sexta-feira, 2 de julho de 2021

DISCURSO DE POSSE DO ACADÊMICO SEBASTIÃO DE OLIVEIRA CINTRA NA ACADEMIA BARBACENENSE DE LETRAS

 
Discurso pronunciado no dia 12 de outubro de 1980, em magna sessão da Academia Barbacenense de Letras, pelo Acadêmico Sebastião de Oliveira Cintra 

 


(São João del-Rei - 1918-2003)

 
 

Sinto-me deveras feliz ao tomar posse nesta egrégia Casa da Cultura da Cidade das Rosas, na honrosa qualidade de sócio correspondente. 

A distinção da escolha dos nobres Confrades visou, acima de tudo, homenagear a minha terra natal, pois, mero cronologista de S. João del-Rei, jamais vislumbrei méritos literários em meus trabalhos. Engrandecido com o galardão da imortalidade acadêmica da Nobre e Muito Leal Cidade de Barbacena, coroamento intelectual na vida de despretensioso escriba interiorano, avultam as responsabilidades do amante deste importante Sodalício Cultural, que em apenas três anos de funcionamento comprovou extraordinária vitalidade, em profícuas realizações de que todos nos orgulhamos. 

Sobejam-me razões para querer bem à Barbacena e à Academia Barbacenense de Letras, afirmação que não se escuda em protocolares gestos de amabilidade. 

No exercício da Vice-Presidência da Academia de Letras de S. João del-Rei, da qual sou um dos fundadores, experimentei os mais agradáveis momentos da vida acadêmica quando cooperei com entusiasmo para que ingressassem na Arcádia do berço natal da poetisa Bárbara Eliodora Guilhermina da Silveira vultos da envergadura intelectual de um Prof. Plínio Tostes de Alvarenga, de um poeta de sublime inspiração como o Ten. Sidnei Cunha e de um destemido jornalista, justo orgulho desta comuna, como Marinho Luiz da Rocha. As três aquisições engrandecem sobremaneira a Academia de Letras de S. João del-Rei. 

Os sanjoanenses cultivamos a memória do poeta satírico Padre-Mestre José Joaquim Correia de Almeida, Patrono da Cadeira nº 1 da Academia Barbacenense de Letras, ilustrada pelo culto Acadêmico Prof. Plínio Tostes de Alvarenga. O Padre-Mestre, que encontrou glorificação em todo o Brasil e em Portugal, mercê de sua apreciável bagagem poética, vinculou-se a S. João del-Rei, tanto por seus troncos familiares, como pela afeição sempre demonstrada por tudo que se relacionava com a terra de seus avoengos. Manteve cordial amizade com o Padre-Musicista José Maria Xavier, uma das glórias da música sacra de Minas Gerais. A sanjoanense Dª Bárbara Marcelina, mãe do Pe. Correia, casou-se com o Adv. Fernando José de Almeida. Era filha do Sarg. Mor José Joaquim Correia, que faleceu em São João del-Rei, onde viveu mais de 60 anos, a 11 de maio de 1837, viúvo de Francisca Antônia de Paula, falecida em São João a 5 de outubro de 1791. Cavaleiro Professo na Ordem de Cristo, era filho de Antônio Francisco da Costa e de Izabel Maria de Jesus, nascido e batizado na Corte do Rio de Janeiro, na Freguesia da Candelária. Dª Jesuína Cândida de Paula, irmã de Bárbara, foi batizada a 4 de janeiro de 1789, na Matriz do Pilar, de São João del-Rei. Casou-se com João Pereira Pimentel, o último Cap. Mor da Vila de São João del-Rei. São pais do Prof. Aureliano Pereira Correia Pimentel, filólogo, poliglota, naturalista e Patrono da Cadeira nº 29 da Academia Mineira de Letras. Conquistou em concurso público a cátedra de Português do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. O Prof. Pimentel era parente do Padre-Mestre José Joaquim Correia de Almeida. 

As mais simpáticas coincidências irmanam as duas cidades vizinhas. 

O bisavô do Prof. Plínio Tostes de Alvarenga, o Major Francisco José de Alvarenga, líder inconteste da Revolução Liberal de 1842, atuou na vida política, social e econômica de São João del-Rei, onde se casou com Elisa Leopoldina Pinto de Almeida, falecida a 24 de março de 1886. Dos filhos do casal citamos o ilustre Prof. Guilherme Guilhobaldo de Almeida Alvarenga, sanjoanense nato, musicista e compositor, nascido a 30 de março de 1846, avô do nosso querido Presidente Prof. Plínio Tostes de Alvarenga. 

Enviei documentação ao confrade do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Dr. Henrique Furtado Portugal, comprovando que o Côn. Francisco Fabiano de Assis Caixeta, que paroquiou Rio Preto de 1872 a 1899, nascido e batizado em Barbacena, em 1837, foi republicano histórico, tendo colaborado na imprensa de São João del-Rei. 

Barbacena e S. João del-Rei palmilharam os mesmos caminhos no curso da História do Brasil. Nas dramáticas peripécias da Inconfidência Mineira, na Revolução Liberal de 1842, nas lutas pela manutenção da Independência, nos movimentos abolicionistas e republicanos, as duas cidades, pelo patriotismo de seus filhos, comungaram nos mais nobres ideais.

Em cima: Padre-Mestre José Joaquim Correia de Almeida / Em baixo: Emblema da ABL "Finis coronat opus" = O fim coroa a obra
  
 

O emblema da Academia Barbacenense de Letras presta homenagem a um filho de São João del-Rei, simbolizado pelo braço erguido do imortal mineiro massacrado pelos tiranos que infelicitavam o Brasil. A escolha evidencia os propósitos norteadores dos ilustres membros da Casa da Cultura de Barbacena, cristalizados em incoercível vocação de engrandecer-se sempre, na predestinação histórica de participação, ativa e altiva, nos fundamentais acontecimentos da nacionalidade. 

O Alferes Tiradentes resplandeceu-se na História de Barbacena, revelando sangue frio, probidade e coragem na perseguição aos salteadores que, por volta de 1783, infestavam o Caminho Novo, no Alto da Serra, roubando e chacinando os habitantes da região e os viajantes. Quando o Cel. José Ayres Gomes, mais tarde inconfidente que pagaria com o desterro seu amor à Liberdade Pátria, recebeu, por parte de Dom Rodrigo José de Menezes, Governador da Capitania, a arriscada missão de desbaratar a terrível horda de malfeitores, Joaquim José da Silva Xavier foi o auxiliar valente e dedicado que o proprietário da Histórica Fazenda da Borda do Campo encontrou para dar cabal desempenho às ordens recebidas. 

Tiradentes, filho de São João del-Rei, Patrono Cívico da Nação, contribuiu para que a tranquilidade voltasse a imperar nas imediações desta localidade, o que, independentemente de sua preponderância na Inconfidência Mineira, projeta seu nome nas páginas históricas da Nobre e Muito Leal Cidade de Barbacena. 

Vencidos os chacinadores do Caminho Novo, o antigo arraial, situado em posição geográfica que lhe favorecia as comunicações com os maiores centros comerciais daquela época, progrediu com rapidez, o que lhe valeu, por ato do Visconde de Barbacena, de triste memória nos anais da Conjuração Mineira, em 1791, a sua elevação à categoria de Vila. No dia 14 de setembro de 1791 a Câmara da Vila de Barbacena enviou carta à Câmara de São João del-Rei, na qual declara: "O novo Senado respeitará sempre a antiga Câmara de São João del-Rei". Esclarece, ainda, o documento: "Tal é a confiança devida a esse nobre Senado que nós ousamos, ainda, conferir com vossas mercês a arrecadação do Subsídio Literário, e outros quaisquer Direitos que a fidelidade de vassalos obriga a zelar reciprocamente". Assinaram a carta os seguintes membros do Senado da Câmara de Barbacena: José de Souza Barreto, Domingos Antônio de Azevedo, Domingos Dias Pereira e Joaquim Rodrigues de Araújo. Em 1827 a Câmara de São João del-Rei mandou celebrar solenes exéquias pelo falecimento da Imperatriz Leopoldina, tendo convidado para proferir a oração fúnebre o Revmo. Padre Antônio Marques de Sampaio, vigário da Freguesia de Barbacena. 

Barbacena e São João figuraram, nobre e gloriosamente, na arrancada pela libertação da Pátria, identificando-se, mais uma vez, com elevados sentimentos; entrelaçaram, aqui e lá, anseios de sacudir o jugo lusitano que espoliava e humilhava nosso povo. 

Barbacenenses, ou nascidos nas imediações de Barbacena, foram Dr. Domingos Vidal Barbosa Lage, Cel. Francisco Antônio de Oliveira Lopes, Pe. José Lopes de Oliveira, Cel. José Ayres Gomes e Pe. Manoel Rodrigues Costa, Inconfidentes que sofreram duras condenações, pelo crime de lutarem por um Brasil próspero e soberano. 

No Movimento Liberal de 1842 agigantaram-se as acendradas virtudes cívicas dos habitantes desta encantadora Barbacena. A gloriosa jornada de um pugilo de bravos invade minha alma de acentuada empolgação patriótica, quando se recorda que levanto minha voz neste Palácio da Revolução Liberal, relicário de tradições de bravura e desprendimento do povo barbacenense. 

Ao agradecer ao Confrade Ten. Sidnei Cunha as cativantes palavras com que se referiu à minha pessoa, repassadas de exagerados encômios, fruto de sua incomensurável bondade, faço minhas as expressões do saudoso mestre da antiga Faculdade Nacional de Medicina, Prof. Raul David de Sanson, próprias para quem ostenta na cabeça a floração dos cabelos brancos: 

“A melhor recompensa é aquela que suaviza o fim da jornada e permanece em nosso coração”. 

Obrigado, amigos! Obrigado, Barbacena!

 

II. AGRADECIMENTOS
 

À Acadêmica Profª Drª Ângela Maria Rodrigues Laguardia, membro efetivo da ABL-Academia Barbacenense de Letras, ocupante da Cadeira nº 1, patroneada pelo Padre-Mestre José Joaquim Correia de Almeida, o pronto envio do material constante do Anuário 1980 de nosso Sodalício, através de fotocópias, que me facilitaram enormemente o trabalho.
Agradeço carinhosamente à minha esposa Rute Pardini suas fotos bem como a sua edição e formatação para fins deste post.
 

 


III. BIBLIOGRAFIA


ACADEMIA BARBACENENSE DE LETRAS: Anuário 1980, 1980, p. 59-62.