quinta-feira, 16 de junho de 2016

S. JOÃO D'EL-REI, por Afonso Celso





Afonso Celso


Pittoresca localidade S. João d'El-Rei! Tiradentes, há um século, reservava-a para capital do estado livre que sonhara fundar. 

Como nas grandes metropolis européas, corta-a um rio pelo meio. Risonho e attrahente o aspecto geral. Outr'ora opulento empório de mineração. 

Cidade de verão das mais procuradas, hoje em dia,  delicioso clima, casando o conforto de um centro civilisado à salutar simpleza campesina. População genuinamente mineira: lhana, affavel, independente.

Magnificas igrejas dominam-lhe as eminências.

S. João goza da justa celebridade de ser talvez o ponto do Brasil onde mais solemne pompa revestem as cerimonias da liturgia christã. Musica religiosa, não a ouvi ainda tão impressionadora como alli.

N'um dos templos, mostra-se imagem devida, no dizer da chronica, ao celebre Aleijadinho, vulto lendário de Minas, artista inculto e genial, cuja tradição bisarra vive na imaginação popular, em curiosos traços sobrenaturaes. Contam que, depois de levar annos estudando o mecanismo das azas dos passaros, fabricou um apparelho com o qual conseguia voar. Apezar da deformidade physica de que lhe resultou o appellido, artista insigne era-o, sem duvida: esculptor e architecto. Producções realmente notáveis attestam o seu valor. Contractava a confecção de figuras de santos, sua especialidade; encerrava-se semanas inteiras n'um aposento, sem instrumentos visiveis de trabalho e recusando tomar alimentação. Sumia-se um bello dia mysteriosamente, deixando a obra acabada, quasi sempre um primor.

Em virtude de prescripção medica, sahiamos quotidianamente, minha esposa e eu, perambulando sem rumo. Recordávamos essas tocantes legendas e admirávamos a incomparável natureza, respirando o ar diaphano e puro. Subíamos a ladeira de um morro que sobrancêa a povoação, coroado de pequena capella. Sentados nos degraus da entrada, esquecíamos as horas, observando as casas,    manchas brancas orladas de verde , os campos ondulados e, serpejando ao longe o rio das Mortes, assim sinistramente denominado, por causa de obscuras guerras nos tempos coloniaes.

Seguíamos outras occasiões pela rua larga à margem do rio. Eleva-se ahi a cadêa. Em monótona inacção penduram-se os condemnados às grades, mettendo a cabeça por entre os varões. Distrahem-se a ver os transeuntes. Caras sinistras e lividas    grenhas immundas. Causavam-nos pena e vago terror. Em certas horas suscitavam-nos admiração.

Custava-nos a crer houvesse no mundo crimes e criminosos!


(Extraído de) Minha filha

FonteAnthologia Brasileira: Collectânea em prosa e verso de escriptores nacionaes, 1900, p. 71-73. ¹




II.  APONTAMENTOS SOBRE O AUTOR, por Francisco José dos Santos Braga


Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior, titulado Conde de Afonso Celso pela Santa Sé, mais conhecido como Afonso Celso (⭐︎ Ouro Preto, 1860 ✞ Rio de Janeiro, 1938), foi professor, escritor, poeta, historiador e político brasileiro. Filho do Visconde de Ouro Preto, último presidente do Conselho de Ministros do Império, foi eleito deputado geral por Minas Gerais por quatro mandatos consecutivos. Com a proclamação da República, abandonou a política para acompanhar o pai no exílio na Europa. 

Em 1897, Afonso Celso foi sócio-fundador da Academia Brasileira de Letras, da qual foi presidente em duas oportunidades: em 1925 e em 1935.

Em 1892, ingressou no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro na qualidade de sócio efetivo. Após a morte do Barão do Rio Branco, em 1912, foi eleito presidente perpétuo desse sodalício, ou seja, até 1938.

Afonso Celso casou-se com Eugênia Batista de Castro, uma das filhas do Barão de Itaípe, em 1884. Dessa união nasceram Maria Eugênia Celso de Assis Figueiredo, Maria Elisa, Afonso Celso e Carlos de Ouro Preto. Dos quatro destacou-se sobremodo a filha Maria Eugênia Celso (⭐︎ São João del-Rei, 19/04/1886 ²  ✞ Rio de Janeiro, em 06/09/1963), mudando-se ainda criança para Petrópolis e, mais tarde, fixando residência no Rio de Janeiro. 


III.  NOTAS EXPLICATIVAS, por Francisco José dos Santos Braga



¹  Como se observa, foi mantida a grafia da época em que o texto "S. João d'El-Rei" foi escrito.

Na referida Anthologia Brasileira, o texto de Afonso Celso é precedido por sua breve biografia até aquela data (ano de 1900),  portanto não incluindo seus dados biográficos e obras posteriores àquela data,  – verbis  
"é um dos vultos mais sympathicos da nossa literatura hodierna, pela naturalidade e expontaneidade com que escreve. Tem composições poéticas delicadíssimas e em prosa tem paginas de incontestável merecimento. Politico militante no antigo regimen, é depois da Republica que mais se tem accentuado a sua individualidade literária, a julgar, pelo menos, pela qualidade e pela quantidade das suas producções após o advento do regimen democrático.  
Affonso Celso tem publicado: Prelúdios, Devaneios, Telas sonantes, Poemetos, Camões, Vultos e factos, Minha filha, O Imperador no Exílio, Lupe, Rimas de outr'ora, Notas e ficções, Um invejado, Guerrilhas, Giovanina, romance dialogado à feição de Ibsen, Contradictas monarchicas, etc., e traduziu em verso a Imitação de Christo. Escreve assiduamente na Revista Brasileira. Pertence à Academia Brasileira de Letras e ao Instituto Histórico (e Geográfico Brasileiro).  
É oficial da Legião de Honra, de França." 


FonteAnthologia Brasileira: Collectânea em prosa e verso de escriptores nacionaes, 1900, p. 71-73.

²  A data de nascimento de Maria Eugênia Celso tem sido motivo de disputa por parte dos pesquisadores. Fernando Góes indica 1886 como o ano de seu nascimento, enquanto Domingos Carvalho da Silva considera  o ano de 1887 e Afrânio Coutinho, 1890. 

O historiador e genealogista [CINTRA, 1994, p. 220-1] informa que Maria Eugênia Celso nasceu a 19 de abril de 1886. Idem,  registra o nome de sua mãe, a são-joanense D. Eugênia de Castro Celso, filha do médico Dr. Carlos Batista de Castro e de D. Maria José Batista de Castro, Barões de Itaípe e sogros do Embaixador Gastão da Cunha.


IV.  BIBLIOGRAFIA CONSULTADA



1.  Biografia do Conde Afonso Celso na Coleção Brasileiros Ilustres em Petrópolis, por Jeronymo Ferreira Alves Netto in http://ihp.org.br/26072015/lib_ihp/docs/jfan20030106.htm

2.  Biografia do Conde Afonso Celso na Academia Brasileira de Letras in
http://www.academia.org.br/academicos/afonso-celso/biografia

3.  Biografia do Conde Afonso Celso na Wikipedia in

https://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_Celso_de_Assis_Figueiredo_J%C3%BAnior

4.  Anthologia Brasileira: Collectânea em prosa e verso de escriptores nacionaes, Petrópolis: Typ. da Pap. Jeronymo Silva - Avenida 15 de Novembro, nº 85, 1900, 475 p., in http://www.archive.org/stream/anthologiabrasi00unkngoog/anthologiabrasi00unkngoog_djvu.txt (Edição comemorativa do IVº Centenário do Descobrimento do Brasil)
Acesso em 14/06/2016.

5.  Biografia de Maria Eugênia Celso pode ser apreciada in "Amores de Abat-jour: a cena teatral brasileira e a escrita de mulheres nos anos vinte", por Kátia da Costa Bezerra, in http://r.search.yahoo.com/_ylt=A0LEVr5wCmJXB3IAXNUf7At.;_ylu=X3oDMTBya3R2ZmV1BHNlYwNzcgRwb3MDNARjb2xvA2JmMQR2dGlkAw--/RV=2/RE=1466071793/RO=10/RU=https%3a%2f%2fjournals.ku.edu%2findex.php%2flatr%2farticle%2fdownload%2f1360%2f1335/RK=0/RS=V6i_2zNfyxMDhu9SSI1Xw.jJ_QA-
Acesso em 14/06/2016.

6.  CINTRA, Sebastião de Oliveira: Galeria das Personalidades Notáveis de S. João del-Rei, São João del-Rei: 1994, 270 p., publicado com o apoio da FAPEC-Fundação de Apoio à Pesquisa, Educação e Cultura.

10 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (escritor, pianista e compositor, gerente do Blog de São João del-Rei e do Blog do Braga) disse...
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Francisco José dos Santos Braga (escritor, pianista e compositor, gerente do Blog de São João del-Rei e do Blog do Braga) disse...

Visitantes ilustres brasileiros estiveram em São João del-Rei ao longo de sua história e não poucos deixaram interessantes relatos e importantes testemunhos sobre a sua estada na histórica cidade mineira.

Recentemente o Blog de São João del-Rei publicou os frutos da visita do engenheiro e naturalista Álvaro Astolpho da Silveira em 1894, de que resultou sua descrição e primeiro mapeamento da "Casa da Pedra".

Desta feita, será publicada, acompanhada de meus comentários, página em prosa intitulada "S. João d'El Rei", que se encontra no livro "Minha Filha", da autoria de AFONSO CELSO, pai de Maria Eugênia Celso, esta, natural de São João del-Rei (1890-1963) e escritora, jornalista, poetisa, radialista, defensora, juntamente com Bertha Lutz, da causa de adoção do voto feminino no Brasil e patrocinadora de várias entidades assistenciais.

Será mantida a grafia conforme apareceu na Anthologia Brasileira lançada em 1900 (Edição Comemorativa do IVº Centenário do Descobrimento do Brasil).

Paulo Roberto Souza Lima (escritor e gestor cultural) disse...

Li. Parabéns pela recuperação e divulgação do texto.

Bernardo Maurício Diniz (professor da rede pública do Distrito Federal) disse...

Muito bom! Obrigado.

Eric Tirado Viegas (tradutor, poeta e escritor, proprietário dos blogs Eric Ponty Poesia Reunida, Éric Ponty-Poesia Contemporânea e http://oranicefranco.blogspot.com.br/ (acervo de Oranice Franco), e membro da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

FJSBRAGA
sempre brilhante e dedicado.
eric

Prof. Fernando Teixeira (professor universitário, escritor, poeta e Secretário Geral da Academia Divinopolitana de Letras) disse...

Amigo Braga, grato pelo envio do notável documento. Abraço para você e Rute. Fernando Teixeira

Ruth do Nascimento Viegas (presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de São João del-Rei) disse...

Prezado amigo,
Agradecida,
Ruth.

Marcio Pozzato disse...

Braga, li o texto, gostei muito, bem como de seus apontamentos sobre o autor.
Estou repassando para o advogado Zanzoni.
M. Pozzato.

Eduardo Oliveira (ex-salesiano e animador sociocultural) disse...

Bom dia, Francisco.

Quando eu for a São João, vou avisar para que você registre a visita de tão ilustre personagem rsrsrs

Forte abraço.

Ulisses Passarelli disse...

Mais um excelente texto. Suas postagens, prezado Braga, são sempre admiráveis. Gostei especialmente da citação à qualidade de nossa música e liturgia.
Abraço cordial,
Ulisses Passarelli