sábado, 3 de outubro de 2020

BREVE ANTOLOGIA DE FERNANDO TEIXEIRA

 

Por Fernando Teixeira

 

VIAJEIRO 

venho de terra distante 
e trago na mochila 
quase nada 
trapos de esperas 
nacos de cansaços 
quase nada 
além de tardo cajado 
 
 
UM ANJO SUBIU O MORRO 
[Excerto do Anuário 1995] 
 

O Presidente da República maquiou o topete para se contemplar, do alto da imensa popularidade, no discurso televisivo. Noutra tela, o outro ungido das urnas exibia esperanças, feitas de baixos salários e moeda forte. Já o governador, de então, prelibava o derradeiro uísque antes de transferir as chaves ornadas de tampinhas de garrafas, ao substituto exsurgido das verbas públicas. Ecoavam vozes dos senadores, deputados federais e estaduais, impolutos ministros, desembargadores, juízes. Afinal, no Natal se fala. Depois, os banquetes ocorrem. Escancaram-se as portas dos clubes sociais. 

Com este pano de fundo, o anjo subiu o morro e avistou a favela. O seu olhar abraçou todas as desgraças. Abriram-se as arcas de seu coração para enriquecer de ternura os sem nada. Distribuiu o pão da palavra aos que clamam por justiça. Eram muitos. Não, eram todos os destinatários de sua mensagem. Assim o anjo subiu todos os morros e descortinou todas as favelas. 

E disse: — “Bem-aventurados os pobres, porque Ele veio para torna-los ricos de vera riqueza. Bem-aventurados os que choram, porque ele veio para alegrá-los. Bem-aventurados os esfomeados, porque Ele veio tornar-se o seu pão. Bem-aventurados os analfabetos, porque ele veio ensinar-lhes o verbo da prece. Bem-aventurados os que são puros, porque Ele veio confirmar a sua simplicidade. Bem-aventurados os que que nada esperam, porque para estes Ele se fez Natal.” 

Longe das vitrines neoliberais iluminadas, numa viela escura, um certo José dava sua mão adulta a um garoto quase sem roupa. E ouviam o anjo. 

Mais adiante, Maria contava à menina maltrapilha que existe um reino onde todos têm casa, roupa, comida e um governante chamado Pai. Ressoava, pelo céu, o discurso do anjo. 

Estas crianças não viram o presidente popular, nem o presidente magisterial, nem os senadores, deputados e julgadores, mesmo porque não tinham televisão. Depois, para elas, real é a fome, não um dinheiro, e verdadeira é a miséria, jamais teses econômicas. Sequer tinham o direito de devorar lautos banquetes ou divertir-se em clubes elegantes. 

Mas, compreendiam, com aquele José e aquela Maria, porque Ele nasceu menino e despido numa estrebaria... 

 

PARA ISABELA (uma fada de dois anos) 
[Excerto da Antologia 2000] 
 
apenas sua voz desperta 
em tempo indizível entre 
o vovô e a saudade 
 
(ciranda de nuvens 
e histórias de bichos e fadas 
e monossílabos instantes 
que adormecem sonhos 
e borboletas) 
 
somente os seus passos conduzem 
a uma plaga luzente para 
o vovô e a saudade 
 
(pomares de nada 
e brinquedos vários 
e pipas 
e a bola que balança 
as rodas da esperança 
e brinquedos) 
 
agora seu dar as mãos 
faz-se capaz de ligar 
o vovô e a saudade 
 
(uma lágrima fudigia
 e inescondida ternura 
e doces 
e o gosto do abraço 
que conquista sorriso 
e vida). 
 
 
CANÇÃO DA RUA DESERTA 
 
a noite cobre de sombras 
esquinas adormecidas 
ninguém senão um nada 
guarda o ar ensombrado 
 
derramo o olhar comprido 
pela esteira do asfalto 
com multidão de silêncios 
 
sinto o peso de estar só 
na rua plena de distâncias 
rua grande para eu pequeno 
tão perdido na solitude 
 
e a noite cobre de sombras 
cobre de sombras as sombras 
as sombras dentro de mim 
 
 
♧            ♧            ♧
 
 
NOTA DO GERENTE DO BLOG: Abaixo reproduzo três poemas visuais ou poemas figurativos de Fernando Teixeira (Cara, Escada e Tríptico), nos quais o autor procura destacar o aspecto visual, utilizando a disposição gráfica do texto para reproduzir a forma do objeto evocado. Esse processo interativo da leitura, muitas vezes exigindo a participação do papel do lúdico, evidencia que “uma imagem é um importante elemento do mecanismo da recepção e constitui um componente inerente a um texto verbal”, conforme ressalta a crítica literária polaca Maria OSTASZ, inSome visualization techniques employed in poetry for children”.