quarta-feira, 21 de junho de 2017

Colaborador: José Augusto da CÂMARA TORRES


José Augusto da CÂMARA TORRES
(☆ Caicó, RN, 22.6.1917-✞Niterói, RJ, 22.8.1998) 
Jornalista, educador, advogado e político.


• Jornalista Profissional (repórter, redator, colunista, editor e correspondente) de diversos jornais e revistas de Caicó (RN), Niterói, Rio, Natal e Angra dos Reis e do extinto Serviço de Propaganda e Turismo do Estado do Rio de Janeiro, em momentos do período dos anos 1920 a 1952.
• Professor de História do Brasil, Língua Portuguesa, Literaturas Portuguesa e Brasileira, dos Colégios Salesiano, N. Sa. Das Mercês. e Ginásio Icaraí, de Niterói, nas décadas de 1930 e 1940.
• Técnico de Educação, por Concurso Público de provas e títulos, com defesa de Tese, oral e escrita, e Chefe da Primeira Inspetoria Regional de Ensino (Extremo Sul do RJ), de 1941-1953, com sede em Angra dos Reis, RJ.
• Deputado Estadual à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro por quatro mandatos sucessivos (1954-1970), representando, prioritariamente, Angra dos Reis e o Extremo Sul do Estado. Deixou, além de um notável legado de ética, probidade e coerência política, de nobres causas e lutas, de fidelidade aos seus representados, um importante patrimônio de leis e realizações, especialmente, na Educação, Cultura, e nos setores sociais e econômicos.
• Primeiro Secretário da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (1959-60).
• Membro do Conselho Estadual de Educação (1961-1962).
• Consultor Técnico de Educação do Estado do Rio de Janeiro, cargo no qual se aposentou.
• Secretário Estadual do Interior e Justiça (1968), com notáveis realizações, desenvolvimento e vanguardas promovidas nas áreas política, forense, penitenciária e das municipalidades.
• Secretário Estadual de Serviços Sociais (1971), com breve gestão de marcantes feitos.
• Advogado militante, eminente civilista, em todo o Estado do Rio de Janeiro, principalmente em Angra dos Reis e na Região Sul Fluminense, Niterói e Rio de Janeiro, de 1943 a 1998.
• Dirigente da OAB-RJ, onde criou e instalou as Subseções de Angra dos Reis e Paraty, presidindo a primeira em duas gestões.
• Intelectual ativo e produtivo durante toda a vida, é autor de um livro de ensaios, publicado aos 22 anos, e de centenas de outros ensaios, conferências, editoriais, artigos, reportagens, discursos em diversas áreas da Cultura, Ciências Humanas e Sociais (Sociologia, História, Direito, Política, Educação), Literatura e Folclore.
• Criador e modernizador de toda a estrutura física de Educação Pública Básica de Angra dos Reis e do Extremo Sul Fluminense, implantando administração, pedagogia, didática e serviços de excelência, adaptados à realidade regional, que alfabetizou e formou várias gerações de crianças e jovens.
• Membro Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e da Academia Valenciana de Letras; da Associação Brasileira de Escritores, um dos Fundadores do Instituto Histórico e Artístico de Paraty e Sócio Correspondente do Ateneu Angrense de Letras e Artes.
• “Cidadão Honorário” do Estado do Rio de Janeiro, de Angra dos Reis, Paraty, Rio Claro, Mangaratiba e outros municípios fluminenses.
• Detentor de dezenas de láureas e homenagens de instituições, públicas e privadas, políticas, educacionais, culturais, sociais, sindicais, filantrópicas, esportivas e religiosas nacionais e dos Estados do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Norte.
•  Primo dos Cardeais Dom Hélder Câmara e Dom Jaime de Barros Câmara; e do escritor Luís da Câmara Cascudo.

Autor: MARCELO Nóbrega da CÂMARA Torres in memoriam

CÂMARA TORRES E O ESTADO DO RIO DE JANEIRO


Por MARCELO Nóbrega da CÂMARA Torres

1917-2017
CENTENÁRIO DE CÂMARA TORRES 
José Augusto da Câmara Torres
(☆Caicó, RN, 22/6/1917-✞22/8/1998)
Jornalista, educador, advogado e político

Em 1960, a bordo do Patrício, no cais de Paraty, RJ




José Augusto da CÂMARA TORRES (1917-1998), jornalista, educador, advogado e político, foi, no Século XX, o mais importante líder comunitário e político do Extremo Sul Fluminense. Em quatro legislaturas consecutivas, e com votações crescentes, de 1954 a 1970, cumpriu mandatos na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, representando, prioritariamente, o povo de Angra dos Reis, Paraty, Rio Claro e Mangaratiba. Ocupou, ainda, as Secretarias de Estado do Interior e Justiça e de Serviços Sociais, e foi membro do Conselho Estadual de Educação. Era considerado um dos maiores especialistas e executivos em Educação e um dos mais brilhantes advogados do País, destacadamente nas áreas do Direito Civil. Na sua carreira política, sempre recebeu votos em todos os municípios fluminenses, porém a sua base era os municípios de Angra dos Reis, Paraty, Rio Claro e Mangaratiba, onde Câmara Torres militou politicamente por mais de sessenta anos, recebendo, nas eleições das quais participou votações maciças, que chegaram a ultrapassar os 80 por cento dos votos válidos no Extremo Sul Fluminense.

Em todo o Estado do Rio de Janeiro, advogou por mais de meio século, principalmente no Sul do Estado e nas cidades de Niterói e Rio de Janeiro. Técnico de Educação concursado, com defesa de tese, oral e escrita, chefiou a Primeira Região Escolar, no Extremo Sul do Estado, sendo o responsável pela criação, construção, instalação e ampliação de toda a rede de Educação Pública daqueles municípios. De 1942 até a sua morte em 1998, ele foi o protagonista das grandes conquistas socioculturais e econômicas da Região. Era aposentado como Consultor Técnico Estadual de Educação e como advogado, viúvo da professora Gertrudes Nóbrega da Câmara Torres - a Dona Tudinha - mestra de gerações de angrenses, falecida em 1989. Sua casa, primeiro em Angra, depois em Niterói, sempre foi chamada de "a embaixada da Região", aberta a todos cidadãs e cidadãos de todas as classes sociais e cores políticas, fossem seus eleitores ou não, clientes ou não, amigos ou desconhecidos.

Fiel e dedicadíssimo às comunidades que representava, Câmara Torres entregou àqueles municípios, com elevada dignidade e correção, mais de cinquenta anos de vida pública. O seu generoso coração sempre esteve ocupado por esses municípios que ele chamava de “pátrias íntimas”. Do início dos anos 1940 até a sua morte, não houve iniciativa ou conquista para o povo da Região que não contasse com a sua liderança, participação decisiva. Por isto, o Estado do Rio de Janeiro muito lhe deve como educador e político de muitas lutas, nobres causas e grandes realizações. No Extremo Sul Fluminense, de 1942 a 1953, triplicou o número de escolas e de matrículas no Ensino Fundamental. Implantou a Merenda Escolar na Região e participou e influiu, decisivamente, na implantação dos cursos de segundo grau, extracurriculares e profissionalizantes. Levou a Educação aos pontos mais distantes de todo o Extremo Sul Fluminense. Depois, como Deputado Estadual, legislou intensa e continuadamente na Assembleia Legislativa nas áreas da Educação, Cultura, Saneamento, Saúde, Transportes, Segurança Pública, Comunicações, Turismo e Meio Ambiente. Pugnou, com altivez, pelo Ensino Público de qualidade e pela valorização dos professores. Até a sua morte, era reconhecido como "o deputado das professoras", "o político da Educação Pública", um batalhador pela Educação Pública de qualidade, universal e gratuita, e por condições dignas de trabalho para os profissionais do setor. Por sua obstinada e desvelada dedicação ao povo dos municípios que representava, a Imprensa, algumas vezes, o criticava pejorativamente como sendo “o faz-tudo do povo da Região”.

EDUCAÇÃO E CULTURA

Nascido em Caicó, no Rio Grande do Norte, José Augusto da Câmara Torres, de família pobre e de ilustres intelectuais, como o grande Luís da Câmara Cascudo e os Cardeais Dom Hélder Câmara e Dom Jaime de Barros Câmara (este filho de um potiguar que migrou para Santa Catarina), o jovem chegou a Niterói com 15 anos, já com experiências no Jornalismo, revelando-se precocemente um intelectual de talento, orador, ensaísta, líder e ativista estudantil católico. Na juventude, fundou e editou jornais e dirigiu instituições culturais em sua terra natal e em Niterói. Foi aluno do Colégio Salesiano Santa Rosa e do Liceu Nilo Peçanha, formando-se pela Faculdade de Direito de Niterói, Bacharel em Direito e Ciências Sociais. Lecionou História do Brasil, Língua Portuguesa, Literatura Portuguesa e Brasileira nos Colégios Salesiano, Nossa Senhora das Mercês e no Ginásio Icaraí. Em 1939, foi aprovado em rigoroso concurso público para Técnico de Educação, de provas e títulos, quando defendeu tese, escrita e oral, sob o tema Educação Moral e Cívica, sendo nomeado Inspetor Regional de Ensino, e designado, em 1942, para a chefia da 1ª Região Escolar, no Extremo Sul Fluminense, com sede em Angra dos Reis, onde, recém-casado, foi residir. Dois anos depois, é novamente brilhantemente aprovado, em novo concurso ratificador, também com defesa de tese, oral e escrita, sob o tema A Inspeção Escolar na Escola Primária.

Em poucos anos, revoluciona a Educação na Região, introduzindo uma moderna gerência de administração escolar, novas técnicas de ensino e metodologias didático-pedagógicas de vanguarda, que valorizavam o professor, as culturas locais e integravam a comunidade à escola. Introduziu a merenda escolar em toda a Região, que encontrou com pouco mais de trinta escolas, deixando-a, em 1953, com mais de uma centena de unidades. Triplicou o número de crianças matriculadas na Região, de dois mil para seis mil estudantes. Promoveu, ainda, um intenso movimento cívico e cultural, realizando exposições e semanas de estudos pedagógicos, as famosas “excursões culturais” criadas por Rubens Falcão que faziam o intercâmbio entre escolas e estudantes de vários municípios, entre outros eventos que marcaram época. Nunca o Ensino Público atingiu níveis tão altos de excelência e eficácia no Extremo Sul Fluminense.

José Augusto da Câmara Torres foi, fundamentalmente, um homem da Educação e da Cultura. Mais que isto, um homem da Educação e da Cultura Fluminense. Seu curriculum profissional nos apresenta um trabalhador intelectual fértil, produtivo e brilhante: jornalista profissional aos treze anos, liderança estudantil e tribuno desde os quinze, professor aos dezoito, escritor de obra reconhecida e Técnico de Educação aos vinte e dois anos. Depois, advogado, jurista, político. Câmara Torres não foi apenas um homem do Jornalismo, das Letras, do Magistério, da Política, da Advocacia Fluminense. Câmara Torres foi um notável agente que realizou, difundiu e desenvolveu a Educação e a Cultura na terra fluminense. Seu espírito humanista, seu trabalho cívico, comunitário e político em favor da Educação e da Cultura, estão em cada município que atuou: em cada rua das cidades, em cada praia, nas matas, sítios e fazendas, e grotões dos municípios, onde, semeou fé e esperança, plantou escolas, alfabetizou, formou e ensinou cidadania a gerações de milhares de crianças e jovens. Cada escola que construiu transformou-se em um centro de realização e promoção cultural, onde a história, o patrimônio, as referências, o Homem local era valorizado e promovido, em sintonia com a história da comunidade, do Estado e da Nação.

No Estado do Rio, Câmara Torres empreendeu inúmeras ações culturais, associando-se a instituições e lideranças da terra para atuar como o estudioso, o professor, o administrador, o político, que empreendeu, gerenciou e sustentou inúmeros projetos culturais. Na sua condição de educador e político, idealizou e apoiou muitos eventos, foi um ágil e produtivo animador cultural, um realizador bem sucedido, catalisando interesses, sentimentos e aspirações da gente fluminense, transformando sonhos em obras, em fatos culturais de relevância. Câmara Torres foi um estudioso e um tenaz defensor, como educador, advogado e político, do patrimônio cultural do Estado do Rio de Janeiro. Por mais de cinquenta anos, ele foi o grande incentivador e apoiador das manifestações populares e folclóricas no Extremo Sul Fluminense e em outros municípios, suas festas e celebrações religiosas e profanas. Ele foi o interlocutor, antes de 1950, do seu primo, mestre e amigo, o grande Luís da Câmara Cascudo, promovendo o diálogo entre os Governo do Estado e da União, visando aos primeiros apoios e estímulos à pesquisa e aos estudos do Folclore fluminense, que resultaram na criação da Comissão Fluminense do Folclore. Na década de 1960, Câmara Torres levou a Paraty o seu amigo e grande folclorista Edson Carneiro, liderando um grupo de pesquisadores de prestígio nacional, para conhecer in loco o Folclore Paratyense, depois registrado em artigos e ensaios editados em livros e revistas especializadas. Em 1960, afirmou-se como o grande apoiador das comemorações dos Trezentos Anos de Paraty, que comemorou a Revolução Popular liderada por Domingos Gonçalves de Abreu que promoveu a autonomia de Paraty em relação à Angra dos Reis. Em 1967, novamente, Câmara Torres foi um dos principais realizadores dos festejos do Tricentenário da Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty. Por iniciativa de Câmara Torres, nasceram o brasão e a bandeira de Angra dos Reis, Paraty, Rio Claro, Mangaratiba e Piraí, criações do seu amigo e famoso heraldista Alberto Lima. Todas as instituições socioculturais e esportivas do Estado sempre tiveram nele um amigo valioso, um apoiador incansável.

O seu notável trabalho como Técnico de Educação no Extremo Sul Fluminense, seu fecundo e eficaz munus político de deputado estadual e dirigente partidário, fizeram de Câmara Torres o orador dos grandes eventos, das inesquecíveis efemérides. Foi um dos grandes incentivadores dos estudos sobre a História e a Cultura Fluminense, inclusive produzindo ensaios importantes, sobre nós mesmos, sobre o nosso lugar, o nosso papel na vida nacional, os fatos e processos acontecidos na terra de Euclides da Cunha. A inauguração de cada uma das dezenas de escolas que construiu no Sul Fluminense traduzia-se numa festa cultural, popular, democrática, onde Câmara Torres ministrava uma aula sobre o patrono de cada unidade, convocava o povo para a sua História, para o exercício da cidadania social e política, práticas tecidas na pesquisa, na reflexão e na ação, a partir de cada município, a partir da sua gente e da sua História. No seu tempo, cada escola era um centro comunitário de atividades culturais, a célula de uma biblioteca e espaço para as atividades artísticas e profissionalizantes. Câmara Torres criou a rotina de trazer personalidades da Cultura Brasileira para falar ao povo, aos estudantes, aos professores de cada município do Extremo Sul Fluminense. Os seus objetivos eram estimular o conhecimento e a autoestima dos munícipes, proporcionar a consciência e a responsabilidade sociocultural e política de cada um e de todos.

A partir de 1942, os temas “Angra dos Reis, “Paraty”, “Rio Claro”, “Mangaratiba” vão ocupar, prioritária e majoritariamente, a agenda de Câmara Torres, vão habitar toda a sua obra divulgada e publicada, no Jornalismo e na Ensaística, nos campos da Educação, do Direito, da Política, da História, da Sociologia. Isto porque, naquele ano, ele visita a Região pela primeira vez, se apaixona pela terra, e publica em sua coluna Hora Fluminense, na primeira página de O Estado, de Niterói, o mais importante jornal à época, densos e informativos artigos, tratando da problemática socioeconômica dos municípios, das suas belezas e potencialidades, antevendo-lhes um destino promissor nos campos socioeconômico, cultural e turístico. É de sua autoria o primeiro e mais importante perfil biográfico de Samuel Costa, a belíssima e memorável oração que pronunciou quando da inauguração do Grupo Escolar, a 18 de novembro de 1948, na condição de Técnico de Educação e Chefe da Inspetoria Regional de Ensino, no 66º ano de nascimento do ilustre paratyense. Publicou na revista literária Bando, de Natal, Rio Grande do Norte, a única e histórica crônica que narra a morte, em 1944, em Angra dos Reis, do grande Alberto Maranhão, estadista da Primeira República, que após a Revolução de 1930, vive em Paraty, como fazendeiro e proprietário de jornal, por longos anos. Em 1951, proferiu no Grupo Escolar Samuel Costa, conferência sobre a vida e obra de Sylvio Romero e sua identidade com Paraty, recebendo, à época, do Doutor Nelson Romero, filho do ilustre humanista, em nome da família, carta de regozijo e agradecimento. Reuniu e editou, pela primeira vez, em 1973, os poemas de Samuel Costa, escrevendo a introdução à antologia. Também prefaciou as obras Paraty – Caminho do Ouro, de Heitor Gurgel e Edelweiss Amaral, e Silvio Romero, Juiz, de José Alberto da Silva, livro que narra a vida do grande sergipano como "Juiz Municipal do Termo de Paraty", de 1877 a 1879.

Como jornalista, professor, advogado e político, em toda a sua vida acadêmica e profissional, em mais de setenta anos de ininterrupta atividade intelectual, publicou livros e centenas de ensaios, estudos, artigos, reportagens e críticas nas áreas da Literatura, da História, da Educação, Política, Sociologia e do Direito, além de trabalhos nos campos do Folclore. Até a sua morte, participou, ativamente, de diversas instituições e movimentos culturais que agitaram o Sul Fluminense e todo o Estado do Rio de Janeiro, simultaneamente fundando entidades e dirigindo campanhas comunitárias.

DOAÇÃO E SERVIÇO

Afora o seu ingente trabalho, por mais de quarenta anos, como líder e arauto das grandes causas da Gente Fluminense, não há cidadão ou família do Extremo Sul Fluminense que não reconheça e não deva a Câmara Torres, uma atitude, um empenho, um gesto, pelo menos uma palavra de compreensão e apoio, em defesa de um direito ou benefício pessoal, afora todas as suas realizações coletivas, em benefício das comunidades. Na Região, os órgãos e os serviços públicos devem muito à ação contínua e persistente de Câmara Torres, tanto na Assembleia Legislativa, como junto a órgãos estaduais, federais e internacionais. Durante o tempo em que foi Deputado, viabilizou os governos dos prefeitos daqueles municípios, à época sociedades e prefeituras pobres, sem recursos, prestando-lhes toda a assistência e apoio, para bem e produtivamente desempenharem os seus mandatos.

No final da década de 1960, o Projeto Turis, da EMBRATUR, que tratava da ocupação racional e ecológica do litoral do Rio a Santos, teve em Câmara Torres um defensor entusiasta, corajoso e tenaz. O Plano de Desenvolvimento Integrado e Proteção do Bairro Histórico do Município de Paraty, patrocinado pela União Federal, cuja conveniência foi tratada na UNESCO, órgão da ONU, nasceu das idéias e das ações de Câmara Torres em vários fóruns regionais e nacionais nos anos cinquenta e sessenta, resultado do seu trabalho contínuo pela integração do Município ao Estado do Rio e pelo desenvolvimento autossustentável daquelas comunidades. Ambos os instrumentos tiveram o apoio político indispensável de Câmara Torres na Assembleia Legislativa e junto aos governos estadual e federal, e que introduziram Paraty no Século XXI.

Lutou, politicamente, sem pausa, por mais de três décadas, inicialmente pela abertura, depois pela conservação, tráfego regular e pavimentação da estrada Paraty-Cunha. Lutou, incansavelmente, nos níveis estadual e federal, mobilizando até organismos e recursos internacionais, para a pavimentação da estrada, chegando mesmo a obter compromissos formais de governadores, ministros de Estado e a celebração de contratos entre o Governo do Estado e construtoras, os quais sucessivos governos federais não permitiram que fossem cumpridos. Hoje, a Estrada Parque Comendador Antônio Conti, pavimentada, é uma realidade, uma conquista de Câmara Torres, do Povo Paratyense através dele e de seus líderes comunitários e políticos. Foi o grande responsável pela abertura da Estrada Angra dos Reis-Paraty (Rodovia Roberto Silveira) e, depois, pela Rodovia Rio-Santos, com outro traçado, é verdade, mais inteligente e preservacionista.

Dedicou-se, também, durante toda a sua vida pública, pela manutenção do Serviço de Navegação Sul Fluminense, que oferecia transportes às comunidades da Baía da Ilha Grande. Criticou, durante anos, o funcionamento do presídio na Ilha Grande, que segundo ele, "contrariava as vocações ecológicas e preservacionistas daquele patrimônio, expondo-o a toda sorte de perigos e agressões".

Como parlamentar, atuou e legislou destacadamente na área social, em favor da Região que representava, especialmente na Educação, Cultura, Saúde, Saneamento, Transportes, Segurança Pública, Turismo e Meio Ambiente. Planejou e viabilizou, como Secretário do Interior e Justiça, a construção do Fórum Silvio Romero, em Paraty, e João Fausto Magalhães, cujos nomes foram dados por ele. Criou e instalou as Subseções da Ordem dos Advogados de Angra dos Reis e de Paraty Construiu, com recursos próprios, no início da década de 1950, o Aeroporto de Angra dos Reis, fundou e foi presidente do Aero Clube de Angra dos Reis. Empenhou-se pela manutenção e melhoria do campo de aviação de Paraty, pois foi um pioneiro do transporte aéreo no extremo sul do Estado. Idealizou e coordenou, em 1970, a Operação Trindade, primeira ação multidisciplinar do Estado no sentido da integração e desenvolvimento socioeconômico sustentado da comunidade da Praia da Trindade. Foi o autor da lei que remunerava e dava tratamento especial aos profissionais da Educação designados para trabalhar nas escolas oceânicas, de difícil acesso de Paraty. Irmão e Procurador das Irmandades das Santas Casas de Misericórdia de Angra dos Reis e de Paraty, era, também, membro da Associação de Caridade São Vicente de Paulo, que mantém o Asilo de assistência à velhice em Angra dos Reis.

Cristão e solidário, generoso em todos os seus atos, Câmara Torres, na Plítica, teve adversários, jamais inimigos. Na Advocacia, contendores que o admiraram, nunca debatedores odientos. Morreu pobre, sem bens a inventariar, sendo visto por correligionários e adversários políticos, como "uma legenda moral de honestidade e trabalho, de doação às causas populares, que fazia dele um homem público por excelência, honrado, leal, destemido e produtivo, com inestimáveis serviços prestados ao Estado do Rio de Janeiro". Os cientistas políticos poderão ver Câmara Torres como "um Homem Público com uma inexcedível capacidade de doação, um Político com uma dimensão humana e social insuperável". Deixou oito filhos, quatorze netos e uma legião de amigos e admiradores no Estado e no País. Entre os seus filhos está o jornalista, escritor, consultor cultural e Consultor Legislativo do Senado Federal, aposentado, Marcelo Câmara, que sempre desenvolveu intensa e múltipla atividade intelectual, herdou, ainda em vida do pai, a rica biblioteca de Câmara Torres, com importantes e raras obras jurídicas, de História, Educação, Literatura, Ciências Políticas e Sociais, e o seu monumental arquivo profissional e pessoal, onde está registrada toda a sua vida como jornalista, educador, advogado e político, inclusive a sua correspondência com líderes e famílias da Região Sul do Estado, e com personalidades da vida fluminense e nacional, estas desde os anos vinte até a sua morte.

LIDERANÇA POLÍTICA

Em meados da década de 40, Câmara Torres já era uma vigorosa e irreversível liderança regional. Com a redemocratização do País, em 1945, ingressa no Partido Social Democrático - PSD, e, cinco anos depois, é um dos fundadores e dirigente do Partido Social Progressista - PSP, elegendo-se, por essa legenda deputado estadual em 1954 e, por mais três vezes consecutivas. Funda os diretórios municipais do PSP em Paraty, Angra dos Reis, Rio Claro e Mangaratiba e é eleito Secretário-Geral do partido no Estado do Rio. Em 1958, foi um dos principais articuladores da coligação PSP-PTB-UDN, que levou o amigo e companheiro de lutas estudantis e políticas, Roberto Silveira, ao Governo do Estado. Em 1959, exerce as funções de Primeiro Secretário da Assembleia Legislativa. No Governo de Geremias de Matos Fontes, ocupa, por alguns meses, a Secretaria de Estado do Interior e da Justiça, onde realiza profícua administração, erguendo fóruns em vários municípios, assistindo e modernizando as prefeituras municipais e revolucionando o sistema penitenciário, com a implantação de projetos pioneiros da Educação formal e profissional nos presídios. Em sua gestão, obteve, pela primeira vez, em mais de sessenta anos de tentativas frustradas de tantos governos, a devolução, por parte do então Estado da Guanabara, das áreas, prédios e benfeitorias, onde funcionavam o Presídio do Abraão e a Colônia Penal Dois Rios, na Ilha Grande, concretizando-se anos depois a transação, por conta da sua saída da Secretaria, e de sua volta à Assembleia Legislativa.

Mesmo ingressando na Aliança Renovadora Nacional – ARENA, após o golpe de 1964, lutou, durante o regime militar, contra a instalação da usina nuclear na Praia da Itaorna, em Angra, e esteve preso no Colégio Militar, sendo libertado após dez dias de detenção, sem qualquer acusação formal, com um pedido de desculpas do então comandante da unidade. Antes, fora acusado em Inquérito Policial Militar, por ter intervindo em favor da liberdade e integridade de líderes políticos e comunitários de Paraty, uns presos, outros perseguidos pela Ditadura, a maioria deles, seus circunstanciais adversários políticos. Em 1970, foi o único deputado estadual da ARENA a concorrer a uma vaga na Câmara Federal, não logrando êxito, apesar de expressiva votação, o que o colocou numa primeira suplência por quatro anos, levando-o a um longo jejum eleitoral. Em 1971 assumiu a Secretaria de Estado de Serviços Sociais, iniciando um trabalho em várias frentes, de grande repercussão, com projetos de vanguarda dirigidos aos marginalizados, crianças e idosos, aos portadores de deficiência física e mental, apoiados por governos e instituições estrangeiras e internacionais. Isto provocou inveja e intriga em setores do poder, sendo demitido por exigência da chamada “linha dura” do regime que infelicitava o País, por ordem expressa do general Walter Pires. Em 1986, após dezesseis anos afastado de disputas eleitorais, amigos de Angra e de Paraty lançam o seu nome à Assembleia Legislativa pelo Partido Democrático Social – PDS. Obtêm 5 mil votos, uma expressiva votação à época, é o candidato à Assembleia Legislativa mais votado em Paraty. Entretanto, não se elege, abandonando definitivamente a Política. Com sabedoria e prudência, presidiu o PSP, a ARENA e o PDS, de Angra dos Reis.

Visionário, homem de vanguardas, espírito empreendedor, de convergências e de conciliação, sempre liderou ou, pelo menos, influiu, decisivamente, direta ou indiretamente, no progresso de toda a Região. Mesmo nas iniciativas privadas, onde o interesse e os direitos do povo estiveram em jogo, como a instalação dos Estaleiros Verolme, em Angra dos Reis, ou os grandes projetos turísticos na Costa Verde, lá estava a presença dinâmica e articuladora de Câmara Torres resolvendo, incentivando, apoiando, realizando, sempre zelando pelas comunidades, seus valores, direitos e patrimônios.

O Extremo Sul Fluminense lhe deve a edificação das matrizes do seu desenvolvimento socioeconômico, político e cultural, além de conquistas na Saúde, nos Transportes, no Saneamento, na Segurança Publica,  na Preservação Ambiental, no Turismo e outras áreas de atuação do Poder Público. Entre os benefícios regionais alcançados graças ao trabalho incansável de Câmara Torres, além daquelas já apontadas, está a abertura e conservação da Estrada Rio Claro-Mangaratiba. Sócio Remido e Vice-Presidente do Aeroclube do Estado do Rio de Janeiro, realizou os primeiros voos de Angra dos Reis e Paraty com destino a Niterói e ao Rio de Janeiro, para acudir a população que precisava de atendimento médico de urgência, favorecendo, também, a ida constante de servidores e autoridades públicas ao Município.

JORNALISTA E ESCRITOR

Aos onze anos de idade, José Augusto da Câmara Torres já era um jornalista profissional, quando fundou e dirigiu o veículo estudantil O Ideal da Juventude, em sua terra natal. Mais tarde, também fundou e dirigiu, em Niterói, os jornais Espumas e A Ordem. Antes, no Colégio Marista, em Natal, colaborou no Sete de Setembro. Jovem, militou politicamente ao lado de Alceu de Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, Dayl de Almeida, José Arthur Rios, os irmãos Badger e Roberto Silveira, Celso Peçanha, Anselmo Macieira, Vasconcelos Torres, entre outros, nas lutas estudantis, universitárias e políticas. Em Niterói, pertenceu ao Centro de Cultura José de Anchieta, do Colégio Salesiano Santa Rosa, e foi um dos fundadores da Congregação Mariana, presidindo a Academia São Francisco de Sales, braço cultural da Congregação. No Rio e em Niterói, escreveu em jornais e revistas, entre eles, Folha Colegial, O Estado, Correio da Manhã, Revista Potiguar (RN), Ariel, Taba, O Gládio, Ariete, Almanaque Ilustrado das Famílias Católicas Brasileiras. Fez crítica literária, de cinema e teatro. Foi correspondente no Rio e articulista da revista Nordeste, de Natal, RN, colaborando, também, em A República, da capital potiguar. Assinou, na década de 40, a coluna Hora Fluminense, espaço nobre na primeira página do diário O Estado, então o maior jornal da Velha Província e redator do antigo Serviço de Propaganda e Turismo do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Em Angra dos Reis, publicou no jornal O Sul Fluminense, e assinou, por sete anos, a coluna Aspectos na Folha de Angra, onde também foi secretário de redação. Foi membro da Associação Fluminense de Jornalistas e da Associação de Imprensa Periódica Paulista. Em 1939 e em 1944, respectivamente, circulam, com tiragens restritas, nos meios acadêmicos e técnicos da Educação, as duas monografias, teses de sua autoria, apresentadas em concursos públicos: Educação Moral e Cívica e A Inspeção Escolar na Escola Primária.

Aos 22 anos publicou, com Dayl de Almeida, Imortais, livro de ensaios, com prefácio de Alcebíades Delamare. Publicou, ainda, diversos trabalhos de História, Ciência Política, Educação, Sociologia, Folclore e Crítica Literária. Entre esses, destacam-se os estudos pioneiros sobre o paratyense Samuel Costa (1948), Sylvio Romero (1949) e sobre o angrense Lopes Trovão (1947 e 1953). Em 1943, a Biblioteca Municipal Professor Guilherme Briggs, de Angra dos Reis, publica Os olhos verdes na literatura, ensaio e conferência que profere naquele município. Foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Artístico de Paraty. Era Membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e Sócio Correspondente do Ateneu Angrense de Letras e Artes. Integrava a Academia Valenciana de Letras, a Associação Brasileira de Escritores, entre outras entidades culturais, fluminenses e nacionais. Possuía os títulos de Cidadão Fluminense, do antigo Estado do Rio de Janeiro, de Cidadão Honorário do Estado do Rio de Janeiro, do atual Estado do Rio de Janeiro, e de Cidadão Honorário de Angra dos Reis, Paraty, Rio Claro e Mangaratiba. Foi agraciado com a Medalha do Centenário de Silvio Romero (1939), pelos seus trabalhos sobre o escritor, com a Medalha do Cinquentenário da República, e com a Medalha Tiradentes, da Assembleia Legislativa do atual Estado do Rio de Janeiro, entre dezenas de outras insígnias. Em Angra dos Reis, foi eleito pelos seus colegas de profissão "O Advogado do Ano" por mais de uma vez. Pertenceu a diversas entidades religiosas do Estado, sendo, também, Benemérito de dezenas de instituições socioculturais, filantrópicas e desportivas. Recebeu dezenas de láureas de instituições públicas e privadas do Estado.

Câmara Torres morreu pobre, sem bens a inventariar. Deixou, além de um notável legado de ética, probidade e coerência política, de nobres causas e lutas, de fidelidade aos seus representados, um importante patrimônio de leis e realizações, especialmente, na Educação, Cultura, e nos setores sociais e econômicos. Foi, enfim, um importante e luminoso personagem da Educação, da Cultura, da História Política Fluminense nos últimos sessenta anos do século XX.


Em 2000, o Teatro Municipal de Angra dos Reis, RJ, o mais importante centro cultural da cidade, recebeu o nome de TEATRO MUNICIPAL CÂMARA TORRES, por força de Lei Municipal.
 
Em 2004, a Casa de Cultura de Paraty passou a denominar-se CASA DE CULTURA CÂMARA TORRES, em decorrência da Lei Municipal 1414, resultado de Projeto do então Vereador e Presidente da Câmara, Casé Miranda.
Casa da Cultura Câmara Torres: sobrado do século XVIII, um dos mais valiosos prédios do Bairro Histórico de Paraty. Fonte: site da Casa da Cultura Câmara Torres.
Em 2011, o município de Rio Claro, RJ, homenageou-o inaugurando, em Passa Três, a sua mais moderna e bem equipada escola, o CENTRO DE ENSINO MUNICIPAL DEPUTADO CÂMARA TORRES, construído com recursos da União (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação – FUNDEB).

O Aeroporto de Angra dos Reis, RJ, construído no início dos anos 1950 por Câmara Torres, com recursos próprios, passará a se chamar, em breve, AEROPORTO CÂMARA TORRES.

Os municípios de Mangaratiba e Niterói, igualmente, preparam homenagens à sua memória.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Colaborador: JOÃO CARLOS RAMOS



























JOÃO CARLOS RAMOS nasceu em 12 de agosto de 1956 em Ladainha-MG e reside em Divinópolis desde 1966. É casado com Marita Conceição Ramos, com quem teve cinco filhos: Sara, Tiago, Lídia, Priscila e Lucas. 
Escreveu e publicou os seguintes livros de poesia : Zumbi em 3 Tempos (duas edições) e Uma Noite sem Ela.
Cofundador da "Noite da Poesia" em Divinópolis em 1988. 
Membro da ADL-Academia Divinopolitana de Letras em 2007.
Cargos desempenhados na ADL: Presidente da Academia Divinopolitana de Letras em junho/2015 e junho/2016, Vice-Presidente (2 mandatos), Secretário Geral e Segundo Tesoureiro.
Funcionário da Biblioteca Pública Municipal "Ataliba Lago", com 31 anos de experiência na área de pesquisas.
Membro Correspondente da Academia de Letras de São João del-Rei e da ALL-Academia Lavrense de Letras, onde tem como patrono o poeta Castro Alves.
Títulos: Comenda em 2007 outorgada pela Câmara Municipal de Divinópolis e Comenda Servidor/Destaque outorgada pela Secretaria Municipal da Cultura-SEMC 2011.
Possui inúmeras participações em eventos literários e culturais em Divinópolis e várias regiões.

DISCURSO DE DESPEDIDA DO PRESIDENTE JOÃO CARLOS RAMOS DA ACADEMIA DIVINOPOLITANA DE LETRAS


Exmo. Sr. Presidente eleito da Academia Divinopolitana de Letras, Fernando de Oliveira Teixeira.
Vice-Presidente eleito José Raimundo Batista Bechelaine.
Confrades e confreiras.
Autoridades presentes.
Senhoras e senhores! 
       Boa noite!

Sinto-me feliz e honrado por pertencer à Academia Divinopolitana de Letras, onde ocupo a cadeira de número 15, cujo patrono é Humberto de Campos, e a antecessora, Nylce Mourão Gontijo. Empossado em 2007 como acadêmico efetivo, após 8 anos, em 2015, fui elevado à categoria de Presidente, após ocupar vários cargos em várias diretorias. Por dois mandatos consecutivos, cumpri a nobre missão de presidir a famosíssima ADL. Foi um grande desafio tal responsabilidade, sabendo da grandiosa importância que ela representa para Divinópolis e para o mundo.

A ADL foi fundada em 1961 pelos quatro pioneiros: Jadir Vilela de Souza, Sebastião Bemfica Milagre, José Maria Álvares da Silva Campos e Carlos Altivo, completando hoje 56 anos de fundação, sendo sempre honrada pelos seus sucessores na escalada do sonho real.

Ao ser empossado nas duas ocasiões, meu discurso foi altamente inflamado, no sentido de engrandecer ainda mais a instituição de mérito, prometendo garra e determinação, rumo ao êxito total. O resultado foi parcial, reconheço com humildade, mas satisfatório à luz do bom-senso. Abateu-se sobre o País a maior crise econômica de todos os tempos e afetou o empresariado e a população em geral, gerando impossibilidades, quanto a patrocínios, com raras exceções como a parceira inesquecível, a GERDAU. Por outro lado, nós nos intimidamos no processo de procura insistente, numa atitude de prudência, diante da amarga realidade. Sem nenhuma remuneração presidencial, mas eventualmente, onerando o próprio bolso, realizamos nas duas gestões: 31 reuniões oficiais, sendo: O CHÁ DAS 5, em cinco ocasiões, com sucesso absoluto, em estilo de primeira grandeza. Realizamos a cerimônia de entrega do TRÓFEU ORFEU, sob a presidência organizacional do competentíssimo Vice-Presidente, jornalista Augusto Ambrósio Fidelis. Na oportunidade, homenageamos artistas, intelectuais e os segmentos jornalísticos e empresariais que apoiaram altruisticamente a ADL. Sem sombra de dúvidas, a visibilidade da ADL aumentou significativamente com a entrega do referido Troféu, abrindo as portas da percepção do poder público e do empresariado no tocante à valorização dos cidadãos e cidadãs da terra do divino.

Todos os imortais são mortais, antes de tudo, e por isso é com imensa saudade que nos recordamos  daqueles que foram arrebatados pelo além. Faleceram em nossos dois mandatos:
1-Osvaldo Diomar: renomado professor e historiador de Carmo do Cajuru;
2-Guilherme Sanches, músico famoso e ferroviário aposentado;
3-Zoroastro Ferreira de Andrade: empresário de sucesso, memorialista e poeta de alto nível; 
4-João Augusto Dias: militar de alta patente e memorialista de peso.
5-Antônio Lourenço Xavier: poeta dos mais sensíveis que deixou familiares e amigos em prantos.

Vale ressaltar que também tivemos a partida da esposa do acadêmico Mercemiro de Oliveira Silva, o fiel escudeiro da ADL e da irmã do historiador Ruy Franca, Eliza Franca. Somente a cadeira de Antônio Lourenço Xavier permanece vaga, deixando nesta data 39 cadeiras ocupadas. Em memória dos saudosos acadêmicos, organizamos em alto estilo a "NOITE DA SAUDADE" na Biblioteca "Ataliba Lago", entre lágrimas e felizes recordações.

Tivemos ainda a oportunidade de nos reunir com autoridades de todas as esferas do poder, na expectativa de apoio à construção da sede própria da ADL. Lançamos sementes em terra fértil e aguardamos que  o presidente eleito colha os frutos, com apoio de sua equipe altamente selecionada. Vale ressaltar minhas homenagens e agradecimentos a todos os que me fizeram feliz na trajetória presidencial. Agradeço a todos os acadêmicos efetivos que me apoiaram, elegendo-me e me auxiliando a carregar o peso da responsabilidade. Dentre todos, destaco as luzes intensas na hora mais escura:
• do Secretário Geral, hoje sendo empossado Presidente Fernando de Oliveira Teixeira; 
• do Vice-Presidente que se despede do cargo, o jornalista de mérito Augusto Ambrósio Fidelis; 
• do Acadêmico Francisco Braga, grande maestro  e intelectual, honrosamente empossado em nossa Arcádia durante meu segundo mandato; 
• da ex-Vice-Presidente Maria Conceição da Cruz, mulher culta e de grande peso moral e intelectual; 
• da ex-estagiária Marcelle Costa, testemunha ocular de lágrimas e júbilos;
• da Acadêmica Honorária Maria da Conceição Aparecida Maciel pelo imensurável apoio, em cuja pessoa  agradeço sobremaneira à GERDAU;
da Cidah Viana, também Acadêmica Honorária, a maior divulgadora da ADL, através do teatro, de que é mestra incomparável.

Agradeço também aos cantores, músicos, decoradores, profissionais liberais, artesãos e aos jornalistas Sílvio França, Samuel do Vale e Flávio Ramos atuantes como mestres-de-cerimônia. Agradeço de forma especial à Câmara Municipal, na pessoa do presidente Adair Otaviano e do seu antecessor Rodrigo Kaboja, bem como ao atual representante do Poder Executivo e ao antecessor, pelo apoio possível. Outros apoiadores, sintam-se agradecidos.

João Carlos Ramos discursando - Crédito: Acadêmico Augusto Fidelis
Ao encerrar o meu discurso, relembro o que disse Benjamim Constant, após a assinatura da Lei Áurea: "Eu trouxe os meninos cegos de minha escola para verem este dia."

Também relembro o oficial inglês que pegou uma flor perto do trono de Isabel, a Redentora, e disse: "Levarei essa flor para o meu país para mostrar que no Brasil a abolição aconteceu entre flores, enquanto lá custou tanto sangue."
Foto geral dos Acadêmicos presentes à transmissão de posse da Diretoria - Crédito: Rute Pardini Braga
A transição é bela e pacífica. O poder é passageiro. Preciso descer nesta estação. O último apito soou em um show de democracia no dia da eleição.

Obrigado, ó  Deus! Obrigado a todos! Um abraço!...


Discurso proferido no Plenário da Câmara Municipal de Divinópolis, em 9 de junho de 2017.

terça-feira, 30 de maio de 2017

ÓPERA (excerto do livro MÚSICA É COISA SÉRIA... MAS NEM SEMPRE)


Por Bohumil Med


No outro lado do globo terrestre, mais precisamente na China, o gênero ópera já existe há cerca de mil e trezentos anos. As primeiras informações sobre a ópera chinesa citam o imperador Xuangzong (685-762), da dinastia Tang, com a criação da trupe teatral Jardim das Persas. Na dinastia Song, espetáculos de variedades com canções, danças e esquetes cômicos eram apresentados em teatros para até três mil espectadores. Na era Ming, surgiram óperas sobre temas históricos do passado chinês. Diante do grande sucesso, as autoridades tentavam controlar os espetáculos e até ameaçavam os atores com pena de morte (a intolerância dos poderosos com expressões artísticas tem longa tradição e continua até hoje).

Para nós, do lado de cá, a ópera surgiu na Itália no final do século XVI, com artistas que desejavam recriar a união do teatro e da música, como imaginavam existir na Grécia antiga. Ao contrário da maioria dos estilos e formas musicais ou artísticas, a ópera possui lugar e data de nascimento: os palácios de Florença, sobretudo o magnífico Palazzo Pitti, onde, em 1600, foi apresentada a ópera Eurídice, dos compositores Giacomo Peri (1561-1633) e Giulio Caccini (1550?-1618), com enredo elaborado pelo poeta Rinuccini. O tema, naturalmente grego, era a história do cantor mitológico Orfeu e de sua esposa Eurídice. Mas o primeiro grande mestre da ópera foi Claudio Monteverdi (1567-1643), cuja ópera Orfeu (1607) é esporadicamente apresentada. 

A ópera italiana, com milhares de composições, conquistou o mundo. Mesmo compositores de outras nacionalidades criaram obras no estilo e língua italianos. A tradição começou com dois Alessandros, o Scarlatti e o Stradella, e floresceu com nomes como Rossini, Donizetti, Bellini, Mascagni, Puccini e Verdi. O traidor das origens foi Giovanni Battista Lulli. Ele se afrancesou e fundou a escola nacional francesa, representada por Jean-Philippe Rameau e posteriormente por Auber, Offenbach, Massenet e Bizet, que firmaram definitivamente a força da arte lírica francesa.

Mas o que é mesmo uma ópera (obra em italiano)? É um teatro musicado, uma forma musical das mais completas, que combina música, teatro e balé, uma harmonia de todas as artes. É um espetáculo para os olhos, deleite para os ouvidos e para o espírito. Uma simbiose imaginada por compositores, comediógrafos, poetas, maestros, músicos, cantores, bailarinos, figurantes e empresários. Nos bastidores, há um arsenal invisível de profissionais que vestem e maquiam os artistas, outros que iluminam ou escurecem a cena. O esforço conjunto desses elementos leva à apoteose. As estrelas, os cantores solistas, completam o elenco, que contribui decisivamente para o triunfo do espetáculo.

A ópera se desenvolveu no período barroco. O principal nome é o alemão Händel (1685-1759), que usava temas mitológicos e históricos com cenários suntuosos e figurinos luminosos. Era a época dos castrati. No século XVII, a cidade de Nápoles se tornou a meca da ópera. A novidade era a ópera buffa inspirada no cotidiano, a exemplo de O Barbeiro de Sevilha, de G. Rossini (1792-1868). No século XIX, também na Itália, surgiu a ópera verista, conhecida como ópera realista, que explorava paixões humanas como amor, ódio e vingança, tendo Puccini como o representante típico. Nápoles é a cidade mais importante na história da ópera. É famosa pelos cantores mais célebres do mundo como é Cremona, pela história do violino; Viena, pelas valsas e a Argentina, pelo tango. O único mausoléu no mundo, um sarcófago de cristal, de um cantor de ópera está em Nápoles, homenageando o cantor lírico Enrico Caruso, naturalmente um italiano. 

Para preparar a estreia de uma ópera são necessários muitos ensaios. Wozzeck, por exemplo, ópera de Alban Berg, é uma obra moderna, atonal, difícil para cantores e orquestra. Em Berlim, o maestro Erich Kleiber fez cento e cinquenta ensaios para aprontá-la. Para a estreia da ópera Tannhäuser no Gran Opera de Paris em 1861, Wagner promoveu cento e sessenta e quatro ensaios durante seis meses. E em vez do sucesso veio o fiasco. O motivo foi a introdução do número de balé no primeito ato, o que era inaceitável para jovens aristocratas parisienses. A reação negativa foi tão enérgica que, após três récitas, a ópera, tão bem ensaiada, saiu do repertório para voltar vinte anos depois como a ópera de Wagner mais interpretada em toda a Europa. Para escrever as quatro óperas O Ouro do Reno, A Valquíria, Sigfried e O Crepúsculo dos Deuses que compõem O Anel do Nibelungo, Wagner trabalhou vinte e seis anos. A duração do ciclo é de dezesseis horas e são necessárias quatro noites para a apresentação completa. Achou longa? O recorde de Wagner foi com Os Mestres Cantores de Nuremberg, que dura cinco horas e quinze minutos ou mais, dependendo do regente. Porém, a composição mais longa não é uma ópera. É a sinfonia Victory at Sea, do americano Richard Rodgers, com aproximadamente treze horas de duração!

A produção dos compositores operísticos de antigamente era grande. Puccini compôs noventa óperas; Cimarosa, oitenta, e Salieri, suposto inimigo de Mozart, cinquenta. Os mais preguiçosos: Rossini só compôs trinta e seis óperas; Verdi, vinte e sete, e Wagner, dez, porém longas. Beethoven, Schumann e Debussy se contentaram cada um com uma e Chopin e Brahms não perderam tempo com esse gênero musical tão complicado. O herói preferido dos autores foi Otelo, personagem de setenta óperas, doze operetas e catorze balés. O censo de óperas assinado em 1910 por um certo Sr. Towers relaciona vinte e oito mil e quize óperas. Quantas seriam se fosse hoje?

Em nenhum outro lugar da Europa e em nenhuma outra época da história europeia encenaram-se tantas óperas como na Itália entre 1815 e 1860. Em Milão havia seis teatros que apresentavam óperas regularmente e em Nápoles havia cinco, além de outro local ocasional. O papel da ópera na sociedade italiana daquela época pode ser comparado atualmente ao futebol e à televisão. A música transbordava dos teatros para a esfera pública. As melodias recém-compostas eram tocadas por realejos nas ruas, por bandas militares nos parques e por pianistas nas residências. As casas de ópera eram, antes de tudo, centros sociais, onde as elites compareciam todas as noites. Como assistiam à mesma ópera várias vezes, a atenção dispensada ao palco era irregular. A plateia, diferentemente da nossa, não tinha poltronas. Quem quisesse se sentar teria que levar cadeira, poltrona e até sofá e mesas. Durante a apresentação, jogavam-se cartas e dados, liam-se libretos de óperas, fofocava-se, faziam-se apostas, enquanto fruteiros perambulavam com cestos pela sala de espetáculos iluminada por luz de velas. O público fazia tanto barulho que mal se conseguia ouvir a música. Nos camarotes, os ocupantes jogavam cartas, recebiam visitas e conversavam alto.

 

Para avisar aos presentes que o espetáculo ia começar e para diminuir um pouco o barulho da sala, a orquestra tocava as aberturas, originalmente curtas fanfarras, que Lully ampliou em forma de três partes lento, rápido e lento com intenção de criar um clima festivo. O conteúdo das aberturas não tinha nenhuma ligação musical com as melodias da ópera a ser apresentada. Exemplo dessa dissociação é a famosa abertura da ópera O Barbeiro de Sevilha, de Rossini, usada por ele em três óperas diferentes. A partir do classicismo e principalmente do romantismo, o conceito de abertura mudou. Os compositores a usavam quase como uma amostra para apresentar os temas principais da ópera. Esse procedimento obrigava o compositor a escrever a abertura por último, quando a ópera já estava completa.

Voltando a Milão do século XIX, a plateia não se disciplinava mesmo após a abertura. Continuava com distrações paralelas. Só uma diva com notas agudas e melodias bem cantadas conseguia atrair a atenção do público, que a acolhia com estrondoso júbilo. Os cantores eram os ídolos das massas, mas aqueles que não conseguiam agradar não encontravam misericórdia. Recebiam vaias drásticas. Para distrair o público pouco concentrado no drama da ópera, entremeavam-se os atos com pequenos números de balé, canções leves e até intervenções de palhaços. Em Paris, já no início do século XX, entre os atos dramáticos, a orquestra tocava polcas e valsas, estilos de música popular da época.

Nesse clima de descontração e diversão nada puritano, os artistas gozavam de má fama e até atuavam como prostitutas. Os contemporâneos diziam que, no reinado de Luís XIV, as mulheres que cantavam nas óperas eram protegidas por nobres e que a Academia de Música nome do teatro lírico em Paris havia se tornado a academia do amor. Quando não estavam no palco, as artistas visitavam admiradores nos camarotes para combinar a "extensão" do espetáculo. Independentemente da avaliação dos puritanos, os artistas da ópera gozavam de grande prestígio perante reis, príncipes, cardeais, aristocratas e burgueses, e eram por eles protegidos. Segundo as crônicas da época, um rebelde condenado à pena capital foi perdoado por ser um compositor de ópera muito popular.

O comportamento do público era diferente nos teatros localizados dentro dos palácios reais, como Versalhes, Munique, Mannheim e outros. O espaço era dedicado, antes de mais nada, a apregoar a majestade do soberano e a reforçar a hierarquia social. Desse modo, o projeto arquitetônico do teatro não era determinado pela necessidade de ver o palco ou ouvir a música, e sim de ver e ser visto pelos espectadores. A função do teatro não era artística. Era social. Para que a ópera surtisse efeito inesquecível, além da música e dos cantores, os diretores apelavam para efeitos visuais mecânicos, como fogos de artifício, decoração surpreendente e até a presença de animais no palco. Na estreia de Berenice, em Pádua, o autor Domenico Freschi, aluno de Scarlatti, além do coro de trezentas vozes, colocou no palco cem cavalos, dois elefantes e dois leões (todos vivos). Sem dúvida, uma ópera memorável!

Uma encenação em que tradicionalmente se colocam animais no palco, em especial elefantes, é a monumental Aída, de Verdi. No Teatro Municipal do Rio de Janeiro, nos idos de 1910, um desses paquidermes virou-se de costas para o público e aliviou os intestinos com uma enorme descarga, digna de um elefante! Já no Teatro Guaíra, em Curitiba, o público aplaudiu em pé quando Radamés entrou no palco em um elefante que pertenceu a um circo. O animal respondeu aos aplausos colocando-se sobre as patas traseiras, com a dianteiras levantadas em agradecimento à ovação, derrubando o grande general egípcio no chão.

Depois da Itália, a ópera invadiu a Europa, mantendo o italiano, que se transformou em língua oficial tanto da forma como da terminologia musical. O italiano é, sem dúvida, um idioma melódico, próprio para canções e árias. Compositores de outras nacionalidades tinham que se submeter à ditadura da ópera italiana e compor no mesmo estilo e língua. A maioria das óperas de Mozart, um compositor austríaco, tem texto em italiano.

Provavelmente foi a partir do romantismo que as óperas começaram a ser escritas em línguas locais, dificultando a vida dos cantores que devem decorar textos em idiomas que não dominam. Justifica-se dizer que só a língua original preserva as características musicais da melodia, que nenhuma tradução, mesmo bem feita, consegue manter. Na prática, o coitado do cantor decora e canta árias em russo, mas nem o russo presente na plateia consegue entender. Para contornar o problema, estabeleceu-se a prática de projetar a tradução em idioma local numa tela localizada acima do palco. Independentemente da língua, a preocupação de entender as palavras do cantor é inútil porque raramente se entende o que canta, mesmo na língua materna. Prova disso são casos de intérpretes que esquecem ou trocam o texto, mas respeitam a melodia. Raramente alguém na plateia percebe. Isso sem falar de cantores que incluem propositadamente até palavrões nas suas árias, apostando que não serão flagrados. E não são! Num dos ensaios da ópera Paladinos, o compositor João Felipe Rameau pediu à artista para cantar mais rápido. "Mas se for mais depressa, o público não vai entender uma só palavra", respondeu a cantora. "Não importa", disse Rameau, "contanto que entendam a música..."

A pergunta: o texto é menos importante do que a música? Alguns compositores procuram o equilíbrio entre os dois; outros, mesmo os famosos, não se preocupam com as bobagens constantes nos libretos. Para Gluck, a música deveria servir à poesia, mas, para Mozart, a poesia deveria ser filha obediente da música. Independentemente de quem deve servir a quem, o compositor, para escrever uma ópera, precisa de um texto, uma história. Muitos se inspiram em romances famosos, reduzem ao mínimo centenas de páginas do original e os transformam em libreto (texto a partir do qual são compostas óperas) de poucas páginas. Outros encomendam o libreto a especialistas. Alguns, além da música, escrevem o próprio libreto, como era o caso de Wagner. Havia libretistas menos cuidadosos, que escreviam sem esmero, argumentando que geralmente não se entende mesmo o que o cantor pronuncia e que, quando o casal principal da ópera se abraça, o público entende que se trata de dueto de amantes, independentemente do texto.

Entre os famosos libretistas, destacou-se Lorenzo da Ponte (1749-1838), autor dos libretos em italiano das óperas As Bodas de Fígaro e Don Giovanni, de Mozart. A vida de Lorenzo foi uma grande aventura. Autor de trinta e seis libretos operísticos, era um típico aventureiro italiano. Judeu de nascimento, converteu-se ao cristianismo, tornou-se padre, lecionou numa escola até ser demitido. Era também companheiro de aventuras de Casanova. A sorte lhe sorriu quando se mudou para Viena e foi nomeado poeta dos teatros na corte do imperador José II. Com a morte do soberano, perdeu o emprego e se mudou para Londres, onde se casou na igreja anglicana. Tornou-se livreiro, impressor, agente teatral e escritor. Mais tarde, trocou a Inglaterra pela América e passou a vender drogas, livros e, finalmente, escreveu suas memórias, confessando que todos os seus empregos terminavam em escândalos.

Outro libretista fecundo foi o italiano Pietro Metastasio (1698-1782). Alguns dos seus cinquenta libretos eram tão bons que foram musicados mais de dez vezes, ou seja, foram compostas mais de dez óperas sobre o mesmo texto. Mas há outros com enredos tão confusos que nem os principais cantores entendem a lógica dos acontecimentos. Por outro lado, existem canções em que o texto é mais importante do que a música, como as de protesto contra a guerra, a discriminação ou qualquer coisa, classificadas pelo Dr. Henrique Autran Dourado como "música panfletária". Essas costumam ser assumidamente pobre em harmonia e melodia.

O esquema típico das óperas se baseia no casal de amantes um tenor e uma soprano que, durante vários atos, enfrenta obstáculos armados pelo malvado barítono ou baixo, secundado pela ciumenta contralto. Quando a história termina em casamento, trata-se de ópera buffa ou cômica; quando termina em tragédia, é ópera-séria ou dramática, que causa grande efeito, principalmente se a cena final termina em morte, no estilo Romeu e Julieta. Mas sempre, antes de sucumbir por causa de um veneno ou apunhalado pelas costas, o herói tem força suficiente para cantar a ária final. Na ópera Rusalka, do compositor tcheco Antonín Dvořák, a ninfa atrai o príncipe infiel para o meio do lago. Os dois cantam emocionante dueto enquanto a ninfa abraça o amante e o arrasta para as profundezas da água.


Já Mozart, em Don Giovanni, preferiu mandar o conde pecador para o inferno. Outros heróis morrem enforcados, assassinados, fuzilados, envenenados. Antônia, da ópera Contos de Hoffmann, do compositor Offenbach, morre por excesso de canto. Morte linda para uma cantora de ópera! 

Na escalação do elenco, um dos problemas é a representatividade do papel. Os grandes tenores muitas vezes são baixinhos e gordinhos, o que não combina com a imagem de um belo amante fogoso. O mesmo ocorre com as sopranos cantoras fantásticas, muitas vezes são bem cheinhas, para não dizer gordinhas ao representar, por exemplo, a tuberculosa Mimi de La Bohème, de Puccini ou La Traviata, de Verdi, que morre de subnutrição. Os maldosos afirmam que a qualidade de muitas óperas depende do número de mortos no último ato. Às vezes a solução final demora. Tristão e Isolda sofrem quatro horas antes de, finalmente, morrer. A briga de egos entre a prima donna, principal papel feminino, geralmente uma soprano, e o primo uomo, primeiro tenor, ultrapassa muitas vezes os limites artísticos e chega a golpes baixos, tanto no palco como na imprensa. Cansado dessas brigas, Sir Thomas Beecham, regente inglês, comentando a morte dos principais personagens no palco, disse: "Nenhum cantor de ópera morre tão rápido quanto eu gostaria." O intérprete do príncipe da ópera Rusalka de Dvořák também estava cansado. Certa vez, foi ao casamento de um amigo durante o dia, e à noite foi cantar a ópera. Tudo ia bem. Mas aí, no último ato, quando Rusalka o beijou e o deitou na grama para descansar e em seguida atraí-lo ao lago para cantar o duo final e afogá-lo, o intérprete adormeceu profundamente e ninguém conseguiu acordá-lo. E assim, naquela noite, a ópera terminou sem o desfecho trágico prescrito pelo autor.

A ópera, palavra mágica, feitiço em forma de música, harmonia de todas as artes, obra artística completa, festa dos olhos, dos ouvidos e da alma, tem muitos admiradores, mas também inimigos ferozes. Para os leigos, a ópera é uma canção que dura mais de duas horas e a parte mais agradável é o intervalo. Em seu dicionário, Samuel Johnson definiu a ópera como um entretenimento exótico e irracional. No livro Confissões, concluído em 1770, Jean-Jacques Rousseau escreveu que a ópera é "aquele antro de depravação". O compositor francês moderno Pierre Boulez foi ainda mais longe: ele defendeu a demolição de todas as casas de ópera. O ricaço grego Aristóteles Onassis não gostava do gênero. Para ele, a ópera não passava de um bando de chefes italianos gritando receitas de risoto uns para os outros (e ele foi casado com uma prima donna, a diva Maria Callas!). Franz von Dingelstedt declarou: "Todo teatro é um manicômio, mas a ópera é o setor para os incuráveis". Já um tal de Juca fez os maiores elogios: "As horas mais agradáveis de minha vida, eu devo à ópera". Alguém perguntou: "Você é frequentador assíduo?" Ele respondeu: "Eu não, mas a minha mulher é". 

Absurda para alguns, a ópera, apesar das críticas, vive graças às sensações que proporciona aos admiradores. Não há grande cidade que se preze que não disponha de um teatro inteiramente dedicado a ela. Durante três séculos, os cantores de óperas, com fantásticos honorários, foram os artistas mais famosos do mundo. A vida particular, brigas e intrigas, sucessos e tragédias, tornaram-se verdadeiros romances, muitas vezes descritos em livros. O que ficou para sempre são as melodias cantadas por eles, que os tornaram imortais.

Fonte: MED, Bohumil: Música é coisa séria... mas nem sempre, Brasília: MusiMed Edições Musicais, pp. 112-17. Autoria das imagens com desenhos de caricaturas: Radek Steska.



BIBLIOGRAFIA




MED, Bohumil: Música é coisa séria... mas nem sempre, Brasília: MusiMed Edições Musicais, 260 p.