sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Não é bom que Tiradentes morra


Por Oscar Araripe
*


"... é inacreditável que ainda hoje o Brasil não saiba cultuar o seu maior herói...”.

Ou melhor: é fundamental que ele viva. No entanto, 217 anos depois, nosso imenso mártir continua assassinado de muitas maneiras e em muitos lugares, a começar por Ritápolis, município hoje da Fazenda do Pombal, berço da nacionalidade brasileira.

Estranho, triste lugar, ainda que belíssimo pela própria natureza. Uma estrada sem sinalização, de terra, esburacada, uma pontezinha de madeira (mas com placa ostensiva de sua inauguração política), uma outra, de cimento, enorme, e estamos diante de um portão de ferro, fechado (era sábado), onde uma campainha chama um guarda sonolento que, quase por favor nos deixa entrar, mas logo avisa que ali "não tem nada". Vejo, à direita, as ruínas da senzala, depois, as da grande casa do mártir. Placas e mais placas, de políticos em sua maioria, agressivamente propagadas naquelas santas ruínas, e só... ah! Esqueço: sobre elas várias horríveis casinhas modernosas do Ibama. E então, a primeira pergunta: o que teria a ver o Ibama com Tiradentes?

Afinal, por que tanto descaso? Será que D. Maria, a Louca, ainda manda no Brasil? Por acaso o Fanfarrão Minésio nos governa? Estaria Silvério dos Reis à frente da pasta da Cultura? Ou será que uma trama diabólica, ensandecida e despudorada, ainda prima por querer negar o vulto do Animoso Alferes e, por conseqüência, de nossa liberdade?

É inacreditável que ainda hoje o Brasil não saiba cultuar o seu maior herói. Por que não reedificar a casa em que nasceu? As madeiras ainda se acham, os vidros e os ferros são os mesmos de hoje ou nada difíceis de serem fabricados, as telhas existem por aí ainda aos montes, enfim, por que não se reconstruir a fazenda? A começar por reunificá-la, já que hoje o Pombal está esquartejado em três fazendas, estando duas, Magnólia e Ouro Fino, em mãos de particulares! Por que não se desquartejá-las? A Magnólia, inclusive, abriga as ruínas da capela onde Joaquim José foi batizado. E então? Por onde anda nossa nacionalidade? Onde? Nossa religiosidade...

O Pombal deveria possuir um animoso pombal. Deveria abrigar um centro de estudos tiradentinos. Deveria possuir livros. Lembranças para os visitantes; vídeos sobre o grande brasileiro. O Pombal deveria... enfim; este mais parece o país do deveria.

Pobre Tiradentes - seu torrão natal continua salgado, seu nome usado e mal usado, sua relevância reduzida à placas oportunistas.

É como dizia o poeta: "vai-se uma pomba e mais outra”... E do pombal, quem cuida? - pergunto eu, perguntamos nós. E até quando ?


* Oscar Araripe (n. Rio de Janeiro, 19 de Julho de 1941), é escritor e pintor brasileiro. Formado em 1968 pela Faculdade Nacional de Direito do Rio de Janeiro, foi eleito para o Diretório do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (CACO), e militou na Ação Popular (AP). Foi bolsista na Universidade Pro-Deo, de Roma, Itália e frequentou seminários na Universidade de Harvard, USA. Jornalista no Correio da Manhã, Jornal do Brasil e Última Hora, escreveu o ensaio China, o Pragmatismo Possível, 1974 - e editou, com Augusto Rodrigues, o jornal Arte e Educação. É membro fundador da INSEA, Sociedade Internacional de Educação Através da Arte. Mais...

Fotos: Cris Carezzato
Imagem: Oscar Araripe / Tiradentes, o Animoso Alferes / 3.00mx3.00m / Acrílico sobre tela sintética


- Veja mais fotos das ruínas da Fazenda do Pombal aqui.

4 comentários:

عسل disse...

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Anônimo disse...

Muito interessante e bastante
atual o artigo do Dr.Oscar
Araripe. É uma pena que nossas
autoridades não levem a nossa
História a sério...
Parabéns ao autor e ao Web design
Ricardo Campos.

Rafael Braga

Ávila disse...

Parabéns pelos seus artigos aqui postados, caro confrade e amigo Oscar Araripe!
É preciso que façamos esforços para realizar alguma coisa concreta pela memória do Tiradentes...
Além do Centro de Peregrinação Cívica idealizado para a Fazenda do Pombal - Memorial Cívico da Nação (uma idéia inicial de Adalberto Guimarães Menezes) é preciso que façamos coro com a dra. Isolde Helena Brans, historiadora gaúcha atualmente radicada em Campinsas - SP, em seu trabalho “Tiradentes Face a Face”, apresenta importantes provas sobre a existência de contatos dos inconfidentes com Thomas Jefferson, líder da independência americana, e com os representantes da burguesia revolucionária francesa.
Segundo Isolde Brans, entre 1786 e 1788, Tiradentes participou clandestinamente de uma missão brasileira à Europa para um encontro com Jefferson, então embaixador americano em Paris.
Os documentos comprovam o lado político e estratégico do nosso conterrâneo Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
Seus estudos e pesquisas, durante os vários anos em que passou debruçada sobre documentos no Brasil, em Portugal, na França e em outros países, trouxeram ao nosso conhecimento interessantes novidades a respeito do movimento libertário que ocorreu em Minas Gerais, no século XVIII.
Tiradentes, que sempre é retratado apenas como mártir, foi muito mais que isso. Segundo a pesquisadora, ele era um ativista de primeira linha, um estadista que já naquela época estabelecera contatos pessoais com Thomas Jefferson, então embaixador dos EUA na França, visando delinear o futuro comercial e político da tão sonhada Pátria livre.
Essa revisão da História, calcada em documentação confiável, nos oferece a real dimensão da figura de Tiradentes e do seu grupo.
Saudações!

José Antônio de Ávila disse...

OSCAR DE ALENCAR ARARIPE (autor deste artigo) foi empossado oficialmente hoje - 31 de maio de 2009 - como sócio correspondente da Academia de Letras de São João del-Rei!

Acompanhado pela sua esposa Cidinha Araripe e filhos, após ser saudado pela oratória do acadêmico dr. Euclides Garcia de Lima Filho, o empossado proferiu uma magistral "aula inaugural", falando sobre a sua trajetória de vida e de artista, de maneira clara e com palavras carregadas de sensibilidade.

É oportuno lembrar que Pablo Picasso já nos ensinou que "a pintura nunca é prosa. É poesia que se escreve com versos de rima plástica." Assim, OSCAR ARARIPE é um poeta que se expressa através de seus quadros!
Ele poema bem e o faz através de belas formas e rimas coloridas... Ele nos proporciona a alegria de contemplar a sua obra e, ainda, nos dá a imensa satisfação de tê-lo em nosso convívio!

Oscar Araripe e Cidinha Araripe já são membros correspondentes do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei.

* Saiba mais sobre Oscar Araripe em:
http://www.oscarararipe.com.br/

* Conheça a Fundação Oscar Araripe:
http://www.oafundacao.org.br/