sexta-feira, 28 de novembro de 2025

MARCEL PROUST, POR CÉLESTE ALBARET


Neste trabalho, são apresentados trechos mais expressivos de um depoimento concedido à jornalista Sonia Nolasco-Ferreira por Céleste Albaret, secretária, governanta, enfermeira e "segunda mãe" de Marcel Proust, cobrindo os nove últimos anos da vida dele (1914-1922). Tais trechos são transcritos, com a devida vênia da L&PM Editora, do volume 1228 da COLEÇÃO 96 PÁGINAS, pp. 57-95, da referida entrevista publicada originalmente na Revista 80, no inverno de 1983.
Introdução, notas e bibliografia por Francisco José dos Santos Braga.

 

Céleste Albaret (✰ Lozère-França, 17/05/1891 ✞ Montfort-l'Amaury-França, 25/04/1984)
 

 I. INTRODUÇÃO

 

Céleste Albaret foi a governanta de Marcel Proust durante os últimos nove anos de sua vida, período em que ele concluiu sua obra-prima, Em Busca do Tempo Perdido. Dia e noite, ela cuidava dele. Mas, mais do que uma governanta, ela também era sua confidente e aquela que o apoiava na escrita de sua obra. 
Após a morte de Proust em 1922, Céleste Albaret recusou-se por muito tempo a compartilhar suas memórias.  
Então, aos 82 anos, ela decidiu prestar uma homenagem final ao homem que lhe dissera: "São suas lindas mãozinhas que fecharão meus olhos". Para isso, deu um depoimento a Georges Belmont que, após ouvir o depoimento de Céleste, organizou-o em temas e capítulos, publicando a obra em 1973 com o título Senhor Proust: Céleste Albaret, Lembranças Recolhidas por Georges Belmont.
Aqui não será tratado o conteúdo desse livro, mas o depoimento de Céleste Albaret à jornalista Sonia Nolasco-Ferreira publicado 10 anos depois, os quais em linhas gerais são bastante coincidentes.
Permiti-me inventar os títulos dos temas do depoimento à jornalista e ainda colocar em forma de bloco cada um deles, independente da sequência dada na entrevista, antes observando a sua sequência lógica.

II. TEXTO


Apresentação da moradia da entrevistada e de seus traços fisionômicos

P. 57: Uma casa branca, modesta. Jardim florido, árvores. Uma velha dama, 87 anos, alta, ainda elegante e ereta, sorriso doce, olhar inteligente e penetrante por trás dos óculos (...).

P. 94: Céleste não sai muito além do jardim florido. Recebe visitas da filha única, Odile. "Para ela, como M. Proust, eu buscaria a lua". Foi por causa de Odile que Céleste teve que vender cartas e documentos preciosos, lembranças de Proust: para pagar médicos e hospital, quando Odile teve um câncer e se recuperou. (...) 
Desamparada?
Parece incrível: Marcel Proust, tão rico, não deixou testamento, ele que sabia a data certa em que ia morrer, e a papelada final que ficou rolando pelo quarto, duas mesas, uma escrivaninha. O resto virou museu. Além das lembranças, que Céleste se faz gratuitamente, a servante au grand coeur ¹ (como Proust a chamava) vive de uma pensão de aposentadoria e, agora, dos direitos do livro ², que Georges Belmont faz questão de dar a ela, mas que vendeu pouco na França e menos ainda em traduções.
Céleste não reclama, acha tudo natural, como achava natural cuidar de Proust durante a noite e de madrugada. Acha que sua recompensa já foi dada, naqueles dez anos passados com Proust.
P. 57-8: Ela, Céleste Albaret, camponesa sem cultura, ocupada demais com o trabalho doméstico, nunca teve tempo para escrever o que o patrão escrevia noites adentro, naquele quarto sombrio de janelas fechadas. Ele era Marcel Proust. (...) Quando o jovem casal (Odilon e Céleste)  foi se instalar em Paris e Odilon contou a Proust que a esposa se aborrecia sozinha o dia inteiro, o patrão sugeriu que viesse trabalhar para ele, levando cartas e trazendo respostas (costume da época) e entregando em mãos exemplares autografados de seu livro recém-lançado Du côté de chez Swann ³
Em seguida veio a guerra (...). Os salões de Paris se esvaziaram, as ruas ficaram desertas. O cavalheiro extravagante quase não saía mais de casa, tinha crises de asma, escrevia sem parar a noite inteira. (...)

P. 59: "Céleste, ninguém me conhece como você", dizia Proust. "A você eu confesso, você sabe tudo de mim. São suas belas mãos que vão fechar os meus olhos."

P. 60-1: A mocinha tímida recém-chegada a Paris entra na casa do grand seigneur  misterioso. Mas não foi com sua camélia branca na lapela do terno de veludo que ele a recebeu: "Veio à cozinha me ver", conta Céleste. "Parecia bem mais jovem do que era. Bonito, sim. Magro, de porte elegante. Pele branca, transparente, e dentes extremamente brancos. Cabelos pretos, nem um fio branco até a morte. A mecha que se fazia sempre sozinha, caindo na testa. Maneiras finas, nobres, e, coisa curiosa, uma espécie de calma contida que notei outras vezes nos asmáticos, como se fosse uma forma de economizar o fôlego.  Minha impressão primeira foi de medo. Vi logo que era superior aos outros." (...)

P. 71: "O que eu conhecia da vida?", pergunta Céleste. "Depois que tinha saído da minha cidadezinha, mal houve tempo de conhecer outro mundo, a não ser a casa de M. Proust. Minha exisstência se confinou entre as paredes daquela casa. Era o início e o fim da minha experiência de vida. M. Proust me formou, como se faz com uma criança pequena a quem se ensina a andar, falar, ter boas maneiras, bons hábitos, escolher, aceitar, recusar, etc. Evidentemente o meu aprendizado foi de acordo com os moldes dele. Nunca me passou pela cabeça recusar levar cartas à noite pela cidade escura e deserta, ou telegramas ao único correio aberto à noite, lá perto da Bolsa de Valores. Fazia parte do meu trabalho."

P. 73-4: Durante a guerra, Paris às escuras, Céleste saía à noite para comprar livros a dois passos de casa ou levar cartas ao outro lado da cidade. Proust parecia não se lembrar que ela era mulher, nem de perguntar se teria medo. Céleste nunca pensou que seu patrão fosse extremamente egoísta. Ela nem ousava dizer que tinha medo, sim. Acabou se habituando, atravessava as ruas escuras, pegava táxis sob olhares suspeitos dos motoristas diante de uma mulher jovem sozinha; dava conta do recado. Era inestimável.
Às vezes o grand seigneur se humanizava e pedia a Céleste que fugisse para o abrigo antiaéreo assim que escutasse as sirenes de alarme. Ela se recusava (...).
Céleste conta que nunca pensava seriamente nos bombardeios.
 
P. 75: Então Proust era um tirano? Inconscientemente tirano? 
Céleste abana a cabeça, impaciente, acha que não foi entendida.

O ambiente doméstico

P. 61-2: O quarto estava envolto numa fumaça tão espessa que se poderia cortar à faca. (...) Ao acordar, M. Proust queimava um pó de fumigação, porque sofria terrivelmente de asma. O quarto era imenso, no entanto não havia um espaço vazio de fumaça. A lâmpada de cabeceira dava uma luz verde. Vi então uma grande cama de cobre, a barra de um lençol branco, cheio de luz verde. De monsieur Proust não se distinguia nada a não ser a camisa branca sob casacos de tricô de lã e o alto do corpo apoiado sobre os travesseiros. O resto estava perdido na neblina da fumigação e na sombra. De vivo, só os olhos dele, fixos em mim; eu os sentia mais do que via.

P. 63: Até que veio a famosa última viagem a Cabourg , onde Proust costumava passar o verão. Céleste se lembra dela com carinho. (...) 

P. 64: "Foi nessa viagem que começamos a conversar mais. Às vezes passeando no terraço, outras almoçando no quarto. Ele aboliu então o respeitoso madame e passou a me chamar de "Céleste". Começou a me falar do passado, da infância, dos verões em que vinha a Cabourg com a avó ou os pais para tratar da asma e, mais tarde, porque ali vinham grandes amigos de Paris (...) Quando conversávamos, ele me contava casos, imitava pessoas, me fazia imitar. Notei que a espontaneidade da minha natureza o divertia muito. Eu sabia responder em cima de cada observação, ele não ria do meu jeito de falar provinciano, me instigava a novas respostas picantes, frases da gente da Lozère, bem primitivas. Acho que meus 23 anos pesavam nisso também. E eu demonstrava claramente o quanto gostava da companhia dele."

P. 65: "Pior ainda foi o retorno a Paris, com o hotel requisitado pelos aliados. Foi dramático. Uma crise de asma pior que todas as outras justamente quando o equipamento farmacêutico estava no compartimento das bagagens. Céleste teve que chamar correndo o fiscal do trem para pedir a mala e fazer a fumigação dentro da cabine. Chegando a Paris, a situação ficou pior." (...) 
Me lembro dele sempre transpirando, sufocado, dobrado sobre a cama, a fumaça enchendo o quarto. Fiquei horrorizada, não sabia o que fazer, e ele me pedindo que fosse embora e voltasse apenas se a campainha chamasse. À noite, ele tocou. Estava deitado, a crise mais calma. Me pediu que ficasse morando na casa definitivamente. Já sabia que podia contar comigo, eu tinha passado pela prova. Concordei, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Acho que desde o início houve entre nós um grande entendimento. Estava determinado que eu ficaria. M. Proust me confessou uma coisa que também deveria estar amadurecendo há muito tempo: "Minha querida Céleste, nunca mais vou a Cabourg. Ou a qualquer outro lugar. Não viajo mais. Os soldados fazem seu dever. Como não posso lutar ao lado deles, o meu dever é escrever um livro, fazer a minha obra. O tempo passa. Não posso perdê-lo."

P. 66: "A partir dessa noite de setembro de 1914", conta Céleste, "Proust se retirou do mundo para o que seria nos próximos oito anos (e últimos de sua vida) o único motivo de viver: escrever sua obra." E Céleste também aceitou como se fosse natural. (...) O tempo ao inverso, nos menores detalhes: para limpar e arejar o quarto, só quando Proust saía, por volta das dez da noite. Céleste nunca fez uma faxina de dia, as janelas dele nunca se abriam para o sol. (...) O que não o impedia de chamá-la para o que quer que fosse, mesmo conversar. Ela vinha, os cabelos soltos em robe de chambre, e ele se encantava. "Parece a Gioconda". Na cozinha Céleste podia saber se era dia ou noite, mas o resto do apartamento imenso ficava fechado hermeticamente o dia todo. O quarto de Proust, todo forrado de placas de cortiça para abafar os barulhos da rua e a poeira, as várias cortinas fechadas, uma janela dupla através da qual não se escutava nem os bondes correndo.

P. 67: "Ou se vivia na eletricidade ou na escuridão completa", lembra Céleste. "Hoje entendo a busca de M. Proust, todo o sacrifício da sua obra: foi o de se retirar do tempo para poder reencontrá-lo. Quando não se dá conta do tempo, é o silêncio. Ele precisava desse silêncio para escutar as vozes que queria escutar novamente, as que colocou nos livros. Na época eu não sabia, mas agora, quando estou sozinha à noite e não consigo dormir, parece que o vejo aqui, do mesmo jeito que ficava no quarto dele há mais de sessenta anos, trabalhando nos cadernos pretos, sem se dar conta das horas, sozinho, dentro de sua própria noite, quando lá fora a madrugada já se fazia em dia." (...)

Contestando a incredulidade dos biógrafos de Marcel Proust quanto à sua asma

P. 61: "E foram depois escrever que ele se maquiava, que absurdo! Eu teria sabido, teria visto as coisas no quarto dele, teria sido obrigada a comprar os produtos. Eu administrava tudo naquela casa."
 
P. 67: "Que Proust era louco, que exagerava a doença, que afinal essa asma era coisa cultivada para fazer gênero... Escreveram tudo que Céleste desmente como "calúnias". Chegaram a contar que Proust inventara uma natureza frágil para chamar a atenção da mãe adorada, que teria se ocupado menos após o nascimento do segundo filho, Robert. Inventada a asma com a malícia das crianças, para monopolizar as atenções da mãe, ele continuou a farsa para se fazer de interessante, excentricidades."
"Não há provas", diz Céleste indignada. "Os biógrafos tiraram de onde, tantas análises? Tudo isso é  ridículo, para não dizer que são mentiras. Quem viu monsieur Proust como eu vi, no meio das fumigações, especialmente naquela volta terrível de Cabourg, pálido como um morto, procurando respirar com esforço, sufocado? Nada mais que isso seria suficiente para se convencer que ele não estava brincando. Como é que alguém finge que está doente por dez anos?" 
 
P. 68: Há outras 'infâmias' na lista de Céleste, sempre defensiva. Especialmente sobre o tratamento com morfina, os vícios e as drogas, a mania de suicídio. Não é que ela queira veementemente desmentir os biógrafos. Tem sua versão. Foi testemunha ocular.
 
Hábitos de Marcel Proust alterados a partir da instalação da asma
 
P. 68: E não suportava cheiros de espécie alguma, nem flores nem perfumes, tudo poderia provocar-lhe uma crise trabalhosa. A poeira, os micróbios, o ar poluído das ruas, era preciso evitar qualquer elemento que lhe atiçasse a asma. Então ele saía à noite, "quando as ruas são menos sujas", dizia. Não deixava ligar o aquecimento no inverno por causa do ressecamento que lhe provocava na garganta. Preferia permanecer no quarto gelado, cobrindo-se com camadas de casacos de lã e cobertores. No final da vida, até as cartas que recebia eram desinfetadas com formol por Céleste. (...). 
 
P. 71: "Costumo me lembrar dele estendido na cama, imóvel, olhos fechados, me fazendo sinal para não falar. E duas ou três horas depois, bem-vestido, saía para uma festa. Era capaz de ficar seis ou sete horas de pé, rir, conversar, depois voltar para casa às quatro ou cinco da manhã, e ainda me manter mais duas horas conversando, descrevendo a noitada, como se fosse um jovem de vinte anos. Eu perguntava como ele podia suportar aquela vida social, se privar do silêncio, do repouso que tanto gostava, de seu trabalho solitário à luz do abajurzinho verde, para passar tanto tempo no meio do barulho, numa atmosfera cheia de micróbios, arriscando crises de asma. Ele respondia simplesmente: "É preciso, minha cara Céleste". Eu entendia que era por causa do livro: ele precisava ver as pessoas, observar o que faziam e diziam, para as descrever. (...) 
 
Empatia emocional
 
P. 77: Nessa época ele começou a me fazer falar da minha infância, da família, de meus pais. Especialmente da infância porque, ele me disse, é na infância que tudo começa, o paraíso ou o inferno’. Ele me fazia contar como eu subia em árvores, como passava as noites de inverno no campo, meus irmãos, minha mãe. Queria saber tudo sobre minha mãe e como tinham sido nossas relações afetivas. Quando veio aquele telegrama fatal me informando a morte dela, foi M. Proust quem me abraçou chorando para contar e nós dois choramos juntos. Ele queria que eu fosse logo para casa. Disse ele: Minha querida Céleste, eu compreendo sua dor, já passei por isso. Mesmo morta, é preciso que você reveja sua mãe. Quando voltei de casa, M. Proust me fez contar tudo como se passara e chorou comigo, emocionado. Ele se lembrava do passado. (...). 
 
P. 79: Hoje, quando minha memória cansada tenta lembrar todas essas noites mágicas, chego a ver M. Proust sentado na cama, eu de pé, como ficava, nunca me passava pela cabeça que poderia sentar no sofá. Lembro a luzinha do abajur verde, o sorriso de M. Proust, os olhos de uma tristeza inexplicável (...). Ele falava, e o tempo parava naquele quarto (...). 
 
Estímulo intelectual
 
P. 79-80: Ele me perguntava o que estava esperando para escrever um diário. Da primeira vez, eu estava naquela casa há quatro anos, teria o que contar. Pensei que M. Proust estivesse debochando de mim. Mas ele dizia, Não, Céleste, minha querida, falo sério. Ninguém me conhece verdadeiramente como você. Ninguém sabe como você o que faço, o que penso dos outros, o que digo na intimidade. Depois da minha morte,  seu diário será tão vendido quanto meus livros. Comece a escrever que eu corrijo. Nessa época, ele já falava em morrer, como se soubesse.
 
O amor correspondido
 
P. 82-3: Nas gavetas da cômoda do quarto de Proust havia fotos do passado, de mocinhas ingênuas como Antoinette Faure , filha do presidente da França, de Marie de Benardaky  (teria sido o primeiro amor de Proust, segundo biógrafos), Louisa de Mornand , mulheres de salonnières  como a condessa de Chevigné ¹, madame Strauss ¹¹ (grande amiga), Laure Hayman ¹², e muitas outras. (...)
No livro de Céleste ¹³ há um capítulo curioso que se chama "Os Outros Amores". Depois de tudo o que se escreveu sobre a juventude de Proust, que ele teria conhecido apenas decepções amorosas, e que isso o teria feito se voltar para o amor masculino, Céleste insiste em que contou a Gerges Belmont apenas o que sabia da vida do seu patrão, ‘O que vi ou o que compreendi. Não conto o que ouvi dizer’. O que teria ela a dizer sobre o outro lado da vida de Marcel Proust, o lado negro de casas de prostituição masculina? Quase nada, apenas desmentidos. Mas até que ponto Céleste poderia afirmar que é mentira? Proust era muito reservado e pudico para fazer confidências a uma empregada, ainda mais uma camponesa jovem, cheia de princípios religiosos, recatos, e sem cultura, apesar de inteligente. O que saberia ela sobre homossexualismo?

P. 83-6: Segundo André Gide, que escutou confissões de Proust, ele tinha vergonha de ser homossexual, mas sabia e admitia que era. 
Céleste nega a paixão de Proust pelo motorista Alfred Agostinelli, que teria sido modelo para "Albertine" *, ainda que o escritor tenha falado longamente da angústia que sentiu com a morte do jovem, num desastre de avião em 1914, e da vontade que ele próprio teve de morrer. Para o bom entendedor, isso foi suficiente. Mas Céleste insiste na sensibilidade exagerada de seu patrão, no horror que tinha de ver alguém muito querido morrer. 
E que história é essa de jovens frequentando nossa casa?, pergunta Céleste. Eu teria sabido, eu os teria visto. Só eu tinha a chave da porta. Se entrassem com M. Proust, eu os teria escutado, tenho orelhas finas. (...) 
Falou-se muito nos secretários de M. Proust, sempre jovens secretários. Não sei explicar essa parte. Acho que era porque tinha respeito pelas mulheres. Seu pudor de doente, sempre na cama. Os secretários vinham datilografar os textos dos livros e faziam este trabalho, é tudo que sei. Eu os escutava, vinha ao quarto servir chá. (...)
Falou-se mais de rapazes do que de mulheres na vida íntima de Proust, Agostinelli, motorista de táxi da mesma companhia de Odilon, passou a secretário de Proust, depois partiu para a Côte d'Azur a pedido de sua mulher, Anna; um ano após desapareceu no mar o avião que pilotava. É tudo o que Céleste sabe. O que foi explorado em torno deste assunto ela considera "literatura barata, sensacionalista", assim como a história da amizade de Proust com Albert Le Cuziat, que mantinha a famosa casa plaisirs pour hommes. (...)
E por que ia frequentemente a uma casa que o enojava?
Ele não ia sempre, foi lá algumas vezes. Precisava ir, ele me disse, para descrever personalidades e momentos em seus livros. M. Proust me dava todos os nomes de pessoas ilustres que frequentavam essa casa, os gostos extravagantes que tinham, gente de política, da mais importante do país, ministros, etc. Le Cuziat fornecia a M. Proust todos os detalhes dos vícios de cada um; eu ficava sabendo quando ele chegava em casa, com um olhar de tristeza, que ele havia estado naquele lugar. Posso assegurar que M. Proust não frequentava a tal casa. Eu teria sabido, ou Odilon, que o acompanhava, teria me contado. O que me revolta são os fatos escabrosos que contaram sobre M. Proust em vários livros, tendo como quadro a casa da rue de l'Arcade. Histórias de ratos transpassados com alfinetes, cenas de flagelaçao, orgias sádicas, e que M. Proust teria mostrado as fotos da mãe dele para fazer rir os piores frequentadores desse horror. É uma mostruosidade, diz Céleste.
As fotos da família eram guardadas com o maior carinho nas gavetas do quarto de M. Proust e nunca saíam de lá. (...) Uma vez me recusei a acreditar que coisas tão repugnantes pudessem acontecer na casa de Le Cuziat. Perguntei se M. Proust não estaria inventando para ver minha reação, para saber o que as pessoas pensariam. Ele jurou que tudo era verdade. Mas como o senhor pode assistir a coisas assim?’, indagou Céleste.
Céleste garante que Proust só ia à casa de Le Cuziat ao reinado dos garçons bouchers porque precisava das cenas para seus livros. Era o que ele contava a ela quando chegava. (...)
É preciso ter vivido ao lado de monsieur Proust todos esses anos para medir a paixão dele pelos personagens que criava, por sua obra, tudo o que habitava dentro dele, e que finalmente o consumiu, disse Céleste, sem se deixar abater com a importância dos nomes ilustres que a desmentiam. No correr dos anos aprendi que esses personagens não o largavam, estavam sempre ao lado dele, que a única meta da vida de M. Proust, o livro *, estava constantemente presente em tudo que ele fazia. Quando digo livro, no singular, é porque ele, mesmo que estivesse em tal capítulo, tal parte, particularmente, guardava presente a totalidade da obra. M. Proust me disse isso várias vezes. Só  entendi quando li, muitos anos depois. Tudo se liga em sua obra, é um todo, e a vida de M. Proust se fundia no todo, os personagens viviam sem sua cabeça, era por causa deles que M. Proust saía de casa, para descrever aquele mundo que ia se acabando. Vivi ao lado dele no período mais produtivo de sua vida, sem dúvida’, concluiu Céleste.
 
P. 95: Impossível fazer Céleste acreditar que esteve apaixonada por Marcel Proust, esta é a verdade. Ela conta que certa vez perguntou a Proust porque ele não se casara. A resposta foi um divertido, mas em tom sério: "Porque não encontrei uma esposa como você, minha Céleste." De outra vez, Proust disse que para ele Céleste ocupava o lugar de mãe. Ela também acha que o considerava e o tratava como um filho favorito. No entanto aceitava dele a liderança de marido, como se usava na época, o senhor absoluto da casa, a força e a sabedoria. Mas Céleste não admitirá nunca que Marcel Proust foi um grande amor platônico. Diante das especulações, ela abana a cabeça, severa, acrescentando: "Ah, os jornalistas. Só Deus sabe o que vocês escrevem com o que a gente diz. M. Proust não gostava de jornalistas. E tinha toda a razão."

A morte como ideia fixa
 
P. 89-90: Proust já pensava na morte nesses últimos anos. Céleste acha que isso começou quando teve que deixar a casa dos pais, depois da morte da mãe, e piorou com a saída do velho apartamento no Boulevard Haussmann. Foi uma espécie de déracinement que o machucou profundamente. Proust passou por dois outros apartamentos, até achar o da rue Hamelin, onde terminou seus dias. Mudar de casa, arrancsar as coisas pela raiz, perder pessoas que amava, perder aquele mundo antes da guerra, a época dourada da camélia na lapela. Essas pequenas perdas eram como pedaços dele que iam embora, devagar. Proust sabia que estava indo também, pela raiz, aos poucos. (...)
Ao mesmo tempo, Proust falava do fim da vida, é o que Céleste se lembrava, palavra por palavra:
"A morte me persegue, Céleste, está aqui, nos meus calcanhares."
Foi um dia de festa quando Proust chamou Céleste para mostrar-lhe que tinha escrito a palavra fim no manuscrito. Dezenas de pedacinhos de papel enchiam as cobertas.
Ele parecia uma criança feliz. Me disse: Veja, tenho uma grande notícia para você: esta noite escrevi a palavra fim. Agora já posso morrer.
"Ele não estava triste. Nem alegre. Nos olhos, uma espécie de felicidade misteriosa, um jeito de quem sabe das coisas e não pode contar."

P. 90-1: Sobre os três meses que precederam a morte de M. Proust, inventaram todos os romances possíveis. (...) Eu estaava ao lado dele e posso jurar que foi assim: Porque o aquecimento e a lareira não podiam ser ligados para não expelirem poeira, o quarto de Proust ficava sempre gelado. Foi por causa desse frio no qual ele trabalhava horas e horas, imóvel na cama, cheio de cobertores e casaquinhos de tricô, bolsas de água quente, que, no outono de 1922, apanhou a gripe fatal.  As crises de asma redobraram, ele respirava mal e não se deixava cuidar. Teve pneumonia e abscesso no pulmão. Mas continuou a trabalhar, se recusando a comer. Só tomava café com leite, às vezes.

P. 91-2: Nessa noite de 17 para 18 de novembro monsieur Proust me chamou e pediu que me sentasse a seu lado para ajudá-lo. Não conseguia escrever mais, ia me ditar alguns trechos. E escreveu até as três e meia, lembro muito bem os ponteiros do relógio enquanto M. Proust enchia os cadernos com sua letrinha fina, já tremida e desigual. (...) Me fez prometer várias vezes que eu colaria as tiras de papel extra das correções nos lugares certos, que não deixaria ninguém lhe dar injeções quando ele não tivesse mais forças para se defender. (...)
De manhã cedo, eram 8 horas quando voltei ao quarto e M. Proust me disse fracamente: Céleste, estou vendo uma mulher enorme, gorda, imensa, toda de preto, horrível. Aqui dentro do quarto. Deixe a lâmpada de cabeceira acesa, quero vê-la melhor." (...) Cada vez que M. Proust me falava da morte dizia que não tinha medo. Aliás, o mais terrível dessa agonia é que até o último momento ele guardou os sentidos, a lucidez. Não só ele se via morrer, mas se olhava morrer. E ainda assim encontrava forças para sorrir e falar, como se nada fosse.
Às quatro e meia da tarde a agonia acabou. (...) Eu tombava de cansaço e de dor, mas não podia acreditar. Ele se deixava morrer tão nobremente, sem tremer, sem gritar, sem que a luz da vida tivesse deixado seus olhos, que nos fixaram até o fim e ficaram abertos. Ele nunca disse "mamãe" antes de morrer, como inventaram nas biografias, sem dúvida pelo prazer de fazerem literatura. Apagou-se docemente, nos olhando. Foi o irmão quem fechou-lhe os olhos. Eu estava paralisada de dor.

P. 93: Depois do enterro, Céleste e Marie Albaret continuaram no apartamento durante mais seis meses. Céleste confessa que várias vezes desejou morrer, sumir dali.
Até que um dia aconteceu uma coisa extraordinária. Eu tinha descido para terminar os arranjos de nossa partida daquela casa tão triste quando vi a vitrine da livraria próxima, onde eu tanto ia fazer compras. Ela brilhava de luz. E entre os livros vi expostas as obras de M. Proust, três a três. Era como naquela página do livro quando ele descreve a morte do romancista Bergotte ¹. Veja o trecho:
‘Enterraram-no. Mas à noite do funeral, nas vitrines iluminadas, os livros dispostos, três a três, velavam como anjos de asas sorridentes, e pareciam, para aquele que não estava mais aqui, um símbolo de ressurreição.
Para mim M. Proust revivia também.
Na pequena casa branca as duas courrières vivem dessas lembranças. Nunca mais nada de tão extraordinário lhes aconteceu.
‘Fui me retirando aos poucos para dentro da memória’, diz Céleste. ‘É lá que eu vivo.
 
 
III. NOTAS EXPLICATIVAS
 
 
¹ Citação do título de um dos famosos poemas de As Flores do Mal por Charles Baudelaire. Uma tradução plausível é "ama bondosa".
 
² Trata-se do livro Monsieur Proust: Céleste Albaret, souvenirs recueillis par Georges Belmont (1973) ou, em português, Senhor Proust: Céleste Albaret, Lembranças Recolhidas por Georges Belmont (2008), Osasco: Ed. Novo Mundo, tradução de Cordélia Magalhães, 446 p. Trata-se do livro
Pouco antes, o Ministro Jean-Philippe Lecat a havia condecorado com a Ordem das Artes e das Letras, no grau de comendadora. Isso porque essa mulher discreta havia se tornado repentinamente famosa desde que, em 1973, concordou em se abrir com Georges Belmont e lhe contar, em detalhes, os nove anos em que, como governanta, esteve dia e noite, até a morte dele, a serviço do autor de "Em Busca do Tempo Perdido".

³ No Caminho de Swann (1913) é o primeiro dos sete romances de que se compõe Em Busca do Tempo Perdido, o monumento literário proustiano de cunho autobiográfico. No Caminho de Swann relata a infância do narrador (Marcel) e mostra a forte relação afetiva que ele mantém com sua mãe. A casa da família possui duas saídas, uma para o caminho de Swann, outra para o caminho de Guermantes. O narrador fala do amor possessivo de seu vizinho burguês Charles Swann por Odette de Crécy. E também revela a fascinação que sente pela filha desse casal, a jovem Gilberte, com quem brinca nos Champs-Elysées.
 
Homem de elevada posição social. 

A elegante Cabourg inspirou a Balbec proustiana de Em Busca do Tempo Perdido, um símbolo inequívoco da Belle Époque. A Balbec proustiana, que na verdade se situa na Normandia, é uma cidade fictícia, cujo paralelo no mundo real é Cabourg, essa jóia da Belle Époque.

Quando adolescente, Marcel Proust preencheu um questionário que lhe foi dado por sua amiga Antoinette Faure, filha de Félix Faure, futuro presidente da França, e que entrou para a história como o questionário de Proust". O manuscrito foi encontrado em 1924 e, desde então, popularizou-se como uma forma de entrevista-padrão sobre auto-conhecimento, já que as perguntas formam um espectro completo da personalidade, aspirações pessoais e sensibilidade.
 
Marie de Benadarky (1874-1949) se tornou célebre por ter sido um amor de infância de Marcel Proust e o provável modelo  da personagem Gilberte, filha de Charles Swann e Odette de Crécy de No Caminho de Swann, 1º livro da obra Em Busca do Tempo Perdido.

Louisa de Mornand (1884-1963) foi uma atriz de teatro e do cinema francês da primeira metade do século XX. Era amiga de Marcel Proust, ao ponto de inspirar-lhe a personagem de Rachel in Em Busca do Tempo Perdido.

Salonnières eram mulheres que organizavam os salões, reuniões culturais e intelectuais. Eram as anfitriãs influentes que definiam o tom, escolhi am os temas, eram facilitadoras do diálogo e selecionavam os convidados para discussões sobre filosofia, literatura e arte, dentre outros assuntos.

¹Laure Marie Charlotte de Sade, por seu matrimônio condessa de Chevigné (1859-1936), é considerada o principal molde na construção da personagem Oriane, a espirituosa Duquesa de Guermantes de Em Busca do Tempo Perdido, um dos monumentos do romance ocidental. De fins do século XIX até 1914, abriu inúmeros salões que eram frequentados por inúmeras personalidades do momento.
 
¹¹ Madame Strauss (1849-1926), filha do compositor francês Halevy, foi esposa do compositor Georges Bizet e mãe de um dos colegas de Proust quando de sua passagem pelo Liceu Condorcet. Em 1908, ela, já viúva, presenteou M. Proust com cinco cadernetas para anotações, adquiridas na chique loja inglesa Kirby, Beard & Cia. em Paris. Em quatro delas, Proust deixou os primeiros esboços de Em Busca do Tempo Perdido. As quatro, que estão em posse da Biblioteca Nacional da França, juntamente com os cadernos de rascunho e versão final, constituem o melhor testemunho dos primeiros passos hesitantes da obra, em seguida, de sua ampliação. Essas cadernetas acompanharam Proust na criação da sua obra prima. O livro "Carnets" (2002) publicado pela Gallimard reúne todas essas anotações feitas entre 1908 a 1917. Contém notas tanto preparatórias quanto complementares para o conjunto do romance em construção. Florence Callu e Antoine Compagnon dão uma transcrição integral e anotada delas, ao mesmo tempo fiel e legível, que permitirá ao amante da obra prima descobrir o ateliê do romancista.

¹² Laure Hayman (1851-1940) foi uma escultora francesa, salonnière e semimundana. No romance Em Busca do Tempo Perdido, a personagem Odette de Crécy teria sido inspirada em Hayman. Afirma-se também que ela inspirou Proust a escrever Mademoiselle Sacripant.

¹³ Céleste refere-se ao livro Senhor Proust: Céleste Albaret, Lembranças Recolhidas por Georges Belmont (1973), conforme tradução em português.

¹ Bergotte é um renomado escritor fictício que é admirado profundamente pelo narrador de Em Busca do Tempo Perdido, e sua morte é um momento icônico do romance, representando a ressurreição através de suas obras, que, mesmo após a morte de seu autor, continuam a existir e a inspirar o narrador, simbolizando que o artista e sua obra podem transcender a existência física. A cena da morte de Bergotte, enquanto ele viaja para ver o quadro "Vista de Delft" de Vermeer, é uma das passagens mais famosas da obra, explorando temas como a arte, a vida e a morte. 
É provável que os escritores Anatole France e Paul Bourget tenham inspirado o personagem.


IV. BIBLIOGRAFIA


ARCHIVE.ORG: Monsieur Proust de Céleste Albarret
 
CARVALHO, Paulo César de:  Quarto por quarto, revista SIBILA de poesia e cultura, ano 24, 30/12/2020 
 
O EXPLORADORCeleste Albaret, secretária; ajudou Proust nos últimos anos

PROUST, Marcel: SOBRE A LEITURA, Porto Alegre: L&PM Editora, volume 1228 da COLEÇÃO 96 PÁGINAS, pp. 57-95

RADIOFRANCE: Céleste Albaret, indispensable gouvernante de Marcel Proust
 
WERNECK, Mariza: A governanta fiel
 
WIKIPEDIA: verbete Marcel Proust
 
 
___________: verbete Céleste Albaret 

–––––––––––: verbete Em Busca do Tempo Perdido

Um comentário:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
O depoimento de Céleste Albaret à jornalista Sonia Nolasco-Ferreira, aqui transcrito resumidamente, é um texto de memórias dos últimos anos da vida de Marcel Proust. A entrevistada foi governanta, escriturária, confidente, por vezes cozinheira, frequentemente enfermeira de Proust. Foi a testemunha dos «nove anos-chave» da vida dele, em que uma reclusão cada vez mais severa, imposta pela necessidade de acabar o seu romance Em Busca do Tempo Perdido, só ocasionalmente era interrompida por saídas noturnas para rever um amigo (numa «corrida às personagens»).
A imagem de Céleste ao lado da cama de Proust, ouvindo os seus relatos e comentando-os; acudindo-o, enfermo; ou sugerindo modos práticos de adicionar texto às margens dos manuscritos, liga-se à do escritor imerso na escrita do romance, para este convocando tudo e todos a partir da cama em que se imobilizara.
Entre Proust e Céleste criou-se uma amizade comovente, principalmente se considerarmos as diferenças de idade e de educação. Nas palavras de Céleste, «com ele, o que era fascinante era que, por vezes, eu sentia-me como se fosse sua mãe, mas, noutras, como se fosse sua filha».

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2025/11/marcel-proust-por-celeste-albaret.html

Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei