Por Raquel Naveira
Minha filha, Letícia, questionou-me o porquê de somente ela ter sido registrada com um dos sobrenomes da família de seu pai, o Portocarrero. É mesmo belo esse Portocarrero de origem espanhola, ligado às regiões de Castela e da Estremadura. Significa algo como “porto”: passagem e “carrero”: carreiro, caminho de carros. As rodas das carroças sulcando as antigas estradas ibéricas.
Em Mato Grosso do Sul, Portocarrero lembra um episódio da Guerra do Paraguai (1864-1870), o maior conflito armado da América Latina. O Paraguai se opôs à Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai, num confronto mortífero, de dor e destruição. Combates, fome, doenças. Países esgotados espiritual e financeiramente. Esse foi o saldo da cruenta guerra.
O tenente-coronel Hermenegildo de Albuquerque Portocarrero (1818-1893) foi enviado para inspecionar o Forte Coimbra, localizado às margens do rio Paraguai, município de Corumbá. Esse forte foi construído em 1775, no período colonial, pelos portugueses, para proteger a fronteira oeste e controlar a navegação. Todo branco, imponente, cercado por grossas muralhas, onde pousam garças e tuiuiús. Dos mirantes avista-se a paisagem pantaneira. As ilhas de camalotes com flores roxas que descem o rio. É patrimônio histórico e destino turístico.
Era o princípio da guerra. Ao anoitecer do dia 26 de dezembro de 1864, surgiu a poderosa esquadra do coronel paraguaio, Vicente Bárrios: 11 navios de guerra, 29 peças de artilharia, 3200 homens. No forte, a guarnição brasileira possuía dois canhões, 250 pessoas, entre elas, 115 soldados e civis, 70 mulheres, crianças e 10 indígenas guaicurus. Portocarrero assume a defesa. Quando recebeu um ultimato para render o forte, recusou-se a capitular e declarou que resistiria “até o último cartucho”. Seguiram-se dois dias de intenso bombardeio. Foi nesse momento que se levantou a liderança de sua esposa, a uruguaiana Ludovina Portocarrero (1825-1912). Ludovina organizou parte das mulheres para fabricarem buchas de munição com pedaços de suas saias. Algumas cozinhavam. Outras escalavam na escuridão da noite as íngremes barrancas para buscar água em latas. Outras ainda prestavam assistência aos feridos. Nenhuma gritava. Nenhuma chorava. Mantinham, firmes, o moral dos soldados. Entre as heroínas, a maioria anônimas, destacaram-se duas mulheres do povo, as negras Aninha Cangalha e Maria Fuzil.
Ludovina, cheia de fé (e a fé move os obstáculos), retirou a faixa de comandante do uniforme do marido e a colocou aos pés da imagem de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do forte. Confiou simbolicamente o governo daquelas vidas a algo sobrenatural, extraordinário. Depois, deu ordem ao soldado músico, o Verdeixas, para subir no ponto mais alto da muralha e mostrar a imagem. O gesto abalou a sensibilidade religiosa dos paraguaios. Todos aplaudiam, deliravam, bradavam vivas. Uma verdadeira comoção.
Enquanto isso, a população de Corumbá, em pânico, fugia pelas matas. Muitos foram massacrados. Portocarrero ordena a retirada durante a noite, numa embarcação chamada “Amambaí”. Ninguém ficou para trás. O barco não fez barulho, não soltou faíscas, não bateu remos nas pedras. Envolto na bruma, sumiu na correnteza do rio.
Anos mais tarde, Ludovina e Portocarrero receberam das mãos de Dom Pedro II os títulos de Barão e Baronesa do Forte Coimbra. Era 1889, final melancólico do império. Ludovina ficou viúva aos 68 anos. Perdeu oito de seus 15 filhos. Mergulhou em sua digna velhice. Faleceu aos 87 anos, no Rio de Janeiro.
Descendente direta do casal foi Tônia Carrero (1922-2018), Maria Antonieta Portocarrero Thedim, a sedutora atriz, filha do neto, general Hermenegildo Portocarrero e de Dona Zilda. A estrela de tantos filmes, peças teatrais e novelas. Mais de seis décadas de dedicação à dramaturgia. Morreu de hidrocefalia, aos 95 anos, cercada por filho e netos. Seu brilho permanece. Era azul, divino, de diva.
Por que coloquei o sobrenome Portocarrero em você, filha? Tornei-a LP, Letícia Portocarrero, como era ela, Ludovina Portocarrero. O anagrama LP bordado no linho do enxoval que se encontra até hoje no Forte Coimbra. Uma coincidência? Um chamado? Uma sugestão? Um augúrio? Um legado? Não sei, mas desejo que você tenha a mesma coragem dela para enfrentar as guerras.




Um comentário:
Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...
Prezad@,
Tenho o prazer de compartilhar com o leitor esta bela narrativa histórica da escritora RAQUEL NAVEIRA que tem um final feliz sobre o FORTE COIMBRA, edificado em 1775 na margem direita do Rio Paraguai. Trata-se de um dos principais sítios históricos localizado em Corumbá, Mato Grosso do Sul (MS).
A fortificação, hoje sob a tutela do Exército Brasileiro, é símbolo vivo de bravura, resistência nacional e preservação da fronteira oeste brasileira contra os avanços espanhóis, tendo sido "testemunha" de um ataque durante a Guerra da Tríplice Aliança, que foi objeto desta página imortal que enaltece a figura de LUDOVINA PORTOCARRERO, conhecida historicamente como a BARONESA DO FORTE COIMBRA, heroína brasileira que liderou a resistência civil e o apoio logístico e moral durante o violento ataque paraguaio ao Forte Coimbra em 1864, no início da Guerra do Paraguai. Sua postura destemida diante de uma esquadra invasora imensamente superior transformou-a em um dos maiores símbolos femininos de bravura militar no Brasil.
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/08/a-baronesa-do-forte-coimbra.html
Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei
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