quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Saudade do grupo escolar


Por Francisco José dos Santos Braga

Artigo dedicado às minhas inesquecíveis mestras do curso primário do Grupo Escolar João dos Santos no período de 1956-1959, que faziam parte daquele corpo docente vitorioso e conduziam as centenas de alunos pelo caminho seguro do Conhecimento.
 
I. INTRODUÇÃO

 
No final do primeiro meado do século XX, o sonho de qualquer casal brasileiro era ter uma filha professora, enquanto o dos rapazes era namorar uma normalista. Ela desfilava com seu uniforme: saia pregueada azul, uma blusa branca, ostentando orgulhosamente um laço de fita no peito e uma estrelinha metálica no colarinho. À sua passagem, despertava suspiros e palavras elogiosas pelo seu charme, elegância e radioso sorriso. A beleza física daquelas normalistas ficou bem retratada em famosa canção de 1949 intitulada "Normalista" — composição de Benedito Lacerda e letra de David Nasser —  perpetuada nas vozes de Nelson Gonçalves e Miltinho:
"Vestida de azul e branco
Trazendo um sorriso franco
Num rostinho encantador..."

"Professorinha", assim era chamada carinhosamente a jovem recém-formada na Escola Normal, que tinha como experiência inicial lecionar numa Escola Rural.

Ser professora era "a" vocação e por ela nutriam verdadeira adoração seus alunos. Era respeitada, admirada e ouvida pelos pais de seus alunos, que lhe davam total liberdade não só para ensinar a seus filhos, mas também para orientá-los e até mesmo corrigi-los, quando necessário. Naqueles tempos, os pais sabiam que as medidas tomadas pela professora eram em benefício da educação e formação moral dos seus filhos. Ela era tão querida que os alunos se amontoavam à sua espera na frente da escola e disputavam o privilégio de carregarem sua pasta e a pilha de livros e cadernos corrigidos.

O seu dia comemorativo era 15 de outubro, ocasião em que a escola programava uma série de atividades em sua homenagem. Os alunos escreviam mensagens e declamavam poesias alusivas aos mestres, sem falar nas redações dos jornais que publicavam bonitas mensagens nos seus periódicos.

Exemplos não faltam da dedicação dessas mestras para organizar e relembrar as efemérides nacionais. Por exemplo, em 21 de abril se comemorava, com grande garbo e desfile pelas ruas da cidade, a morte do Tiradentes. Segue a descrição dessa comemoração, registrada num periódico local:
 
 
II. REGISTROS EM PERIÓDICOS E LIVROS LOCAIS


Grupo escolar "D. Maria Teresa" 

Programma do "Auditorium" de 21 de abril, realizado no grupo escolar "D. Maria Teresa", para commemorar a ephemeride.

Hymno à Bandeira, cantado por todos os alumnos; saudação à Bandeira, alumna Natalya Campos; hymno à Proclamação da Republica, entoado por todos os alumnos.
Conferencia pela professora — Nadyr Rangel, sobre Tiradentes.
Hymno "A Inconfidencia", todos os alumnos.
Recitativos — 
4º anno — No altar do martyr, Corina Rosa Barbosa; 21 de abril, Diva Alves; Tiradentes, Guimar Pereira do Carmo; O Tiradentes, Moacyr Ribeiro; Culto à Bandeira, Laura Guimarães; Tiradentes perante a Alçada, Attilio Fallieri.

3º anno — Conjuração Mineira, Lucy Soares de Jesus; Tiradentes, Natiere Moreira Leite.

2º anno — A cabeça de Tiradentes, Hilda Rodrigues; Tiradentes, Lyres Gomes Ribeiro; Minhas dívidas, Maria José Andrade; Cinema, Marina do Amaral; Somnambula, Maria José Lobato; Tiradentes, Giacomina Moura; 21 de abril, Maria José Lobato.

Fonte: TRIBUNA, Anno XV, nº 975, São João del-Rei, 28 de abril de 1929.

Mesmo ganhando pouco, andando às vezes a pé, a cavalo, de charrete e até mesmo de trem para chegar às escolas rurais, ela era feliz: trajava sempre seu melhor vestido, adornada com anéis, brincos e pulseiras. Não deixava de presentear principalmente seus próprios pais quando recebia seu primeiro salário, com dois ou três meses de atraso.

Não havia greve no magistério. Naquela ocasião, os secretários de Estado da Educação e os ministros da Educação não eram políticos que se preocupavam apenas com a política partidária. Antes, eram, geralmente, pessoas identificadas com a educação, educadores natos.

Estou falando de uma época em que atuava em São João del-Rei o Tenente João CAVALCANTE (Passagem de Mariana, 18/05/1902-Petrópolis, 14/08/1985), que, segundo [GUERRA, 1968; 179] "foi um dos grandes valores que a nossa cidade conquistou e aqui realizou o milagre de organizar a maior e melhor orquestra Sinfônica de cidades do interior de Minas. Foi também, por muitos anos, regente da Banda de Música do 11º Regimento de Infantaria." ¹ Também aqui fundou o Orfeão da Escola Normal (Colégio Nossa Senhora das Dores)." Acrescento o fato de que o Tenente João Cavalcante foi o compositor do hino desse colégio, que pertencia à Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei.
 
 
III. MINHAS LEMBRANÇAS ESCOLARES
 
 
Minha mãe, Celina dos Santos Braga, normalista em fins de 1945, lecionou durante um ano numa escola rural na estação ferroviária de César de Pina. Relembrava com saudade ter sido mestra dos filhos de João Longatti, entre outros, e ter sido madrinha de uma das filhas dele, Amélia Conceição.

Diante do pedido de casamento por parte de meu pai, Roque da Fonseca Braga, minha mãe abandonou a profissão de professora em 1947, para se dedicar exclusivamente à educação de seus filhos. O povo dizia que marido que se prezava não ficava dependente do salário de sua noiva professora, preconceito imperdoável eis que afastava da sua missão tantas professoras. Por isso, muitos noivos, como meu pai Roque e meu tio Júlio Teixeira, pediam em casamento suas noivas, desde que abandonassem a profissão de educadora. Muitas interromperam definitivamente, como minha mãe Celina e minha tia Olga, sua carreira pedagógica.

Depois de décadas, tive grande emoção ao pisar o mesmo pavimento do meu antigo Grupo Escolar João dos Santos ², do lado direito do Córrego do Lenheiro, da lendária São João del-Rei e entrar numa das antigas salas de aula do antigo educandário onde fui escolarizado. Foi bom percorrer outras salas, até o grande salão onde funcionava a diretoria, em que minha mente infantil registrou as imagens das professoras Mercedes Passarini de Resende Ferreira ("Cecê") e Beatriz Leite de Andrade: a primeira, ao piano, comunicativa e de grandes dotes artísticos, e a segunda, diretora altiva e de alta linhagem, já que irmã do grande orador são-joanense Dr. Belisário Leite de Andrade. Das janelas abertas, constatei com tristeza que não mais conseguia avistar as palmeiras plantadas por Dr. Paulo Lustosa no quintal do seu solar para cada um dos seus onze filhos. Simplesmente foram arrancadas: deixaram de existir.
 
Segundo minha irmã Celina Maria Braga Campos, Cecê costumava convocar determinada turma para ensaio de certo hino cívico a ser cantado em uma data futura. Os escolares, então, se postavam ao redor do piano na sala da diretoria e recebiam a lição no primeiro e nos próximos contatos com a música e letra do hino. No dia da comemoração programada, todas as turmas já estavam devidamente treinadas e prontas e sem titubear para a apresentação comunitária.

Sobre Cecê, relembro o hino de despedida do Grupo cantado por todas as crianças do 4º ano primário, despedindo-se de seu querido grupo escolar em festividade solene no Teatro Municipal local. Na ocasião, eu tinha dez anos. Era final do ano de 1959. A melodia foi retirada da última parte do Estudo Op. 10 nº 3 em mi maior ("Tristesse") de Chopin. Cecê era a pianista e provavelmente autora também da letra abaixo:

Adeus, companheiro,
Com que saudade,
Vamos deixar
O grupo escolar.

E, ao partir,
Nós te louvaremos com fervor
E exaltaremos nossa escola
Tão amada e tão querida.

E, ao partir,
Cheios de emoção,
Deixamos aqui
Nossa gratidão.

Adeus, adeus...

Adeus, adeus.

Cecê também tocava "Le Tambourin" de Jean-Philippe Rameau, com letra provavelmente composta por ela própria e que dizia:

Tamborzinho alegre,
Toca, toca...
Sempre sorridente,
Juvenil.

Teu rufar sonoro
E cadenciado
Tem muitos encantos
Tem encantos mil.

Tamborzinho alegre,
Toca, toca...
Teu rufar sonoro,
Rufa, rufa...

Toca, toca,
Rufa, rufa,
Toca sempre,
Tamborzinho. (Da capo al fine)
 
Não poderia findar estas breves recordações, sem mencionar a excelência das apresentações de Cecê tocando ao piano o acompanhamento de hinos cívicos inesquecíveis, como o hino oficial da cidade (letra de Bento Ernesto Júnior e melodia por Carlos dos Passos Andrade Silva), hino à Bandeira Nacional (música de Antônio Francisco Braga e letra por Olavo Bilac), Hino Nacional Brasileiro (música de Francisco Manoel da Silva e letra por Osório Duque Estrada), hino do Grupo Escolar João dos Santos (música de João Américo da Costa e letra por José Américo da Costa) e a Canção do Expedicionário (música de Spartaco Rossi e letra por Guilherme de Almeida).

Perambulando pelas antigas salas, pareceu-me entrever, apressadas e solícitas, minhas professoras do curso primário Eneida Simões Alves, Zilda Natalina Gonçalves Gomes, Yvane Leite de Andrade e Beatriz Maria de Resende Silva. Mais tarde, houve outras mestras portadoras de títulos notáveis. Mas nenhuma delas marcou tanto a retina dos meus olhos quanto aquelas seis primeiras que encantaram os alegres anos do meu curso primário.



IV. NOTAS  EXPLICATIVAS


¹ A TRIBUNA: São João del-Rei, Anno XV, nº 975, São João del-Rei, 28 de abril de 1929

² Nas "Ephemerides Mineiras" de José Pedro Xavier da Veiga pode-se ler na data 2 de abril de 1881 a seguinte anotação: "Inaugura-se na florescente e adiantada cidade de São João d'El-Rey a 'Escola João dos Santos', fundada, patrioticamente, pelo dr. visconde de Ibituruna, que mais tarde (1889) foi o ultimo presidente desta provincia." Tal informação me foi repassada pelo confrade Francisco Oliveira, da Academia Barbacenense de Letras, o qual anotou ainda que tal registro foi publicado no Fascículo do Ano III, 1898, pela Imprensa Oficial, ainda em Ouro Preto, na página 291 da Revista do Arquivo Público Mineiro, cobrindo o período de 1696 a 1896.
 
 
V. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 


BRAGA, Francisco José dos Santos: O cinquentenário do Grupo Escolar João dos Santos (26/7/1908-26/7/1958), publicado no Blog de São João del-Rei em 7/10/2016.
 
GUERRA, Antônio Manoel de Souza: Pequena História de Teatro, Circo, Música e Variedades em São João del-Rei - 1717 a 1967, Juiz de Fora: Sociedade Propagadora Esdeva - Lar Católico, 327 p.
 
VEIGA, José Pedro Xavier da: Efemérides Mineiras, Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro (Centro de Estudos Históricos e Culturais), 1998, vol. 1-4

2 comentários:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
É de Mário Quintana essa definição de saudade: "A saudade é o que faz as coisas pararem no tempo."
Pois bem, este sentimento perpassa o artigo que lhe envio, onde relembro alguns momentos passados dentro do Grupo Escolar João dos Santos, em companhia de grandes amigas, as inesquecíveis professoras que contribuíram para que os primeiros passos de meu desenvolvimento intelectual e emocional me conduzissem a atitudes positivas na escola e, mais tarde, com reflexo no campo da minha literatura.

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2015/06/saudade-do-grupo-escolar.html

Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei

Francisco José dos Santos Braga disse...

Anderson Braga Horta (poeta, escritor, ex-presidente da ANE-Associação Nacional de Escritores e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, cujo livro mais recente de novembro 2024, Iniciações, revisita os anos felizes de sua infância na Cidade de Goiás) disse...

Valeu, Francisco.
Obrigado.
Anderson