domingo, 10 de novembro de 2019

SEMANA SANTA DE SÃO JOÃO DEL-REI: O MAIS EMPOLGANTE ESPETÁCULO DE FÉ EM TODO O BRASIL


Por Francisco José dos Santos Braga 


 I.  INTRODUÇÃO por Francisco José dos Santos Braga

 
Inicialmente há algumas observações que merecem ser feitas nesta Introdução, antes da abordagem do texto do notável jornalista Lincoln de Souza.
A primeira delas refere-se ao texto que se lerá a seguir, intitulado "O MAIS EMPOLGANTE ESPETÁCULO DE FÉ EM TODO O BRASIL" com texto e fotos de Lincoln de Souza, o qual foi escolhido para fazer parte de uma edição especial de "A Noite Ilustrada", na ocasião em que se comemorava o 25º aniversário da revista carioca. A Redação da revista assim se pronunciou: 
Na data de ontem, 3 de maio, no ano de 1930, circulava o primeiro número desta publicação, quando o país inteiro vibrava de entusiasmo pela realização do primeiro grande concurso de beleza mundial realizado no Brasil, por iniciativa de "A NOITE". Ideada em moldes modernos, com o propósito maior de levar aos seus leitores uma divulgação fotográfica de extraordinário relêvo, em rotogravura, seu aparecimento constituiu um marco revolucionário na crônica da imprensa ilustrada do país. E desde então, no percurso de um quarto de século, "A NOITE ILUSTRADA" tem procurado servir ao seu imenso público, não apenas o suplemento de rotogravura que foi nos seus números iniciais, mas uma completa revista, cujos assuntos passaram a abranger todos os campos de atividade e merecendo, por isso, crescente preferência e estima de seus leitores. Soube, assim, tornar-se, de extremo a extremo do país, uma publicação eminentemente popular, amplamente documentária da vida do Brasil e do mundo nestes últimos vinte e cinco anos, pontilhados de tantos e tão magnos acontecimentos! No registro dessa data de alto significado estimativo para os que trabalham nesta casa e consequentemente para o leitor, ficam os nossos sinceros agradecimentos àqueles que continuam dispensando a "A NOITE ILUSTRADA" suas atenções e preferências.” (A NOITE ILUSTRADA, p. 3, edição de 4/5/1954) 
É possível imaginar a glória que representou para a carreira jornalística do são-joanense Lincoln de Souza ter sido convidado pela famosa revista para cobrir em sua terra natal a Semana Santa naquele longínquo ano comemorativo de 1954, há 65 anos atrás!

A segunda observação a ser feita é: o que veremos na matéria de Lincoln de Souza foi uma situação que, em linhas gerais, perdurou até 1977. Nesse ano, houve no repertório musical da Semana Santa são-joanense uma como que revolução estética às avessas, já que o musicólogo e regente José Maria Neves assumiu a direção da Orquestra Ribeiro Bastos, a partir de 1977, sentindo-se responsável por restaurar o repertório antigo que teve como ponto de partida a catalogação dos arquivos de manuscritos musicais, operação que ele chamava de "reinvenção da tradição de 200 anos". Cabe lembrar que também ocorreram algumas mudanças nas solenidades religiosas, podendo ser citada, como exemplo, a substituição da Missa dos Pressantificados na Sexta-feira Santa (mencionada no texto do Lincoln de Souza), pela Solene Ação Litúrgica. Sobre essa redefinição do repertório e mudanças litúrgicas, vejamos o que [GANDELMAN, 2003, 13] tem a nos informar sob a direção de José Maria Neves: 
(...) A redefinição do repertório provocou uma forte reação contrária. Compositores estrangeiros, Rossini, Perosi, Soma, comumente executados, foram substituídos por brasileiros e, preferencialmente, mineiros. Ao lado das mudanças introduzidas no repertório, as tradições nelas incluídas a religiosa, atendendo a novas exigências, foram adaptadas, atualizadas e mesmo reinventadas. A restauração do repertório antigo se deu a partir do trabalho de catalogação dos arquivos musicais locais e de cidades vizinhas, em torno dos quais foi gerado um grande número de pesquisas musicológicas. (...)
Atualmente se iniciam as solenidades da comemoração da entrada do Senhor em Jerusalém levemente diferentes das descritas por Lincoln de Souza para a Semana Santa de 1954. Assim dá início à sua descrição lacônica da comemoração da entrada de Nosso Senhor em Jerusalém: "Às 9 horas, iniciaram-se os Ofícios, pela Bênção das Palmas, seguindo-se a Procissão Litúrgica, em derredor da igreja-matriz e Missa Solene, com textos da Paixão, segundo São Mateus." Entendo que tenha havido uma exigência da redação no tocante ao tamanho do texto, porque são tão breves as palavras do grande jornalista Lincoln de Souza a respeito da abertura da Semana Santa em São João del-Rei que me permito estender-me um pouco mais.  Por tal descrição, entendo que em 1954 tenha havido a bênção das palmas dos fiéis antes de uma rasoura em redor da Catedral Basílica Nossa Senhora do Pilar (na ocasião Igreja-Matriz), na qual o cortejo adentrava. Todas as funções religiosas estavam concentradas na Igreja-Matriz.
No presente, vou fazer uma breve também descrição do que se passa antes de adentrar a Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar.
De fato, hoje transcorre de modo diverso a abertura da Semana Santa em São João del-Rei. Em alguma altura depois de 1954, decidiu-se dar início à solenidade na Igreja de Nossa Senhora do Rosário (primeiro rito litúrgico do Ofício de Ramos), formar-se a procissão de Ramos do lado de fora deste templo até atingir a Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, onde no seu interior se conclui a solenidade (Missa e Canto da Paixão, em latim e canto gregoriano). Acredito que a atual procissão de Ramos lembra melhor o cortejo triunfal que acompanhou Nosso Senhor ao entrar em Jerusalém.
Aqui apresento da Semana Santa de 2010 uma brevíssima descrição da cerimônia no interior da Igreja do Rosário e do cortejo triunfal em seu trajeto até a Igreja-Matriz numa distância aproximada de 200 metros. Já que o saudoso jornalista Lincoln de Souza é meu patrono no IHG de São João del-Rei, tomo a liberdade de embelezar o seu texto magistral, intocável em todos os aspectos, principalmente por ser o testemunho de uma época, com um pequeno trecho daquele meu trabalho. 
Enquanto o Bispo e os concelebrantes saem da sacristia e se dirigem ao altar (na Igreja de Nossa Senhora do Rosário), ouve-se o vibrante “Hosanna filio David” (Hosana ao filho de Davi), cuja execução se reitera pela orquestra e coro até que os oficiantes cheguem ao altar. Terminado o canto, os concelebrantes voltam-se para o povo e o convocam a repetir os passos de Jesus em sua entrada em Jerusalém. Em seguida, o Bispo faz o incenso, asperge os ramos com água benta e vai solenemente do altar até a porta principal do templo, aspergindo os fiéis que se persignam em sinal de devoção. Quando de sua volta ao altar, o Bispo incensa todos os fiéis. Durante essas ações, ouve-se a orquestra e coro executarem “Pueri Hebraeorum, portantes ramos olivarum, obviaverunt Domino, clamantes et dicentes: "Hosanna in excelsis”. / Pueri Hebraeorum vestimenta prosternebant in via, et clamabant dicentes: "Hosanna filio David; benedictus qui venit in nomine Domini". (Os filhos dos hebreus, portando ramos de oliveiras, correram ao encontro do Senhor, aclamando e dizendo: Hosana nas alturas. / Os filhos dos hebreus depunham suas vestes no caminho, e aclamavam dizendo: Hosana ao filho de Davi: bendito o que vem em nome do Senhor.)
Concluído esse canto, proclama-se solenemente o Evangelho que, neste ano de 2010 (Ano C), corresponde à leitura de Lucas 19, 28-40. Ainda dentro do templo, ouve-se o coro a capella intitulado “Cum appropinquaret Dominus Jerosolymam”, cuja letra corresponde basicamente ao Evangelho lido.
Fora da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, é disposta uma procissão, cujo principal destaque constitui a formação de dois coros a capella, sendo o primeiro deles um quarteto (soprano e contralto, tenor e baixo). Durante o trajeto entre os dois templos, é cantado o Hymnus ad Christum Regem (Hino a Cristo Rei). Enquanto o primeiro coro (quarteto) canta o refrão ou estribilho: "Gloria, laus et honor, tibi sit, / Rex Christe Redemptor. / Cui puerile decus prompsit / Hosanna pium.” (Glória, louvor e honra a ti, / ó Cristo Rei Redentor. / A quem a decência infantil manifestou / um piedoso Hosana.)
A que o segundo e grande coro responde cantando: "Israel es tu Rex, / Davidis et inclita proles, / Nomine qui in Domini, / Rex benedicte, venis." (De Israel és tu o Rei, / e filho ilustre de Davi, / que em nome do Senhor / vens, ó Rei bendito.)
A letra completa desse Hino é constituída por mais duas estrofes ou estâncias. (...)” ¹
A cerimônia conhecida pela denominação "Missa dos Pré-Santificados" aqui no Brasil era celebrada naquela época (1954) na Sexta-feira da Paixão (Feria VI in Passione Domini), que é o primeiro dia do Tríduo Pascal: a Páscoa de Cristo crucificado, como lhe chamou Santo Agostinho. Hoje é chamada apenas de Ação Litúrgica, pois de fato não é uma Missa, já que não inclui a consagração das espécies do pão e do vinho, porque comemoramos nesse dia a imolação do verdadeiro Corpo e verdadeiro Sangue de Jesus Cristo.
Vejamos então em que consiste a atual Ação Litúrgica que veio substituir a Missa dos Pressantificados mencionada por Lincoln de Souza.
A assim chamada Solene Ação Litúrgica, na Sexta-feira da Paixão, na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar de São João del-Rei, promovida pela Irmandade do Santíssimo Sacramento, inicia-se com a Liturgia da Palavra, consistindo de duas leituras bíblicas, cada uma delas seguida pelo canto de um Tractus e por uma oração. Segue-se o Canto solene da Paixão segundo São João, a cargo de três clérigos, que cantam em gregoriano, as partes do Evangelista, de Cristo e da Sinagoga, ocorrendo interferências de coro-orquestra cada vez que aparecem as exclamações e respostas do povo (trechos tradicionalmente chamados de "Bradados" ou de "Turba"). Em seguida, há uma série de orações pela Igreja, pelos governantes e pelo povo.
A segunda parte da cerimônia é a Adoração da cruz, que é trazida em procissão, coberta, até o canto direito do altar. Lentamente, o celebrante vai descobrindo-a, cantando por três vezes, em gregoriano e em transposições ascendentes, o "Ecce lignum crucis", ao que um quinteto vocal responde com o Venite adoremus. (Depois do Venite adoremus e antes do Popule meus, cantam-se os Motetos para a Procissão do Enterro, inclusive o Canto da Verônica.) Segue-se o canto dos Impropérios (Popule meus), do Ágios o Theós, do Adoramus te Christe e do Crux fidelis, além de outros hinos e antífonas relativos à Paixão, enquanto clérigos, irmãos e povo prosternam-se diante da cruz.
A terceira parte da cerimônia é a Comunhão, quando hóstias consagradas na véspera (e colocadas na capela própria, na solene "Procissão litúrgica" do final da missa de Quinta-feira Santa) são reconduzidas profissionalmente ao altar, ao som do hino Vexilla regis. Durante a comunhão são cantados outros hinos e antífonas relativos à Paixão: Stabat Mater, O vos omnes, Doleo super te, Judas mercator pessimus e outros.

Com a reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio Vaticano II, muitas paróquias que possuíam cerimônias semelhantes às são-joanenses fizeram uma adaptação automática, numa interpretação precipitada de que era preciso abandonar a língua "canônica" latina e favorecer as línguas nacionais em todas as circunstâncias (e não apenas na celebração eucarística). Fizeram, além disso, a opção de substituir o canto coral que prestigiava a música sacra polifônica com acompanhamento do harmônio/órgão/orquestra pela monofonia com acompanhamento de violão/percussão, apesar de o Concílio Vaticano II afirmar (na Constituição Sacrossanctum Concilium, n. 116): 
A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana, o canto gregoriano; portanto, na ação litúrgica, ocupa o primeiro lugar entre seus similares. Os outros gêneros de música sacra, especialmente a polifonia, não são absolutamente excluídos da celebração dos ofícios divinos, desde que se harmonizem com o espírito da ação litúrgica...
E quanto aos instrumentos musicais utilizados no canto litúrgico, a Constituição Sacrossanctum Concilium, n. 120 afirma: 
Tenha-se em grande apreço na Igreja latina o órgão de tubos, instrumento musical tradicional e cujo som é capaz de dar às cerimônias do culto um esplendor extraordinário e elevar poderosamente o espírito para Deus. Podem utilizar-se no culto divino outros instrumentos, segundo o parecer e com o consentimento da autoridade territorial competente, conforme o estabelecido...
Também, a partir da reforma litúrgica do Concílio, foi visada a participação da assembleia de fiéis em desfavor das scholae cantorum e grupos corais, de modo que o canto religioso popular ocupou o lugar vago e passou a ser usado com maior frequência nas missas, até porque toda a missa foi traduzida para o vernáculo e, por sua vez, o canto gregoriano e a polifonia sacra foram caindo em desuso. Considero que continua válida a seguinte "regra geral" que São Pio X enunciou sobre as composições musicais litúrgicas: 
Uma composição para a Igreja é tanto mais sacra e litúrgica quanto mais se aproximar, no andamento, na inspiração e no sabor, da melodia gregoriana, e tanto menos é digna do templo, quanto mais se reconhece disforme daquele modelo supremo.
Apesar de todas as disposições da Constituição Sacrossanctum Concilium, muitas paróquias se apressaram em decidir contrariamente a essa "regra geral", o que resultou em muitos grupos corais sendo definitivamente encerrados por uma visão imediatista alinhada com uma suposta modernidade. Em contraposição, São João del-Rei teve a sorte de ter à frente da Paróquia de N. Sra. do Pilar dois monsenhores competentes e esclarecidos que não admitiram um alinhamento automático à reforma litúrgica supostamente imposto pelo referido Concílio, ainda que, com essa atitude, estivessem sacrificando suas carreiras eclesiásticas e mantendo-se em seu cargo devido a seu prestígio pessoal até sua morte. Foram eles: Monsenhor Almir de Rezende Aquino (pároco de 04/04/1948 a 13/01/1967) e Monsenhor Sebastião Raimundo de Paiva (pároco a partir de 16/01/1967), ambos falecidos, em especial este segundo que se manteve por mais tempo como pároco. A esses dois devo ainda acrescentar o Revmº Padre Geraldo Magela da Silva (pároco atual), que tem desenvolvido um trabalho muito parecido com o do saudoso pároco emérito Monsenhor Paiva que o precedeu, todos os três cultores das "piedosas e solenes tradições de nossa terra", aí incluídas as festividades religiosas. Cada um a seu modo, todos perseveraram na preservação das riquezas dos rituais católicos, como os Ofícios de Trevas na Semana Santa com seus responsórios, lições, salmos e cânticos, todos em latim, acompanhados por orquestra bicentenária e coro principalmente nas antífonas ou cantados por uma schola cantorum composta de seminaristas, destacando-se entre as cidades do Brasil São João del-Rei, que ainda conserva praticamente intactos rituais litúrgicos e paralitúrgicos (procissões, rasouras, Vias-Sacras, encomendações de almas, etc.) do período barroco e colonial. Uma vez que a Irmandade do S.S. Sacramento é a mantenedora e patrocinadora das solenidades litúrgicas da Semana Santa na Catedral Basílica N. Sra. do Pilar, quero aqui registrar o meu louvor pela sua incansável missão de dar continuidade a essas antigas manifestações religiosas presentes em nosso meio, desde a época da ereção da Comarca do Rio das Mortes em 06/04/1714, cuja cabeça era exatamente a histórica Vila de São João del-Rei.

Outra observação é que, nesta matéria, o texto da autoria de Lincoln de Souza não se faz acompanhar das fotos históricas registradas em sua máquina fotográfica (por impossibilidade desse resgate), sendo necessário que os leitores cliquem sobre o link ao final do texto, a fim de apreciarem o trabalho integral (texto e fotos) do jornalista são-joanense, que em 1922 granjeara enorme notoriedade com uma coletânea de doze lendas folclóricas são-joanenses, a que dera o título “Contam que...”. Independente das fotos, o texto de Lincoln de Souza é bastante esclarecedor, abordando com fidelidade histórica a forma como o tema religiosidade e música afetava a comunidade são-joanense e constituindo-se num depoimento fiel de uma época anterior ao Concílio Vaticano II.

Se Lincoln de Souza descreveu as solenidades do SÁBADO DA ALELUIA, infelizmente não constou da publicação sua esperada descrição. A edição da revista A Noite Ilustrada omitiu esse texto porventura existente. É pena que, desta forma, seus leitores ficamos privados de conhecer seu texto sobre a imponente cerimônia litúrgica conhecida por "VIGÍLIA PASCAL".

Por fim, assinalo que o que se deduz do texto de Lincoln de Souza é: os três Ofícios de Trevas (da Quinta, Sexta e Sábado) eram realizados, respectivamente, na Quarta, Quinta e Sexta-feira, todos à noite. A menção de um quarto Ofício de Trevas no Sábado Santo parece ter sido um erro tipográfico ou descuido do autor e, portanto, deve ser desconsiderado, salvo melhor juízo.
Atualmente o Ofício de Trevas (Laudes e Matinas) da Quinta-feira Santa tem lugar na Quarta-feira, à noite (como, aliás, parece ter sido em 1954 e desde então tal costume foi mantido); na Quinta-feira Santa não há o Ofício de Trevas, porque já foi apresentado na noite da Quarta-feira Santa. (Nos tempos atuais na Quinta-feira Santa, pela manhã é concelebrada Solene Missa e Bênção dos Santos Óleos dos enfermos, do sacro Crisma e dos catecúmenos e às 17 horas é celebrada Missa Solene da Ceia do Senhor.)
De acordo com o texto de Lincoln de Souza, é mencionado que, depois do Lava-Pés, na Quinta-feira Santa à noite, seguia o Ofício de Trevas (certamente o da Sexta-feira Santa). Atualmente, na Sexta-feira Santa o Ofício de Trevas respectivo tem lugar durante a manhã deste dia.
Lincoln de Souza menciona que, às 18 horas da Sexta-feira Santa, antes da cerimônia do Descendimento da Cruz, é que havia Ofício de Trevas (certamente o do Sábado Santo). Atualmente, no Sábado da Aleluia, durante a manhã, verifica-se o Ofício de Trevas respectivo.
Resumindo, é provável que, na época do texto em questão, os três Ofícios de Trevas (da Quinta, Sexta e Sábado) fossem realizados, respectivamente, na Quarta, Quinta e Sexta, todos à noite. Considerava-se então e de fato é irrelevante rezar e cantar as Laudes e Matinas na noite da véspera (do dia do Ofício) ou durante a manhã do dia do Ofício.



II.  TEXTO DE LINCOLN DE SOUZA: 2.1) O MAIS EMPOLGANTE ESPETÁCULO DE FÉ EM TODO O BRASIL

 
A famosa Semana Santa de São João del Rei Músicas sacras dos mais notáveis compositores nacionais e estrangeiros Revivendo o drama do Calvário, com personagens vestidos a caráter Réplica da procissão do Senhor Morto em Sevilha e Oberammergau Gente de tôda parte do Brasil na terra em que nasceu Tiradentes Cerca de vinte e cinco mil pessoas assistem em praça pública à solenidade do descendimento da cruz 

Tal como Bruges, no setentrião belga, que é conhecida sob várias denominações "Bruges, a Morta", "Bruges, a Bela", "Bruges, a Veneza do Norte" à cidade que foi o berço de Tiradentes, São João del Rei, também chamam "Princesa do Oeste", "Cidade dos Sinos" e "Cidade das Lendas".
De tôdas, porém, a denominação mais acertada a meu ver, é a de "Cidade dos Sinos". São João del Rei, com efeito, merece tal classificação, em virtude do grande número de suas igrejas, algumas famosas, como a de São Francisco de Assis um verdadeiro poema em pedra a do Carmo e da Matriz de N. S. do Pilar. Proporcionalmente à cifra dos seus habitantes (entre 32 e 35 mil) há ali mais igrejas do que na Bahia, que não as possui em número de 365 uma para cada dia do ano conforme se propala, mas cento e poucas, segundo estatística oficial daquele Estado.
O espírito de religiosidade do povo sanjoanense é outro fato bastante conhecido, não só em Minas, como em outros Estados. As festividades da Semana Santa, pela sua invulgar imponência e pela sua originalidade, atraem à terra do Proto-Mártir da Independência milhares de forasteiros, não apenas do Estado mas de tôdas as partes do país. A Semana Santa de São João del Rei é tão famosa quanto a de Sevilha, na Espanha,  ou a de Oberammergau, na Alemanha, já tendo sido filmada muitas vêzes e divulgada através de inúmeras estações de rádio, inclusive desta capital. Os mais renomados oradores sacros, contratados pelos organizadores dos festejos, pregam nos templos e em praça pública, sendo executadas, por verdadeiros mestres, peças de consagrados artistas, entre os quais se sobressai o padre José Maria Xavier, cujas composições são conhecidas até no estrangeiro.
Êste ano, as festividades transcorreram com o mesmo brilho dos anteriores, tendo a assistir-lhes, entre outros destacados sanjoanenses, os Srs. Tancredo Neves, titular da pasta da Justiça, e Gabriel de Resende Passos, ex-procurador geral da República e atualmente deputado federal. Impossível dar o número dos forasteiros. Foram aos milhares. Muitos dias antes do Domingo de Ramos, já os trens da Rêde Mineira de Viação, os ônibus, os automóveis particulares, os aviões da ONTA e outros veículos despejavam gente na cidade. Os hotéis, superlotados, tiveram de recusar os hóspedes que chegaram na última hora e estes, não tendo parentes ali, foram obrigados a retornar aos lugares de onde procediam.
Com o objetivo de fazer a cobertura das solenidades religiosas máximas, que se realizam no Brasil, para "A NOITE ILUSTRADA", rumamos para São João del Rei, viajando no "Vera Cruz" um modêlo de confôrto da Central do Brasil, até Barbacena, onde tomamos o tremendo e sujo trenzinho da antiga E. F. Oeste de Minas, que nos leva até aquela velha e tradicional cidade. É escusado dizer que, além de tudo, não havia mais lugares na composição, sendo grande número de passageiros obrigado a viajar de pé, durante quase quatro horas, tempo que gasta para o trenzinho percorrer menos de cem quilômetros! Maior descaso não pode haver, por parte da administração daquela ferrovia, para com o público.
Afinal, em São João del Rei, demos início à nossa tarefa. Antes, porém, de dizermos sôbre a Semana Santa, propriamente dita, convém explicar o seguinte: nas três primeiras sextas-feiras da Quaresma, que a antecedem, celebram-se à noite a "Via-Sacra" uma espécie de pequena procissão que, precedida pela cruz, percorre diversas ruas da cidade onde se encontram diminutas capelas denominadas "Passos". Aí para o desfile e rezam-se "motejos" alusivos aos passos de Jesus: queda, encontro, crucificação, etc. Também no interior das igrejas, à mesma hora, há "Via-Sacra".
Na quarta sexta-feira realiza-se o Depósito das Dores, em que a imagem de Nossa Senhora das dores sai da igreja matriz e vai para a do Carmo, em procissão. No sábado seguinte, há o Depósito dos Passos. Desta vez é Nosso Senhor dos Passos que é levado profissionalmente, à noite, da matriz para a igreja de S. Francisco de Assis. No domingo, à tarde, tem lugar a Procissão do Encontro. A imagem de N. S. das Dores sai do Carmo em direção à Praça Barão de Itambé (antiga das Mercês) e a de N. Senhor dos Passos, saindo do templo franciscano, é levado àquela praça, onde se dá o encontro, havendo sermão alusivo ao ato, feito, no geral, por um notável orador sacro, da localidade ou de fora. Depois do encontro, seguido do sermão, as imagens percorrem algumas ruas, detendo-se diante do "Passo" da Praça Dr. Paulo Teixeira e do da Rua Duque de Caxias, que lhe ficam no trajeto, recolhendo-se, por fim, o cortejo à igreja-matriz, onde um sacerdote prega o Sermão do Calvário.
Agora, entremos na Semana Santa.

DOMINGO DE RAMOS

No segundo domingo após as solenidades do encontro, já acima descrito, realizaram-se as do Domingo de Ramos.
Às 9 horas, iniciaram-se os Ofícios, pela Bênção das Palmas, seguindo-se a Procissão Litúrgica, em derredor da igreja-matriz e Missa Solene, com textos da Paixão, segundo São Mateus.
Às 17 horas, em ponto, saiu daquele templo a procissão do Senhor do Triunfo, que percorreu as ruas do costume, pregando na ocasião o padre Nelson Tafuri.
O Domingo de Ramos revive a entrada triunfal do Nazareno em Jerusalém, onde a população, empunhando palmas e atirando mantos sôbre o chão, procurava homenagear o Rei dos Reis, à sua passagem.
Em São João, o povo estende panos vistosos nas janelas e sacadas e os fiéis, carregando palmas, acompanham o préstito, de que participam tôdas as corporações religiosas da cidade.

SEGUNDA E TERÇA-FEIRA

Às 19 horas, "Via-Sacra" interna, na igreja-matriz do Pilar. Diante dos quadros que representam a "Via-Sacra" de Jesus, os fiéis em procissão se detinham e oravam.

QUARTA-FEIRA DE TREVAS

Às 7 horas, missa com música. Às 19 horas, teve lugar o Ofício de Trevas, que pode ser assim descrito: na igreja em penumbra, os altares coberto de pano roxo, iniciam-se os cânticos de salmos e lamentações de profetas, desponsórios e noturnos. À proporção que os cânticos se sucedem, as velas vão sendo apagadas, uma por uma. A última vela, que simboliza Jesus, é conservada acesa. Ao chegar à penúltima, a igreja fica às escuras, há um rumor de batida de pés, sôbre o assoalho, para dar a idéia, embora vaga, na convulsão da natureza no dia da morte do Crucificado. Mas a agitação dura apenas segundos, após o que voltam as luzes a se acenderem.

QUINTA-FEIRA SANTA

Comunhão aos fiéis, das 6 às 8,30 na Matriz do Pilar.
Às 10 horas, houve Missa Solene, com sermão ao Evangelho, sôbre a instituição do SS. Sacramento, pelo grande pregador sacro, monsenhor José Pedro Costa, da Arquidiocese de Diamantina.
Após a missa, foi o SS. Sacramento conduzido em solene procissão à sua capela, onde permaneceu encerrado até o dia imediato, no Santo Sepulcro. Seguiu-se a tocante cerimônia da Desnudação dos Altares (retirada dos panos roxos que os vedavam). Às 18 horas, realizou-se outra cerimônia a do Lava-Pés, orando depois monsenhor Pedro Costa.
No Lava-Pés, que repete o ato de humildade praticado por Jesus, lavando os pés de seus discípulos e lhes recomendando amarem-se uns aos outros, como Êle os amou tomam parte doze menores que fazem o papel de Apóstolos. O vigário, representando Jesus e acompanhado de dois acólitos, que conduzem bacia e toalha, lava os pés dos menores, auxiliado pelos mesários da Irmandade do S. S. Sacramento.
Depois do Lava-Pés, seguiu-se o Ofício de Trevas, de acôrdo com o ritual já descrito.
Na Quinta-feira Santa, os fiéis se dirigem aos templos, para a chamada "visitação".

SEXTA-FEIRA MAIOR

Às 8,30 horas, teve comêço o Ofício do dia - texto da Paixão, segundo S. João, seguido de orações por todo o mundo e, após, o comovente ato da Adoração da Cruz.
Realizou-se, depois, o encerramento da Exposição do S. S. Sacramento, que foi conduzido, em procissão, da capela para o altar em que se celebrou a Missa dos Pressantificados. Comemorando as Três Horas da Agonia, teve lugar, às 13 horas, o sermão das "Sete Palavras", ocupando o púlpito monsenhor José Pedro da Costa.
Às 18 horas, houve Ofício de Trevas, após o qual se realizou, na grande Praça Barão de Itambé, a emocionante cerimônia do Descendimento da Cruz. Foi orador, na ocasião, o cônego Trajano Barrôco, do clero de Guaxupé. A senhorita Lúcia de Oliveira, que representou a Verônica, com voz harmoniosa e segura, cantou o conhecido "O Vos Omnes", exibindo, no quadrado de alvo pano, a Imagem, em sangue do Salvador. Seguiu-se a Procissão do Entêrro, que percorreu as principais ruas, recolhendo-se à Matriz de N. S. do Pilar.
No cortejo sacro, que recorda algo do que, em tempos mais recuados, se realizava em São João del Rei, porém com muito maior pompa, tomam parte menores e adultos representando personagens bíblicos e históricos, vestidos a caráter, tais como Abraão e Isaac, Moisés carregando as tábuas da lei, São Jorge, Madalena, Judith levando num prato a cabeça de Holofernes, Samaritana, Adão e Eva (seguramente os personagens mais fracos do desfile), as Três Marias, os Doze Apóstolos, José de Arimateia e José de Nicodemus conduzindo, numa salva de prata, os cravos retirados das mãos e dos pés de Jesus, a Verônica, que cantou em vários locais, e, finalmente, a Guarda do Sepulcro, comandada por um centurião.
Calcula-se que, de detrás da igreja-matriz até as escadarias das Mercês, se tenham reunido para assistir à solenidade do Descendimento da Cruz, cêrca de 25 mil pessoas.

DOMINGO DA RESSURREIÇÃO

Às 10 horas, foi celebrada a Missa Solene da Ressurreição. Ao Evangelho, falou o cônego Trajano Barrôco.
Às 14 horas, saiu da igreja-matriz a procissão do S. S. Sacramento. Às 19 horas, realizou-se a Coroação de Nossa Senhora, encerrando-se as tradicionais festas da Semana Santa com solene Te-Deum Laudamus e sermão, pelo Revmº monsenhor José Pedro da Costa.


2.2) PARTE MUSICAL DAS SOLENIDADES 


Para que se faça idéia da qualidade das composições da Semana Santa de São João del Rei, basta reproduzir aqui a relação das peças musicais e respectivos autores, executadas pela magnífica e tradicional "Orquestra Ribeiro Bastos", constante do programa dos festejos. Ei-la:

DOMINGO DE RAMOS

Ofício, Bradados, Quarteto de vozes, Missa e Credo de autoria do inolvidável compositor sanjoanense Pe. José Maria Xavier, de saudosa memória.

QUARTA-FEIRA DE TREVAS 

Ofício (Matinas e Laudes) do mesmo laureado Pe. José Maria Xavier.

QUINTA-FEIRA SANTA

Ouverture: "Columbus", de A. Hartmann; Missa e Credo da Lapa, de Giorza; Introito e Gradual, "Christus Factus est", do grande compositor Pe. José Maria Xavier; O Salutaris, de Massenet; Ofertório, Communio do maestro Martininiano Ribeiro Bastos; Sanctus, Benedictus e Agnus Dei, de Luigi Felice Rossi. Ao Lava-Pés, "Domine, Tu Mihi", do inspirado compositor Pe. José Maria Xavier, e solo ao pregador de Stradella, atuando neste o professor Servulino Reis. Os Ofícios (Matinas e Laudes) são ainda do imortal Pe. José Maria Xavier.

SEXTA-FEIRA MAIOR

Tractus, Bradados e durante o ato solene e tocante da Adoração da Cruz, "Popule Meus" e Adoramus, do inimitável compositor Pe. José Maria Xavier; "Venite Adoremus", do consagrado compositor Martiniano Ribeiro Bastos; "Stabat Mater" e Côro da Caridade, de Rossini; "O Vos Omnes", de Presciliano Silva, compositor sanjoanense e ex-aluno do Conservatório de Milão; "As Sete Palavras", de Rosina de Mendonça. Ofícios (Matinas e Laudes) do Pe. José Maria Xavier.

SÁBADO DA ALELUIA 

Tractus, Missa, Matinas e Laudes, do Pe. José Maria Xavier. Antes das Matinas, à noite, Ouverture "Le Lac de Fée", de Auber.

DOMINGO DA RESSURREIÇÃO 

Ouverture: "Norma", de Bellini; Missa e Credo, de Luigi F. Rossi; Solo ao pregador e "Tantum Ergo", de Rossini.
À noite: Ouverture: "Une Présentation à la Cour", de L. Fossy; Solo ao pregador: Ave Maria, por Fauré; "Te-Deum Laudamus", de Justino da Conceição (compositor ouro-pretano). Nos atos externos tocou a excelente corporação musical "Santa Cecília", sob a direção do professor Joaquim Laurindo Reis.
A Rádio Inconfidência, de Belo Horizonte, irradiou tôdas as solenidades, em ondas médias, curtas e longas.

Fonte: A Noite Ilustrada, Rio de Janeiro, 1954, Ano XXIV, nº 1314, p. 6-9.
Texto e fotos de Lincoln de Souza na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.




III. NOTAS EXPLICATIVAS
 

¹ Sugiro que o leitor verifique como se processam essas solenidades modernamente, dirigindo-se ao texto que escrevi em 2010 no Blog do Braga, intitulado Semana Santa em São João del-Rei: Crônica do Domingo de Ramos (vide Bibliografia), sem restrições quanto ao tamanho do texto que a meu ver impediram Lincoln de Souza de descrever com exatidão a abertura da Semana Santa em São João del-Rei. Todas as músicas tratadas aqui são da autoria do compositor são-joanense Pe. José Maria Xavier (1819-1887), cujo bicentenário de nascimento comemoramos durante todo este ano de 2019.





IV. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA


 
BRAGA, Francisco José dos Santos: Semana Santa de São João del-Rei: Crônica do Domingo de Ramos
Link: http://bragamusician.blogspot.com/2010/03/semana-santa-de-sao-joao-del-rei-1.html 

                                      — Padre Godinho, pregador na comemoração da Semana Santa de 1960, na histórica São João del-Rei

                                      — Liturgia dos (Dons) Pré-santificados nas igrejas católica e ortodoxa russa

EQUIPE de Liturgia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar: A Quaresma e a Semana Santa em São João del-Rei-MG, Juiz de Fora: Esdeva Empresa Gráfica Ltda., 1982, 1º volume, 343 p.

GANDELMAN, Salomea: Homenagem a José Maria Neves - Sessão de abertura da ANPPOM (18 de agosto de 2003), Revista Eletrônica da ANPPOM, p. 7-20.
Link: http://www.anppom.com.br/revista/index.php/opus/article/view/83/0

SOUZA, Lincoln de: O mais empolgante espetáculo de fé em todo o Brasil, revista A NOITE ILUSTRADA, Rio de Janeiro, 1954, Ano XXIV, nº 1314, p. 6-9. Texto e fotos de Lincoln de Souza na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
Link: http://memoria.bn.br/pdf/120588/per120588_1954_01314.pdf

domingo, 27 de outubro de 2019

O ENCONTRO: SÃO FRANCISCO DE ASSIS E O SULTÃO


Por Francisco José dos Santos Braga 


 I.  A RESPEITO DE UMA FOTOGRAFIA DE 1949

 
A família franciscana tem muito que comemorar neste ano de 2019:  inicialmente pelo transcurso dos 70 anos da ereção da Província Santa Cruz (1949-2019). Do dia 21 ao dia 25 de outubro, os freis da Província estiveram reunidos no Seminário Seráfico Santo Antônio, em Santos Dumont-MG, tratando de assuntos internos da Província. Para o encerramento do Encontro Franciscano no último dia (25/10), numa atitude de ação de graças e congraçamento, foi expedido o seguinte Convite para uma celebração eucarística:

Capa do convite

Convite propriamente dito
Contracapa do convite














Como a capa não trouxesse a legenda com os nomes dos fundadores da Província, recorri ao poeta e confrade Dr. Fernando de Oliveira Teixeira, membro da Academia Divinopolitana de Letras e professor e um dos fundadores da FACED, o qual pertencera à Província na qualidade de seminarista e clérigo noviço, e sabendo eu de seu cuidado de meticuloso guardião da memória franciscana, para pedir-lhe a gentileza de informar-me os nomes dos participantes de célebre Congresso franciscano com a missão, em 1949, de elevar o Comissariado de Santa Cruz à condição de Província autônoma. Do e-mail recebido, tenho a dizer que outras preciosas informações me foram enviadas, além das solicitadas, todas retiradas do livro História dos Franciscanos da Província Santa Cruz, por Riolando Azzi, editado pela Província Santa Cruz, Belo Horizonte, 2014, as quais passo a compartilhar com meus leitores. Vejamos então:

Uma Circular da Província Holandesa, enviada de Weert e datada de 11 de dezembro de 1949, de autoria de frei Apolinário van Heuven, dizia: “Por decreto de 16 de novembro passado, o Mui Reverendo Padre Geral, com o consentimento do Definitório Geral da Ordem e autorizado para tal pela Congregação dos Religiosos, elevou o Comissariado de Santa Cruz no Brasil a Província independente, com todos os direitos e obrigações inerentes” (sic). Compromete-se a Província Holandesa, ainda, a 1) nos primeiros dez anos, enviar dois ou três padres anualmente, desde que haja disponibilidade; 2) no mesmo período se compromete a proporcionar oportunidade a alguns sextanistas de seu Colégio Missionário, ou alguns clérigos após o noviciado, de continuar seus estudos no Brasil e receber na nova Província formação espiritual, e 3) encarregar-se, por sua Procuradoria das Missões, de cuidar de interesses da nova Província e de seus membros. Finalmente, os padres do Comissariado poderão escolher entre as duas Províncias, devendo comunicar o desejo até 1º de fevereiro de 1950. A Circular implora “a bênção de Deus por vós, a fim de que a obra, agora por sua inspiração iniciada, com o auxílio de Sua graça prospere” [AZZI, 2014, 23/24].
–––––––––––––––––––––––– 

Em 25 de novembro de 1949, frei Zacarias van der Hoeven comunicou às autoridades eclesiásticas brasileiras que estava ereta a Província Franciscana Santa Cruz e ficara eleito seu primeiro órgão diretivo:
Ministro Provincial: frei Serafim Lunter;
Custódio: frei Zacarias van der Hoeven;
Definidores: frei Brás Berten, frei Rufino Peters, frei Olímpio Reichert e frei Jerônimo Jansen. [AZZI, 2014, 26].
________________________ 

Quanto à fotografia, que constou do convite de 70 anos da Província, Dr. Fernando de Oliveira Teixeira repassou-me as seguintes informações: A fotografia, a que você se refere, ocorrida no Convento de Carlos Prates, em Belo Horizonte, está na p. 445 do livro de Riolando Azzi e tem a seguinte legenda: “Congresso do Comissariado, ocorrido em 1949, em Carlos Prates, Belo Horizonte, MG, que antecedeu a instalação da Província Santa Cruz. O Congresso contou com a presença do Provincial da Holanda, fr. Apolinário van Heuven.  
Da esquerda para a direita: Primeira fila (sentados): fr. Ildefonso Wouters, fr. Paulo Stein, fr. Rufino Peters (com.), fr. Apolinário van Heuven (prov.), fr. Zacarias van der Hoeven, fr. Respício van Valkenhoef, fr. Antelmo Kropman, fr. Brás Berten. / Segunda fila, de pé: fr. Luís Alves Caseca, fr. Osmundo Hin, fr. Felicíssimo Mattens, fr. Modesto van Gastel, fr. Francisco Stienen, fr. Osório da Silva Santos, fr. Olímpio Reichert, fr. Antonelo de Gruijter. / Terceira fila, de pé: fr. Concórdio van Bavel, fr. Remi Hendriks, fr. Helano van Koppen, fr. Sabino Stahoirst, fr. Alexandre Noordeloos, fr. Liberto Soppe, fr. Querubim Breumelhof, fr. Joaquim van Kesteren, fr. João Brouwer, fr. Gamaliel van Emmerik. / Quarta fila, de pé: fr. Jeronimo Jansen, fr. Levino Pothof, fr. Eurico Peters, fr. Gaudioso Nieuwenhuijsen, fr. Eugeniano Kupka, fr. Teodulfo Kamsma, fr. Carlos Schep.
NOTA: A mesma fotografia se acha na página 18 e 19 e foi escrito na página 20: “Instalação da nova Província Santa Cruz, em Divinópolis, em 8/1/1950”. Ou seja, a instalação solene da Província de Santa Cruz, em 8 de janeiro de 1950, deu-se na cidade de Divinópolis, com frei Serafim Lunter como primeiro Provincial.
________________________ 

Ministros Provinciais (resenha fotográfica em [AZZI, 2014, 446/447]: fr. Serafim Lunter(1949/1956); frei Jerônimo Jansen (1956-1964); frei Erardo Veen (1964-1970); frei Diogo Reesing (1970-1979) ¹; frei Patrício Moura Fonseca (1979-1988) ²; frei Luciano Brod (1988-1995 e eleito novamente 2000-2006); frei Dario Campos (1995-2000); frei Francisco Carvalho (2006-2012 e reeleito 2012-2018); frei Hilton Farias de Souza (2018-...). ³
¹  Último Ministro Provincial holandês, cujo esforço foi de “abrasileirar” a Província. 
²  Primeiro Ministro Provincial brasileiro e mineiro, pois nasceu em Pirapora (MG) 
³  As informações, a partir do mandato de fr. Francisco Carvalho, acrescidas por Dr. Fernando de Oliveira Teixeira. 
________________________ 

Minhas dúvidas a respeito dos nomes dos freis que posaram para a foto em 1949 e outras que porventura eu tivesse foram dirimidas. Acredito que agora também satisfaçam a curiosidade de meus leitores.

Resta ainda informar que meia hora antes da celebração eucarística veiculada pelo Convite acima citado, foi inaugurado o MEMORIAL SANTA CRUZ, com o objetivo de conservar, facilitar a pesquisa, difundir e expor objetos sacros pertencentes à Província Santa Cruz, que antes estiveram sob a custódia de frei Joel Postma no antigo "museu". Parabéns aos que trabalharam na identificação e limpeza dos objetos a serem expostos e na adoção de moderna técnica de custódia e apresentação do acervo do antigo "museu"!

Placa comemorativa de criação do Memorial Santa Cruz 
no Seminário Seráfico Santo Antônio, de Santos Dumont-MG

APONTAMENTOS SOBRE O VIII CENTENÁRIO DO ENCONTRO ENTRE FRANCISCO DE ASSIS E O SULTÃO

Como estou tratando da reunião da Província Santa Cruz para comemorar os seus 70 anos de caminhada, a organização do encontro achou por bem comemorar conjuntamente um outro evento igualmente histórico: o encontro de São Francisco e o Sultão, ocorrido há exatamente 800 anos atrás. A revista Santa Cruz, Ano 83, nº 1, p. 8, dedica sua primeira matéria ao "Comentário sobre a carta do Papa pelos 800 anos do encontro entre São Francisco e o Sultão". Ali lemos que

"o Papa Francisco fez um chamado a não ceder à violência, menos ainda sob pretexto religioso, na carta que escreveu por ocasião do 800º aniversário do encontro de São Francisco de Assis e o Sultão al-Malik al-Kamil, um evento que foi celebrado no Egito, de 1º a 3 de março de 2019. A referida carta, escrita em latim está dirigida ao Prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais, Cardeal Leonardo Sandri, que é o enviado pontifício ao Egito durante as comemorações do oitavo centenário do célebre encontro. (...) O próprio Francisco de Assis - recorda o Papa - junto com seu coirmão, Frei Iluminado, partiu para o Egito em 1219. Em Damieta, ao norte do Cairo, encontrou o Sultão. Diante das perguntas do chefe sarraceno, 
"o servo de Deus, Francisco, respondeu com o coração intrépido que não tinha sido enviado pelos homens, mas por Deus Altíssimo, para mostrar a ele e ao seu povo o caminho da salvação e anunciar o Evangelho da verdade." E o Sultão, ao ver o admirável fervor de espírito e a virtude do homem de Deus, o escutou de boa vontade" (São Boaventura, Lenda Maior, 7-8) 
[ARAÚJO JR., 2019, 5/6] informa que 
"Francisco, no décimo terceiro ano de sua conversão, foi para a Síria e, apesar dos fortes e duros combates entre cristãos e pagãos, todos os dias, não teve medo de levar um companheiro e de se apresentar ao sultão dos sarracenos. (...) O sultão, por sua vez, reverenciou-o quanto lhe foi possível e lhe ofereceu muitos presentes, tentando convertê-lo para o espírito mundano. Mas, quando viu que Francisco desprezava valentemente todas as coisas como se não passassem de esterco, ficou admiradíssimo e olhava para ele como um homem diferente. Ficou muito comovido com suas palavras e o ouviu de muito boa vontade (Cf. I Legenda de Tomás de Celano, nº 57, escrita entre 1228 e 1230).
Al-Malik al-Kamil Nasis as-Din Muhammad nasceu em 19 de agosto de 1180 (cerca de um ano e meio mais velho que Francisco). Era ainda um menino quando os cruzados entregaram Jerusalém às tropas muçulmanas, em 2 de outubro de 1187. Foi sobrinho de Salah ad-Din Yusuf ibn Ayyub, chamado pelos cruzados de Saladino (Paul Moses. O Santo e o Sultão: As Cruzadas, o Islã e a missão de paz de Francisco de Assis, Acatu, 2010).
Al-Malik al-Kamil foi um homem religioso, bom guerreiro e especialista em política, desejoso de chegar a um compromisso com os cristãos. Prova disso foi a trégua de dez anos (1229-1239) entre o sultão e o imperador Frederico II, ao firmar o Tratado de Jafa, pelo qual retornaram aos cristãos as cidades de Jerusalém, Belém e Nazaré. Essa trégua permitiu sobretudo a volta dos peregrinos ocidentais sem terem de pagar tributos, como até então lhes era imposto (Artemio Vítores Gonzalez. Francisco de Asís y Tierra Santa, PPC, Madrid, 2010).
Numa época na qual se verificava um confronto entre o Cristianismo e o Islã, Francisco, intencionalmente armado só com a sua fé e com a sua mansidão pessoal, percorreu com eficácia o caminho do diálogo (Bento XVI, 27/01/10).
De ânimo reconhecido ao Senhor, aproveitei o ensejo do VIII centenário do encontro entre São Francisco de Assis e o sultão Al-Malik al-Kamil para vir aqui como crente sedento de paz, ser instrumento de paz: para isto, estamos aqui (Francisco, por ocasião da visita aos Emirados Árabes, 04/02/19)." 


CANTATA "FRANCISCO E O SULTÃO, HOMENS DE PAZ" 

Do confronto ao abraço


"A diferença entre a Guerra e a Paz é a seguinte: na Guerra, os pobres são os primeiros a serem mortos; na Paz, os pobres são os primeiros a morrer. (Mia Couto: Mulheres de Cinza)
Se todos passam mão em arma e fecham volta de tiroteio, uns contra os outros, então o mundo se acaba..." (João Guimarães Rosa: Grande Sertão: Veredas) 

Texto: frei Óton da Silva Araújo Júnior o.f.m. 
Composição musical: frei Joel Postma o.f.m. 

Primeiro, uma palavra sobre frei Óton, o libretista. Ele é velho parceiro de frei Joel, tendo já feito o libreto de outra cantata de 2002: "Os Louvores do Irmão Francisco". Possui doutorado em TEOLOGIA MORAL pela Pontifícia Universidade Lateranense (2012). Atualmente é professor do Instituto Santo Tomás de Aquino (BH) e Faculdade Jesuíta (BH). Foi Membro do Comitê de Ética e Pesquisa (Betim). Tem experiência na área de Teologia, com ênfase em Teologia Moral. Assessor de movimentos populares na área de ética teológica. Foi membro da coordenação da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), regional de Minas Gerais. Membro da equipe interdisciplinar da CRB nacional. Diretor Pastoral do Colégio Santo Antônio, BH. Orienta retiros de leigos do curso de Teologia do Colégio e encontros de "Under Ten", promovidos anualmente pela Província Santa Cruz. Nestes, os frades, que possuem até dez anos de profissão solene, encontram-se para rezar, refletir, conviver e partilhar a vocação franciscana. 

Sobre frei Joel Postma escrevi um texto no Blog do Braga a que dei o título de "Aos 90 anos de frei Joel Postma o.f.m.", do qual destaco o seguinte trecho da fala de frei Joel sobre sua biografia: 
"(...) na fala de frei Joel, mereceu destaque o trecho em que se referiu aos 800 anos do encontro de São Francisco de Assis com o Sultão, comemorado neste ano de 2019. Nesta busca de conciliação, São Francisco tomou conhecimento de 99 nomes de Deus, pronunciados como mantra pelos mouros durante suas orações. Frei Joel comentou que São Francisco, no diálogo com o Sultão, observou que faltavam dois nomes de Deus, a seu ver, e acrescentou-os, além dos 99 nomes já conhecidos nos livros sagrados muçulmanos: Deus é paciência ou longanimidade, e Deus é humildade." 

A cantata teve sua estreia no quarto dia do encontro da Província Santa Cruz (24/10/2019) no Seminário Seráfico Santo Antônio, em Santos Dumont-MG, às 19h 30min. Frei Joel, além de compositor, foi o regente do Coral Trovadores da Mantiqueira (que ele fundou em 1964, há 55 anos atrás) e contou com o meu acompanhamento ao piano/órgão. A cantata foi composta, parte para 3 vozes, parte para 4 vozes. Há ainda a participação de um tenor solista (frei Kellison), bem como de dois narradores (frei Óton e frei Arlaton). Para a composição de sua cantata, os freis Joel e Óton imaginaram ambientá-la na mesma época do encontro de Francisco com o sultão, mediante a utilização de modos gregorianos, o que contribuiu para dar à composição um caráter exótico e instigante, que certamente envolveria o ouvinte do início do século XIII, fazendo uso de certa leveza e superação da rigidez do compasso. 
Além disso, o libretista se inspirou em trechos de obras literárias conhecidas, a saber:
1. Bíblia Sagrada: inúmeros trechos, especialmente os Salmos de Davi
2. Grande Sertão: Veredas (1956), em algumas alcunhas para o diabo na peça A Galope (2ª parte)
3. Navio Negreiro de Castro Alves, canto V (1869), onde a tropa dos cruzados vencidos lembra a referência aos escravos na peça A Derrota (3ª parte).
Para encerrar a cantata, os freis Óton e Joel imaginaram um congraçamento universal com a peça "De mãos dadas" à guisa de dança folclórica brasileira, com a utilização do motivo de "Ciranda, cirandinha" na finalização da obra, convidando todos os ouvintes à dança, enquanto o coro entoava:  
                                  "Superar as desavenças, 
todos juntos a dançar." (bis) 

PARTES DA CANTATA

Libreto de frei Óton da Silva Araújo Júnior
De forma resumida, o libreto de frei Óton compõe-se das seguintes partes:
1ª Parte: o jovem Francisco sonha em se tornar herói de guerra, mas revê sua vida, ao ser levado prisioneiro. 
1. Venham para a praça 
2. Cantiga de despertar 
3. Prepara-te, guerreiro (1202: Batalha de Collestrada, conflito entre Assis e Perúgia)
4. O canto da prisão 
5. A conversão (1208: em Assis)
6. Nossa regra de vida 

2ª Parte: o Papa Inocêncio III convoca a Quinta Cruzada (1217-1221), a fim de reaver os Lugares Santos das mãos dos sarracenos. 
7. Convocação (30 de novembro de 1215, em Roma)
8. A galope 
9. Entre os sarracenos 

3ª Parte: os Cruzados, mesmo derrotados em Damieta, insistem em lutar pelos Lugares Santos. Francisco se junta ao grupo e tenta negociar a paz. 
10. Canto de Damieta (maio a setembro de 1218 na cidade de Damieta)
11. A derrota 
12. Francisco em campo de batalha 
13. O encontro 

4ª Parte: Durante seu período em terras sarracenas, Francisco se encantou com a maneira como os muezins convidavam para a oração cinco vezes ao dia. Com voz forte, do alto das torres das mesquitas, a voz ecoava, convidando à oração. Ao escrever a todos os governantes dos povos, Francisco se inspira no convite desses pregoeiros. 
14. Aos governantes dos povos 
15. Louvação ao Deus Altíssimo (bilhete a frei Leão)
16. De mãos dadas
 

ANTECEDENTES DA CANTATA

Em sua fala antes da apresentação da cantata, frei Óton narrou que no dia 07 de agosto de 2017 receberam frei Celso e ele um e-mail de frei Joel, por ocasião de suas férias na Holanda, em que os convidava para escreverem o libreto de uma cantata sobre o encontro de São Francisco e o sultão, com sugestão para a elaboração do texto: 
"(...) Agora como chegar a um texto apropriado? Já existem tantas versões diferentes sobre esse encontro, como quanto à intenção de Francisco para essa aventura, quanto ao conteúdo da conversa, com ou sem fogueira de provação, etc. Suponho que Francisco, ao menos, queria uma conversa respeitosamente ecumênica, de acordo com a Regra non Bulata, onde ele fala sobre como os irmãos têm que ir aos sarracenos. Comportamento ecumênico, até hoje necessário e principalmente na situação atual muçulmana, cheia de problemas complicadíssimos, os atuais e os que ainda hão de acontecer. Esse problema seria até um assunto interessante para a Semana Franciscana da Província. Também, conforme a opinião de frei Chico, que está aqui hospedado de férias, seria essencial a colaboração de vocês para a composição de um texto próprio de uma cantata: com um narrador, solista e um coral (...) Qual seria a ideia de vocês sobre esse projeto? Please, help!! O Adonai lhes pague, até na quarta geração da Província!! Abraço do irmão peregrino frei Joel."

Da esq. p/ dir.: pianista Francisco Braga, compositor frei Joel e escritor
 frei Óton-Crédito: Maria Cristina R. Faria C. Pedro (contralto)













Da esq. p/ dir.: Rute Pardini, frei Kellison, frei Joel, seu Coral Trovadores 
da Mantiqueira e frei Óton-Crédito: Rute Pardini (print do filme)





AGRADECIMENTOS 


Vale destacar a acolhida que a fraternidade do seminário deu aos participantes do Encontro Franciscano durante a semana de modo geral e particularmente a nós musicistas na quinta-feira, evidenciando que a convivência fraterna, confraternização e a forte experiência de Deus entre os dois grupos são característica distintiva daquela autêntica casa de encontros. 
Depois da celebração eucarística (objeto do convite), todos fomos agraciados com um lauto banquete organizado pelo Seminário e marcando o encerramento dos trabalhos. Todos fomos unânimes em reconhecer que o extremo asseio e bom gosto que todos presenciamos e a qualidade da refeição que todos degustamos se devem especialmente à coordenação e supervisão de frei Gabriel José de Lima Neto o.f.m., o guardião da fraternidade e reitor do Seminário.
Aproveito a oportunidade para cumprimentar todos os que contribuíram para a integração do Coral: o regente, os cantores veteranos, os seminaristas, o solista, os narradores e o comentarista.
Também agradeço aos membros do ENFRADES que nos prestigiaram com sua presença amiga, especialmente a de Altair de Almeida Costa ("Tachinha") e de Afrânio Jorge Cheib ("Turco").
Por último, mas não menos importante, ressalto a alegre presença de minha esposa, soprano Rute Pardini, que a todos os integrantes do Coral Trovadores da Mantiqueira trouxe sua alegria esfuziante, colaborando com o meu acompanhamento, reforçando os naipes e facilitando a comunicação entre o regente e o acompanhador. Também a ela devo a formatação de todas as fotografias utilizadas nesta matéria.


BIBLIOGRAFIA 


ARAÚJO JR., Óton da Silva: Cantata Francisco e o Sultão, homens de paz, p. 5/6

AZZI, Riolando: História dos Franciscanos da Província Santa Cruz, editado pela Província Santa Cruz, Belo Horizonte, 2014

BRAGA, Francisco José dos Santos: Aos 90 anos de frei Joel Postma o.f.m., Blog do Braga, publicado em 11 de março de 2019.

Revista Santa Cruz (jan/jun), Ano 83, nº 1: Província Santa Cruz, 70 anos (1949-2019), editado pela Província Santa Cruz, Belo Horizonte, 2019, 33 p.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

POEMAS ADOLESCENTES INÉDITOS DE JOSÉ SEVERIANO DE REZENDE


Por Francisco José dos Santos Braga

José Severiano de Rezende in A Noite Illustrada

I.  INTRODUÇÃO
 


JOSÉ SEVERIANO DE REZENDE foi escolhido por mim para ser o Patrono da Cadeira Perpétua XVI da Academia Lavrense de Letras, que ocupo como Fundador e Titular, desde 30 de janeiro de 2016, na qualidade de sócio correspondente. Quando um Acadêmico toma posse em uma Casa de Cultura, sob a égide de um patrono, compromete-se a fazer sua apologia na posse, engrandecê-lo através de estudos mais completos e envidar esforços para expandir o conhecimento sobre sua vida e obra, divulgando-as. Isso é tanto mais verdadeiro, quanto o patrono foi de livre escolha do Acadêmico!

Tendo já publicado no Blog de São João del-Rei alguns trabalhos sobre José Severiano de Rezende (✰ Mariana, 23/01/1871 ✞ Paris, 13/11/1931), venho no presente post ampliar um pouco mais a minha pesquisa sobre esse grande jornalista, escritor, orador, sacerdote, poeta simbolista, teatrólogo  e, em Paris, adido cultural da Embaixada Brasileira e colaborador para o "Mercure de France" com a seção "Lèttres Brésiliennes". Como jornalista, colaborou com artigos e traduções para os jornais Arauto de Minas, Alvorada e O Tribunal (como fundador e colaborador) em São João del-Rei, A Província de Minas em Ouro Preto, O Dom Viçoso em Mariana, O Diário Mercantil em São Paulo e Diário de Santos em Santos-SP; a revista Horus em Belo Horizonte; jornal Correio da Manhã e Revista Americana, revista Os Annaes e Revista Brasileira no Rio de Janeiro.

Em 1970 ocorreu a 3ª edição revisada do seu livro "O meu flos sanctorum", patrocinada por Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 258 p. No ano seguinte, 1971, ano do centenário do seu nascimento, houve a 2ª edição revisada ampliada de "Mistérios" por meio de Belo Horizonte: Centro de Estudos Mineiros da UFMG, 219 p.

A Academia de Letras de São João del-Rei também homenageou José Severiano de Rezende, ao nomeá-lo patrono da cadeira nº 19, atualmente ocupada pelo Acadêmico Éric Tirado Viegas. A nossa Academia foi criada pelo Decreto Municipal nº 620, de 8 de dezembro de 1970, tendo ocorrido a sua instalação  em 21 de janeiro de 1971, mesmo ano em que se comemorava o centenário do nascimento de José Severiano de Rezende e que culminou com o lançamento de nova edição do seu livro "Mistérios", patrocinado pela Prefeitura Municipal de São João del-Rei.

Além disso em 19/04/2011, a professora, escritora e poetisa Hebe Maria Rôla Santos, atual presidente da Academia Marianense de Letras, tomou posse na Cadeira nº 317 da AMULMIG, tornando-se representante do Município de Mariana naquela Casa de Cultura, tendo escolhido como seu patrono o poeta marianense José Severiano de Rezende.

Neste trabalho ofereço aos leitores do Blog do Braga poemas inéditos do meu homenageado que localizei na Biblioteca Baptista Caetano de Almeida de São João del-Rei no hebdomadário ARAUTO DE MINAS, órgão do Partido Conservador do 6º Distrito, cujo redator era seu pai, SEVERIANO NUNES CARDOZO DE REZENDE. O período coberto vai de 21/03/1885 a 08/01/1887. (O Arauto de Minas foi um periódico impresso em São João del-Rei entre os anos de 1877 e 1889. Seu nome completo era: O Arauto de Minas : hebdomadário político, instructivo e noticioso; órgao do Partido Conservador, considerado "o jornal mais bem feito nas cidades de Minas".) Os poemas de José Severiano de Rezende, que serão apresentados neste trabalho, são experiências de um poeta adolescente com a poética, onde já se veem traços de genialidade, quer na escolha dos temas sempre candentes, quer no elaborado tratamento do material, ou ainda no expressivo fazer poético. Após os poemas inéditos há sempre o nome da cidade onde estavam sendo escritos, bem como as datas tanto da produção poética quanto da edição nos jornais. Assim, antes do jornal são-joanense Arauto de Minas, um dos poemas, "Magdalo", já tinha sido publicado pelo jornal A Província de Minas, igualmente órgão do Partido Conservador em Ouro Preto; da messma forma, dois dos poemas, intitulados "Viajando" e "No campo", foram originalmente publicados num pequeno jornal são-joanense: Alvorada e, em seguida, reproduzidos no Arauto de Minas.

Meu homenageado nasceu em Mariana, a 23 de janeiro de 1871, filho de Severiano Nunes Cardozo de Rezende, são-joanense, editor do Arauto de Minas, jornal monarquista considerado um dos melhores de Minas, e de Custódia de Rezende. No caso do meu poeta homenageado, a figura paterna foi bastante relevante para a sua formação. Além de escritor e jornalista, Severiano Nunes Cardoso de Rezende também era professor. Quando seu filho José nasceu, Severiano trabalhava como professor de Latim e Francês na escola pública de Mariana. Em março de 1872, quando o pequeno Juca tinha um ano de idade, o professor Severiano Nunes Cardoso de Rezende regressou à sua terra natal, São João del-Rei, convocado por velhas amizades e acompanhado da esposa e filho, tornando-se professor vitalício de Português no Externato Oficial de São João del-Rei e na Escola Normal da mesma cidade. Segundo Renato de Lima Júnior, o pequeno Juca teria aprendido a “soletrar brincando com os tipos” usados para imprimir o jornal Arauto de Minas, dirigido por seu pai. Em sua formação escolar inicial, percebemos uma ênfase no estudo de línguas, pois, no Externato de São João del-Rei, habilitou-se em Francês, Latim e Português, ênfase que foi decisiva em sua vida.

A certa altura de sua adolescência, concluiu os estudos no curso secundário do Externato Oficial são-joanense e prosseguiu seus estudos no Liceu Mineiro, em Ouro Preto, onde recebeu diversas influências: segundo Silvano Minense, Juca teria tido uma ligação com as ideias positivistas e sido admirador da literatura realista de Zola. Na mesma ocasião, conheceu e se tornou amigo de Alphonsus de Guimaraens. É importante destacar que começava então a grande admiração pelo poeta simbolista conterrâneo, que se tornou a grande referência literária de José Severiano de Rezende; não só deste, mas de todos os poetas simbolistas mineiros.

Os poemas abaixo apresentados são desta época em que cursava o Liceu Mineiro e nos períodos de férias em São João del-Rei.

Será mantida a grafia de época.



II.  POEMAS INÉDITOS DE JOSÉ SEVERIANO DE REZENDE


Magdalo 

(A Randolpho Fabrino)

Alli morava a grande peccadora,
a bella Magdalena — doce amante
de Boanerges, — o poeta delyrante,
ao som de cuja lyra aquela loura

mulher adormecia, em seductora
e langue morbideza... Vacillante,
o vate lhe beijava a tremulante
e setinosa face — côr da aurora...

Dormia um somno mélico, embalado
pelos frios bafejos do peccado...
Até que um dia a candida verdade

em sua alma brilhou. Arrependida,
volveu ao lar paterno; e logo a vida
lhe veio... e foi-se a morbida vaidade...

José Severiano de Rezende
Ouro Preto, 25 de Julho de 1886.

Fonte: A PROVINCIA DE MINAS, Ouro Preto, Anno VII, edição nº 376, datada de 3/8/1886, p. 4 . Idem in ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno X, edição nº 19, datada de 26/8/1886, p. 2. Link: http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=222747&pagfis=768&url=http://memoria.bn.br/docreader# 



O Gato e o Espelho 

(Florian)

Philosophos ousados, que passaes a vida,
pretendendo explicar o que é inexplicavel,
vos peço por favor, ouvi
o que com um gato se deu,
com um gato prudente e astuto,
que, estando sobre um toucador,
deu com os olhos n'um espelho.
Vae d'um salto e olha e encara. De primeiro
se lhe afigura ver o irmão,
que o observa. Alcançal-o quer o bexaninho,
mas sente-se detido; então julga que o vidro
é transparente. Vae ao lado
opposto. Nada encontra. Volta e vê o gato...
Pensa um pouco. Temendo que fuja o animal,
emquanto gyra à sua pista,
no alto do espelho trepa e ahi fica montado:
uma pata d'aqui, outra de lá; assim,
de qualquer lado o apanharia.
Então, crendo já possuil-o,
vagaroso a cabeça inclina para o espelho.
Vê uma orelha... e duas... immediatamente,
à dextra e à sextra vai lançando
sua garra, já preparada,
porem... perde o equilibrio, cahe e nada apanha.
Então, perdida a esperança,
sem indagar mais tempo, o que não pode achar,
o pobre deixa o espelho e vae aos camundongos:
"Para que saber eu quero, diz, esse mysterio?
Uma cousa que nosso espirito,
após trabalho insano, nem por sombra entende,
jamais nos é mister, jamais...

José Severiano de Rezende
Ouro Preto, 4 de Agosto de 1886

Fonte: ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno X, edição nº 18, datada de 11/8/1886, p. 3. Link: http://memoria.bn.br/pdf/715131/per715131_1886_00018.pdf 



Mysteriosa 

Sozinha e ao desamparo ella vivia
N'esse pobre cazebre abandonado.
(G. Crespo: Miniaturas)

Dizei-me, ó valle, ó rigida montanha,
Revelae-me um segredo:
— Quem habita essa mystica morada,
Que se ergue no penedo?...

..........................

Nada agora me responde;
A tarde já se esvaece,
A sombra no espaço cresce.
Minha voz não é ouvida,
Clamo embalde; só escuto
Brincando as vagas no rio,
Com saudoso murmurio,
Co'uma voz grave e sentida...

Vem o zephiro affagar-me
Com frio sopro os cabellos,
Parece a relva offertar-me
Seus puros leitos, singellos...

                   —

Deitei-me; e na verdura adormeci:
— Sonhei com a casinha
Que no penedo vi...

Que entidade ahi morava?
— Alguma huri, uma fada,
Uma beldade invisivel,
Uma belleza encantada?

— Ah! não, não!

Para ahi se retirou,
Afim das magoas chorar
Uma jovem malfadada:
— Do mundo os gozos deixou,
Porque deixára de amar.

...........................

Depois d'esse mago sonho,
Sempre, sempre a tardizinha
Vou contemplar a casinha,
Depois d'esse mago sonho...

Ouvindo o brincar das ondas,
Ao meigo sopro da brisa,
Vendo a fonte que desliza,
Ouvindo o brincar das ondas,
Sempre, sempre a tardizinha
Vou contemplar a casinha.

José Severiano de Rezende
Ouro Preto, 26 de Maio de 1886.

Fonte: ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno X, edição nº 11, datada de 19/6/1886, p. 2.



Viajando 

Eu ia pelas campinas
Cançado de cavalgar
N'um burro, que a trotear,
Por estas terras de Minas

Conduzia-me. As boninas,
— Extenso jardim sem par —
Derramavam pelo ar
Doces fragrancias divinas.

Brincavam sobre os abetos
Dous saguis irrequietos;
Pipilava o maçarico;

E um passarinho brejeiro
Lá de cima do coqueiro
Grita: "Bom dia, seu Xico!"

José Severiano
S. João d'El-Rei, 17 de Março de 1886.
(Da Alvorada)

Fonte: ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno X, edição nº 3, datada de 01/4/1886, p. 2.



Haughtiness 

Erguendo-se do plaustro, vaporosa.
Immergindo-se em nuvens colubrinas
Circumdada de luzes vespertinas,
E pisando esmeraldas, orgulhosa

Zelos causava a Jove — a tão formosa
Venus; suas lindas vestes celestinas
Lhe adornavam as formas femininas,
Exalçando a belleza magestosa:

Assim como essa deusa, ó bella estavas
No baile, aquella noite, resumbravas
Entre as outras donzellas, com altiveza.

Nem um olhar de ti eu merecia:
Estavas entre a nobre fidalguia;
Sou pobre... tu só amas a riqueza.

José Severiano
S. João d'El-Rei, 12 de Março de 1886.
Fonte: ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno X, edição nº 2, datada de 20/3/1886, p. 3.



A matricida ¹

Em baixo o mar ingente, em cima o céo de anil:
A náo sordia sobre a vaga em choques mil;
Os ventos com furor soltava o rei Eólo,
Zunia com insania o Austro do seu polo.

Pouco a pouco cobria turbilhão escuro
Aquelle firmamento lindo, inda tão puro:
Os viajantes tomados de terror e medo,
Jaziam em silencio sepulchral e quedo.

<<À vista nada ha, nem um rochedo, uma ilha:
<<Teremos por ventura um jonas nesta quilha?...
<<Que lugubre desgraça o céo nos prenuncia,
<<Que castigo será que o Deus clemente envia?!...

Disseram finalmente os nautas tremulantes...
E a Deus elles rezavam uns rogos supplicantes,
Com fervorosa fé, fé viva de cristão...
Súbito, os desgraçados, tristes tripulantes
Ouviram dolorosos gritos, penetrantes,
Que vinham com estertôr do fundo do porão...

Terriveis, bem terriveis gritos se augmentavam,
Que mais sinistros, mais funereos se tornavam
Dos ventos co'o bramir, do mar co'o grão rugir
E da tripulação co'o infindo e pio carpir...

Mas qual o horror d'aquelles pobres navegantes
Ao ver mulher ferina de olhos chammejantes!...
Surgira do porão medonha, — a matricida!

— Olhar aterrador, sanguineo; — a mãe nos braços,
Que ao pelago voraz, cruel, lançou sem vida;
— Trôa surdo trovão nos horridos espaços...

José Severiano Nunes de Rezende
3 de Fevereiro de 1886

Fonte: ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno IX, edição nº 41, datada de 7/2/1886, p. 2.



No campo

(a Paulo Teixeira)

A leve brisa suave
De flôr em flôr vae correndo
Nas ramagens vae gemendo
A leve brisa suave...

Os passarinhos encantam
Da aurora a bella harmonia,
Saudando o romper do dia,
Os passarinhos encantam...

Nos cimos das cordilheiras
As grammas são viridentes,
As flôres são rescendentes
Nos cimos das cordilheiras.

Claras aguas vão cahindo
Ruidosas d'entre o penedo,
Deslizando no vargedo,
Claras aguas vão cahindo...

A gentil moça pastôra
Leva o rebanho ao capril,
Cantando notas de anil,
A gentil moça pastôra...

O som da flauta plangente
Traduz ballatas de amor,
Nos labios de algum pastor,
O som da flauta plangente...

Lá vão em grupo as mulatas
Correndo com os seios nús,
— Que tremem como bambús...
Lá vão em grupo as mulatas...

Chamando a sua novilha,
Geme o touro apaixonado,
Com o olhar de namorado,
Chamando a sua novilha...

E à fresca sombra d'uma arvore,
Sonhando sonhos de amor,
Dormita um joven pastor
À fresca sombra d'uma arvore...

E a leve brisa suave
De flôr em flôr vae correndo,
Nas ramagens vae gemendo
A leve brisa suave...

José Severiano de Rezende 
Ouro-Preto, 5 de Setembro de 1886.
(Da Alvorada)

Fonte: ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno X, edição nº 25, datada de 23/10/1886, p. 3.



Na fazenda 

               I
A floresta sussurrante,
verdecente e perfumosa,
do floreo peito, amorosa,
lança suspiros de amante.

O rubro sol lourejante,
—n'um occidente de rosa,
deixa à campina saudosa,
um fulvo olhar, delirante...

—Como neve alvinitente,
pasce o rebanho contente,
ao longe, —no capinzal...

—N'um cantar plangente, brando,
o sabiá vae trillando
nas sombras do matagal.

               II

Estôa mélico canto,
uma formosa mulata,
—de faces côr de escarlate,
—de labios côr de amaranto...

No empyreo azulado e santo,
adejam nuvens de prata...
—Cae do penedo a cascata,
rolando em selvoso manto...

Nos galhos das laranjeiras,
mil avezinhas gaiteiras
enchem de sons o jardim...

E um tico-tico canôro
rompe n'um chiste sonóro:
—"Todo o dia, assim, assim!"

José Severiano de Rezende

Fonte: ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno X, edição nº 23, datada de 9/10/1886, p. 3.





III.  NOTAS EXPLICATIVAS 



¹  Avento a possibilidade de José Severiano de Rezende ter lido um ou ambos os seguintes livros de Camilo Castelo Branco e este ter-lhe inspirado o poema "A matricida": 
1) Maria! Não me mates, que sou tua mãe! (conto de 1848)
Edição brasileira: São Paulo: Edições Loyola; Editora Giordano, 1991.
De acordo com Paulo Motta Oliveira (2011), entre 1848 e 1852, o conto foi editado 4 vezes, o que, no contexto do século XIX, é equivalente à tiragem de um best-seller, posição que essa narrativa, de fato, ocupa na primeira metade dos Oitocentos. Como tal, é razoável supor que a técnica narrativa empregada nessa obra acompanha “coordenadas mentais, os gostos e as preferências literárias e estética do público” (SOBREIRA, 2001, p. 3) da época, donde se conclui que a ficção transportada nas folhas de cordel continuava no horizonte de preferência dos leitores de então.

Maria! Não me mates, que sou tua mãe! em edição de autor e sob anonimato, 1ª edição, 1848, 16 p.

2) Matricídio sem exemplo. Uma filha que matou e esquartejou sua própria mãe, Mathilde do Rozario da Luz, em Lisboa – na travessa das Freiras, nº 17. Trata-se de um folheto de Camilo Castelo Branco narrando o crime que se dera, então em Lisboa, de uma filha matar a sua própria mãe. O folheto causou um êxito enorme, chegando a fazer-se três edições. A forma insinuante em que estava escrito fazia vibrar o sentimento popular, vindo revelar-lhe que a sua pena era um poder e que a ela pediria a sua independência.


Matricídio sem Exemplo, 3ª edição, 1850, 19 p.

Para maiores informações, consulte ainda: https://expresso.pt/sociedade/2015-08-24-Um-crime-barbaro-e-espantoso-uma-filha-que-mata-e-despedaca-sua-mae 

♧               ♧               ♧
 
Também não é improvável que José Severiano de Rezende tenha tido acesso à tragédia Orestes de Eurípides, que pela primeira vez deve ter tratado do tema do matricídio na cultura ocidental. 
O mito de Orestes é tema de uma tragédia de Eurípides, estreada em 408 a.C., que trata dos acontecimentos decorrentes da morte por Orestes da mãe dele, Clitemnestra. 
O herói Orestes, na mitologia grega, era filho do rei Agamêmnon de Micenas e da rainha Clitemnestra, e irmão mais novo de Ifigênia. 
Interessa saber que o pai de Orestes retornou a Argos após ter vencido a guerra de Tróia e vingado a honra de seu irmão Menelau, marido de Helena, que havia fugido com Páris. 
A rainha Clitemnestra, por sua vez, também trai seu marido Agamêmnon e arquiteta o seu assassinato. 

Contexto em que Eurípides escreveu a tragédia Orestes

Clitemnestra e seu amante Egisto mataram Agamêmnon quando este voltava da Guerra de Tróia. Único que poderia vingar o crime, Orestes foi à Fócida, porque suspeitava que o amante de sua mãe pretendia matá-lo também. Ali cresceu em segurança na corte de Estrófio e ficou amigo do filho deste, seu primo Pílades. Ao tornar-se adulto, em obediência às ordens de Apolo, Orestes matou sua mãe e Egisto, contando para tal com a cumplicidade de Pílades. Apesar da anterior profecia de Apolo, Orestes passou a ser atormentado pelas Erínias ou Fúrias, que era o único a vê-las pelo sentimento de culpa do seu matricídio, razão por que buscou refúgio no santuário de Apolo em Delfos. Julgado por seu crime em Atenas, o voto da deusa Atena desempatou o resultado a seu favor. 
Novamente por ordem de Apolo, Orestes partiu para a Táurida a fim de roubar a estátua de Ártemis e devolvê-la à cidade de Atenas. Preso com Pílades, foi condenado a ser sacrificado à deusa, mas sua irmã Ifigênia, sacerdotisa de Ártemis, reconheceu-o e fugiu com ele e com Pílades, levando a estátua da deusa. Salvo, herdou o reino de Agamêmnon, a que anexou Esparta e Epiro, depois do casamento com Hermíone, filha de Menelau e de Helena. Morreu aos noventa anos picado por uma serpente. 

O enredo da peça teatral não é abordado aqui para não se estender demais o espaço dedicado ao post. Aqueles que se interessarem por lê-lo, queiram dirigir-se à Wikipedia no link https://pt.wikipedia.org/wiki/Orestes_(Eur%C3%ADpides)