Por JOSÉ MINDLIN *
O bibliófilo e colecionador José Mindlin remexeu na memória e nos guardados de estimação para compor esta eloquente página a uma amizade "de encontros intermitentes, mas sempre cordiais".
Transcrevemos, com a devida vênia da revista de cultura Verbo de Minas, publicação do Programa de Pós-Graduação do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, vol. 3, nº 5, out. 2021, pp. 19-20. A edição da revista tem título próprio: Memórias mineiras e outros textos: Pedro Nava. Originalmente foi um artigo intitulado "Nava, baú de esboços", publicado em D.O. Leitura (publicação cultural da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), em número especial, publicado no ano 18, nº 9, set. 2000, pp. 28-31 .
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| Pedro Nava (✰ Juiz de Fora, 1903 ✞ Rio de Janeiro, 1984) |
Desde meus tempos de advocacia — lá vão mais de 60 anos! — sempre achei muito precário a prova testemunhal. Tenho experiência de que versões incorretas de fatos passados podem ser feitas na melhor boa-fé. E não sou, nem de longe, o único a pensar assim. Basta lembrar de Rashonon, o admirável filme de Kurosawa.
Faço essa ressalva porque tenho dúvidas sobre como começou minha amizade com Pedro Nava. Creio que o conheci, nos anos 70, em casa do Plínio Doyle, nos famosos "sabadoyles", que ele e Drummond frequentavam, mas aí o contato foi superficial — lembro-me de ter-lhe mandado, a pedido de Drummond, um exemplar da edição fac-similar da Revista de Antropologia, que publiquei em 75 comemorando o 25º aniversário da Metal Leve. Mas quem nos aproximou, à minha mulher e a mim, de Nava, foi pouco depois disso, Francisco de Assis Barbosa, nosso querido e saudoso Chico. Disso tenho quase certeza, pois foi Chico que nos apresentou, em 77, a Urania e Fernando da Rocha Peres, de Salvador, de quem nos tornamos grandes amigos, e que por sua vez tinham grande amizade por Nava. Nessa ronde, não me lembro como entrou, em relação ao Nava. Rachel Jardim, também amiga dele e de Chico, mas lembro de um jantar em casa de Rachel, mais ou menos na mesma época, proporcionando-nos um bom papo com Nieta e Nava.
Com Rachel Jardim estou quase certo que a amizade começou por iniciativa nossa, quando lançou seu primoroso Os Anos 40 em Guaratinguetá, e fomos ao lançamento para conhecê-la.
Como se vê, confusões são fáceis de fazer, e difíceis de destrinchar...
O fato é que, nesses últimos anos da década de 70, e primeiros de 80, Drummond, Nava, Chico, Ubarina, Fernando Peres, Rachel Jardim e nós tínhamos nos tornado bons amigos.
Com Drummond a amizade se estreitou em 76/77, quando fiz uma edição de arte do poema "A Visita", inédito. Com Nava os encontros formais mais intermitentes, mas sempre cordiais. Quando, em 1983, ele festejou 80 anos, Fernando Peres e eu publicamos, em tiragem limitada, uma Louvação Poética a Pedro Nava, reunindo as poesias que serviram de epígrafe aos seus livros de memórias, e para a qual Drummond escreveu especialmente um soneto de abertura, que é o seguinte:
PEDRO (O MÚLTIPLO) NAVA
Tantas vezes corri ao Dr. Nava
em demanda de alívio, e ele acudia.
De seu saber, minh'alma fez-se escrava,
e o corpo, devedor com alegria.
Do moço Nava a poética palavra
que em cadências modernas se expandia,
admirei, e no peito ainda se grava
um certo poema seu, que me arrepia.
Nava pintor e Nava desenhista
esquivo, agudo, exato, surpreendente,
quem nos seus traços não consola a vista?
Esse querido Nava, simplesmente,
de nosso tempo fiel memorialista,
é mistura de santo, sábio e artista.
Meu exemplar da "Louvação" traz as seguintes dedicatórias:
A um amador de livros e editor bissexto de raridades:
Neste volume se grava
exemplo a ser imitado.
Após louvar Pedro Nava,
que Mindlin seja louvado!
Carlos Drummond de Andrade
Rio, 5 de junho, 1983
A caríssimo Mindlin
A quem devo essa Louvação
E a quem por isso louvo também —
Esse é o primeiro exemplar dado (de todo coração) —
do
Pedro Nava
No curso da amizade com Nava, dele recebi um exemplar de uma edição de apenas 50 exemplares do poema "O Defunto", e ele, a meu pedido, ainda fez uma excelente introdução à edição fac-similar de "A Revista", que Drummond publicara nos anos 20. Foram poucos anos de amizade, mas foi muito afetuosa, e para mim inesquecível.
Insisti muitas vezes com Nava para que fizesse também em São Paulo o lançamento de seus livros, e ele sempre arranjou uma desculpa para não vir. Lembro-me de um telefonema que dei sobre isso, em que ele me disse que gostaria muito, mas que Nieta, sua mulher, tinha medo de avião, o que tornava a viagem difícil. "Posso falar com Nieta?", perguntei. "Isso não", disse Nava, "porque de repente ela aceita". Aí têm os leitores uma boa mostra do jeito de Pedro Nava.
Nosso último encontro deu-se poucos dias antes de sua morte. Dessa vez ele tinha vindo receber o Prêmio Jabuti, e fizemos um jantar em casa, só com amigos mineiros. Dois dias depois embarcávamos para Lisboa, e lá recebemos, pouco depois, a triste notícia do que tinha acontecido.
* Bibliófilo, colecionador, editor e empresário, jornalista e advogado. Em 1930, trabalha como repórter e redator do jornal O Estado de S. Paulo e, dois anos depois, ingressa na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde conhece sua esposa, a especialista em restauração de livros e editora Guita Mindlin (1916 - 2006). Formado em 1936 pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, advogou até 1950, quando foi um dos fundadores e presidente da empresa Metal Leve S/A. Assume a vice-presidência da Congregação Israelita de São Paulo - CIP, na década de 1940, e presta auxílio aos judeus perseguidos pelos regimes fascistas vigentes em alguns países europeus.De interesses muito diversificados, tanto no campo cultural, como da educação, da economia, da política (não partidária), da ciência e da vida empresarial, vem atuando há muitos anos em todos esses setores. Faz parte de numerosos Conselhos e entidades, no Brasil e no exterior (FAPESP, FIESP, secretário na Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia de SP, Conselho do CNPq, Conselho Internacional da FIAT, do Unibanco e do Banco de Montreal, etc.). Foi membro colaborador da Academia Brasileira de Ciências e de vários museus. Recebeu título de Professor Honorário da EAESP-FGV, da UnB, da UFBA, UFT e USP. Eleito, em 1999, membro da Academia Paulista de Letras. Em maio de 2006, o casal Guita e Mindlin fez a doação de cerca de 15 mil obras da Biblioteca Brasiliana para a USP. Quinto ocupante da cadeira 29, eleito em 20 de junho de 2006, na sucessão de Josué Montello, e recebido em 10 de outubro de 2006 pelo Acadêmico Alberto da Costa e Silva. É o autor de Uma Vida entre Livros – Reencontros com o tempo e Memórias Esparsas de uma Biblioteca. Lançou em 1998 o CD O Prazer da Poesia. Faleceu em São Paulo em 28 de fevereiro de 2010.





Um comentário:
Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...
Prezad@,
Neste texto, JOSÉ MINDLIN, paulistano com raízes judaico-ucranianas rememora sua amizade com PEDRO NAVA, seu enorme desejo e interesse de conhecer o escritor mineiro que inovou o memorialismo, frisando que seu amigo, além de memorialista, transitava brilhantemente por diferentes áreas: ele era médico renomado, poeta, desenhista e pintor bissexto. De fato, o casal Guita e Mindlin tiveram excelente relacionamento com Nieta e Pedro Nava. Segundo Rachel Jardim, foi ela quem fez essa aproximação que trouxe grandes frutos literários e momentos de efetiva amizade e de colaboração literária que são lembrados aqui.
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/07/uma-boa-lembranca.html
Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei
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