sábado, 17 de abril de 2021

SÃO JOÃO DEL-REI NÃO SEJA ESQUECIDA


Por Abgar Campos Tirado *


Artigo publicado originalmente no Jornal da ASAP, São João del-Rei, edição de janeiro/fevereiro de 2021, Ano 26, nº 152, p. 5.
Dedicado à memória de Pe. RAMIRO JOSÉ GREGÓRIO, vigário da Paróquia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, falecido nesta data com 76 anos de idade.

 

Interrompendo a série de memórias da infância, série essa a que pretendo dar continuidade, faço hoje uma pausa para abordar assunto ligado à arquitetura de um templo católico. Trata-se da igreja matriz de Nossa Senhora do Brasil, situada na cidade de São Paulo, mais precisamente localizada na Praça Nossa Senhora do Brasil e que é um ponto de referência do bairro Jardim América, na capital paulista; acrescente-se que é um templo grandemente disputado para cerimônias matrimoniais. 

Igreja de Nossa Senhora do Brasil, localizada no Jardim América em São Paulo
 

Tomei conhecimento da existência dessa igreja ao deparar com uma foto da mesma, estampada no jornal Folha de São Paulo, de 16 de março do ano passado. Impressionou-me a semelhança de sua fachada com a de nossa igreja de São Francisco de Assis. Tive então certeza de que a imponente fachada de nossa igreja fora a fonte de inspiração, ou modelo, para a construção do templo paulistano. Fui analisando a foto, comparando com nossa igreja: fachada extremamente semelhante à nossa, destacando-se a portada, as duas janelas, o óculo central, as torres cilíndricas, inclusive, como a nossa, guarnecidas de varandas circundadas de balaustradas. Diferentes apenas as cúpulas, ou melhor, os pináculos bulbosos, que se apresentam em volume muito avantajado na igreja paulistana; e mais: o adro também cercado de balaustrada, com balaústres exatamente iguais aos nossos; e, pasmem com o detalhe: à sua frente, PALMEIRAS! Fiquei muito feliz em constatar a valorização da nossa igreja, que, sem dúvida, serviu de inspiração para um templo de uma grande cidade. Fui então à internet, para obter maiores informações sobre o assunto. Ali constatei que a paróquia de Nossa Senhora do Brasil foi criada em 1940, tendo início a construção da matriz dois anos depois. Em um dos textos encontrados, lê-se que o projeto dessa igreja inspirou-se em templos coloniais mineiros. Até aí, tudo bem. Mas uma das fontes diz textualmente: “Sua aparência remete à igreja de São Francisco de Ouro Preto.” Ora, com toda a admiração por esse templo, por sinal estilisticamente semelhante ao nosso, o aludido templo de São Paulo traz características que remetem à nossa São Francisco como, conforme exposto, as varandas das torres, a balaustrada do adro (a de Ouro Preto nem mesmo possui adro) e, até mesmo, a complementação com as palmeiras fronteiras, inexistentes na praça ouro-pretana. 

Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto
Igreja de São Francisco de Assis de São João del-Rei
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aí chego ao ponto sobre o qual tenho frequentemente comentado: São João del-Rei é sempre ignorada. Não sei o que acontece, mas nossa cidade, mesmo em setores em que é praticamente única, a divulgação midiática a ignora completamente. Vemos frequentemente na mídia propaganda de outras cidades mineiras, quando, quase sempre, São João del-Rei parece não existir. Por incrível que pareça, mesmo no âmbito da música sacra, nós, com duas orquestras bicentenárias, somos repetidamente ignorados, inclusive em publicações especializadas; e até mesmo, com relação à linguagem dos sinos, campo em que São João del-Rei pode indubitavelmente considerar-se MATER ET MAGISTRA, já vi reportagens relacionadas ao assunto, apontando outras cidades mineiras que não a nossa. 

Felizmente, podemos encontrar em nossos dias, na internet, postagens de grupos particulares sobre nossa cidade. Que essa divulgação se intensifique, pois São João del-Rei é detentora de riquezas ímpares e é absolutamente injusto que não seja reconhecida como tanto merece.  

Links da Folha de São Paulo: http://www.fcdlesp.org.br/manchetes-jornais/capa-jornal-folha-de-s-paulo-16-03-2020-28f/

http://www.fcdlesp.org.br/wp-content/uploads/2018/03/capa-jornal-folha-de-s-paulo 16-03-2020-28f.jpg 

 

*  O autor é colaborador do Jornal da ASAP e membro da Academia de Letras de São João del-Rei.

15 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
O Blog de São João del-Rei tem o prazer de hospedar artigo de ABGAR  CAMPOS TIRADO, colaborador de primeira hora, que tem se notabilizado por sua defesa intransigente dos valores e tradições de São João del-Rei.
Em 11/05/2009, Prof. Abgar estreava neste blog com o mesmo tema: "São João del-Rei, por que desprezada?", por sinal artigo muito visitado por muitos seguidores e admiradores.Com isso, fica evidente uma postura moral do colaborador que se mantém intocada apesar da passagem do tempo.

https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2021/04/sao-joao-del-rei-nao-seja-esquecida.html

Peço licença ao Prof. Abgar e seus leitores para transmitir uma triste Nota de Falecimento, que abala hoje a cidade de São João del-Rei. É com profundo pesar que comunico o falecimento de nosso querido Padre Ramiro José Gregório, membro da Academia de Letras de São João del-Rei e responsável, entre outras tarefas evangelizadoras, pela Missa Tridentina e pelo Memorial Dom Lucas Moreira Neves. Ele faleceu por volta das 4:30 de hoje.
Deus o tenha no Céu e conceda aos seus familiares e a todos nós o conforto.
Rezemos pelo seu Descanso Eterno.Espero que o Prof. Abgar consinta que prestemos uma singela homenagem, oferecendo o seu artigo à doce memória do nosso saudoso amigo Acadêmico.
Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei

Prof. José Lourenço Parreira (capitão do Exército da arma de Artilharia, professor de música, violinista, maestro, historiador e escritor, além de redator do "Evangelho Quotidiano") disse...

Caríssimo Braga, realmente triste essa notícia sobre o Padre Ramiro.
Logo no início, vindo de Belo Horizonte e em face da proximidade com a Lira Sanjoanense, ele se dizia ser o Capelão da Lira.
Mais uma vítima da peste vermelha! OREMOS!

Dr. Rogério Medeiros Garcia de Lima (professor universitário, desembargador, ex-presidente do TRE/MG, escritor e membro do IHG e da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

SOU ADMIRADOR IRREMISSÍVEL DO AMIGO ABGAR.
E QUE TRISTEZA, A MORTE DO ESTIMADO PADRE RAMIRO.
DEUS JÁ O TEM AO LADO DIREITO, ZELANDO POR NÓS.
AMÉM.
ABS.

ROGÉRIO

André Guilherme Dornelles Dangelo (Professor Associado da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais. Possui diversos artigos e capítulos de livros apresentados e publicados em congressos nacionais e internacionais.) disse...

Em relação às observações do nosso eminente Prof. Abgar Campos Tirado, também acho que São João del-Rei é pouco lembrada sempre. Mas são as escolhas politicas que a cidade vem fazendo nos últimos 30 anos.
É isso que justifica, inclusive, o absurdo que no momento estão fazendo com o Santuário do Dom Bosco, que em breve vai estar cercado de prédios e ninguém se importa.
Quanto à igreja citada, é dificil uma conclusão defintiva. O Movimento Neocolonial, liderado pelo intelectual José Mariano Filho, defendeu como resposta ao problema da falta de identidade nacional da arquitetura do Ecletismo, a busca de modelos coloniais nacionais para as novas construções a partor de 1920. Muitas igrejas pelo Brasil, mais tradicionalistas, num tempo que a proto modernidade já se impunha, com os estilos art decô e moderno, foram construídas sob esse lema da escola neocolonial, com bons e péssimps resultados arquitetônicos. Tanto a citada igreja de Nossa Senhora do Brasil, como a igreja de Santa Teresa, em Belo Horizonte, por exemplo, sao exemplares projetados desse contexto de boa qualidade. Na verdade, penso eu que são influenciados por uma mistura de igrejas do chamado estilo Aleijadinho, muito estudado naquela época. Assim, elas são frutos de diversas inspirações. E as duas visões estão corretas. No caso da igreja de Santa Teresa, em Belo Horizonte, é bem nitida a inspiração no Carmo de São Joao del- Rei, pois é a única que tem torres oitavadas.
Grande abraço.
André Dangelo

Unknown disse...

Padre Ramiro era a imagem da simpatia, da simplicidade e da elegância. Håbil nos sermões objetivos,breves,porém,plenos das verdades concretas do dia a dia, finalizando-os com um sonoro AMÉM!!! Como tal,agradava a todos que o ouviam. Era cantor, voz bonita, bem cultivada. Costumava ser ator e artesão. Uma ausência profunda nos corações dos são-joanenses. Que Padre Ramiro seja recebido nos Céus com alegria e leveza- virtudes que ornaram sua pessoa. Maria Auxiliadora Muffato

Prof. Cupertino Santos (professor aposentado da rede paulistana de ensino fundamental) disse...

Caro professor Braga
Venho saudar essa publicação que corrige injustiça e lamentar o passamento do venerável Padre Ramiro.
Saudações.
Cupertino

Celso José Rodrigues Benedito (trompista, doutor em Música pela Universidade Federal da Bahia) disse...

Triste perda! Que Padre Ramiro possa estar em paz com seu Mestre e sua Mãe do Céu.

Paulo Roberto Sousa Lima (escritor, gestor cultural e presidente reeleito do IHG de São João del-Rei para o triênio 2021-2023) disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Paulo Roberto Sousa Lima (escritor, gestor cultural e presidente reeleito do IHG de São João del-Rei para o triênio 2021-2023) disse...

Bom dia, confrade. Bons texto e lembrança ao nosso querido Padre Ramiro, um homem que amava a vida, que, mesmo licenciado, sempre foi nosso confrade no IHG-SJDR.
Abraços fraternos.
Paulo Roberto de Sousa Lima
Presidente

Mario Pellegrini Cupello disse...

Mario Pellegrini Cupello, Arquiteto, Escritor, Pres. do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto, em Valença RJ, disse:

Caro amigo Braga
O Prof. Abgar Antônio Campos Tirado, Maestro e Professor de quem desfrutamos do privilégio de sua amizade, é um Escritor que sempre se mostra preocupado com a exaltação dos valores culturais e históricos de São João del-Rei.
Embora residamos em Valença RJ, há muitos anos eu e Beth vimos recebendo, com regularidade, os Jornais da ASAP – por indicação do Prof. Abgar, pelo que somos gratos à ASAP e a ele – cujos excelentes artigos do amigo Prof. Abgar, entre outros, sempre lemos com grande interesse.
No caso em tela, sobre sua enfática defesa relativa a pouca divulgação midiática das igrejas históricas de SJDR, merece as nossas felicitações pelo excelente artigo.
De fato, a semelhança arquitetônica entre a Igreja de Nossa Senhora do Brasil, localizada em São Paulo, com a Igreja de São Francisco de Assis, de São João del-Rei, é muito grande: certamente que o autor do projeto, ou da construção, da Igreja de São Paulo, teve sua “inspiração” na “Cidade onde os sinos falam”...
Parabéns ao amigo Maestro Abgar, por seus importantes artigos, e as nossas felicitações ao amigo Maestro Braga, pela divulgação em seu Blog de mais este importante tema.
Receba o cordial abraço,
Dos amigos e Confrades do IHG e da Academia de Letras de SJDR,
Mario e Elizabeth.

Prof. José Lourenço Parreira (capitão do Exército da arma de Artilharia, professor de música, violinista, maestro, historiador e escritor, além de redator do "Evangelho Quotidiano") disse...

CARÍSSIMO BRAGA, LER SEUS TEXTOS SEMPRE ME É ALTAMENTE EDIFICANTE. UNE-NOS O AMOR A SÃO JOÃO DEL-REI, NOSSA TERRA, AMOR ÀS LETRAS E À MÚSICA, DESDE NOSSA INESQUECÍVEL CONVIVÊNCIA NOS ANOS DA NOSSA ADOLESCÊNCIA!
ASSIM, SORVENDO O LÍQUIDO PRECIOSO DO SEU ESTILO LITERÁRIO, EIS-ME A OUVIR O LAMENTO DO GIGANTE PROFESSOR ABGAR ANTÔNIO CAMPOS TIRADO EM FACE DESSE TRISTE ESQUECER DE CITAR SÃO JOÃO DEL-REI, ALHURES!
E SÃO JOÃO DEL-REI É UM TESOURO PARA SER ADMIRADO, COMENTADO, AMADO!
HÁ ANOS, FUI CONVIDADO A FAZER UMA PALESTRA PARA O PRIMEIRO ANO DO CURSO DE MÚSICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL, CAMPUS CAMPO GRANDE.
DISCORRI SOBRE AS NOSSAS ORQUESTRAS, BANDAS DE MÚSICA, AUTORES.
CONCENTREI-ME NA ORQUESTRA LIRA SANJOANENSE, FIZ O SOLO AO VIOLINO DO APLAUDATUR DO PADRE JOSÉ MARIA XAVIER.
TECI COMENTÁRIO SOBRE OS JOCOSOS APELIDOS DAS ORQUESTRAS, SENDO O DA LIRA O DE RAPADURA. DISSE AOS ACADÊMICOS QUE, NAS GRANDES CELEBRAÇÕES, COMO NA COMEMORAÇÃO DA GLORIOSA ASSUNÇÃO DAS VIRGEM MARIA, EM AGOSTO, AO FINAL DAS NOVENAS, SERVIMOS RAPADURA PARA CADA INTEGRANTE DA LIRA.
AO FINAL DA PALESTRA, PERGUNTEI AOS ALUNOS SE ESTAVA FALTANDO ALGUMA COISA PARA ENCERRAR A APRESENTAÇÃO DA LIRA.
TIVE A FELICIDADE DE OUVIR: FALTA A RAPADURA, PROFESSOR! COMO EU LEVARA PEDAÇOS DE RAPADURA, CADA UM RECEBEU SEU PEDACINHO DE RAPADURA VIVENDO A EMOÇÃO DA TRADIÇÃO DA NOSSA TERRA: RAPADURA NO FINAL DO ATO SACRO, NO CORO!
BENDITOS SEJAM TODOS AQUELES QUE, COMO ABGAR E BRAGA, NÃO DESPREZAM SÃO JOÃO DEL-REI, MAS A LOUVAM NAS LETRAS E NA MÚSICA!

André Eustáquio Melo de Oliveira (secretário municipal de Turismo, Artesanato e Cultura (SETAC) de Resende Costa-MG) disse...

Bom dia, caro amigo e confrade Francisco!

Obrigado por enviar-me o link do artigo de autoria do nosso confrade Abgar. Excelente! Concordo plenamente com ele. Fiquei pensando: não seria o caso de, ao invés de contarmos com a iniciativa do poder público que tanto ignora ou deixa para depois a Cultura, nós da Academia pensarmos em estratégias para melhor divulgarmos a cultura e as tradições de nossa terra? Embora eu seja de Resende Costa, tenho São João del-Rei como minha segunda casa. Nasci, residi por algum tempo, estudei em São João e cultivo desde então um profundo carinho e grande admiração por essa bela cidade. Acrescento, que não só as tradições são-joanenses devem ser valorizadas, mas, sobretudo, a sua importância histórica e política para Minas e o Brasil.

Assumi desde o dia 1º de janeiro a Secretaria de Turismo, Artesanato e Cultura de Resende Costa e preocupo-me muito com a valorização da cultura, consequentemente, das tradições em nossa região. Acredito no potencial que possuímos e temos que atuar juntos, em sintonia, para transformar o que temos de rico e belo em atrativos turísticos e, assim, sermos reconhecidos e valorizados.

O texto do professor Abgar levou-me a essa reflexão que compartilho com você.

Um grande abraço!

André

Unknown disse...

Muito sensatas as considerações do grande Professor Abgar, meu Mestre inesqecível. São João del-Rei, terra amada,terá para sempre a gratidao de seus filhos.

Unknown disse...

Maria Auxiliadora Muffato

Unknown disse...

Corrijo falhas de digitação nas palavras "inesquecível" e "gratidão ".