sábado, 18 de março de 2017

FALECIMENTO DO ESCRITOR DR. ROQUE CAMÊLLO CONSTITUI IRREPARÁVEL LACUNA NA COMUNIDADE CULTURAL DE MINAS E DO BRASIL


Por Francisco José dos Santos Braga


Por onde começar a chorar o que fiz ao longo da vida?/Quais serão os primeiros acordes desse canto de luto?/Concede-me, ó Cristo, o perdão dos meus pecados (...)
Tal como o oleiro amassando a argila,/Tu me deste, ó meu Criador, carne e ossos, espírito e vida./Senhor que me criaste, meu juiz e meu Salvador,/Leva-me hoje de volta para Ti. (...)
Fonte: Comentário do Dia por Santo André de Creta (660-740), monge, bispo: Grande cânone da liturgia ortodoxa para a Quaresma, 1ª Ode

Dr. Roque Camêllo (☆ Mariana,  16/8/1942 ✞ Belo Horizonte, 18/3/2017)

Como gerente do Blog de São João del-Rei, cumpre-me a dolorosa missão de informar a todos os seus leitores que acabo de tomar conhecimento do falecimento do colaborador deste Blog e meu amigo especial, o marianense Dr. Roque Camêllo, nesta data de 18/03/2017 em Belo Horizonte. 

Desde cedo, em 1979, mostrou com desassombro sua audácia e amor filial, tendo figurado como proponente do projeto que instituiu o Dia do Estado de Minas Gerais, comemorado em todo o território mineiro em 16 de julho, data coincidente com o aniversário de Mariana, primeira vila e primeira capital de Minas.

Na política militou como vereador, vice-prefeito e prefeito municipal de Mariana, tendo desempenhado esses cargos com lisura e senso de responsabilidade, virtudes pelas quais é lembrado. Como ex-prefeito de sua amada terra natal, Mariana,  assumiu para si as causas mais nobres desse Município como um de seus filhos mais aguerridos, tendo sido uma figura presente e preeminente nos meios de comunicação em defesa dos seus valores culturais, religiosos e materiais, especialmente neste momento crucial de responsabilização de firma mineradora, que ganhou destaque após o desastre do rompimento de barragens em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, em 5 de novembro de 2015, naquilo que foi considerado o maior desastre ambiental de Minas Gerais.  

Roque José de Oliveira Camêllo era natural de Mariana. Passou a infância no Piteiro, lugarejo pertencente ao distrito de Bento Rodrigues.  Nas carteiras do Seminário de Mariana, aprendeu a ser abnegado e repleto de ideais, principalmente no que se referia à defesa da cultura e dos patrimônios de Mariana e, consequentemente, de Minas Gerais. Segundo ele, "proteger as cidades históricas é preservar a História Mineira e dar exemplo para todos os municípios fazerem o mesmo."  O conteúdo de seu currículo naquele estabelecimento católico para seminaristas avivou-lhe um forte sentimento de pertença. Foi assim que lhe coube exercer o papel fundamental dentro da Arquidiocese de Mariana, como Diretor Executivo da Fundação Cultural e Educacional da referida Arquidiocese (Fundarq), instituição que desenvolve projetos de preservação e restauração do patrimônio cultural existente em cidades históricas como Mariana, Ouro Preto, Congonhas, Santa Bárbara, Catas Altas e outras. Relevantes serviços foram prestados por Dr. Roque Camêllo nessa função. Cabe mencionar que, sob sua direção, foi o responsável pela segunda reforma do Órgão Arp Schnitger da Catedral de Mariana e restauros do Santuário Nossa Senhora do Carmo, cujo sinistro em 1999 destruiu quase todo o templo e o antigo Palácio dos Bispos, hoje sede do Museu da Música. Releva destacar que esses trabalhos de Dr. Roque Camêllo eram voluntários.

Dr. Roque Camêllo deve ainda ser lembrado como proponente, em 2002 e 2004, do projeto de certificação e inscrição do acervo do Museu da Música de Mariana no programa "Registro Memoria del Mundo" da UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, deferido em 2011. Em dezembro 2007, comemorou esse patrimônio com um artigo publicado pela Casa dos Contos, Revista do Centro de Estudos do Ciclo do Ouro, do Ministério da Fazenda, intitulado "Museu da Música, uma Relíquia da Cultura Brasileira". Além disso, importa relembrar que teve participação ativa em diversas entidades culturais de Minas Gerais e de outros Estados.

Nos últimos anos, vinha presidindo, com muita eficiência, a Comissão de Defesa do Patrimônio Histórico da OAB/MG. Era formado pela UFMG nos cursos de Letras e Direito, exercendo a advocacia e o magistério. Um lado pouco conhecido de Dr. Roque Camêllo é a sua dedicação à atividade docente, que lhe granjeou celebridade nos estabelecimentos de ensino por onde passou. Fundou e dirigiu, em Belo Horizonte, o Colégio São Vicente de Paulo, tendo sido também professor dos Colégios Santa Doroteia, Dom Cabral, Estadual de Minas Gerais, Alfredo Baeta e Arquidiocesano de Ouro Preto. Vinha também exercendo a função de Conselheiro da Associação Universitária Internacional (AUI), sediada em São Paulo, da qual era o Diretor Regional para Minas Gerais, com prestação de trabalho voluntário.

Por todas essas meritórias ações em favor de Mariana e Minas Gerais, fez-se digno de receber diversas comendas, dentre as quais se destacam as seguintes Medalhas: Comemorativa do Dia do Estado de Minas Gerais, Santos Dumont do Governo de Minas Gerais, Ordem dos Bandeirantes, Câmara Municipal de Belo Horizonte, Justiça Federal-Seção Judiciária de Minas Gerais, Poder Judiciário-Comarca de Mariana, Câmara Municipal de Mariana, "Centenário da Academia Mineira de Letras", Medalha João Pinheiro e Comenda da Liberdade e Cidadania dos Municípios de São João del-Rei, Tiradentes e Ritápolis.

Ultimamente, Dr. Roque Camêllo optou por ser empresário da construção civil, atuando principalmente na capital mineira.

Era membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, ocupante da Cadeira nº 66, patroneada por Princesa Isabel.

Deixei de propósito para o fim desse elogio fúnebre mencionar a sua principal motivação existencial: seu envolvimento pessoal com as letras. Presidia com muita competência a Casa de Cultura-Academia Marianense de Letras, igualmente com prestação de trabalho voluntário e como forma de retribuir à sua terra natal o muito que recebeu. Tendo eu comparecido com relativa frequência àquele Sodalício desde 2011 como secretário de Relações Institucionais do IHG são-joanense, pude aquilatar a dedicação do "eterno presidente" à condução das reuniões ordinárias e admissão de novos membros. Nas cerimônias em que os neoacadêmicos faziam apologia de seus patronos, ele se sobressaía com sua capacidade de líder inconteste e domínio das letras nacionais. Quando se tratava de fazer um aparte, nenhum orador superava Dr. Roque Camêllo em juízos emitidos com elegância e "finesse", como o vi atuar em diversas Academias ou entidades congêneres (tais como na Academia Marianense de Letras, nas oportunidades em que lá estive presente, e na Academia Barbacenense de Letras, por diversas vezes, sempre em companhia de sua esposa Dra. Merania de Oliveira; no IHG de São João del-Rei, quando de meu discurso de posse em defesa do meu patrono, condição para tornar-me ocupante da Cadeira nº 22, patronímica de Lincoln de Souza; na Academia Formiguense de Letras, quando compareceu em 25/10/2014 para prestigiar  a minha posse como Acadêmico correspondente nacional na Cadeira nº 4 patroneada por João Guimarães Rosa; finalmente, na Academia Divinopolitana de Letras, quando compareceu em 14/12/2016 para igualmente prestigiar, sempre em companhia de sua esposa Dra. Merania, a minha posse como Acadêmico efetivo na Cadeira nº 11, patronímica de Pe. Antônio Vieira). Nessas ocasiões, era comum todos se calarem para ouvir o orador, a um só tempo, profundo e espontâneo, que firmava conceitos, levantava hipóteses, argumentava com argúcia e concluía com exatidão.  
Além disso, presenciei seu profundo conhecimento dos assuntos relacionados a São João del-Rei, quando, em novembro de 2011, durante o 3º Ciclo de Estudos sobre o Tiradentes, promovido pelo IHG são-joanense, trouxe Dr. Roque Camêllo ao conhecimento dos confrades que a folha que continha o Auto de Levantamento em vila, datado de 1713, que se achava em livro do Arquivo Público Mineiro, havia sumido, ou mais precisamente, arrancada com corte preciso de estilete. Naquela ocasião, manifestou seu desejo de encontrar tal documento tão importante para São João del-Rei.

Por todas essas razões expostas, acho que o legado de Dr. Roque Camêllo para Mariana e Minas Gerais vão além dos limites territoriais dessas unidades da Federação e podem seus trabalhos ser considerados um preito de louvor ao bom Direito e às letras nacionais. Caberá à sua doce Dra. Merania, que lhe sobrevive, divulgar a sua existência exemplar e sua obra digna dos maiores encômios.

Por ocasião do 305º aniversário de fundação da primeira vila de Minas Gerais, onde se estabeleceu a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, no princípio de abril de 2016, Dr. Roque Camêllo lançou seu último livro "Mariana - Assim nasceram as Minas Gerais: uma visão panorâmica da História" (Belo Horizonte: Nitro Editorial, 2016, 232 p.), que é considerado um tributo aos primórdios da formação da sociedade mineira, pois revela fatos históricos que influenciaram diretamente a construção de Minas Gerais e do Brasil, a partir do século XVII. O coordenador editorial do livro, Gustavo Nolasco, seu confrade na Academia Marianense, resumiu brilhantemente o conteúdo do livro: "A obra é uma jazida de grandes preciosidades da história mineira e brasileira, desde o século XVII, garimpadas com maestria por um dos maiores estudiosos do assunto no País."

15 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Como gerente do Blog de São João del-Rei, cumpre-me a dolorosa missão de informar a todos os seus leitores que acabo de tomar conhecimento do falecimento do colaborador deste Blog e meu amigo especial, o marianense Dr. Roque Camêllo, nesta data de 18/03/2017 em Belo Horizonte.
Em sua homenagem produzi nesta data sombria o seguinte elogio fúnebre:

João Carlos Ramos (poeta, escritor, presidente da Academia Divinopolitana de Letras e sóbio correspondente da Academia de Letras de São João del-Rei e da Academia Lavrense de Letras) disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Prof. José Lourenço Parreira (capitão do Exército, professor de música, violinista, maestro e escritor, além de diretor do "Evangelho Quotidiano") disse...

Caríssimo amigo FRANCISCO BRAGA, lamento o passamento do Dr Roque, não só pelo que ele representou para Minas Gerais, mas principalmente por ser precioso amigo aos seus olhos e coração!

Doeu-me, na alma, o lamento do Dr Roque ao informar, em São João del-Rei, que um bandido cortara com estilete preciosa página de documento da nossa História. Anátema!

Forte, fraterno e saudoso abraço, caríssimo Braga.

PAZ!

Dr. Rogério Medeiros Garcia de Lima (desembargador, escritor e membro da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

Marianense ilustre.

João Carlos Ramos (poeta, escritor, presidente da Academia Divinopolitana de Letras e sóbio correspondente da Academia de Letras de São João del-Rei e da Academia Lavrense de Letras) disse...

Dr. ROQUE CAMELLO


POETA- JOÃO CARLOS RAMOS


O vi apenas uma vez e não precisei vê-lo mais...
Basta ver uma montanha
no entardecer e ficar admirado
se sentindo pequeno
como a flor do cerrado.
Quanto aos elogios,
altamente necessários,
deixo por conta do Francisco dos Santos Braga,
amigo fiel na hora extrema.
A morte não muda nada
para quem mudou tudo em vida.
Aguardemos a ressurreição
do CAMELLO na alvorada!

Divinópolis, 18/03/2017

Eudóxia de Barros (pianista e membro da Academia Brasileira de Música) disse...

Muito lamentável!
Sinceros pêsames !
Eudóxia.

Carlos Fernando dos Santos Braga (Carlos Fernando dos Santos Braga (administrador, funcionário da Casa da Moeda no Rio de Janeiro, cedido à UFSJ-Universidade Federal de São João del-Rei, e ex-Chefe de Gabinete do MARE-Ministério da Administração e Reforma do Estado em Brasília) disse...

Francisco,

Que lástima! Meus pêsames pela perda irreparável.

Tive a oportunidade de encontrá-lo por duas vezes: - a primeira na Câmara Municipal Sanjoanense, durante o Seminário "Meandros da Inconfidência Mineira" ocorrido nos dias 12 e 13 de novembro de 2015 e patrocinado pelo IHG são-joanense, e a segunda na Academia Divinopolitana de Letras, no dia 14/12/2016, quando de sua posse como Acadêmico da ADL. Em ambas tive o prazer de estar ao seu lado e conversar sobre assuntos vários de nossa terra natal. Ainda esperava encontrá-lo mais vezes.
Nossa despedida foi no café da manhã, no restaurante do JB Palace Hotel.

Que Deus O tenha.

Seu irmão Fernando Braga

Paulo Eduardo Cabral (Presidente do IHG do MS) disse...

O Instituto Histórico e Geográfico de MS solidariza-se com o pesar dos familiares e confrades do Dr. Roque Camêllo.
Nossos sentimentos.

Benjamin Batista (presidente da Academia de Cultura da Bahia, showman e barítono de sucesso) disse...

Uma perda lamentável. Que Deus na sua infinita bondade se apiede de sua alma. Abraços

Ozório Couto (jornalista, editor da revista Leitura, publicação da Associação dos Lojistas de BH, escritor e membro do IHGMG) disse...

Caro Braga.
Parece que eu o vi lá em Mariana, na hora da saída do Roque para a igreja. Na hora eu queria perguntar se era você. Mas estava com três amigos, um casal que ia para Belo Horizonte, a Dra. Cândida, nossa confrade e da UFMG, e seu esposo Márcio, oftalmologista, e a professora Eloíza, que ia para Luz, esposa do juiz de Dores do Indaiá, Dr. José Adalberto Coelho, que estudou com Roque em Harvard, super amigos. Distraí e não o vi mais. Se era você, foi uma pena não o ter abraçado. Roque foi uma pessoa sensacional, um grande mecenas, profissional, amigo e um patrimônio mineiro. Lamentável ter ido tão cedo.
Um abraço.

José R. B. Bechelaine (Acadêmico da Academia Divinopolitana de Letras) disse...

Agradeço e igualmente lamento a perda do ilustre marianense.

Elisa Freixo (organista) disse...

Francisco, abraço

Estive lá tocando a missa de corpo presente

Uma perda para Mariana!
Elisa F

Paulo Roberto de Sousa Lima disse...

Li, emocionado, o seu texto laudatório ao nosso amigo e colega Roque Camello. A descrição dos seus feitos demonstram a grandeza da sua alma e o compromisso histórico com sua terra, essa linda e eloquente Mariana, cada vez mais bonita e imponente com as ações empreendidas pelo companheiro Roque. A sua lembrança da Merania faz justiça a camaradagem que sempre marcou os vínculos entre ela e o Roque Camello. Ficamos um pouco mais órfãos de amigos nessas enlutadas terras de Minas Gerais.

Dra. Merania de Oliveira (jornalista, membro da Academia Marianense de Letras e viúva do ex-presidente Dr. Roque Camêllo) disse...

Dr. Francisco Braga,

Agradeço-lhe muito pelo belo texto que escreveu sobre Roque. Tocou-me profundamente. O senhor soube descrever com maestria o trabalho voluntário do Roque. Ele era um admirador do seu, como eu também o sou. Sempre dizia: "Dr. Francisco Braga é um dos mais cultos intelectuais do Brasil".

Procurei-o e a querida Rute, após o sepultamento, para convidá-los para ir a nossa residência, mas não os encontrei. Meu celular havia descarregado. Sou-lhe muito grata pela atenção do casal.

Tentei postar um comentário no seu blog e não consegui. Outras vezes já tentei também e não sei o que acontece, não dá certo.

Abraços extensivos a Rute.

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezada Dra. Merania,
Bom dia!
Tenho em alta conta a apreciação que fez do meu trabalho, pequeno demais para descrever a grandeza do nosso Dr. Roque, figura culta e cordial, incentivador cultural e, sobretudo, cidadão marianense, disposto a tudo para ver reconhecido o brilho de sua terra natal.
Com o meu texto não tive a preocupação de ser exato ou correto, mas queria que ele refletisse a amizade que privamos por seis anos corridos, sem nenhum gesto de deslealdade.
Por isso, cara amiga, sou muito grato ao casal que sempre me prestigiou, emprestando seu apoio incondicional a todas as minhas iniciativas, que não foram poucas.
De nenhum gesto carinhoso seu me esqueço. Tenho a certeza de que ainda vou retribuí-lo, quando o momento se apresentar.
Abraço cordial do amigo e admirador.