quinta-feira, 12 de setembro de 2019

POEMAS ADOLESCENTES INÉDITOS DE JOSÉ SEVERIANO DE REZENDE


Por Francisco José dos Santos Braga

José Severiano de Rezende in A Noite Illustrada

I.  INTRODUÇÃO
 


JOSÉ SEVERIANO DE REZENDE foi escolhido por mim para ser o Patrono da Cadeira Perpétua XVI da Academia Lavrense de Letras, que ocupo como Fundador e Titular, desde 30 de janeiro de 2016, na qualidade de sócio correspondente. Quando um Acadêmico toma posse em uma Casa de Cultura, sob a égide de um patrono, compromete-se a fazer sua apologia na posse, engrandecê-lo através de estudos mais completos e envidar esforços para expandir o conhecimento sobre sua vida e obra, divulgando-as. Isso é tanto mais verdadeiro, quanto o patrono foi de livre escolha do Acadêmico!

Tendo já publicado no Blog de São João del-Rei alguns trabalhos sobre José Severiano de Rezende (✰ Mariana, 23/01/1871 ✞ Paris, 13/11/1931), venho no presente post ampliar um pouco mais a minha pesquisa sobre esse grande jornalista, escritor, orador, sacerdote, poeta simbolista, teatrólogo  e, em Paris, adido cultural da Embaixada Brasileira e colaborador para o "Mercure de France" com a seção "Lèttres Brésiliennes". Como jornalista, colaborou com artigos e traduções para os jornais Arauto de Minas, Alvorada e O Tribunal (como fundador e colaborador) em São João del-Rei, A Província de Minas em Ouro Preto, O Dom Viçoso em Mariana, O Diário Mercantil em São Paulo e Diário de Santos em Santos-SP; a revista Horus em Belo Horizonte; jornal Correio da Manhã e Revista Americana, revista Os Annaes e Revista Brasileira no Rio de Janeiro.

Em 1970 ocorreu a 3ª edição revisada do seu livro "O meu flos sanctorum", patrocinada por Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 258 p. No ano seguinte, 1971, ano do centenário do seu nascimento, houve a 2ª edição revisada ampliada de "Mistérios" por meio de Belo Horizonte: Centro de Estudos Mineiros da UFMG, 219 p.

A Academia de Letras de São João del-Rei também homenageou José Severiano de Rezende, ao nomeá-lo patrono da cadeira nº 19, atualmente ocupada pelo Acadêmico Éric Tirado Viegas. A nossa Academia foi criada pelo Decreto Municipal nº 620, de 8 de dezembro de 1970, tendo ocorrido a sua instalação  em 21 de janeiro de 1971, mesmo ano em que se comemorava o centenário do nascimento de José Severiano de Rezende e que culminou com o lançamento de nova edição do seu livro "Mistérios", patrocinado pela Prefeitura Municipal de São João del-Rei.

Além disso em 19/04/2011, a professora, escritora e poetisa Hebe Maria Rôla Santos, atual presidente da Academia Marianense de Letras, tomou posse na Cadeira nº 317 da AMULMIG, tornando-se representante do Município de Mariana naquela Casa de Cultura, tendo escolhido como seu patrono o poeta marianense José Severiano de Rezende.

Neste trabalho ofereço aos leitores do Blog do Braga poemas inéditos do meu homenageado que localizei na Biblioteca Baptista Caetano de Almeida de São João del-Rei no hebdomadário ARAUTO DE MINAS, órgão do Partido Conservador do 6º Distrito, cujo redator era seu pai, SEVERIANO NUNES CARDOZO DE REZENDE. O período coberto vai de 21/03/1885 a 08/01/1887. (O Arauto de Minas foi um periódico impresso em São João del-Rei entre os anos de 1877 e 1889. Seu nome completo era: O Arauto de Minas : hebdomadário político, instructivo e noticioso; órgao do Partido Conservador, considerado "o jornal mais bem feito nas cidades de Minas".) Os poemas de José Severiano de Rezende, que serão apresentados neste trabalho, são experiências de um poeta adolescente com a poética, onde já se veem traços de genialidade, quer na escolha dos temas sempre candentes, quer no elaborado tratamento do material, ou ainda no expressivo fazer poético. Após os poemas inéditos há sempre o nome da cidade onde estavam sendo escritos, bem como as datas tanto da produção poética quanto da edição nos jornais. Assim, antes do jornal são-joanense Arauto de Minas, um dos poemas, "Magdalo", já tinha sido publicado pelo jornal A Província de Minas, igualmente órgão do Partido Conservador em Ouro Preto; da messma forma, dois dos poemas, intitulados "Viajando" e "No campo", foram originalmente publicados num pequeno jornal são-joanense: Alvorada e, em seguida, reproduzidos no Arauto de Minas.

Meu homenageado nasceu em Mariana, a 23 de janeiro de 1871, filho de Severiano Nunes Cardozo de Rezende, são-joanense, editor do Arauto de Minas, jornal monarquista considerado um dos melhores de Minas, e de Custódia de Rezende. No caso do meu poeta homenageado, a figura paterna foi bastante relevante para a sua formação. Além de escritor e jornalista, Severiano Nunes Cardoso de Rezende também era professor. Quando seu filho José nasceu, Severiano trabalhava como professor de Latim e Francês na escola pública de Mariana. Em março de 1872, quando o pequeno Juca tinha um ano de idade, o professor Severiano Nunes Cardoso de Rezende regressou à sua terra natal, São João del-Rei, convocado por velhas amizades e acompanhado da esposa e filho, tornando-se professor vitalício de Português no Externato Oficial de São João del-Rei e na Escola Normal da mesma cidade. Segundo Renato de Lima Júnior, o pequeno Juca teria aprendido a “soletrar brincando com os tipos” usados para imprimir o jornal Arauto de Minas, dirigido por seu pai. Em sua formação escolar inicial, percebemos uma ênfase no estudo de línguas, pois, no Externato de São João del-Rei, habilitou-se em Francês, Latim e Português, ênfase que foi decisiva em sua vida.

A certa altura de sua adolescência, concluiu os estudos no curso secundário do Externato Oficial são-joanense e prosseguiu seus estudos no Liceu Mineiro, em Ouro Preto, onde recebeu diversas influências: segundo Silvano Minense, Juca teria tido uma ligação com as ideias positivistas e sido admirador da literatura realista de Zola. Na mesma ocasião, conheceu e se tornou amigo de Alphonsus de Guimaraens. É importante destacar que começava então a grande admiração pelo poeta simbolista conterrâneo, que se tornou a grande referência literária de José Severiano de Rezende; não só deste, mas de todos os poetas simbolistas mineiros.

Os poemas abaixo apresentados são desta época em que cursava o Liceu Mineiro e nos períodos de férias em São João del-Rei.

Será mantida a grafia de época.



II.  POEMAS INÉDITOS DE JOSÉ SEVERIANO DE REZENDE


Magdalo 

(A Randolpho Fabrino)

Alli morava a grande peccadora,
a bella Magdalena — doce amante
de Boanerges, — o poeta delyrante,
ao som de cuja lyra aquela loura

mulher adormecia, em seductora
e langue morbideza... Vacillante,
o vate lhe beijava a tremulante
e setinosa face — côr da aurora...

Dormia um somno mélico, embalado
pelos frios bafejos do peccado...
Até que um dia a candida verdade

em sua alma brilhou. Arrependida,
volveu ao lar paterno; e logo a vida
lhe veio... e foi-se a morbida vaidade...

José Severiano de Rezende
Ouro Preto, 25 de Julho de 1886.

Fonte: A PROVINCIA DE MINAS, Ouro Preto, Anno VII, edição nº 376, datada de 3/8/1886, p. 4 . Idem in ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno X, edição nº 19, datada de 26/8/1886, p. 2. Link: http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=222747&pagfis=768&url=http://memoria.bn.br/docreader# 



O Gato e o Espelho 

(Florian)

Philosophos ousados, que passaes a vida,
pretendendo explicar o que é inexplicavel,
vos peço por favor, ouvi
o que com um gato se deu,
com um gato prudente e astuto,
que, estando sobre um toucador,
deu com os olhos n'um espelho.
Vae d'um salto e olha e encara. De primeiro
se lhe afigura ver o irmão,
que o observa. Alcançal-o quer o bexaninho,
mas sente-se detido; então julga que o vidro
é transparente. Vae ao lado
opposto. Nada encontra. Volta e vê o gato...
Pensa um pouco. Temendo que fuja o animal,
emquanto gyra à sua pista,
no alto do espelho trepa e ahi fica montado:
uma pata d'aqui, outra de lá; assim,
de qualquer lado o apanharia.
Então, crendo já possuil-o,
vagaroso a cabeça inclina para o espelho.
Vê uma orelha... e duas... immediatamente,
à dextra e à sextra vai lançando
sua garra, já preparada,
porem... perde o equilibrio, cahe e nada apanha.
Então, perdida a esperança,
sem indagar mais tempo, o que não pode achar,
o pobre deixa o espelho e vae aos camundongos:
"Para que saber eu quero, diz, esse mysterio?
Uma cousa que nosso espirito,
após trabalho insano, nem por sombra entende,
jamais nos é mister, jamais...

José Severiano de Rezende
Ouro Preto, 4 de Agosto de 1886

Fonte: ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno X, edição nº 18, datada de 11/8/1886, p. 3. Link: http://memoria.bn.br/pdf/715131/per715131_1886_00018.pdf 



Mysteriosa 

Sozinha e ao desamparo ella vivia
N'esse pobre cazebre abandonado.
(G. Crespo: Miniaturas)

Dizei-me, ó valle, ó rigida montanha,
Revelae-me um segredo:
— Quem habita essa mystica morada,
Que se ergue no penedo?...

..........................

Nada agora me responde;
A tarde já se esvaece,
A sombra no espaço cresce.
Minha voz não é ouvida,
Clamo embalde; só escuto
Brincando as vagas no rio,
Com saudoso murmurio,
Co'uma voz grave e sentida...

Vem o zephiro affagar-me
Com frio sopro os cabellos,
Parece a relva offertar-me
Seus puros leitos, singellos...

                   —

Deitei-me; e na verdura adormeci:
— Sonhei com a casinha
Que no penedo vi...

Que entidade ahi morava?
— Alguma huri, uma fada,
Uma beldade invisivel,
Uma belleza encantada?

— Ah! não, não!

Para ahi se retirou,
Afim das magoas chorar
Uma jovem malfadada:
— Do mundo os gozos deixou,
Porque deixára de amar.

...........................

Depois d'esse mago sonho,
Sempre, sempre a tardizinha
Vou contemplar a casinha,
Depois d'esse mago sonho...

Ouvindo o brincar das ondas,
Ao meigo sopro da brisa,
Vendo a fonte que desliza,
Ouvindo o brincar das ondas,
Sempre, sempre a tardizinha
Vou contemplar a casinha.

José Severiano de Rezende
Ouro Preto, 26 de Maio de 1886.

Fonte: ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno X, edição nº 11, datada de 19/6/1886, p. 2.



Viajando 

Eu ia pelas campinas
Cançado de cavalgar
N'um burro, que a trotear,
Por estas terras de Minas

Conduzia-me. As boninas,
— Extenso jardim sem par —
Derramavam pelo ar
Doces fragrancias divinas.

Brincavam sobre os abetos
Dous saguis irrequietos;
Pipilava o maçarico;

E um passarinho brejeiro
Lá de cima do coqueiro
Grita: "Bom dia, seu Xico!"

José Severiano
S. João d'El-Rei, 17 de Março de 1886.
(Da Alvorada)

Fonte: ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno X, edição nº 3, datada de 01/4/1886, p. 2.



Haughtiness 

Erguendo-se do plaustro, vaporosa.
Immergindo-se em nuvens colubrinas
Circumdada de luzes vespertinas,
E pisando esmeraldas, orgulhosa

Zelos causava a Jove — a tão formosa
Venus; suas lindas vestes celestinas
Lhe adornavam as formas femininas,
Exalçando a belleza magestosa:

Assim como essa deusa, ó bella estavas
No baile, aquella noite, resumbravas
Entre as outras donzellas, com altiveza.

Nem um olhar de ti eu merecia:
Estavas entre a nobre fidalguia;
Sou pobre... tu só amas a riqueza.

José Severiano
S. João d'El-Rei, 12 de Março de 1886.
Fonte: ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno X, edição nº 2, datada de 20/3/1886, p. 3.



A matricida ¹

Em baixo o mar ingente, em cima o céo de anil:
A náo sordia sobre a vaga em choques mil;
Os ventos com furor soltava o rei Eólo,
Zunia com insania o Austro do seu polo.

Pouco a pouco cobria turbilhão escuro
Aquelle firmamento lindo, inda tão puro:
Os viajantes tomados de terror e medo,
Jaziam em silencio sepulchral e quedo.

<<À vista nada ha, nem um rochedo, uma ilha:
<<Teremos por ventura um jonas nesta quilha?...
<<Que lugubre desgraça o céo nos prenuncia,
<<Que castigo será que o Deus clemente envia?!...

Disseram finalmente os nautas tremulantes...
E a Deus elles rezavam uns rogos supplicantes,
Com fervorosa fé, fé viva de cristão...
Súbito, os desgraçados, tristes tripulantes
Ouviram dolorosos gritos, penetrantes,
Que vinham com estertôr do fundo do porão...

Terriveis, bem terriveis gritos se augmentavam,
Que mais sinistros, mais funereos se tornavam
Dos ventos co'o bramir, do mar co'o grão rugir
E da tripulação co'o infindo e pio carpir...

Mas qual o horror d'aquelles pobres navegantes
Ao ver mulher ferina de olhos chammejantes!...
Surgira do porão medonha, — a matricida!

— Olhar aterrador, sanguineo; — a mãe nos braços,
Que ao pelago voraz, cruel, lançou sem vida;
— Trôa surdo trovão nos horridos espaços...

José Severiano Nunes de Rezende
3 de Fevereiro de 1886

Fonte: ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno IX, edição nº 41, datada de 7/2/1886, p. 2.



No campo

(a Paulo Teixeira)

A leve brisa suave
De flôr em flôr vae correndo
Nas ramagens vae gemendo
A leve brisa suave...

Os passarinhos encantam
Da aurora a bella harmonia,
Saudando o romper do dia,
Os passarinhos encantam...

Nos cimos das cordilheiras
As grammas são viridentes,
As flôres são rescendentes
Nos cimos das cordilheiras.

Claras aguas vão cahindo
Ruidosas d'entre o penedo,
Deslizando no vargedo,
Claras aguas vão cahindo...

A gentil moça pastôra
Leva o rebanho ao capril,
Cantando notas de anil,
A gentil moça pastôra...

O som da flauta plangente
Traduz ballatas de amor,
Nos labios de algum pastor,
O som da flauta plangente...

Lá vão em grupo as mulatas
Correndo com os seios nús,
— Que tremem como bambús...
Lá vão em grupo as mulatas...

Chamando a sua novilha,
Geme o touro apaixonado,
Com o olhar de namorado,
Chamando a sua novilha...

E à fresca sombra d'uma arvore,
Sonhando sonhos de amor,
Dormita um joven pastor
À fresca sombra d'uma arvore...

E a leve brisa suave
De flôr em flôr vae correndo,
Nas ramagens vae gemendo
A leve brisa suave...

José Severiano de Rezende 
Ouro-Preto, 5 de Setembro de 1886.
(Da Alvorada)

Fonte: ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno X, edição nº 25, datada de 23/10/1886, p. 3.



Na fazenda 

               I
A floresta sussurrante,
verdecente e perfumosa,
do floreo peito, amorosa,
lança suspiros de amante.

O rubro sol lourejante,
—n'um occidente de rosa,
deixa à campina saudosa,
um fulvo olhar, delirante...

—Como neve alvinitente,
pasce o rebanho contente,
ao longe, —no capinzal...

—N'um cantar plangente, brando,
o sabiá vae trillando
nas sombras do matagal.

               II

Estôa mélico canto,
uma formosa mulata,
—de faces côr de escarlate,
—de labios côr de amaranto...

No empyreo azulado e santo,
adejam nuvens de prata...
—Cae do penedo a cascata,
rolando em selvoso manto...

Nos galhos das laranjeiras,
mil avezinhas gaiteiras
enchem de sons o jardim...

E um tico-tico canôro
rompe n'um chiste sonóro:
—"Todo o dia, assim, assim!"

José Severiano de Rezende

Fonte: ARAUTO DE MINAS, São João del-Rei, Anno X, edição nº 23, datada de 9/10/1886, p. 3.





III.  NOTAS EXPLICATIVAS 



¹  Avento a possibilidade de José Severiano de Rezende ter lido um ou ambos os seguintes livros de Camilo Castelo Branco e este ter-lhe inspirado o poema "A matricida": 
1) Maria! Não me mates, que sou tua mãe! (conto de 1848)
Edição brasileira: São Paulo: Edições Loyola; Editora Giordano, 1991.
De acordo com Paulo Motta Oliveira (2011), entre 1848 e 1852, o conto foi editado 4 vezes, o que, no contexto do século XIX, é equivalente à tiragem de um best-seller, posição que essa narrativa, de fato, ocupa na primeira metade dos Oitocentos. Como tal, é razoável supor que a técnica narrativa empregada nessa obra acompanha “coordenadas mentais, os gostos e as preferências literárias e estética do público” (SOBREIRA, 2001, p. 3) da época, donde se conclui que a ficção transportada nas folhas de cordel continuava no horizonte de preferência dos leitores de então.

Maria! Não me mates, que sou tua mãe! em edição de autor e sob anonimato, 1ª edição, 1848, 16 p.

2) Matricídio sem exemplo. Uma filha que matou e esquartejou sua própria mãe, Mathilde do Rozario da Luz, em Lisboa – na travessa das Freiras, nº 17. Trata-se de um folheto de Camilo Castelo Branco narrando o crime que se dera, então em Lisboa, de uma filha matar a sua própria mãe. O folheto causou um êxito enorme, chegando a fazer-se três edições. A forma insinuante em que estava escrito fazia vibrar o sentimento popular, vindo revelar-lhe que a sua pena era um poder e que a ela pediria a sua independência.


Matricídio sem Exemplo, 3ª edição, 1850, 19 p.

Para maiores informações, consulte ainda: https://expresso.pt/sociedade/2015-08-24-Um-crime-barbaro-e-espantoso-uma-filha-que-mata-e-despedaca-sua-mae 

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Também não é improvável que José Severiano de Rezende tenha tido acesso à tragédia Orestes de Eurípides, que pela primeira vez deve ter tratado do tema do matricídio na cultura ocidental. 
O mito de Orestes é tema de uma tragédia de Eurípides, estreada em 408 a.C., que trata dos acontecimentos decorrentes da morte por Orestes da mãe dele, Clitemnestra. 
O herói Orestes, na mitologia grega, era filho do rei Agamêmnon de Micenas e da rainha Clitemnestra, e irmão mais novo de Ifigênia. 
Interessa saber que o pai de Orestes retornou a Argos após ter vencido a guerra de Tróia e vingado a honra de seu irmão Menelau, marido de Helena, que havia fugido com Páris. 
A rainha Clitemnestra, por sua vez, também trai seu marido Agamêmnon e arquiteta o seu assassinato. 

Contexto em que Eurípides escreveu a tragédia Orestes

Clitemnestra e seu amante Egisto mataram Agamêmnon quando este voltava da Guerra de Tróia. Único que poderia vingar o crime, Orestes foi à Fócida, porque suspeitava que o amante de sua mãe pretendia matá-lo também. Ali cresceu em segurança na corte de Estrófio e ficou amigo do filho deste, seu primo Pílades. Ao tornar-se adulto, em obediência às ordens de Apolo, Orestes matou sua mãe e Egisto, contando para tal com a cumplicidade de Pílades. Apesar da anterior profecia de Apolo, Orestes passou a ser atormentado pelas Erínias ou Fúrias, que era o único a vê-las pelo sentimento de culpa do seu matricídio, razão por que buscou refúgio no santuário de Apolo em Delfos. Julgado por seu crime em Atenas, o voto da deusa Atena desempatou o resultado a seu favor. 
Novamente por ordem de Apolo, Orestes partiu para a Táurida a fim de roubar a estátua de Ártemis e devolvê-la à cidade de Atenas. Preso com Pílades, foi condenado a ser sacrificado à deusa, mas sua irmã Ifigênia, sacerdotisa de Ártemis, reconheceu-o e fugiu com ele e com Pílades, levando a estátua da deusa. Salvo, herdou o reino de Agamêmnon, a que anexou Esparta e Epiro, depois do casamento com Hermíone, filha de Menelau e de Helena. Morreu aos noventa anos picado por uma serpente. 

O enredo da peça teatral não é abordado aqui para não se estender demais o espaço dedicado ao post. Aqueles que se interessarem por lê-lo, queiram dirigir-se à Wikipedia no link https://pt.wikipedia.org/wiki/Orestes_(Eur%C3%ADpides)

sábado, 17 de agosto de 2019

CÂMARA LEGISLATIVA DO DF HOMENAGEIA A ACADEMIA TAGUATINGUENSE DE LETRAS PELOS SEUS 33 ANOS DE ATUAÇÃO NO MUNDO CULTURAL DO DF


Por Gustavo Dourado 
Presidente da Academia Taguatinguense de Letras - ATL

Uma das instituições literárias mais tradicionais e atuantes do Distrito Federal, a Academia Taguatinguense de Letras (ATL) será homenageada nesta segunda-feira, 19 de agosto, às 10h, em Sessão Solene no plenário da Câmara Legislativa do DF (CLDF), pelos seus 33 anos de existência. Trata-se de reconhecimento pela consistente contribuição da entidade ao desenvolvimento cultural local, bem como ao seu apoio a projetos sociais de iniciativa da comunidade, justifica a deputada Jaqueline Silva, proponente da sessão. 

O presidente da ATL, o escritor e professor Gustavo Dourado, observa que acadêmicos e convidados receberão com alegria essa importante distinção da Câmara Legislativa em função do trabalho desenvolvido junto à população, aos leitores, jovens estudantes, professores e pesquisadores. Ele lembra que, em 2013, a Academia Taguatinguense de Letras foi tombada pelo poder público como Patrimônio Cultural, Material e Imaterial do Distrito Federal. E, assim, ficou consolidada no Complexo Cultural EIT. “Fomos reconhecidos também pelo Ministério da Cultura, em virtude de nossas atividades em escolas, feiras, bienais de livros, sempre incentivando a leitura por meio de palestras, oficinas, saraus e lançamentos de obras”, destaca Dourado.



Atividades 


Na atual gestão, a entidade foi convidada e participou de três Bienais Brasil do Livro e da Leitura, de cinco Semanas Nacionais de Ciência e Tecnologia, de seis Feiras do Livro, incluindo a Feira Literária do Distrito Federal (Fli/DF), realizada em Taguatinga.

Gustavo Dourado recebe o Troféu Dom Quixote na Feira do Livro 
de Brasília pelo seu trabalho como autor e presidente da ATL

Visita de estudantes no estande da ATL na Feira do Livro de Brasília
Na Feira do Livro de Brasília: escritor homenageado


Participou ainda do Fórum Mundial de Direitos Humanos, do Fórum Mundial da Água, das feiras do livro da Câmara Legislativa, e de centenas de eventos literários em escolas, universidades, faculdades e em instituições culturais. Sempre com o intuito de divulgar as obras e os trabalhos dos acadêmicos e de escritores do Distrito Federal. Em uma dessas ocasiões, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos adquiriu mais de trezentos livros de autores da ATL. 

Entre os projetos realizados pela academia constam o recital poético-musical Beco das Letras, em sua décima-segunda edição; a Oficina de Cordel para estudantes, já com 60 aulas ministradas envolvendo cerca de 600 alunos; Projeto de Doação de Livros para escolas e instituições como a Secretaria de Educação do DF, a Fundação de Amparo ao Preso e a Casa Azul. Editou também a I Antologia da Academia Taguatinguense de Letras, com mais 140 autores do DF e entorno e oito edições de informativos culturais.

No lançamento da I Antologia da ATL

A ATL foi criada, em 5 de junho de 1986, por 18 professores escritores da Secretaria de Educação do Distrito Federal, atuantes em escolas públicas de Taguatinga. Entre os fundadores destacam-se Hilda Mendonça, Nara Nascimento, Hélio Soares Pereira e Leão Sombra do Norte Fontes (In Memoriam). 

Nesses 33 anos, construiu uma história calcada na luta pela cidadania e na valorização do pensamento que preserva os mais altos valores humanos como o enriquecimento intelectual, a liberdade de expressão, a solidariedade e a promoção do livro e da leitura, do saber, das artes e da cultura de um modo geral. Suas duas bibliotecas guardam um acervo de mais de 7 mil livros, em sua maioria de escritores do Distrito Federal.

Na sala das oficinas de cordel na sede da ATL

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

GRANDE ÓPERA BRASILEIRA NA EUROPA


Por Jorge Antunes


Carlos Gomes foi o último compositor brasileiro a ter grandes óperas encenadas na Europa. A expressão “grande ópera” se origina do francês “grand-opéra”. O gênero surgiu no século XIX na França, e designa a ópera de proporções monumentais, com solistas, coro, grande orquestra sinfônica, bailado e de longa duração. A ópera "Condor", de Carlos Gomes, foi estreada na Itália em 1891. Três de suas óperas voltaram a ser apresentadas na Europa em 1996 e 1997: na Bulgária foram encenadas as óperas "Maria Tudor", "Fosca" e "Il Guarany". 

Em 2019 uma superprodução do repertório operístico brasileiro será levada a um palco europeu: “Olga”, ópera de minha autoria, abrirá a temporada do Teatro da Ópera Baltycka Gdansk, na Polônia, no próximo dia 11 de outubro. 

Compositores brasileiros, tais como Marcos Lucas, João Guilherme Ripper, Mario Ferraro, Jocy de Oliveira, e eu próprio, já tivemos óperas apresentadas no exterior, mas sempre óperas de câmara, com pequenos efetivos. O gênero ópera, sempre com alto custo de produção, tem encontrado, em todo o mundo, dificuldades de apoio financeiro. 

É auspicioso, portanto, o fato de “Olga”, “grand-opéra” de minha autoria, ganhar palcos europeus após os sucessos das grandes óperas de Carlos Gomes. 

 “Olga” foi montada no Brasil em duas temporadas: no Theatro Municipal de São Paulo, com cinco récitas em 2006, e no Teatro Nacional de Brasília, com quatro récitas em 2013. 

A ópera é escrita para grande orquestra, grande coro, cantores solistas e sons eletrônicos. A superprodução, com quase três horas de duração, obteve estrondoso sucesso nas apresentações no Brasil. 

O libreto, escrito pelo poeta carioca Gerson Valle, narra a vida de luta política e o martírio de Olga Benário, a mulher do líder comunista brasileiro Luis Carlos Prestes. Ela era alemã e judia. Apesar de estar grávida, foi deportada do Brasil, em 1936, pelo governo de Getúlio Vargas, sendo entregue à Gestapo e passando a ser prisioneira dos nazistas com transferências sucessivas por três campos de concentração. Sua filha, Anita, nasceu na prisão de mulheres de Berlim. Olga veio a ser assassinada em 23 de abril de 1942 na câmara de gás do campo de concentração de Bernburg. 

No Teatro de Ópera da cidade de Gdansk, na Polônia, “Olga” terá oito récitas entre outubro de 2019 e março de 2020. O único brasileiro a participar do espetáculo é o maestro brasileiro José Maria Florêncio, que é o diretor musical da Opera Baltycka em Gdansk. Todo o elenco é formado de cantores poloneses que cantarão em português, sendo que durante o espetáculo serão projetadas legendas com as traduções para o polonês. 

Em outubro de 2018, no concerto de abertura da temporada da Opera Baltycka, a orquestra do teatro apresentou a “Abertura” da ópera Olga. A peça sinfônica teve grande sucesso, despertando grande interesse do público e da crítica musical polonesa. Esse fato motivou a direção do teatro a programar a ópera para a temporada 2019-2020. 

As oito récitas serão realizadas nas seguintes datas: 11 *, 12 e 13 de outubro de 2019; 22 e 23 de novembro de 2019; 27, 28 e 29 de março de 2020. 

A equipe técnica da montagem polonesa de Olga já foi anunciada: direção musical - José Maria Florêncio; direção de cena - Romuald Wicza-Pokojski; cenários e figurinos - Hanna Szymczak; coreografia - Izabela Sokolowska-Boulton. 

O papel de Olga, que no Brasil foi interpretado pela soprano Martha Herr, falecida em 2015, será interpretado alternadamente pelas polonesas Anna Mikolajczyk e Katarzyna Wietrzny. Os demais papéis estão assim distribuídos: Prestes - Jacek Laszczkowski (tenor); Filinto Müller - Mariusz Godlewski e Macin Bronikowski (barítonos); Arthur Ewert - Remigiusz Lukomski e Daniel Borowski (baixos); Elise Ewert - Julia Jarmoszewicz (mezzo-soprano); Rodolfo Ghioldi - Lukasz Motkowicz e Jan Zadlo (barítonos); Victor Barron - Leszek Skrla (barítono); Carmen Ghioldi - Katarzyna Nowosad (mezzo-soprano); Manuilsky - Piotr Nowacki (baixo); cantador I e policial - Dionizy Plackowski (tenor); cantador II, policial e Sobral Pinto - Jan Zadlo (barítono-baixo); cantador III e policial - Leszek Holec (barítono).


* Confira repertório no dia 11/10/2019 ("premiera"=estreia) na Opera Baltycka em Gdansk:
https://operabaltycka.pl/pl/repertuar/dzien/2019-10-11

Colaborador: JORGE ANTUNES


Por Francisco José dos Santos Braga




JORGE de Freitas ANTUNES (Rio de Janeiro, 23/04/1942) é um compositor e maestro brasileiro, bacharel em Física pela Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi). Tendo estudado ainda jovem Física e Música, fez uso desses conhecimentos na música eletroacústica, da qual é precursor no Brasil desde 1961 e amplamente reconhecido no exterior. Assim foi que ainda em 1961 iniciou pesquisas no domínio da correspondência entre os sons e as cores. Desenvolveu uma técnica de composição, a que dá o nome de Música Cromofônica, e em 1965 começou a produzir obras de multimídia.


Graduou-se em violino, composição e regência pela Escola de Música da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1968. Fez pós-graduação em composição musical em Buenos Aires, no Centro Latinoamericano de Altos Estudios Musicales (CLAEM), do Instituto Torcuato Di Tella (onde terminou o mestrado em 1970 sob a orientação de Alberto Ginastera e Gerardo Gandini). Fez cursos de aperfeiçoamento em Buenos Aires, Utrecht e Paris, tendo estudado com Alberto Ginastera, Kröpfl, Gandini, Koenig, Bayle, Reibel e Pierre Schaeffer.

Crédito: Flávio Silva.
Em 1977, terminou seu Doutorado na Universidade de Paris VIII, sob a orientação de Daniel Charles.

Desde 1973 até 2011, foi professor do Departamento de Música da Universidade de Brasília, onde lecionou e fundou o Laboratório de Música Eletroacústica, ensinando Composição, Contraponto e Acústica Musical. Apesar da aposentadoria, mantém intensa atividade acadêmica como pesquisador sênior, orientando trabalhos de pós-graduação. Em entrevistas, ele confirma que mesmo compondo músicas, o seu grande amor sempre será lecionar. 

Compôs a ópera "Olga" entre 1987 e 1997, em 3 atos (baseada no drama da vida de Olga Benário Prestes, mulher do líder revolucionário Luís Carlos Prestes), mas apenas em 14 de outubro de 2006 pôde ver sua estreia mundial, que se deu no Teatro Municipal de São Paulo. À frente da Orquestra Sinfônica Municipal, o maestro José Maria Florêncio assinou a direção musical do espetáculo, que contou ainda com a participação do Coral Lírico. O diretor teatral William Pereira é o responsável pela direção cênica e cenografia. Os figurinos foram concebidos por Fábio Namatame.

Em 2014 estreou outra ópera de sua composição, "A Cartomante", baseada no conto de Machado de Assis. A estreia ocorreu em Brasília, com apresentação da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro sob a regência de seu filho, Jorge Lisboa Antunes, nos dias 31 de julho a 3 de agosto.

Apesar de ter citado duas grandes óperas de Antunes, a lista de seus títulos no gênero operístico já atingiu a marca inigualável de doze, compostos durante o período de 1966 a 2019.

Foi agraciado com a Comenda da Liberdade e Cidadania (1ª edição de 2011), na Fazenda do Pombal, sítio onde nasceu o Tiradentes.

Apesar de sempre compor música eletroacústica, possui um catálogo instrumental muito vasto que inclui muitas obras sinfônicas, música de câmara e duas grandes óperas. Suas partituras são editadas por Suvini Zerboni, Billaudot, Breitkopf & Härtel, Salabert e Sistrum. 

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_Antunes (Acesso em 03/08/2019)

terça-feira, 30 de julho de 2019

Colaborador: CARYL CHESSMAN


Por Francisco José dos Santos Braga


I.  INTRODUÇÃO

 
Recentemente, fomos informados que o governo dos Estados Unidos tem anunciado sua intenção de retomar a execução de condenados à pena de morte por tribunais federais e que há cinco presos que deverão ser executados a partir de dezembro próximo.

No ano passado, ocorreram 25 execuções nos Estados Unidos, mas todas foram levadas a cabo por autoridades estaduais. A última execução pelo governo federal ocorreu em 18 de março de 2003.

Execuções em nível federal são raras nos EUA. Desde a restauração da pena em 1988, o governo executou apenas três condenados. Apesar de legal no país, vários estados americanos declararam tal prática como ilegal ou adotaram moratórias.

Atualmente, há 61 pessoas no corredor da morte a nível federal. Entre os condenados estão o autor do atentado à Maratona de Boston em 2013, Dzhokhar Tsarnaev, e o atirador de Charleston, Dylann Roof, que matou nove pessoas no ataque à Igreja Metodista Episcopal Africana Emanuel, que aconteceu em junho de 2015.

De acordo com o procurador-geral do país, William Barr, o retomada das execuções visa "fazer justiça às vítimas dos crimes mais horríveis. O Departamento de Justiça respalda o Estado de direito e devemos às vítimas e às suas famílias levar adiante a sentença imposta pelo nosso sistema de justiça", acrescentando ainda que "sob Governos de ambos os partidos, o Departamento de Justiça buscou a pena de morte para os piores criminosos, incluindo estes cinco assassinos, cada um dos quais foi condenado por um júri após o devido processo legal completo e justo".

O procurador transmitiu sua decisão ao FBI e pediu ao diretor interino, Hugh Hurwitz, que programe as execuções de cinco presos que foram condenados à morte por assassinato, por crimes de tortura e estupro contra crianças e idosos. As execuções não são praticadas em nível federal desde 2003.

O presidente americano, Donald Trump, é defensor da pena de morte e já chegou a sugerir que os Estados Unidos deveriam adotar leis mais severas sobre o tráfico de drogas, citando como exemplo as Filipinas, onde, desde a eleição de Rodrigo Duterte, milhares de suspeitos de tráfico estão sendo executados pela polícia.


II. A PENA DE MORTE PARA CARYL CHESSMAN E SUA REPERCUSSÃO MUNDIAL

No Brasil, Afanásio Jazadji, jornalista, radialista, advogado e deputado estadual (PFL-SP), em 5 de julho de 2001, no site da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, manifestou sua opinião defendendo também a pena de morte no Brasil na matéria de sua autoria intitulada "Pena rigorosa inibe a prática do crime", argumentando que
"Já disse e repito que sou a favor do uso da pena de morte como punição contra os que praticam crimes hediondos, cruéis. Deixo bem claro que não defendo o linchamento ou a justiça com as próprias mãos, mas sim o castigo a quem fez um grande mal, sendo submetido a julgamento, com amplo direito de defesa. Aquele que mata pessoas inocentes, recorrendo a requintes de perversidade, merece ser banido, executado. Além de tudo, esse tipo de castigo serve de exemplo, atemorizando criminosos em potencial.
No Brasil, a pena de morte já vem sendo aplicada todos os dias, principalmente nas grandes cidades paulistas: é só abrir os jornais e ler o último caso de mulher ou homem assassinado num semáforo por assaltantes que não respeitam a vida. Os bandidos possuem o monopólio da pena de morte. Eles não usam câmara de gás ou cadeira elétrica, nem mesmo a forca ou a injeção letal: apelam para o revólver, sob o pretexto de que precisam roubar porque são vítimas da crise social. Roubar para matar a fome significa o direito de matar um pai de família, uma mulher indefesa? Isso não justifica. Essa crueldade dos bandidos precisa ser contida.
Os criminosos, que saem matando por aí, acabam ficando em liberdade por causa da fragilidade do poder das autoridades, da ineficácia da polícia e das limitações das leis. Esses bandidos têm legítimos defensores nos parlamentos, nas igrejas, no crime organizado. Alguns advogados são contrários à pena de morte, pois, uma vez aplicado esse tipo de castigo, eles perderiam boa parte de sua clientela. Por isso muitos defendem direitos humanos só para bandidos.
Sou a favor da pena de morte, sim: contra facínoras que não merecem viver."
Apud FONSECA, in "A execução de Caryl Whittier Chessman: uma (re)leitura sobre a pena de morte", lemos que Dr. Clemente Hungria (1921-2018), filho do renomado criminalista e ministro do STF, Dr. Nélson Hungria, teria afirmado que
"O réu californiano Caryl Chessman, em verdade, praticou vários delitos desde sua puberdade até aos 27 anos: furtos de automóveis e estelionatos, agressões, desordens e contravenções, mas sempre negou a autoria dos supostos estupros que o levaram a ser condenado à morte – por um júri composto de 11 mulheres e 1 homem – bem como ser o red light bandit."
Idem apud FONSECA, tomamos conhecimento de que, segundo René Ariel Dotti, em seu livro Casos Criminais Célebres,
"ao ser preso e ter lhe sido atribuído o título de maníaco sexual, Chessman, em um primeiro momento, chegou a achar graça e se divertir da acusação. Todavia, esse divertimento não durou muito tempo, pois, em vista de uma série de coincidências infelizes, como, por exemplo, as características físicas semelhantes à do bandido procurado, um passado desordenado em torno da criminalidade, as palavras categóricas dos policiais responsáveis pela prisão e um veredicto de um grupo de jurados parciais, Chessman foi sentenciado à morte. A partir desse momento, começava então para ele uma odisséia, no intuito de demonstrar sua inocência e anular o julgamento."
O jornalista português David Pereira, na edição de 06 de novembro de 2018 do Diário de Notícias, deu o seguinte relato a respeito de Caryl Chessman, dentro do artigo intitulado "Duplo suicídio na prisão que tem o maior corredor da morte dos EUA":
"(...) Um dos seus prisioneiros mais famosos foi Caryl Chessman, conhecido como o Bandido da Luz Vermelha (The Red Light Bandit em inglês), executado a 2 de maio de 1960 numa câmara de gás depois de ter sido condenado a pena de morte em 1948, acusado de crimes de roubo, rapto e violação cuja prova sempre foi disputada. Foi o último morto na Califórnia por um crime sexual que não resultou na morte da vítima. Mais do que pelos seus crimes, ficou famoso pela forma como dispensou o advogado, estudando Direito para se defender, e sobretudo pelos livros que escreveu, a dar conta da sua causa.
Dentro da cadeia, escreveu três obras biográficas, 2455-Cela da Morte (1954), A Lei Quer Que Eu Morra (1955) e A Face Cruel da Justiça, e um romance, O Rapaz Era Um Assassino. Os seus livros levaram o seu caso ao público, correram mundo e a sua luta fez o estado da Califórnia, assim como o resto do mundo, refletir sobre a pena de morte. O primeiro foi o mais conhecido, tornou-se um best-seller e foi transformado em filme no ano seguinte. Nele, Chessman contou como o diretor da prisão, Hardley Teets, o convenceu a lutar pela sua vida.
Devido à repercussão da obra, o escritório do então governador da Califórnia, Pat Brown, foi inundado por pedidos de clemência, incluindo os de autores e intelectuais como Aldous Huxley, Ray Bradbury, Norman Mailer, Dwight MacDonald e Robert Frost e figuras públicas como a antiga primeira-dama Eleanor Roosevelt e o evangelista cristão Billy Graham. Numa situação difícil, Brown adiou a execução inicialmente agendada para 19 de fevereiro de 1960 por temer que pudesse ameaçar a segurança do presidente Dwight D. Eisenhower durante uma visita oficial à América do Sul, onde o caso inflamou o sentimento antiamericano.
De acordo com algumas fontes, o governo californiano tentou promover novo adiamento nos minutos finais, mas um secretário de justiça terá digitado mal o número da central telefônica da prisão. Ainda assim, os onze anos e dez meses que Chessman passou no corredor da morte foi, na altura, o mais longo de sempre nos Estados Unidos."
O Promotor de Justiça do MPDFT, Dr. Rogério Schietti Machado Cruz, escreveu:
"De fato, foi incomum a peregrinação de Chessman. Portador apenas de curso primário, os milhares de livros lidos lhe renderam um conhecimento profundo da criminologia e do sistema penitenciário americano. Tornou-se poliglota (aprendeu a língua portuguesa em poucos meses), e, mesmo com punições disciplinares partidas da direção do presídio, que via suas feridas expostas ao mundo, publicou 4 livros, um dos quais ("2455 - Cela da Morte") tornou-se best seller no Brasil.
Nada, porém, se compara ao seu derradeiro escrito, "um documento para a posteridade" na expressão de RENÉ ARIEL DOTTI ("Chessman: crônica de uma morte anunciada" in Revista Brasileira de Ciências Criminais", RT, nº 20 - out/dez/97, de onde se extraíram as informações para este texto) a carta manuscrita por Chessman horas antes de sua morte e endereçada a um repórter do jornal San Francisco Examiner. Publicada na edição do dia seguinte à execução de Chessman, a carta-testamento se firmou como um dos mais vigorosos libelos contra a pena de morte. 

III.  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 
CRUZ, Rogério Schietti Machado: Chessman: um assassinato oficial, METAJUS: Casos Históricos
http://www.metajus.com.br/casos-historicos/caso_historico3.html (carta-testamento de Caryl Chessman disponível na íntegra)

DEUTSCHE WELLE: EUA retomarão pena de morte em presídios federais, in g1.globo.com

FONSECA, Ricardo Coelho Nery da. A execução de Caryl Whittier Chessman: uma (re)leitura sobre a pena de morte. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 10, n. 899, 19 dez. 2005.
https://jus.com.br/artigos/7732/a-execucao-de-caryl-whittier-chessman

JAZADJI, Afanásio: Pena de morte, só para bandidos - Opinião, in site da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

PEREIRA, David: Duplo suicídio na prisão que tem o maior corredor da morte dos EUA, publicado no DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Lisboa, edição de 06/11/2018. 

CARYL CHESSMAN, O CONDENADO DO CORREDOR DA MORTE


Por Francisco José dos Santos Braga



I.  A FACE OCULTA DA JUSTIÇA, por Caryl Chessman

Caryl Chessman (1921-1960) em momento de descontração

PREFÁCIO


Todos conhecem a emocionante história de Caryl Chessman, o escritor condenado do Corredor da Morte, autor de “2455, CELA DA MORTE”, “A LEI QUER QUE EU MORRA” e do livro que ora é lançado: “A FACE CRUEL DA JUSTIÇA”.



Chessman desde o dia três de julho de 1948 está confinado à Penitenciária de San Quentin; sobre ele, durante todos esses longos anos, pesam duas sentenças de morte por sufocação e envenenamento, na sinistra “sala verde” – a Câmara de Gás de San Quentin, na Califórnia.



A FACE CRUEL DA JUSTIÇA narra a mais recente fase da incessante batalha de Chessman para escapar ao verdugo. Conta como ele se tem aprofundado no estudo do sistema processual e penal norte-americano. Mostra os esforços que ele e seus dedicados advogados desenvolvem no sentido de conseguir para si o que alega ser justo: um novo julgamento, porque o que o condenou à morte foi irregularmente transcrito por um escrivão substituto. Nesse julgamento, Chessman afirma que poderá demonstrar, cabalmente, que não é culpado dos horrendos crimes que lhe imputam. 

Recentemente, em meio a violentas demonstrações populares de apoio à pretensão de Chessman, em todo o mundo, o governador da Califórnia, Edmund G. Brown, concedeu um adiamento da execução de Chessman para que o Legislativo californiano estudasse projetos visando a abolir ou suspender experimentalmente a pena de morte naquele estado norte-americano. Qual seja o desfecho, não se pode prever, no momento. Mas, não há a menor dúvida de que para ele terá contribuído, decisivamente, este livro que é um candente libelo contra a pena de morte. 



INTRODUÇÃO 



UMA UNIDADE DE ULTRA-ALTA SEGURANÇA, eriçada de minuciosas garantias de custódia, isolada do resto da Penitenciária Estadual da Califórnia, em San Quentin... 

Um guarda armado, de inquiridora lanterna elétrica na mão, patrulhando incessantemente o estreito passadiço de vigia, junto à parede... 
Uma entrada de portões duplos, aferrolhada e de múltiplas fechaduras, apelidada de A Gaiola... 
Um longo e cavernoso corredor, gradeado e entelado, com lâmpadas nuas, acesas vinte e quatro horas por dia, lançando sombras fantasmagóricas pelo teto... 
Trinta e quatro celas de segurança máxima, com grades na frente, paredes de cimento, não tão largas quanto uma pessoa de braços esticados e menos de duas vezes o comprimento do corpo, onde homens atormentados pela esperança são mantidos em confinamento enjaulado por meses, anos e depois são levados, uma tarde, de elevador, para baixo, e “humanamente” mortos na manhã seguinte... 
Este é o Corredor da Morte – no seu melhor aspecto, um lugar impiedoso, sombrio, um pesadelo; no pior, um inferno em vida. 
Há anos o Estado da Califórnia erigiu este frio templo de aço e concreto dedicado à loucura social. E aqui, na agora famosa cela 2455, é onde tenho existido desde a manhã de sábado, 3 de julho de 1948. Depois de mais de oito anos, e meia centena de batalhas judiciais, ainda há uma câmara de gás no meu futuro. 
ISSO não me agrada nem um pouco. 
Não que eu esteja preso por um paralisante temor à morte, pois tenho visto, ouvido, provado e cheirado demais a Morte; tenho estado perigosamente perto da Morte por tempo demais, por vezes demais, para me preocupar com a perspectiva da extinção física iminente. 
Enquanto tenho esperado esta eternidade para morrer, uma mulher e sessenta e nove homens já foram executados naquela “Sala Verde” lá embaixo. Outros ficaram loucos. Alguns dementes ludibriaram o carrasco, pondo violentamente têrmo às suas vidas penhoradas. Eu próprio já tenho estado a poucas horas de ter minha vida extinta, antes que desesperados recursos legais suspendessem abruptamente a execução. 
Não estou preocupado com as raivosas afirmações, segundo as quais irei direto para a parte mais quente e mais horrível do inferno, no momento em que inalar aquela fumaça letal de cianureto. Venha quando e como vier, minha morte física significará apenas uma cessação total da consciência. E se esse inferno cristão, por uma chance em dez bilhões, fôr uma realidade de após a vida, tenho certeza de que o Príncipe das Trevas terá muito trabalho em inventar uma tortura que eu não considere como mero aborrecimento, depois do meu confinamento pelo soberano Estado da Califórnia. 
Além disso, não obstante o fato de que certos fazedores de lendas sem inibições me tenham apregoado como um dos “monstros” mais execráveis do século vinte, eu sou um monstro que o demônio não quer. E êle tem boas razões para isso. Quase que certamente eu violaria a cálida hospitalidade dêsse superestimado arqui-inimigo, com algum engenhoso plano para tirá-lo do negócio, da mesma forma como tenho tentado tirar o emprêgo do carrasco da Califórnia e tornar a sua câmara de gás uma peça de museu. 
O inferno, para minha mente “contorcida”, não faz mais sentido do que o Corredor da Morte e o que considero como assassínio legal, infligido pelo Estado. Isto, eu sei, é heresia para o espírito daqueles indivíduos que seguem a grande tradição de Torquemada e outros, daquela ilustre companhia. 
Uma de minhas características dominantes é uma feroz insistência em permanecer independente, o que pode ser uma razão pela qual sou chamado de egomaníaco (assim como psicopata). Para falar mais às claras, a minha alma, se ainda possuo uma, não está à venda. Em consequência, aquêles que ponderarem sôbre o significado social dêste livro, farão bem em conservar em mente o dito de Joseph Conrad: “A crença em uma fonte supernatural de mal não é necessária; os homens, sòzinhos, são bem capazes de qualquer malvadeza” (incluindo homens auto-santificados, que se proclamam São Jorge, empenhados em combate de morte contra o mal). 
Hoje, como no passado, êsses espécimes oportunistas continuam a demandar o sagrado privilégio de obstruir a lenta luta da humanidade para criar um mundo mais sadio, mais humano. A sua lei é a lei do mêdo, da fôrça, câmaras de execução e retribuição, e submissão de cordeiro à sua vontade patriarcal. Os uivos de alarma angustiado que dêles extraí, considero como altos elogios. Não tremo diante dêles. 
Isto basta quanto ao miasma que se instalou em torno do caso Chessman e do homem na Cela 2455, ocultando a verdade sôbre ambos e desanimando muitas pessoas de se aventurarem bastante perto para uma inspeção própria, por mêdo de contaminação... 

Dizem que o gato tem nove vidas; se isto é verdade, sei o que um gato sente quando, sob as condições mais arrepiantes, é obrigado a gastar as primeiras oito dessas vidas em uma luta pela sobrevivência de câmara de horrores, e a Impiedosa Ceifadora mete na cabeça que será muito divertido tentar arrebatar-lhe a nona. Tudo o que o gatinho pode fazer é assoprar. 
O Homo sapiens pode escrever livros. 
A Face Cruel da Justiça completa uma trilogia iniciada com 2455, Cela da Morte, e continuada com A Lei Quer Que Eu Morra. É uma história que se passa contra o pano de fundo, desenrolando-se na primeira plana, do internacionalmente acompanhado Caso Chessman; mas não é primordialmente uma história daquele Chessman que, no espírito do público, é uma combinação de nome notório nos cabeçalhos, bêsta selvagem e psicopata em uma jaula, e um arrogante ludibriador da Justiça, embora êsse improvável Chessman seja trazido para o palco e receba uma oportunidade para representar pela – sinceramente espero – última vez. 
No que me concerne, seu trabalho terá sido feito, então; seu valor máximo, como alvo para as sensibilidades enraivecidas de bons cidadãos, terá sido compreendido. O bom senso impõe que, na hora indicada, êle pare voluntàriamente, ou seja puxado sem-cerimoniosamente para o lado; e dê a Caryl Chessman – homem e autor – uma oportunidade. Êste mundo é pequeno demais para ambos os Chessman. Um tem de desaparecer. 
O Estado da Califórnia está igualmente determinado a dar cabo, permanentemente, dêste Chessman salafrário. Com o que eu não posso concordar é o meio a ser empregado. O Estado, asininamente, insiste em que nada menos do que uma viagem à sua câmara de gás letal fará o serviço; enquanto que minha posição é que a gente não pode matar com cianureto aquilo que nunca possuiu a realidade da carne e ôsso. Em resumo, embora eu vá continuar a resistir totalmente à drástica e pouco imaginativa solução do Estado, farei o possível para exterminar êste horrendo exemplo de perversidade do século vinte, que leva meu nome. Minhas armas serão as palavras. 
As introduções, embora venham em primeiro lugar nos livros, normalmente são escritas em último lugar, quando o autor pode apreciar o que realmente pôs no papel, e amoldar jeitosamente suas palavras introdutórias a fim de corresponderem ao que apresentou, ao invés do que esperava apresentar. Estou invertendo o procedimento normal, em deferência à necessidade. Geralmente eu sei para onde vai o livro e, especìficamente, sei porque; mas não sei como êle irá terminar ou as reviravoltas dramáticas que êle (e eu) sofreremos antes de que se chegue à última página. Não posso saber. 
Uma cruenta e decisiva luta pela minha vida, na forma de uma audiência plenária, ordenada pela Côrte Suprema dos Estados Unidos, depois de sete anos ou mais de complicado litígio em tribunais estaduais e federais, está para ser iniciada no Tribunal Distrital dos Estados Unidos, em São Francisco. Representando-me estarão os advogados George T. Davis e Rosalie S. Asher. 
Davis tem tido uma fabulosa carreira como promotor público e confidente de políticos. Foi discípulo de August Vollmer, um dos imortais da criminologia científica, e de Max Radin, o gigante legal de uma era recém-finda. Davis tem defendido assassinos denunciados e sem um tostão, e multi-milionários reis da indústria de munições, com igual êxito e zêlo, e com audácia e engenhosidade tática tais que deixaram os advogados oponentes meneando a cabeça, incrédulos. 
Rosalie Sue Asher? Como ela se tornou um dos advogados e uma boa amiga de um homem condenado, a quem os tabloides se têm deliciado em chamar de nomes calculados para excitar e chocar os leitores mais famintos de sensações, é uma parte reveladora do meu livro. 
Outras pessoas que povoarão meu livro são os meus vizinhos, os homens condenados do Corredor da Morte, um pitoresco detetive particular; a mãe de duas crianças, que pagou um terrível preço por me amar; repórteres e colunistas, compassivos, cruéis ou não; jurados obstinados e testemunhas peritas, empenhadas em um jôgo mortal; um escrivão de tribunal, falecido, e seu alcoólico substituto; inflamados promotores, decididos a encher de ciladas este recurso legal de última cartada, e a me enviar ràpidamente para a morte; funcionários da prisão e policiais, e um agente literário e amigo cuja fé em mim como escritor e como pessoa humana nunca fraquejou. 
Com exceção do Chessman de temerosa legenda, essas pessoas são reais. Nenhuma teve de ser inventada para aumentar o impacto dramático dêste livro. 
Em jôgo aqui, está a vida de um homem – a minha própria. O caso é acompanhado e calorosamente debatido em todo o mundo. Tem derrubado e estabelecido precedentes de importância legal. Promete ter repercussões ainda maiores. Se se demonstrar, nas próximas audiências no tribunal federal, que eu fui inconstitucionalmente condenado no início, e que minha condenação foi mantida em grau de recurso, através da convivência e fraude de funcionários públicos, como sustento; e depois, se um júri descobrir, em novo julgamento, que estou inocente dos repulsivos crimes do Bandido da Luz Vermelha (*), como tenho veementemente sustentado em todo êsse brutal sofrimento, há poucas dúvidas de que a Califórnia reexaminará o seu sistema de justiça criminal, com grande possibilidade de abolir essa "relíquia da barbárie humana" – a pena capital. 
Machiavelli chamou a Sorte de mulher. A Justiça, também, é uma mulher – uma atriz cativa, forçada a representar muitos papéis, frequentemente indecentes e estultificantes – e a ser o porta-voz de tanta insensatez, na sua maior parte sinistra e destrutiva. Em seu nome, através dos séculos, temos torturado e assassinado nossos semelhantes. 
Com um grande aparato de retidão, elaboramos uma ciência e uma arte da punição. 

Esta história começa na Califórnia setentrional, em um dia de comêço de outono, cinco anos depois do marco divisor de nosso século...

(*) "O Bandido da Luz Vermelha" (The Red Light Bandit) é a alcunha dada pelos jornais a um homem que molestava casais estacionados nos morros ao redor de Hollywood, roubava o homem e forçava a mulher a sair do automóvel para propósitos sexuais. 


Fonte: CHESSMAN, Caryl: A Face Cruel da Justiça. São Paulo: Distribuidora Paulista de Jornais, Revistas, Livros e Impressos Ltda., 1960, 266 p.



II. JORNAL ÚLTIMA HORA FAZ A COBERTURA DAS ÚLTIMAS HORAS DE CARYL CHESSMAN VIVO E DAS REPERCUSSÕES DE SUA MORTE


Caryl Chessman (na "Cela da última noite" envia dramático apêlo ao governador Brown) 

A UPI em 19 de fevereiro de 1960 divulgou matéria que foi traduzida pelo jornal Última Hora, ano IX, edição 2958, p. 8: 
SAN QUENTIN, 19 (Urgente-UPI) - Já instalado na "cela da última noite", que fica apenas a 13 passos da câmara de gás, e faltando apenas 17 horas para a sua tantas vêzes adiada morte, marcada para as 15 horas de hoje, hora do Rio de Janeiro, Caryl Chessman pediu ao Governador da Califórnia, Edmund G. Brown, que suspenda a sua execução e, ao mesmo tempo, prometeu revelar quem era o "bandido da luz vermelha". 
A petição foi levada a Sacramento, Capital do Estado, pela advogada Rosalie Asher, do grupo de defensores de Chessman. A advogada fez a viagem em companhia de William Linhart, detective particular contratado pelo escritor-condenado, que disse possuir o nome do verdadeiro "bandido da lanterna vermelha".

Chessman identificado no presídio de San Quentin, na Califórnia
Os advogados declararam, no entanto, que há uma possibilidade em um milhão de que Chessman se salve com êsse recurso de última hora. 

BROWN RECEBERÁ A ADVOGADA 

Tão logo chegou a Sacramento, Rosalie Asher pediu uma audiência ao Governador. Brown acedeu em recebê-la. 

Pode Mudar a Situação 

SAN QUENTIN, 19 (UPI) - O próprio Chessman enviou ontem um novo telegrama a Brown, mas o Governador declarou que não tinha poderes jurídicos para atuar. "De acôrdo com a Constituição - disse Brown, em Sacramento, Capital do Estado - careço da faculdade de conceder o perdão". Aparentemente Chessman ficou ontem à noite sem qualquer recurso legal a que recorrer para evitar a morte. Seu advogado, George T. Davis, disse, contudo: "O fim dêste caso não chegará senão às 10 da manhã (uma hora da tarde em Nova Iorque). Essa é a hora da execução." Não se deu à publicidade o conteúdo da última mensagem de Chessman ao Governador, mas informou-se que continha algo que "pode mudar por completo a situação". Antes de entregar a mensagem à advogada Rosalie Asher, em San Quentin, Chessman deu suas últimas instruções sôbre a incineração de seu cadáver e a distribuição de seus pertences. À última hora fêz algumas modificações em seu testamento. 
A advogada disse que êle parecia achar-se em completa calma. O tribunal supremo recusou ontem a petição que lhe dirigiu Chessman, para que o perdoassem, e se negou a adiar a execução por dez dias. Os sete juízes conferenciaram durante uma hora e em seguida rechaçaram o pedido por quatro votos a três, da mesma forma que no dia anterior. Nenhum dêles mudou de opinião de anteontem para ontem. Segundo a lei da Califórnia, a decisão do tribunal impede ao Governador comutar a pena de morte imposta a Chessman. (...) 

O jornal Última Hora, ANO IX, Rio de Janeiro, edição 3 de maio de 1960 nº 345 publicou as seguintes matérias:

Chamada na p. 1: "Até o último segundo, o mundo inteiro esperava que a Suprema Côrte da Califórnia concedesse o perdão a Caryl Chessman. Mas, em vez de um gesto nobre e generoso, que reafirmasse a fé na recuperação moral do homem, a Justiça norte-americana preferiu transformar-se num instrumento de vingança fria e selvagem, regredindo aos tempos mais primitivos. Vemos, nesta radiofotografia da UPI, o oficial de justiça ler para o advogado de Chessman e jornalistas a decisão fatal da Justiça, minutos antes da execução. 
A opinião pública mundial ficou profundamente traumatizada com a execução de Caryl Chessman, realizada, ontem, num clima de "suspense" cruel e desumano. Por muito tempo ainda, os gritos lançados pelo famoso escritor, ao morrer na câmara de gás de San Quentin (segundo testemunho do correspondente da agência France-Press), ecoarão pelos quatro cantos da Terra como o último e desesperado protesto de um homem que se proclamou inocente até o fim. Nesta radiofotografia da UPI, vemos o último retrato de Chessman, tirado a 26 de abril, e a câmara de gás, o que os prisioneiros chamam "o quarto verde". 

Na p. 5: Proposto o 2 de Maio (Data da Morte de Chessman) Como Dia da Jornada Internacional Pelo Progresso do Direito 

CARYL CHESSMAN foi assassinado pelo Estado da Califórnia - afirmou a UH o poeta e escritor Rossine Camargo Guarnieri, que foi, em São Paulo, o campeão da luta em defesa da vida do presidiário-escritor, tendo pronunciado em 30 dias, 17 conferências contra a pena de morte. 
Na capital bandeirante, Camargo Guarnieri obteve o pronunciamento contrário à morte de Chessman da Câmara Municipal, Assembléia Legislativa e de todas as Faculdades de Filosofia, além de ter feito uma carta-aberta ao cardeal-arcebispo, D. Carmelo Mota, e três apelos ao Presidente da República, a um dos quais o Sr. Kubitschek respondeu: "Peço a Deus que ilumine os julgadores de Chessman, mas como Presidente do Brasil não posso interferir nesse julgamento". 
Ainda emocionado, ao saber da notícia de que Chessman acabava de ser executado na câmara de gás de San Quentin, o escritor, que mais lutou no Brasil contra a execução do presidiário-escritor, disse, depois de informar que está escrevendo um livro a respeito: "Estou rascunhando uma carta ao Ministro Nelson Hungria. Nela direi que morreu um importante homem de nosso tempo, um homem que, com esfôrço, sofrimento e inteligência indescritíveis emergiu do pântano do crime para se transformar em patrimônio cultural da humanidade. Nós, que lutamos em defesa da vida de Chessman e que empreendemos uma campanha para iluminar consciências obscuras, temos, agora, um outro dever mais alto a cumprir: o de prosseguir com a luta contra a justiça retributiva em todos os Países do mundo. E a nossa bandeira será a memória de Caryl Chessman."

Jornada Internacional 

Prosseguindo, disse: "Neste lúgubre 2 de maio, estou propondo ao Ministro Nelson Hungria que iniciemos, a partir de hoje, uma campanha universal para transformar o 2 de maio em "Jornada Internacional pelo Progresso do Direito". Creio que é da alta tribuna do Supremo Tribunal Federal do Brasil que deve partir o grito inicial dessa luminosa jornada em defesa do homem. Que caiba ao povo brasileiro, que tanto tem feito em pról das causas humanitárias, a glória de iniciar uma luta para minorar os sofrimentos do homem. Ninguém mais autorizado que o Ministro Nelson Hungria para desferir êsse grito endereçado a tôdas as côrtes de justiça da terra. Para êsse trabalho em favor da humanidade, podem contar com a minha modesta ajuda.

Na p. 8: COLUNA DE UH - Chessman: um Golpe Profundo no Prestígio Mundial dos EUA 
O Brasil inteiro recebeu com um sentimento de indignação e horror a notícia do assassínio legal de Caryl Chessman. O protesto estende-se a todo o mundo civilizado, mas particularmente esclarecido perante a opinião pública como aconteceu no Brasil - graças, em grande parte, à cobertura dada por ÚLTIMA HORA - êsse sentimento assume expressões patéticas, de irada invectiva, de revolta e mesmo de náusea ante a frieza do atentado. Bastaria, ontem à tarde, percorrer as ruas centrais da cidade, auscultar o povo junto às bancas de jornais, nos coletivos, nos elevadores, nos locais de trabalho, para verificar a extensão e a profundidade da reação despertada pela morte do prisioneiro de San Quentin. 
(...) 
Chessman foi friamente assassinado - esta a opinião que ninguém conseguirá arrancar das mentes de milhões de criaturas em todos os quadrantes do globo. Não são apenas as pessoas simples que assim pensam, mas também algumas das maiores expressões mundiais do Direito Penal, inclusive em nosso País. Não é apenas uma reação emocional e instintiva: é a condenação racional aos costumes da "barbárie" que ainda persistem nos códigos de comunidades supostamente civilizadas. 
O fetichismo da letra legal prevaleceu sôbre a lei mais alta que mandava poupar a vida de Caryl Chessman. Mas, que aconteceu? Os juízes togados e as autoridades que ordenaram essa execução parecem mesquinhos ante a grandeza adquirida em doze anos de luta e sofrimento por êsse homem cheio de defeitos, mas que demonstrou, afinal, ser um Homem. E os Estados Unidos perdem, com a morte de Chessman, um elemento moral irrecuperável. A imagem da grande Nação americana que, hoje, aparece diante do mundo é algo que inspira pena e desgôsto. 

CLAMOR CONTRA A EXECUÇÃO DE CHESSMAN: OPINIÃO PÚBLICA REPUDIA A PENA DE MORTE 

Em tôdas as camadas sociais do País causou o mais profundo impacto a notícia da morte do presidiário-escritor Caryl Chessman. Numa "enquête" realizada pela reportagem de ÚLTIMA HORA, juristas, escritores, engenheiros, sociólogos, jornalistas e homens do povo tiveram oportunidade de manifestar o repúdio unânime à pena de morte, que muitos classificaram de "crime oficializado contra o homem". 
- Sou contrário à pena de morte de um modo geral e só poderia receber com tristeza a notícia da execução de Chessman. A pena de morte contraria, não apenas o sentimento brasileiro, mas se choca, também, com o sentimento universal. Já está na hora de abolirmos por completo esta espécie de pena" - acentuou o jurista. (...) 

Poetisa Condena 

Antes de pensarmos na pena de morte, antes de cogitarmos dêsse crime inominável, deveríamos estudar uma forma de reabilitação do criminoso, fôsse ele quem fôsse, escritor ou não, pacato ou revoltoso, piedoso ou sanguinário. Sou contrária à pena de morte, sob todos seus aspectos. Deve haver uma maneira, no meu entender, de evitar ou corrigir os crimes, sem puni-los com outro crime. Particularmente no caso Chessman, acho que a pena de morte poderia ser transmutada em prisão perpétua - e isso mesmo como recurso extremo. Para mim, a pena de morte não resolve". Quem fez estas revelações para a reportagem de ÚLTIMA HORA é a escritora Cecília Meireles, que também veio a saber da execução de Chessman por intermédio de nossa ligação telefônica. 

Não Quis Ouvir 

Também a escritora Clarice Lispector condenou a execução do escritor Chessman. "Recusei-me a ouvir as notícias que estavam sendo transmitidas por tôdas as estações de rádio - disse ela. A pena de morte é um verdadeiro crime contra o homem: é um crime para corrigir outro crime. Mesmo que um homem fôsse culpado, não deveria pagar com a morte. Só nos resta, agora, ficarmos indignados por muito tempo", concluiu. 

Na p. 9: NASCEU UM MÁRTIR: GRITOS DE CHESSMAN NA CÂMARA DA MORTE ABALARAM O MUNDO 
SAN QUENTIN, 3 (FP) - Caryl Chessman entrou na câmara de gás às 14.00 horas (10.01 locais). Muito pálido, foi imediatamente ligado à cadeira de execução por quatro guardas. Enquanto se procedia a essa operação, Chessman piscou um ôlho a duas môças jornalistas que êle convidara especialmente para assistir à execução. O chefe dos carcereiros deu-lhe umas pancadinhas no ombro e o pessoal abandonou a câmara de gás. Imediatamente a porta foi fechada.

Chessman sendo preparado na cadeira da câmara de gás
Às 14.03 horas (10.03 locais), as pastilhas de cianurêto foram colocadas na bacia que encontrava no lado da cadeira de execução. Pouco a pouco os mortíferos gases começaram a inundar a reduzida peça. Um minuto depois, Chessman que havia respirado profundamente, deitou bruscamente a cabeça para trás e dobrou-se sôbre si mesmo. Às 14.05 (10.05 locais), o condenado gritou e voltou a lançar a cabeça para trás. Às 14.06 (10.06 locais) as mãos de Chessman começaram a tremer e o seu lívido rosto cobriu-se de suor. Mais uma vez, Cary Chessman proferiu um grito apagado, quase um rugido. Às 14.07 (10.07 locais), a sua cabeça inclinou-se bruscamente para frente. Um minuto depois Chessman ficou imóvel, como a cabeça sôbre o peito. Às 14.12 (10.12 locais), o médico de San Quentin declarou que o condenado tinha morrido. 

Nasceu o Mártir 

NOVA IORQUE, 3 (UH) - A opinião pública norte-americana está profundamente dividida e chocada com a execução de Caryl Chessman na câmara de gás de San Quentin. A opinião geral é de que morreu o "bandido" mas nasceu o mártir cuja tragédia dará maior impulso à campanha contra a pena de morte. Considera-se, também, que a execução de Chessman sofreu influência política em virtude da proximidade das eleições presidenciais. 

A Agonia 

SAN QUENTIN, Califórnia, 3 (Por Robert Strand, da UPI) - Caryl Chessman morreu ontem, serena e resignadamente, na câmara de gás de San Quentin. O condenado entrou na câmara às 14 horas e 2 minutos. Os guardas precisaram de menos de um minuto para amarrá-lo à cadeira. Às 14 horas e 3 minutos as pastilhas de cianureto começaram a cair no recipiente de ácido sulfúrico e a câmara se encheu ràpidamente de gás. Caryl Chessman foi declarado oficialmente morto às 14 horas e 12 minutos. Suas últimas palavras foram o "Adeus!" que disse sorrindo dèbilmente para os guardas que o amarraram à cadeira. 
Depois que os guardas se retiraram da câmara, Chessman voltou a cabeça para a direita, para fitar nos olhos alguns dos jornalistas que o conheciam e que assistiam à execução através das janelas de grossos vidros da câmara de gás. 
(...) 
Às 10.12 horas, quando foi declarado morto, tinha no rosto uma expressão de cansaço e tristeza. Sua última declaração pouco antes de morrer foi como sempre sustentou - que jamais fôra o "Bandido da Luz Vermelha" por cujos crimes foi condenado à morte em 1948. Caryl Chessman prometera morrer como um homem, "com dignidade", e cumpriu sua palavra. Ao chegar à câmara, tinha estampado no rosto um ar de dignidade desafiante, porém os que o conheciam bem, disseram que o sofrimento e o mêdo se refletiam em cada um dos sulcos de sua face.

Chessman morreu em nove minutos, depois de ter evitado o encontro com a morte durante onze anos, dez meses e sete dias, desde que foi condenado em 1948 por crimes de roubo, seqüestro e perversão sexual.

Ocupam quase inteiramente a página 16 as seguintes matérias, cujo título aparece em letras garrafais:
– TRAUMATIZADA A OPINIÃO PÚBLICA MUNDIAL: "CHESSMAN FOI ASSASSINADO!"
– DOZE ANOS DE AGONIA À ESPERA DA MORTE!
– MORREU CHESSMAN PROTESTANDO INOCÊNCIA ATÉ O FIM
– TELETIPOS E TELEFONES DE ÚLTIMA HORA FICARAM LIGADOS DIRETAMENTE COM SAN QUENTIN

Fonte: http://memoria.bn.br/pdf/386030/per386030_1960_00345.pdf