quinta-feira, 16 de outubro de 2014

RELEASE E RESENHA CRÍTICA DO LIVRO "O APÓSTATA", de Sérgio Guido (pseudônimo de DR. RIBEIRO DA SILVA). Além disso, CRÍTICA E RÉPLICA DO AUTOR.


Por Francisco José dos Santos Braga



Dedico este artigo ao Dr. Ático Vilas Boas, Acadêmico, escritor, folclorista, tradutor, professor universitário, pioneiro de estudos romenos no Brasil e autor de uma vintena de livros, metade dos quais dedicada à língua, cultura e história romenas.

(Cidade de Goiás, 1868-Rio de Janeiro, 1928)
[GUERRA, 1968: 153]


I.  INTRODUÇÃO


Nos dias 19  (dia de São José) e 20 de março de 2012, tive a honra de representar o presidente da Academia de Letras de São João del-Rei, escritor José Cláudio Henriques, nas comemorações do 30º aniversário da ALB-Academia de Letras de Brasília, realizadas em auditórios do Parlamundi, sede da LBV, em Brasília. Após a cerimônia protocolar na noite daquele memorável dia, iniciada às 19 horas (com recepção solene pelos Dragões da Independência-DF e sua Banda Musical tocando o Hino Nacional, cerimônia de abertura, outorga de medalha comemorativa a personalidades de destaque, lançamento de livro comemorativo da ALB e obliteração de selo comemorativo pela ECT), fui convidado a participar das comemorações que continuaram no dia seguinte. Às 9 horas do dia 20/3, quando da formação da Mesa, fui convidado a ocupar uma das cadeiras, tendo em vista a histórica cidade de São João del-Rei gozar de excelente e merecida reputação de terra de elevada cultura e terra natal dos heróis Tiradentes e Tancredo Neves. Naquela reunião oficial foi cumprido o seguinte programa: apresentação do Coral Alegria, execução do Hino Nacional por excelente saxofonista, conferência do pioneiro de Brasília, Dr. Murilo Melo Filho, membro da Academia Brasileira de Letras, outorga da medalha comemorativa aos Acadêmicos da ALB e a outras personalidades do mundo literário e cultural e "in memoriam", cerimônias estas seguidas de um banquete de confraternização.

Tendo comparecido à lauta refeição na hora aprazada, tive a grata satisfação de sentar-me ao lado do Acadêmico Dr. Ático Vilas Boas, de Macaúbas-BA. Apresentamo-nos e, quando me indagou sobre a minha procedência, informei-lhe que viera de São João del-Rei.

Essa informação o impressionou vivamente e ele me indagou se já tinha pesquisado, nos periódicos da cidade mineira, a obra do goiano Dr. Ribeiro da Silva, literato e médico que tinha residido ali por 15 anos. Diante daquela pergunta constrangedora para mim, respondi-lhe que não.

Resumindo, fiquei sabendo que Dr. Ático era o autor do prefácio da reedição de "O Apóstata", de Sérgio Guido (pseudônimo adotado por Dr. Ribeiro da Silva), portanto um especialista. Fui ainda informado que a primeira edição da obra fora incinerada pelo próprio autor, a pedido de um bispo.

Incontinênti, convidei-o para ser colaborador do Blog de São João del-Rei, pedindo-lhe que me autorizasse a publicar o seu prefácio. Para tanto, aguardei a chegada de um exemplar do livro recém-lançado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, na pessoa de seu então presidente e escritor Aidenor Aires com o prefácio assinado pelo referido Acadêmico.

Tão logo me chegou às mãos, publiquei o "Prefácio do Acadêmico Dr. Ático Vilas Boas à recente reedição de  O  APÓSTATA, da autoria de Sérgio Guido (pseudônimo do Dr. RIBEIRO DA SILVA)". ¹
Tendo-o feito, fiquei de certa forma compromissado a pesquisar a obra do seu (e meu) biografado, pelo menos para dar-lhe alguma satisfação sobre o que Dr. Ribeiro da Silva representava na historiografia são-joanense e deixara registrado nos periódicos locais.


É escusado dizer que o presente trabalho é fruto desse incentivo vindo da parte do Dr. Ático Vilas Boas, sendo oportuno dizer que o material que já possuo sobre o Dr. Ribeiro da Silva excedeu todas as expectativas. A sua produção poética se encontra esparsa por periódicos nacionais e nunca foi transformada em livro; mas, por outro lado, posso adiantar que já tenho em mãos poemas maravilhosos coletados no periódico são-joanense A TRIBUNA e em outras fontes, compostos por ele e ainda desconhecidos de muitos. Também posso adiantar que, em São João del-Rei, compôs ele pelo menos duas revistas teatrais, ambas em 1918 e em parceria com Oscar Gamboa:  "MEU BOI FUGIU" (revista de costumes locais, constituída de 1 prólogo, 2 atos, 3 apoteoses e 27 números musicais) ² e "VER PARA CRER" (composta de 1 prólogo, 2 atos, 8 quadros e 26 números musicais) ³, cujo ponto alto foi respectivamente a declamação dos poemas intitulados "Jerusalém" e "Civilização Latina", ambos da autoria de Dr. Ribeiro da Silva (que ainda serão transcritos neste mesmo Blog de São João del-Rei na ocasião propícia). 

Segundo [ALENCAR, 2009], entende-se por teatro de revista 
"o espetáculo teatral composto de números falados, musicais e coreográficos, humorismo, etc. Esse gênero teatral alcançou grande popularidade no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, pela crítica bem-humorada com que enfocava certos aspectos do cotidiano do país. (...) O teatro de revista brasileiro surgiu em 1859, no Teatro Ginásio, no Rio de Janeiro (...) A revista recorre a um modelo francês denominado vaudeville: um enredo frágil que serve como ligação entre os quadros que, independentes, marcam a estrutura fragmentada do gênero. 
Seu ingrediente mais poderoso é a paródia, recurso do teatro popular que consiste em denegrir um aspecto, fato, personagem, discurso ou atitude da cultura erudita ou, em outras palavras, da classe dominante. 
Outro elemento fundamental do teatro de revista é a música. Contudo, diferentemente do gênero musical como imaginamos hoje, o teatro de revista trazia um certo tom de exagero, com bailarinas (as conhecidas vedetes) vestidas de forma mais ou menos exuberante (com plumas e lantejoulas). (...)"
Segundo [GUERRA, 1968: 153], no mesmo ano de 1918, dirigiu os destinos do Clube Artur Azevedo (teatro em que eram encenadas as revistas) a seguinte diretoria: Presidente, Dr. Ribeiro da Silva; Vice, Verbino Parizzi; Secretário, Diógenes Melo; Tesoureiro, Adalberto Gonçalves; Procuradores, Oreste Parizzi e Luiz Nogueira. Conforme se vê, Dr. Ribeiro da Silva teve uma vida social muito intensa em São João del-Rei. Participou, por exemplo, de comissão encarregada de organizar o programa das grandes solenidades comemorativas do 1º Centenário da Independência do Brasil, realizadas em 7 de setembro de 1922. Em 30 de novembro de 1922, compareceu, na qualidade de inspetor escolar, à formatura na Escola Estadual João dos Santos e discursou, como paraninfo da turma que concluía o seu curso primário. Nessas oportunidades e em outras cerimônias deste ano de 1922, pôde apreciar os dotes oratórios de dois dos formandos: Tancredo de Almeida Neves (que discursou na cerimônia de plantação de árvores) e Belisário Leite de Andrade Neto (que saudou a Bandeira Nacional e discursou na formatura em questão).

Além disso, o nome de Dr. Ribeiro da Silva integra até hoje a galeria de sócios honorários e beneméritos do Minas Futebol Clube desta cidade.

Com este intróito, quero dizer que São João del-Rei, cidade histórica e cultural por excelência, propiciou ao Dr. Ribeiro da Silva o florescimento de inatos  dotes literários, poéticos e artísticos, que sempre gozaram da parte da crítica local e de seus admiradores os melhores encômios e apreciações.

Quero deixar claro que não sou ingênuo a ponto de não reconhecer que ele os possuísse antes de sua chegada a São João del-Rei (1907). Apenas argumento que esta cidade foi um campo fértil para sua imaginação criadora que era extremamente multifacetada e versátil, já que se tratava de uma pessoa polivalente. Prova disso é que, por exemplo, além de exímio médico (na Europa, em 1899, tomou posse como membro efetivo da conferência Internacional de Bruxelas, na Bélgica, para a profilaxia da sífilis e das doenças venéreas e, no Brasil, colaborava assiduamente para O Brazil-Medico, o que pode ser comprovado através de busca à Hemeroteca Digital Brasileira, da Fundação Biblioteca Nacional), escritor, poeta e teatrólogo. Dr. Ribeiro da Silva ainda pertenceu em 1923 ao diretório local do P.R.M. (Partido Republicano Mineiro). Cabe aqui a observação de que uma importante característica na vida de meu biografado é que ele foi alguém impressionantemente contemporâneo às manifestações e inovações científicas e artísticas no período de sua curta existência (60 anos).

No necrológio de Dr. Ribeiro da Silva, O Brazil-Medico assinala que  
"a obra médico-cirúrgica do dr. Ribeiro é impressionante pela amplitude de seu campo de ação que abrangia praticamente todo o organismo. Os recortes de jornais da época e anotações clínicas mostram 'extirpação da glândula de Bartholis, curetagens de abscessos tuberculosos, secção de bridas cicatriciais produzidas por queimaduras e autoplastia consecutiva, sclerotomia reclamada por glaucoma crônico, ablação de fibroses cutâneas pesando cerca de 800 gramas, iridectomia, extração de cataratas pelo processo de Galezowsky, extração de kysto sub-apone-vrótico da palma da mão, dissecção de amygdalas, extirpação de polypos das fossas nazaes, cura radical de hydrocelles inguinaes em criança, talha hypogástrica para retirada de corpo estranho na bexiga'. São cirurgias executadas em Perdões, Carrancas, Bonsucesso, Lavras, São João del-Rei e arredores de Minas Gerais. Em seu consultório, instalado em sua residência, fazia ele mesmo exame de escarro, urina, sangue, era oculista, aplicava pneumotórax, fazia pequenas cirurgias e, dizem, até dentes extraiu." 
Do necrológio de Dr. Ribeiro da Silva, em O Brazil-Medico, também consta que
"Em suas anotações ainda encontramos dois casos clínicos descritos com detalhes: "um caso de gastro-ectasia aguda post partum" (1899) e "um caso de sodoku em São João del-Rei", este provocado por mordida de ratazana, que, no dizer do autor, "não constituem propriamente raridades clínicas. Simplesmente, até hoje, nossa literatura médica nada assignala a tal respeito no Estado de Minas" (1928). 
[NUNES, 1988: 15-29] fez a seguinte revelação: 
"Deslocava-se a cavalo pelos arredores, fazendo partos e atendendo a chamados urgentes. Segundo relato de seus familiares, quando chegava a cavalo em sua residência, um garoto das vizinhanças corria logo para segurar o animal e levá-lo à cocheira. O dr. Ribeiro o abraçava, passava a mão em sua cabeça e dizia: "Este menino há de ser um grande homem". Esse menino foi Tancredo Neves. O primeiro discurso de Tancredo, ainda na escola primária, por ocasião do Dia da Árvore, também foi preparado pelo dr. Ribeiro da Silva."
Em reconhecimento aos inestimáveis serviços prestados às diversas causas aqui relatadas, a Municipalidade são-joanense decidiu homenagear o Dr. Ribeiro da Silva com a denominação de uma de suas ruas.

Também a Academia de Letras de São João del-Rei houve por bem homenagear o célebre jornalista, romancista, poeta e teatrólogo, nomeando-o patrono da Cadeira nº 10.

Para fins deste post, vou publicar três matérias referentes ao livro O APÓSTATA, de Sérgio Guido, todas extraídas do periódico são-joanense A TRIBUNA, referentes aos anos de 1923 e 1924. Em primeiro lugar, é apresentada uma espécie de "release" do livro e o anúncio da sua publicação (em que o periódico CIDADE DE BARBACENA lhe presta homenagem com um texto), reproduzido por A TRIBUNA são-joanense em 30/12/1923. Em segundo lugar, vem um resumo breve do livro acompanhado de uma muito curta apreciação crítica, publicado pelo jornal "Pátria", supostamente um jornal católico de Pouso Alegre. Finalmente, segue-se réplica do autor de O APÓSTATA, em resposta à crítica do padre J. Maria de Siqueira, de S. Gonçalo de Sapucaí. Lamento que ainda não se possua o texto deste último, que sem dúvida teria enriquecido enormemente o post. Convoco os pesquisadores de S. Gonçalo de Sapucaí a localizarem e me enviarem o texto do referido sacerdote, para meu deleite e dos leitores deste blog.

Informo ainda que respeito rigorosamente a grafia da época em que os três textos foram escritos.


II.  TRÊS EDIÇÕES DE "A TRIBUNA" FOCALIZANDO "O APÓSTATA", DE SÉRGIO GUIDO


1) "O APOSTATA"

Aqui pelo interior, não é muito commum apparecerem bons livros, o que até certo ponto se justifica, si o intellectual, si o homem de letras, entre nós, de pouco tempo dispõe para seus devaneios literarios. Em geral, surgem trabalhos ligeiros, que não deixam lá certa impressão no espirito dos que os lêm, e dahi não haver ensejo, muito a miudo, para se louvarem os espiritos de élite, que os possuimos, sem duvida, em nosso Estado.
Um desses espiritos, que já se revelára chronista provecto, escriptor de nota, apparece agora no romance, – trabalho de folego, – "O Apostata", em que o seu autor, o dr. Ribeiro da Silva, que adoptou o pseudonymo de Sergio Guido, aproveita, com grande habilidade, um assumpto interessantissimo, fazendo jús à admiração do leitor.

É o caso de um sacerdote catholico, que apostatou da sua religião, e, no periodo em que viveu afastado da Egreja Romana, soffreu crueis supplicios em sua consciencia, atormentado por pungentes remorsos, muito comprehensiveis, si ponderarmos em que, intimamente, elle se conservava fiel às suas crenças, tendo tomado sua resolução de abandonar a religião catholica por divergencias com sua autoridade superior.

A novella é entremeiada de passagens veridicas, segundo affirma o seu autor, e, sendo ella, como é, obra muito bem escripta, impressiona o leitor, que deduz verdades eternas, que nem todos querem comprehender.

Póde o dr. Ribeiro da Silva, nosso illustre amigo e antigo collaborador, estar certo de que escreveu obra magnifica, e a critica ha de affirmar isto, si quizer ser justa e acatada.

Com as homenagens ao seu talento, mandamos a Sergio Guido muito parabens pela revelação agora de mais uma das faces de seu primoroso talento.

Em nosso escriptorio, collocamos à venda o novo trabalho literario, à razão de 4$000.

(Da "Cidade de Barbacena")

Fonte: A TRIBUNA, Anno IX, S. João del-Rey, 30 de dezembro de 1923, nº 505.


2)  "O APOSTATA"

Eis o juizo inserto na "Patria", de 23 de dezembro findo, sobre o livro do dr. Ribeiro da Silva:

"O Apostata"– Sergio Guido

O presente livro, que nos chega de Minas, é um intenso e vigoroso estudo psychologico, no correr do qual se desdobra uma emocionante tragedia espiritual.

Lourenço, o typo fundamental da obra, após uma infancia monotona, levada a estudar e ajudar a missa quotidiana do parocho de um villarejo do interior, é encaminhado a um seminario. O vigario Thobias resolvera, dado que a mãe do pequeno fizera voto de fazel-o ecclesiastico, a custear-lhe a educação. Principia ahi a fixar-se a base do drama.

Sabendo do voto que o recebera ao vir ao mundo, creado em um ambiente religioso e constantemente tocado pelos commentarios de toda casta e acoroçoamentos, o espirito da creança começa a moldar-se a essas influencias externas e a criar-se um segundo caracter, o caracter convencionado.

Distingue-se, no seminario, pela applicação ao estudo e viva lucidez. O estimulo, que lhe trazem as horarias collegiaes, decorrentes de seu merito, afervora-lhe o apego à carreira e, consequentemente, mais lhe accentúa e estabiliza o caracter ecclesiastico. Constituem-se os elementos da tragedia.

O autor, a essa altura, desenvolve um estudo lucido e severo dos vicios dos internatos. Ha uma crise administrativa no seminario e o collegio é invadido pela immoralidade. A podridão espiritual, irradiando do director, Agenor Luzatti, attinge todo o estabelecimento! Lourenço é contaminado egualmente.

A crise é sanada. Lourenço continúa esforçado e probo, inicia-se em varias doutrinas philosophicas, toca a literatura; accende-se-lhe no espirito a chamma religiosa e sonha o apostolado, a defesa da egreja.

Recebe ordens. Encontramol-o na capital de Minas, como vigario. Dá-se à imprensa e empenha-se em lucta com elementos maçonicos em defesa dos principios christãos.

Seus artigos impressionam. Ha força e nitidez, vibração e logica, em seus artigos de combate.

Surge, a essa altura, ainda esbatida ao fundo do quadro, a figura delicada de Leonor Alves. Envolvido na lucta politica, Lourenço indispõe-se com o bispo.

Premido em sua consciencia e posto ao corrente da baixeza de caracter de seu superior hierarchico, o joven apostolo sente abalado o caracter que se criou, convencional e ficticio. Bruscamente, então, após intimos embates de consciencia, renuncia. É o apostata.

Faz-se maçon. Casa-se com Leonor Alves, a despeito das supplicas de um vigario piedoso.

Com o nascimento do primeiro filho, estabelece-se o drama psychologico. Entre o seu caracter proprio, humano e aquelle que convencionou, o religioso, fere-se intensa peleja. Defrontam-se o padre e o homem. O autor imprime a esse capitulo essencial da obra, a par de excellente direcção, intensa dramaticidade.

O desenlace do embate, porém, parece-nos obedecer a um criterio parcial: suicida-se o apostata.

O romance, porém, pondo-se de parte a these, é dos melhores.

Encerra typos de traço claro e justo, costumes surprehendidos em flagrantes magistraes e linguagem cuidada e rica.

Sergio Guido, com "O Apostata", affirma-se como uma viva e exacta organização de romancista. 

Fonte: A TRIBUNA, Anno X, S. João del-Rey, 10 de janeiro de 1924, nº 508 


3) Pelo "O APOSTATA"

(Respondendo ao padre J. Maria de Siqueira, de S. Gonçalo de Sapucahy)

Como antelóquio, devo dizer ao talentoso critico da minha despretenciosa novella que passarei de largo sobre as nugas que na mesma andou a respigar, como sejam gallicismos hoje integrados no patrimonio da lingua e em relação aos quaes eu me encontro na boa companhia de Eça de Queiroz, Julio Dantas e tanto outros de egual quilate literario; um pronome não apontado, mas considerado como róra de logar e, finalmente, variedades orthographicas que só pódem ser levadas à conta de erros de composição, explicaveis pela minha pavorosa letra galenica.

Isto posto, tomarei tão somente em consideração aquelles dos reparos articulados contra o meu livro, que apparentam algum fundamento – que apparentam, repito, porquanto, em verdade, nenhum delles offerece uma resistencia superior à de uma bolha de sabão, segundo vou deixar demonstrado.

O padre Siqueira não se conforma com o titulo, que dei à novella, porque lhe desvenda, desde logo, o fulcro, ficando o leitor privado do goso intellectual, que em trabalhos desse jaez proporciona o desdobrar da fabulação, e que deve culminar no desfecho da mesma.

A isso respondo eu:
In primo loco, que o meu commentador, como distincto sacerdote que é, não tem o direito de ignorar que a um pae assiste sempre o privilegio de baptizar o seu filho com o nome, que lhe aprouver.

Deinde, que constituem bibliotheca as obras de todos os tempos, cujos titutlos descobrem o seu motivo primordial, a começar na Retirada dos Dez Mil, de Xenophonte, e a terminar no Crime do Padre Amaro, com escalas pela Gerusalemme Liberata, de Tasso, pelo Paradise Lost, de Milton, pelo Orlando Furioso, de Ariosto, pelo La Faute de l' Abbé Mouret, de Zola, pelo Affaire Clemenceau, de Dumas Filho, e por esse romance tão conhecido nos meios religiosos, que é O Martyr de Golgotha, de Perez Escrich. 

Tertioque isso de intrigas complicadas na tessitura de novellas só tem valor para os espiritos puerís, que se comprazem nos generos Ponson du Terrail, Montépin, Gaboriau, Conan Doyle e outros que taes, fabricantes de romances-tenias, emquanto que os verdadeiros intellectuaes, os de mais requintado paladar literario, esses nas composições romanticas fazem questão, antes de tudo, de paginas descriptivas, que retratem ao vivo a natureza tal como foi encarada através de um dado temperamento, de paginas que lhes deliciem o sentimento artistico e lhes façam entrar a alma em vibração.

E, nesse particular, posso affirmar que O APOSTATA, que jamais visou a fazer ninguem chorar, e apesar de ser elaborado em estilo pouco imaginoso, pouco fluente e sem attracção, algo conseguiu do seu implacavel critico, o qual, após lhe haver citado um dos episodios, deixou cair, incontida, da penna a seguinte phrase: – "É lindo este passo". 

Como tanta gente, que do cinema sáe descontente porque a fita não terminou de accordo com o classico alamiré, que exige a punição do vicio e o premio da virtude, mais de um critico, e entre estes o joven padre Siqueira, não me perdôa o suicidio do padre Lourenço, como si fôra uma monstruosidade literaria admittir a possibilidade do suicidio de um sacerdote.

E, no entanto, a dura veritas é que tive no seminario, como companheiro de carteira no repouso, um condiscipulo de conducta exemplarissima, o qual, depois de ordenado, sem que nem para que, um bello dia estourou os miolos com um tiro de garrucha.

Na qualidade de insigne profissional da arte de reger as almas, regimen animarum, o talentoso padre Siqueira põe-se a catar os casus conscientiae da minha novella e a aprecial-os debaixo de seu criterio theologico. Concorda com a solução, que dei a um dos dois que menciona, e qualifica de erroneo o modo pelo qual resolvi o outro.

Ora, valha-me Deus! Nunca pensei, na minha vida, que o meu livrinho tivesse de ser por alguem encarado como um concorrente da obra classica, em que o jesuita Gury concretizou os ensinamentos do seu compendio de moral. 

Como, porém, sou do numero dos que entendem que erudição e sciencia não são privilegios de ninguem, e uma vez que o padre Siqueira me desafia para o terreno da theologia, não tenho sinão que satisfazer-lhe o desejo, com a mesma boa vontade com que o faria, si elle me provocasse ao campo da anatomia, da physiologia ou ainda da pathologia.

Acha o estudioso sacerdote que o vigario Tobias não podia cooperar para o cumprimento do voto, pla mãe de Lourenço formulado, de consagral-o ao ministerio do altar, por ser o mesmo voto nullo por natureza. 

É que, na inexperiencia da sua pouca edade, elle provavelmente enxerga em cada um dos parochos de aldeia do paiz um emulo do dominicano Lépicier, de Benloch y Vivo, de Bonzano ou de Gratino di Belmonte, quando o certo é que entre elles tanto abundam os que de todo são jejunos em theologia, quanto entre os medicos os que não vão além das formulas archaicas de Chernoviz e de Urias da Silveira.

Isso, aliás, não admira, quando se verifica que, nestas brasileas terras, alguns thronos episcopaes, ad exemplum, o de Mariana, – hão sido occupados por individuos, cuja inferioridade de caracter e cuja supina ignorancia se aferem pela circumstancia de não lhes haver tremido a mão, quando approvaram os compromissos de uns tantos sodalicios desta cidade, nos quaes figuram clausulas attentatorias da fraternidade social e da moral christã, como aquellas que recusam a capacidade religiosa para nos mesmos sodalicios se alistarem os mais piedosos dentre os christãos, que pertençam à maldita raça negra, ou à infame raça dos mulatos, ou ainda aos que se derem a uns tantos trabalhos braçaes retudados de natureza degradante.

Tornemos, porém, ao assumpto principal:
Apesar de ser incompossivel com o humorismo a seara theologica, na qual vou ingressar, confesso que acho sumamente pilherico o facto de não ser o meu padre Tobias, mas, sim, o padre Siqueira quem esteja laborando em erro manifesto, a proposito da questão por este ultimo ventilada.

Antes de mais nada, cumpre-me firmar que a egreja nunca profligou o procedimento dos paes, que, sponte propria, assumiram o compromisso de dedicar os filhos ao serviço da religião. 

 Abramos, à aventura, o terceiro volume da obra – Les Vies de Pères des Déserts de l' Orient, publicada pelo padre Michel-Ange Marin, da ordem dos Mínimos, e a paginas 345 leremos que os paes de S. Euthymo résolurent de consacrer au service du Seigneur ce pretieux enfant, que Dieu leur faisait espérer. 

O que, provavelmente, quiz dizer o padre Siqueira, é que o voto da genitora do padre Lourenço era um voto condicionado, e não um voto nullo, conforme lá está no seu artigo.

O voto, acto de latria, é a testificação de uma promessa espontanea, que deve ser formulada para com Deus e relativa ao que de Deus é.

Ora, um voto nullo seria um voto insubsistente, ao passo que o voto condicionado é um voto perfeitamente valido, dada uma certa e determinada condição, que, na hypothese, seria a sua ratificação por Loureço, uma vez chegado elle ao uso da razão e ainda mesmo impubere.

E de que estou com a lidima doutrina catholica é documento inconfutavel aquillo do cap. De voto, de S. Affonso de Ligorio, que passou a citar: 
"Unde, si qui canones videntur indicare, filium a patre religioni devotum teneri eam profiteri, intelligendi sunt, si filius votum patris semel ratificaverit."
Que esse quináu theologico sirva de demonstrar ao esperançoso padre Siqueira que, si um de nós dois escreve inconscientemente de materia religiosa, com certeza... não serei eu.

Si no dominio religioso não se revela o meu censor tão fortemente apparelhado quanto era de esperar, como poderei capitulal-o no dominio literario, quando elle escreve: 
que o autor de O Apostata soube tratar o assumpto escolhido com delicadeza e justeza para fazer um livro máu, defeituoso, o qual se resente da falta de dramaticidade, "sendo pena que Sergio Guido só saiba tirar proveito da religião para effeito dramatico"?;
que o simples titulo e o primeiro capitulo da obra preinstruem o leitor sobre o seu desfecho – o suicidio do renegado, como si todos os apostatas terminem a existencia pelo suicidio e como si de uma simples noticia de bodas, lida em um periodico, seja possivel tirar o horoscopo do casal?;
que "o suicidio foi mal escolhido para desfecho", isso após ter o proprio critico estabelecido, não sei com que fundamento, que o suicidio devia ser a consequencia logica da apostasia e do casamento do protagonista? e 
que oh! esta ultima é de eternas luminarias! – os Lusiadas e Eurico o Presbytero são autobiographias (!!!) quando Camões nasceu no mesmo anno em que baixou ao tumulo Vasco da Gama, e quando o solitario de Val-de-Lobos nunca foi padre na sua vida?

Tenho para mim, por havel-o ouvido de extincto sacerdote amigo, de quem me pungem acerbas saudades e em cuja opinião continúo a louvar-me, que o padre Siqueira é um dos espiritos de escól do clero mineiro.

Por isso, e tão somente em beneficio delle, lembro-lhe aqui as palavras de Humberto de Campos, que encerram uma grande verdade sobre os censores: 
"O critico literario deve ser escolhido entre os homens de saber mais vasto, de criterio mais seguro e de mais comprovada illustração em cada literatura."
Longe estou de contestar que o padre Siqueira disponha de vocação para a critica literaria. O que, por agora, nesse particular lhe escasseia é o cabedal indispensavel, de que, estou certo, virá a ficar fartamente provido, com mais alguns annos de serios e pertinazes estudos.

Sergio Guido
       (Dr. Ribeiro da Silva)     
Fonte: A TRIBUNA, Anno X, S. João del-Rey, 3 de abril de 1924, nº 532.



III.  NOTAS EXPLICATIVAS



¹   Cf. in http://saojoaodel-rei.blogspot.com.br/2013/07/prefacio-do-academico-dr-atico-vilas.html 
Cabe lembrar que "O Apóstata" obteve menção honrosa da Academia Brasileira de Letras, mas recebeu crítica acerba do padre J. Maria de Siqueira, de São Gonçalo de Sapucaí, como se verá a seguir.

²   Esta revista teatral foi levada à cena no Teatro Municipal de São João del-Rei pela empresa Faleiro & Cia., com a orquestra do maestro Targino da Matta, em 18/03/1918. 
(Cf. in 
-->http://www.aborj.org.br/default.asp?menu=15&opcao=8&acao=13
Segundo [GUERRA, 1968: 151], MEU BOI FUGIU teve ainda pelo menos as seguintes seis reprises: a 18 (sic) e 22 de março; a 12 e 20 de abril; a 29 de maio e a 7 de junho do mesmo ano.

³   Também levada à cena no mesmo teatro e com a mesma orquestra, em 19/07/1918. Segundo
[GUERRA, 1968: 154], houve reprises da revista VER PARA CRER em 24 e 28 de julho do mesmo ano.

⁴  ALENCAR, Valéria Peixoto de: Teatro de revista: sátira e vedetes, in http://educacao.uol.com.br/disciplinas/artes/teatro-de-revista-satira-e-vedetes.htm

  GUERRA, Antônio Manoel de Souza: Pequena História de Teatro, Circo, Música e Variedades em São João del-Rei - 1717 a 1967, p. 153.

⁶  Cf. in O Brazil-Medico Necrológico, v. 42, nº 36, p. 1018-9, 8 de setembro de 1928

⁷  NUNES, Augusto: Tancredo, p. 15-29.

 
IV.  BIBLIOGRAFIA CONSULTADA


ALENCAR,Valéria Peixoto de: Teatro de revista: sátira e vedetes, in http://educacao.uol.com.br/disciplinas/artes/teatro-de-revista-satira-e-vedetes.htm

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ODONTOLOGIA-SEÇÃO DO RIO DE JANEIRO: A propósito de Euclides da Cunha, in http://www.aborj.org.br/default.asp?menu=15&opcao=8&acao=13 

A TRIBUNA: São João del-Rei, uma edição de 1923 e duas de 1924.

CINTRA, Sebastião de Oliveira: Galeria das Personalidades Notáveis de São João del-Rei, [S.l. : s.n.]-FAPEC, 1994, 270 p.
Efemérides de São João del-Rei, 2ª edição, Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1982, 2 volumes (622 p.)
Nomenclatura das Ruas de São João del-Rei. INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE SÃO JOÃO DEL-REI. São João del-Rei: 1988, vol. VI,  129 p.

GUERRA, Antônio Manoel de Souza: Pequena História de Teatro, Circo, Música e Variedades em São João del-Rei - 1717 a 1967, Juiz de Fora: Sociedade Propagadora Esdeva-Lar Católico, 1968, 327 p.

GUIDO, Sérgio: O Apóstata (reedição pelo Instituto Histórico e Geográfico de Goiás), Goiânia: Editora Kelps, 2012, 164 p.

NUNES, Augusto: Tancredo, capítulo O Orador Precoce, coleção Os Grandes Líderes, São Paulo: Nova Cultural, 1988, 110 p.

O Brazil-Medico Necrológico, Rio de Janeiro, v. 42, nº 36, p. 1018-9, 8 de setembro de 1928

VILAS BOAS, Ático: Prefácio do Acadêmico Dr. Ático Vilas Boas à recente reedição de O APÓSTATA, da autoria de Sérgio Guido (pseudônimo do Dr. RIBEIRO DA SILVA) in http://saojoaodel-rei.blogspot.com.br/2013/07/prefacio-do-academico-dr-atico-vilas.html 


V.  AGRADECIMENTOS 


Gostaria de deixar aqui consignada minha gratidão a todos os funcionários da Biblioteca Municipal Baptista Caetano de Almeida, de São João del-Rei, pela colaboração à realização desta pesquisa. 
Também gostaria de expressar meu agradecimento à minha esposa Rute Pardini, que colaborou para a perfeita postagem da fotografia do meu biografado.


 
* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ, Academia Divinopolitana de Letras, Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, Academia Taguatinguense de Letras e Academia Barbacenense de Letras. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do nosso patrimônio histórico.Mais...

4 comentários:

Profª Dolores Olívia Ferraz de Oliveira (professora universitária) disse...

Oi Francisco,
foi com enorme prazer que me deliciei com a leitura de seu post
sobre Dr. Ribeiro da Silva!
Me recordei muito do meu tempo de infância, dos casos relatados por minha mãe, Iracema Faleiro Ferraz, relatados por meu avô, Joaquim Faleiro, sobre meu pai, Ignácio Ferraz e Dr. Ribeiro da Silva. Papai era dentista, mas também, um amante do teatro, junto com Nequinha Guerra, atuou em várias peças no Teatro Arthur Azevedo.
Meu avô, Joaquim Faleiro, sempre tratou dos pobres com homeopatia!! Eu me recordo, na infância, sempre tinha alguém buscando homeopatia para algum familiar, que meu avô tão generosamente preparava!
Essa homeopatia, na época da Primeira Guerra Mundial, salvou muita gente da Gripe Espanhola! Epidemia que alastrou no mundo em consequência da Grande Guerra. O médico não dava conta de tantos casos, mandava os doentes para os Faleiros, buscar medicação!
No texto relata também a Companhia dos Irmãos Faleiro, atuando no Teatro Municipal!
Depois te conto mais detalhes pessoalmente!!
Foi muito prazeroso ler sobre alguém que me é familiar à memória da infância!!
Agradeço a oportunidade. Abraços, Dolores Olívia Ferraz de Oliveira

Prof. Antônio de Oliveira (cronista) disse...

Caro primo Francisco,
Onde se pode adquirir um exemplar deste livro do Dr. Ribeiro da Silva? Impresso ou e-book. Um grande abraço. Antônio

Paulo José de Oliveira (escritor, Presidente da Academia Formiguense de Letras e do Clube Literário Marconi Montoli, bem como Diretor Secretário da Federação das Academias de Letras e Entidades Culturais de Minas Gerais-FALEMG) disse...

Obrigado pela socialização meu nobre amigo!
Um abç,
Paulo José de Oliveira

Prof. Mário Celso Rios (professor, escritor e Presidente da Academia Barbacenense de Letras) disse...

Caro BRAGA,
Tudo bem aí?
Agradeço pelos últimos c-es e pelas matérias sempre a resgatar nossa memória sanjoanense! Avante!
Abraço, M. Celso