domingo, 7 de dezembro de 2025

O HOMEM QUE SABIA JAVANÊS

Por LIMA BARRETO 

Transcrevemos o conto referenciado publicado pela  Gazeta da Tarde, Rio, edição de 28 de abril de 1911.
Glossário pelo gerente do Blog.

Livro em javanês - Crédito: https://paginadoricardo.wordpress.com/2020/04/04/resumo-o-homem-que-sabia-javanes-lima-barreto/

 

Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia pregado ¹ às convicções e às respeitabilidades, para poder viver. 
Houve mesmo, uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso. 
O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido ², até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo: 
 
— Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo ! 
— Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho aguentado lá, no consulado ! 
— Cansa-se; mas, não é disso que me admiro. O que me admira, é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático. 
— Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês! 
— Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado? 
— Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso. 
— Conta lá como foi. Bebes mais cerveja? 
— Bebo. 
Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei: 
— Eu tinha chegado havia pouco ao Rio estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anúncio seguinte: 
 
"Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas, etc." Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse ³ quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os "cadáveres" . Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e a língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo maleo-polinésico, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu. 
A Encyclopédie dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras. Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas  na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los. 
À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu "a-b-c" malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente. Convenci-me que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos: 
— Senhor Castelo, quando salda a sua conta? 
Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança: 
— Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor de javanês, e... 
Por aí o homem interrompeu-me: 
— Que diabo vem a ser isso, Senhor Castelo? 
Gostei da diversão  e ataquei o patriotismo do homem: 
— É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é? 
 
Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses: 
— Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, Senhor Castelo? 
 
Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar. 
Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à Rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que número. É preciso não te esqueceres que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder "como está o senhor?"  e duas ou três regras de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico. 
Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei, para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil  podes ficar certo  aprender o javanês... Fui a pé. Cheguei suadíssimo; e, com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza... 
 
Era uma casa enorme que parecia estar deserta; estava mal tratada, mas não sei porque me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que não era pintada. As paredes descascavam e os beirais do telhado, daquelas telhas vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras decadentes ou mal cuidadas. 
Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias. Os crótons  continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças. Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas barbas e cabelo de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice, doçura e sofrimento. 
Na sala, havia uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces perfis de senhoras, em bandós , com grandes leques, pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão; mas, daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antiguidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China ou da Índia, como se diz. Aquela pureza da louça, a sua fragilidade, a ingenuidade do desenho e aquele seu fosco brilho de luar, diziam-me a mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos olhos fatigados dos velhos desiludidos... 
Esperei um instante o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com o lenço de alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simonte de antanho ¹, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar ¹¹ aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei. 
 
— Eu sou, avancei, o professor de javanês, que o senhor disse precisar. 
— Sente-se, respondeu-me o velho. O senhor é daqui, do Rio? 
— Não, sou de Canavieiras. 
— Como? fez ele. Fale um pouco alto, que sou surdo, — Sou de Canavieiras, na Bahia, insisti eu. — Onde fez os seus estudos? 
— Em São Salvador. 
— Em onde aprendeu o javanês? indagou ele, com aquela teimosia peculiar aos velhos. 
 
Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de um navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês. 
 
— E ele acreditou? E o físico? perguntou meu amigo, que até então me ouvira calado. 
— Não sou, objetei, lá muito diferente de um javanês. Estes meus cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané ¹² podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço de malaio...Tu sabes bem que, entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até godos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro. — Bem, fez o meu amigo, continua. 
— O velho, emendei eu, ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico, pareceu que me julgava de fato filho de malaio e perguntou-me com doçura: 
— Então está disposto a ensinar-me javanês? 
— A resposta saiu-me sem querer: — Pois não. 
— O senhor há de ficar admirado, aduziu o Barão de Jacuecanga, que eu, nesta idade, ainda queira aprender qualquer coisa, mas... 
— Não tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito fecundos... ? 
— O que eu quero, meu caro senhor.... 
— Castelo, adiantei eu. 
— O que eu quero, meu caro Senhor Castelo, é cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação. Fora um hindu ou siamês que lho dera, em Londres, em agradecimento a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer meu avô, chamou meu pai e lhe disse: "Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me quem mo deu que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em todo o caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a nossa raça seja feliz." Meu pai, continuou o velho barão, não acreditou muito na história; contudo, guardou o livro. Às portas da morte, ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o ¹³ a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até a esquecer-me dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas desgraças têm caído sobre a minha velhice que me lembrei do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender, se não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro, que preciso entender o javanês. Eis aí. 
 
Calou-se e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente os olhos e perguntou-me se queria ver o tal livro. Respondi-lhe que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e explicou-me que perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante. 
Veio o livro. Era um velho calhamaço, um in-quarto antigo, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava a folha do rosto e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito. 
Logo informei disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço ¹, até que afinal contratamos as condições de preço e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio antes de um ano. 
Dentro em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão diligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir e a escrever nem sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês e o Senhor Barão de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria: aprendia e desaprendia. 
 
A filha e o genro (penso que até aí nada sabiam da história do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça e julgaram a coisa boa para distraí-lo. 
Mas com o que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa Única! Ele não se cansava de repetir: “É um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah! onde estava!” 
O marido de Dona Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão), era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo. 
Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon  ¹. Como ele ouvia aquelas bobagens !... 
Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia aos seus olhos ! 
Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada. 
Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a cousa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também. 
Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá ¹ malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo ¹ . — "Qual! retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!" Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso. 
O diretor chamou os chefes de seção: "Vejam só, um homem que sabe javanês — que portento!" 
Os chefes de seção levaram-me aos oficiais e amanuenses e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam: "Então sabe javanês? É difícil? Não há quem o saiba aqui!" 
O tal amanuense, que me olhou com ódio, acudiu então: "É verdade, mas eu sei canaque. O senhor sabe?" Disse-lhe que não e fui à presença do ministro. A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, concertou o pince-nez no nariz e perguntou: "Então, sabe javanês?" Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal pai javanês. "Bem, disse-me o ministro, o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no Congresso de Linguística. Estude, leia o Hovelacque, o Max Müller, e outros!"
 
Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios. 
 
O velho barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse chegar ao neto, quando tivesse a idade conveniente e fez-me uma deixa no testamento. 
 
Pus-me com afã no estudo das línguas maleo-polinésicas; mas não havia meio! 
Bem jantado, bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assinei revistas: Revue Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English-Oceanic Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos outros: "Lá vai o sujeito que sabe javanês." Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão ¹ das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de entenderem o tal javanês. A convite da redação, escrevi, no Jornal do Comércio um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna... 
 
— Como, se tu nada sabias? interrompeu-me o atento Castro. 
— Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografias, e depois citei a mais não poder. 
— E nunca duvidaram? perguntou-me ainda o meu amigo. 
— Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas fui afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês — uf! 
 
Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que delícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na seção do tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no Mensageiro de Bâle o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas por me ter dado aquela seção; não conhecia os meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano brasileiro, me estava naturalmente indicada a seção do tupi-guarani. Aceitei as explicações e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês, para lhe mandar, conforme prometi. 
Acabado o congresso, fiz publicar extratos do artigo do Mensageiro de Bâle, em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido pelo Senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga. 
Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais e o presidente da república, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia. 
Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia. 
— É fantástico, observou Castro, agarrando o copo de cerveja. 
— Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser? 
— Que? 
— Bacteriologista eminente. Vamos? 
— Vamos.
 
 
II. GLOSSÁRIO por Francisco José dos Santos Braga


¹ Pregar partidas a (alguém ou algo) significa pregar peça, lograr, ludibriar. 
 
² Gil Blas é um narrador/protagonista de uma novela picaresca da autoria de Alain-René Lesage, publicada em 4 volumes: os 2 primeiros em 1715, o 3º em 1724 e o 4º em 1735, com o título Histoire de Gil Blas de Santillane. A obra é uma autobiografia ficcional em que Gil Blas, como pícaro clássico, é um anti-herói, um completo vagabundo cujo horizonte imediato é não trabalhar. Os únicos objetivos do herói são práticos: comer, beber, dormir e alcançar uma posição social que lhe traga conforto e prestígio. Gil Blas, quando conta suas aventuras, já é um homem experiente que narra suas personagens-tipo que representam grupos sociais. Quando Lesage descreve os tipos, lança um olhar crítico sobre os vícios e comportamentos cômicos de determinadas camadas sociais, revelando os defeitos de uma sociedade que se queria polida e refinada, mas que esconde comportamentos dignos de zombaria. 
 
³  Significa compreender, entender (do italiano "capisco, capire")
 
Significa credores, cobradores de dívidas; donde, "enterrar o cadáver" significa quitar uma dívida. 
 
Uma das atitudes do personagem no relato era escrever calungas (entidades espirituais dos bantos, associadas ao mar, à morte ou ao inferno, aqui transmutados em signos diabólicos que evocam as aventuras do misterioso príncipe Kulanga) na areia, possivelmente representados por signos pequenos, figurando os caracteres da língua malaia. 
 
Mudança ou desvio da atenção do assunto em que se está concentrado; digressão.
 
Baseado, fundamentado, alicerçado.
 
Plantas ornamentais tropicais conhecidas por suas folhas vibrantes e coloridas (verdes, amarelas, roxas e vermelhas) que dão vida a jardins e interiores. 
 
Bandó é cada uma das duas partes do cabelo que, separadas desde a testa à nuca, se enrolam ou assentam sobre os temporais. 
 
¹ Refere-se ao tabaco da primeira folha e de boa qualidade, usado como rapé que era cheirado antigamente por um personagem de aspecto nobre e respeitável, geralmente com um lenço de Alcobaça (lenço tabaqueiro), usado para limpar a secreção nasal provocada pela inalação da substância. 
 
¹¹ Enganar, ludibriar, iludir. 
 
¹² Em francês, termo usado para descrever alguém com pele bronzeada ou naturalmente escura. Pardo, mulato. 
 
¹³ Joguei-o. 
 
¹ Basco. (Figurado) linguagem obscura, ininteligível.
 
¹ Simulacro de crônicas eruditas, mas em verdade desconexas ou populares, aproveitando-se do desconhecimento do ouvinte.

¹ Em linguística, dialeto local.
 
¹ O mesmo que filipino.
 
¹ Significa uma linguagem pouco compreensível, em muitos casos por ser específica de determinado grupo profissional ou sociocultural.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

DOM PEDRO II E O CARAÇA

Por Pe. José Tobias Zico C.M. *

Transcrevemos, com a devida vênia da Editora São Vicente, o capítulo D. Pedro II e o Caraça, na III seção intitulada CARAÇA FRANCÊS (1854-1903), do livro CARAÇA: Peregrinação, Cultura e Turismo (1770-1976), 4ª edição, 1982, pp. 59-67.
"Mais velho que o Império, coevo de Tiradentes e das aspirações libertárias, o Caraça nasceu com a consciência da Nação Brasileira. Andar por seus corredores é pisar em História", disse Juarez Caldeira Brant.


 
À imitação de seu pai,  que aqui esteve, em 1831, com a Imperatriz D. Amélia  D. Pedro II e D. Teresa Cristina exigiram se incluísse no roteiro da viagem a Minas, em 1881, uma visita ao célebre Colégio do Caraça. 
 
1º - VIAGEM A MINAS ¹
 
Acompanhados de pequena comitiva, saem da Estação de São Cristóvão, às 6h da manhã, no dia 26 de março, sábado. Vão de trem até Barbacena. O resto da viagem, a cavalo. A Imperatriz, de liteira. D. Pedro viaja olhando tudo, ouvindo e interrogando e, lápis na mão, tudo anota em seu Diário "Viagem a Minas". Sua preocupação: saúde, instrução, riqueza do solo. Nas cidades e aldeias, procura ver o que há de importante. Visita o Vigário, sua igreja e biblioteca. Vai às escolas e interroga os alunos. 
 
Respiguemos algumas observações: "Duas escolas, ambas em edifícios acanhados, tendo a de meninas 103"... "as meninas não sabem a Doutrina (Cristã), apesar de ser a professora irmã do Cura"... "O aluno (em Sabará) traduziu bem o Tito-Lívio e os alunos de francês não têm má pronúncia"... "A cadeia muito ruim e o Carcereiro inválido. Os livros mal escriturados"... Elogia a ordem no escritório da Estrada de Ferro em Barbacena, mas quando a cavalo, examinando os trabalhos, anota: "A estrada parece mal estudada... Talvez alguns túneis tivessem poupado bastante despesa"... "O Secretário (da Câmara) não guarda com cuidado os padrões métricos"... "Pensam em fundar uma Casa para lázaros, mas lembrei que era melhor empregar o dinheiro no hospital geral e que, no Rio, há muito lugar para lázaros"... "O Pe. Lana não possui escravos"... "Missa dita pelo Mons. pouco antes das 5h. Partida às 6:20"... "Antes de partir entreguei diversas cartas de liberdade"... "O trem veio com velocidade de 29 a 30 km por hora e não balançava..." "Na estação (perto de Pomba), além de muitos vivas sérios, ouvi um "Viva o pataco!"... ²
 
Em São João del-Rei "visitei o Colégio do Vigário Machado onde os meninos de latim e francês responderam muito bem... A biblioteca do Vigário compõe-se de excelentes livros, revelando nele muita inteligência e seriedade de espírito, embora ultramontana. O professor de francês, Aureliano Pimentel, é bom latinista, estuda o sânscrito... e conversa muito bem... fez curto e bonito discurso". 
 
"30 (4ª feita) Partida às 6h (de Queluz-Conselheiro Lafaiete)... Varginha. Casa onde se reuniam os Inconfidentes. Vi a mesa e bancos corridos, de encosto, onde se assentavam. São de maçaranduba... Vieram encontrar-me a caminho H. Gorceix e outros. Gorceix já está um verdadeiro mineiro... Conversamos muito sobre geologia e mineralogia"... "Aproximando-me do arraial de Itatiaia vi uma papuda. Mons. José Augusto contou-me que na freguesia de Jacaré, de que fora Vigário, até as crianças nasciam de papo, a que chamam pescoço,  reparando em quem não tem "pescoço"... "Às 5 1/2 chegada a Ouro Preto, cuja vista agradou-me. Apareceu-me na imaginação como Edimburgo"... 
Muita coisa curiosa escreveu sobre a velha Capital. A fome de ver tudo o leva até ao Pico do Itacolomi, tendo D. Pedro 57 anos de idade. 
 
"31 (5ª feira) Esta manhã tomei um bom banho frio num banheiro de pedra, arranjado no fundo do Palácio. Quis ler a inscrição, mas só pude distinguir: Palmensis Comes - 1812". Visitou todas as igrejas, admirando as obras de Aleijadinho e Ataíde. "Estive na Casa da Câmara que é a melhor que tenho visto em minhas viagens. Reparei somente que não guardam com cuidado os padrões de pesos e medidas. Prometi dar uma bomba de incêndio à Municipalidade, comprometendo-se o Presidente de organizar uma companhia de bombeiros. Nunca se pensou nisto. Jantar às 5h. Conferência na Assembleia que ficou cheia... Gorceix expôs com talento as riquezas de Minas, sobretudo as de ferro, cuja quantidade ele calculou em 81 bilhões de toneladas, podendo a Província tornar-se fornecedora de aço, ao resto do mundo. Gostei de ouvir a exposição de ideias tão civilizadoras, a 80 léguas do Rio" (Pág. 77). "Li na cama os jornais do Rio até 29"... 
 
Aos 2 de abril, começa uma viagem de 15 dias, contornando a Serra do Caraça. Vai por Cachoeira do Campo, Sto. Antônio do Rio Acima, "onde diversas mulheres correram para mim e espantando-se o cavalo, caí dele"... Congonhas do Sabará (Nova Lima), Mina do Morro Velho..." "vesti-me como mineiro, com a minha vela pregada ao chapéu; descida no ascensor a 457 ms... Demorei dentro da minha hora e meia"... De Sabará desce de barca o Rio das Velhas, visitando Lagoa Santa, a casa de Lund, "o quarto onde ele morreu", e no dia seguinte "estive na gruta duas horas, tendo almoçado fora dela, debaixo das árvores". Vai a Santa Luzia e retorna a Sabará, "onde desabou uma trovoada e cheguei molhado como um pinto". Caeté, São João do Morro Grande (Barão de Cocais), Brumal, Caraça, Catas Altas, Inficionado, Mariana. Aqui passou a Semana Santa., "confessei-me a Mons. Silvério Pimenta e comunguei na Capela do Palácio"... Pouco depois das 10 h começou o ofício (de Sexta-feira Santa) e terminou pouco antes das 2. Não tenho gostado do modo como cantam aqui a Paixão. As lamentações das Trevas de ontem foram lamentáveis. Houve adoração da Cruz. O pregador, Pe. Cornagliotto, agradou-me. É padre de talento e de instrução e houve momentos em que revelou muito sentimento. Conversei com o Bispo... e com o Pe. Sípolis sobre o que tem visto nas Missões... referindo-me à existência de uma lagoa, perto de Bambuí, que enche e decresce periodicamente, assim como de chamas que se observam no mesmo distrito, ao sopé de uma montanha. Ainda à procura do inseto hippocephalus de que só existe um no Brasil na coleção de Luís de Carvalho, no Rio"... Registra o Imperador: "a conversa de Sípolis é interessante e o seu ar extremamente simpático". É que o santo e sábio missionário lhe adoçou a boca, dizendo: "esperar que o Pe. Davi venha estar aqui o tempo necessário para conhecer a Província de Minas" (pág. 103) ³
Visita a mina de Passagem de Mariana, o Arraial de Antônio Pereira, o de Ouro Podre "cujas muralhas arruinadas me lembraram Pompeia" e chega a Ouro Preto. 
 
Mas voltemos com D. Pedro ao Caraça. 
 
2º - DOM PEDRO NO CARAÇA 
 
A - ADMIRAÇÃO DE D. PEDRO 
 
"11 (2ª f.) Caeté. 5 h acordei... 6 h parto para o Caraça. Gongo-Soco, onde a forja que visitei pareceu-me de Tubalcain... Diversos cavaleiros, entre eles Afonso Pena, vieram ao meu encontro. A caravana entrou reunida em São João do Morro Grande, depois das 11 1/2. A igreja é pelo risco da de Caeté. Saint-Hilaire teve razão em falar dela... Brumado...  Aí parou meu pai"... 
 
"Desde que se começa a subir a Serra do Caraça, cresce a beleza da paisagem e do alto descobre-se vastíssimo horizonte e depois uma das mais belas cascatas que eu conheço que forma lençóis e tanques e corre em fundo vale, estreitado pelas montanhas... Nunca admirei lugar mais grandiosamente pitoresco. O caminho passa por cima da cascata que parece sumir-se de repente. Continuei por dentro da mata e por cima das pedras. Felizmente o belo luar sempre deixa ver um lugar onde se anda... perigoso para liteira... Não posso descrever tanta beleza!..." 
"Enfim, dobrando a ponta do morro, aparece, de repente, o edifício do Caraça, iluminado e de que descem pela encosta duas longas filas de luzes. Passei pela Capela que constróem e cuja arquitetura agradou-me. Tomei meio banho, depois de conversar com o Superior Clavelin e diversos professores. Jantar às 7 3/4. Informei-me dos estudos com o Superior"... "Tenho muito que fazer amanhã"... 
 
O Caraça contava, na época, com mais de 300 alunos, formando o Seminário e o Colégio. E para provar que era sério o estudo, "não houve sueto" (feriado) nem com a visita Imperial. Aulas o dia todo... "
 
12 (terça-feira) Acordei às 6 h. Fui tomar banho no rio". (A Crônica do Caraça diz assim: "Sabendo que o Imperador queria tomar banho no rio, o Superior chamou dois fâmulos que o acompanharam até à ponte, ficando discretamente à distância, enquanto S.M. se banhava." Depois: missa, ficado SS.MM. Imperiais debaixo de um dossel..." (Os cânticos espirituais foram acompanhados por feliz combinação do harmônio e rabeca"...) "Estive na biblioteca, onde achei bons livros e edições antigas... chamando minha atenção a Crônica de Eusébio de 1483. - Veneza - impressor Arnoldt Augustensis... Assisti a todas as classes. Os professores, a meu pedido, chamavam os mais adiantados... Gostei em geral do modo com que os alunos respondiam... Enquanto jantavam, fui ver a oficina do Pe. Boavida. Admirei ali o trabalho do órgão; a madeira preta das teclas é belíssima!"... 
A visita às classes terminou às 16:45. Subiu depois ao Monte Calvário, passou perto da horta "muito viçosa", foi ao caramanchão ou quiosque e admirou a poesia do Tanquinho atrás da Casa, "onde se espelhava a lua; a noite está belíssima!... vi araucárias... plantadas pelo Irmão Lourenço... Voltei de meu passeio por dentro da cozinha que não é má, menos o fogão que não é econômico"... "Chegou hoje correio do Rio, com diários até dia 8"... 
 
O Caraça reservava para a noite uma sessão solene, dentro das igreja em construção, iluminada com velas. Diz D. Pedro: "O espetáculo era muito belo. Dirigiram-me discursos em francês, Clavelin; latim e grego, um grego de Constantinopla; hebraico, Pe. Lacoste; espanhol, um empregado da Casa, ex-oficial da Cavalaria Espanhola; inglês, o professor de inglês; português, o desta língua; e italiano, um estudante que pronunciou tão mal como o de inglês; "e alemão, pelo Irmão Severino", registra ainda a "Crônica do Caraça". 
 
D. Pedro quis mostrar também sua cultura e delicadeza, cumprimentando os nove oradores e agradecendo a quase todos no idioma em que falaram. Um grupo cantou os versos de uma poesia em francês, composta pelo Pe. Superior, e ofereceu às Suas Majestades, a D. Isabel, à Igreja Católica, ao Brasil e ao Caraça. "Viva e floresça o Colégio do Caraça!...", gritou o Barão de Maceió, finalizando. "A orquestra tocou peças escolhidas, sendo elogiada por S.M. que desejou saber os nomes dos mestres e conhecê-los". D. Pedro no "Diário" registrou simplesmente: "Tocou a banda dos alunos que é sofrível". 
 
Foi objeto de muito comentário o discurso em hebraico, que D. Pedro quis ler e examinar, pois era escrito em pergaminho e estilo oriental, isto é, tinha nas extremidades duas varinhas, sobre as quais se enrolava ou desenrolava, e no texto não havia os pontos massoréticos, que são as vogais. Todos quiseram ouvir de novo a leitura e a tradução, que foi dada ao Ministro da Marinha, Lima Duarte, ex-aluno de latim do Pe. Ferreirinha, celebrado professor de Congonhas e do Caraça. 
 
B. PROTESTO DE D. PEDRO 
 
O brilho da solenidade e a diplomacia do Superior parecem ter apagado bastante o incidente da aula de Direito Canônico. É que D. Pedro, ao percorrer as aulas do Seminário Maior, depois de ouvir os alunos que eram interrogados sobre Teologia Dogmática, Moral, História, quis saber do professor de Direito o que se ensinava sobre o Placet (aprovação régia para os documentos pontifícios). Ora, o nosso Imperador devia desconfiar que tratar desta matéria, naquele momento, diante do Seminário Maior e de sua Corte, era  para usarmos a linguagem familiar  mexer em caixa de marimbondos, ou segundo um jornalista da Comitiva "um verdadeiro ferro quente, no qual não porei a mão". Era discutir assuntos que provocaram, na História do Brasil, a chamada "Questão Religiosa" (1871-1875). Os protagonistas D. Vital e D. Macedo Costa foram considerados pelos adeptos da Maçonaria e do Regalismo como bispos orgulhosos, desobedientes, ranzinzas, enquanto os católicos, fiéis a Roma, os proclamavam grandes bispos, intrépidos confessores da fé, verdadeiros mártires que não duvidaram trocar os seus Palácios de Recife e Pará por quatro anos de cadeia, na Fortaleza de São João, no Rio. 
 
Mas já que D. Pedro queria saber o que se ensinava no Caraça, era preciso dizer a verdade; foi chamado o Seminarista Rodolfo Augusto de Oliveira Pena, que começou dizendo ser falsa e contrária aos ensinamentos do Concílio Vaticano a doutrina que julgava necessário o Placet para que os atos pontifícios tivessem força de lei num país católico. Convidado a dar razões intrínsecas de tal afirmativa, continuou: "Há dois poderes, o eclesiástico e o civil, e ambos vêm de Deus; o primeiro, imediatamente de Deus. Sobre o segundo, as opiniões divergem: imediatamente ou mediante o povo. O poder eclesiástico é superior ao civil, porque tem objeto mais nobre, espiritual, sobrenatural, o bem das almas, e extensão territorial maior, pois abrange o mundo todo. O poder civil tem por objeto o bem temporal e se limita a uma nação particular. Estes dois poderes são distintos e livres na sua esfera"... 
 
Houve um silêncio que D. Pedro interrompeu, perguntando: 
"E nas questões mistas"? 
Agora, foi o professor, Pe. Chanavat, que tomou a palavra: 
"Para estas... a decisão pertence à Igreja". 
"Protesto", disse o Imperador, "como chefe do poder civil e defensor nato da Constituição Brasileira, protesto contra esta doutrina". 
"Os rostos dos Seminaristas que, até então, mostravam grande alegria pela presença de S.M., cobriram-se logo de uma expressão de profunda tristeza, manifestando assim a mágoa que lhes causara este protesto". O lente, sustentando a Doutrina Católica, quis mostrar a encíclica de Leão XIII, mas o Superior o deteve, e, com delicadeza e grande prudência, propôs se tratasse de outros assuntos. 
Mais tarde, estando os alunos no recreio, comentando naturalmente o incidente da aula, passou por eles D. Pedro com a sua comitiva. Então o professor de Direito não se conteve. Aproveitou a ocasião para, em voz alta, fazer o seu contra-protesto: "Não admito o protesto V.M... É escandaloso um Monarca católico protestar contra a Doutrina da Igreja diante de um Seminário Maior". 
D. Pedro, desgostoso diante deste contra-protesto, apenas replicou: "Eu sou mais católico que o lente. Sou católico tolerante, ao passo que o senhor é intolerante". 
Mais uma vez entrou o Pe. Clavelin... e a tempestade se desfez... 
É fácil imaginar a variedade de interpretações que deram ao fato, quer entre os habitantes do Caraça, quer entre os membros da Corte e os quatro jornalistas da Comitiva. 
Em Ouro Preto, aonde logo chegou a notícia, atingindo proporções aterradoras, o próprio Monarca se encarregou de esclarecer a verdade, dizendo: 
"Expliquei sempre ao Pe. Clavelin, que parece-me excelente pessoa, como eu ressaltava o direito, unicamente contra os abusos da autoridade eclesiástica, que não deviam ficar dependentes da única apreciação daquela" (Diário, pág. 97) 
E sobre o professor de Direito disse: 
"Pe. Chanavat é um sacerdote digno da batina que veste e da cátedra que ocupa. É um homem!" 
E lembrando-se de tudo que viu e ouviu de bom, deve ter repetido o que afirmou ao Pe. Sípolis em Mariana: 
"Estou satisfeitíssimo com o Caraça. Só o Caraça paga toda a viagem a Minas". 
E a piedosa Imperatriz podia também repetir: 
"Desculpe-nos algum incômodo, Pe. Superior. Eu teria escrúpulos de vir a Minas e não chegar até ao Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens. Hei de voltar, Pe. Superior. hei de voltar, se Deus quiser". 
 
C - GRATIDÃO DE D. PEDRO 
 
A história registrou muitas frases importantes, atribuídas ao Imperador, tão preocupado com a instrução do povo e o progresso do país. 
Uma frase retrata bem o seu espírito: "Se não fosse Imperador, gostaria de ser mestre-escola". Outra: "Estaria disposto a vender até o último brilhante da coroa para que nenhum cearense viesse a morrer de fome, por ocasião de alguma seca." 
Pois bem! Para o Caraça, a visita de D. Pedro não se limitou à célebre discussão na aula de Direito, ou à sessão solene com nove discursos em idiomas diferentes, ou algumas frases bonitas que a tradição guardou ou estão no seu "Diário". 
 
Quem visita hoje o bicentenário Colégio há de sentir a prova de gratidão do Monarca para com esta Casa de ensino, que tanto beneficiou Minas e o Brasil. Logo na sala de visitas, verá um grande quadro a óleo, com o Colégio, pousado na raiz da Serra. É a obra do pintor alemão Jorge Grimm, professor da Academia de Belas Artes. Veio ao Caraça em 1885 para cumprir a promessa que fizera D. Pedro, no adro da igreja, quando, contemplando a tarde que morria, lançava, no seu caderno, uns traços reproduzindo os contornos das serras caracenses. 
No museu, poderá admirar o retrato a óleo de S.M. assim como a bem trabalhada cama de madeira, onde dormiu nas noites de 12 e 13 de abril de 1881. 
Os pesquisadores da história gostarão de ler as seis longas páginas que escreveu sobre o Caraça, ao correr da pena, no seu "Diário": "Viagem a Minas". O turista curioso repetirá talvez, as mesmas palavras imperiais: "Não posso descrever tanta beleza!"... "passei por uma das mais belas cascatas que conheço"... "Admirei as montanhas por detrás da Casa, entre as quais a chamada Carapuça". "Entrei na Capela cuja arquitetura agradou-me"... e "vi muito bem feitos capitéis". "Estive na biblioteca onde achei bons livros e edições antigas"... etc. 
Mas quem possui o espírito gaiato descerá, alegre, a ladeira das Sampaias , para ver a célebre pedra, onde, segundo a tradição, ao deixar o Caraça, na madrugada do dia 15 de abril, ou mais precisamente, às 5:20 da manhã, Sua Majestade D. Pedro II, Imperador Constitucional do Brasil, calçado de botas e esporas... escorregou na dita pedra, nela batendo, solenemente, os assentos imperiais e reais. 
O autor deste livro, a pedido do Pe. Sarneel, registrou o fato, há vários anos, gravando na famigerada pedra, a data e as armas imperiais, que você, leitor, um dia poderá ver. 
 
Falemos agora de coisa mais séria, ou "paulo maiora canamus", diria logo um caracense. 
O visitante, ao entrar na igreja gótica, que tanto agradou ao Imperador, há de sentir, no silêncio religioso do Santuário, a elevação da alma para Deus. Mais do que as 12 colunas de granito, a sustentarem a abóbada, hão de chamar-lhe a atenção os cinco vitrais. O do meio, de 5 metros de altura, representando o Menino Jesus no Templo, entre os doutores, foi a delicada oferta de D. Pedro II. Como sinal, aos pés do Menino Deus, está gravada a Coroa Imperial, tendo abaixo o escudo do Império. 
Assim expressava D. Pedro a sua gratidão a uma "Comunidade Religiosa" que tem, como profissão, evangelizar o pobre povo do campo e formar a juventude nos colégios e Seminários, dando, frequentemente, ao país não só os grandes vultos, nacionalmente conhecidos, mas muitos outros que aprenderam no Caraça a "servir a Deus, honrando a Pátria, e servir a Pátria, honrando a Deus". 
 
A Crônica, escrita pelo seminarista, termina assim: 
"Deixaram SS.MM. 500$000 rs (quinhentos mil réis) de esmola para as obras da Capela (vitral) e 400$000 rs para os pobres dos arredores, particularmente para os de S. João". 
 
Por sua vez, o Caraça ofertou ao Imperador "uma rica pedra composta de três diferentes minerais" e o seu livro mais antigo: "Crônica de Eusébio", de 1483. Este livro se encontra hoje na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, catalogado sob o número 58, no setor dos incunábulos. Na página de rosto, lê-se a dedicatória, escrita a mão: 
"A Sa Magesté 
D. Pedro II, 
Empereur du Brésil, 
Le Collège du Caraça reconnaissant 
12 Avril 1881."
 
* Nascido em Santo Antonio do Monte/MG, em 24 de janeiro de 1921 e falecido em Belo Horizonte, em 09 de fevereiro de 2002. Trabalhou no colégio do Caraça de 1948 a 1955, quando participou da filmagem de “Caraça-Porta do Céu”, em 1949. Passou pelo Seminário Menor de Mariana em 1955, retornando depois, como Reitor, por mais dois anos (1963 e 1964). Durante os 20 anos em que esteve na direção do Caraça, desenvolveu significativo trabalho de manutenção e reconstrução da casa, tornando-a centro de peregrinação, cultura e turismo. Sua capacidade administrativa, sua alegria contagiante na acolhida dos hóspedes, sua vasta cultura e seu espírito de dedicação e de fé marcaram profundamente a vida do Caraça e seus visitantes. Seus livros tornaram mais conhecida e documentada a fama do Colégio do Caraça e as benemerências da Congregação. Seu autor aceitou, como homenagem ao Caraça, a honra de ser membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e membro também da Academia Mineira de Letras.
 
 
II. NOTAS EXPLICATIVAS
 
 
¹ Na composição deste capítulo servimo-nos dos seguintes documentos:
1) Diário de D. Pedro: apud "Anuário do Museu Imperial de Petrópolis" - Vol. XVIII-1957: "DIÁRIO DE VIAGEM DO IMPERADOR A MINAS", p. 70-118
2) Crônica do Caraça: apud "Revista do Arquivo Público Mineiro", Ano XII-1907  Belo Horizonte  Imprensa Oficial de Minas Gerais  "CARAÇA: APONTAMENTOS HISTÓRICOS E NOTAS BIOGRÁFICAS", onde o autor Pe. F. Silva, cita:
a) Uma pormenorizada "Notícia" sobre a visita de D. Pedro, escrita por um seminarista, José Cipriano, pp. 83-93
b) Duas cartas do Pe. Chanavat ao seu bispo diocesano e ao Pe. Visitador dizendo "a sua verdade" contra as más interpretações do incidente com o Imperador, na aula de Direito, pp. 94-97.
Recorremos também à "Visita Imperial", escrita por um dos padres do Caraça, em seis páginas manuscritas, ainda não publicadas.
 
² "Pataco", devido à efígie de D. Pedro, na moeda ou "pataca".
 
³ Armand David, sacerdote da Congregação da Missão, francês, grande naturalista e missionário, célebre por seus livros e pelas explorações científicas que fez na China, Turquia e África. Sabendo dos desejos do Imperador, a Cúpula da Congregação pensava em enviar o Pe. David para o Brasil. Isto só não aconteceu em 1884, porque, nas vésperas da viagem, caiu doente o grande cientista (Cf. Annales de la Congregation de la Mission - 1937 - Tome II, p. 293, e Nouveau Larousse Illustré, Tome 3e., p. 533); mais tarde, no exílio, D. Pedro escolheu o Pe. David para seu confessor; e este estava a seu lado, na hora da morte, num hotel de Paris.

"Diário", pp. 93-99, parte referente ao Caraça.

Hoje Brumal, arraial a 15 km do Caraça, com bonita igreja barroca.

Sampaias: título dado a todas as mulheres que trabalham no Caraça. Moraram muitos anos na grande casa de baixo, formando uma espécie de convento feminino, onde alegres, piedosas e trabalhadoras cuidavam de muitas coisas, sobretudo da roupa dos alunos.

LIVROS DO CARAÇA: Exposição promovida sob os auspícios da Sucursal de "O Globo" de Belo Horizonte/setembro de 1960, p. 8.
 
 
III. AGRADECIMENTO 

 
À minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação do registro fotográfico utilizado neste trabalho.
 

IV. BIBLIOGRAFIA

 
BRAGA, F. J. S.: NO CARAÇA... CRIME REAL?, post no Blog do Braga em 24/12/2024.

MEDEIROS, Benício: À SOMBRA DO CARAÇA, post no Blog de São João del-Rei em 08/01/2025.

ZICO, Pe. José Tobias: Caraça e a família imperial. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 1991, 104 p.

___________________: CARAÇA: Peregrinação, Cultura e Turismo (1770-1976), Belo Horizonte: Editora São Vicente,  4ª edição, 1982, 205 p.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

BICENTENÁRIO DE DOM PEDRO II

Por DANILO CARLOS GOMES
Crônica publicada originalmente no Correio Braziliense, edição de 02/12/2025.
 
Nesta terça-feira, 2 de dezembro, celebram-se os 200 anos de nascimento do imperador D. Pedro II, nascido na cidade do Rio de Janeiro. Governante muito culto, poeta, divulgador do progresso, da educação, do telefone, das ferrovias, da fotografia, dos avanços tecnológicos, deixou para a filha, a princesa Isabel, a assinatura da lei que extinguiu a escravidão no Brasil, um tema sociopolítico sempre polêmico. Derrubado por um golpe militar ligado ao positivismo de Augusto Comte, em 15 de novembro de 1889, o imperador e sua família foram cruelmente expulsos do Brasil. Dona Tereza Cristina morreu de desgosto, no mesmo ano, na cidade do Porto, em Portugal. Em 1891, o imperador morreu num modesto hotel, em Paris, de desgosto e pneumonia. Inumeráveis historiadores escreveram importantes obras sobre D. Pedro II; entre eles, Pedro Calmon, Hélio Vianna, José Murilo de Carvalho, Paulo Rezzutti, Mary Del Priore, Heitor Lyra, Alcindo Sodré, Alfredo d'Escragnolle Taunay, José Theodoro Menck, Lília Moritz Schwarcz, cujo livro As barbas do imperador estou lendo.