domingo, 7 de dezembro de 2025

O HOMEM QUE SABIA JAVANÊS

Por LIMA BARRETO 

Transcrevemos o conto referenciado publicado pela  Gazeta da Tarde, Rio, edição de 28 de abril de 1911.
Glossário pelo gerente do Blog.

Livro em javanês - Crédito: https://paginadoricardo.wordpress.com/2020/04/04/resumo-o-homem-que-sabia-javanes-lima-barreto/

 

Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia pregado ¹ às convicções e às respeitabilidades, para poder viver. 
Houve mesmo, uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso. 
O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido ², até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo: 
 
— Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo ! 
— Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho aguentado lá, no consulado ! 
— Cansa-se; mas, não é disso que me admiro. O que me admira, é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático. 
— Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês! 
— Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado? 
— Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso. 
— Conta lá como foi. Bebes mais cerveja? 
— Bebo. 
Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei: 
— Eu tinha chegado havia pouco ao Rio estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anúncio seguinte: 
 
"Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas, etc." Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse ³ quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os "cadáveres" . Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e a língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo maleo-polinésico, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu. 
A Encyclopédie dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras. Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas  na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los. 
À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu "a-b-c" malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente. Convenci-me que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos: 
— Senhor Castelo, quando salda a sua conta? 
Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança: 
— Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor de javanês, e... 
Por aí o homem interrompeu-me: 
— Que diabo vem a ser isso, Senhor Castelo? 
Gostei da diversão  e ataquei o patriotismo do homem: 
— É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é? 
 
Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses: 
— Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, Senhor Castelo? 
 
Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar. 
Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à Rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que número. É preciso não te esqueceres que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder "como está o senhor?"  e duas ou três regras de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico. 
Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei, para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil  podes ficar certo  aprender o javanês... Fui a pé. Cheguei suadíssimo; e, com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza... 
 
Era uma casa enorme que parecia estar deserta; estava mal tratada, mas não sei porque me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que não era pintada. As paredes descascavam e os beirais do telhado, daquelas telhas vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras decadentes ou mal cuidadas. 
Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias. Os crótons  continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças. Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas barbas e cabelo de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice, doçura e sofrimento. 
Na sala, havia uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces perfis de senhoras, em bandós , com grandes leques, pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão; mas, daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antiguidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China ou da Índia, como se diz. Aquela pureza da louça, a sua fragilidade, a ingenuidade do desenho e aquele seu fosco brilho de luar, diziam-me a mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos olhos fatigados dos velhos desiludidos... 
Esperei um instante o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com o lenço de alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simonte de antanho ¹, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar ¹¹ aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei. 
 
— Eu sou, avancei, o professor de javanês, que o senhor disse precisar. 
— Sente-se, respondeu-me o velho. O senhor é daqui, do Rio? 
— Não, sou de Canavieiras. 
— Como? fez ele. Fale um pouco alto, que sou surdo, — Sou de Canavieiras, na Bahia, insisti eu. — Onde fez os seus estudos? 
— Em São Salvador. 
— Em onde aprendeu o javanês? indagou ele, com aquela teimosia peculiar aos velhos. 
 
Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de um navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês. 
 
— E ele acreditou? E o físico? perguntou meu amigo, que até então me ouvira calado. 
— Não sou, objetei, lá muito diferente de um javanês. Estes meus cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané ¹² podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço de malaio...Tu sabes bem que, entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até godos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro. — Bem, fez o meu amigo, continua. 
— O velho, emendei eu, ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico, pareceu que me julgava de fato filho de malaio e perguntou-me com doçura: 
— Então está disposto a ensinar-me javanês? 
— A resposta saiu-me sem querer: — Pois não. 
— O senhor há de ficar admirado, aduziu o Barão de Jacuecanga, que eu, nesta idade, ainda queira aprender qualquer coisa, mas... 
— Não tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito fecundos... ? 
— O que eu quero, meu caro senhor.... 
— Castelo, adiantei eu. 
— O que eu quero, meu caro Senhor Castelo, é cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação. Fora um hindu ou siamês que lho dera, em Londres, em agradecimento a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer meu avô, chamou meu pai e lhe disse: "Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me quem mo deu que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em todo o caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a nossa raça seja feliz." Meu pai, continuou o velho barão, não acreditou muito na história; contudo, guardou o livro. Às portas da morte, ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o ¹³ a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até a esquecer-me dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas desgraças têm caído sobre a minha velhice que me lembrei do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender, se não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro, que preciso entender o javanês. Eis aí. 
 
Calou-se e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente os olhos e perguntou-me se queria ver o tal livro. Respondi-lhe que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e explicou-me que perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante. 
Veio o livro. Era um velho calhamaço, um in-quarto antigo, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava a folha do rosto e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito. 
Logo informei disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço ¹, até que afinal contratamos as condições de preço e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio antes de um ano. 
Dentro em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão diligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir e a escrever nem sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês e o Senhor Barão de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria: aprendia e desaprendia. 
 
A filha e o genro (penso que até aí nada sabiam da história do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça e julgaram a coisa boa para distraí-lo. 
Mas com o que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa Única! Ele não se cansava de repetir: “É um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah! onde estava!” 
O marido de Dona Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão), era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo. 
Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon  ¹. Como ele ouvia aquelas bobagens !... 
Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia aos seus olhos ! 
Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada. 
Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a cousa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também. 
Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá ¹ malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo ¹ . — "Qual! retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!" Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso. 
O diretor chamou os chefes de seção: "Vejam só, um homem que sabe javanês — que portento!" 
Os chefes de seção levaram-me aos oficiais e amanuenses e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam: "Então sabe javanês? É difícil? Não há quem o saiba aqui!" 
O tal amanuense, que me olhou com ódio, acudiu então: "É verdade, mas eu sei canaque. O senhor sabe?" Disse-lhe que não e fui à presença do ministro. A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, concertou o pince-nez no nariz e perguntou: "Então, sabe javanês?" Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal pai javanês. "Bem, disse-me o ministro, o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no Congresso de Linguística. Estude, leia o Hovelacque, o Max Müller, e outros!"
 
Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios. 
 
O velho barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse chegar ao neto, quando tivesse a idade conveniente e fez-me uma deixa no testamento. 
 
Pus-me com afã no estudo das línguas maleo-polinésicas; mas não havia meio! 
Bem jantado, bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assinei revistas: Revue Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English-Oceanic Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos outros: "Lá vai o sujeito que sabe javanês." Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão ¹ das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de entenderem o tal javanês. A convite da redação, escrevi, no Jornal do Comércio um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna... 
 
— Como, se tu nada sabias? interrompeu-me o atento Castro. 
— Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografias, e depois citei a mais não poder. 
— E nunca duvidaram? perguntou-me ainda o meu amigo. 
— Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas fui afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês — uf! 
 
Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que delícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na seção do tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no Mensageiro de Bâle o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas por me ter dado aquela seção; não conhecia os meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano brasileiro, me estava naturalmente indicada a seção do tupi-guarani. Aceitei as explicações e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês, para lhe mandar, conforme prometi. 
Acabado o congresso, fiz publicar extratos do artigo do Mensageiro de Bâle, em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido pelo Senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga. 
Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais e o presidente da república, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia. 
Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia. 
— É fantástico, observou Castro, agarrando o copo de cerveja. 
— Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser? 
— Que? 
— Bacteriologista eminente. Vamos? 
— Vamos.
 
 
II. GLOSSÁRIO por Francisco José dos Santos Braga


¹ Pregar partidas a (alguém ou algo) significa pregar peça, lograr, ludibriar. 
 
² Gil Blas é um narrador/protagonista de uma novela picaresca da autoria de Alain-René Lesage, publicada em 4 volumes: os 2 primeiros em 1715, o 3º em 1724 e o 4º em 1735, com o título Histoire de Gil Blas de Santillane. A obra é uma autobiografia ficcional em que Gil Blas, como pícaro clássico, é um anti-herói, um completo vagabundo cujo horizonte imediato é não trabalhar. Os únicos objetivos do herói são práticos: comer, beber, dormir e alcançar uma posição social que lhe traga conforto e prestígio. Gil Blas, quando conta suas aventuras, já é um homem experiente que narra suas personagens-tipo que representam grupos sociais. Quando Lesage descreve os tipos, lança um olhar crítico sobre os vícios e comportamentos cômicos de determinadas camadas sociais, revelando os defeitos de uma sociedade que se queria polida e refinada, mas que esconde comportamentos dignos de zombaria. 
 
³  Significa compreender, entender (do italiano "capisco, capire")
 
Significa credores, cobradores de dívidas; donde, "enterrar o cadáver" significa quitar uma dívida. 
 
Uma das atitudes do personagem no relato era escrever calungas (entidades espirituais dos bantos, associadas ao mar, à morte ou ao inferno, aqui transmutados em signos diabólicos que evocam as aventuras do misterioso príncipe Kulanga) na areia, possivelmente representados por signos pequenos, figurando os caracteres da língua malaia. 
 
Mudança ou desvio da atenção do assunto em que se está concentrado; digressão.
 
Baseado, fundamentado, alicerçado.
 
Plantas ornamentais tropicais conhecidas por suas folhas vibrantes e coloridas (verdes, amarelas, roxas e vermelhas) que dão vida a jardins e interiores. 
 
Bandó é cada uma das duas partes do cabelo que, separadas desde a testa à nuca, se enrolam ou assentam sobre os temporais. 
 
¹ Refere-se ao tabaco da primeira folha e de boa qualidade, usado como rapé que era cheirado antigamente por um personagem de aspecto nobre e respeitável, geralmente com um lenço de Alcobaça (lenço tabaqueiro), usado para limpar a secreção nasal provocada pela inalação da substância. 
 
¹¹ Enganar, ludibriar, iludir. 
 
¹² Em francês, termo usado para descrever alguém com pele bronzeada ou naturalmente escura. Pardo, mulato. 
 
¹³ Joguei-o. 
 
¹ Basco. (Figurado) linguagem obscura, ininteligível.
 
¹ Simulacro de crônicas eruditas, mas em verdade desconexas ou populares, aproveitando-se do desconhecimento do ouvinte.

¹ Em linguística, dialeto local.
 
¹ O mesmo que filipino.
 
¹ Significa uma linguagem pouco compreensível, em muitos casos por ser específica de determinado grupo profissional ou sociocultural.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

DOM PEDRO II E O CARAÇA

Por Pe. José Tobias Zico C.M. *

Transcrevemos, com a devida vênia da Editora São Vicente, o capítulo D. Pedro II e o Caraça, na III seção intitulada CARAÇA FRANCÊS (1854-1903), do livro CARAÇA: Peregrinação, Cultura e Turismo (1770-1976), 4ª edição, 1982, pp. 59-67.
"Mais velho que o Império, coevo de Tiradentes e das aspirações libertárias, o Caraça nasceu com a consciência da Nação Brasileira. Andar por seus corredores é pisar em História", disse Juarez Caldeira Brant.


 
À imitação de seu pai,  que aqui esteve, em 1831, com a Imperatriz D. Amélia  D. Pedro II e D. Teresa Cristina exigiram se incluísse no roteiro da viagem a Minas, em 1881, uma visita ao célebre Colégio do Caraça. 
 
1º - VIAGEM A MINAS ¹
 
Acompanhados de pequena comitiva, saem da Estação de São Cristóvão, às 6h da manhã, no dia 26 de março, sábado. Vão de trem até Barbacena. O resto da viagem, a cavalo. A Imperatriz, de liteira. D. Pedro viaja olhando tudo, ouvindo e interrogando e, lápis na mão, tudo anota em seu Diário "Viagem a Minas". Sua preocupação: saúde, instrução, riqueza do solo. Nas cidades e aldeias, procura ver o que há de importante. Visita o Vigário, sua igreja e biblioteca. Vai às escolas e interroga os alunos. 
 
Respiguemos algumas observações: "Duas escolas, ambas em edifícios acanhados, tendo a de meninas 103"... "as meninas não sabem a Doutrina (Cristã), apesar de ser a professora irmã do Cura"... "O aluno (em Sabará) traduziu bem o Tito-Lívio e os alunos de francês não têm má pronúncia"... "A cadeia muito ruim e o Carcereiro inválido. Os livros mal escriturados"... Elogia a ordem no escritório da Estrada de Ferro em Barbacena, mas quando a cavalo, examinando os trabalhos, anota: "A estrada parece mal estudada... Talvez alguns túneis tivessem poupado bastante despesa"... "O Secretário (da Câmara) não guarda com cuidado os padrões métricos"... "Pensam em fundar uma Casa para lázaros, mas lembrei que era melhor empregar o dinheiro no hospital geral e que, no Rio, há muito lugar para lázaros"... "O Pe. Lana não possui escravos"... "Missa dita pelo Mons. pouco antes das 5h. Partida às 6:20"... "Antes de partir entreguei diversas cartas de liberdade"... "O trem veio com velocidade de 29 a 30 km por hora e não balançava..." "Na estação (perto de Pomba), além de muitos vivas sérios, ouvi um "Viva o pataco!"... ²
 
Em São João del-Rei "visitei o Colégio do Vigário Machado onde os meninos de latim e francês responderam muito bem... A biblioteca do Vigário compõe-se de excelentes livros, revelando nele muita inteligência e seriedade de espírito, embora ultramontana. O professor de francês, Aureliano Pimentel, é bom latinista, estuda o sânscrito... e conversa muito bem... fez curto e bonito discurso". 
 
"30 (4ª feita) Partida às 6h (de Queluz-Conselheiro Lafaiete)... Varginha. Casa onde se reuniam os Inconfidentes. Vi a mesa e bancos corridos, de encosto, onde se assentavam. São de maçaranduba... Vieram encontrar-me a caminho H. Gorceix e outros. Gorceix já está um verdadeiro mineiro... Conversamos muito sobre geologia e mineralogia"... "Aproximando-me do arraial de Itatiaia vi uma papuda. Mons. José Augusto contou-me que na freguesia de Jacaré, de que fora Vigário, até as crianças nasciam de papo, a que chamam pescoço,  reparando em quem não tem "pescoço"... "Às 5 1/2 chegada a Ouro Preto, cuja vista agradou-me. Apareceu-me na imaginação como Edimburgo"... 
Muita coisa curiosa escreveu sobre a velha Capital. A fome de ver tudo o leva até ao Pico do Itacolomi, tendo D. Pedro 57 anos de idade. 
 
"31 (5ª feira) Esta manhã tomei um bom banho frio num banheiro de pedra, arranjado no fundo do Palácio. Quis ler a inscrição, mas só pude distinguir: Palmensis Comes - 1812". Visitou todas as igrejas, admirando as obras de Aleijadinho e Ataíde. "Estive na Casa da Câmara que é a melhor que tenho visto em minhas viagens. Reparei somente que não guardam com cuidado os padrões de pesos e medidas. Prometi dar uma bomba de incêndio à Municipalidade, comprometendo-se o Presidente de organizar uma companhia de bombeiros. Nunca se pensou nisto. Jantar às 5h. Conferência na Assembleia que ficou cheia... Gorceix expôs com talento as riquezas de Minas, sobretudo as de ferro, cuja quantidade ele calculou em 81 bilhões de toneladas, podendo a Província tornar-se fornecedora de aço, ao resto do mundo. Gostei de ouvir a exposição de ideias tão civilizadoras, a 80 léguas do Rio" (Pág. 77). "Li na cama os jornais do Rio até 29"... 
 
Aos 2 de abril, começa uma viagem de 15 dias, contornando a Serra do Caraça. Vai por Cachoeira do Campo, Sto. Antônio do Rio Acima, "onde diversas mulheres correram para mim e espantando-se o cavalo, caí dele"... Congonhas do Sabará (Nova Lima), Mina do Morro Velho..." "vesti-me como mineiro, com a minha vela pregada ao chapéu; descida no ascensor a 457 ms... Demorei dentro da minha hora e meia"... De Sabará desce de barca o Rio das Velhas, visitando Lagoa Santa, a casa de Lund, "o quarto onde ele morreu", e no dia seguinte "estive na gruta duas horas, tendo almoçado fora dela, debaixo das árvores". Vai a Santa Luzia e retorna a Sabará, "onde desabou uma trovoada e cheguei molhado como um pinto". Caeté, São João do Morro Grande (Barão de Cocais), Brumal, Caraça, Catas Altas, Inficionado, Mariana. Aqui passou a Semana Santa., "confessei-me a Mons. Silvério Pimenta e comunguei na Capela do Palácio"... Pouco depois das 10 h começou o ofício (de Sexta-feira Santa) e terminou pouco antes das 2. Não tenho gostado do modo como cantam aqui a Paixão. As lamentações das Trevas de ontem foram lamentáveis. Houve adoração da Cruz. O pregador, Pe. Cornagliotto, agradou-me. É padre de talento e de instrução e houve momentos em que revelou muito sentimento. Conversei com o Bispo... e com o Pe. Sípolis sobre o que tem visto nas Missões... referindo-me à existência de uma lagoa, perto de Bambuí, que enche e decresce periodicamente, assim como de chamas que se observam no mesmo distrito, ao sopé de uma montanha. Ainda à procura do inseto hippocephalus de que só existe um no Brasil na coleção de Luís de Carvalho, no Rio"... Registra o Imperador: "a conversa de Sípolis é interessante e o seu ar extremamente simpático". É que o santo e sábio missionário lhe adoçou a boca, dizendo: "esperar que o Pe. Davi venha estar aqui o tempo necessário para conhecer a Província de Minas" (pág. 103) ³
Visita a mina de Passagem de Mariana, o Arraial de Antônio Pereira, o de Ouro Podre "cujas muralhas arruinadas me lembraram Pompeia" e chega a Ouro Preto. 
 
Mas voltemos com D. Pedro ao Caraça. 
 
2º - DOM PEDRO NO CARAÇA 
 
A - ADMIRAÇÃO DE D. PEDRO 
 
"11 (2ª f.) Caeté. 5 h acordei... 6 h parto para o Caraça. Gongo-Soco, onde a forja que visitei pareceu-me de Tubalcain... Diversos cavaleiros, entre eles Afonso Pena, vieram ao meu encontro. A caravana entrou reunida em São João do Morro Grande, depois das 11 1/2. A igreja é pelo risco da de Caeté. Saint-Hilaire teve razão em falar dela... Brumado...  Aí parou meu pai"... 
 
"Desde que se começa a subir a Serra do Caraça, cresce a beleza da paisagem e do alto descobre-se vastíssimo horizonte e depois uma das mais belas cascatas que eu conheço que forma lençóis e tanques e corre em fundo vale, estreitado pelas montanhas... Nunca admirei lugar mais grandiosamente pitoresco. O caminho passa por cima da cascata que parece sumir-se de repente. Continuei por dentro da mata e por cima das pedras. Felizmente o belo luar sempre deixa ver um lugar onde se anda... perigoso para liteira... Não posso descrever tanta beleza!..." 
"Enfim, dobrando a ponta do morro, aparece, de repente, o edifício do Caraça, iluminado e de que descem pela encosta duas longas filas de luzes. Passei pela Capela que constróem e cuja arquitetura agradou-me. Tomei meio banho, depois de conversar com o Superior Clavelin e diversos professores. Jantar às 7 3/4. Informei-me dos estudos com o Superior"... "Tenho muito que fazer amanhã"... 
 
O Caraça contava, na época, com mais de 300 alunos, formando o Seminário e o Colégio. E para provar que era sério o estudo, "não houve sueto" (feriado) nem com a visita Imperial. Aulas o dia todo... "
 
12 (terça-feira) Acordei às 6 h. Fui tomar banho no rio". (A Crônica do Caraça diz assim: "Sabendo que o Imperador queria tomar banho no rio, o Superior chamou dois fâmulos que o acompanharam até à ponte, ficando discretamente à distância, enquanto S.M. se banhava." Depois: missa, ficado SS.MM. Imperiais debaixo de um dossel..." (Os cânticos espirituais foram acompanhados por feliz combinação do harmônio e rabeca"...) "Estive na biblioteca, onde achei bons livros e edições antigas... chamando minha atenção a Crônica de Eusébio de 1483. - Veneza - impressor Arnoldt Augustensis... Assisti a todas as classes. Os professores, a meu pedido, chamavam os mais adiantados... Gostei em geral do modo com que os alunos respondiam... Enquanto jantavam, fui ver a oficina do Pe. Boavida. Admirei ali o trabalho do órgão; a madeira preta das teclas é belíssima!"... 
A visita às classes terminou às 16:45. Subiu depois ao Monte Calvário, passou perto da horta "muito viçosa", foi ao caramanchão ou quiosque e admirou a poesia do Tanquinho atrás da Casa, "onde se espelhava a lua; a noite está belíssima!... vi araucárias... plantadas pelo Irmão Lourenço... Voltei de meu passeio por dentro da cozinha que não é má, menos o fogão que não é econômico"... "Chegou hoje correio do Rio, com diários até dia 8"... 
 
O Caraça reservava para a noite uma sessão solene, dentro das igreja em construção, iluminada com velas. Diz D. Pedro: "O espetáculo era muito belo. Dirigiram-me discursos em francês, Clavelin; latim e grego, um grego de Constantinopla; hebraico, Pe. Lacoste; espanhol, um empregado da Casa, ex-oficial da Cavalaria Espanhola; inglês, o professor de inglês; português, o desta língua; e italiano, um estudante que pronunciou tão mal como o de inglês; "e alemão, pelo Irmão Severino", registra ainda a "Crônica do Caraça". 
 
D. Pedro quis mostrar também sua cultura e delicadeza, cumprimentando os nove oradores e agradecendo a quase todos no idioma em que falaram. Um grupo cantou os versos de uma poesia em francês, composta pelo Pe. Superior, e ofereceu às Suas Majestades, a D. Isabel, à Igreja Católica, ao Brasil e ao Caraça. "Viva e floresça o Colégio do Caraça!...", gritou o Barão de Maceió, finalizando. "A orquestra tocou peças escolhidas, sendo elogiada por S.M. que desejou saber os nomes dos mestres e conhecê-los". D. Pedro no "Diário" registrou simplesmente: "Tocou a banda dos alunos que é sofrível". 
 
Foi objeto de muito comentário o discurso em hebraico, que D. Pedro quis ler e examinar, pois era escrito em pergaminho e estilo oriental, isto é, tinha nas extremidades duas varinhas, sobre as quais se enrolava ou desenrolava, e no texto não havia os pontos massoréticos, que são as vogais. Todos quiseram ouvir de novo a leitura e a tradução, que foi dada ao Ministro da Marinha, Lima Duarte, ex-aluno de latim do Pe. Ferreirinha, celebrado professor de Congonhas e do Caraça. 
 
B. PROTESTO DE D. PEDRO 
 
O brilho da solenidade e a diplomacia do Superior parecem ter apagado bastante o incidente da aula de Direito Canônico. É que D. Pedro, ao percorrer as aulas do Seminário Maior, depois de ouvir os alunos que eram interrogados sobre Teologia Dogmática, Moral, História, quis saber do professor de Direito o que se ensinava sobre o Placet (aprovação régia para os documentos pontifícios). Ora, o nosso Imperador devia desconfiar que tratar desta matéria, naquele momento, diante do Seminário Maior e de sua Corte, era  para usarmos a linguagem familiar  mexer em caixa de marimbondos, ou segundo um jornalista da Comitiva "um verdadeiro ferro quente, no qual não porei a mão". Era discutir assuntos que provocaram, na História do Brasil, a chamada "Questão Religiosa" (1871-1875). Os protagonistas D. Vital e D. Macedo Costa foram considerados pelos adeptos da Maçonaria e do Regalismo como bispos orgulhosos, desobedientes, ranzinzas, enquanto os católicos, fiéis a Roma, os proclamavam grandes bispos, intrépidos confessores da fé, verdadeiros mártires que não duvidaram trocar os seus Palácios de Recife e Pará por quatro anos de cadeia, na Fortaleza de São João, no Rio. 
 
Mas já que D. Pedro queria saber o que se ensinava no Caraça, era preciso dizer a verdade; foi chamado o Seminarista Rodolfo Augusto de Oliveira Pena, que começou dizendo ser falsa e contrária aos ensinamentos do Concílio Vaticano a doutrina que julgava necessário o Placet para que os atos pontifícios tivessem força de lei num país católico. Convidado a dar razões intrínsecas de tal afirmativa, continuou: "Há dois poderes, o eclesiástico e o civil, e ambos vêm de Deus; o primeiro, imediatamente de Deus. Sobre o segundo, as opiniões divergem: imediatamente ou mediante o povo. O poder eclesiástico é superior ao civil, porque tem objeto mais nobre, espiritual, sobrenatural, o bem das almas, e extensão territorial maior, pois abrange o mundo todo. O poder civil tem por objeto o bem temporal e se limita a uma nação particular. Estes dois poderes são distintos e livres na sua esfera"... 
 
Houve um silêncio que D. Pedro interrompeu, perguntando: 
"E nas questões mistas"? 
Agora, foi o professor, Pe. Chanavat, que tomou a palavra: 
"Para estas... a decisão pertence à Igreja". 
"Protesto", disse o Imperador, "como chefe do poder civil e defensor nato da Constituição Brasileira, protesto contra esta doutrina". 
"Os rostos dos Seminaristas que, até então, mostravam grande alegria pela presença de S.M., cobriram-se logo de uma expressão de profunda tristeza, manifestando assim a mágoa que lhes causara este protesto". O lente, sustentando a Doutrina Católica, quis mostrar a encíclica de Leão XIII, mas o Superior o deteve, e, com delicadeza e grande prudência, propôs se tratasse de outros assuntos. 
Mais tarde, estando os alunos no recreio, comentando naturalmente o incidente da aula, passou por eles D. Pedro com a sua comitiva. Então o professor de Direito não se conteve. Aproveitou a ocasião para, em voz alta, fazer o seu contra-protesto: "Não admito o protesto V.M... É escandaloso um Monarca católico protestar contra a Doutrina da Igreja diante de um Seminário Maior". 
D. Pedro, desgostoso diante deste contra-protesto, apenas replicou: "Eu sou mais católico que o lente. Sou católico tolerante, ao passo que o senhor é intolerante". 
Mais uma vez entrou o Pe. Clavelin... e a tempestade se desfez... 
É fácil imaginar a variedade de interpretações que deram ao fato, quer entre os habitantes do Caraça, quer entre os membros da Corte e os quatro jornalistas da Comitiva. 
Em Ouro Preto, aonde logo chegou a notícia, atingindo proporções aterradoras, o próprio Monarca se encarregou de esclarecer a verdade, dizendo: 
"Expliquei sempre ao Pe. Clavelin, que parece-me excelente pessoa, como eu ressaltava o direito, unicamente contra os abusos da autoridade eclesiástica, que não deviam ficar dependentes da única apreciação daquela" (Diário, pág. 97) 
E sobre o professor de Direito disse: 
"Pe. Chanavat é um sacerdote digno da batina que veste e da cátedra que ocupa. É um homem!" 
E lembrando-se de tudo que viu e ouviu de bom, deve ter repetido o que afirmou ao Pe. Sípolis em Mariana: 
"Estou satisfeitíssimo com o Caraça. Só o Caraça paga toda a viagem a Minas". 
E a piedosa Imperatriz podia também repetir: 
"Desculpe-nos algum incômodo, Pe. Superior. Eu teria escrúpulos de vir a Minas e não chegar até ao Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens. Hei de voltar, Pe. Superior. hei de voltar, se Deus quiser". 
 
C - GRATIDÃO DE D. PEDRO 
 
A história registrou muitas frases importantes, atribuídas ao Imperador, tão preocupado com a instrução do povo e o progresso do país. 
Uma frase retrata bem o seu espírito: "Se não fosse Imperador, gostaria de ser mestre-escola". Outra: "Estaria disposto a vender até o último brilhante da coroa para que nenhum cearense viesse a morrer de fome, por ocasião de alguma seca." 
Pois bem! Para o Caraça, a visita de D. Pedro não se limitou à célebre discussão na aula de Direito, ou à sessão solene com nove discursos em idiomas diferentes, ou algumas frases bonitas que a tradição guardou ou estão no seu "Diário". 
 
Quem visita hoje o bicentenário Colégio há de sentir a prova de gratidão do Monarca para com esta Casa de ensino, que tanto beneficiou Minas e o Brasil. Logo na sala de visitas, verá um grande quadro a óleo, com o Colégio, pousado na raiz da Serra. É a obra do pintor alemão Jorge Grimm, professor da Academia de Belas Artes. Veio ao Caraça em 1885 para cumprir a promessa que fizera D. Pedro, no adro da igreja, quando, contemplando a tarde que morria, lançava, no seu caderno, uns traços reproduzindo os contornos das serras caracenses. 
No museu, poderá admirar o retrato a óleo de S.M. assim como a bem trabalhada cama de madeira, onde dormiu nas noites de 12 e 13 de abril de 1881. 
Os pesquisadores da história gostarão de ler as seis longas páginas que escreveu sobre o Caraça, ao correr da pena, no seu "Diário": "Viagem a Minas". O turista curioso repetirá talvez, as mesmas palavras imperiais: "Não posso descrever tanta beleza!"... "passei por uma das mais belas cascatas que conheço"... "Admirei as montanhas por detrás da Casa, entre as quais a chamada Carapuça". "Entrei na Capela cuja arquitetura agradou-me"... e "vi muito bem feitos capitéis". "Estive na biblioteca onde achei bons livros e edições antigas"... etc. 
Mas quem possui o espírito gaiato descerá, alegre, a ladeira das Sampaias , para ver a célebre pedra, onde, segundo a tradição, ao deixar o Caraça, na madrugada do dia 15 de abril, ou mais precisamente, às 5:20 da manhã, Sua Majestade D. Pedro II, Imperador Constitucional do Brasil, calçado de botas e esporas... escorregou na dita pedra, nela batendo, solenemente, os assentos imperiais e reais. 
O autor deste livro, a pedido do Pe. Sarneel, registrou o fato, há vários anos, gravando na famigerada pedra, a data e as armas imperiais, que você, leitor, um dia poderá ver. 
 
Falemos agora de coisa mais séria, ou "paulo maiora canamus", diria logo um caracense. 
O visitante, ao entrar na igreja gótica, que tanto agradou ao Imperador, há de sentir, no silêncio religioso do Santuário, a elevação da alma para Deus. Mais do que as 12 colunas de granito, a sustentarem a abóbada, hão de chamar-lhe a atenção os cinco vitrais. O do meio, de 5 metros de altura, representando o Menino Jesus no Templo, entre os doutores, foi a delicada oferta de D. Pedro II. Como sinal, aos pés do Menino Deus, está gravada a Coroa Imperial, tendo abaixo o escudo do Império. 
Assim expressava D. Pedro a sua gratidão a uma "Comunidade Religiosa" que tem, como profissão, evangelizar o pobre povo do campo e formar a juventude nos colégios e Seminários, dando, frequentemente, ao país não só os grandes vultos, nacionalmente conhecidos, mas muitos outros que aprenderam no Caraça a "servir a Deus, honrando a Pátria, e servir a Pátria, honrando a Deus". 
 
A Crônica, escrita pelo seminarista, termina assim: 
"Deixaram SS.MM. 500$000 rs (quinhentos mil réis) de esmola para as obras da Capela (vitral) e 400$000 rs para os pobres dos arredores, particularmente para os de S. João". 
 
Por sua vez, o Caraça ofertou ao Imperador "uma rica pedra composta de três diferentes minerais" e o seu livro mais antigo: "Crônica de Eusébio", de 1483. Este livro se encontra hoje na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, catalogado sob o número 58, no setor dos incunábulos. Na página de rosto, lê-se a dedicatória, escrita a mão: 
"A Sa Magesté 
D. Pedro II, 
Empereur du Brésil, 
Le Collège du Caraça reconnaissant 
12 Avril 1881."
 
* Nascido em Santo Antonio do Monte/MG, em 24 de janeiro de 1921 e falecido em Belo Horizonte, em 09 de fevereiro de 2002. Trabalhou no colégio do Caraça de 1948 a 1955, quando participou da filmagem de “Caraça-Porta do Céu”, em 1949. Passou pelo Seminário Menor de Mariana em 1955, retornando depois, como Reitor, por mais dois anos (1963 e 1964). Durante os 20 anos em que esteve na direção do Caraça, desenvolveu significativo trabalho de manutenção e reconstrução da casa, tornando-a centro de peregrinação, cultura e turismo. Sua capacidade administrativa, sua alegria contagiante na acolhida dos hóspedes, sua vasta cultura e seu espírito de dedicação e de fé marcaram profundamente a vida do Caraça e seus visitantes. Seus livros tornaram mais conhecida e documentada a fama do Colégio do Caraça e as benemerências da Congregação. Seu autor aceitou, como homenagem ao Caraça, a honra de ser membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e membro também da Academia Mineira de Letras.
 
 
II. NOTAS EXPLICATIVAS
 
 
¹ Na composição deste capítulo servimo-nos dos seguintes documentos:
1) Diário de D. Pedro: apud "Anuário do Museu Imperial de Petrópolis" - Vol. XVIII-1957: "DIÁRIO DE VIAGEM DO IMPERADOR A MINAS", p. 70-118
2) Crônica do Caraça: apud "Revista do Arquivo Público Mineiro", Ano XII-1907  Belo Horizonte  Imprensa Oficial de Minas Gerais  "CARAÇA: APONTAMENTOS HISTÓRICOS E NOTAS BIOGRÁFICAS", onde o autor Pe. F. Silva, cita:
a) Uma pormenorizada "Notícia" sobre a visita de D. Pedro, escrita por um seminarista, José Cipriano, pp. 83-93
b) Duas cartas do Pe. Chanavat ao seu bispo diocesano e ao Pe. Visitador dizendo "a sua verdade" contra as más interpretações do incidente com o Imperador, na aula de Direito, pp. 94-97.
Recorremos também à "Visita Imperial", escrita por um dos padres do Caraça, em seis páginas manuscritas, ainda não publicadas.
 
² "Pataco", devido à efígie de D. Pedro, na moeda ou "pataca".
 
³ Armand David, sacerdote da Congregação da Missão, francês, grande naturalista e missionário, célebre por seus livros e pelas explorações científicas que fez na China, Turquia e África. Sabendo dos desejos do Imperador, a Cúpula da Congregação pensava em enviar o Pe. David para o Brasil. Isto só não aconteceu em 1884, porque, nas vésperas da viagem, caiu doente o grande cientista (Cf. Annales de la Congregation de la Mission - 1937 - Tome II, p. 293, e Nouveau Larousse Illustré, Tome 3e., p. 533); mais tarde, no exílio, D. Pedro escolheu o Pe. David para seu confessor; e este estava a seu lado, na hora da morte, num hotel de Paris.

"Diário", pp. 93-99, parte referente ao Caraça.

Hoje Brumal, arraial a 15 km do Caraça, com bonita igreja barroca.

Sampaias: título dado a todas as mulheres que trabalham no Caraça. Moraram muitos anos na grande casa de baixo, formando uma espécie de convento feminino, onde alegres, piedosas e trabalhadoras cuidavam de muitas coisas, sobretudo da roupa dos alunos.

LIVROS DO CARAÇA: Exposição promovida sob os auspícios da Sucursal de "O Globo" de Belo Horizonte/setembro de 1960, p. 8.
 
 
III. AGRADECIMENTO 

 
À minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação do registro fotográfico utilizado neste trabalho.
 

IV. BIBLIOGRAFIA

 
BRAGA, F. J. S.: NO CARAÇA... CRIME REAL?, post no Blog do Braga em 24/12/2024.

MEDEIROS, Benício: À SOMBRA DO CARAÇA, post no Blog de São João del-Rei em 08/01/2025.

ZICO, Pe. José Tobias: Caraça e a família imperial. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 1991, 104 p.

___________________: CARAÇA: Peregrinação, Cultura e Turismo (1770-1976), Belo Horizonte: Editora São Vicente,  4ª edição, 1982, 205 p.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

BICENTENÁRIO DE DOM PEDRO II

Por DANILO CARLOS GOMES
Crônica publicada originalmente no Correio Braziliense, edição de 02/12/2025.
 
Nesta terça-feira, 2 de dezembro, celebram-se os 200 anos de nascimento do imperador D. Pedro II, nascido na cidade do Rio de Janeiro. Governante muito culto, poeta, divulgador do progresso, da educação, do telefone, das ferrovias, da fotografia, dos avanços tecnológicos, deixou para a filha, a princesa Isabel, a assinatura da lei que extinguiu a escravidão no Brasil, um tema sociopolítico sempre polêmico. Derrubado por um golpe militar ligado ao positivismo de Augusto Comte, em 15 de novembro de 1889, o imperador e sua família foram cruelmente expulsos do Brasil. Dona Tereza Cristina morreu de desgosto, no mesmo ano, na cidade do Porto, em Portugal. Em 1891, o imperador morreu num modesto hotel, em Paris, de desgosto e pneumonia. Inumeráveis historiadores escreveram importantes obras sobre D. Pedro II; entre eles, Pedro Calmon, Hélio Vianna, José Murilo de Carvalho, Paulo Rezzutti, Mary Del Priore, Heitor Lyra, Alcindo Sodré, Alfredo d'Escragnolle Taunay, José Theodoro Menck, Lília Moritz Schwarcz, cujo livro As barbas do imperador estou lendo.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

MARCEL PROUST, POR CÉLESTE ALBARET


Neste trabalho, são apresentados trechos mais expressivos de um depoimento concedido à jornalista Sonia Nolasco-Ferreira por Céleste Albaret, secretária, governanta, enfermeira e "segunda mãe" de Marcel Proust, cobrindo os nove últimos anos da vida dele (1914-1922). Tais trechos são transcritos, com a devida vênia da L&PM Editora, do volume 1228 da COLEÇÃO 96 PÁGINAS, pp. 57-95, da referida entrevista publicada originalmente na Revista 80, no inverno de 1983.
Introdução, notas e bibliografia por Francisco José dos Santos Braga.

 

Céleste Albaret na época quando servia a Proust (✰ Lozère-França, 17/05/1891 ✞ Montfort-l'Amaury-França, 25/04/1984)
 

 I. INTRODUÇÃO

 

Céleste Albaret foi a governanta de Marcel Proust durante os últimos nove anos de sua vida, período em que ele concluiu sua obra-prima, Em Busca do Tempo Perdido. Dia e noite, ela cuidava dele. Mas, mais do que uma governanta, ela também era sua confidente e aquela que o apoiava na escrita de sua obra. 
Após a morte de Proust em 1922, Céleste Albaret recusou-se por muito tempo a compartilhar suas memórias.  
Então, aos 82 anos, ela decidiu prestar uma homenagem final ao homem que lhe dissera: "São suas lindas mãozinhas que fecharão meus olhos". Para isso, deu um depoimento a Georges Belmont que, após ouvir o depoimento de Céleste, organizou-o em temas e capítulos, publicando a obra em 1973 com o título Senhor Proust: Céleste Albaret, Lembranças Recolhidas por Georges Belmont.
Aqui não será tratado o conteúdo desse livro, mas o depoimento de Céleste Albaret à jornalista Sonia Nolasco-Ferreira publicado 10 anos depois, os quais em linhas gerais são bastante coincidentes.
Finalmente, permiti-me inventar os títulos dos temas do depoimento à jornalista e ainda colocar em forma de bloco cada um deles, independente da ordem que apareceram na entrevista, antes observando a sua sequência lógica.

II. TEXTO


Apresentação da moradia da entrevistada e de seus traços fisionômicos

P. 57: Uma casa branca, modesta. Jardim florido, árvores. Uma velha dama, 87 anos, alta, ainda elegante e ereta, sorriso doce, olhar inteligente e penetrante por trás dos óculos (...).

P. 94: Céleste não sai muito além do jardim florido. Recebe visitas da filha única, Odile. "Para ela, como M. Proust, eu buscaria a lua". Foi por causa de Odile que Céleste teve que vender cartas e documentos preciosos, lembranças de Proust: para pagar médicos e hospital, quando Odile teve um câncer e se recuperou. (...) 
Desamparada?
Parece incrível: Marcel Proust, tão rico, não deixou testamento, ele que sabia a data certa em que ia morrer, e a papelada final que ficou rolando pelo quarto, duas mesas, uma escrivaninha. O resto virou museu. Além das lembranças, que Céleste se faz gratuitamente, a servante au grand coeur ¹ (como Proust a chamava) vive de uma pensão de aposentadoria e, agora, dos direitos do livro ², que Georges Belmont faz questão de dar a ela, mas que vendeu pouco na França e menos ainda em traduções.
Céleste não reclama, acha tudo natural, como achava natural cuidar de Proust durante a noite e de madrugada. Acha que sua recompensa já foi dada, naqueles nove anos passados com Proust.
P. 57-8: Ela, Céleste Albaret, camponesa sem cultura, ocupada demais com o trabalho doméstico, nunca teve tempo para escrever o que o patrão escrevia noites adentro, naquele quarto sombrio de janelas fechadas. Ele era Marcel Proust. (...) Quando o jovem casal (Odilon e Céleste)  foi se instalar em Paris e Odilon contou a Proust que a esposa se aborrecia sozinha o dia inteiro, o patrão sugeriu que viesse trabalhar para ele, levando cartas e trazendo respostas (costume da época) e entregando em mãos exemplares autografados de seu livro recém-lançado Du côté de chez Swann ³
Em seguida veio a guerra (...). Os salões de Paris se esvaziaram, as ruas ficaram desertas. O cavalheiro extravagante quase não saía mais de casa, tinha crises de asma, escrevia sem parar a noite inteira. (...)

P. 59: "Céleste, ninguém me conhece como você", dizia Proust. "A você eu confesso, você sabe tudo de mim. São suas belas mãos que vão fechar os meus olhos."

P. 60-1: A mocinha tímida recém-chegada a Paris entra na casa do grand seigneur  misterioso. Mas não foi com sua camélia branca na lapela do terno de veludo que ele a recebeu: "Veio à cozinha me ver", conta Céleste. "Parecia bem mais jovem do que era. Bonito, sim. Magro, de porte elegante. Pele branca, transparente, e dentes extremamente brancos. Cabelos pretos, nem um fio branco até a morte. A mecha que se fazia sempre sozinha, caindo na testa. Maneiras finas, nobres, e, coisa curiosa, uma espécie de calma contida que notei outras vezes nos asmáticos, como se fosse uma forma de economizar o fôlego.  Minha impressão primeira foi de medo. Vi logo que era superior aos outros." (...)

P. 71: "O que eu conhecia da vida?", pergunta Céleste. "Depois que tinha saído da minha cidadezinha, mal houve tempo de conhecer outro mundo, a não ser a casa de M. Proust. Minha existência se confinou entre as paredes daquela casa. Era o início e o fim da minha experiência de vida. M. Proust me formou, como se faz com uma criança pequena a quem se ensina a andar, falar, ter boas maneiras, bons hábitos, escolher, aceitar, recusar, etc. Evidentemente o meu aprendizado foi de acordo com os moldes dele. Nunca me passou pela cabeça recusar levar cartas à noite pela cidade escura e deserta, ou telegramas ao único correio aberto à noite, lá perto da Bolsa de Valores. Fazia parte do meu trabalho."

P. 73-4: Durante a guerra, Paris às escuras, Céleste saía à noite para comprar livros a dois passos de casa ou levar cartas ao outro lado da cidade. Proust parecia não se lembrar que ela era mulher, nem de perguntar se teria medo. Céleste nunca pensou que seu patrão fosse extremamente egoísta. Ela nem ousava dizer que tinha medo, sim. Acabou se habituando, atravessava as ruas escuras, pegava táxis sob olhares suspeitos dos motoristas diante de uma mulher jovem sozinha; dava conta do recado. Era inestimável.
Às vezes o grand seigneur se humanizava e pedia a Céleste que fugisse para o abrigo antiaéreo assim que escutasse as sirenes de alarme. Ela se recusava (...).
Céleste conta que nunca pensava seriamente nos bombardeios.
 
P. 75: Então Proust era um tirano? Inconscientemente tirano? 
Céleste abana a cabeça, impaciente, acha que não foi entendida.

O ambiente doméstico

P. 61-2: O quarto estava envolto numa fumaça tão espessa que se poderia cortar à faca. (...) Ao acordar, M. Proust queimava um pó de fumigação, porque sofria terrivelmente de asma. O quarto era imenso, no entanto não havia um espaço vazio de fumaça. A lâmpada de cabeceira dava uma luz verde. Vi então uma grande cama de cobre, a barra de um lençol branco, cheio de luz verde. De monsieur Proust não se distinguia nada a não ser a camisa branca sob casacos de tricô de lã e o alto do corpo apoiado sobre os travesseiros. O resto estava perdido na neblina da fumigação e na sombra. De vivo, só os olhos dele, fixos em mim; eu os sentia mais do que via.

P. 63: Até que veio a famosa última viagem a Cabourg , onde Proust costumava passar o verão. Céleste se lembra dela com carinho. (...) 

P. 64: "Foi nessa viagem que começamos a conversar mais. Às vezes passeando no terraço, outras almoçando no quarto. Ele aboliu então o respeitoso madame e passou a me chamar de "Céleste". Começou a me falar do passado, da infância, dos verões em que vinha a Cabourg com a avó ou os pais para tratar da asma e, mais tarde, porque ali vinham grandes amigos de Paris (...) Quando conversávamos, ele me contava casos, imitava pessoas, me fazia imitar. Notei que a espontaneidade da minha natureza o divertia muito. Eu sabia responder em cima de cada observação, ele não ria do meu jeito de falar provinciano, me instigava a novas respostas picantes, frases da gente da Lozère, bem primitivas. Acho que meus 23 anos pesavam nisso também. E eu demonstrava claramente o quanto gostava da companhia dele."

P. 65: "Pior ainda foi o retorno a Paris, com o hotel requisitado pelos aliados. Foi dramático. Uma crise de asma pior que todas as outras justamente quando o equipamento farmacêutico estava no compartimento das bagagens. Céleste teve que chamar correndo o fiscal do trem para pedir a mala e fazer a fumigação dentro da cabine. Chegando a Paris, a situação ficou pior." (...) 
Me lembro dele sempre transpirando, sufocado, dobrado sobre a cama, a fumaça enchendo o quarto. Fiquei horrorizada, não sabia o que fazer, e ele me pedindo que fosse embora e voltasse apenas se a campainha chamasse. À noite, ele tocou. Estava deitado, a crise mais calma. Me pediu que ficasse morando na casa definitivamente. Já sabia que podia contar comigo, eu tinha passado pela prova. Concordei, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Acho que desde o início houve entre nós um grande entendimento. Estava determinado que eu ficaria. M. Proust me confessou uma coisa que também deveria estar amadurecendo há muito tempo: "Minha querida Céleste, nunca mais vou a Cabourg. Ou a qualquer outro lugar. Não viajo mais. Os soldados fazem seu dever. Como não posso lutar ao lado deles, o meu dever é escrever um livro, fazer a minha obra. O tempo passa. Não posso perdê-lo."

P. 66: "A partir dessa noite de setembro de 1914", conta Céleste, "Proust se retirou do mundo para o que seria nos próximos oito anos (e últimos de sua vida) o único motivo de viver: escrever sua obra." E Céleste também aceitou como se fosse natural. (...) O tempo ao inverso, nos menores detalhes: para limpar e arejar o quarto, só quando Proust saía, por volta das dez da noite. Céleste nunca fez uma faxina de dia, as janelas dele nunca se abriam para o sol. (...) O que não o impedia de chamá-la para o que quer que fosse, mesmo conversar. Ela vinha, os cabelos soltos em robe de chambre, e ele se encantava. "Parece a Gioconda". Na cozinha Céleste podia saber se era dia ou noite, mas o resto do apartamento imenso ficava fechado hermeticamente o dia todo. O quarto de Proust, todo forrado de placas de cortiça para abafar os barulhos da rua e a poeira, as várias cortinas fechadas, uma janela dupla através da qual não se escutava nem os bondes correndo.

P. 67: "Ou se vivia na eletricidade ou na escuridão completa", lembra Céleste. "Hoje entendo a busca de M. Proust, todo o sacrifício da sua obra: foi o de se retirar do tempo para poder reencontrá-lo. Quando não se dá conta do tempo, é o silêncio. Ele precisava desse silêncio para escutar as vozes que queria escutar novamente, as que colocou nos livros. Na época eu não sabia, mas agora, quando estou sozinha à noite e não consigo dormir, parece que o vejo aqui, do mesmo jeito que ficava no quarto dele há mais de sessenta anos, trabalhando nos cadernos pretos, sem se dar conta das horas, sozinho, dentro de sua própria noite, quando lá fora a madrugada já se fazia em dia." (...)

Contestando a incredulidade dos biógrafos de Marcel Proust quanto à sua asma

P. 61: "E foram depois escrever que ele se maquiava, que absurdo! Eu teria sabido, teria visto as coisas no quarto dele, teria sido obrigada a comprar os produtos. Eu administrava tudo naquela casa."
 
P. 67: "Que Proust era louco, que exagerava a doença, que afinal essa asma era coisa cultivada para fazer gênero... Escreveram tudo que Céleste desmente como "calúnias". Chegaram a contar que Proust inventara uma natureza frágil para chamar a atenção da mãe adorada, que teria se ocupado menos após o nascimento do segundo filho, Robert. Inventada a asma com a malícia das crianças, para monopolizar as atenções da mãe, ele continuou a farsa para se fazer de interessante, excentricidades."
"Não há provas", diz Céleste indignada. "Os biógrafos tiraram de onde, tantas análises? Tudo isso é  ridículo, para não dizer que são mentiras. Quem viu monsieur Proust como eu vi, no meio das fumigações, especialmente naquela volta terrível de Cabourg, pálido como um morto, procurando respirar com esforço, sufocado? Nada mais que isso seria suficiente para se convencer que ele não estava brincando. Como é que alguém finge que está doente por dez anos?" 
 
P. 68: Há outras 'infâmias' na lista de Céleste, sempre defensiva. Especialmente sobre o tratamento com morfina, os vícios e as drogas, a mania de suicídio. Não é que ela queira veementemente desmentir os biógrafos. Tem sua versão. Foi testemunha ocular.
 
Hábitos de Marcel Proust alterados a partir da instalação da asma
 
P. 68: E não suportava cheiros de espécie alguma, nem flores nem perfumes, tudo poderia provocar-lhe uma crise trabalhosa. A poeira, os micróbios, o ar poluído das ruas, era preciso evitar qualquer elemento que lhe atiçasse a asma. Então ele saía à noite, "quando as ruas são menos sujas", dizia. Não deixava ligar o aquecimento no inverno por causa do ressecamento que lhe provocava na garganta. Preferia permanecer no quarto gelado, cobrindo-se com camadas de casacos de lã e cobertores. No final da vida, até as cartas que recebia eram desinfetadas com formol por Céleste. (...). 
 
P. 71: "Costumo me lembrar dele estendido na cama, imóvel, olhos fechados, me fazendo sinal para não falar. E duas ou três horas depois, bem-vestido, saía para uma festa. Era capaz de ficar seis ou sete horas de pé, rir, conversar, depois voltar para casa às quatro ou cinco da manhã, e ainda me manter mais duas horas conversando, descrevendo a noitada, como se fosse um jovem de vinte anos. Eu perguntava como ele podia suportar aquela vida social, se privar do silêncio, do repouso que tanto gostava, de seu trabalho solitário à luz do abajurzinho verde, para passar tanto tempo no meio do barulho, numa atmosfera cheia de micróbios, arriscando crises de asma. Ele respondia simplesmente: "É preciso, minha cara Céleste". Eu entendia que era por causa do livro: ele precisava ver as pessoas, observar o que faziam e diziam, para as descrever. (...) 
 
Empatia emocional
 
P. 77: Nessa época ele começou a me fazer falar da minha infância, da família, de meus pais. Especialmente da infância porque, ele me disse, é na infância que tudo começa, o paraíso ou o inferno’. Ele me fazia contar como eu subia em árvores, como passava as noites de inverno no campo, meus irmãos, minha mãe. Queria saber tudo sobre minha mãe e como tinham sido nossas relações afetivas. Quando veio aquele telegrama fatal me informando a morte dela, foi M. Proust quem me abraçou chorando para contar e nós dois choramos juntos. Ele queria que eu fosse logo para casa. Disse ele: Minha querida Céleste, eu compreendo sua dor, já passei por isso. Mesmo morta, é preciso que você reveja sua mãe. Quando voltei de casa, M. Proust me fez contar tudo como se passara e chorou comigo, emocionado. Ele se lembrava do passado. (...). 
 
P. 79: Hoje, quando minha memória cansada tenta lembrar todas essas noites mágicas, chego a ver M. Proust sentado na cama, eu de pé, como ficava, nunca me passava pela cabeça que poderia sentar no sofá. Lembro a luzinha do abajur verde, o sorriso de M. Proust, os olhos de uma tristeza inexplicável (...). Ele falava, e o tempo parava naquele quarto (...). 
 
Estímulo intelectual
 
P. 79-80: Ele me perguntava o que estava esperando para escrever um diário. Da primeira vez, eu estava naquela casa há quatro anos, teria o que contar. Pensei que M. Proust estivesse debochando de mim. Mas ele dizia, Não, Céleste, minha querida, falo sério. Ninguém me conhece verdadeiramente como você. Ninguém sabe como você o que faço, o que penso dos outros, o que digo na intimidade. Depois da minha morte,  seu diário será tão vendido quanto meus livros. Comece a escrever que eu corrijo. Nessa época, ele já falava em morrer, como se soubesse.
 
O amor correspondido
 
P. 82-3: Nas gavetas da cômoda do quarto de Proust havia fotos do passado, de mocinhas ingênuas como Antoinette Faure , filha do presidente da França, de Marie de Benardaky  (teria sido o primeiro amor de Proust, segundo biógrafos), Louisa de Mornand , mulheres de salonnières  como a condessa de Chevigné ¹, madame Strauss ¹¹ (grande amiga), Laure Hayman ¹², e muitas outras. (...)
No livro de Céleste ¹³ há um capítulo curioso que se chama "Os Outros Amores". Depois de tudo o que se escreveu sobre a juventude de Proust, que ele teria conhecido apenas decepções amorosas, e que isso o teria feito se voltar para o amor masculino, Céleste insiste em que contou a Gerges Belmont apenas o que sabia da vida do seu patrão, ‘O que vi ou o que compreendi. Não conto o que ouvi dizer’. O que teria ela a dizer sobre o outro lado da vida de Marcel Proust, o lado negro de casas de prostituição masculina? Quase nada, apenas desmentidos. Mas até que ponto Céleste poderia afirmar que é mentira? Proust era muito reservado e pudico para fazer confidências a uma empregada, ainda mais uma camponesa jovem, cheia de princípios religiosos, recatos, e sem cultura, apesar de inteligente. O que saberia ela sobre homossexualismo?

P. 83-6: Segundo André Gide, que escutou confissões de Proust, ele tinha vergonha de ser homossexual, mas sabia e admitia que era. 
Céleste nega a paixão de Proust pelo motorista Alfred Agostinelli, que teria sido modelo para "Albertine" *, ainda que o escritor tenha falado longamente da angústia que sentiu com a morte do jovem, num desastre de avião em 1914, e da vontade que ele próprio teve de morrer. Para o bom entendedor, isso foi suficiente. Mas Céleste insiste na sensibilidade exagerada de seu patrão, no horror que tinha de ver alguém muito querido morrer. 
E que história é essa de jovens frequentando nossa casa?, pergunta Céleste. Eu teria sabido, eu os teria visto. Só eu tinha a chave da porta. Se entrassem com M. Proust, eu os teria escutado, tenho orelhas finas. (...) 
Falou-se muito nos secretários de M. Proust, sempre jovens secretários. Não sei explicar essa parte. Acho que era porque tinha respeito pelas mulheres. Seu pudor de doente, sempre na cama. Os secretários vinham datilografar os textos dos livros e faziam este trabalho, é tudo que sei. Eu os escutava, vinha ao quarto servir chá. (...)
Falou-se mais de rapazes do que de mulheres na vida íntima de Proust, Agostinelli, motorista de táxi da mesma companhia de Odilon, passou a secretário de Proust, depois partiu para a Côte d'Azur a pedido de sua mulher, Anna; um ano após desapareceu no mar o avião que pilotava. É tudo o que Céleste sabe. O que foi explorado em torno deste assunto ela considera "literatura barata, sensacionalista", assim como a história da amizade de Proust com Albert Le Cuziat, que mantinha a famosa casa plaisirs pour hommes. (...)
E por que ia frequentemente a uma casa que o enojava?
Ele não ia sempre, foi lá algumas vezes. Precisava ir, ele me disse, para descrever personalidades e momentos em seus livros. M. Proust me dava todos os nomes de pessoas ilustres que frequentavam essa casa, os gostos extravagantes que tinham, gente de política, da mais importante do país, ministros, etc. Le Cuziat fornecia a M. Proust todos os detalhes dos vícios de cada um; eu ficava sabendo quando ele chegava em casa, com um olhar de tristeza, que ele havia estado naquele lugar. Posso assegurar que M. Proust não frequentava a tal casa. Eu teria sabido, ou Odilon, que o acompanhava, teria me contado. O que me revolta são os fatos escabrosos que contaram sobre M. Proust em vários livros, tendo como quadro a casa da rue de l'Arcade. Histórias de ratos transpassados com alfinetes, cenas de flagelaçao, orgias sádicas, e que M. Proust teria mostrado as fotos da mãe dele para fazer rir os piores frequentadores desse horror. É uma mostruosidade, diz Céleste.
As fotos da família eram guardadas com o maior carinho nas gavetas do quarto de M. Proust e nunca saíam de lá. (...) Uma vez me recusei a acreditar que coisas tão repugnantes pudessem acontecer na casa de Le Cuziat. Perguntei se M. Proust não estaria inventando para ver minha reação, para saber o que as pessoas pensariam. Ele jurou que tudo era verdade. Mas como o senhor pode assistir a coisas assim?’, indagou Céleste.
Céleste garante que Proust só ia à casa de Le Cuziat ao reinado dos garçons bouchers porque precisava das cenas para seus livros. Era o que ele contava a ela quando chegava. (...)
É preciso ter vivido ao lado de monsieur Proust todos esses anos para medir a paixão dele pelos personagens que criava, por sua obra, tudo o que habitava dentro dele, e que finalmente o consumiu, disse Céleste, sem se deixar abater com a importância dos nomes ilustres que a desmentiam. No correr dos anos aprendi que esses personagens não o largavam, estavam sempre ao lado dele, que a única meta da vida de M. Proust, o livro *, estava constantemente presente em tudo que ele fazia. Quando digo livro, no singular, é porque ele, mesmo que estivesse em tal capítulo, tal parte, particularmente, guardava presente a totalidade da obra. M. Proust me disse isso várias vezes. Só  entendi quando li, muitos anos depois. Tudo se liga em sua obra, é um todo, e a vida de M. Proust se fundia no todo, os personagens viviam sem sua cabeça, era por causa deles que M. Proust saía de casa, para descrever aquele mundo que ia se acabando. Vivi ao lado dele no período mais produtivo de sua vida, sem dúvida’, concluiu Céleste.
 
P. 95: Impossível fazer Céleste acreditar que esteve apaixonada por Marcel Proust, esta é a verdade. Ela conta que certa vez perguntou a Proust porque ele não se casara. A resposta foi um divertido, mas em tom sério: "Porque não encontrei uma esposa como você, minha Céleste." De outra vez, Proust disse que para ele Céleste ocupava o lugar de mãe. Ela também acha que o considerava e o tratava como um filho favorito. No entanto aceitava dele a liderança de marido, como se usava na época, o senhor absoluto da casa, a força e a sabedoria. Mas Céleste não admitirá nunca que Marcel Proust foi um grande amor platônico. Diante das especulações, ela abana a cabeça, severa, acrescentando: "Ah, os jornalistas. Só Deus sabe o que vocês escrevem com o que a gente diz. M. Proust não gostava de jornalistas. E tinha toda a razão."

A morte como ideia fixa
 
P. 89-90: Proust já pensava na morte nesses últimos anos. Céleste acha que isso começou quando teve que deixar a casa dos pais, depois da morte da mãe, e piorou com a saída do velho apartamento no Boulevard Haussmann. Foi uma espécie de déracinement que o machucou profundamente. Proust passou por dois outros apartamentos, até achar o da rue Hamelin, onde terminou seus dias. Mudar de casa, arrancsar as coisas pela raiz, perder pessoas que amava, perder aquele mundo antes da guerra, a época dourada da camélia na lapela. Essas pequenas perdas eram como pedaços dele que iam embora, devagar. Proust sabia que estava indo também, pela raiz, aos poucos. (...)
Ao mesmo tempo, Proust falava do fim da vida, é o que Céleste se lembrava, palavra por palavra:
"A morte me persegue, Céleste, está aqui, nos meus calcanhares."
Foi um dia de festa quando Proust chamou Céleste para mostrar-lhe que tinha escrito a palavra fim no manuscrito. Dezenas de pedacinhos de papel enchiam as cobertas.
Ele parecia uma criança feliz. Me disse: Veja, tenho uma grande notícia para você: esta noite escrevi a palavra fim. Agora já posso morrer.
"Ele não estava triste. Nem alegre. Nos olhos, uma espécie de felicidade misteriosa, um jeito de quem sabe das coisas e não pode contar."

P. 90-1: Sobre os três meses que precederam a morte de M. Proust, inventaram todos os romances possíveis. (...) Eu estaava ao lado dele e posso jurar que foi assim: Porque o aquecimento e a lareira não podiam ser ligados para não expelirem poeira, o quarto de Proust ficava sempre gelado. Foi por causa desse frio no qual ele trabalhava horas e horas, imóvel na cama, cheio de cobertores e casaquinhos de tricô, bolsas de água quente, que, no outono de 1922, apanhou a gripe fatal.  As crises de asma redobraram, ele respirava mal e não se deixava cuidar. Teve pneumonia e abscesso no pulmão. Mas continuou a trabalhar, se recusando a comer. Só tomava café com leite, às vezes.

P. 91-2: Nessa noite de 17 para 18 de novembro monsieur Proust me chamou e pediu que me sentasse a seu lado para ajudá-lo. Não conseguia escrever mais, ia me ditar alguns trechos. E escreveu até as três e meia, lembro muito bem os ponteiros do relógio enquanto M. Proust enchia os cadernos com sua letrinha fina, já tremida e desigual. (...) Me fez prometer várias vezes que eu colaria as tiras de papel extra das correções nos lugares certos, que não deixaria ninguém lhe dar injeções quando ele não tivesse mais forças para se defender. (...)
De manhã cedo, eram 8 horas quando voltei ao quarto e M. Proust me disse fracamente: Céleste, estou vendo uma mulher enorme, gorda, imensa, toda de preto, horrível. Aqui dentro do quarto. Deixe a lâmpada de cabeceira acesa, quero vê-la melhor." (...) Cada vez que M. Proust me falava da morte dizia que não tinha medo. Aliás, o mais terrível dessa agonia é que até o último momento ele guardou os sentidos, a lucidez. Não só ele se via morrer, mas se olhava morrer. E ainda assim encontrava forças para sorrir e falar, como se nada fosse.
Às quatro e meia da tarde a agonia acabou. (...) Eu tombava de cansaço e de dor, mas não podia acreditar. Ele se deixava morrer tão nobremente, sem tremer, sem gritar, sem que a luz da vida tivesse deixado seus olhos, que nos fixaram até o fim e ficaram abertos. Ele nunca disse "mamãe" antes de morrer, como inventaram nas biografias, sem dúvida pelo prazer de fazerem literatura. Apagou-se docemente, nos olhando. Foi o irmão quem fechou-lhe os olhos. Eu estava paralisada de dor.

P. 93: Depois do enterro, Céleste e Marie Albaret continuaram no apartamento durante mais seis meses. Céleste confessa que várias vezes desejou morrer, sumir dali.
Até que um dia aconteceu uma coisa extraordinária. Eu tinha descido para terminar os arranjos de nossa partida daquela casa tão triste quando vi a vitrine da livraria próxima, onde eu tanto ia fazer compras. Ela brilhava de luz. E entre os livros vi expostas as obras de M. Proust, três a três. Era como naquela página do livro quando ele descreve a morte do romancista Bergotte ¹. Veja o trecho:
‘Enterraram-no. Mas à noite do funeral, nas vitrines iluminadas, os livros dispostos, três a três, velavam como anjos de asas sorridentes, e pareciam, para aquele que não estava mais aqui, um símbolo de ressurreição.
Para mim M. Proust revivia também.
Na pequena casa branca as duas courrières ¹ vivem dessas lembranças. Nunca mais nada de tão extraordinário lhes aconteceu.
‘Fui me retirando aos poucos para dentro da memória’, diz Céleste. ‘É lá que eu vivo.
 
 
III. NOTAS EXPLICATIVAS
 
 
¹ Citação do título de um dos famosos poemas de As Flores do Mal por Charles Baudelaire. Uma tradução plausível é "ama bondosa".
 
² Trata-se do livro Monsieur Proust: Céleste Albaret, souvenirs recueillis par Georges Belmont (1973) ou, em português, Senhor Proust: Céleste Albaret, Lembranças Recolhidas por Georges Belmont (2008), Osasco: Ed. Novo Mundo, tradução de Cordélia Magalhães, 446 p.
Pouco antes, o Ministro Jean-Philippe Lecat a havia condecorado com a Ordem das Artes e das Letras, no grau de comendadora. Isso porque essa mulher discreta havia se tornado repentinamente famosa desde que, em 1973, concordou em se abrir com Georges Belmont e lhe contar, em detalhes, os nove anos em que, como governanta, esteve dia e noite, até a morte dele, a serviço do autor de "Em Busca do Tempo Perdido".

³ No Caminho de Swann (1913) é o primeiro dos sete romances de que se compõe Em Busca do Tempo Perdido, o monumento literário proustiano de cunho autobiográfico. No Caminho de Swann relata a infância do narrador (Marcel) e mostra a forte relação afetiva que ele mantém com sua mãe. A casa da família possui duas saídas, uma para o caminho de Swann, outra para o caminho de Guermantes. O narrador fala do amor possessivo de seu vizinho burguês Charles Swann por Odette de Crécy. E também revela a fascinação que sente pela filha desse casal, a jovem Gilberte, com quem brinca nos Champs-Elysées.
 
Homem de elevada posição social. 

A elegante Cabourg inspirou a Balbec proustiana de Em Busca do Tempo Perdido, um símbolo inequívoco da Belle Époque. A Balbec proustiana, que na verdade se situa na Normandia, é uma cidade fictícia, cujo paralelo no mundo real é Cabourg, essa jóia da Belle Époque.

Quando adolescente, Marcel Proust preencheu um questionário que lhe foi dado por sua amiga Antoinette Faure, filha de Félix Faure, futuro presidente da França, e que entrou para a história como o "questionário de Proust". O manuscrito foi encontrado em 1924 e, desde então, popularizou-se como uma forma de entrevista-padrão sobre auto-conhecimento, já que as perguntas formam um espectro completo da personalidade, aspirações pessoais e sensibilidade.
 
Marie de Benardaky (1874-1949) se tornou célebre por ter sido um amor de infância de Marcel Proust e o provável modelo  da personagem Gilberte, filha de Charles Swann e Odette de Crécy de No Caminho de Swann, 1º livro da obra Em Busca do Tempo Perdido.

Louisa de Mornand (1884-1963) foi uma atriz de teatro e do cinema francês da primeira metade do século XX. Era amiga de Marcel Proust, ao ponto de inspirar-lhe a personagem de Rachel in Em Busca do Tempo Perdido.

Salonnières eram mulheres que organizavam os salões, reuniões culturais e intelectuais. Eram as anfitriãs influentes que definiam o tom, escolhiam os temas, eram facilitadoras do diálogo e selecionavam os convidados para discussões sobre filosofia, literatura e arte, dentre outros assuntos.

¹ Laure Marie Charlotte de Sade, por seu matrimônio condessa de Chevigné (1859-1936), é considerada o principal molde na construção da personagem Oriane, a espirituosa Duquesa de Guermantes de Em Busca do Tempo Perdido, um dos monumentos do romance ocidental. De fins do século XIX até 1914, abriu inúmeros salões que eram frequentados por inúmeras personalidades do momento.
 
¹¹ Madame Strauss (1849-1926), filha do compositor francês Halevy, foi esposa do compositor Georges Bizet e mãe de um dos colegas de Proust quando de sua passagem pelo Liceu Condorcet. Em 1908, ela, já viúva, presenteou M. Proust com cinco cadernetas para anotações, adquiridas na chique loja inglesa Kirby, Beard & Cia. em Paris. Em quatro delas, Proust deixou os primeiros esboços de Em Busca do Tempo Perdido. As quatro, que estão em posse da Biblioteca Nacional da França, juntamente com os cadernos de rascunho e versão final, constituem o melhor testemunho dos primeiros passos hesitantes da obra, em seguida, de sua ampliação. Essas cadernetas acompanharam Proust na criação da sua obra prima. O livro "Carnets" (2002) publicado pela Gallimard reúne todas essas anotações feitas entre 1908 a 1917. Contém notas tanto preparatórias quanto complementares para o conjunto do romance em construção. Florence Callu e Antoine Compagnon dão uma transcrição integral e anotada delas, ao mesmo tempo fiel e legível, que permitirá ao amante da obra prima descobrir o ateliê do romancista.

¹² Laure Hayman (1851-1940) foi uma escultora francesa, salonnière e semimundana. No romance Em Busca do Tempo Perdido, a personagem Odette de Crécy teria sido inspirada em Hayman. Afirma-se também que ela inspirou Proust a escrever Mademoiselle Sacripant.

¹³ Céleste refere-se ao livro Senhor Proust: Céleste Albaret, Lembranças Recolhidas por Georges Belmont (1973), conforme tradução em português.

¹ Bergotte é um renomado escritor fictício que é admirado profundamente pelo narrador de Em Busca do Tempo Perdido, e sua morte é um momento icônico do romance, representando a ressurreição através de suas obras, que, mesmo após a morte de seu autor, continuam a existir e a inspirar o narrador, simbolizando que o artista e sua obra podem transcender a existência física. A cena da morte de Bergotte, enquanto ele viaja para ver o quadro "Vista de Delft" de Vermeer, é uma das passagens mais famosas da obra, explorando temas como a arte, a vida e a morte. 
É provável que os escritores Anatole France e Paul Bourget tenham inspirado o personagem.
 
¹Trad. estafetas ou carteiras, mulheres que entregam correspondências.


IV. BIBLIOGRAFIA


ARCHIVE.ORG: Monsieur Proust de Céleste Albarret
 
CARVALHO, Paulo César de:  Quarto por quarto, revista SIBILA de poesia e cultura, ano 24, 30/12/2020 
 
O EXPLORADORCeleste Albaret, secretária; ajudou Proust nos últimos anos

PROUST, Marcel: SOBRE A LEITURA, Porto Alegre: L&PM Editora, volume 1228 da COLEÇÃO 96 PÁGINAS, pp. 57-95

RADIOFRANCE: Céleste Albaret, indispensable gouvernante de Marcel Proust
 
WERNECK, Mariza: A governanta fiel
 
WIKIPEDIA: verbete Marcel Proust
 
 
___________: verbete Céleste Albaret 

–––––––––––: verbete Em Busca do Tempo Perdido