulo de Martiniano Ribeiro Bastos. Há quem acredite que muito do que João da Matta sabia como músico adquirira como autodidata aprimorado pelo convívio, indo muito além dos ensinamentos do Prof. Ribeiro Bastos. O fato é que se tornou afinador de pianos, instrumentista, maestro e compositor à moda italiana sem nunca ter saído do Brasil. Dentro do país, porém, transitou por onde quis. Partindo de São João del-Rei, sua terra natal, atingiu com a sua labuta de tropeiro os mais longínquos rincões, desde os sertões mineiros (Sul, Oeste e Zona da Mata) até à Corte, no Rio de Janeiro. Há quem diga, inclusive, que possa ter sido um dos precursores do samba, no início do século XX. 

Incógnita 

Não são poucos os jornais mineiros a mencionarem João da Matta (só em São João del-Rei, cito especialmente os periódicos contemporâneos Arauto de Minas e Pátria Mineira); muitos também são os elogios a ele vindos de figuras como Antônio Carlos Gomes, autor da ópera O Guarani e nada menos que o primeiro brasileiro a ganhar holofotes nos principais teatros italianos. Ainda assim, é rodeado de mistérios. Um deles envolvendo seu acervo de criações.

Aluízio Viegas contabilizou pelo menos 35 partituras sacras reconhecidamente assinadas por João da Matta no arquivo da Lyra Sanjoanense. Isso sem falar nas obras profanas associadas a ele e às quais ainda não tive acesso. Acontece que a inventividade do músico se igualava a outros seus dons. Tropeiro viajante e assumidamente boêmio, João da Matta vendeu composições por onde passou. E muitas se perderam ou se encontram em arquivos particulares ainda não identificados. Como era um músico muito prolífico e errante, até o momento foi possível rastrear sua passagem e permanência em Lavras, Oliveira e Mar de Hespanha, cidades onde escreveu muitas composições e onde criou um bom círculo de amizades, dando margem a alguns escritores mencionarem que ele teria nascido numa ou outra dessas localidades.  Por exemplo, até o próprio historiador são-joanense, Augusto Viegas, in Notícia de São João del-Rei, incorreu em equívoco atribuindo a naturalidade oliveirense ao nosso músico João F. da Matta. Informa Viegas na 3ª edição (1969) às páginas 89-90 o seguinte: 
Cabe lembrar neste tópico o grande músico João da Mata, natural da vizinha Cidade de Oliveira, pois que aqui, ao lado de insignes musicistas e notáveis mestres, se revelou sua individualidade artística. Como compositor, deixou magníficos trabalhos, notabilizando-se também como exímio executor, que tocava, com perícia, diversos instrumentos de sôpro e de corda.
O conceituado historiador oliveirense Luiz Gonzaga da Fonseca não endossa a opinião do historiador são-joanense. [FONSECA, 1961: 237-8], no capítulo VIII – Cultura e Intercâmbio Cultural, tece o seguinte comentário muito favorável a respeito de São João del-Rei e da irradiação sanjoanense:
“Podemos dividir a evolução cultural de Oliveira em três ciclos: 1 – ciclo embrionário; 2 – ciclo sanjoanense; 3 – ciclo oliveirense.”
Adentrando o ciclo sanjoanense, comenta: 
“(...) Mas a verdadeira eclosão intelectual de Oliveira começa em 1860, com a vinda de um jovem sacerdote de 33 anos de idade – padre José Teodoro Brasileiro – cuja inteligência robusta e cuja personalidade poderosa abrem na história local um novo ciclo de cultura. Ora, por todo o oeste mineiro se irradiava, nessa época, um movimento cultural que podemos chamar de irradiação sanjoanense. Das margens do rio Grande às do São Francisco, as cidades pensavam através de um cérebro: São João del-Rei. Em São João vicejava uma elite intelectual composta de tribunos, jornalistas, escritores, poetas, artistas e maestros. Sanjoanense como era, o vigário José Teodoro Brasileiro, então moço e idealista, procurou atrair para Oliveira uma centelha da cultura sanjoanense, trazendo de lá músicos e educadores: maestro João da Mata, maestro Marcos dos Passos, prof. Francisco de Paula Brasileiro e sua esposa, a mestra Ambrosina Brasileiro.
Noutra seção do livro, [FONSECA, 1961: 371-2] acrescenta a seguinte apreciação do mestre tropeiro: 
João Francisco da Mata era pobre, preto e plebeu, percorrendo os três PPP que José do Patrocínio atribuía a si mesmo. Mas era um gênio esse esmolambado João da Mata que percorria as ruas de Oliveira, bebendo a sua cachacinha e espargindo à flux as suas magníficas composições musicais. Se estala a Abolição da Escravatura, brota-lhe do cérebro o Hino da Liberdade. Se vem o 15 de Novembro de 1889, rabisca João da Mata um Hino Republicano, para concorrer com os maiores compositores do país. Em Oliveira, fez ele muita música bonita que, reunida, constituiria uma boa contribuição ao patrimônio musical do Brasil. 
[FONSECA, 1961: 414] refere-se novamente ao Hino da Liberdade, quando da Abolição da Escravitura em 13 de maio de 1888:  
(...) Pela primeira vez foi tocado nesse mesmo lugar o hino da Liberdade, sublime composição do insigne maestro mineiro João Francisco da Mata. 
Antes disso, [FONSECA, 1961: 251-2] informa que a 08-05-1888 chegava à cidade de Oliveira, vindo de São João del-Rei, o bispo-mártir Dom Antônio de Macedo Costa, Bispo do Pará, que se fazia acompanhar do cônego Francisco de Paula da Rocha Nunan, Vigário de São João del-Rei. D. Macedo Costa é chamado pelo autor o estilista da "Questão Religiosa", orador destemido e companheiro heróico de D. Vital na questão epíscopo-maçônica.
“(...) Na comitiva episcopal figuravam o irmão do bispo, dr. Francisco de Macedo Costa, suas sobrinhas Maria Francisca e Marcolina Macedo Costa, cônego Nunan, Júlio Reis, organista da catedral do Pará, Nuno Telmo de Melo e Alfredo Neves, redator do hebdomadário sanjoanense Opinião Liberal. Triunfal foi a entrada de D. Macedo na cidade: bimbalhar de sinos, foguetes, salvas pirotécnicas, discursos. Môças e crianças, formando alas à sua passagem, desfolhavam flôres sôbre D. Macedo, enquanto uma banda musical executava um Ecce Sacerdos magnus, musicalizado aqui ¹, a propósito, pelo maestro João da Mata. (...)
Tenho notícia das seguintes composições de João da Matta em Oliveira:
Motetos do Setenário das Dores: O vos omnes, Cui comparabo te, Plorans ploravi nocte, Vide Domine, Qui est homo qui non fleret, Stabat Mater (música diferente) e Flammis ne urar], cada um num "Passinho", sendo o 1º na igreja dos Passos e o último na Matriz de Nossa Senhora de Oliveira. Minueto das Dores
Ladainha no último dia do Setenário das Dores
Marcha de Dores “Vítima” (no depósito e na Procissão de Dores).

Quanto às músicas profanas atribuídas ao negro tropeiro, maestro e compositor, devo informar em primeiro lugar que no jornal A Pátria Mineira (edição de 03/10/1880) ele anunciou a venda de diversas coleções de músicas, aí incluídas “marchas, dobrados, polcas, modinhas e hinos patrióticos”, sem especificar infelizmente se eram peças de sua autoria, talvez por isso ser óbvio para os leitores, mas frisando sua condição de são-joanense: 
“Espero que os meus bons conterrâneos me favoreçam, comprando-me algumas músicas, visto ser o seu produto para auxiliar a minha viagem à Corte, onde vou publicar uma artinha musical e diversas composições minhas.” 
Por outro lado, consta que a Fundação da Biblioteca Nacional mantém diversas peças da autoria de João da Matta no seu catálogo de partituras. Embora ainda não tenha podido manuseá-las, entretanto posso citar os seus títulos:
Minh’alma é triste” (arranjo para poesia de Casimiro de Abreu),
Os Monarchas” (quadrilhas para bandas),
Miragem!” (marcha festiva),
Canção dos cantos miridionaes” (sic) (poema por Fagundes Varella musicado),
Romance do moço loiro” (poesia de Joaquim Manuel de Macedo musicada).

Em minhas pesquisas, encontrei também no jornal Gazeta Mineira, edição de 1º de agosto de 1891, Anno VIII, nº 352, p. 2, a seguinte notícia: 
“Do nosso conterrâneo e inspirado compositor maestro João da Matta, recebemos o Tango das Moças, música impressa em Juiz de Fora, na typographia dos srs. Leite Ribeiro & Cia.” 

Além dessas peças, fala-se muito de um Hino da Liberdade, composto para a Abolição da Escravatura, e um Hino Republicano, intenso, dinâmico, grandioso, para concorrer com os maiores compositores do país.

No distrito do Rio das Mortes Pequeno, no arquivo da Corporação Musical “Lira do Oriente Santa Cecília”, cujos Mestres-fundadores foram Pedro “Sapo” e João F. da Matta em 22/11/1895, consultei um Histórico redigido por Roberto Múcio da Silva em 30/10/1995 em homenagem ao 1º centenário da corporação musical, no qual afirma que João da Matta “exercia a profissão de tocador de porcos, desta região para a Zona da Mata”. No referido arquivo, localizei ainda duas marchas festivas inéditas para banda, da autoria do negro tropeiro, intituladas “Belleza” e “João da Matta”. 

Dentre as suas composições sacras mais conhecidas, destaco a antífona Tota Pulchra es Maria (para a Sexta-feira Santa), um hino mariano festivo que se soma, também, ao solo ao pregador para tenor: Veni Creator Spiritus (composto em Lavras, 4/9/1873); a antífona Sub tuum praesidium; Stabat Mater nº 1 em si bemol (executada na Sexta-feira Santa na Solene Ação Litúrgica durante a Adoração da Cruz, em São João del-Rei; marcha fúnebre “João da Matta” (executada na Quarta-feira Santa, após a visitação aos Passinhos ² e ao término da Procissão das Dores, no interior da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Prados e também em Lagoa Dourada). Além disso, a Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) também cataloga a antífona Ave Maris Stella e uma Missa Carmelitana em Dó. Merecem destaque ainda, com base no mencionado catálogo de partituras da Fundação da Biblioteca Nacional, além das partituras de música profana, as seguintes partituras de João da Matta: Missa Assumpção de Nossa Senhora, a quatro vozes, dedicada a D. Pedro II; Marcha de Santa Anna; Marcha Fúnebre (editada no RJ pela casa Narciso & Arthur Napoleão/1870), etc., etc. 

Mulatismo cultural 

O grande envolvimento dos mulatos com a música fez com que Francisco Curt Lange cunhasse com a expressão “mulatismo cultural” a atividade musical no Brasil, principalmente em Minas Gerais. Esse termo associa a figura do mulato com música e brasilidade. 

Durante o século XVIII e início do XIX, a contratação dos músicos no plano civil era feita pelo sistema de arrematação, por meio da qual o Senado da Câmara pagava pela música das festividades estatais e das celebrações religiosas que promovia. A música se beneficiava dos recursos públicos devido à instituição do regime do padroado, no qual o Rei acumulava as funções de chefe de Estado e de líder religioso. O sistema de arrematação desapareceu na segunda década do século XIX, o que, para José Maria Neves, provocou um desaquecimento na atividade musical. O pesquisador são-joanense Aluízio José Viegas discorda de seu conterrâneo José Maria Neves, no que se referia à Vila (e depois, a partir de 1838, cidade) de São João del-Rei. O que se nota, segundo este, foi a profusão de compositores no século XIX, ao contrário de outras vilas. A vida musical em São João del-Rei se intensificou na segunda metade do século XIX. Assim,
(...) o calendário religioso amplia-se e as duas corporações compostas de coro e orquestra, sentem a necessidade de ampliar seus repertórios, num sentido competitivo de fornecer a melhor música a quem as contratasse”. 
Com isso, a atividade musical se tornou uma via que conferia prestígio aos melhores executantes e, principalmente, aos compositores. Daí, o crescente surto de composições em São João del-Rei no século XIX. 

É sabido que, em São João del-Rei, na época do Brasil Colônia e Brasil Império, a organização social se achava muito estratificada com base na cor de sua população e as corporações musicais e irmandades de São João del-Rei espelhavam essa situação. A Lira Sanjoanense, fundada em 1776 por Mestre José Joaquim de Miranda, avô do compositor Pe. José Maria Xavier, era integrada por "rapaduras" (membros negros, negros forros, pardos, etc.), ao passo que a Orquestra Ribeiro Bastos, fundada em 1840 por Mestre (Francisco José das) Chagas e concorrendo com a Lira Sanjoanense, era integrada por "coalhadas" (membros oriundos da elite branca). Também as irmandades religiosas são-joanenses se dividiam entre aquelas que faziam contratos com a Orquestra Lira Sanjoanense (Irmandades da Nossa Senhora da Boa Morte dos Homens Pardos, de Nossa Senhora do Rosário e de Nossa Senhora das Mercês) e as outras que mantinham contrato com a Orquestra Ribeiro Bastos (Irmandade do Santíssimo Sacramento, Ordens Terceiras de Nossa Senhora do Carmo e de São Francisco de Assis). Claro que não havia uma regra rígida, como a apresentada acima, para essa estratificação. 

Nascimento e morte 

Interrogações também rondam o nascimento de João da Matta. Uma das dificuldades na pesquisa genealógica é que filhos de escravos eram, nos livros de batizados paroquiais, nomeados pelo prenome, no caso “João”. Uma pista pungente sobre a origem dele estaria em dois possíveis assentos de batismo, ambos no Arquivo da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, em São João del-Rei, localizados pelo saudoso musicólogo, historiador e pesquisador Aluízio José Viegas. Esse pesquisador e profundo conhecedor da música são-joanense dizia ter quase certeza de que um registro de batismo, – que se encontra em nossa atual Catedral Basílica, e que contém uma “lacuna”, – seria, com muita probabilidade, o registro do batismo de João da Matta. Não posso deixar de referir-me ao livro “Coalhadas e Rapaduras”, da Coleção Lageana e lançado pela AmiRCo em 2014, onde, na seção de Agradecimentos (p. 17), o autor Eduardo Lara Coelho inclui Aluízio Viegas entre seus benfeitores nos seguintes termos:
“(...) Aluízio também teve grande disponibilidade em rever alguns trechos já escritos e ajudar na pesquisa no Arquivo Diocesano da Matriz de Nossa Senhora do Pilar de São João del-Rei. (...)” Segundo Lara, que dedica a parte final de seu livro a João da Matta (p. 210-233), os prováveis assentos de batismo de João F. da Matta, citados pelo autor nas páginas 211 e 212 do seu livro são dois: o primeiro, datado de 08/02/1844, muito legível na margem e no corpo do assento, sem lacuna e com registro claro, enquanto o segundo, de 28/05/1832, está rasurado ou danificado pelo cupim na margem e a grafia oferece grande dificuldade ao pesquisador (diferentemente do anterior). Sabendo-se que João da Matta faleceu em 04 (ou 05) de junho de 1909 em Serranos, distrito de Aiuruoca, ele devia ter 65 ou 77 anos completos por ocasião de sua morte, caso aceitemos respectivamente como data de seu batismo a primeira hipótese (de 1844) ou a segunda (de 1832). Pelas razões expostas acima sobre "lacuna" e ilegibilidade, de acordo com as próprias orientações de Aluízio Viegas, sou levado a descartar a primeira opção para registro da naturalidade do músico tropeiro. Opto pelo segundo assento de batismo (de 1832) por duas razões: por corresponder melhor às características descritas por Viegas quanto à “lacuna” que dizia existir, e por ser o único a trazer bem identificado o nome de seu pai, no caso “João da Mat(t)a”.

Portanto, acho mais razoável aceitar como sendo de João Francisco da Matta o seguinte registro de batismo (ilegível na margem), que se encontra no Livro de Batizados de 1819-1837, fl. 311v., com as características descritas por Aluízio Viegas: 
“(...) Aos vinte oito de Maio de mil oito centos e trinta e dois nesta Matriz de Nossa Senhora do Pillar da Villa de São João de El Rey o Reverendo Coadjutor Joaquim Joze de Souza Lira baptisou e pos os Santos Oleos a João filho legitimo de João da Mat(t)a e Antonia Maria de São Pio sendo os padrinhos Manoel Joze da Costa Machado, e Joanna Maria Joze Albuquerque (?) Carmelo (?) todos desta Freguezia. 
                                   O Vig.° Luiz José Dias Custódio” 


Quanto ao falecimento de João F. da Matta ocorrido em Serranos, um distrito de Aiuruoca, o jornal são-joanense O Reporter, Anno V, nº 47, edição de 17 de junho de 1909, p. 2 divulgou a triste notícia. 

Finalmente, a música 

Ele foi um músico completo, conforme testemunham periódicos e livros existentes em meu acervo particular e na Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida – a mais antiga de Minas Gerais, inaugurada em 1827 – em São João del-Rei. Foi aí, entre cerca de 30 mil volumes nas prateleiras, que encontrei publicações históricas sobre João da Matta em antigos periódicos são-joanenses.  Todas embasaram palestras ou artigos publicados por mim em meus blogs. Num deles, aliás, destaco o seguinte: 
“Consta que Matta tocava todos os instrumentos de sopro que possuem três chaves ou válvulas (tendo sido virtuose no oficleide) e alguns de corda. Além disso, era pianista, tendo se apresentado em concertos em todo o Oeste e Sul de Minas, atuando ainda como insigne professor de música, hábil afinador de pianos e compositor ativo e fértil, com forte influência da ópera italiana, como a maioria dos seus contemporâneos”.  ³ 
Sobre esse talento múltiplo, lembro ainda que seu dom pianístico só ficou conhecido por testemunhos de quantos o tinham ouvido tocar. Lamento que não tenhamos acesso a composições para o piano, assinadas pelo Maestro são-joanense. Por isso, se algo foi escrito por João da Matta para piano solo, ainda não se tornou conhecido, infelizmente. O que temos são peças para orquestra e coro. Por outro lado, muito se fala em composições profanas que podem estar espalhadas pelas cidades por onde passou e vendeu suas partituras. Como vimos acima, é possível também que exista parte do seu acervo na Biblioteca Nacional, mas o importante a assinalar aqui é que grande parte da sua obra foi impressa em editoras brasileiras de música e tudo indica que o negro tropeiro foi o compositor são-joanense com mais obras musicais publicadas em vida. 

Os “limites da raça” 

Embora a data de nascimento exata de João da Matta ainda seja um mistério, é possível rascunhar o contexto de sua chegada ao mundo. E para negros como ele, no Brasil, o cenário não era dos mais favoráveis. 

Seja nos anos de 1830 ou 1840, o parto do menino João ocorreu em plena “Era Escravocrata” de um país que só tenderia ao abolicionismo a partir de 1850, com a Lei Eusébio de Queirós – proibindo o tráfico de africanos. 

Localmente, no entanto, havia outras nuances sociais. Algo que classifico como “os limites da raça”. Acredito que ele tenha nascido escravo e, em certa altura da vida, tenha conseguido a alforria. Naquela época, negros, mulatos e pardos tinham a chance de alcançar melhor status social se se dedicassem às artes. Foi o caso de João da Matta, que se descobriu sob a batuta de Martiniano Ribeiro Bastos, lembrando que o próprio Ribeiro Bastos era mulato. Não só ele como outros grandes nomes da música são-joanense eram mulatos, como o Padre José Maria Xavier (1819-1887), cujo bicentenário de nascimento celebramos neste ano, e Presciliano José da Silva (1854-1910). 

Há também, nas páginas dessa história, grandes ironias. Estamos falando sobre uma época muito estratificada, dividindo as pessoas com base no poder aquisitivo, na religião e, sobretudo, na cor. O prestígio que João da Matta conquistou representou, então, superação pessoal. E essa sua trajetória significou muito para a mineiridade e a História brasileira. 

Coalhadas e Rapaduras 

A distinção por cor da pele se refletia, portanto, no próprio meio musical. E foi pano de fundo para certa “rivalidade” entre a Orquestra Ribeiro Bastos e a Lyra Sanjoanense no século XIX. À época, os primeiros foram apelidados como Coalhadas e os últimos como Rapaduras. João da Matta pertenceu à Orquestra da Lyra Sanjoanense (ou seja, era um rapadura), conforme comprova o estandarte da Sociedade Lyra S. Joanense, trabalho de Luiz Batista Lopes, benzido solenemente a 31/03/1889. 

Estandarte da Sociedade Lyra S. Joanense, trabalho de Luiz Batista Lopes, originalmente benzido solenemente a 31/03/1889 e refeito em 1976 a partir do original. O nome de João F. da Matta aparece à direita do ramo verde superior. Crédito pelas imagens: Rute Pardini.

No meio de uma disputa por favoritismo e apreço do público, os títulos jocosos ganharam duas explicações. Uma delas de que faziam referência à branquitude da Ribeiro Bastos (fundada em 1840) – embora tivesse como maestro um músico afrodescendente – e à negritude da Lyra (fundada em 1776). 

Em entrevista ao Jornal das Lajes, no entanto, o historiador e escritor Eduardo Lara Coelho frisa: 
“Essa versão é pouco confiável, visto que os dois grupos eram majoritariamente compostos por negros e tocavam para instituições de brancos, pardos e negros. A outra versão se relaciona ao fato de que a sede da Ribeiro Bastos seria próxima de uma fábrica de queijos. Daí os integrantes da Lyra chamarem os da Ribeiro de Coalhadas. Esses, para não ficarem por baixo, chamaram os da Lyra de Rapaduras”.  
Confusões 

Nenhum desses impasses, no entanto, se compara às confusões pessoais de João da Matta. Tropeiro, livre, boêmio e afeito ao álcool, o músico protagonizou episódios turbulentos em sua biografia. 

Um deles teria ocorrido em 1891, de acordo com um processo criminal acusando o músico de “ofensa física” a Vicente Mendes, em Oliveira. Cinco anos mais tarde, outro crime foi associado a Matta, que teria esfaqueado Cândido José Fernandes em São João del-Rei. Por esse crime, ficou preso até abril de 1897. Fato é que a fama de arruaceiro se espalhou pelas cidades no Campo das Vertentes, a ponto de o jornal Arauto de Minas (edição de 11/10/1883) publicar uma nota, destacando que 
"o nosso maestro, retirando-se da cidade de Oliveira, trouxe honrosos atestados de autoridades e pessoas altamente colocadas, asseverando ter sido irrepreensível o seu procedimento naquele lugar”. 
Essa publicação era extremamente conservadora. Ainda assim, o periódico reservou espaço a João da Matta, de poucas posses e de vida errante, por considerar sua importância artística. Com esse discurso, mencionando as autoridades, o texto parece dizer: ‘Fiquem tranquilos. Ele é um bom homem’. 

Reconhecimento 

Também Juiz de Fora soube valorizar o talento de João da Matta. Conta-se que no jornal O Pharol (edição de 12/10/1890) foi transcrita a crônica de Gustavo Pena, sobre o famoso filho de São João del-Rei, que realizara no Teatro Novelli, em Juiz de Fora, um concerto musical 17 anos atrás, ou seja, em 1873. Vejamos as palavras do cronista: 
“(...) Há, talvez, 17 anos ouviu o escritor destas linhas este juízo a respeito do maestro mineiro, pronunciado pelo imortal autor do ‘Guarani’: “Que esplêndido talento tão desaproveitado... Se vocês querem, eu vou pedir ao imperador que lhe conceda uma pensão, para ir seguir o curso no Conservatório de Milão”.
E acrescentava, com franqueza escoimada de falsa modéstia:
Assim como encontrei quem me amparasse, quando não passava de um pianista acaipirado, desejo também por minha vez ser útil aos que ainda lutam na obscuridade.” 

Algo que não aconteceu. Infelizmente, ele jamais estudou fora do país. O que se comenta em São João del-Rei é que João da Matta teria recusado a bolsa de estudos intermediada por Carlos Gomes para estudar na Itália por causa de seu casamento recente com Ambrosina Silva da Matta. Ao menos essa é a tese ventilada, em que não acredito todavia. Mas ainda há algo mais curioso nessa história: seis anos depois dos fatos narrados, é outro são-joanense, Presciliano José da Silva, quem iria para Milão. Após ter estudado humanidades no Colégio Imperial no Rio de Janeiro, Presciliano embarca em 19/04/1879 para a Itália, de posse de uma bolsa de estudos obtida junto ao imperador D. Pedro II, e matricula-se na Real Escola de Milão, onde se gradua. Há alguma característica que une Matta e Presciliano? Sim, ambos eram igualmente negros, discípulos de Martiniano Ribeiro Bastos e músicos talentosos. De volta ao Brasil, Presciliano desenvolveu atividades musicais em Cantagalo, Nova Friburgo e Campinas. 

O episódio que envolveu João da Matta e Carlos Gomes levou o poeta Bento Ernesto Júnior a fazer-lhe um elogio lapidar no ano de 1938 em artigo intitulado “A Música em São João del-Rei”, no jornal A Tribuna nº 1268, em edição especial de 40 páginas: 
“O pobre negro, em a noite de sua desgraça, teve um farto raio de luz a iluminar-lhe a personalidade humilde na grande admiração que por toda parte se lhe dedicava e a consagração invulgar da mais rutilante glória da música brasileira – o grande, o imortal Carlos Gomes, que proclamou João da Matta uma das mais admiráveis organizações musicais, que lhe fora dado conhecer.” 
Buscas
 
Intrigado com os achados das minhas pesquisas iniciais, quero descobrir mais. Considero que há muitas dúvidas em torno dessa figura tão emblemática. Então sigo investigando a história, jornais, livros. Quero ir aonde houver um arquivo sobre João da Matta. 

Nessa jornada, já perambulei por alguns municípios e distritos onde Matta supostamente esteve. Possuo material coletado em Oliveira que é suficiente para abastecer inúmeros artigos. Quero, agora, fazer minhas buscas no Rio de Janeiro. Corte Imperial entre 1850 e 1870, a cidade era constantemente frequentada pelo músico, que inclusive vendia partituras quando de suas passagens por sua cidade natal São João del-Rei e outras cidades mineiras para custear viagens até a Corte. 

Ali teria conhecido músicos que, mais tarde, dariam início ao gênero samba no Brasil. “Almirante”, pseudônimo de Henrique Foréis Domingues (1908-1980), que organizou, abnegadamente, importante arquivo pioneiro da Música Popular Brasileira, cita João Francisco da Matta como companheiro, na cidade do Rio de Janeiro, dos precursores do samba e um dos introdutores do gênero samba no Brasil. 

Tido como uma lenda, João F. da Matta faleceu em Serranos, distrito de Aiuruoca, Minas Gerais, em 1909. Um negro genial admirado por toda parte e aclamado enquanto vivo, pranteado na época da morte e, finalmente, reconhecido como figura representativa de um século por ocasião do 1º centenário da Cidade de São João del-Rei (1938), nas páginas de “O Correio” principalmente, do “Diário do Comércio” e de “A Tribuna”. 

Como herança deixou outro músico, o filho Targino da Matta. Sabemos que foi um violoncelista e trompetista extraordinário, que brilhou na Orquestra Ribeiro Bastos no final do século XIX e início do XX, notabilizando-se em Belo Horizonte – para onde se transferiu posteriormente. 

Finalmente, estou feliz pela oportunidade de falar um pouco sobre minhas pesquisas focalizando o negro tropeiro João Francisco da Matta, Maestro são-joanense cuja memória merece sempre ser reverenciada sobretudo por seus conterrâneos, especialmente neste ano de 2019 quando comemoramos 110 anos de seu falecimento em Serranos, distrito de Aiuruoca

Como vimos, algumas poucas matérias jornalísticas foram publicadas em São João del-Rei durante a vida de João F. da Matta, principalmente sob a forma de anúncios de vendas de partituras; poucas matérias saíram na época da morte do músico, sobretudo nas cidades onde deixou saudade e, finalmente, em maior quantidade e em número cada vez mais crescente, após o trespasse de nosso homenageado, especialmente por ocasião do 1º centenário da Cidade de São João del-Rei festejado em 1938 - trazendo as impressões de seus autores sobre os traços marcantes de João da Matta, sua vida e sua obra. 

O objetivo deste trabalho é incentivar outros pesquisadores a ampliarem o debate salutar sobre o genial João Francisco da Matta, trazendo a lume o que já existe escrito sobre ele e, ao mesmo tempo, contando com o compartilhamento de novas informações e produções do compositor são-joanense ainda desconhecidas, porventura existentes nas cidades que ele percorreu em sua profissão de tropeiro. 

Catálogo de partituras de João Francisco da Matta: 

Modinha Flores d’Alma 
Polca Estrela Vésper 
Quadrilhas A Opulenta 


Tota pulchra es Maria (antífona) 
Missa Stella Missa São Sebastião 
Missa de Santa Cecília 
Missa Assunção de Maria 
Missa da Sacra Família 
Missa “La Speranza” 
Missa N. Sra. de Lourdes 
Veni e Domine da Sacra Família 
Veni e Domine para a Novena do Carmo 
Sub tuum praesidium 
Hino à Santíssima Trindade 
Tota pulchra em si bemol 
Ave Regina Caelorum 
Ave Maria Hino de Santa Teresa de Jesus 
Stabat Mater Vidit suum 
Te Deum nº 1 
Te Deum de Santa Efigênia 
Te Deum “Rosa de Ouro” 
Tantum Ergo 
Ecce Sacerdos magnus 
Semeneorum 
O Sacrum Convivium 
Ave Maris Stella – antífona 
Quem terra pontus – solo ao pregador 
Regina Mundi – antífona 
Benedictus – alternado – a cappela 




NOTAS EXPLICATIVAS

¹ “Ecce Sacerdos Magnus” é uma antífona que a liturgia da Igreja Católica Romana utiliza para a entrada solene de um bispo. 

²  "Passinhos são capelinhas construídas em certos pontos das ruas por onde costuma passar a procissão do Encontro. Representam as estações da Via-Sacra. Tantos "passinhos", tantas paradas da procissão." (Cf. FONSECA, op. cit., p. 327)

³  Cf. BRAGA, Francisco J.S.: João da Matta, o compositor são-joanense mais publicado pelas editoras brasileiras de música, post de 27/11/2017 do Blog de São João del-Rei

https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2017/11/joao-da-matta-o-compositor-sao-joanense.html 
 

BIBLIOGRAFIA


BRAGA, Francisco J. S.: João da Matta, maestro e compositor são-joanense
https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2017/08/joao-da-matta-maestro-e-compositor-sao.html

________. Considerações de escritores sobre o Maestro e compositor são-joanense João da Matta
https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2017/08/consideracoes-de-escritores-sobre-o.html

________. João da Matta, o compositor são-joanense mais publicado pelas editoras brasileiras de música
https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2017/11/joao-da-matta-o-compositor-sao-joanense.html

COELHO, Eduardo Lara: COALHADAS E RAPADURAS: estratégias de inserção social de músicos negros em São João del-Rei (século XIX), Coleção Lageana, 2014, Resende Costa: amiRCo, 271 p.

FONSECA, Luiz Gonzaga: HISTÓRIA DE OLIVEIRA, 1961, Belo Horizonte: Editôra Bernaardo Álvares S/A, 457 p.
http://www.gazetademinas.com.br/Arquivos/historia-de-oliveira.pdf

MARTINS, Elaine: Historiador da UFSJ lança livro sobre músicos negros no século XIX e sobre a tradição musical de São João del-Rei, Jornal das Lajes, edição de 13/11/2014

VIEGAS, Aluízio José. Música em São João del-Rei de 1717 a 1900. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, São João del-Rei, nº V, 1987, p. 53-65.

VIEGAS, Augusto: NOTÍCIA DE SÃO JOÃO DEL-REI, 3ª edição, 1969, Belo Horizonte: Ed. n/d, 273 p.