terça-feira, 27 de outubro de 2026

A “COLUNA PRESTES”

Por PLÍNIO SALGADO *
Notas por Francisco José dos Santos Braga

Transcrevemos o capítulo XIX do romance de ficção O Cavaleiro de Itararé, 5ª edição, São Paulo: Editora Voz do Oeste em convênio com INL, 1979, pp. 173-186.
Plínio Salgado (✰ São Bento do Sapucaí-SP, 22/0l/1895 ✞ São Paulo, 8/12/1975- Crédito: Acervo AIB/PRP-Delfos/PUCRS

 

I. TEXTO

Urbano, trabalhando num pequeno colégio em Assunção ¹, onde ensinava geografia e cosmografia, amargava o exílio melancólico desde a dissolução da Coluna Prestes. Em 1924, retirara-se de São Paulo, começara com a tropa revolucionária a caminhada errante pelos sertões. Era uma tropa espiritualmente heterogênea: inimizades pessoais, oposicionismos sistemáticos, aventuras românticas, sentimentalismos patrióticos, revoltas contra injustiças, grandes idealismos. Todos esses agentes de insurreição atuavam nos homens da Coluna, que prosseguiam, até mesmo com algumas mulheres audazes a acompanhá-los nos rumos incertos. 
 
¹ Capital do Paraguai. 
 
* * * 
 
Ninguém estudara a fundo a psicologia da Coluna. Muitas vezes, Urbano perguntava a soldados rudes: “Por que veio?”, e uns respondiam: “Não sei”. Outros diziam: “O Bernardes ² é um bandido”. E sabiam caminhar, combater, morrer, passar toda a sorte de privações e sofrimentos atrozes. Os feridos transportavam-se carregados no arção das selas, ou em padiolas presas a burros por varais paralelos; o antisséptico era o sal de cozinha, que provocava gritos de dor, ardendo como pimenta nos furos de bala. A maleita salteava a muitos, que morriam, quase sempre, torturados pelas febres, sem medicamentos. Houve casos de tifo e de pneumonia. Os doentes, espichados sobre montes de capim, tomavam beberagens de raízes ou folhas de ervas. Nas caminhadas forçadas, esses enfermos oscilavam nas garupas, no dorso das cangalhas, sob a canícula abrasante, ou sob as chuvas torrenciais do estio. Ao acamparem naqueles crepúsculos roxos da imensa soledade, verificavam que alguns tinham morrido. Então, no pesado silêncio, que o choro dos pássaros enchia de uma tristeza acabrunhante, cavavam a terra, sepultavam os cadáveres. E todos preferiam morrer à bala, nalgum encontro, do que sucumbir assim, desmaiando nos espasmos da agonia, com dores ignoradas, sem uma palavra de conforto ou um beijo consolador na hora extrema. 
 
² Artur Bernardes, nascido em Viçosa em 08/08/1875, governou Minas Gerais (1918-1922) e o Brasil (1922-1926), durante o período da República Velha. 
 
* * * 
 
Urbano começou a notar que vinha sendo empolgado por um sentimento novo, que não era o do patriotismo, nem o da paixão política; um sentimento estranho, que cada pequenino drama da marcha avivava, como um vento soprando num braseiro. Daquela marcha devia, forçosamente, regular alguma coisa. Ela parecia tangida por um sentido misterioso de purificação. Compreendeu-o, desde a noite em que vira morrer o João Duque, rapaz que conhecera no Rio, quando estudante. 
 
* * * 
 
O João Duque fora um folgazão, outrora, um tanto egoísta, com um fraco por mulheres e indiferença total pelas questões políticas. Quando estourou a revolução de 24, estava em São Paulo, frequentando a vida noturna, esbanjando dinheiro com uma turma perigosa. No seu apartamento tinha todos os confortos, dizia-se que tomava cocaína e acompanhava rapazolas em corridas malucas de autos pelo caminho do mar ³. No dia da retirada encontrou-se com Urbano. Sem refletir, disse: “Vou com você”. O João Duque via mais uma farra em perspectiva. 
Em Catanduvas ⁴, porém, bateu-se valentemente. Depois, seguiu a Coluna, como sargento. Desde as primeiras caminhadas, ia rindo; tocava violão e cantava sambas e maxixes da Favela e improvisava versos em desafio. 
Quando começaram as dificuldades, João Duque revelou-se o homem de mil expedientes: ajudava os feridos a marchar, carregava-os às costas, inventava mezinhas do mato, e pôs-se até a fazer intervenções cirúrgicas. Aparecia sempre como o primeiro, para atravessar rios, lançar o cabo na outra margem. Se os companheiros estavam tristes, contava anedotas. Se lembravam das mães, das esposas, ou dos filhos distantes, consolava-os. 
 
³ O temo "caminho do mar" refere-se à primeira rota pavimentada que ligava a cidade de São Paulo ao litoral (Santos e Cubatão), cortando a Serra do Mar. Hoje em dia, o nome está associado principalmente à Rodovia Caminho do Mar (SP-148), popularmente conhecida como Estrada Velha de Santos, e ao polo ecoturístico que preserva essa região. 
 
⁴ Cidade localizada no Oeste paranaense, que se destacou por ter sido palco de importantes combates durante a Revolução de 1924 e abrigando hoje um memorial dedicado ao conflito.
 
* * * 
 
A Coluna, de 1.200 homens, tinha atravessado os 150 quilômetros de chão paraguaio, desde Porto Adelo à Serra de Maracaju. Depois dos combates de Panchita e Iguatemi, a tropa vadeou caudais, cortando as correntezas do Amambaí, do Vacaria, do Anhanduí, onde batalhou com as forças do major Klinger. 
E a marcha prosseguiu para o Norte, rumo da Serra Santa Marta, para o fragor da batalha da fazenda Zeca Lopes, em que as metralhas e os fuzis cantaram dois dias e uma noite. Ganharam as serras da Divisão, do Rio Claro, do Paraná, entraram em Minas. 
Certa vez, numa noite selvagem, o acampamento despertou com o canto de um gramofone, que berrava o Ai, seu Mé. Era o João Duque, que descobrira o disco e aproveitara um diafragma velho; com uma corda de despertador construíra, em segredo, a sua máquina, que rodava apenas até ao meio do disco. E chamaram-no “o maquinista”. 
Caçador e pescador, armava mundéus, e paris ⁵, e surpreendia a Coluna com animais e peixes. 
 
⁵ Mundéu e pari são armadilhas tradicionais normalmente usadas para captura de peixes. Ambos os termos têm origem indígena (principalmente do tupi) e descrevem técnicas ancestrais de captura. 
 
* * * 
 
A marcha ia-se fazendo penosamente. Dias inteiros na macega ⁶, semanas contornando brejos ou florestas. Assim atingiram o Maranhão; e, em Carolina, festejaram o "15 de Novembro", com banda de música e discursos do povo, que desfraldava a bandeira verde-amarelado céu azul. 
Riachão, Mussuí, Mirador, Grajaú, Amarante, e bateram às portas de Teresina, que mandou o seu bispo, a pedir paz. 
De Crateús à Serra Quebra-Dentes, o Ceará esta estorricado, espichando o Jaguaribe no fundo do vale, como um elástico finíssimo. 
 
⁶ Nome popular dado ao mato alto, seco, áspero e emaranhado, que geralmente cresce de forma desordenada em terrenos abandonados, pastagens degradadas ou à beira de estradas. 
 
* * * 
 
Principiava uma distração nova: o comércio entre os soldados. Trocava-se tudo, multiplicavam-se as barganhas. O João Duque tornou-se uma espécie de belchior ⁷ central, dando-lhe uma trabalheira a condução das bugigangas: navalhas, baralhos, facas, roupas, livros, espelhos. 
Desde a travessia do Piranhas, travaram-se combates: Piancó e o padre Aristides, até ao último reduto; Serra da Baixa Verde e a polícia de Pernambuco; Pajeú e os bandidos de Lampião que tomaram a Coluna por “peludos” ⁸  do governo. E vadearam o São Francisco. Os contatos com os adversários eram rudes. 
João Duque, depois de bater-se como um leão, curava feridos, enterrava mortos. 
 
⁷ Comerciante de objetos usados, ferro-velho ou brechó. 
 
⁸ O termo fazia referência aos militares e forças governistas que mantinham seus cabelos e barbas compridos, além de ser costumeiramente associado pelas populações rurais a pessoas ricas, poderosas e ligadas aos grandes coronéis latifundiários. No caso específico,  os "peludos" eram os soldados do Exército Brasileiro, as forças policiais e os jagunços a serviço dos coronéis e do governo federal.
 
* * * 
 
Urbano ligara-se intimamente ao João Duque. Fazia bem à sua recôndita amargura aquele riso aberto de homem forte. Nunca imaginara que o boêmio das grandes cidades se transformasse naquele tipo extraordinário de soldado, de amigo, de quase pai e mãe dos seus camaradas. Cada dia que passava, Urbano observava um aperfeiçoamento em coragem, em dedicação, em alegria, no amigo. Um dia (estavam numa pequena cidade do Nordeste), enquanto o João Duque enchia o cargueiro de medicamentos e cigarros, perguntou-lhe: 
— Diga-me uma coisa, João Duque: por que você está na Coluna? 
— No começo, por troça! respondeu numa risada. 
— E agora? 
João Duque desceu as pálpebras, não disse nada. 
— Responda, João Duque! 
— Ora! Eu não tenho um coração de ferro! Estou conhecendo muita coisa. 
— Sabe para onde vamos? perguntou-lhe Urbano. 
— Não quero saber, retrucou João Duque. 
 
* * * 
 
Aquela falta de destino! Aquela viagem infinita, de idas e vindas, de recuos e avanços, de largo desenvolvimento e de etapas apertadas... Aquele jornadear de ciganos, aquela fuga, que se transmudava em súbitas ofensivas, horas agudas de combate, dias irritantes de monotonia... Panoramas vastos, no mormaço trepidante, azuis, sempre azuis; e as mesmas fazendas, no desdobrar cansativo das léguas: os mesmos rios; as pequenas povoações com gente espantada, mulheres acobreadas, homens brônzeos... Madrugadas estridentes de passarinhos; a luz crua dos planaltos; capoeirões e caatingas, barrancos lanhados de chuvas... Noites tétricas, com milhões de insetos em torno das luzes das barracas, e os gritos de curiangos ⁹ e bugios... Gemidos de enfermos, risadas e pragas, a inquietação, a incerteza, a carta geográfica vivida, palmo a palmo, dor a dor... A paisagem, a noite cochilante, pareciam cúmplices mancomunados naquela fuga e naquela ofensiva errantes. 
A marcha era, realmente, sem destino; porque as almas também não tinham, a despeito de todas as caminhadas, se fundido num destino. 
Só a origem era certa, o ponto de partida. Alguma força brutal arremessara, como de um arco, a flecha violenta, que já não parava porque se transformara em tresloucada serpente, coleando, fulgurando nos estampidos dos combates, sumindo nas brenhas.
 
⁹ Nome de uma ave de hábitos noturnos e crepusculares muito conhecida no Brasil, popularmente apelidada de bacurau. 
 
* * * 
 
O destino da Coluna ia-se forjando no sofrimento. Não importava (refletia Urbano) a heterogeneidade dos que ali se achavam, constituindo mais uma tribo do que um exército. O espírito de uma coletividade só se forma ao desamparo, com a ausência de pontos de apoio, na impossibilidade de contatos pacíficos. Aquela massa de homens acabaria fundindo todas as torturas e aflições comuns — num sentimento comum. E a consciência brotaria quando a Coluna encontrasse o decifrador dos seus enigmas. Encontrá-lo-ia? Onde estava, em que ponto do Brasil estava o Édipo destinado a desvendar o Esfinge ¹⁰ nacional? 
 
¹⁰ Esfinge: para os gregos, palavra feminina; para os egípcios, masculina. 
 
* * * 
 
A marcha continuava áspera e opressiva. Atingiram o sertão de Canudos, o Vaza-Barris, no rumo de Uauá. Cidades e arraiais calcinados de canícula: Monte Alto, Jacaré, Cana Brava, Chapada, Caraíbas, Tiririca do Bode. Como os Bandeirantes, os soldados pareciam procurar alguma coisa impossível de ser encontrada. Não era o ouro; nem esmeralda ou diamante; nem caça ao bugre, ou perseguição a quilombos e palmares. O nomadismo da horda complexa derivava nos cenários, com a paisagem: morros escalvados de vegetação parda, várzeas enrugadas de enxurros, cabeludas de capoeiras. E os cactos, fantasmas hirtos, com suas mãos numerosas e sem dedos, espalmadas numa ostentação lúgubre de inchaços pavorosos. 
Rompiam capoeirões de chique-chique, grotas de caraguatás agressivos como as unhas aceradas da terra, defendendo-se contra os botes felinos do sol. 
A vista perdia-se pelos rincões de bromélias, esplendentes candelabros sobre os destroços geológicos do sertão. 
Ao deixar o planalto, declinaram para o Sul, onde a Coluna reviveu saudosos dias de combate. Em Rio das Contas, o João Duque, à noite divertiu a população, representando, no teatrinho local, com a troupe que organizara, uma comédia chistosa. 
 
* * * 
 
E, perlongando os vales dos rios, a Coluna ganhou, novamente, Minas Gerais, à maneira de uma procissão que regressava. 
Lugarejos e cidadezinhas! Tremedal, Rio Pardo, Grão Mongol. A geografia animada. O episódio tático do "laço húngaro" ¹¹, iludindo a perseguição da tropa jagunça. Travessia do rio das Contas. As casas amontoadas de Ituaçu. 
Combates, desde Olho d'Água ao Riacho; e, transposto o Jacaré, a Coluna derivou de Igrejinha a Canavieiras, ganhando Tabuleiro Alto, onde se abriu o espetáculo da enchente do São Francisco. 
A marcha, bordejando o rio, afundava na lama dos atoleiros. Os cavalos precipitavam-se nos atascais ¹², com barro até ao peito. Perdiam-se armas, aviamentos, moambas ¹³ e provisões de boca. Galgando aclives escorregadios, a tropa refugiava-se nos capoeirões de carrapatos ¹⁴. Veio a fome: comeram tocos de velas e raízes de pau. De noite, milhões de pernilongos. De dia, mosquitos "pólvora", mutucas teimosas, e um sol ardido, que fulgurava nas poças negras. E apareceu, novamente, a maleita. 
João Duque multiplicava-se em expedientes, sempre cantando e rindo, fazendo versos jocosos. 
Como o Brasil doía, fazia-se sentir, vivido, assim, palmo a palmo: vivido, assim, com o gosto amargo da terra, a fulgurante angústia das febres, da sede e do sol! E como era doce o sumo da alma brasileira, provado, logo após, em Monte Alegre, que glorificou a horda, numa festa popular! Urbano considerava essas populações, que recebiam com festas a Coluna, como povos libertados. Mas, libertados de quê? Qual o pensamento da Coluna? Que remédio poderia dar? Aquela marcha, acaso, não constituiria um novo anestésico, para o esquecimento de realidades pungentes, que ainda não estavam reveladas? Que falava a Coluna? Nada. Que propunha à Nação, como remédio aos seus males? Nada.
 
¹¹ Durante a famosa Coluna Prestes (1924–1927), os revoltosos criaram uma estratégia de combate genial e evasiva que os jornais da época apelidaram de "manobra do laço húngaro". Funcionava assim: quando as forças rebeldes eram perseguidas pelas tropas do governo (legalistas), o comando da Coluna dividia o seu contingente. Uma parte simulava uma fuga em linha reta para atrair o inimigo. Enquanto os legalistas perseguiam essa isca, o restante das tropas rebeldes fazia um longo contorno em semicírculo e atacava a retaguarda do próprio perseguidor. Essa estratégia permitiu que a Coluna Prestes andasse mais de 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil sem nunca ser derrotada em definitivo. 
 
¹² Atascal significa atoleiro, lamaçal ou pântano. 
   
¹³ É a grafia tradicional que predomina (como na famosa moamba de galinha) para o prato típico de Angola, feito com galinha, óleo de palma (desdém ou amendoim (ginguba), quiabos e temperos. Para designar produtos ou mercadorias trazidas ilegalmente do exterior ou de origem ilícita, o certo é usar a palavra muamba. 
 
¹⁴ Esta expressão descreve áreas de mata secundária alta que estão densamente infestadas por carrapatos. 
 
* * * 
 
Feridos, pequenos combates em Pé da Serra e Tucano, estiveram outra vez, em Canudos. Atravessados os três quilômetros do São Francisco, dobraram a serra dos Dois Irmãos, em Pernambuco, tocaram, de novo o Piauí, voltaram, noutra investida, à Bahia, lutaram com Horácio de Matos, e rumaram para Oeste. A tropa ziguezagueava, cortando os rios: o Verde, o Piqueri, o majestoso Araguaia. 
A paisagem agora desatava-se em restingas e banhados, povoados de garças e marrecos. Bufavam antas nas charnecas e o gavião pompeava no voo soberbo de aeroplano guerreiro. Tabas de índios, povoados de garimpeiros: Praia Rica, Cassununga, Tesouro, no soturno e preto Rio das Garças. Manadas de gado na ondulação verde. Longe, o perfil baixo e transparente de cerros azulados. Corriam os dias, os meses. Faltava tudo. Faltavam companheiros que haviam ficado presos, ou debaixo das cruzes plantadas no itinerário incerto. Estavam todos barbudos, morenos de sol, alguns feridos de implacável maleita, que verrumava o fígado, o baço e os rins. Soldados ictéricos, estigmatizados por hepatites crônicas, que açafroavam as feições; soldados manetas, ou equilibrando-se em pernas de pau, ou cegos de um ou dos dois olhos, ou marcados de gilvazes ¹⁵; muitos esqueléticos, trôpegos, arfando nas caminhadas. 
A Coluna gastara-se, derretera-se, deixando, em pós de seus passos, como a cauda de um cometa, um rastro de sepulturas, de dores e desilusões. Em torno do chefe ¹⁶, a oficialidade era a luz que não se extinguia, a cabeça da serpente flamívoma ¹⁷, que atingia a fronteira... 
 
¹⁵ Gilvaz significa um golpe, corte profundo ou a cicatriz deixada por um ferimento no rosto. 
 
¹⁶ Plínio Salgado descrevia Prestes como uma ameaça à soberania nacional. Para o líder integralista, o Prestes que se converteu ao marxismo na década de 1930 não passava de um lacaio de Moscou, um agente internacional encarregado de espalhar a "peste bolchevista" e destruir as bases da sociedade brasileira: Deus, a pátria e a família. Por isso mesmo, dentro da narrativa "A Coluna Prestes", Luiz Carlos Prestes só é referido nominalmente no título; no interior da narrativa, seu nome não é mencionado, sendo substituído por "o chefe". 
Critica-o com firmeza pela ausência de definição, o que tornou a "marcha áspera e opressiva realmente sem destino". À certa altura indaga: "Que propunha à Nação, como remédio aos seus males? Nada." 
 
¹⁷ Aquela que vomita, expele ou lança chamas. 
 
* * * 
 
Foi numa tarde de esplendor selvagem que o João Duque disse a Urbano "que não podia mais". Ele contraíra a enfermidade, depois dos ferimentos que recebera no primeiro combate de Jauru, onde atravessara o rio, surgindo com dez companheiros nus, de fuzil em punho, na retaguarda do inimigo. A carga de chumbo de um paisano lhe ferira o pé esquerdo. Nem dera importância, ajudara a recolher os mortos, tratara de curar os ferimentos dos outros. Já noite, depois de longa caminhada, João Duque disse a Urbano: "Não consigo mais andar". Urbano arranjou um cavalo, e João Duque, agradecido, pilheriou: "É de trote duro, mas agora me sabe melhor do que uma poltrona do Automóvel Clube. Dê-me um cigarro". No pouso, Urbano examinou a ferida. A botina rasgada encharcara-se de sangue, comprimia o pé inchado e entalado. Urbano colheu água numa pequena bacia, ajoelhou-se diante do amigo, e pôs-se a lavar-lhe o pé dolorido. À luz vermelha de uma lamparina de querosene, que o cabo Francisco erguia, a cena banal ganhava uma grandeza épica. As mãos de Urbano, rudes e implacáveis nos assaltos bravos, ameigavam-se em carícias de doçura maternal. Com as lâminas agudas do estojo de cirurgia de João Duque (uma caixinha de charutos cheia de tesouras, pinças, bisturis e antissépticos) extraía os bagos de chumbo. O João Duque gemia e ria-se caçoando da ideia do paisano que pretendera caçá-lo a chumbo, como a um pombo. Urbano sabia que o estado de João Duque não era bom. Tinha febre. Tremia, batendo o queixo. 
Fora da barraca, resplandecia o luar. E as árvores, acotovelando-se baixas e mudas nos capoeirões rasteiros, pareciam agachadas para espiar. Era um esquisito lava-pés ¹⁸ de sangue, que Urbano sentia profundamente, na sua tocante simplicidade. Enquanto trabalhava, refletia: 
— Este João Duque ensinou-me, durante todas as travessias, a mais profunda lição. A Coluna marchou sem destino e sem ideias definidas. Que fazíamos? Caminhar. Caminhar pode ser uma finalidade mesmo quando não se leva um rumo, um objetivo. E é preciso dar à jornada uma destinação em si mesma. O espírito das marchas não está no escopo fixado. Está em cada dia, em cada hora, em cada minuto que se vive de solidariedade, de compreensão de todos os dramas, vencendo as torturas desagregadoras. Paralisado, o espírito morre: ele vive, tão somente, na contínua mobilidade. 
— Que está pensando tanto? interrompeu-o João Duque. 
— Estou pensando no alimento e no remédio que lhe devo dar. João Duque sorriu: 
— Quero descansar, capitão. Se tivesse um cafezinho, era outro caso. Sou paulista e gosto de café. 
Fazia realmente muito tempo que não tomavam café, e João Duque dizia que trocava de bom grado as bugigangas que levava no cargueiro por um golezinho. 
— Se não tiver café, serve champanha! riu o João Duque. 
E dormiu, sem nada, sobre os baixeiros ¹⁹ recendentes do suor dos burros. 
 
¹⁸ O Lava-pés é um rito religioso praticado por diversas denominações cristãs (como a Igreja Católica e a Igreja Adventista). Ele reconstitui o gesto de Jesus Cristo relatado no Evangelho de João (capítulo 13), quando ele se ajoelhou para lavar os pés dos seus discípulos durante a Última Ceia. 
 
¹⁹ Baixeiro é uma manta grossa, tradicionalmente feita de lã natural ou feltro, que se coloca diretamente sobre o lombo do cavalo antes dos arreios ou da sela. 
 
* * * 
 
Um ferimento à toa. E João Duque definhava. 
— Aquele diabo de chimango ²⁰ pôs maleita no chumbo! exclamava rindo, para não incomodar. 
Todas as noites, através da caminhada no rumo da Bolívia, a febre chegava, pegava o João Duque, e começava a cozinhá-lo. 
A viagem era penosa nas vastas planuras do Oeste. Abriam-se lagoas, como grandes olhos vítreos da terra, num estrabismo que alongava as sombras das vegetações. 
A horda bordejava os marnéis: ganhava os planos úmidos dos charcos; cortava-os— grupos de cavaleiros e de infantes, rotos e cansados —; e debruava nos dias longos a ourela tarjada de macegas dos pântanos cor de chumbo. 
Nos últimos lampejos daquele meteoro humano, que se inclinava para o ocidente da Pátria, no mesmo rumo em que os astros se ocultam, João Duque, enfermo, queria levar aceso o facho da alegria consoladora. Já não tinha mais o gramofone, nem o violão, que perdera na travessia do Jarinu, ajudando Urbano a salvar o tenente Gilberto. Cantava, porém, os sambas e maxixes do Rio, nos intervalos da febre arrasadora. "Para espantar tristezas", dizia. E lamentava não ter o seu querido violão. Durante os dias vagarosos, ao rumor surdo dos cascos dos animais, contava façanhas, rememorava episódios, para distrair os companheiros. O seu jacá de quinquilharias estava desfalcado. As notas de duzentos mil réis, com o retrato azul de Prudente de Morais, vinham sendo desprezadas, pois se dizia que o Governo havia recolhido a emissão. Esse boato alarmara os portadores, e logo o João Duque transformou a canastra de couro peludo e taxinhas amarelas em casa de câmbio. Talvez as cédulas não valessem coisa alguma; por isso mesmo trocava tudo, arranjando assim um meio de distribuir o dinheiro que acumulara, sem querer, no seu comércio antejo, feito um divertimento de saltimbancos errantes. O João Duque tinha mais de dez contos, que, possivelmente, não valiam dez réis. Se valessem, nutria um desejo: obter com aquilo meios de subsistência para os combalidos, para as mulheres e crianças. Pois nasceram crianças na marcha; as noites dos pousos no sertão cortavam-nas os choros altos dos bebês da Coluna. 
O pequeno exército constituía, de há muito, uma pequena tribo que vagueava, criando costumes e leis precárias como rudimentos de organização civil. Faltava-lhe a Arca da Aliança, como lhe faltava o sonho futuro de uma Canaã prefixada na carta geográfica. ²¹
 
²⁰ Ave de rapina de porte médio, extremamente inteligente, rápida e oportunista que se alimenta de pequenos animais, parasitas do gado e carniça. Plínio Salgado usa o termo para ilustrar a visão dos rebeldes da Coluna: para os homens de Luiz Carlos Prestes, qualquer soldado da força oficial ou das polícias estaduais (especialmente da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, que compunha os contingentes legalistas) era rotulado como um "chimango". Como a Coluna Prestes era liderada por militares rebeldes (tenentistas) que contestavam o governo federal de Artur Bernardes e as oligarquias estaduais, as tropas enviadas pelo governo para combatê-los e persegui-los pelo interior do Brasil eram chamadas pelos revoltosos de "chimangos", o símbolo das forças opressoras do governo e do sistema oligárquico tradicional que tentavam, a todo custo, esmagar a marcha da Coluna Prestes pelo Brasil. Empregando o termo chimango, Salgado faz referência direta às oligarquias do Rio Grande do Sul (os defensores do sistema de Borges de Medeiros). 
Já que falei em tenentistas na formação e composição da Coluna Prestes, seria conveniente estabelecer a relação entre esses dois movimentos: do Tenentismo com a Coluna Prestes.
Podemos dizer que o Tenentismo foi a ideologia/movimento-mãe, que deu origem à Coluna Prestes, seu principal desdobramento. Para a compreensão do fenômeno tipicamente brasileiro chamado República Velha, é preciso fazer uma retrospectiva.
O Tenentismo foi um movimento político-militar de contestação, formado principalmente por jovens oficiais de baixa e média patente do Exército Brasileiro (tenentes e capitães) durante a década de 1920. Eles estavam profundamente insatisfeitos com a corrupção, as fraudes eleitorais e o domínio das oligarquias da República Velha (a política do "café com leite" de São Paulo e Minas Gerais). O Tenentismo começou com revoltas isoladas e urbanas (como a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana em 1922 e a Revolta Paulista de 1924). Como essas tentativas de dar um golpe urbano e derrubar o presidente falharam, os militares rebeldes mudaram de estratégia, a saber: os tenentistas que sobreviveram e fugiram da Revolta Paulista de 1924 (liderados por Miguel Costa) marcharam em direção ao Sul do país. Lá, eles se aliaram aos tenentes rebeldes do Rio Grande do Sul (liderados por Luiz Carlos Prestes). A fusão desses dois grupos de tenentes rebeldes deu origem à Coluna Prestes.
E, resumidamente, a Coluna Prestes foi uma marcha militar rebelde que percorreu mais de 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil entre 1924 e 1927. Ficou conhecida por ter marchado tantos quilômetros e por não ter sido derrotada pelas tropas do governo em nenhum combate durante seu período de atuação. Ela nasceu sob a liderança de um desses jovens oficiais: o capitão de engenharia Luiz Carlos Prestes, que se tornou a maior liderança militar do movimento tenentista. A Coluna Prestes tinha sim uma ideologia que pode não ter ficado manifesta para a tropa, mas que era compartilhada pela principal liderança, marchando pelo interior do país e carregando exatamente as mesmas bandeiras e ideais do movimento tenentista:
• O fim do voto de cabresto e das fraudes nas urnas;
• A instituição do voto secreto;
• A obrigatoriedade do ensino primário público;
• A centralização do poder para modernizar o país e combater as oligarquias regionais (os "coronéis").
O ano de 1927 é marcante porque foi justamente o ano do fim da marcha da Coluna Prestes (quando os soldados sobreviventes se dispersaram e buscaram exílio na Bolívia e no Paraguai). A partir desse exílio, a imprensa e os intelectuais da época — de ambos os lados políticos — começaram a publicar intensamente ensaios, crônicas e artigos tentando explicar o fenômeno da marcha que durou mais de dois anos pelo interior do Brasil.
Interessante observar que, ao contrário de Plínio Salgado, Jorge Amado, em O Cavaleiro da Esperança (1942), romantizou Prestes, elevando-o à categoria de um herói mítico, quase messiânico. Para Amado, Prestes personificava as dores, a coragem e as esperanças do povo sofrido do sertão brasileiro. Ele era descrito como um líder abnegado, incorruptível e movido pelo amor ao Brasil. 
Qual foi então o legado comum da Coluna Prestes?
Embora não tenha conseguido derrubar o presidente Artur Bernardes por vias militares, ela manteve a chama do Tenentismo viva no imaginário popular. A marcha provou que o governo oligárquico era frágil e incapaz de derrotá-los.
Essa resistência imposta pelos tenentistas enfraqueceu as bases da República Velha e preparou o terreno político e social para a Revolução de 1930, que finalmente levou Getúlio Vargas ao poder e pôs fim à hegemonia dos barões do café. 
Plínio Salgado, que mais tarde fundaria o Integralismo (1932), usava sua escrita modernista para criticar os vícios da República Velha (como as fraudes eleitorais, o coronelismo e o regionalismo violento).
Nesta narrativa intitulada A 
“Coluna Prestes”, o autor desfere uma forte crítica à mentalidade daquela época — uma política que ele considerava atrasada, violenta e presa a velhas rivalidades de lenços e clãs (os legalistas e republicanos "chimangos" no Rio Grande do Sul, liderados por Borges de Medeiros, com lenço branco no pescoço X "maragatos", com lenço vermelho), incapaz de compreender os desejos de modernização nacional defendidos pelos jovens "tenentes" da Coluna. 
 
²¹ A comparação "O Brasil sem rumo como a Coluna Prestes" evoca uma metáfora poderosa e cheia de camadas sobre a história, a política e a própria identidade do país. Ela traça um paralelo entre o destino de uma nação inteira e as características de uma das marchas militares mais impressionantes e enigmáticas da história brasileira.
Analisando a frase em profundidade, o paralelo revela pelo menos três interpretações:
1) A Marcha que Avança, mas Não Chega (O Movimento Perpétuo)
A Coluna Prestes percorreu mais de 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil durante quase três anos. Ela foi invencível no sentido militar: o governo tentou esmagá-la diversas vezes e falhou. No entanto, ela nunca conseguiu atingir o seu objetivo final prático, que era derrubar o presidente Artur Bernardes ou tomar o poder.
Dizer que o Brasil está "sem rumo como a Coluna Prestes" significa enxergar o país como uma nação que gasta uma energia monumental, que caminha sem parar, que sobrevive a crises extremas e parece "invencível", mas que gira em círculos. Há movimento, há esforço, mas há também uma sensação de que o país nunca chega ao seu destino de desenvolvimento ou estabilidade.

2) O que fazer com o Brasil?
Como apontado por intelectuais da época — inclusive na literatura de Plínio Salgado através do personagem Urbano —, a Coluna Prestes era movida por um forte sentimento de indignação contra as injustiças e a corrupção da República Velha. Porém, o movimento era um emaranhado de desejos: unia desde jovens idealistas a homens movidos por ambições pessoais e espírito de aventura, carecendo de um projeto claro, estruturado e unificado sobre o que fazer com o Brasil, caso vencessem.
A metáfora sugere um país fragmentado por projetos individuais, polarizações, "rancores pessoais e aspirações de glória", mas que carece de um projeto nacional de longo prazo. É o Brasil que sabe exatamente contra o que está lutando (o caos, a crise, a corrupção), mas não sabe exatamente para onde e pelo que está caminhando.

3) A Revelação do "Brasil Profundo" no Caos
Por outro lado, a Coluna Prestes só existiu e sobreviveu porque mergulhou no Brasil real, no sertão esquecido pelas elites litorâneas, descobrindo as dores, a miséria e a solidariedade humana do povo brasileiro. O "sem rumo" da Coluna acabou sendo uma jornada de autodescoberta forçada.
Em suma, se, por um lado, o Brasil está "sem rumo como a Coluna Prestes", por outro, é um país que possui uma força e resiliência extraordinárias para caminhar, mas que sofre historicamente com a ausência de um projeto nacional de longo prazo (ou como se diz modernamente um projeto de país) para guiar o seu imenso potencial. 
 
 
* * * 
 
A Coluna era indefinida no tempo e no espaço. ²²
Destacara-se da ilharga da Pátria, como os anéis de Saturno, mantendo a mesma estrutura complexa e confusa do núcleo irradiante e prolongando o giro das peregrinações, que a transformava numa turba desconexa. 
Depois de haver transitado em todas as direções, ao sol e à chuva, rasgando as roupas nos estiletes dos chique-chiques, timbrando-as de juçaras e de agulhetas de picões e juazeiros agrestes, tatuando a pele ao contato de espinhos e marcando o corpo com gilvazes e lanhos de bala e faca, — a horda heterogênea apresentava a fisionomia global de uma pequena babel de roupas, de ideias e de costumes contrastantes. Os dólmãs desbotados sobre calças de algodão; as camisas de todos os padrões e cores, remendadas ou rasgadas; cinturões militares e cintas sertanejas de couro cru, chapéus de pano, de couro ou de palha, quepes, gorros, barretes de campanha, facas de todos os estilos, fuzis Mauser, Mannlicher, Winchester, armas de caça, revólveres e garruchas; foices, enxadas, varas de anzol. 
Rostos abertos de gaúchos, faces moreno-pálidas de paulistas, cabeças chatas bronzeadas do Norte, mulatos e negros, como um bazar de procedências étnicas e de origens geográficas. Caboclos supersticiosos que penetravam nos cemitérios perdidos na amplidão sertaneja, para acender velas aos mortos e fazer um voto às almas do purgatório; negros feiticeiros que invocavam espíritos a horas mortas, para indagar do destino da Coluna. Uns rezavam persignando-se, tirando o chapéu às Santas Cruzes; outros confessavam e comungavam nas paróquias conquistadas; e, finalmente, outros zombavam dos santos, sorrindo desdenhosos e céticos. Figuras ásperas de bandoleiros, eriçados de bravura; perfis sonhadores iluminados pelo misticismo revolucionário; caras de todos os tons; desde o banditismo, que desertava e armava tocaia e agora encontrava o seu clímax na Coluna, até a candura dos que se dedicavam de corpo e alma aos chefes e companheiros por um vago idealismo que eles não sabiam definir nem pensar. 
Que estranha força os conjugava nas marchas torturantes? Que estrela os atraía, caravana de reis magos, batendo às portas do sertão, como a inquirir montanhas, rios, florestas e charnecas? 
Nem lograva ser uma consciência de aspiração, e já não era o limbo amorfo do complexus larvar de uma nacionalidade vegetativa, sem características de cor e de vida orgânica. A Coluna, que submergia nas florestas e repontava nos povoados, à semelhança de um fantasma, atingia os charcos do Oeste, esfarrapada, nos seus aspectos tumultuários, como uma expressão da balbuciante batalha interior, que se processava no íntimo da vida reflexa das populações brasileiras. 
 
²² Aqui Plínio critica a Coluna Prestes pela ausência de definição. Anteriormente já a criticara como "marcha áspera e opressiva realmente sem destino" e sem propósito. A certa altura indagou: "Que propunha à Nação, como remédio aos seus males? Nada."
 
* * * 
 
Urbano considerava — ao cabo de todos os itinerários — esse estado de espírito de beduínos rotos, unidade étnica, sem uniformidade de crenças, ou de costumes, sem cultura, sem ideias, sem padrão nacional, porém vibrátil, na sua confusão, que significava já alguma coisa superior ao plasma constitutivo do fundo amorfo e incaracterístico das aspirações nacionais. Se a vida política de um povo devia ser a consciência de suas necessidades e de seu destino, o povo brasileiro não tinha vida política, porque as agitações eleitorais não passavam de fenômenos periféricos, sem penetração nuclear. 
Era ali o fim de um capítulo da História. 
Urbano compreendia-o. 
Aquela marcha despertava no caos de todas as dúvidas ²³ da Coluna —, entre ambições, rancores pessoais, aspirações de glórias, impulsos de aventura, misérias, heroísmos, êxtases místicos, — um sentido dominador de solidariedade humana, uma adivinhação de realidades nacionais e continentais. 
 
²³ O personagem Urbano, uma espécie de alter ego idealizado do próprio autor, é quem reflete sobre os rumos do país. 
No ocaso da narrativa, ao observar e analisar o fenômeno histórico da Coluna Prestes, Plínio Salgado (através de Urbano) experimenta um profundo impacto espiritual e sociológico.
A cena e a sua visão sobre a marcha revelam os seguintes significados profundamente conectados com a estética modernista e a posterior ideologia do autor:
Ao considerar aquela massa de homens marchando pelo sertão, Urbano enxerga todas as contradições da condição humana. Ele não vê um bloco homogêneo de heróis perfeitos, mas sim um "caos de dúvidas da Coluna": soldados movidos por ambições mesquinhas, rancores políticos pessoais, o desejo egoísta de glória militar e o simples impulso juvenil de aventura. No entanto, o milagre da marcha é que toda essa "miséria" individual é engolida e transmutada por algo maior: um sentimento avassalador de solidariedade humana. 
Para Urbano — e aqui reside a visão central de Plínio Salgado na época —, a Coluna Prestes não era apenas uma revolta militar ou um evento político comum: era uma força reveladora. Ao rasgar o interior esquecido do Brasil profundo, longe dos salões sofisticados e alienados do Rio de Janeiro ou de São Paulo, os marchantes foram forçados a se deparar com a verdadeira face do país: a pobreza do sertanejo, o abandono social e o poder feudal dos coronéis. A marcha despertou uma "adivinhação de realidades", ou seja, uma intuição espiritual e dolorosa do que o Brasil realmente era por dentro, expandindo-se inclusive para uma percepção "continental" da América Latina profunda. 
Na visão de Urbano, a marcha é descrita como uma epopeia contraditória: humana em suas misérias e falhas individuais, mas divina e transformadora no sentido de comunhão e revelação da verdadeira identidade da pátria. Embora Urbano admire os "heroísmos" e os "êxtases místicos" coletivos da Coluna, a sua conclusão carrega a tese do autor. Ele reconhece que a marcha teve a força de denunciar o caos da República Velha e unificar os homens pelo sofrimento, mas falhou em apontar um norte construtivo definitivo. 
Para Plínio Salgado (através de Urbano), a Coluna foi um despertar grandioso da alma nacional, mas que acabou se dispersando justamente porque faltou a ela uma doutrina espiritual e social que unificasse o Brasil de forma orgânica — uma lacuna que o autor, logo em seguida, tentaria preencher na vida real ao lançar o Movimento Integralista.
 
* * * 
 
João Duque piorava, dia a dia. Debelado o foco da infecção com cataplasmas de rainha de mandioca e uma picadela de canivete, a febre foi desaparecendo; mas um dia, sem explicação possível, ela irrompeu de novo. Um tremor convulso sacudia-o de baixo dos pelegos, nas estreladas noites bolivianas. A Coluna internara-se fora da Pátria, como um personagem que volve aos bastidores, depois da cena dramática. Tendo atravessado o rio Paraguai, bordejava o Sepetuba, cortara o Jubá, em Taperas, depois de longas picadas até o rio Cabeçal. A viagem se fizera com água pelos joelhos e tombos nos atoleiros da vasta região pantanosa. 
João Duque olhava triste o céu brasileiro, para o lado do oriente. 
 
 * * * 
 
Urbano não o deixava um instante, dando-lhe quinino e aspirina, caldos e chás. O João Duque sorria, tentava ainda brincar, porque ele fora sempre a alegria da Coluna. Uma tarde, Urbano fez-lhe uma surpresa: arranjou um violão. Limpou as lágrimas, penetrou na barraca, soltando uma risada: 
— Vamos alegrar esta vida, João Duque; olha aqui o que eu arranjei. 
João Duque estendeu os braços magros para o instrumento, sorrindo tristemente: 
— "Me dê!" 
Abraçou o violão. Estava tão fraco, tão desfalecido, que dormitou assim. Depois, descerrou as pálpebras, olhou em torno. 
— Chame o cabo Gervásio, para cantar. 
Cabo Gervásio veio arrastado. Não podia ver o companheiro das cantorias boêmias naquela situação. Mas sentou-se ao lado de João Duque, pôs-se a cantar o que ele pedia. 
— Você parece que está engasgado, Gervásio..., disse o enfermo desconfiado, num sorriso leve, que lhe arregaçava o canto dos lábios. 
— É falta de pinga..., respondeu Gervásio. 
João Duque pegou a mão de Urbano: 
— Escreva para minha mãe quando eu morrer... 
— Não diga isso, João Duque; você não morre. 
João Duque ficou quieto, como refletindo. Afinal falou: 
— Não perdi completamente a vida. Aprendi a querer bem, a lutar e sofrer, alegre. A Coluna ainda não acabou. Ela vai agora marchar sempre, sempre... 
Essa noite, João Duque entrou a delirar. Não parecia mais a sua voz, porque a voz dos que vão morrer é diferente. Vieram todos vê-lo. Em torno da barraca, reuniram-se grupos abatidos de dor, sob o céu chamejante de astros. Rememoravam todas as façanhas de João Duque, no fogo dos combates, nas travessias a nado das caudais, nas caminhadas exasperantes, nas noites indormidas. 
Ao longo do panorama de macegas, de brejos e lagunas, povoado de rumores de grilos e sapos, a noite tomava posse da terra, como um gavião preto. 
— Esta vida é uma merda! exclamou o cabo Gervásio, soluçando. 
— E os bandidos, disse um soldado louro, estão a estas horas gozando a vida nas cidades, estourando champanha, dormindo no macio... 
Pela cabeça de Urbano passavam as luzes noturnas: Manaus, São Paulo, Rio, Porto Alegre, Recife, São Salvador, e centenas de outras. Todas estavam despertas, para a grande noite em que João Duque, filho das cidades, ia morrer. Parecia a Urbano que todos esses núcleos de populações, esparramadas pelo território da Pátria, sabiam da agonia daquela mocidade vibrante. Como que todas as lutas suspendiam-se na noite enorme. O João Duque era o centro do mundo. As estrelas sabiam disso. Elas tinham descido, no céu baixo, sobre a planície. 
João Duque delirava em voz alta: 
— A Coluna vai marchar! Ela não para. Acendam a Coluna, botem fogo nela. Tragam lenha, carvão. Avante, vamos voando! Estamos em toda a parte... 
O delírio objetivava-se numa obsessão de asas: 
— Força! Força! Para cima! 
Era uma grande ave ferida, sacudindo as asas no estertor. 
À madrugada, João Duque deixou de falar. Arquejava. Os grupos de soldados estavam mudos. O rumor gargarejado daqueles arrancos soluçantes dominava inteiramente a noite. E era uma tortura aquela espera do último suspiro, que todos, já agora, pareciam desejar, como um alívio definitivo. 
De repente, tudo cessou. Urbano, saindo à porta da barraca, disse: 
— Morreu! 
Então, os prantos represados na vigília heróica, romperam os diques, em pragas, em palavras engasgadas, em choros altos. 
Trataram de vestir o João Duque. Suas roupas estavam rasgadas, muito remendadas. Cada um quis dar uma peça melhor do seu vestuário. Urbano deu a sua camisa limpa de algodão; Gervásio, umas botinas novas, que desapertara, e vinha guardando, avaramente, desde Juazeiro; o tenente Gilberto trouxe o melhor dólmã da tropa, meio desbotado, mas bom; as meias, deu-as um negro, ainda com a etiqueta. As mulheres fizeram uma almofada com o pano de suas camisas. 
A tribo erradia, que se habituara a enterrar os seus mortos sem complicações, abrindo o buraco e lançando o cadáver do modo como estava, transformou o sepultamento do João Duque numa cerimônia, até então, desconhecida. Porque ele tinha sido a juventude da Coluna e todos morriam um pouco com ele. 
À tarde, formaram militarmente. Os tambores rufaram. Uma clarinada cortou o ar tépido diante do poente grandioso. Sobre castelos de nuvens, o sol inclinava-se do lado dos Andes longínquos e uma luz vermelha barrava o horizonte. A bandeira verde-amarela foi suspensa a um mastro. Cada um dos soldados atirou um punhado de terra boliviana sobre o caixão de João Duque. A noite vinha chegando como um corvo no crepúsculo violeta. 
Encostado a um tronco de árvore, Urbano estava absorto. Aquilo parecia o fim de tudo. Nada mais restava a fazer. A Coluna desmanchava-se, na paz do exílio. Cada qual deveria procurar seu rumo. 
Entretanto, num capoeirão próximo, vibrou, enchendo a paisagem crepuscular, um assobio aziago: 
— Sem-fim... Sem-fim... 
Era a voz do sertão, que respondia ao apelo do João Duque. A marcha não teria tréguas. 
 
* * * 
 
Agora, na calmaria monótona da pequena capital paraguaia, Urbano considerava tristemente o destino da horda magnífica. 
Aquela guerra de governadores não podia interessar o espírito inquieto da Coluna. Divergindo do chefe , que dera o próprio nome à horda errante e agora se deixava empolgar por uma doutrina tão contrária ao sentimento brasileiro, Urbano, entretanto, não aderia a uma nova revolução, indefinida como a própria indefinição da Coluna. ²⁴E respondia aos que lhe falavam em Aliança Liberal: 
— Liberdade! Liberdade! É preciso defini-la, antes de conquistá-la. Para que ela não fuja, quando a julgamos alcançada. Quero guardar o espírito da Coluna, como uma semente, única e rara, da grande árvore. João Duque foi o otimismo, a força, a abnegação, o carinho, a mocidade; mas foi, sobretudo, o solucionador dos conflitos. Apelidaram-no "o boticário", "o maquinista", "o folgazão", e os índios chamaram-no, por causa do gramofone, "o pau que fala". Ele foi heróico e bravo: porque ninguém tem o direito de ser heróico, se não sabe dar remédios, apaziguar aflições, distribuir alegria e falar alguma coisa que entre beneficamente na alma dos seus irmãos.
 
²⁴ Plínio Salgado e Luiz Carlos Prestes eram antagonistas ideológicos ferozes, representando os extremos opostos do cenário político brasileiro na década de 1930. Plínio, líder do movimento fascista e ultraconservador da Ação Integralista Brasileira (AIB), via o comunismo liderado por Prestes como o maior perigo material e espiritual para a nação brasileira, por ser uma doutrina materialista e ateia que promovia uma "visão mutiladora" do ser humano. Para ele, o coletivismo marxista derivava do erro iluminista e apagava a espiritualidade e a individualidade cristã. O líder integralista argumentava que Luiz Carlos Prestes e a Aliança Nacional Libertadora (ANL) agiam subordinados aos interesses de Moscou (União Soviética), quebrando o ideal de nacionalismo puro e cristão defendido pelo lema integralista "Deus, Pátria e Família".
Apesar do profundo combate político, o pensamento de Plínio Salgado (através de Urbano) sobre Prestes combinava uma repulsa ideológica intransigente com um reconhecimento pragmático da força de caráter e liderança de seu rival. Para ele, figuras com o peso histórico de Prestes — que havia liderado a famosa Coluna Prestes na década de 1920 — demandavam um combate à altura. Ele reconhecia que o "Cavaleiro da Esperança" operava com convicção absoluta e sem concessões intelectuais, o que o tornava o adversário mais perigoso e respeitável a ser derrotado na disputa pelos rumos do Brasil. 
 
 
* Escritor, jornalista, poeta, historiador, teólogo, filósofo e político conservador brasileiro. tendo, como tal, sido o fundador, principal ideólogo e líder máximo do Integralismo no Brasil. 
 
 
II. BIBLIOGRAFIA

AGUIAR, Flávio: Os romances de Plínio Salgado, in A Terra é Redonda, 16/03/2020
Link: https://aterraeredonda.com.br/os-romances-de-plinio-salgado/

GONÇALVES, Leandro Pereira: A intelectualidade integralista de Plínio Salgado: uma análise do discurso literário, Santa Maria-RS: Revista Eletrônica Literatura e Autoritarismo, UFSM-RS, nº 13, jan/jun 2009, pp. 37-57
Link: https://periodicos.ufsm.br/LA/article/view/73910

Portal da CÂMARA DOS DEPUTADOS: Biografia do Deputado PLÍNIO SALGADO
Link: https://www.camara.leg.br/deputados/131477/biografia

SALGADO, Plínio: O Cavaleiro de Itararé: crônica da vida brasileira, 5ª edição, São Paulo: Editora Voz do Oeste em convênio com INL, 1979, 336 p. 

Um comentário:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
Venho convidá-lo à leitura da minha mais recente publicação no Blog de São João del-Rei, onde dedico um espaço especial para transcrever o Capítulo XIX (A COLUNA PRESTES) do romance O Cavaleiro de Itararé, de PLÍNIO SALGADO, acompanhado de minhas notas de rodapé e comentários que inseri ao longo do texto e que trazem contextualizações históricas e detalhes fundamentais que ajudam a aprofundar a compreensão da obra, que toma parte da célebre trilogia do autor com O Estrangeiro (1926) e O Esperado (1931).

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/10/a-coluna-prestes.html

Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei