domingo, 6 de janeiro de 2019

A INAUGURAÇÃO DA HERMA DO PADRE JOSÉ MARIA XAVIER


Por Francisco José dos Santos Braga 

Herma do Revmo. Pe. José Maria Xavier, inaugurada em 09/05/1915

Uma sagração a inauguração, na praça do Rosario, da herma do saudosissimo padre José Maria, realizada no domingo ultimo. 

Accorrendo à imponente e magestosa solemnidade, a população desta cidade nada mais fez do que apotheosar a memoria do inesquecivel sanjoannense, duplamente veneravel como sacerdote de virtudes excelsas e como musicista dos mais inspirados que jamais tenham surgido no ditoso solo mineiro. 

O dia, que se ostentava risonho e luminoso, ajuntou mais uma nota de belleza à encantadora festa, em que todos os corações pulsavam unisonos no afan de render uma homenagem sincera e espontanea ao compositor genial, cujas producções sacras fazem vibrar, uma por uma, as cordas do coração dos filhos desta cidade e mesmo dos ádvenas que se habituaram a assistir às funções religiosas, que piedosamente são celebradas em os nossos magestosos templos. 

Apezar de annunciado para as 14 horas o inicio da festividade, já desde antes de meio-dia uma multidão, calculada em mais de tres mil pessoas estacionava na Praça do Rosario, no centro de cujo jardim se achava collocado sobre o imponente pedestal, e velado por uma cortina aos olhos do publico o busto do homenageado. 

A ceremonia teve inicio com um Te Deum cantado na egreja de Nossa Senhora do Rosario, de que por muitos annos foi capellão o padre José Maria, seguido de bençam do SS. Sacramento, actos esses a que assistiu todo o clero residente na cidade e durante os quaes foram executadas tão sòmente composições sacras do insigne musicista sacerdote. 

Terminada a parte religiosa do programma, deu-se começo à parte cívica junto à herma a inaugurar-se. 

Tendo tomado assento nos lugares que lhes foram designados os membros da commissão promotora do monumento, os representantes da imprensa, o clero, o fôro e mais pessoas gradas da nossa cidade, pelo dr. Augusto Viegas foram convidados a descerrar a cortina, que encobria a herma a exma. sra. d. Anna Isabel de Paiva, sobrinha do padre José Maria e os srs. monsenhor Gustavo Ernesto Coelho, maestro Carlos Alves, coronel Affonso Pimentel e Joaquim Lazaro. 

Em acto continuo, foi pelas alunas do nosso grupo escolar cantado um bellissimo hymno, composto especialmente para a solemnidade, sendo a letra e a musica da lavra do nosso estimado confrade e amigo Bento Ernesto, que, ao terminar o côro, recitou, com agrado geral, uma bem elaborada poesia sua, na qual evocava, de fórma emocionante, a memoria do inspirado levita a quem a festa era consagrada. 

Da tarefa de orador official foi encarregado o revmo. conego João Baptista da Silva, de larga reputação em o nosso Estado como orador provecto e consumado. 

O discurso lido pelo distincto sacerdote, que é uma das glorias do clero de Marianna, foi uma peça magistral, irreprehensivel na forma e repassado dos mais bellos conceitos sobre a personalidade do padre José Maria encarado tanto sob o seu aspecto de ministro do Senhor como sob o de artista e dos mais inspirados. 

As ultimas palavras do orador foram abafadas pelos applausos de toda a assistência. 

Tomou depois a palavra o professor Antonio Felippe, que, a despeito das precarias condições da sua saude, leu com voz firme e vibrante uma magnifica allocução em latim, na qual punha em relevo as virtudes do sacerdote, a quem se glorificava e lembrava episodios de sua existência, dos quaes resaltavam a grandeza de seu coração e a modestia da sua alma. 

O discurso do sr. professor Antonio Felippe, a quem toda uma geração de Sanjoannenses deve os primeiros conhecimentos que lhe illustram o espirito, foi ouvido com o mais religioso silencio e incontestavelmente constituiu a nota mais tocante, mais commovente de toda a festividade. 

A gentil senhorita Ophelia Graça, em nome do sr. professor Antonio Americo, de Prados, depoz aos pés do monumento uma bem trabalhada lyra de flores, recitando na mesma occasião versos endereçados ao Santo varão, cujos traços alli se achavam fundidos em bronze. 

Finalmente o sr. dr. Augusto Viegas, como representante da municipalidade, fez entrega ao publico da herma inaugurada, produzindo então um discurso, em que não se sabia que mais admirar, si o burilado da phrase, si a elevação de idéas, que lhe formavam o arcabouço. 

O discurso do sr. dr. Augusto Viegas foi a chave de ouro, com que foi dada por finda a festividade, sendo, do occorrido pelo nosso amigo e confrade sr. João Viegas, Secretario da Commissão do monumento, lavrada uma acta, que foi assignada por grande numero de pessoas presentes. 

Terminando a breve noticia, com que procuramos dar uma pallida idéa do brilhantismo com que correu a inauguração da herma do preclaro Sanjoannense padre José Maria, occorre-nos o dever de felicitar a Commissão que a si tomou o encargo de tornar uma realidade essa aspiração, de ha muito nutrida pelos filhos desta cidade, pela galhardia com que desempenhou a tarefa que, em boa hora, assumiu, compellida por um elevado sentimento de justiça e patriotismo. 

 __________ 

Discurso pronunciado pelo professor Antonio Rodrigues de Mello, junto do monumento

"Amabilis et venerabilis concio, pace vestra, hodie vocem meam, quoniam (quamquam) debilem et incultam, extollo ad finem qui nos congregavit ad laudem et gloriam optimi civis, filii obedientis, fratris dedicati, sancti sacerdotis, quem populus diligebat et nunc diligit et colit memoriam ejus summa affectione et maximo ardore amicitiæ. Erat homo intelligens et maxime cultus in litteris et valde peritus liberrima et pulcherrima arte musicæ. Copiose proclamant ingenium ejus sublimes compositiones sacræ, quae audiebantur in choris æclesiasticis omnium templorum hujus urbis et multorum locorum ejus provinciae et aliarum. 

Erat austerus et severus, sed frequentes eleemosinas pauperibus dabat publice, privatimque, sapientibus consiliis. Nomen venerandum sacerdotis JOSEPH MARIAE XAVERII cognoscitur toto orbe, et fama gloriæ ejus ad astra subit splendida immortalitate. 

Adeo modestus erat, ut, si vivus esset hodierno tempore, oppositurus esset totis viribus huic nobili et justissimo consilio populi, erigendi tam praeclaro viro hanc dignam statuam, quæ traducit profundam admirationem virtutum et peritiæ artis, quæ illum exornabant. Legite modestum testamentum optimi ministri Christi et observate et considerate hæc verba sapientiæ: Qui viderit et visitaverit sepulchrum meum, dicat pro animā meā "Pater Noster". 

Laudemus et plaudamus hunc virum sapientem et dignum justissimæ reverentiæ et imitationis, et vos, honestissimæ puellæ quæ audistis me, et juvenes qui hanc patriam diligitis, et seniores populi, date mihi, manibus plenis, pulchros et olentes flores, ut spargam ad dignam statuam tanti viri, immaculati sacerdotis, qui patriam honorabat, ut peritissimus arte musicæ, et fulgens gloria cunarum suarum. 

Die sexto mensis februarii, chorus optimus et eximius Martiniani Ribeiri, post excellentem et plangentem cantum: "Adoramus Te, Christe, et benedicimus Tibi", in actu: Lavabo inter innocentes manus meas, fortissimæ voces chori conclamaverunt: "Ecce sacerdos magnus!" Sacerdos profundæ humilitatis plenus caput inclinavit propter virtutem et obedientiam. Beati qui viderunt et cognoverunt hunc sacerdotem florentem aetate! 

O felix patria, quæ genuit et docuit, et educavit, et elevavit eum ad apicem gloriæ, et immortalitatis.

Fonte: A inauguração da Herma do Padre José Maria, jornal Acção Social, edição de 9 de maio de 1915, Anno I, nº 9, p. 1. 


 __________ 

Minha tradução do célebre discurso em latim de Antônio Rodrigues Mello


Amável e respeitável assembleia, com a vossa paz, elevo hoje a minha voz, ainda que fraca e inculta, para a finalidade que nos congregou para o louvor e glória do ótimo cidadão, filho obediente, irmão dedicado, sacerdote santo, que o povo amava e cuja memória agora honra e cultua com suma afeição e o maior ardor de amizade. Era um homem inteligente e sobretudo culto nas letras e muito habilidoso na arte liberal e belíssima da música. Sublimes composições sacras, que se ouviam nos coros eclesiásticos de todos os templos desta cidade e de muitas localidades desta província e das outras, proclamam copiosamente o talento dele. 

Era austero e severo, mas dava frequentes esmolas aos pobres, pública e privadamente, com sábios conselhos. 

O nome do venerando sacerdote JOSÉ MARIA XAVIER é conhecido no mundo inteiro, e a fama de sua glória sobe às estrelas com esplêndida imortalidade. De tal forma era modesto que, se fosse vivo no presente, se oporia com todas as forças a este nobre e justíssimo conselho de erigir a um homem tão preclaro esta digna estátua, que traduz a profunda admiração das virtudes e da habilidade artística, que o enfeitavam. 

Leiam o modesto testamento do ótimo ministro de Cristo e observem e considerem estas palavras de sabedoria: Quem vir e visitar o meu sepulcro, diga por minha alma um "Pai Nosso". 

Louvemos e aplaudamos este homem sábio, digno de justíssima reverência e imitação, e vós, honestíssimas meninas que me ouvis, jovens que amais esta pátria, senhores do povo, dai-me, às mãos-cheias, belas e perfumadas flores, para que eu (as) espalhe junto à digna estátua de tão grande homem, imaculado sacerdote que habilíssimo na arte da música, brilhante glória da terra natal, honrava a pátria, como habilíssimo na arte da música e glória brilhante de seu berço. 

No dia 6 de fevereiro, o ótimo e exímio coro de Martiniano Ribeiro (Bastos), depois de notável e plangente canto: "Te adoramos, Cristo, e Te bendizemos", no momento (do Ofertório): "Lavarei minhas mãos entre os inocentes" - as fortíssimas vozes do coro conclamaram: Eis o grande sacerdote!" O sacerdote pleno de profunda humildade inclinou a cabeça devido ao poder e à obediência. Felizes os que viram e conheceram esse sacerdote na flor da idade! 

Ó feliz pátria que o gerou, ensinou, educou e elevou ao ápice da glória e da imortalidade.



A inauguração da Herma do Padre José Maria, jornal
Acção Social, edição de 9 de maio de 1915, Anno I, nº 9, p. 1

Homenagem da Municipalidade a Rodrigues de Mello (São João del-Rei 
⭐︎ 03/07/1840 ✞ 15/07/1915) inscrevendo o nome de seu filho na fachada do Teatro Municipal para preservação de sua memória de notável educador e ilustre comediógrafo : "Ó feliz terra que o gerou, ensinou, educou e elevou ao ápice da glória e da imortalidade!"


AGRADECIMENTO

Agradeço à minha amada esposa Rute Pardini Braga as belas fotos que tirou e elaborou para os fins desta matéria.

10 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Paulo Roberto Sousa Lima (escritor, gestor cultural e presidente eleito do IHG de São João del-Rei para o triênio 2018-2020) disse...

Parabéns, confrade Braga. Bela e oportuna homenagem com a participação do Prof. José Mauricio de Carvalho.
Bom domingo.
Paulo Sousa Lima

José Passos de Carvalho (genealogista, escritor, membro correspondente do IHGMG, membro da Academia de Letras "João Guimarães Rosa" da PMMG e sócio efetivo do IHG de São João del-Rei) disse...

Prezado confrade Francisco Braga,

Cumprimento-o pela excelente matéria, nada mais do que uma rica aula sobre uma personalidade imortalizada na Capital da Cultura. O professor Antônio Rodrigues de Mello será sempre lembrado por todos nós. Extendo meus cumprimentos ao professor e confrade José Maurício de Carvalho por tê-lo como Patrono Perpétuo de sua Cadeira na arcádia são-joanense ( Academia de Letras de São João del-Rey).
Fraterno abraço e meus efusivos cumprimentos.
Saudações basilianas.

Passos de Carvalho - Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.Residente em Lavras/MG.

Dr. Rogério Medeiros Garcia de Lima (professor universitário, desembargador do TJMG, escritor e membro do IHG e da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

Belo!

Prof. Fernando de Oliveira Teixeira (professor universitário, escritor, poeta e membro da Academia Divinopolitana de Letras, onde é Presidente) disse...

Grato, amigo Braga, pelo envio. Fernando Teixeira

João Pinto de Oliveira (presidente do Sicoob Credivertentes, membro correspondente do Instituto Histórico e Geográfico e membro efetivo da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

Confrade e Prof. Braga

Muito grato pela remessa do material (inauguração da herma de Pe. José
Maria Xavier). Estou repassando, com prazer, ao nosso setor de
comunicação e marketing.

Parabéns pelo seu notável trabalho e incomum esforço no sentido de
resgate, divulgação e revitalização de nossa história e cultura. Em
conversa, certa feita, com personalidades de nosso meio (como nosso
companheiro e primo Rosalvo Pinto, sra. Eliane e outros) comentávamos
sobre a necessidade de criação de uma espécie de "Fundo de Provisão"
para iniciativas culturais e artisticas regionais. Infelizmente,
iniciativas próximas como as do "Instituto da Liberdade", "Trilhas dos
Inconfidentes" e similares não foram - ou não estão sendo - promissoras.
Do Poder Público, nada a esperar. De qualquer forma, vamos realizando a
nossa parte...

Votos, ademais, de um ótimo e profícuo ano de 2019, extensivos aos
ínclitos familiares.

Att

João Pinto de Oliveira

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
O Blog de São João del-Rei tem o prazer de apresentar sua primeira contribuição para a preservação da memória do notável educador, ilustre comediógrafo e grande animador do teatro são-joanense, Prof. ANTÔNIO RODRIGUES DE MELLO (1840-1915), em fins do século XIX e início do século XX, que se fez merecedor do aplauso do público são-joanense nas várias áreas de sua atuação: nas letras, na arte teatral e no trabalho pedagógico, bem como "no esforço para formar a opinião pública, no desejo de impedir que a sociedade brasileira ficasse sem um esteio moral", nas palavras do Prof. Dr. JOSÉ MAURÍCIO DE CARVALHO, a quem solicitei fizesse a apresentação do homenageado, uma vez que ocupa a Cadeira nº 5 patroneada pelo Prof. Antônio Rodrigues de Mello, na Academia de Letras de São João del-Rei. Seu trabalho meticuloso e profundo - na realidade, sua Defesa de Patrono proferida em outubro de 2001 - pode ser lido na Apresentação do nosso homenageado.

Quanto à minha participação, optei pela reprodução do discurso em latim de Rodrigues de Mello por ocasião da inauguração da herma do compositor são-joanense Pe. José Maria Xavier, em 09/05/1915, no Largo do Rosário, que foi reproduzido em artigo da redação do jornal são-joanense Acção Social, edição de 09/05/1915, p. 1, que se encontra no acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano de Almeida. O insigne orador iria morrer 2 meses depois, mais exatamente em 15/07/2015, sendo o seu discurso considerado por mim, em muitos trechos, um auto-elogio fúnebre. Segundo o historiador Antônio Gaio Sobrinho, Rodrigues de Mello estava tão debilitado que iniciou o seu discurso com a seguinte frase: "Um morto vai falar!..."
Além do artigo do supracitado jornal, submeto ao leitor a minha tradução do célebre discurso em latim proferido em praça pública pelo Prof. Antônio Rodrigues de Mello.
Foi rigorosamente mantida a grafia de época.

APRESENTAÇÃO DO HOMENAGEADO PROF. ANTÔNIO RODRIGUES DE MELLO PELO PROF. DR. JOSÉ MAURÍCIO DE CARVALHO
https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2019/01/colaborador-antonio-rodrigues-de-mello.html

Texto: A INAUGURAÇÃO DA HERMA DO PADRE JOSÉ MARIA XAVIER
https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2019/01/a-inauguracao-da-herma-do-padre-jose.html

Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei

Prof. Cupertino Santos (professor aposentado da rede paulistana de ensino fundamental) disse...

Caro professor Braga.
Grato pelo envio dessa publicação, destacando personalidades que elevaram a cultura de S.João del Rei, e pela verdadeira aula de latim. Discursos assim tornaram-se valiosa raridade.
Cumprimentos
Cupertino

Prof. José Maurício de Carvalho ((professor titular aposentado da UFSJ, professor do Centro Universitário Presidente Tancredo Neves - UNIPTAN, membro do Instituto de Filosofia Brasileira, do Instituto de Filosofia Luso-brasileira com sede em Lisboa, da Academia de Letras de São João del-Rei e da Academia Mantiqueira de Estudos Filosóficos) disse...

Caro Francisco, obrigado por divulgar. Seu trabalho é sempre cuidadoso e repara essas pequenas gralhas. Mauricio.

Patrícia Ferreira dos Santos (escritora, mestre e doutora pela USP e pós-doutora pela UFMG em História Social e vice-presidente da Casa de Cultura-Academia Marianense de Letras) disse...

Prezado Dr. Francisco Braga,

Boa tarde.

Cumprimento-o efusivamente pela beleza e sensibilidade deste texto e da apresentação publicada em seu blog, de forma a prestar serviço de grande relevância, a demarcar um modelo para agentes, intelectuais, professores e instituições que primam pela preservação cultural.

Uma lástima o passamento do Prof. Antônio Rodrigues de Mello.
Belo trabalho o seu, no Blog São João del Rei, de fazer irradiar dignos exemplos, para que não esqueçamos dos valores que devemos cultuar e dar prosseguimento.

Com os meus melhores cumprimentos, agradeço mais uma vez o envio destes textos e informes.

Patrícia Ferreira dos Santos Silveira
Casa de Cultura - Academia Marianense de Letras